segunda-feira, 4 de julho de 2011

Lobisomens – Sabine Baring-Gould

Editora: Leitura

ISBN: 978-85-7358-964-1

Tradução: Caroline Frurukawa

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 176

Sinopse: A lenda dos lobisomens atravessou séculos e ainda é muito presente no imaginário de crianças, adolescentes e adultos. O estudioso inglês Sabine Baring-Gould apresenta na publicação Lobisomens, com tradução de Caroline Frurukawa, lendas de metamorfoses famosas e o fenômeno da licantropia. Ele mostra que os lobisomens realmente existem e tem sede de sangue e carne humana.



“O que é licantropia? A transformação de um homem ou uma mulher em lobo, tanto por meios mágicos – para que a pessoa possa satisfazer o apetite por carne humana – ou por castigo imposto pelos deuses em punição a uma grande ofensa.

Essa é a definição popular. Na verdade, a licantropia consiste em uma forma de loucura, como aquela encontrada na maioria dos hospícios.”

 

 

“Toda a superestrutura da fábula e do romance relativo à transformação em animais selvagens reside simplesmente sobre esta base de verdade: que entre as nações escandinavas existiu uma forma de loucura ou possessão, sob a influência da qual homens agiram como se fossem transformados em brutos selvagens, uivando, espumando pela boca, sedentos de sangue e matança, prontos para cometer qualquer ato de atrocidade, e tão irresponsáveis por suas ações quanto lobos e ursos, com cujas peles eles geralmente se vestiam. (...)

Pode-se aceitar como axioma que nenhuma superstição de aceitação geral está destituída de uma base verdadeira; e, se nós descobrirmos o mito de um lobisomem sendo disseminado amplamente, não apenas por toda a Europa, mas por todo o mundo, devemos ter certeza de que há um núcleo sólido factual, rodeado por superstição popular que se cristalizou; e que o fato é a existência de uma espécie de loucura, uma crise na qual as pessoas afetadas acreditam ser um animal selvagem e agem como ele.”

 

 

“Na dissertação de Muller (1736), cuja fonte foi Cluverius e Danhaverus, (Acad. Homilet. p. ii.), tivemos conhecimento de que um certo Albertus Pericofcius em Moscou tinha o hábito de tiranizar e fustigar seus súditos das formas mais inescrupulosas. Uma noite, quando ele estava fora de casa, todo seu rebanho de gado, adquirido por meio de extorsão, pereceu. Quando voltou para casa foi informado a respeito da perda, e o perverso homem desferiu as mais horríveis blasfêmias, exclamando: “Permita que aquele que matou coma; e se Deus conceder, que ele também possa me devorar.”

Assim que ele falou, gotas de sangue caíram no chão, e o nobre se transformou em um cão selvagem, correu até seu gado morto, destroçou e dilacerou as carcaças e começou a devorá-las; e não parou até que chegasse o seu fim (ac forsan hodie que pascitur). Sua esposa, então próxima à sua reclusão, morreu de medo. Dessas circunstâncias não há apenas relatos, mas também testemunhas. (Non ab auritis tantum, sed et ocidatis accepi, quod narro).”

 

 

“Os esportistas e pescadores seguem um instinto natural de destruição quando atiram em um pássaro ou outro animal, ou fisgam um peixe: a pretensão de que a presa seja caçada para colocá-la à mesa não pode ser feita com justiça, pois o esportista se preocupa pouco com o jogo que ganhou, desde que tenha a presa em mãos. O motivo para a feroz perseguição de um pássaro ou animal certamente é outro: o desejo ardente de se extinguir a vida que existe em sua alma. Por que uma criança impulsivamente bate em uma borboleta assim que ela passa voando? Ela não se importa com o inseto ao esmagá-lo com os pés, a menos que esteja agonizando, o que ela observa com grande interesse. A criança bate na criatura voando porque a borboleta tem vida, e ela tem um instinto que a impele a destruir a vida assim que a encontra.

Pais e enfermeiras sabem bem que as crianças por natureza são cruéis, e que a humanidade tem de ser adquirida pela educação. Uma criança exulta com maldade os sofrimentos de um animal ferido até que sua mãe lhe peça: “deixe-o em paz, tenha compaixão”. Uma criança inocente nem pensaria em pôr fim à agonia da criatura abruptamente, como se saboreasse um bombom inteiro antes de engoli-lo. A crueldade inerente pode ser obscurecida por impressões posteriores ou pode ser mantida sob repressão moral; a pessoa que é inerentemente um “Nero”, não consegue reconhecer a sua própria natureza, até que algum dia, por acidente, o ímpeto se torne dominante e arrebate tudo diante de si. Um relaxamento da posição moral, um choque do intelecto controlador ou uma condição anormal do corpo são suficientes para permitir que o ímpeto se afirme.”

 

 

“Vi uma jovem realizada, de considerável refinamento e de um temperamento extremamente nervoso, enfiar moscas com a agulha em um pedaço de linha e assistir com complacência o bater de asas agonizante. A crueldade pode permanecer latente até que, por algum acidente, ela apareça: então, irromperá em uma chama devastadora. O ímpeto do amor e do ódio é semelhante ao que ocorre com a sede por sangue; nós não fazemos ideia da intensidade com que eles podem surgir até que as circunstâncias ocorram. Amor ou ódio serão dominantes em um peito que esteve sereno até agora, pois quando a fagulha surge repentinamente, a paixão se acende, e a serenidade de um peito quieto é destruída para sempre. Uma palavra, um olhar, um toque são suficientes para atear fogo ao paiol da paixão no coração e desolar para sempre uma existência. É o mesmo que acontece com a sede por sangue. Ela pode espreitar nas profundezas do coração de alguém muito querido para nós. Pode queimar no seio daquele que é muito importante, e nós podemos ser perfeitamente inconscientes da sua existência. Talvez as circunstâncias não propiciem seu surgimento; talvez o princípio moral possa tê-la abatido com grilhões que jamais conseguirá arrebentar.”

 

 

“A mitologia popular na maioria das culturas considera a alma oprimida pelo corpo, e sua libertação é uma libertação do “fardo” da carne. Se a alma é capaz de agir ou expressar-se completamente sem um corpo, assim como o fogo existe sem o aparato da caldeira a vapor ou da maquinaria, é uma questão que ainda não foi aceita pela mente popular. Somente a religião cristã dá o mesmo valor ao corpo e à alma, e dando uma esperança de enobrecimento e ressurreição nunca sonhado em qualquer outro sistema mitológico.

Mas o credo popular, em vez do testemunho mais enfático das Escrituras, é de que a alma está sujeita há tanto tempo, que se uniu ao corpo, uma crença inteiramente de acordo com o Budismo.”

terça-feira, 28 de junho de 2011

Inclusão social e desenvolvimento econômico na América Latina – editores: Mayra Buvinic e Jacqueline Mazza com Ruthanne Deutsch

Editora: Elsevier (Campus)

ISBN: 978-85-3521-594-6

Tradução: Hilda Maria L. P. Coelho.

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 368

Sinopse: Este livro é o resultado de uma iniciativa mais ampla do Banco Interamericano de Desenvolvimento para promover a inclusão social na região e na instituição. Esta coleção de leituras transmite a mensagem de que a pobreza e a desigualdade na América Latina e no Caribe são facilmente reconhecidas nos rostos das mulheres, dos afrodescendentes, dos povos indígenas, dos portadores de deficiências e das pessoas com HIV/aids, entre outros. O Banco Interamericano de Desenvolvimento tem grande experiência na promoção do desenvolvimento das mulheres e dos povos indígenas, mas até poucos anos atrás, quando o trabalho que culminou neste livro foi iniciado, havia pouco conhecimento no que se refere à exclusão enfrentada por afrodescendentes (os quais, de acordo com algumas estimativas, constituem quase um terço da população da região), portadores de deficiências e pessoas com HIV/aids. Não havia, tampouco, uma compreensão dos fatores que esses grupos tinham em comum e, portanto, não se compartilhavam planos de trabalho, experiências e lições aprendidas. Este livro coloca em primeiro plano não apenas as características comuns de grupos excluídos, como também as características específicas da exclusão enfrentada por afrodescendentes, portadores de deficiências e pessoas com HIV/aids.



“Embora a insuficiência de renda seja um fator fundamental, há consenso no sentido de que a exclusão social se refere a um conjunto de circunstâncias mais abrangentes do que a pobreza. A exclusão social está mais estreitamente relacionada ao conceito de pobreza relativa do que à pobreza absoluta e, portanto, está inextricavelmente vinculada à desigualdade. A exclusão social se refere não apenas à distribuição de renda e ativos (como as análises da pobreza), mas também à privação social e à ausência de voz e poder na sociedade.

Na América Latina, essa ausência de voz e poder talvez esteja mais fielmente refletida nos baixos níveis de representação dos grupos excluídos da tomada de decisões políticas. Em 2002, por exemplo, apenas 4,4% dos parlamentares brasileiros eram afrodescendentes, embora representassem quase a metade da população brasileira (A Tribuna de Santos, 29 de julho de 2002).”

(Mayra Buvinic)

 

 

“A exclusão social é “a incapacidade de um indivíduo de participar do funcionamento básico político, econômico e social da sociedade em que vive” (Tsakloglou e Papadopoulos, 2001). Ou, mais concisamente, é “a negação do acesso igualitário a oportunidades imposta por alguns grupos da sociedade a outros” (Behrman, Gaviria e Székely, 2003). A primeira definição apresenta a gama de comportamentos afetados pela exclusão, expondo sua natureza multidimensional. A segunda indica o que talvez sejam as duas características mais distintivas da exclusão: ela afeta grupos culturalmente definidos e está inserida nas interações sociais.”

(Mayra Buvinic)

 

 

“O acesso a bens de produção também rompe a pobreza estrutural dos grupos excluídos. Uma nova geração de programas de titulação de terras e reforma agrária beneficia as mulheres, os povos indígenas e os afrodescendentes, reconhecendo a propriedade coletiva e comunitária da terra quando relevante. A Lei 70 da Colômbia, de 1993, instituiu um programa de titulação coletiva de terras que concedeu 4,6 milhões de hectares de terras a afrodescendentes na costa do Pacífico, entre 1997 e 2000 (Grueso, 2002). Os programas de titulação de terras implementados na região na década de 1990 concederam às mulheres (especialmente as que chefiam lares agrícolas) a propriedade individual ou coletiva de terras (Deere e León, 2000). A experiência revela a importância da titulação de terras – e suas limitações. Para que a aquisição ou a titulação de terras resulte em aumento de produtividade, são necessários insumos complementares como capital e tecnologias. Os programas frequentemente fracassam quando a intervenção agrária não é corroborada por investimentos adicionais.”

(Mayra Buvinic)

 

 

“Apenas o governo federal pode assegurar tanto a transferência apropriada e eficaz de recursos quanto a boa coordenação das políticas nacionais.”

(Mayra Buvinic)

 

 

“A América Latina está à frente de outras regiões na implementação dessas quotas para mulheres, embora países de outras regiões a estejam alcançando rapidamente e, algumas vezes, implementando versões mais radicais. A França alterou sua constituição para exigir a igualdade de representação entre mulheres e homens em listas de candidatos, acrescentando uma multa financeira para os partidos que descumprem a decisão. Inicialmente aplicada nas eleições de 2001, a lei superou resistências profundamente enraizadas à participação da mulher na política. Onde a lei é aplicada, não há escassez de candidatas qualificadas, e o número de mulheres em cargos eletivos aumenta rapidamente (Gaspard, 2003).”

(Mayra Buvinic)

 

 

“A maioria dos governos instituiu órgãos ou departamentos especializados, encarregados de zelar pelos interesses dos excluídos. As mais de duas décadas de experiência com órgãos dedicados aos interesses da mulher sugerem que sua eficácia é frequentemente limitada por recursos inadequados e por sua situação marginal na máquina do governo. Além disso, a integração tende a ser uma batalha contínua para esses órgãos, sugerindo que esse esforço deve ser abordado modestamente, com uma perspectiva de longo prazo, e que atividades e orçamentos específicos constituem passos importantes na estrada para a inclusão plena.”

(Mayra Buvinic)

 

 

“Outras implicações de política surgem do fato de que a exclusão concentra as desigualdades nos grupos. As desigualdades baseadas em grupos instigam a mobilização e a defesa de direitos e, se não forem remediadas, podem gerar conflito e violência, especialmente em países com alto grau de desigualdade e diversidade étnica (Stewart, 2001; Easterly, 2002). A resposta deve vir sob a forma de políticas de inclusão social que utilizem as ferramentas de diálogo, a resolução de controvérsias e a negociação.”

(Mayra Buvinic)

 

 

“Na América Latina, a exclusão social se manifesta mais claramente na desigualdade persistente na distribuição de renda, o que leva a uma pobreza pior do que sugere o nível de desenvolvimento da região.”

(José Antonio Ocampo)

 

 

“A pobreza aumentou rapidamente na América Latina durante a “década perdida” dos anos 1980, tendo posteriormente experimentado uma redução gradual com a recuperação econômica ocorrida no período de 1990 a 1997. Mas esse avanço foi novamente interrompido durante a “meia década perdida” que se seguiu à crise da Ásia. O que é pior, a pobreza relativa nos últimos cinco anos – que afeta 44% da população – permanece acima dos níveis de 1980. O fato de a renda per capita estar apenas ligeiramente acima dos níveis registrados naquele ano é uma indicação inequívoca da deterioração distributiva registrada nas duas últimas décadas. E, a despeito de uma redução relativa, o número absoluto de pobres permaneceu em torno de 200 milhões entre 1990 e 1997, tendo aumentado para cerca de 220 milhões hoje.

As mudanças ocorridas na pobreza relativa têm sido irregulares. Embora o fator que mais tem afetado significativamente a pobreza seja o crescimento econômico, não tem havido uma relação automática entre o crescimento dos diferentes países e a evolução da pobreza. Essa relação somente é forte quando o crescimento é acompanhado da criação dinâmica de empregos de qualidade, o que não tem sido a tendência dominante. A instabilidade do crescimento econômico também tem sido um fator decisivo, uma vez que, na ausência de instituições de proteção social adequadas, as recessões têm atingido mais duramente os segmentos de menor renda. Ainda assim, alguns países têm conseguido reduzir a pobreza canalizando, de forma eficiente, as transferências monetárias do setor público para os setores menos favorecidos e contendo a hiperinflação.

Durante a “década perdida” houve uma acentuada deterioração na distribuição de renda. Na década de 1990, essa tendência persistiu na metade dos países da região, tendo sido claramente invertidas em apenas alguns deles (notadamente no Uruguai). Nenhum país da região apresenta níveis atuais de desigualdade inferiores àqueles registrados há três décadas e, em alguns países, esses níveis são ainda mais elevados. Essas tendências são ainda mais preocupantes em vista do fato de que a América Latina já era a região com maior desigualdade de distribuição de renda no mundo.”

(José Antonio Ocampo)

 

 

“Todos esses fatores ressaltam a importância de se obter maior estabilidade macroeconômica, no sentido mais abrangente do termo, que inclua não apenas controle fiscal e baixos níveis de inflação, como também a estabilidade do crescimento econômico e das contas externas. Atingir preços estáveis ou crescimento econômico rápido com taxas cambiais desfavoráveis é oneroso no longo prazo, como também o são políticas pró-cíclicas que agravam os efeitos de ciclos financeiros internacionais sobre as economias, ou uma aplicação excessivamente rigorosa dos objetivos de estabilização de preços que ignore outras dimensões da estabilidade e os custos de transação que podem ser gerados pelas políticas antiinflacionárias mais bem-intencionadas.”

(José Antonio Ocampo)

 

 

“A pobreza e a exclusão são realidades sociais injustas e um enorme desperdício de oportunidades econômicas.

Algumas características do mundo moderno corroboram ainda mais essa visão. As vantagens competitivas baseadas em salários baixos são frágeis e instáveis.”

(José Antonio Ocampo)

 

 

“As diferenças raciais e étnicas permeiam os indicadores de pobreza e desigualdade na América Latina. Em particular, a exclusão de afro-descendentes e indígenas do acesso a oportunidades e outras atividades constitui uma dimensão imaterial crucial da desigualdade e da pobreza. Essa exclusão se manifesta na falta de acesso à justiça e à participação social e política; aos mercados de ativos e crédito; às infra-estruturas adequadas (água e saneamento, transportes, habitação); aos serviços sociais (saúde e educação); e ao mercado de trabalho (emprego e salários satisfatórios).

(Jonas Zoninsein)

 

 

“A concepção de Amartya Sen do desenvolvimento como a remoção das barreiras à liberdade é apropriada – conceitual e metaforicamente – ao discurso sobre deficiências. Em sua opinião, inclusão significa a remoção das barreiras que deixam as pessoas com pouca ou nenhuma escolha ou oportunidade para expressar suas habilidades. Tradicionalmente, a justificativa para essa ação tem sido de ordem econômica: menos barreiras resultam em maior crescimento econômico. A remoção de barreiras que não resulta em crescimento é mais difícil de ser justificada da perspectiva econômica. Sen (1999) argumenta que a liberdade, ou uma sociedade sem barreiras, é um compromisso social que dispensa outra justificativa.”

(Ernest Massiah)

 

 

“A pobreza, mesmo quando amplamente definida como a exclusão do indivíduo dos meios necessários para sua plena participação nas atividades normais de uma sociedade é, mais do que qualquer outra coisa, uma questão de acesso a recursos e serviços. A exclusão social de um grupo, ou dos indivíduos que pertencem a esse grupo é, antes de tudo, uma negação de respeito, reconhecimento e direitos. A exclusão de grupos é “horizontal”, uma vez que pode afetar até mesmo os membros afluentes e privilegiados dos grupos excluídos. A exclusão – ou a forma como os indivíduos são tratados pelo fato de pertencer a um determinado grupo – é discriminação, quer seja motivada por preconceito ou por argumentação estatística.”

(Hilary Silver)

 

 

“As cotas devem ser vistas não como punições para aqueles que gozam de vantagens, mas sim como parte de uma combinação de ferramentas destinadas a promover o avanço positivo das populações que sofrem carências há várias gerações, em um contexto no qual as garantias civis costumam ser muito mais limitadas, e as populações excluídas, numerosas, além de expostas a carências ainda maiores em termos de salários, insegurança no local de trabalho e empregos de subsistência.”

(Jacqueline Mazza)

 

 

“Ao deixar o sistema educacional, os trabalhadores de muitos países latino-americanos se defrontam com sistemas de treinamento ocupacional de baixa qualidade, baseados em instituições estatais de grande porte, financiadas pelo setor público, com vínculos fracos com a demanda do setor privado e métodos modernos de treinamento. Enquanto os países europeus se dão ao “luxo” de focalizar o mercado de trabalho como o principal instrumento da política de inclusão social, na América Latina a melhoria da educação é sempre vista como o primeiro e crucial passo para o avanço da inclusão social.

Entretanto, o aumento e a melhoria da educação para as populações excluídas, por si só, não bastam para aprimorar seu desempenho no mercado de trabalho no longo prazo. Duryea e Pagés (2001) argumentam que a simples melhoria da educação não impulsionará a produtividade sem uma gama mais ampla de melhorias associadas à produtividade em áreas como infra-estrutura e crédito. A discriminação no mercado de trabalho e maior transparência na contratação também devem ser trabalhadas, para que a educação e o treinamento ocupacional se traduzam em aumento de contratações e na promoção das populações excluídas.”

(Jacqueline Mazza)

 

 

“Os antropólogos tendem a definir etnia como um conjunto de elementos culturais compartilhados por uma comunidade de indivíduos, no qual eles se baseiam para organizar seu cotidiano. Nas zonas rurais, a etnia é um atributo comumente associado às comunidades nativas, cujo contato com outras comunidades é limitado. Nos cenários urbanos, as características étnicas estão associadas à cultura, à religião, ao idioma, às tradições e à raça, entre outras dimensões.”

(Máximo Torero, Jaime Saavedra, Hugo Ñopo e Javier Escobal)

 

 

“Pobreza não é apenas a falta de bens materiais, mas também o fato de sentir-se distante da tomada de decisão e um senso de desvalorização que se manifesta como apatia, raiva e enfraquecimento de cultura cívica” (Richie-Vance, 1996, p. 9).

(Margarita Sánchez)

 

 

“No grego clássico, o termo “estigma” era empregado para descrever a marca de grupos proscritos como um sinal permanente de sua condição. As discussões mais recentes sobre o estigma, especialmente em relação ao HIV/aids, encontram seu ponto de partida no agora clássico trabalho de Goffman (1963), que definiu o estigma como “um atributo que é significativamente desonroso” e que inferioriza, aos olhos da sociedade, a pessoa que o possui.”

(Peter Aggleton, Richard Parker e Miriam Maluwa)

 

 

“Em resumo, a discriminação ocorre quando a diferenciação a que uma pessoa é submetida a leva a ser tratada de forma injusta e parcial pelo fato de pertencer – efetiva ou supostamente – a um grupo específico. A discriminação pode existir em vários níveis distintos, inclusive no nível do indivíduo, da comunidade ou da sociedade como um todo.”

(Peter Aggleton, Richard Parker e Miriam Maluwa)

 

 

“Um dos obstáculos mais significativos à formulação e implementação de políticas públicas focalizadas é a resistência insistente da sociedade em lidar com questões relacionadas a etnia e raça. Embora essa resistência esteja diminuindo gradualmente, a abordagem latino-americana ainda tende a dedicar atenção insuficiente às questões de raça na explicação das desigualdades observadas nos resultados sociais e políticos entre diferentes grupos. A tendência é reduzir a raça a uma classe e minimizar a extensão e o impacto da discriminação racial. Quando as antipatias raciais são reconhecidas, elas são vistas, de forma difusa, como relativamente benignas. Essa visão impede o desenvolvimento de prescrições políticas e de respostas programáticas à discriminação racial e étnica.

A neutralidade que o Estado latino-americano tenta demonstrar na construção da identidade nacional é desmentida pela resposta diferenciada que dá aos grupos sociais e políticos. Seu papel não é meramente reativo. Ao contrário, ele desempenha um papel fundamental e crucial na formação de identidades raciais (Nobles, 2000; Marx, 1998). Ao fazê-lo, os Estados podem restringir a organização política e social baseada na identidade. Os dados mostram, claramente, que a discriminação baseada na cor da pele é um fenômeno econômico, social e político real (ver Lovell, 1999; Lovell e Wood, 1998; Hasenbalg, 1979; do Valle Silva, 1994; da Silva, 1994). A formulação de políticas, de leis e de programas destinados a abordar essa situação é tanto imperativa quanto factível, e não deve ser refém de debates infindáveis sobre categorização.”

(Eva T. Thorne)

terça-feira, 14 de junho de 2011

Em busca do tempo perdido: No Caminho de Swann, de Marcel Proust

Editora: Ediouro

ISBN: 978-85-0002-553-2

Tradução: Fernando Py

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 331

Sinopse: Em 1907, Marcel Proust começa a escrever sua obra prima: Em Busca do Tempo Perdido, composta por 7 volumes diferentes. O volume No Caminho de Swan foi publicado em 1913, após ter sido recusado por quatro editoras. Em 1918 publica-se À Sombra das Moças em Flor, romance que obteve o Prêmio Goncourt de 1919 – única láurea conseguida pelo autor em vida. Nos anos seguintes são publicados os demais títulos: O Caminho de Guermantes, Sodoma e Gomorra e A Prisioneira. O volume A Fugitiva foi publicado em 1925 com o título de Albertina Desaparecida e O Tempo Recuperado foi dado ao público em 1927.

Nos sete romances que compõem o ciclo de Em Busca do Tempo Perdido o autor perpassa não somente a vida exterior, episódica e histórica de personagens e da própria França, com alguns ecos de fatos ocorridos na Europa e no mundo inteiro, mas, acima de tudo, a vida interior, as sensações, paixões, sentimentos e emoções do narrador e demais personagens, todos envoltos numa atmosfera de análises psicológicas minuciosas e implacáveis.

Embora a realidade do ciclo se baseie na vida de Proust, a sua transposição para o plano ficcional obedece a leis internas da narrativa e, sobretudo, à imaginação criadora do autor, afastando-se muito da realidade factual. Os principais temas do ciclo são o Tempo e a Memória. Proust analisa a passagem do tempo em seus personagens, mostrando como eles apresentam aspectos diversos no decorrer da narrativa, mudam de ideias, de gostos, de sentimentos e, às vezes, até de personalidade.

E é a memória, não a memória comum, mas a memória involuntária, aquela que não depende do esforço consciente de recordar, mas que está adormecida em nós, que nos restitui o passado já remoto, fazendo com que o narrador possa enfim recuperar o Tempo Perdido e realizar a obra literária que tanto almejava construir.

“O hábito! arrumadeira hábil mas bastante morosa e que principia por deixar sofrer nosso espírito durante semanas numa instalação provisória; mas que, apesar de tudo, a gente se sente bem feliz ao encontrá-la, pois sem o hábito e reduzido a seus próprios meios, seria nosso espírito impotente para tornar habitável qualquer aposento.”

 

 

“Já adulto pela covardia, eu fazia o que todos fazemos, quando somos grandes, e há diante de nós sofrimentos e injustiças: não queria vê-los.”

 

 

“Acho bem razoável a crença céltica de que as almas das pessoas que perdemos se mantêm cativas em algum ser inferior, um animal, um vegetal, uma coisa inanimada, e de fato perdidas para nós até o dia, que para muitos não chega jamais, em que ocorre passarmos perto da árvore, ou entrarmos na posse do objeto que é sua prisão. Então elas palpitam, nos chamam, e tão logo as tenhamos reconhecido o encanto se quebra. Libertas por nós, elas venceram a morte e voltam a viver conosco.

O mesmo se dá com o nosso passado. É trabalho baldado procurar evocá-lo, todos os esforços de nossa inteligência serão inúteis. Está escondido, fora de seu domínio e de seu alcance, em algum objeto material (na sensação que esse objeto material nos daria), que estamos longe de suspeitar. Tal objeto depende apenas do acaso que o reencontremos antes de morrer, ou que o não encontremos jamais.”

 

 

“– Mas estou fazendo você perder seu tempo, minha filha.

– Ora, não, senhora Octave. Meu tempo não é assim tão caro. Quem fez o tempo não o vendeu para a gente.”

 

 

“– Adoro os artistas – respondeu a dama cor-de-rosa –, só eles é que compreendem as mulheres...”

 

 

“Depois desta crença central que, durante a leitura, executava movimentos incessantes de dentro para fora, no sentido da descoberta da verdade, vinham as emoções que me dava a ação na qual tomava parte, pois as tardes eram mais cheias de acontecimentos dramáticos do que, muitas vezes, uma vida inteira. Eram os acontecimentos que ocorriam no livro que estava lendo; é verdade que as personagens a quem interessavam não eram “reais”, como dizia Françoise. Mas todos os sentimentos que nos fazem experimentar a alegria ou a desgraça de uma personagem real só ocorrem em nós por intermédio de uma imagem dessa alegria ou dessa desgraça; a engenhosidade do primeiro romancista consistiu em compreender que, no aparelho das nossas emoções, sendo a imagem o único elemento essencial, a simplificação que consistiria em suprimir pura e simplesmente as personagens reais seria um aperfeiçoamento decisivo. Um ser real, por mais profundamente que simpatizemos com ele, em grande parte só o percebemos através dos sentidos, isto é, permanece opaco para nós, oferece um peso morto que nossa sensibilidade não consegue erguer. Se uma desgraça o atinge, esta só poderá nos comover numa pequena parte da noção global que temos dele, e ainda mais, só numa pequena parte da noção total que tem de si mesmo é que sua própria desgraça poderá comovê-lo. O achado do romancista foi ter tido a ideia de substituir essas partes impenetráveis à alma por uma quantidade idêntica de partes materiais, isto é, que nossa alma pode assimilar. Desde então, que importa que as ações, as emoções desses seres de um novo tipo nos pareçam verdadeiras, visto que fizemo-las nossas, que é dentro de nós que se produzem, que mantêm sob seu domínio, enquanto viramos febrilmente as páginas do livro, a rapidez da nossa respiração e a intensidade do nosso olhar. E uma vez que o romancista nos pôs nesse estado, no qual, como em todos os estados exclusivamente interiores, toda emoção é duplicada, e onde seu livro vai perturbar-nos, à maneira de um sonho, mas de um sonho mais claro que os que temos ao dormir, e cuja lembrança vai durar mais, então, eis que ele deflagra em nós, durante uma hora, todas as fortunas e todas as desgraças possíveis, algumas das quais iríamos levar a vida inteira para conhecer, ao passo que outras, as mais intensas, jamais nos seriam reveladas porque a lentidão com que se produzem impede que as percebamos. (Assim vai mudando o nosso coração, durante a vida, e esta é a pior das dores; porém só a conhecemos através da leitura, pela imaginação: na realidade o coração se transforma da mesma maneira como se produzem certos fenômenos da natureza, tão vagarosamente que, embora possamos verificar de modo sucessivo seus estados diferentes, em compensação nos foge a própria sensação da mudança.)”

 

 

“Até as mulheres que pretendem avaliar um homem só pelo físico, veem neste físico a emanação de uma vida especial. É por isso que amam os militares, os bombeiros; o uniforme as faz menos exigentes para o rosto; julgam beijar, por baixo da couraça, um coração diferente, aventuroso e suave; e um jovem soberano, um príncipe herdeiro, para efetuar as conquistas mais lisonjeiras nos países estranhos que visita, não precisa ter o perfil regular que talvez fosse indispensável a um corretor da Bolsa.”

 

 

“Os fatos não penetram no mundo em que vivem nossas crenças, não as fizeram nascer, não as destroem; podem infligir-lhes os desmentidos mais constantes sem enfraquecê-las, e um aluvião de desgraças ou de doenças, sucedendo-se ininterruptamente numa família, não a fará duvidar da generosidade de seu Deus ou do talento de seu médico.”

 

 

“A indiferença pelos sofrimentos que causamos e que, mesmo com os mais diversos nomes que se lhe deem, é a forma terrível e constante da crueldade.”

 

 

“De todas as formas de produção do amor, de todos os agentes de disseminação do mal sagrado, um dos mais efetivos é esse turbilhão agitado que por vezes passa por nós. Então, o ser com quem nos divertimos nesse instante – a sorte está lançada – há de ficar sendo a pessoa amada. Nem há necessidade que até aquele momento nos tenha agradado mais que as outras. Precisava era que o nosso gosto por ela se tornasse exclusivo. E semelhante condição se realiza quando – no momento em que ela nos fez falta – a busca de prazeres que sua convivência nos trazia é de repente substituída em nós por uma necessidade angustiosa, que tem por objeto essa mesma pessoa, uma necessidade absurda, que as leis deste mundo tornam de satisfação impossível e de difícil cura: a precisão insensata e dolorosa de possuí-lo.”

 

 

“– Sim, a poesia... Não tenho dúvidas de que não haveria nada mais belo se fosse verdadeira, se os poetas pensassem tudo aquilo que dizem. Porém, muitas vezes, não existe ninguém mais interesseiro do que eles. Sei disso, eu tinha uma amiga que se apaixonou por um tipo de poeta. Nos seus versos ele só falava do amor, do céu e das estrelas. Ah, que de nada adiantou a ela! Ele lhe roubou mais de trezentos mil francos.”

 

 

“E que verdade dolorosa assumiam para ele estas linhas do Diário de um Poeta de Alfred de Vigny, que antigamente havia lido com indiferença: “Quando a gente se apaixona por uma mulher, devemos dizer: De que forma ela está cercada? Qual foi a sua vida? Toda a felicidade da vida se apoia nisto”.”

 

 

“Não sabia eu então que o que sentia por ela não dependia nem de seus atos nem de minha vontade?”

terça-feira, 10 de maio de 2011

O clube dos anjos: gula, de Luis Fernando Verissimo

Editora: Objetiva

ISBN: 978-85-7302-988-8

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 144

Sinopse: Não é todo dia que se quer ouvir uma crocante fuga de Bach mas todos os dias se quer comer. A fome é o único desejo reincidente, pois a visão acaba, a audição acaba, o sexo acaba, o poder acaba – mas a fome continua. Sentar-se à mesa com os amigos, saborear o seu prato preferido e se entregar ao prazer de comer, louca e apaixonadamente. Depois? Depois a morte. Mas isso só parecia acentuar a delícia de sabores irrecusáveis, o paladar em estado de exaltação, a bênção de um destino escolhido.

O Clube dos Anjos, de Luis Fernando Verissimo, é uma insólita e bem-humorada celebração da gula. O livro conta a história de dez homens que se entregaram a esta afinidade animal, a fome em bando – sem temer a morte. Na verdade, a perspectiva de morrer só aumentaria, para eles, o prazer na comida, e o desafio filosófico da gastronomia: a apreciação que exige a destruição do apreciado.

 

“As histórias de mistério são sempre tediosas buscas de um culpado, quando está claro que o culpado é sempre o mesmo. Não é preciso olhar a última página, leitor, o nome está na capa: é o autor.”

 

 

“Ele move-se com discrição e faz poucos gestos. Senta com as costas retas e quase não mexe a cabeça. Eu nunca chego, simplesmente, numa cadeira ou mesa, eu atraco. Um processo difícil, na falta de rebocadores. Naquele dia, derrubei um açucareiro e quase derrubei a mesa e deixei cair o vinho antes de encontrar minha posição na cadeira e chamar a garçonete. Minha namorada, a coitada da Lívia, sempre diz que eu nunca sei de quanto espaço preciso, e que isso vem de uma infância de gordo mimado. Algo a ver com ser um filho único que nunca conheceu limites. A coitada da Lívia é psicóloga e nutricionista, há anos que tenta me salvar. Eu não sou o seu amante, sou a sua causa. Já tive três mulheres e as três queriam o meu dinheiro. A Lívia não quer o meu dinheiro. Quer ser a mulher que me recuperará, o que eu acho muito mais interesseiro e assustador. Talvez por isso eu resista tanto a casar com ela, quando não resisti nada a casar com as outras, mesmo sabendo que não me amavam pela minha barriga.”

 

 

“Éramos tão vorazes, no começo, que qualquer coisa menos que o mundo equivaleria a um coito interrompido.”

 

 

“– O que está escrito no plástico?

– É um ideograma japonês, com várias traduções possíveis. Pode ser “Todo desejo é um desejo de morte” ou “A fome é um cocheiro sem ouvidos” ou “O sábio e o louco usam os mesmos dentes”.

– Tudo isso num ideograma?

– Sabe como são os orientais.”

 

 

“Adoro histórias estranhas. Quanto mais improváveis, mais eu acredito.”

 

 

“Depois telefonei para o João, que também relutou. Talvez fosse, talvez não fosse. Estava pensando em deixar o Clube. A reunião do Natal tinha lhe mostrado que estava na hora de parar. “Senão vou acabar dando um soco no Paulo”. Em vinte e um anos, João só faltara às reuniões do Clube durante o tempo em que desaparecera para fugir de pessoas cujo dinheiro tinha perdido e que queriam matá-lo, no que só mostravam, segundo Samuel, uma chocante incompreensão do espírito capitalista. Samuel instruía os credores a quebrar vários ossos do João, menos os que lhe permitiriam recuperar seu dinheiro, em vez de matá-lo. E chegava a oferecer uma lista dos ossos que João não precisaria para ganhar dinheiro e pagar a todos. Mas fora ele quem mais ajudara o João, inclusive escondendo-o dos credores furiosos em sua casa. De onde nos trazia notícias periódicas do asilado. “Está de ótimo humor. Não consigo convencê-lo a se suicidar”. E completava com uma das suas citações obscuras: “Um dos maiores enganos da humanidade a seu próprio respeito é que existe o remorso”.”

 

 

“Voltei para o grupo no velório. Contei que o André estava bem e perguntei se havia alguma novidade, só para não ficar quieto. Não sei ficar quieto. O João respondeu que o morto pulara do caixão, dera alguns passos de tango em volta da capela e se deitara de novo, mas fora isso nada.”

 

 

“Pedro também aparecia pouco. Vivia enclausurado. Não ia à escola, tinha professores particulares, estava sendo preparado para assumir a direção da empresa da família. Além disso, sua mãe, a dona Nina, tinha a psicose do contágio. Sofria com a ideia do seu Pedrinho tendo contato com as impurezas do mundo, entre as quais nos incluía. Principalmente eu, que não trouxera da infância o apelido de Cascão Falante sem merecimento.”

 

 

“O homem é o único animal que sempre quer mais do que precisa. O homem é o homem porque quer mais.”