terça-feira, 24 de setembro de 2019

A Dialética Materialista: Categorias e leis da dialética (Parte II) – Alexandre Cheptulin

Editora: Alfa-Omega
ISBN: 978-85-2950-042-3
Tradução: Leda Rita Cintra Ferraz
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 360 
Sinopse: Ver Parte I 

“Como propriedade da matéria altamente organizada, a consciência é, ao mesmo tempo, o produto do trabalho humano e o resultado do desenvolvimento social. Um sistema nervoso altamente desenvolvido cria apenas a possibilidade real do aparecimento da consciência; mas, a transformação dessa possibilidade em realidade está ligada ao trabalho. Foi precisamente sob a ação do trabalho que a forma psíquica do reflexo, própria aos ancestrais animais do homem, transformou-se progressivamente em consciência, em reflexo consciente da realidade. O ponto de partida desse processo foi o momento no qual uma espécie superior de macacos começou a utilizar objetos da natureza para obter um resultado ligado à satisfação de uma ou outra necessidade do organismo. No começo, essas ações constituíam apenas casos isolados, mas, pelo fato de que elas davam, em geral, resultados positivos, e de que elas contribuíam para a satisfação de uma ou outra necessidade, um reflexo condicionado elaborou-se a partir delas e, com esse reflexo, apareceu o hábito de utilizar, em certas condições, os objetos da natureza como “ferramentas”. Esse hábito conduziu a mudanças fundamentais no comportamento desses animais. Sua ligação com a realidade ambiente foi, desde então, mediatizada pelos objetos da natureza.
Uma tal complicação da ligação do organismo com o meio ambiente influenciou de maneira positiva o desenvolvimento do sistema nervoso e, em particular, o desenvolvimento do cérebro que, obrigado a criar novos laços e a cumprir novas funções cada vez mais complexas, desenvolveu-se e aperfeiçoou-se, o que, em compensação, exerceu uma influência benéfica sobre a “utilização das ferramentas” pelos macacos superiores. Essa atividade complicou-se e desenvolveu-se. A um determinado estágio de seu desenvolvimento, os macacos superiores, quando da ausência da “ferramenta” necessária para a execução de um determinado ato, procuravam adaptar o objeto não adequado, modelando-o segundo a necessidade. Surge, então, a tendência de criar as ferramentas necessárias a partir de objetos da natureza. Pode-se observar tentativas de transformar um objeto que não é conveniente para uma função dada e de criar uma ferramenta necessária, mesmo entre os macacos atuais26.
O desenvolvimento dessa tendência entre os ancestrais animais do homem condicionou a transformação progressiva dos reflexos em atividade consciente, visando a modificação da realidade ambiente com a ajuda de ferramentas criadas para esse fim. Essa atividade tornou-se uma forma necessária de ligação entre os seres que se distinguem do estado animal, entre eles próprios, de um lado, e com a realidade ambiente, de outro. Essa atividade os coloca em relações determinadas independentes de sua vontade, e assim os reúne em um todo único, organicamente ligado. Para que tudo isso possa surgir, funcionar normalmente e desenvolver-se, uma certa coordenação das ações dos indivíduos que a formam é necessária. Mas isso suporia tomar consciência dos objetivos e das tarefas, repartir as funções no processo de sua realização. Tudo isso tornaria necessária uma troca de pensamentos entre indivíduos que agem em comum. “Logo, os homens em formação chegariam a um ponto em que eles teriam reciprocamente alguma coisa para se dizer27. Cada nova necessidade condiciona também o aparecimento de meios para satisfazê-la. Um desses meios é a linguagem. Com a linguagem, a consciência recebeu uma forma material de existência correspondente a sua natureza social. Por meio dela, os pensamentos de um homem tornaram-se acessíveis a outros homens, a um grupo de homens. Sublinhando o laço orgânico da consciência com a linguagem, Marx e Engels escreveram: “A linguagem é tão velha quanto a consciência; a linguagem é a consciência real, prática, existindo também, para outros homens, existindo, portanto, somente para eu mesmo também...”28. Por intermédio da linguagem, os homens trocaram ideias e chegaram a uma coordenação de sua atividade necessária para o trabalho coletivo e para a vida social.
Sendo ligada ao trabalho e à sociedade que a engendrou, a consciência é dotada de uma natureza social, é um aspecto necessário da forma social do movimento da matéria, embora exista na consciência dos indivíduos que formam a sociedade. Com efeito, cada indivíduo, por intermédio da linguagem, dos meios de trabalho, dos modos de atividade, assimila a experiência acumulada pela sociedade e transmite sua experiência individual, encarnando-a em valores culturais e materiais criados — as formas da vida e da ação.
O fato de que a consciência seja um aspecto da forma social do movimento da matéria, um “produto social”29, é frequentemente deixado de lado pelos autores que estudam o problema da consciência. A afirmação, segundo a qual a consciência representa o produto ou o resultado da atividade fisiológica do cérebro, é muito difundida. Não há dúvida de que a consciência está ligada a certos processos que se desenvolvem no cérebro, mas esses processos não têm condições para engendrar a consciência. Para que ela apareça, o ser possuidor de um cérebro deve necessariamente estar incluído em um sistema de relações sociais e agir em comum com outros homens; ou, em outros termos, deve viver uma vida humana, social. Logo, os processos fisiológicos do cérebro fazem nascer a consciência apenas em sua união ou, mais exatamente, em sua ligação orgânica com as atividades sociais determinadas que são executadas pelo sujeito, e não pela ligação com o exercício dessa ou daquela função social. Ainda mais, as ligações neurodinâmicas do cérebro, ou seja, as estruturas a partir das quais surge e funciona a consciência, estabelecem-se sob a ação de fatores sociais, da atividade prática. “O psiquismo do homem, escreve sobre isso o psicólogo soviético A. Léontiev, é uma função das estruturas cerebrais superiores, que se formam de maneira ontogênica no processo de assimilação das formas historicamente constituídas da atividade em relação ao mundo ambiente”30. É por isso que não podemos admitir a afirmação de que a consciência é uma função, um produto, uma manifestação ou uma propriedade de interações fisiológicas, isto é, uma forma biológica do movimento da matéria. Ela é uma propriedade, um produto, um resultado de interações sociais, uma forma social do movimento da matéria, que encerra em si, sob uma forma anulada, todas as outras formas anteriores do movimento, notadamente as formas física, química e biológica. Levando tudo isso em conta, parece-nos mais correto falar dos laços da consciência, não com os processos fisiológicos do cérebro, mas com o próprio cérebro e não simplesmente com o cérebro, mas com o cérebro humano, porque é aqui que se exprimirá em uma certa medida a ideia do cérebro, órgão do pensamento, e este com a consciência, enquanto sua função, representam uma forma mais elevada do movimento da matéria do que a forma biológica.”
26 N. N. Ladiguina-Kots, Desenvolvimento das formas de reflexo no processo da evolução dos organismos, in Problemas de filosofia, 1956, v. 4, p. 101. Original em russo.
27 F. Engels, op. cit., p. 174
28 K. Marx e F. Engels, L’idéologie allemande, Paris, Editions Sociales, 1968, p. 59.
29 K. Marx e F. Engels, L’idéologie cit., p. 59.


“Mais acima falamos dos caminhos da compreensão do que se passa com o sujeito, por um lado, e com a realidade que o rodeia, por outro. Mas qual o papel que a compreensão do que se produz desempenha na vida dos homens? Ela é a condição necessária da orientação do homem na realidade. Apoiando-se sobre uma compreensão justa da realidade, sobre o conhecimento de certos aspectos e ligações necessários, o homem, como se previsse o futuro, reproduz sob a forma de imagens o que ainda não existe, mas que deve se produzir em decorrência dessa ou daquela modificação da realidade que o rodeia, dessas ou daquelas ações exercidas sobre ele. A partir desse reflexo antecipado da realidade, o homem fixa objetivos correspondentes e a eles submete seu comportamento e suas ações. A antecipação do futuro, baseada no conhecimento dos aspectos e ligações necessários dos fenômenos do mundo exterior e sobre a compreensão do que se passa na realidade ambiente, e a fixação, em consequência disso, constituem a função essencial da consciência. A execução dessa função é que distingue o comportamento do homem do comportamento do animal, a atividade racional do homem, das ações instintivas dos animais. “Uma aranha, escreve Marx, realiza operações semelhantes às do tecelão, e a abelha, pela estrutura de suas células de cera, confunde a habilidade de mais de um arquiteto. Mas o que distingue, antes de tudo, o pior dos arquitetos, da mais esperta das abelhas, é que ele constrói a célula em sua cabeça antes de construí-la na colmeia. O resultado ao qual se chega com o trabalho preexiste idealmente, na imaginação do trabalhador”50.
O reflexo antecipado da realidade pela consciência está não apenas na base da fixação do objetivo, na orientação racional do sujeito na realidade ambiente, mas igualmente na base da atividade criadora e transformadora, aspecto necessário do trabalho. Surgindo sob a ação imediata do trabalho que supõe a transformação da realidade segundo as necessidades da sociedade, com a ajuda das ferramentas criadas para esse fim, a consciência não apenas torna possível a compreensão dos atos executados, e cria uma imagem ideal do que deve resultar dessas ações, mas também coloca em correlação, reúne todas essas ações ao resultado final, isto é, a partir do conhecimento da situação efetiva das coisas e das possibilidades reais que ela condiciona, a consciência cria qualquer coisa de novo, que não existe na realidade e que, sendo expresso no sistema de imagens ideais, torna-se um plano real da atividade material transformando uma possibilidade dada da matéria em realidade. Sem esse plano preciso indicando os caminhos da transformação da realidade, segundo as necessidades do homem, a atividade prática, laboriosa, é impossível. Isso confirma o fato de que a consciência, aspecto necessário da atividade produtiva, forma-se e desenvolve-se ao mesmo tempo que esta última.
Embora sendo esse aspecto prático que transforma a realidade objetiva da atividade em interesses da sociedade, a consciência não se confunde com essa atividade. Essa atividade é um processo material. “O trabalho, escreve Marx, é antes de tudo um ato que se passa entre o homem e a natureza. O próprio homem desempenha, nesse caso, frente a frente com a natureza, um papel de potência natural (...). As forças das quais seu corpo é dotado, braços e pernas, cabeça e mãos, são colocadas em movimento, por ele, a fim de assimilar as matérias dando-lhes uma forma útil para sua vida”51. Quanto à consciência, é, por natureza, ideal; ela é o reflexo, a fotografia, a cópia da realidade existente e a representação, repousando sobre esse reflexo (sob a forma de um sistema de imagens ideais e de relações), da realidade futura, que atualmente ainda não existe. Ela não é o processo real da criação de novas formações materiais, mas sim o modelo ideal do processo de criação e seu resultado, assim como o fator que controla o desenrolar da criação, confrontando constantemente a esse modelo os atos do sujeito e seus resultados.
Assim, a consciência representa um reflexo consciente ideal por sua natureza, associado à compreensão, pelo sujeito, do que é refletido, reflexo que antecipa a realidade, representa de forma subjetiva o resultado de sua transformação e de seu desenvolvimento, e, a partir disso, torna possível a fixação do objetivo e a criação. Em uma palavra, a “consciência humana não reflete apenas o mundo objetivo, mas também o criado”52. São somente todos esses momentos, em sua totalidade, em sua correlação e interdependência orgânicas, que constituem a essência da consciência, sua natureza específica.”
50 K. Marx, op. cit., p. 136.
51 K. Marx, op. cit., p. 136.
52 V. Lenin, op. cit., t. 38, p. 201.


“Com o surgimento da consciência, o reflexo da realidade, pelo sujeito, adquire um caráter consciente e manifesta-se, antes tudo, sob a forma de conhecimento, chamado para assegurar à sociedade os conhecimentos necessários para a organização e o desenvolvimento da produção, assim como a transformação do meio ambiente no interesse do homem.
Estando ligado organicamente à atividade laboriosa dos homens e à prática, o conhecimento, como já fizemos observar, funciona a partir da prática e desenvolve-se da intuição viva ao pensamento abstrato, e do pensamento abstrato à prática, como critério de verdade. Repetindo um número infinito de vezes o ciclo: intuição viva - pensamento abstrato - prática, o conhecimento desenvolve-se, descobre novos aspectos e ligações e, em um certo estágio de seu desenvolvimento, começa a captar e a distinguir as propriedades e as ligações universais e a tomar consciência das leis universais da realidade e das formas universais do ser.”


“1. A RELAÇÃO ENTRE AS CATEGORIAS DA DIALÉTICA ENQUANTO GRAUS DO DESENVOLVIMENTO DO CONHECIMENTO
Sabemos que a forma primeira, a mais simples do aparecimento da consciência, é a tomada de consciência, pelo homem, de sua existência, a separação de si com relação à natureza e a compreensão de sua relação com ela. O animal não se distingue da realidade que o rodeia, ele não sabe que existe. “O animal, escrevem a esse respeito Marx e Engels, ‘não está em relação’ com nada, não conhece, somando tudo, nenhuma relação. Para o animal, suas relações com os outros não existem enquanto relações”1. É o homem que, tendo já adquirido a consciência, nota pela primeira vez sua existência e toma consciência de seu relacionamento com o mundo exterior.
Desligando-se da natureza pelo trabalho, o homem toma consciência de sua autonomia e de seu relacionamento com o mundo exterior por meio da ação ativa que ele exerce sobre este último, transformando-o, segundo seu projeto, no interesse da sociedade. Isso condiciona o fato de que a relação do homem com o mundo exterior manifeste-se, antes de tudo, como uma interação com o mundo, cujo resultado é a transformação deste último. Esses momentos do relacionamento do homem com a realidade ambiente são captados por meio dos conceitos de correlação e de movimento.
A separação em si, com relação à natureza, supõe a tomada de consciência pelo homem da espacialidade, da existência dos objetos fora dele e, ao mesmo tempo, do aparecimento da representação, depois do conceito de espaço, das características espaciais. O conhecimento das particularidades das transformações intervindo na realidade ambiente, em decorrência da atividade laboriosa, conduz à formação do conceito de tempo, como medida de toda modificação e de todo movimento concretos.
Confrontando-se no processo do trabalho e na vida quotidiana com o particular, isto é, com os objetos, fenômenos, processos particulares, o homem distingue aqueles dentre eles que, estando de uma maneira ou de outra ligados à sua atividade vital, poderiam ser utilizados para a satisfação dessa ou daquela necessidade da sociedade e os concebia, no começo, como alguma coisa singular, inédita, jamais encontrada.
Mas, à medida que foi descobrindo outros objetos, capazes de satisfazer a essa mesma necessidade, o homem os reuniu em um mesmo grupo e fez deles uma representação geral, depois um conceito, e assim executou a passagem, na consciência, no pensamento, do singular ao geral e, no curso do desenvolvimento ulterior da prática, ao universal.
Tomando consciência do particular (objeto, processo, fenômeno) como singular, o homem julgava-o sob o ângulo de sua qualidade e esforçava-se para elucidar o que representava esse objeto. Nesse grau do desenvolvimento do conhecimento do objeto, as características quantitativas eram indiferenciadas e manifestavam-se como qualitativas. Mas, à medida que o homem passava de um objeto para vários, e comparando-os na prática e na consciência, ressaltava sua semelhança, isto é, o geral e o diferente (particular), ele começava a tomar consciência das características quantitativas. Cada aspecto da qualidade, cada uma de suas propriedades pareciam desdobrar-se; ao lado da manifestação do que ela representava, revelava também sua grandeza.
As características qualitativas e quantitativas distinguidas nesse grau do desenvolvimento do conhecimento são consideradas pelo homem como coexistentes, independentes umas das outras. O desenvolvimento ulterior do conhecimento do objeto conduz à descoberta da correlação e da interdependência orgânicas das características qualitativas e quantitativas, de sua interpenetração e de sua passagem de uma a outra.
Com o conhecimento da correlação entre os diferentes aspectos da qualidade, entre as características quantitativas e as passagens recíprocas da quantidade e da qualidade, o homem consegue tomar consciência de que a transformação de um aspecto, de uma propriedade, de um fenômeno é condicionada por uma certa modificação de um outro aspecto, uma outra propriedade, um outro fenômeno. O que engendra o outro e condiciona seu aparecimento reflete-se no conceito de causa; o que é engendrado e condicionado reflete-se no conceito de efeito.
O estudo da ligação de causa e efeito, mostra que, em certas condições, a causa engendra o efeito correspondente, que a ligação da causa e do efeito possui um caráter necessário. Surge, então, o conceito de necessidade. A necessidade é, antes de tudo, concebida como propriedade da ligação de causa e efeito. Entretanto, no decorrer do desenvolvimento do conhecimento, o conteúdo do conceito de necessidade vai precisando-se. Começa-se a considerar como necessários não somente os laços causais, mas também todas as ligações que se manifestam necessariamente em certas condições, e não apenas as ligações, mas também as propriedades e os aspectos, próprios ao objeto por sua natureza. As ligações necessárias estáveis, repetindo-se, começam a ser consideradas como leis, a ser concebidas mediante o conceito de lei especialmente criada pelo seu reflexo.
À medida que vão-se acumulando conhecimentos sobre as propriedades e ligações (leis) necessárias no domínio estudado da realidade, surge a necessidade de reunir todos esses conhecimentos em um todo único e de considerar todos os aspectos (propriedades) e ligações (leis) necessárias do objeto em sua interdependência natural. A reprodução, na consciência e no sistema, de imagens ideais (conceitos) do conjunto dos aspectos e ligações necessários próprios ao objeto representa o conhecimento de sua essência.
O movimento em direção da essência começa com a definição do fundamento — do aspecto determinante, da relação — que desempenha o papel de célula original na tomada de consciência teórica da essência do todo estudado. A dedução (explicação), desde o princípio de partida, de todos os aspectos que constituem a essência do objeto supõe a análise do fundamento (do aspecto determinante, da relação) em seu movimento, seu aparecimento e seu desenvolvimento, porque é precisamente no curso de seu desenvolvimento que o fundamento faz nascer e transforma outros aspectos e relações do todo (do fundamentado) e assim forma sua essência. A representação da célula original (do fundamento) do todo estudado em movimento e em desenvolvimento presume a descoberta de tendências contraditórias que lhe são próprias, da luta dos contrários que condiciona sua passagem de um estado qualitativo a outro. Assim, o conhecimento, desenvolvendo-se, chega finalmente à necessidade da formação das categorias de “contradição”, de “unidade” e de “luta dos contrários”.
Colocando em evidência a contradição própria do fundamento e seguindo seu desenvolvimento e sua resolução, assim como a transformação do objeto, o sujeito descobre que a passagem do objeto de um estado qualitativo a outro, efetua-se mediante a negação dialética de certas formas do ser por outros, a manutenção do que é positivo no negativo e a repetição do que já passou sobre uma nova base superior. Os conceitos de negação dialética e de negação da negação surgiram para refletir essa lei.
O conhecimento do objeto não termina com a reprodução da essência na consciência. Ele vai ainda mais longe: por um lado, da essência ao fenômeno (as propriedades e as ligações contingentes exteriores explicam-se a partir dos aspectos e das ligações interiores), por outro lado, da essência da ordem primeira à essência da ordem segunda e assim sucessivamente até o infinito (à medida que descobrimos novas propriedades e ligações necessárias do objeto, são produzidas a elucidação teórica de sua essência e a elaboração de um sistema de conceitos por seu reflexo, que é sempre mais preciso e completo).”
1 K. Marx, F. Engels, L’idéologie alemande, p. 59.

A Dialética Materialista: Categorias e leis da dialética (Parte I) – Alexandre Cheptulin

Editora: Alfa-Omega
ISBN: 978-85-2950-042-3
Tradução: Leda Rita Cintra Ferraz
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 360 
Sinopse: É com o objetivo de trazer ao público leitor brasileiro a visão da ciência marxista ― como ela é pensada e praticada nos países que elegeram a dialética materialista como fundamento para sua práxis econômica, cultural e social ― que a Editora Alfa-Ômega lança “A Dialética Materialista ― Categorias e leis da dialética”, do filósofo soviético Alexandre Cheptulin, editado originalmente em russo pela Editorial Progresso (Moscou, 1975).
O livro procura analisar as principais categorias e leis da dialética materialista, colocando-as em evidência, e expõe “a essência do materialismo dialético, enquanto teoria filosófica particular”. Estas categorias e leis, adverte o autor, são apresentadas “sob a forma de um sistema de conceitos interdependentes, um determinando o outro e um decorrendo do outro” e podem ser consideradas “como reflexos das propriedades e relações reais, como graus e formas de desenvolvimento do conhecimento da sociedade e como princípios do conhecimento dialético e de uma transformação orientada pela realidade”. 



“Quando estas categorias e leis são usadas pelo homem, para elaborar um sistema de concepções do mundo e uma concepção única dos fenômenos que aqui são produzidos, elas cumprem a função de concepção do mundo ideológico. O conhecimento das propriedades e das conexões universais da realidade, que se exprimem nas categorias filosóficas, é absolutamente indispensável ao homem para sua orientação, para que possa determinar as vias que lhe permitirão resolver as tarefas práticas que surgem no processo de desenvolvimento da sociedade. Fornecendo um sistema global de ideias sobre a realidade ambiente, a filosofia ajuda o homem a elaborar uma atitude em relação à vida social, ao regime social, a compreender a essência da política adotada por um Estado e, por isso mesmo, permite-lhe participar de forma consciente da vida política da sociedade, da luta pelo progresso social e da realização dos grandes ideais da humanidade.
Representando o conhecimento das formas universais do ser, das propriedades e das relações universais das coisas, e ocupando, dessa maneira, a função ideológica, as categorias e leis da dialética refletem as leis do desenvolvimento do conhecimento, além de constituírem os pontos centrais, os graus e as formas do funcionamento e do desenvolvimento do processo de cognição. Por tudo isso elas podem ser usadas para apreender a essência da atividade cognitiva e das leis de sua obra. No presente caso, as leis e as categorias da dialética desempenham uma função gnosiológica. Sua assimilação permite um desenvolvimento da faculdade cognitiva, da capacidade de pensar com exatidão.”


“O homem, diferentemente do animal, cuja conduta repousa nos instintos e nos reflexos, é dotado de uma consciência. Todos os seus atos têm um caráter consciente. Antes de praticá-los, ele analisa a situação, fixa objetivos adequados, define os modos e os meios para sua realização. No decorrer desse processo, ele pensa de maneira contínua. Se ele pensar de forma correta, poderá facilmente ter uma ideia clara da situação que se cria, orientar-se, fixar um objetivo exato, utilizar os meios mais racionais para atingir esse objetivo. Se seu nível de pensamento é baixo, ele tem tendência a se confundir mesmo diante das situações mais simples; não consegue orientar-se corretamente. É importante lembrar o quanto é importante para cada homem o saber pensar corretamente e com certo espírito criativo, notadamente no século da revolução científica e técnica e das grandiosas transformações sociais, onde os homens têm de resolver problemas particularmente complexos, tanto técnicos como tecnológicos, além de determinar as vias e as formas do progresso social. Mas, um pensamento criativo correto, correspondente ao nível atual de desenvolvimento da ciência e da prática social, faz supor que os homens conheçam as leis do funcionamento e do desenvolvimento do conhecimento, as leis da atividade do pensamento, e que aprendam a usá-las racionalmente para resolver as tarefas práticas.”


“Assim, na história do desenvolvimento do pensamento filosófico, quatro tendências (sem contar a tendência marxista) aparecem na concepção das categorias: alguns filósofos consideram que as categorias existem fora e independentemente da consciência humana, sob a forma de essências ideais particulares (tendência realista); outros declaram que essas mesmas categorias são ficções, palavras, vazias que não exprimem nem designam nada (tendência nominalista); outros, ainda consideram as categorias como formas da atividade do pensamento a priori, próprias à consciência do homem e constituindo suas características e suas propriedades inerentes (tendência kantiana); e finalmente os últimos, que consideram as categorias como imagens ideais que se formam no decorrer do desenvolvimento da consciência da realidade objetiva e que refletem os aspectos e os laços correspondentes das coisas materiais (Aristóteles, Locke, os materialistas franceses do séc. XVIII).
A teoria materialista dialética das categorias representa o desenvolvimento da quarta concepção que foi elaborada na história da Filosofia, em geral, pelos representantes do materialismo.
Como os materialistas pré-marxistas, também os fundadores do materialismo dialético consideravam que as categorias representam as imagens ideais que refletem os aspectos e os laços correspondentes das coisas materiais. Entretanto, à diferença dos materialistas pré-marxistas, que afirmam que o conteúdo dessas imagens coincide diretamente com as propriedades e os laços correspondentes das coisas, o marxismo considera que essas imagens são o resultado da atividade criadora do sujeito no decorrer da qual este último distingue o geral do singular. Esse geral exprime as propriedades e as correlações internas necessárias. É por isso que a imagem ideal que representa o conteúdo dessa ou daquela categoria, sendo a unidade do subjetivo e do objetivo, não coincide imediatamente com os fenômenos, com os quais se encontra na superfície das coisas. Pelo contrário, ela se distingue sensivelmente dos fenômenos e chega mesmo a contradizê-los, já que eles não coincidem com sua essência. O conteúdo das categorias deve coincidir e coincide até determinado ponto, não com o fenômeno, mas com sua essência, com esse ou aquele de seus aspectos.”


“Analisando a contradição, Hegel mostra que ela é geral, que entra no conteúdo de cada coisa, de cada ser. “Tudo o que existe, escreve Hegel, é alguma coisa de concreto e, logo, alguma coisa de diferente e oposta em si. O caráter finito das coisas, continua Hegel, consiste em que seu ser imediato não corresponde a sua essência”14, por isso, elas esforçam-se sempre para resolver esta contradição e realizar o que elas têm nelas mesmas e, em decorrência, elas modificam-se constantemente. A modificação das coisas é, pois, a consequência de seu caráter contraditório. Em outros termos, a contradição é a fonte do movimento e da vitalidade; “...é apenas na medida em que alguma coisa comporta em si uma contradição que ela se move; que ela possui um impulso, uma atividade”15. Opondo-se aos autores que consideravam que não se pode pensar a contradição, Hegel exclama: “É a contradição que, na realidade, põe o mundo em movimento, logo, é ridículo dizer que é impossível pensar a contradição”16.
O pensamento de Hegel, segundo o qual tudo o que existe encerra em si uma contradição e de que a contradição é a origem do movimento, o impulso da vida, é na realidade um pensamento genial, que entrou na história da ciência para tornar-se o centro da dialética.
Na nossa opinião, Hegel também conseguiu determinar corretamente o lugar das categorias de “contrário” e de “contradição”. Os aspectos e os laços que elas refletem só são efetivamente assimilados no estágio do movimento do conhecimento, dirigido para a essência, quando aparece a necessidade de apresentar o objeto em seu movimento, em seu aparecimento e em seu desenvolvimento, quando, a propósito disso, surge a questão da origem do movimento, da força motora que condiciona seu vir-a-ser, sua vitalidade e a passagem de um estágio de desenvolvimento para outro.
Nascida da diferença, a contradição, segundo Hegel, não é eterna; a um determinado estágio de seu desenvolvimento ela se resolve e se transforma ou, segundo os próprios termos de Hegel, mergulha até a sua base (fundamento). “A contradição resolvida é, em consequência, o fundamento”17.
“É por isso que no fundamento, escreve Hegel, o contrário e sua contradição são igualmente destruídos ou conservados”18. Eles são destruídos enquanto existentes de forma autônoma e são conservados enquanto momentos de identidade e de diferença, característica do fundamento”19.
A passagem da contradição para seu fundamento, como a apresenta Hegel, a despeito de seu caráter artificial, encerra muitos elementos racionais. Hegel exprimiu aqui certas leis reais da correlação dos aspectos refletidos pelas categorias que examinamos. A resolução da contradição própria a essa ou àquela formação material conduz necessariamente a sua transformação e, em certas circunstâncias, ao aparecimento de uma nova formação material. O aparecimento do novo é, portanto, a consequência da resolução de uma contradição e a resolução da contradição é a base que trouxe à vida essa consequência.”
14 Hegel, Wissenschaft cit., in Sämtliche Werke, p. 242.
15 Hegel, Wissenschaft cit., in Sämtliche Werke, p. 562.
16 Hegel, Werke cit., p. 242.
17 Hegel, Werke cit., p. 242.
18 Hegel, Werke cit., p. 242.
19 Hegel, Werke cit., p, 242.


“Da categoria de coisa, Hegel passa ao fenômeno que se apresenta como a existência da coisa anulando a si própria do interior dela mesma25. Por meio do fenômeno, a essência reflete-se na outra e relaciona-se com ele de maneira determinada. A existência de um fenômeno não é assim nada além de outra relação. Hegel considera esta última como a verdade de toda a existência, como o modo geral de manifestação das coisas26.
A unidade da essência e da existência constitui em Hegel a realidade27. A realidade manifesta-se primeiro sob a forma de possibilidade que representa o que é essencial para a realidade, mas que ainda é abstrata e que se opõe à unidade concreta do real28. Sendo abstrata, a possibilidade aparece como contingente em uma realidade concreta dada. Hegel considera como contingente o que “tem o fundamento de seu ser não em si mesmo, mas em um outro”29. A unidade da possibilidade e da realidade constitui a necessidade. Considerada do interior, a necessidade manifesta-se como uma relação absoluta em si; sob sua forma imediata há a relação de substancialidade e de acidentalidade30, a qual, em decorrência, manifesta-se como relação causal desenvolvendo-se em interação31. À base da interação encontra-se o conceito que constitui a verdade do ser e da essência.
Por meio desses esquemas artificiais da correlação das categorias de essência e de fenômeno, de possibilidade, de realidade, de necessidade e de causalidade transparece, em Hegel, a dialética real, e, sob uma forma mistificada, exprime-se uma série de teses importantes que constituem um passo considerável no conhecimento das leis de relacionamento das formas gerais do ser, refletidas nas categorias em questão. É verdade que a ordem — aqui apresentada por Hegel — do movimento do pensamento de uma categoria a outra não reflete, na nossa opinião, o processo real do conhecimento humano. No conhecimento, o homem não vai do possível ao real, como diz Hegel, mas, pelo contrário, ele vai da realidade para a possibilidade, e não vai da necessidade à causalidade e à interação, mas sim da interação (correlação) à causalidade e à necessidade.”
25 Hegel, Werke cit., p. 260.
26 Hegel, Werke cit., p. 260.
27 Hegel, Werke cit., p. 281.
28 Hegel, Werke cit., p. 284.
29 Hegel, Werke cit., p. 288.


“Fazendo um balanço do exame dos sistemas de categorias apresentados pelos filósofos burgueses posteriores a Hegel, é conveniente salientar que todos esses sistemas não constituem, em relação a Hegel, uma contribuição nova à pesquisa e ao estudo do problema da correlação das categorias, mas, na realidade, eles ficam aquém do sistema de Hegel. E não é por acaso que isso acontece. Um desenvolvimento ulterior frutífero da teoria das categorias só seria possível no plano do materialismo, a partir dos princípios da dialética formulados por Hegel. Em regra geral, os filósofos, dos quais nós já falamos, ignoravam, na elaboração de seus sistemas de categorias, tanto o materialismo como a dialética e, exatamente por isso, eram obrigados a repetir o que antes disseram Hegel, Kant e até mesmo Aristóteles. No presente caso, Othmar Spann tem toda razão quando escreve a respeito dos sistemas de categorias surgidos depois de Hegel: “Em relação a Hegel, todas as teorias modernas sobre as categorias são um passo atrás, já que, em vez de seguirem em profundidade os grandes pensamentos do idealismo alemão, caem na barbárie do gênero empírico e mecânico...”62.
Os princípios da construção de um sistema de categorias da dialética, apresentados por Hegel, foram objeto de uma interpretação materialista, de um fundamento científico e de um desenvolvimento unicamente da filosofia marxista. A filosofia marxista apresenta, pela primeira vez, uma solução científica para o problema da correlação das categorias. Aplicado à ciência econômica, esse problema foi analisado, sob todos os ângulos, por Marx em seu Le capital e, aplicado à lógica dialética, ele foi analisado em Cahiers philosophiques de Lenin.”
62 O. Spann, Kategorienlehre, Jena, 1939, p. 42.


“Efetivamente, em toda filosofia, incluindo o materialismo dialético, há uma questão fundamental — a questão da relação do pensamento com o ser, cuja solução deixa sua impressão na resolução de todos os outros problemas filosóficos e, em última análise, determina o caráter da Filosofia, sua essência. É por isso que as categorias ligadas a essa questão e, em particular, as categorias de matéria e consciência devem necessariamente ser relacionadas com as categorias fundamentais e determinantes e a análise deve começar por elas.
Mas, ao mesmo tempo, o materialismo dialético estuda os aspectos e as relações universais da realidade objetiva. E esses não são todos semelhantes. Há entre eles alguns que desempenham um papel fundamental e determinante e outros que são subordinados e determinados. Os clássicos do materialismo dialético, e em particular Lenin, consideravam como relações fundamentais e determinantes, na realidade objetiva, as relações recíprocas entre os aspectos opostos, isto é, a lei da unidade e da luta dos contrários. Em consequência, as categorias que estão ligadas à lei da unidade e da luta dos contrários devem igualmente ser relacionadas às categorias de partida, pelas quais é preciso começar a análise.
Sendo o reflexo dos aspectos, das ligações e das relações universais reais, as categorias são, ao mesmo tempo, os produtos da consciência, da atividade cognitiva dos homens. No conhecimento, há fatores fundamentais e determinantes que marcam toda atividade cognitiva e, em particular, seus resultados: são as categorias e sua correlação. Os fundadores do marxismo consideravam que a prática social é esse fator determinante do conhecimento. Engels escreveu: “É precisamente a transformação da natureza pelo homem, e não a própria natureza como tal, que é o fundamento mais essencial e mais direto do pensamento humano, e a inteligência do homem aumentou na medida em que ele aprendeu a transformar a natureza”63. Se é assim, as categorias que refletem esse fator fundamental, determinante do conhecimento, devem igualmente ser consideradas como categorias de partida.”
63 F. Engels, La Dialectique de la nature, Paris, Editions Sociales, 1952, p. 233.


“Considerando as categorias como graus do conhecimento, isto é, na ordem em que elas apareceram com base no desenvolvimento da prática social e do conhecimento do qual ela depende, poderemos não apenas reproduzir na consciência, numa certa ordem, as leis e aspectos universais da natureza, da sociedade e do pensamento humano, refletidos e fixados nas categorias, mas igualmente reproduzir o desenvolvimento do conhecimento, de seus estágios inferiores a seus graus superiores, isto é, apresentar sua história e sua teoria, assim como um método de conhecimento — uma lógica que será aqui efetivamente “uma teoria não das formas exteriores do pensamento, mas das leis do desenvolvimento de ‘todas as coisas materiais, naturais e espirituais’ ou seja, das leis de desenvolvimento de todo o conteúdo concreto do mundo e do conhecimento deste, isto é, apresentar o balanço, a soma, a conclusão da história do conhecimento do mundo”71. Nesse caso, para designar a lógica, a dialética e a teoria do conhecimento do materialismo, é preciso apenas três palavras: “são a mesma coisa”72.
Tomando como ponto de partida a prática e a tese sobre as categorias consideradas como graus do desenvolvimento do conhecimento, realizamos aqui, fora da elaboração do sistema de categorias e de leis do materialismo dialético, o princípio de identidade da dialética, da lógica e da teoria do conhecimento.
Assim, as categorias de partida, na análise das categorias, devem ser aquelas que refletem o fator fundamental e determinante do desenvolvimento do conhecimento, isto é, as categorias da prática. Seguindo o desenvolvimento desse fator determinante (prática social), reproduzimos as categorias na ordem em que elas apareceram no processo da evolução do conhecimento e, assim, nós os apresentamos em sua correlação e em sua interdependência naturais e necessárias.”
71. V. Lenin, Oeuvres, p. 90.
72. V. Lenin, op. cit., p. 90.


 “Generalizando as descobertas indicadas e desenvolvendo a teoria marxista da matéria, Lenin deu uma definição clássica da matéria: “A matéria é uma categoria filosófica que serve para designar a realidade objetiva dada ao homem por meio de suas sensações, que a copiam, a fotografam, a refletem e que existe independentemente das sensações”5.
É conveniente considerar esta definição como clássica, porque ela opõe a concepção marxista da matéria às concepções exprimidas pelos representantes das diferentes correntes e escolas idealistas e metafísicas. Na realidade, a tese segundo a qual a matéria representa uma realidade, distingue a concepção marxista da matéria da concepção de Platão e da de Aristóteles, entre outras que consideravam que a matéria não possui existência real, mas apenas uma existência possível, que ela não representa um ser real, mas apenas um não-ser. O relevo dado ao fato de que a matéria é uma realidade objetiva, existente fora e independentemente da consciência, distingue a ideia marxista da matéria das concepções idealistas. Em seguida, a tese segundo a qual a matéria não é uma realidade objetiva concreta qualquer, mas uma realidade objetiva em geral, distingue a concepção marxista da matéria, da concepção que tinham sobre ela os materialistas da Grécia antiga que identificavam a matéria com qualquer fenômeno qualitativamente determinado (a água, o ar, o fogo), ou ainda com um grupo de fenômenos (p. ex., a terra, a água, o ar e o fogo); esta tese distingue-a ainda da tese que tinha o materialismo mecânico pré-marxista que identificava a matéria com a substância. Enfim, a ideia segundo a qual a matéria é uma realidade objetiva, dada ao homem por suas sensações, diferencia a concepção marxista da matéria da concepção que têm sobre isso alguns agnósticos e, em particular, Kant, que reconhecia a existência da matéria, mas considerava que ela é inacessível aos nossos órgãos sensitivos, que é uma “coisa em si” incognoscível.”
5 V. Lenin, op. cit., p. 169


“O reflexo não é a interação de um objeto sobre um outro, nem as mudanças que se produzem no decorrer desta, mas sim a faculdade de reproduzir nessas mudanças esses ou aqueles traços ou aspectos do objeto agente.
Nesse plano, a identificação do reflexo com o movimento, com as mudanças sobrevindas na formação material em decorrência de outras formações materiais que ela sofre, não tem fundamento.
O reflexo não é simplesmente a modificação do objeto sob a ação de fatores exteriores ou interiores, mas uma representação particular, nessas modificações, das particularidades dos fatores agentes. A modificação do objeto em decorrência de interações exteriores ou interiores representa não o reflexo, mas o movimento. (...)
Assim, o reflexo é uma propriedade universal da matéria, que consiste na capacidade de reproduzir, das formações materiais, as particularidades de outras formações materiais agindo sobre elas, nessas ou naquelas modificações de seu estado ou de uma propriedade qualquer.”