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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

A Caverna, de José Saramago

Editora: Companhia das Letras

Opinião: ★★★★☆

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ISBN: 978-85-359-0073-6

Páginas: 352

Sinopse: A caverna é uma história de gente simples: um oleiro, um guarda, duas mulheres e um cão muito humano. Esses personagens circulam pelo Centro, um gigantesco monumento do consumo onde os moradores usam crachá, são vigiados por câmeras de vídeo e não podem abrir as janelas de casa.

É no Centro que trabalha o guarda Marçal. Era para o Centro que seu sogro, o oleiro Cipriano, vendia a louça de barro que fabricava artesanalmente na aldeota em que vive — agora, os clientes do Centro preferem pratos e jarros de plástico. Sem outro ofício na vida, Cipriano perde a razão de viver. E a convite do genro, muda-se para o Centro, essa verdadeira gruta onde milhares de pessoas se divertem, comem e trabalham sem verem a luz do sol e da lua. Enquanto isso, embaixo dos diversos subsolos, os funcionários do Centro descobrem uma estranha caverna. Driblando a vigilância, Cipriano consegue entrar lá dentro. O que descobre é aterrador.

Nesta versão moderna do mito da caverna de Platão, José Saramago faz uma apresentação sutil da face cruel do mundo capitalista e tecnológico.



“É bem verdade que nem a juventude sabe o que pode, nem a velhice pode o que sabe.”

 

 

“As pessoas querem estar sempre nos primeiros lugares, pensou o oleiro, E não só querem estar neles, como querem que se diga e que os demais o notem.”

 

 

“A filha olhou-o surpreendida, ainda mais pelo tom da voz do que pelo significado das palavras, Não é muito seu costume desculpar ou justificar o Marçal, disse, Eu gosto dele, Gostará, mas não o toma a sério, A quem não consigo tomar a sério é ao guarda em que se tornou o rapaz afável e simpático que conhecia, Agora é um homem afável e simpático, e a profissão de guarda não é um modo de vida menos digno e honesto do que qualquer outro que igualmente o seja, Não como qualquer outro, Onde está a diferença, A diferença está em que o teu Marçal, como o conhecemos agora, é todo ele guarda, guarda dos pés à cabeça, e suspeito de que é guarda até no coração.”

 

 

“Autoritárias, paralisadoras, circulares, às vezes elípticas, as frases de efeito, também jocosamente denominadas pedacinhos de ouro, são uma praga maligna, das piores que têm assolado o mundo. Dizemos aos confusos, Conhece-te a ti mesmo, como se conhecer-se a si mesmo não fosse a quinta e mais dificultosa operação das aritméticas humanas, dizemos aos abúlicos, Querer é poder, como se as realidades bestiais do mundo não se divertissem a inverter todos os dias a posição relativa dos verbos, dizemos aos indecisos, Começar pelo princípio, como se esse princípio fosse a ponta sempre visível de um fio mal enrolado que bastasse puxar e ir puxando até chegarmos à outra ponta, a do fim, e como se, entre a primeira e a segunda, tivéssemos tido nas mãos uma linha lisa e contínua em que não havia sido preciso desfazer nós nem desenredar estrangulamentos, coisa impossível de acontecer na vida dos novelos e, se uma outra frase de efeito é permitida, nos novelos da vida.”

 

 

“(...) Estou a ficar surpreendida com o seu conhecimento destas matérias, Vivi, olhei, li, senti, Que faz aí o ler, Lendo, fica-se a saber quase tudo, Eu também leio, Algo portanto saberás, Agora já não estou tão certa, Terás então de ler doutra maneira, Como, Não serve a mesma para todos, cada um inventa a sua, a que lhe for própria, há quem leve a vida inteira a ler sem nunca ter conseguido ir mais além da leitura, ficam pegados à página, não percebem que as palavras são apenas pedras postas a atravessar a corrente de um rio, se estão ali é para que possamos chegar à outra margem, a outra margem é que importa, A não ser, A não ser, quê, A não ser que esses tais rios não tenham duas margens, mas muitas, que cada pessoa que lê seja, ela, a sua própria margem, e que seja sua, e apenas sua, a margem a que terá de chegar.”

 

 

“Desculpa-me, não queria ofender-te, não queria ser desagradável contigo, às vezes não o posso evitar, parece ser mais forte do que eu, e não vale a pena que me perguntes porquê, não te responderia, ou dir-te-ia mentiras, mas há razões, se as procurarmos encontramo-las sempre, razões para explicar qualquer coisa nunca faltaram, mesmo não sendo as certas, são os tempos que mudam, são os velhos que em cada hora envelhecem um dia, é o trabalho que deixou de ser o que havia sido, e nós que só podemos ser o que fomos, de repente percebemos que já não somos necessários no mundo, se é que alguma vez o tínhamos sido antes, mas acreditar que o éramos parecia bastante, parecia suficiente, e era de certa maneira eterno pelo tempo que a vida durasse, que é isso a eternidade, nada mais do que isso.”

 

 

“Donde é que saiu este cão, perguntou, Apareceu aqui há uns dias e deixámo-lo ficar, é um bicho simpático, demos-lhe o nome de Achado, embora, se pensarmos bem, os achados tenhamos sido nós, e não ele. Quando a furgoneta chegou ao final da rampa e parou, umas quantas coisas sucederam simultaneamente, ou com intervalos mínimos de tempo, Marta surgiu à porta da cozinha, o oleiro e o guarda interno saíram do carro, o Achado rosnou, Marta veio para Marçal, Marçal foi para Marta, o cão deu um rosnido profundo, o marido abraçou a mulher, a mulher abraçou o marido, logo beijaram-se, o cão deixou de rosnar e atacou uma bota de Marçal, Marçal sacudiu a perna, o cão não largou a presa, Marta gritou, Achado, o pai gritou o mesmo, o cão largou a bota e tentou filar o tornozelo, Marçal deu-lhe um pontapé com intenção mas sem demasiada violência, Marta disse, Não lhe batas, Marçal protestou, Ele mordeu-me, É porque não te conhece, A mim não me conhecem nem os cães, estas palavras terríveis saíram da boca de Marçal como se chorassem, mágoa e queixume insuportáveis cada uma delas, Marta lançou as mãos aos ombros do marido, Não repitas isso, claro que ele não repetiu, nem era preciso, há certas coisas que se chegam a dizer-se uma vez é para nunca mais, Marta ouvirá estas palavras dentro da sua cabeça até ao último dia da vida, e quanto a Cipriano Algor, se pretendêssemos saber o que está a fazer neste momento, a resposta mais fácil seria, Nada, se não fosse a reveladora circunstância de ele ter desviado rapidamente os olhos quando ouviu o que disse Marçal, alguma coisa fez portanto. O cão tinha-se afastado na direcção da casota, mas a meio caminho parou, voltou-se e ficou a olhar. De vez em quando deixava sair um rosnido da garganta. Marta disse, Não conhece o que são abraços, deve ter pensado que me estavas a fazer mal, mas Cipriano Algor, para limpar a atmosfera, acudiu com uma ideia mais trivial, Também poderá ser que ele seja de implicar com uniformes, têm-se visto casos desses. Marçal não respondeu, movia-se entre duas consciências íntimas, a do arrependimento de ter dito palavras que ficariam para sempre e jamais como pública confissão de um desgosto escondido até este momento no mais fundo de si mesmo, e a de uma instintiva intuição de que havê-las deixado sair desta maneira poderia significar que estava a ponto de largar um caminho para tomar por outro, embora fosse ainda muito cedo para saber em que direcção este o levaria.”

 

 

“O cão veio e tocou com o nariz a mão de Marta, parecia estar a pedir que lhe explicassem a nova composição do agregado familiar, como em algum tempo se usou dizer. Marta ralhou, A ver como te portas daqui para diante, podes ter a certeza de que entre ti e o marido, escolho o marido. A última sombra da amoreira-preta recolhia-se a pouco e pouco para começar a sumir-se na sombra mais profunda da noite que se aproximava. Cipriano Algor murmurou, Há que ter cuidado com o Marçal, o que ele disse há bocado foi como uma facada, e Marta respondeu, também murmurando, Foi uma facada, doeu muito. A lanterna por cima da porta acendeu-se. Marçal Gacho apareceu no limiar, tinha trocado o uniforme por uma roupa comum, de andar por casa. O cão Achado olhou-o com atenção, de cabeça alta avançou uns passos para ele, depois estacou, expectante. Marçal aproximou-se, Pazes feitas, perguntou. O nariz frio foi roçar ao de leve a cicatriz da mão esquerda, Pazes feitas. Disse o oleiro, Ora aí está como eu tinha razão, o nosso Achado não gosta é de fardas, Na vida tudo são fardas, o corpo só é civil verdadeiramente quando está despido, respondeu Marçal, mas já não se percebia amargura na sua voz.”

 

 

“É possível que os cães não te conheçam, Marçal, mas a tua mulher conhece-te, Não quero falar disso, Devemos falar do que dói, Fui estúpido e injusto, Deixemos de lado o estúpido, porque não o és, fiquemo-nos pelo injusto, Já o reconheci, Também não foste injusto, Não compliquemos as coisas, Marta, por favor, o que lá vai, lá vai, As coisas que parecem ter passado são as que nunca acabam de passar, os injustos temos sido nós, Nós, quem, Eu e o pai, sobretudo eu, o pai tem a filha casada e medo de a perder, não precisaria de dar outra justificação, E tu, Eu sou a que não tem desculpa, Porquê, Porque te amo, e às vezes, demasiadas vezes, dou a impressão de esquecer, ou até esqueço mesmo, que é a uma pessoa concreta, completa no ser que é, que devo esse amor, não a alguém que tivesse de contentar-se com um sentimento meio difuso que pouco a pouco se iria resignando, como se de um inapelável destino se tratasse, à sua própria e mortal vaguidade, O casamento é isso, as pessoas vivem dessa maneira, basta-me olhar os meus pais, Ainda tenho outra culpa, Não continues, por favor, Vamos até ao fim, Marçal, já agora vamos até ao fim, Por favor, Marta, Não queres que continue porque adivinhas o que tenho para dizer, Por favor, Quando disseste que a ti nem os cães te conhecem, o que estavas era a dizer à tua mulher que ela, não só não te conhece, como nada tem feito para te conhecer, enfim, digamos quase nada, Não é verdade, tu conheces-me, ninguém me conhece melhor do que tu, Só o suficiente para ter compreendido o sentido das tuas palavras, mas nisso não fui mais inteligente do que o meu pai, que as compreendeu logo como eu, De nós dois, a pessoa adulta és tu, eu ainda não passo de uma criança, Talvez tenhas razão, pelo menos estás a dar-me razão a mim, esta maravilhosa adulta que sou, esta sensatíssima mulher de Marçal Gacho, não foram capazes de perceber, quando deveriam, o que representa uma pessoa que vai ter a simplicidade e a honestidade de dizer de si mesmo que é uma criança, Não serei sempre assim, Não serás assim sempre, por isso, enquanto é tempo, terei de fazer tudo quanto estiver ao meu alcance para te compreender como és, e provavelmente chegar à conclusão de que, em ti, ser criança é, afinal de contas, uma forma diferente de ser adulto, Por este andar deixarei de saber quem sou, Cipriano Algor dir-te-ia que essa é uma daquelas coisas que nos acontecem muitas vezes na vida, Creio que começo a entender-me com o teu pai.”

 

 

“Bons dias, senhor Algor, disse o chefe do departamento de compras, Bons dias, senhor, agora mesmo dizia eu à minha filha, e ao meu genro, é o seu dia de folga, que o senhor chefe do departamento, havendo prometido, não deixaria de telefonar hoje, Das promessas cumpridas convém falar muito para fazer esquecer as outras vezes que não se cumpriram, Sim senhor, Estive a estudar a sua proposta, considerei os diversos factores, tanto os positivos como os negativos, Desculpe que o interrompa, creio ter ouvido falar de factores negativos, Não negativos no sentido rigoroso do termo, direi antes factores que, sendo em princípio neutros, poderão vir a representar uma influência negativa, Tenho certa dificuldade em entender, se não se importa que lhe diga, Estou a referir-me ao facto de a sua olaria não ter qualquer experiência conhecida no fabrico dos produtos que propõe, É verdade, senhor, mas tanto a minha filha como eu sabemos modelar e, posso dizê-lo sem vaidade, modelamos bem, e se é certo que nunca nos dedicámos industrialmente a esse trabalho foi porque a olaria se orientou para a fabricação de louça desde o princípio, Compreendo, mas nestas condições não era fácil defender a proposta, Quer dizer, se me autoriza a pergunta e a interpretação, que a defendeu, Defendi, sim, E a decisão, A decisão tomada foi positiva para uma primeira fase, Ah, muito obrigado, senhor, mas tenho de lhe pedir que me explique isso da primeira fase, Significa que iremos fazer uma encomenda experimental de duzentas figuras de cada modelo e que a possibilidade de novas encomendas dependerá obviamente do modo como os clientes receberem o produto, Não sei como lhe poderei agradecer, Para o Centro, senhor Algor, o melhor agradecimento está na satisfação dos nossos clientes, se eles estão satisfeitos, isto é, se compram e continuam a comprar, nós também o estaremos, veja o que sucedeu com a sua louça, deixaram de se interessar por ela, e, como o produto, ao contrário do que tem sucedido em algumas ocasiões, não valia o trabalho e a despesa de os convencer de que estavam em erro, demos por terminada a nossa relação comercial, é muito simples, como vê, Sim senhor, é muito simples, oxalá estes bonecos de agora não venham a ter a mesma sorte, Tê-la-ão mais tarde ou mais cedo, como tudo na vida, o que deixou de ter serventia deita-se fora, Incluindo as pessoas, Exactamente, incluindo as pessoas, eu próprio serei atirado fora quando já não servir, O senhor é um chefe, Sou um chefe, de facto, mas só para aqueles que estão abaixo de mim, acima há outros juízes, O Centro não é um tribunal, Engana-se, é um tribunal, e não conheço outro mais implacável, Na verdade, senhor, não sei por que gasta o seu precioso tempo a falar destes assuntos com um oleiro sem importância, Observo-lhe que está a repetir palavras que ouviu de mim ontem, Creio recordar que sim, mais ou menos, A razão é que há coisas que só podem ser ditas para baixo, E eu estou em baixo, Não fui eu quem lá o pôs, mas está, Ao menos ainda tenho essa utilidade, mas se a sua carreira progredir, como certamente sucederá, muitos mais irão ficar abaixo de si, Se tal acontecer, o senhor Cipriano Algor, para mim, tornar-se-á invisível, Como o senhor disse há pouco, é assim a vida, É assim a vida, mas por enquanto ainda sou eu quem lhe vai assinar a encomenda, Senhor, tenho mais uma questão a submeter ao seu critério, Que questão é essa, Refiro-me à retirada da louça, Isso já está decidido, dei-lhe um prazo de quinze dias, É que entretanto tive uma ideia, Que ideia, Como o nosso interesse, o nosso e o do Centro, está em despachar a encomenda o mais rapidamente possível, ajudaria muito se pudéssemos alternar, Alternar, Quero dizer, uma semana para tirar de lá a louça, outra para trabalhar nas estatuetas, e assim sucessivamente, Mas isso significaria que levaria um mês a limpar-me o armazém, em vez de quinze dias, Sim, no entanto ganharíamos tempo para o adiantamento do trabalho, Disse uma semana louça, outra estatuetas, Sim senhor, Façamo-lo então doutra maneira, a primeira semana será para as estatuetas, a seguinte será para louça, no fundo é uma questão de psicologia aplicada, construir sempre foi mais estimulante do que destruir, Não me atrevia a pedir-lhe tanto, senhor, é muita bondade a sua, Eu não sou bom, sou prático, cortou o chefe do departamento de compras, Talvez a bondade seja também uma questão de prática, murmurou Cipriano Algor, Repita, não percebi bem o que disse, Não faça caso, senhor, não era importante, Seja como for, repita, Disse que talvez a bondade seja também uma questão de prática, É uma opinião de oleiro, Sim senhor, mas nem todos os oleiros a teriam, Os oleiros estão a acabar, senhor Algor, Opiniões destas também.”

 

 

“No nosso caso usaremos um método artesanal, empírico e impreciso, mas capaz de, com a prática, dar uma indicação aproximada, Que método é esse, Mergulhar a mão profundamente na barbotina e retirá-la, deixando a barbotina escorrer pela mão aberta, a fluidez será tida como boa quando, ao escorrer, formar entre os dedos uma membrana como a dos patos, Como a dos patos, Sim, como a dos patos. Marta pôs o livro de lado e disse, Não adiantámos muito, Adiantámos alguma coisa, ficámos a saber que não poderemos trabalhar sem desfloculante e que enquanto não tivermos membranas de pato não teremos barbotina de enchimento que sirva, Ainda bem que está de bom humor, O humor é como as marés, ora sobe ora desce, o meu subiu agora, veremos quanto tempo durará, Tem de durar, esta casa está nas suas mãos, A casa, sim, mas não a vida, Tão depressa já vai descendo a maré, perguntou Marta, Neste momento hesita, duvida, não sabe bem se há-de encher ou vazar, Então deixe-se ficar comigo, que me sinto a flutuar, como se não tivesse a certeza de ser o que julgo ser, Às vezes penso que talvez fosse preferível não sabermos quem somos, disse Cipriano Algor, Como o Achado, Sim, imagino que um cão sabe menos de si próprio do que do dono que tem, nem sequer é capaz de reconhecer-se num espelho, Talvez o espelho do cão seja o dono, talvez só nele lhe seja possível reconhecer-se, sugeriu Marta, Bonita ideia, Como vê, até as ideias erradas podem ser bonitas, Criaremos cães se o negócio da olaria falir, No Centro não há cães, Coitado do Centro, que nem os cães o querem, É o Centro que não quer os cães, Esse problema só poderá interessar a quem lá viver, cortou Cipriano Algor com voz crispada.”

 

 

“O mau não é ter uma ilusão, o mau é iludir-se.”

 

 

“Farei essa parte do trabalho lá fora, ao ar livre, o tempo está seguro, Por que diz farei, e não faremos, perguntou Marta, Tu estás grávida, eu não, que se saiba, Voltou-lhe o bom humor, senhor pai, Faço o que posso, percebo que há coisas que estão a fugir-me das mãos e outras que ameaçam fazê-lo, o meu problema é distinguir entre aquelas por que ainda vale a pena lutar e aquelas que devem ser deixadas ir sem pena, Ou com pena, A pena pior, minha filha, não é a que se sente no momento, é a que se vai sentir depois, quando já não houver remédio, Diz-se que o tempo tudo cura, Não vivemos bastante para lhe tirar a prova, disse Cipriano Algor.”

 

 

“Tocou-me a espertina, não consegui adormecer outra vez, Os bonecos podiam esperar que se fizesse dia, Mas eu não, Como diz o ditado antigo, quem tem cuidados não dorme, Ou dorme para sonhar com os cuidados que tem, Foi para não sonhar que acordou tão cedo, perguntou Marta, Há sonhos de que o melhor seria sair rapidamente, respondeu o pai, Foi o caso desta noite, Sim, foi o caso desta noite, Quer contar, Não merece a pena, Nesta casa, os cuidados de um sempre têm sido os cuidados de todos, Mas não os sonhos, Excepto se são de cuidados, Contigo não se pode discutir, Se é assim, não perca mais tempo, conte, Sonhei que o Marçal havia sido promovido e que a encomenda era cancelada, O mais provável daí não será o cancelamento da encomenda, Também o creio, mas as preocupações engancham-se como as cerejas, uma puxa outra, e as duas um cesto cheio, quanto à promoção do Marçal, sabemos que poderá suceder de um momento para o outro, É certo, O sonho foi um aviso para trabalhar depressa, Os sonhos não avisam, A não ser quando os que sonham se sentem avisados, Acordou sentencioso o meu querido pai, Cada idade tem os seus defeitos, e este tem vindo a agravar-se-me nos últimos tempos, Ainda bem, gosto das suas sentenças, vou aprendendo com elas, Mesmo quando não passam de meros jogos de palavras, como agora, perguntou Cipriano Algor, Penso que as palavras só nasceram para poderem jogar umas com as outras, que não sabem mesmo fazer outra coisa, e que, ao contrário do que se diz, não existem palavras vazias, Sentenciosa, É doença de família.”

 

 

“Não será despropositado afirmar que Cipriano Algor oscilava entre a infelicidade mais dilaceradora e a mais completa das bem-aventuranças. Levantava-se da cama ao primeiro alvor, despachava a desjejua em dois tempos e metia-se na olaria até à hora do almoço, depois trabalhava durante a tarde toda e pelo serão adentro, fazendo apenas um intervalo rápido para jantar, com uma frugalidade que nada ficava a dever às outras refeições. A filha protestava, Vai-me cair doente, a trabalhar dessa maneira e a comer tão pouco, Estou bem, respondia ele, nunca me senti tão bem na vida. Era certo e não o era. À noite, quando finalmente se ia deitar, lavado dos cheiros do esforço e das sujidades do trabalho, sentia que as articulações lhe rangiam, que o seu corpo era uma pegada dor. Já não posso o que podia, dizia consigo mesmo, mas, lá muito ao fundo da sua consciência, uma voz que também era sua contrariava, Nunca pudeste tanto, Cipriano, nunca pudeste tanto. Dormia como se imagina que uma pedra deverá dormir, sem sonhos, sem estremecimentos, parecia até que sem respiração, descansando sobre o mundo o peso todo da sua infinita fadiga. Algumas vezes, como uma mãe inquieta, antecipando, sem nisso ter pensado, desassossegos futuros, Marta se levantou a meio da noite para ir ver como estava o pai. Entrava silenciosamente no quarto, aproximava-se devagarinho da cama, inclinava-se um pouco a escutar, depois saía com os mesmos cuidados. Aquele homem grande, de cabelos brancos e rosto castigado, seu pai, era também como um filho, saberá pouco da vida quem isto se recuse a entender, as teias que enredam as relações humanas, em geral, e as de parentesco, em particular, sobretudo as próximas, são mais complexas do que parecem à primeira vista, dizemos pais, dizemos filhos, cremos que sabemos perfeitamente de que estamos a falar, e não nos interrogamos sobre as causas profundas do afecto que ali há, ou a indiferença, ou o ódio. Marta sai do quarto e vai pensando Dorme, eis uma palavra que aparentemente não fez mais do que expressar uma verificação de facto, e contudo, em cinco letras, em duas sílabas, foi capaz de traduzir todo o amor que num certo momento pôde caber num coração humano. Convém dizer, para ilustração dos ingénuos, que, em assuntos de sentimento, quanto maior for a parte de grandiloquência, menor será a parte de verdade.”

 

 

“Pressinto que estão para chegar dias maus, ainda piores do que estes, A minha passagem a guarda residente, que já não deverá tardar, será um dia mau para o teu pai, Ele disse que viveria connosco no Centro, É verdade, mas disse-o daquela mesma maneira com que todos dizemos que um dia teremos de morrer, há uma parte da nossa mente que se recusa a admitir aquilo que sabe ser destino de todos os seres vivos, faz de conta que não é nada com ela, assim está o teu pai, diz-nos que irá viver connosco, mas, lá no fundo, é como se não acreditasse, Como se estivesse à espera de que lhe apareça no último instante um desvio que o leve por outro caminho, Deveria saber que para o Centro só existe um caminho, o que leva do Centro ao Centro, trabalho lá, sei do que falo, Não falta quem diga que a vida no Centro é um milagre de todas as horas. Marçal não respondeu logo. Deu um bocado de carne ao cão, que desde o princípio tinha esperado pacientemente que algum resto de comida sobrasse para ele, e só depois respondeu, Sim, tal como ao Achado deveria ter parecido obra de milagre, a estas horas da noite, a carne que acabei de lhe dar. Passou a mão pelo lombo do animal, duas vezes, três vezes, a primeira por simples e habitual carinho, as outras com insistência angustiada, como se fosse indispensável sossegá-lo sem perda de tempo, mas a quem necessitava tranquilizar era a si mesmo, afastar uma ideia que lhe surgira de repente do lugar da memória onde se havia escondido, No Centro não admitem cães. É certo, não admitem cães no Centro, nem gatos, apenas aves de gaiola ou peixes de aquário, e mesmo estes usam-se cada vez menos desde que foram inventados os aquários virtuais, sem peixes que tenham cheiro de peixe nem água que seja preciso mudar. Lá dentro nadam graciosamente cinquenta exemplares de dez espécies diferentes que, para não morrerem, terão de ser cuidados e alimentados como se fossem seres vivos, à qualidade da água inexistente há que vigiá-la, há também que fiscalizar-lhe a temperatura, e, para que nem tudo tenham de ser obrigações, não só o fundo do aquário poderá ser decorado com vários tipos de rochas e de plantas, como o feliz possuidor desta maravilha terá ao seu dispor uma gama de sons que lhe permitirá, enquanto contempla os seus peixes sem tripas nem espinhas, rodear-se de ambientes sonoros tão diversos como uma praia caribenha, uma selva tropical ou uma tormenta no mar. No Centro não querem cães, pensou novamente Marçal, e notou que esta preocupação estava, por instantes, a fazer desaparecer a outra, Falo-lhe nisto, não falo, começou por inclinar-se para o sim, depois achou que seria preferível deixar a questão para mais tarde, quando tiver mesmo de ser, quando não houver outro remédio. Tomou pois a decisão de se calar, mas, tão verdade é flutuar inconstante a vontade no aquário virtual da nossa cabeça, daí a menos de um minuto estava a dizer a Marta, Lembrei-me agora de que não vamos poder levar o Achado para o Centro, não aceitam lá cães, vai ser um problema sério, coitado do bicho, ter de o deixar por aí ao abandono, Talvez se consiga arranjar uma solução, disse Marta, Concluo que já tinhas pensado no caso, surpreendeu-se Marçal, Sim, tinha pensado, há muito tempo, E essa solução, qual seria, Pensei que a Isaura não se importaria de tomar conta do Achado, acho até que seria para ela uma grande alegria, além disso já se conhecem, A Isaura, Sim, a Isaura, aquela do cântaro, recordas-te, a que nos trouxe um bolo, a que veio cá para falar comigo na última vez que fomos almoçar a casa dos teus pais, A ideia parece-me boa, Creio que para o Achado será a melhor, Falta saber se o teu pai dará o seu acordo, Já se sabe que uma metade dele vai protestar, dirá que não senhor, que uma mulher sozinha não é boa companhia para um cão, imagino que é capaz de nos inventar uma teoria de desafinidades como esta, que com certeza haverá outras pessoas que não se importarão de acolher o animal, mas também sabemos que a outra metade dele desejará, com todas as forças do desejo, que a primeira não ganhe, Como vão esses amores, perguntou Marçal, Pobre Isaura, pobre pai, Por que dizes pobre Isaura, pobre pai, Porque está claro que ela o quer, mas não consegue passar por cima da barreira que ele levantou, E ele, Ele, ele é uma vez mais a história das duas metades, há uma que provavelmente não pensa senão nisso, E a outra, A outra tem sessenta e quatro anos, a outra tem medo, Realmente, as pessoas são muito complicadas, É verdade, mas se fôssemos simples não seríamos pessoas.”

 

 

“(...) Lembro-lhe que não há nada mais prejudicial a quem trabalha do que a presença dos que nada fazem.”

 

 

“Argumentar com o que tem de ser foi sempre uma perda de tempo, para o que tem de ser os argumentos não passam de conjuntos mais ou menos casuais de palavras que esperam receber da ordenação sintáctica um sentido que elas próprias não estão seguras de possuir.”

 

 

“Marta descera no segundo dia à povoação para comprar duas dúzias de folhas de lixa. Era neste estabelecimento que Isaura tinha começado a trabalhar, como Marta sabia já desde que a fora visitar logo após o perturbador encontro, emocionalmente falando, entenda-se, que a vizinha tivera com o pai. Estas mulheres não se veem muito, mas há motivos de sobra para que venham a tornar-se grandes amigas. Com discrição, de modo que as palavras não pudessem chegar aos ouvidos do dono da loja, Marta perguntou a Isaura se estava a sentir-se bem naquele trabalho e ela respondeu-lhe que sim, que se sentia bem, A gente habitua-se, disse. Falara sem contentamento, mas com firmeza, como se quisesse deixar claro que o gosto nada tinha que ver com a questão, que fora a vontade, e só ela, o que pesara na sua decisão de aceitar o emprego. Marta recordava o que lhe ouvira tempos atrás, Qualquer trabalho, desde que possa continuar a viver aqui. A pergunta que Isaura fez depois, enquanto ia enrolando as folhas de lixa, frouxamente como é aconselhável, percebeu-a Marta como um eco, distorcido mas ainda assim reconhecível, daquelas palavras, E lá em casa, como vão todos, Cansados, com muito trabalho, mas no geral bem, o Marçal, coitado, teve de trabalhar no forno no dia de folga, suponho que ainda andará por lá com os rins arrasados. As folhas de lixa estavam enroladas. Enquanto recebia o dinheiro e fazia o troco, Isaura, sem levantar os olhos, perguntou, E o pai. Marta só conseguiu responder que o pai estava bem, um pensamento angustioso atravessara-lhe de súbito o cérebro, Que vai esta mulher fazer da vida quando nos formos embora. Isaura despedia-se, tinha de atender outro cliente, Dê lá cumprimentos, disse, se naquele momento Marta lhe tivesse perguntado, Que vai fazer da sua vida quando nós nos formos embora, talvez respondesse como ainda há pouco, sossegadamente, A gente habitua-se. Sim, ouvimos dizer muitas vezes, ou dizemo-lo nós próprios, A gente habitua-se, dizemo-lo, ou dizem-no, com uma serenidade que parece autêntica, porque realmente não existe, ou ainda não se descobriu, outro modo de deitar cá para fora com a dignidade possível as nossas resignações, o que ninguém pergunta é à custa de quê se habitua a gente.”

 

 

“Nem sequer as melhores notícias são boas para toda a gente.”

 

 

“Não há nada mais triste, mais miseravelmente triste do que um velho a chorar.”

 

 

“Que mais encontrou nessa sua aventurosa exploração, perguntou Marta, Acabarás por adormecer se me ponho a falar, Então, adormeça-me, O que mais me divertiu, começou Cipriano Algor, foram as sensações naturais, Que é isso, Tenta imaginar, Tentarei, Entras numa sala de acolhimento, pagas o teu bilhete, a mim cobraram-me só dez por cento, fizeram-me um desconto de quarenta e cinco por cento por ser residente e outro desconto igual por ter mais de sessenta anos, Parece que é estupendo ter-se mais de sessenta anos, disse Marta, Exactamente, quanto mais velho fores, mais lucras, quando morreres estás rico, E que aconteceu depois, perguntou Marçal impaciente, Nunca lá entraste, estranhou o sogro, Sabia que existia, mas nunca entrei, não tive tempo, Então não fazes ideia do que tens andado a perder, Se não conta vou dormir para a cama, ameaçou Marta, Bom, depois de teres pago e de te darem um impermeável, um gorro, umas botas de plástico e um guarda-chuva, tudo colorido, também podes ir de negro, mas terás de pagar um extra, passas a um vestiário onde uma voz no altifalante te manda pôr as botas, o impermeável e o gorro, e logo entras numa espécie de corredor onde as pessoas se alinham em filas de quatro, mas com bastante espaço entre elas para se poderem mover à vontade, éramos uns trinta, havia alguns que se estreavam, como eu, outros que, segundo julguei perceber, iam ali de vez em quando, e pelo menos cinco deles deviam ser veteranos, a um ouvi mesmo dizer Isto é como uma droga, prova-se e fica-se enganchado. E depois, perguntou Marta, Depois começou a chover, primeiro umas gotitas, depois um pouco mais forte, todos abrimos os guarda-chuvas, e aí a voz do altifalante deu-nos ordem para que avançássemos, e não se pode descrever, é preciso tê-lo vivido, a chuva começou a cair torrencialmente, de repente arma-se uma ventania, vem uma rajada, outra, há guarda-chuvas que se viram, gorros que se escapam da cabeça, as mulheres a gritar para não rirem, os homens a rir para não gritarem, e o vento aumenta, é como um tufão, as pessoas escorregam, caem, levantam-se, tornam a cair, a chuva torna-se dilúvio, gastámos uns bons dez minutos a percorrer calculo eu que uns vinte e cinco ou trinta metros, E depois, perguntou Marta bocejando, Depois voltámos para trás e logo começou a cair neve, ao princípio uns flocos dispersos que pareciam fiapos de algodão, depois mais e mais grossos, caíam na nossa frente como uma cortina que mal deixava ver os colegas, alguns continuavam com os guarda-chuvas abertos, o que só servia para atrapalhar ainda mais, finalmente chegámos ao vestiário e ali havia um sol que era um resplendor, Um sol no vestiário, duvidou Marçal, Nessa altura já não era vestiário, mas assim como uma campina, E essas foram as sensações naturais, perguntou Marta, Sim, Não é nada que não se veja todos os dias lá fora, Esse foi precisamente o meu comentário quando estávamos a devolver o material, mas teria sido melhor deixar-me ficar calado, Porquê, Um dos veteranos olhou para mim com desdém e disse Tenho pena de si, nunca poderá compreender.”

A paixão segundo G. H., de Clarice Lispector

Editora: Rocco

ISBN: 978-85-393-0623-7

Tradução, notas, variantes e seleção de textos: Giorgio Sinedino

Opinião: ★★☆☆☆

Páginas: 192

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Sinopse: Romance original, desprovido das características próprias do gênero, A paixão segundo G.H. conta, através de um enredo banal, o pensar e o sentir de G.H., a protagonista-narradora que despede a empregada doméstica e decide fazer uma limpeza geral no quarto de serviço, que ela supõe imundo e repleto de inutilidades.

Após recuperar-se da frustração de ter encontrado um quarto limpo e arrumado, G.H. depara-se com uma barata na porta do armário. Depois do susto, ela esmaga o inseto e decide provar seu interior branco, processando-se, então, uma revelação.

G.H. sai de sua rotina civilizada e lança-se para fora do humano, reconstruindo-se a partir desse episódio. A protagonista vê sua condição de dona de casa e mãe como uma selvagem. Clarice escreve: “Provação significa que a vida está me provando. Mas provação significa também que estou provando. E provar pode se transformar numa sede cada vez mais insaciável.” A paixão segundo G.H., como os demais títulos de Clarice Lispector relançados pela Rocco, recebeu novo tratamento gráfico e passou por rigorosa revisão de texto, feita pela especialista em crítica textual Marlene Gomes Mendes, baseada em sua primeira edição.



“Só posso compreender o que me acontece mas só acontece o que eu compreendo – que sei do resto? O resto não existiu.”

 

 

“Em mim qualquer começo de pensamento esbarra logo com a testa.”

 

 

“(...) Ou estarei apenas adiando o começar a falar? por que não digo nada e apenas ganho tempo? Por medo. É preciso coragem para me aventurar numa tentativa de concretização do que sinto. É como se eu tivesse uma moeda e não soubesse em que país ela vale.

Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita. Mal a direi, e terei que acrescentar: não é isso, não é isso! Mas é preciso também não ter medo do ridículo, eu sempre preferi o menos ao mais por medo também do ridículo: é que há também o dilaceramento do pudor. Adio a hora de me falar. Por medo? E porque não tenho uma palavra a dizer.

Não tenho uma palavra a dizer. Por que não me calo, então? Mas se eu não forçar a palavra a mudez me engolfará para sempre em ondas. A palavra e a forma serão a tábua onde boiarei sobre vagalhões de mudez.”

 

 

“Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é vivível. Terei que criar sobre a vida. E sem mentir. Criar sim, mentir não. Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade. Entender é uma criação, meu único modo. Precisarei com esforço traduzir sinais de telégrafo – traduzir o desconhecido para uma língua que desconheço, e sem sequer entender para que valem os sinais. Falarei nessa linguagem sonâmbula que se eu estivesse acordada não seria linguagem.

Até criar a verdade do que me aconteceu.”

 

 

“Tenho que fazer o esforço de pelo menos me dar uma forma anterior para poder entender o que aconteceu ao ter perdido essa forma.”

 

 

“Tomar consciência da falta de um sentido teria sido sempre o meu modo negativo de sentir o sentido?”

 

 

“– Sei, é ruim segurar minha mão. É ruim ficar sem ar nessa mina desabada para onde eu te trouxe sem piedade por ti, mas por piedade por mim. Mas juro que te tirarei ainda vivo daqui – nem que eu minta, nem que eu minta o que meus olhos viram. Eu te salvarei deste terror onde, por enquanto, eu te preciso. Que piedade agora por ti, a quem me agarrei. Deste-me inocentemente a mão, e porque eu a segurava é que tive coragem de me afundar. Mas não procures entender-me, faze-me apenas companhia. Sei que tua mão me largaria, se soubesse.

Como te compensar? Pelo menos também usa-me, usa me pelo menos como túnel escuro – e quando atravessares minha escuridão te encontrarás do outro lado contigo. Não te encontrarás comigo talvez, não sei se atravessarei, mas contigo. Pelo menos não está sozinho, como ontem eu estava, e ontem eu só rezava para poder pelo menos sair viva de dentro.”

 

 

“Se a pessoa não estiver comprometida com a esperança, vive o demoníaco.”

 

 

“E não me esquecer, ao começar o trabalho, de me preparar para errar. Não esquecer que o erro muitas vezes se havia tornado o meu caminho. Todas as vezes em que não dava certo o que eu pensava ou sentia – é que se fazia enfim uma brecha, e, se antes eu tivesse tido coragem, já teria entrado por ela. Mas eu sempre tivera medo de delírio e erro. Meu erro, no entanto, devia ser o caminho de uma verdade: pois só quando erro é que saio do que conheço e do que entendo. Se a “verdade” fosse aquilo que posso entender – terminaria sendo apenas uma verdade pequena, do meu tamanho.

A verdade tem que estar exatamente no que não poderei jamais compreender.”

 

 

“O erro é um dos meus modos fatais de trabalho.”

 

 

“Não sou adulta bastante para saber usar uma verdade sem me destruir.”

 

 

“– Então – então pela porta da danação, eu comi a vida e fui comida pela vida. Eu entendia que meu reino é deste mundo. E isto eu entendia pelo lado do inferno em mim. Pois em mim mesma eu vi como é o inferno.”

 

 

“Toda a parte mais inatingível de minha alma e que não me pertence – é aquela que toca na minha fronteira com o que já não é eu, e à qual me dou. Toda a minha ânsia tem sido esta proximidade inultrapassável e excessivamente próxima. Sou mais aquilo que em mim não é.

E eis que a mão que eu segurava me abandonou. Não, não. Eu é que larguei a mão porque agora tenho que ir sozinha.

Se eu conseguir voltar do reino da vida tornarei a pegar a tua mão, e a beijarei grata porque ela me esperou, e esperou que meu caminho passasse, e que eu voltasse magra, faminta e humilde: com fome apenas do pouco, com fome apenas do menos.

Porque, ali sentada e quieta, eu passara a querer viver a minha própria remotidão como único modo de viver a minha atualidade. E isso, que é aparentemente inocente, isso era de novo um fruir que se parecia com um gozo horrendo e cósmico.

Para revivê-lo, solto a tua mão.

Porque nesse fruir não havia piedade. Piedade é ser filho de alguém ou de alguma coisa – mas ser o mundo é a crueldade.”

 

 

“O mistério do destino humano é que somos fatais, mas temos a liberdade de cumprir ou não o nosso fatal: de nós depende realizarmos o nosso destino fatal. Enquanto que os seres inumanos, como a barata, realizam o próprio ciclo completo, sem nunca errar porque eles não escolhem. Mas de mim depende eu vir livremente a ser o que fatalmente sou. Sou dona de minha fatalidade e, se eu decidir não cumpri-la, ficarei fora de minha natureza especificamente viva. Mas se eu cumprir meu núcleo neutro e vivo, então, dentro de minha espécie, estarei sendo especificamente humana.

– Mas é que tornar-se humano pode se transformar em ideal, e sufocar-se de acréscimos... Ser humano não deveria ser um ideal para o homem que é fatalmente humano, ser humano tem que ser o modo como eu, coisa viva, obedecendo por liberdade ao caminho do que é vivo, sou humana. E não preciso cuidar sequer de minha alma, ela cuidará fatalmente de mim, e não tenho que fazer para mim mesma uma alma: tenho apenas que escolher viver.”

 

 

“O inferno é o meu máximo.

Eu estava em pleno seio de uma indiferença que é quieta e alerta. E no seio de um indiferente amor, de um indiferente sono acordado, de uma dor indiferente. De um Deus que, se eu amava, não compreendia o que Ele queria de mim. Sei, Ele queria que eu fosse o seu igual, e que a Ele me igualasse por um amor de que eu não era capaz.”

 

 

“Neste instante, agora, uma dúvida me surpreende. Deus, ou o que És chamado: eu só peço agora uma ajuda: mas que agora me ajudes não obscuramente como me és, mas desta vez claramente e em campo aberto.

Pois preciso saber exatamente isto: estou sentindo o que estou sentindo, ou estou sentindo o que eu queria sentir? ou estou sentindo o que precisaria sentir?

Porque não quero mais sequer a concretização de um ideal, quero é ser apenas uma semente. Mesmo que depois, dessa semente, nasçam de novo os ideais, ou os verdadeiros, que são um nascimento de caminho, ou os falsos, que são os acréscimos. Estaria eu sentindo o que desejaria sentir? Pois a diferença de um milímetro é enorme, e este espaço de um milímetro pode me salvar pela verdade ou de novo me fazer perder tudo o que vi. É perigoso. Os homens elogiam muito o que sentem. O que é tão perigoso como execrar o que se sente.

Eu oferecera meu inferno ao Deus. E minha crueldade, meu amor, minha crueldade parara de súbito. E de súbito aquele mesmo deserto era o esboço ainda vago do que se chamou de paraíso. A umidade de um paraíso. Não outra coisa, mas aquele mesmo deserto. E eu estava surpreendida como se é surpreendido por uma luz que vem do nada.

Entendia eu que aquilo que eu experimentara, aquele núcleo de rapacidade infernal, era o que se chama de amor? Mas – amor-neutro?

Amor neutro. O neutro soprava. Eu estava atingindo o que havia procurado a vida toda: aquilo que é a identidade mais última e que eu havia chamado de inexpressivo. Fora isso o que sempre estivera nos meus olhos no retrato: uma alegria inexpressiva, um prazer que não sabe que é prazer – um prazer delicado demais para a minha grossa humanidade que sempre fora feita de conceitos grossos.

– Fiz tal esforço em me falar de um inferno que não tem palavras. Agora como falarei de um amor que não tem senão aquilo que se sente, e diante do qual a palavra “amor” é um objeto empoeirado? O inferno pelo qual eu passara – como te dizer? – fora o inferno que vem do amor. Ah, as pessoas põem a ideia de pecado em sexo. Mas como é inocente e infantil esse pecado. O inferno mesmo é o do amor. Amor é a experiência de um perigo de pecado maior – é a experiência da lama e da degradação e da alegria pior. Sexo é o susto de uma criança. Mas como falarei para mim mesma do amor que eu agora sabia? É quase impossível. É que no neutro do amor está uma alegria contínua, como um barulho de folhas ao vento. E eu cabia na nudez neutra da mulher da parede. O mesmo neutro, aquele que me havia consumido em perniciosa e ávida alegria, era nesse mesmo neutro que eu agora ouvia outra espécie de alegria contínua de amor. O que é Deus estava mais no barulho neutro das folhas ao vento que na minha antiga prece humana.

A menos que eu pudesse fazer a prece verdadeira, e que aos outros e a mim mesma pareceria a cabala de uma magia negra, um murmúrio neutro.

Esse murmúrio, sem nenhum sentido humano, seria a minha identidade tocando na identidade das coisas. Sei que, em relação ao humano, essa prece neutra seria uma monstruosidade. Mas em relação ao que é Deus, seria: ser.”

 

 

“– Escuta, não te assustes: lembra-te que eu comi do fruto proibido e no entanto não fui fulminada pela orgia de ser. Então, ouve: isso quer dizer que me salvarei ainda mais do que eu me salvaria se não tivesse comido da vida... Ouve, por eu ter mergulhado no abismo é que estou começando a amar o abismo de que sou feita. A identidade pode ser perigosa por causa do intenso prazer que se tornasse apenas prazer. Mas agora estou aceitando amar a coisa! E não é perigoso, juro que não é perigoso.

Pois o estado de graça existe permanentemente: nós estamos sempre salvos.

Todo o mundo está em estado de graça. A pessoa só é fulminada pela doçura quando percebe que está em graça, sentir que se está em graça é que é o dom, e poucos se arriscam a conhecer isso em si. Mas não há perigo de perdição, agora eu sei: o estado de graça é inerente.

– Escuta. Eu estava habituada somente a transcender. Esperança para mim era adiamento. Eu nunca havia deixado minha alma livre, e me havia organizado depressa em pessoa porque é arriscado demais perder-se a forma. Mas vejo agora o que na verdade me acontecia: eu tinha tão pouca fé que havia inventado apenas o futuro, eu acreditava tão pouco no que existe que adiava a atualidade para uma promessa e para um futuro.

Mas descubro que não é sequer necessário ter esperança. É muito mais grave. Ah, sei que estou de novo mexendo no perigoso e que deveria calar-me para mim mesma. Não se deve dizer que a esperança não é necessária, pois isto poderia vir a se transformar, já que sou fraca, em arma destruidora. E para ti mesmo, em arma utilitária de destruição.

Eu poderia não entender e tu poderias não entender que prescindir da esperança – na verdade significa ação, e hoje. Não, não é destruidor, espera, deixa eu nos entender. Trata-se de assunto proibido não porque é ruim mas porque nós nos arriscamos.

Sei que se eu abandonar o que foi uma vida toda organizada pela esperança, sei que abandonar tudo isso – em prol dessa coisa mais ampla que é estar vivo – abandonar tudo isso dói como separar-se de um filho ainda não nascido. A esperança é um filho ainda não nascido, só prometido, e isso machuca.

Mas sei que ao mesmo tempo quero e não quero mais me conter. É como na agonia da morte: alguma coisa na morte quer se libertar e tem ao mesmo tempo medo de largar a segurança do corpo. Sei que é perigoso falar na falta de esperança, mas ouve – está havendo em mim uma alquimia profunda, e foi no fogo do inferno que ela se forjou. E isso me dá o direito maior: o de errar.

Escuta sem susto e sem sofrimento: o neutro do Deus é tão grande e vital que eu, não aguentando a célula do Deus, eu a tinha humanizado. Sei que é horrivelmente perigoso descobrir agora que o Deus tem a força do impessoal – porque sei, oh eu sei! que é como se isso significasse a destruição do pedido! E é como se o futuro parasse de vir a existir. E nós não podemos, nós somos carentes.

Mas ouve um instante: não estou falando do futuro, estou falando de uma atualidade permanente. E isto quer dizer que a esperança não existe porque ela não é mais um futuro adiado, é hoje. Porque o Deus não promete. Ele é muito maior que isso: Ele é, e nunca para de ser. Somos nós que não aguentamos esta luz sempre atual, e então a prometemos para depois, somente para não senti-la hoje mesmo e já. O presente é a face hoje do Deus. O horror é que sabemos que é em vida mesmo que vemos Deus. É com os olhos abertos mesmo que vemos Deus. E se adio a face da realidade para depois de minha morte – é por astúcia, porque prefiro estar morta na hora de vê-Lo e assim penso que não O verei realmente, assim como só tenho coragem de verdadeiramente sonhar quando estou dormindo.

Sei que o que estou sentindo é grave e pode me destruir. Porque – porque é como se eu estivesse me dando a notícia de que o reino dos céus já é.

E eu não quero o reino dos céus, eu não o quero, só aguento a sua promessa! A notícia que estou recebendo de mim mesma me soa cataclísmica, e de novo perto do demoníaco. Mas é só por medo. É medo. Pois prescindir da esperança significa que eu tenho que passar a viver, e não apenas a me prometer a vida. E este é o maior susto que eu posso ter. Antes eu esperava. Mas o Deus é hoje: seu reino já começou.

E seu reino, meu amor, também é deste mundo. Eu não tinha coragem de deixar de ser uma promessa, e eu me prometia, assim como um adulto que não tem coragem de ver que já é adulto e continua a se prometer a maturidade.

E eis que eu estava sabendo que a promessa divina de vida já está se cumprindo, e que sempre se cumpriu. Anteriormente, só de vez em quando, eu era lembrada, numa visão instantânea e logo afastada, de que a promessa não é somente para o futuro, é ontem e é permanentemente hoje: mas isso me era chocante. Eu preferia continuar pedindo, sem ter a coragem de já ter.

E eu tenho. Eu sempre terei. É só precisar, que eu tenho. Precisar não acaba nunca pois precisar é a inerência de meu neutro. Aquilo que eu fizer do pedido e da carência esta será a vida que terei feito de minha vida. Não se colocar em face da esperança não é a destruição do pedido! e não é abster-se da carência.

Ah, é aumentá-la, é aumentar infinitamente o pedido que nasce da carência.”

 

 

“Não é para nós que o leite da vaca brota, mas nós o bebemos. A flor não foi feita para ser olhada por nós nem para que sintamos o seu cheiro, e nós a olhamos e cheiramos. A Via-Láctea não existe para que saibamos da existência dela, mas nós sabemos. E nós sabemos Deus. E o que precisamos Dele, extraímos. (Não sei o que chamo de Deus, mas assim pode ser chamado.) Se só sabemos muito pouco de Deus, é porque precisamos pouco: só temos Dele o que fatalmente nos basta, só temos de Deus o que cabe em nós. (A nostalgia não é do Deus que nos falta, é a nostalgia de nós mesmos que não somos bastante; sentimos falta de nossa grandeza impossível – minha atualidade inalcançável é o meu paraíso perdido.)

Sofremos por ter tão pouca fome, embora nossa pequena fome já dê para sentirmos uma profunda falta do prazer que teríamos se fôssemos de fome maior. O leite a gente só bebe o quanto basta ao corpo, e da flor só vemos até onde vão os olhos e a sua saciedade rasa. Quanto mais precisarmos, mais Deus existe. Quanto mais pudermos, mais Deus teremos.

Ele deixa. (Ele não nasceu para nós, nem nós nascemos para Ele, nós e Ele somos ao mesmo tempo.) Ele está ininterruptamente ocupado em ser, assim como todas as coisas estão sendo, mas Ele não impede que a gente se junte a Ele e, com Ele, fique ocupado em ser, numa intertroca tão fluida e constante – como a de viver. Ele, por exemplo, Ele nos usa totalmente porque não há nada em cada um de nós de que Ele, cuja necessidade é absolutamente infinita, não precise. Ele nos usa, e não impede que a gente faça uso Dele. O minério que está na terra não é responsável por não ser usado.

Nós somos muito atrasados, e não temos ideia de como aproveitar Deus numa intertroca – como se ainda não tivéssemos descoberto que o leite se bebe. Daí a alguns séculos ou daí a alguns minutos talvez digamos espantados: e dizer que Deus sempre esteve! quem esteve pouco fui eu – assim como diríamos do petróleo de que a gente finalmente precisou a ponto de saber como tirá-lo da terra, assim como um dia lamentaremos os que morreram de câncer sem usar o remédio que está. Certamente ainda não precisamos não morrer de câncer. Tudo está. (Talvez seres de outro planeta já saibam das coisas e vivam numa intertroca para eles natural; para nós, por enquanto, a intertroca seria “santidade” e perturbaria completamente a nossa vida.)

O leite da vaca, nós o bebemos. E se a vaca não deixa, usamos de violência. (Na vida e na morte tudo é lícito, viver é sempre questão de vida-e-morte.) Com Deus a gente também pode abrir caminho pela violência. Ele mesmo, quando precisa mais especialmente de um de nós, Ele nos escolhe e nos violenta.

Só que minha violência para com Deus tem que ser comigo mesma. Tenho que me violentar para precisar mais. Para que eu me torne tão desesperadamente maior que eu fique vazia e necessitada. Assim terei tocado na raiz do precisar. O grande vazio em mim será o meu lugar de existir; minha pobreza extrema será uma grande vontade. Tenho que me violentar até não ter nada, e precisar de tudo; quando eu precisar, então eu terei, porque sei que é de justiça dar mais a quem pede mais, minha exigência é o meu tamanho, meu vazio é a minha medida. Também se pode violentar Deus diretamente, através de um amor cheio de raiva.

E Ele compreenderá que essa nossa avidez colérica e assassina é na verdade a nossa cólera sagrada e vital, a nossa tentativa de violentação de nós mesmos, a tentativa de comer mais do que podemos para aumentarmos artificialmente a nossa fome – na exigência de vida tudo é lícito, mesmo o artificial, e o artificial é às vezes o grande sacrifício que se faz para se ter o essencial.

Mas, já que somos pouco e, portanto só precisamos de pouco, por que então não nos basta o pouco? É que adivinhamos o prazer. Como cegos que tateiam, nós pressentimos o intenso prazer de viver.

E se pressentimos, é também porque nós nos sentimos inquietamente usados por Deus, sentimos inquietantemente que estamos sendo usados com um prazer intenso e ininterrupto – aliás, a nossa salvação por enquanto tem sido a de pelo menos sermos usados, não somos inúteis, somos intensamente aproveitados por Deus; corpo e alma e vida são para isso: para a intertroca e o êxtase de alguém. Inquietos, sentimos que estamos sendo usados a cada instante – mas isso acorda em nós o inquietante desejo de também usar.

E Ele não só deixa, como necessita ser usado, ser usado é um modo de ser compreendido. (Em todas as religiões Deus exige ser amado.) Para termos, faltanos apenas precisar. Precisar é sempre o momento supremo. Assim como a mais arriscada alegria entre um homem e uma mulher vem quando a grandeza de precisar é tanta que se sente em agonia e espanto: sem ti eu não poderia viver. A revelação do amor é uma revelação de carência – bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o dilacerante reino da vida.

Se abandono a esperança, estou celebrando a minha carência, e esta é a maior gravidade do viver. E, porque assumi a minha falta, então a vida está à mão. Muitos foram os que abandonaram tudo o que tinham, e foram em busca da fome maior.

Ah perdi a timidez: Deus já é. Nós já fomos anunciados, e foi a minha própria vida errada quem me anunciou para a certa. A beatitude é o prazer contínuo da coisa, o processo da coisa é feito de prazer e de contato com aquilo de que se precisa gradualmente mais. Toda a minha luta fraudulenta vinha de eu não querer assumir a promessa que se cumpre: eu não queria a realidade.

Pois ser real é assumir a própria promessa: assumir a própria inocência e retomar o gosto do qual nunca se teve consciência: o gosto do vivo.”

 

 

 

“Fui expulsa do paraíso quando me tornei humana.”

 

 

“A humildade é muito mais que um sentimento, é a realidade vista pelo mínimo bom-senso.”

 

 

“Ah, meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior. O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça – que se chama paixão.”

 

 

“Existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha condição.

A desistência é uma revelação.”