segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Os sertões: campanha de canudos (Parte III), de Euclides da Cunha

Editora: Clube de Literatura Clássica

ISBN: 978-65-8703-620-5

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 690

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Sinopse: Ver Parte I


 

A GUERRA DAS CAATINGAS

Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência, perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes — e formulam leis para a guerra, pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais78 — guerreiros de cujas mãos caiu o franquisque79 heroico trocado pelo lápis calculista — se ouvissem a alguém que às caatingas pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens.

Porque estas, malgrado a sua importância para a defesa do território — orlando as fronteiras e quebrando o embate às invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias — se tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente, aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais opostos valores.

Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis, ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.

E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue80, intangível...

As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.

Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos em torcicolos, aforradamente.81 E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas, nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas, prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.

É que nada pode assustá-los. Certo82, se os adversários imprudentes com eles se afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heróicos...

De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...

A bala passa, rechinante,83 ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas, outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.

Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.

E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita, pela frente agora, irrompendo de toda a banda.

Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de batalhões constritos na vareda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...

Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores invisíveis batendo em cheio nas fileiras.

A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz; — e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas. Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o antagonismo formidável da caatinga.

As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que Ihes arrebata das mãos as armas, e não vingam84 transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando, adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...

Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos85 recurvos das macambiras...

Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; — enquanto em torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem inflexivelmente os projetis do adversário.

De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.

As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes;86 claudicando, estropiados; mal reprimindo o doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...

Reorganiza-se a tropa. Renova-se a marcha. A coluna estirada a dois de fundo87 deriva pelas veredas em fora, estampando no cinzento da paisagem o traço vigoroso das fardas azuis listradas de vermelho e o coruscar intenso das baionetas ondulantes. Alonga-se; afasta-se; desaparece.

Passam-se minutos. No lugar da refrega, então, surgem, dentre moitas esparsas, cinco, dez, vinte homens no máximo. Deslizam, rápidos, em silêncio, entre os arbúsculos secos...

Agrupam-se na estrada. Consideram por momentos a tropa, indistinta, ao longe; e, sopesando as espingardas ainda aquecidas, tomam precípites pelas veredas dos pousos ignorados.

A força vai prosseguindo mais cautelosa agora.

Subjugam o ânimo dos combatentes, caminhando em silêncio, o império angustioso do inimigo impalpável e a expectativa torturante dos assaltos imprevistos. O comandante rodeia-os de melhores resguardos: ladeiam-nos companhias dispersas, pelos flancos: duzentos metros na frente, além da vanguarda, norteia-os um esquadrão de praças escolhidas.

No descair de encosta agreste, porém, escancela-se88 um sulco de quebrada que é preciso transpor. Felizmente as barrancas, esterilizadas dos enxurros, estão limpas: escassos restolhos89 de gramíneas; cactos esguios avultando raros, entre blocos em monte; ramalhos mortos de umbuzeiros alvejando na estonadura90 da seca...

Desce por ali a guarda da frente. Seguem-se-lhe os primeiros batalhões. Escoam-se, vagarosas, as brigadas pela ladeira agreste. Embaixo, coleando91 nas voltas do vale estreito já está toda a vanguarda, armas fulgurantes, feridas pelo sol, feito uma torrente escura transudando92 raios...

E um estremecimento, choque convulsivo e irreprimível, fá-la estacar de súbito.

Passa, ressoando, uma bala.

Desta vez os tiros partem, lentos, de um só ponto, do alto, parecendo feitos por um atirador único.

A disciplina contém as fileiras; debela o pânico emergente; e, como anteriormente, uma seção se destaca e vai, encosta acima, rastreando a direção dos estampidos. O torvelinho dos ecos numerosos, porém, torna aquela variável; e os tiros não revelados, porque o fumo não se condensa naqueles ares ardentes, continuam lentos, assustadores, seguros.

Afinal cessam. Soldados esparsos pelos pendores pesquisam-nos inutilmente.

Volvem exaustos. Vibram os clarins. A tropa renova a marcha com algumas praças de menos. E quando as últimas armas desaparecem, ao longe, na última ondulação do solo, desenterra-se de montões de blocos — feito uma cariátide sinistra em ruínas ciclópicas93 — um rosto bronzeado e duro; depois um torso de atleta, encourado e rude; e transpondo velozmente as ladeiras vivas desaparece, em momentos, o trágico caçador de brigadas...

Estas seguem desenfluídas94 de todo. Daí por diante velhos lutadores têm pavores de crianças. Há estremecimentos em cada volta do caminho, a cada estalido seco nas macegas. O exército sente na própria força a própria fraqueza.

Sem plasticidade segue numa exaustão contínua pelos ermos, atormentado no golpear das ciladas, lentamente sangrado pelo inimigo, que o assombra e que foge.

A luta é desigual. A força militar decai a um plano interior Batem-na o homem e a terra. E quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória. Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos95 de baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo um seio carinhoso e amigo.

Então — nas quadras indecisas entre a seca e o verde, quando se topam os últimos fios de água no lodo das ipueiras e as últimas folhas amarelecidas nas ramas das baraúnas, e o forasteiro se assusta e foge ante o flagelo iminente, aquele segue feliz nas travessias longas, pelos desvios das veredas, firme na rota como quem conhece a palmo todos os recantos do imenso lar sem teto. Nem lhe importa que a jornada se alongue, e as habitações rareiem, e se extingam as cacimbas e escasseiem, nas baixadas, os abrigos transitórios, onde sesteiam96 os vaqueiros fatigados.

Cercam-lhe relações antigas. Todas aquelas árvores são para ele velhas companheiras. Conhece-as todas. Nasceram juntos; cresceram irmãmente; cresceram através das mesmas dificuldades, lutando com as mesmas agruras, sócios dos mesmos dias remansados.

O umbu desaltera-o e dá-lhe a sombra escassa das derradeiras folhas; o araticum, ouricuri virente, a mari elegante, a quixaba de frutos pequeninos, alimentam-no a fartar; as palmatórias, despidas em combustão rápida dos espinhos numerosos, os mandacarus talhados a facão, ou as folhas dos juás — sustentam-lhe o cavalo; os últimos lhe dão ainda a cobertura para o rancho provisório; os caroás fibrosos fazem-se cordas flexíveis e resistentes... E se é preciso avançar a despeito da noite, e o olhar afogado no escuro apenas lobriga a fosforescência azulada das cunanãs97 dependurando-se pelos galhos como grinaldas fantásticas, basta-lhe partir e acender um ramo verde de candombá98 e agitar pelas veredas, espantando as suçuaranas deslumbradas, um archote fulgurante...

A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu,99 indomável. É um titã bronzeado fazendo vacilar a marcha dos exércitos.”

76. Nota do autor: Vide a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, As instruções régias de 24 de fevereiro de 1775 ao capitão-general das Minas. 77. Os algarismos romanos devem ser lidos como números ordinais. 78. Marechais de campo, o posto mais alto da hierarquia militar alemã e austríaca. 79. Machado de dois gumes, típicos dos guerreiros francos. 80. “Tugue” é a grafia portuguesa de thug. Os tugues eram um grupo de guerrilheiros indianos que pertenciam a uma seita que venerava a deusa Kali em particular. Foram famosos assassinos. 81. Ligeiramente, sem embaraços. 82. Certamente. 83. Chiando, sibilante. 84. Não conseguem. 85. Espinhos. 86. Ferimentos na face. 87. Em duas filas, uma ao lado da outra. 88. Abre-se, escancara-se. 89. Caules enraizados. 90. Descascamento (dos galhos). 91. Deslizando (como uma serpente). 92. Difundindo. 93. Gigantescas. 94. Esmorecidas. 95. Garras. 96. Fazem a sesta. 97. Arbustos que produzem uma cera utilizada para iluminação. 98. Planta da qual se extrai uma resina com que se produz uma massa impermeável, usada para fazer reparos em estruturas. Sua madeira era muito utilizada para fazer tochas. 99. Na mitologia grega, gigante filho de Posídon e Gaia (Terra). Obtinha sua força do contato com a terra. Por isso, para matá-lo, Héracles teve que erguê-lo do solo.

 

 

“Ora, nos sucessos guerreiros entra, como elemento paradoxal embora, a preocupação da derrota. Está nela o melhor estímulo dos que vencem. A história militar é toda feita de contrastes singulares. Além disto a guerra é uma coisa monstruosa e ilógica em tudo. Na sua maneira atual é uma organização técnica superior. Mas inquinam-na todos os estigmas do banditismo original. Sobranceiras ao rigorismo da estratégia, aos preceitos da tática, à segurança dos aparelhos sinistros, a toda a altitude de uma arte sombria, que põe dentro da frieza de uma fórmula matemática o arrebentamento de um schrapnel21 e subordina a parábolas invioláveis o curve violento das balas, permanecem — intactas — todas as brutalidades do homem primitivo. E estas são, ainda, a vis a tergo22 dos combatentes.

A certeza do perigo estimula-as. A certeza da vitória deprime-as.”

21. Projétil que contém uma câmara com uma carga de pólvora e balas de chumbo; disparado pelos canhões Krupp, em sua trajetória descendente, o projétil é detonado e descarrega as balas de chumbo. O nome shrapnel provém de seu inventor, Henry Shrapnel (1761-1842), oficial inglês. 22. “Força [vindo] das costas”, isto é, de trás para frente. Essa expressão latina é usada na medicina para descrever o movimento gerado pela sístole, em que o sangue arterial é passado para o lado venoso.

 

 

Cabe à sociedade, nessa ocasião, dar-lhe a camisa de força ou a púrpura. Porque o princípio geral da relatividade abrange as mesmas paixões coletivas. Se um grande homem pode impor-se a um grande povo pela influência deslumbradora do gênio, os degenerados perigosos fascinam com igual vigor as multidões tacanhas.”

 

 

Principiou a fracionar-se em conflitos perigosos e inúteis, numa dissipação inglória do valor. Era inevitável. Canudos, entretecido de becos de menos de dois metros de largo, trançados, cruzando-se em todos os sentidos, tinha ilusória fragilidade nos muros de taipa que o formavam. Era pior que uma cidadela inscrita em polígonos ou blindada de casamatas espessas. Largamente aberto aos agressores que podiam derruí-lo a coices de arma, que podiam abater-lhe a pulso as paredes e tetos de barro, ou vará-lo por todos os lados, tinha a inconsistência e a flexibilidade traiçoeira de uma rede desmesurada. Era fácil investi-lo, batê-lo, dominá-lo, varejá-lo, aluí-lo; era dificílimo deixá-lo. Completando a tática perigosa do sertanejo, era temeroso porque não resistia. Não opunha a rijeza de um tijolo à percussão e arrebentamento das granadas, que se amorteciam sem explodirem, furando-lhe de uma vez só dezenas de tetos. Não fazia titubear a mais reduzida seção assaltante, que poderia investi-lo, por qualquer lado, depois de transposto o rio. Atraía os assaltos; e atraía irreprimivelmente o ímpeto das cargas violentas, porque a arremetida dos invasores, embriagados por vislumbres de vitória, e disseminando-se, divididos pelas suas vielas em torcicolos, lhe era o recurso tremendo de uma defesa surpreendedora.

Na história sombria das cidades batidas, o humílimo vilarejo ia surgir com um traço de trágica originalidade.

Intacto — era fragílimo; feito escombros — formidável.

Rendia-se para vencer, aparecendo, de chofre, ante o conquistador surpreendido, inexpugnável e em ruínas.

Porque a envergadura de ferro de um exército, depois de o abalar e desarticular todo, esmagando-o, tornando-o montão informe de adobes e madeiras roliças, se sentia inopinadamente manietada, presa entre tabiques vacilantes de pau a pique e cipós, à maneira de uma suçuarana inexperta agitando-se, vigorosa e inútil, nas malhas de armadilha bem feita.

A prática venatória dos jagunços inspirara-lhes, talvez, a criação pasmosa da “cidadela-mundéu”...

Ora, as tropas do coronel Moreira César faziam-na desabar sobre si mesmas.

A princípio, transposto o Vaza-Barris, a despeito de algumas baixas, o acometimento figurara-se fácil. Um grupo, arrastado por subalternos valentes, arrancara atrevidamente contra a igreja nova, sem efeito algum compensando-lhe o arrojo, perdendo dois oficiais e algumas praças. Outros, porém, contornando aquele núcleo resistente, lançaram-se às primeiras casas marginais ao rio. Tomaram-nas e incendiaram-nas; enquanto os que as guarneciam fugiam, adiante, em busca de outros abrigos. Perseguiram-nos. E nesse perseguir tumultuário, realizado logo nos primeiros minutos do combate, começou a esboçar-se o perigo único e gravíssimo daquele fossado monstruoso; os pelotões dissolviam-se. Entalavam-se nas vielas estreitas, enfiando a dois de fundo por ali dentro, atropeladamente. Torciam centenares de esquinas que se sucediam de casa em casa; dobravam-nas em desordem, de armas suspensas uns, atirando outros ao acaso, à toa, para a frente; e dividiam-se, a pouco e pouco, em seções pervagantes para toda a banda; e partiam-se, estas, por seu turno, em grupos aturdidos cada vez mais dispersos e rarefeitos, dissolvendo-se ao cabo em combatentes isolados...

De longe se tinha o espetáculo estranho de um entocamento de batalhões, afundando, de súbito, no casario indistinto, em cujos tetos de argila se enovelava a fumarada dos primeiros incêndios.

Deste modo, o ataque assumiu logo o caráter menos militar possível. Diferenciou-se em conflitos parciais no cunhal143 das esquinas, à entrada e dentro das casas.

Estas eram tumultuariamente investidas. Não opunham o menor tropeço. Escancarava-as um coice de arma nas portas ou nas paredes, rachando-as, abrindo por qualquer lado passagens francas. Estavam vazias muitas. Noutras os intrusos tinham, de repente, abocado ao peito um cano de espingarda, ou baqueavam batidos de tiros à queima-roupa, rompendo dos resquícios das paredes. Acudiam-nos os companheiros mais próximos. Enredava-se o pugilato corpo a corpo, brutalmente, até que os soldados, mais numerosos, transpusessem o portal estreito do casebre. Lá dentro, encouchado144 num recanto escuro, o morador repelido descarregava-lhes em cima o último tiro e fugia. Ou então esperava-os a pé firme, defendendo tenazmente o lar paupérrimo. E revidava terrivelmente — sozinho — em porfia com a matula vitoriosa, com a qual se afoitava, apelando para todas as armas: repelindo-a a faca e a tiro; vibrando-lhe foiçadas; aferroando-a com a aguilhada; arremessando-lhe em cima os trastes miseráveis; arrojando-se, afinal, ele próprio, inerme, desesperadamente, resfolegando, procurando estrangular o primeiro que lhe caísse entre os braços vigorosos. Em torno mulheres desatinadas disparavam em choros, e rolavam pelos cantos; até baquear no chão, cosido à baioneta ou esmoído a coronhadas, pisoado sob o rompão145 dos coturnos, o lutador temerário.

Reproduziam-se tais cenas.

Quase sempre, depois de expugnar a casa, o soldado faminto não se forrava à ânsia de almoçar, afinal, em Canudos. Esquadrinhava os jiraus suspensos. Ali estavam carnes secas ao sol; cuias cheias de paçoca, a farinha de guerra do sertanejo; aiós repletos de ouricuris saborosos. A um canto os bogós transudantes, túmidos de água cristalina e fresca. Não havia resistir. Atabalhoadamente fazia a refeição num minuto. Completava-a largo trago de água. Tinha, porém, às vezes, um pospasto146 crudelíssimo e amargo — uma carga de chumbo...

Os jagunços à porta assaltavam-no. E invertiam-se os papéis, revivendo o conflito, até baquear no chão — cosido à faca e moído a pauladas, pisado pela alpercata dura o lutador imprudente.

Muitos se perdiam no inextricável dos becos. Correndo no encalço do sertanejo em fuga, topavam, de súbito, na frente, desembocando doma esquina, cerrado magote de inimigos. Estacavam, atônitos, apenas o tempo necessário para uma pontaria mal feita e uma descarga; e recuavam, depois, metendo-se pelas casas dentro, onde os salteavam, às vezes, novos agressores entocaiados; ou arrolavam-se atrevidamente, dispersando o agrupamento antagonista e dispersando-se — reeditando os mesmos episódio; animados todos pela ilusão de uma vitória vertiginosamente alcançada, de que lhes eram sintoma claro toda aquela desordem, todo aquele espanto, todo aquele alarido e todo aquele pavor do povoado revolto e miserando — alarmado à maneira de um curral invadido por onças bravias e famulentas.

De resto, não tinham insuperáveis obstáculos enfreando-lhes o ímpeto. Os valentes temerários, que apareciam em vários pontos, defendendo os lares, tinham o contrapeso do mulherio acobardado, sacudido das casas a pranchada, a bala e a fogo, e fugindo para toda a banda, clamando, rezando; ou uma legião armada de muletas—velhos trementes, aleijões de toda espécie, enfermos abatidos e mancos.

De sorte que nestas correrias desapoderadas, presos pela vertigem perseguidora, muitos se extraviaram, às tontas, no labirinto das vielas; e, tentando aproximar-se dos companheiros, desgarravam-se mais e mais — quebrando, a esmo, mil esquinas breves, perdidos por fim, no arraial convulsionado e imenso.”

143. Ângulo, saliência formada pelo encontro de duas paredes, quina. 144. Agachado. 145. Salto. 146. Sobremesa.

 

 

A maioria, porém, considerava friamente as coisas. Não se iludia. Um rápido confronto entre a tropa que chegara horas antes, entusiasta e confiante na vitória e a que ali estava, vencida, patenteava-lhe uma solução única — a retirada.

Não havia alvitrar outro recurso, ou protraí-lo161 sequer.

Às onze horas, juntos os oficiais, adotaram-no, unânimes. Um capitão de infantaria foi incumbido de cientificar da resolução o coronel Moreira César. Este impugnou-a logo, dolorosamente surpreendido; a princípio calmo, apresentando os motivos inflexíveis do dever militar e demonstrando que ainda havia elementos para uma tentativa qualquer, mais de dois terços da tropa apta para o combate e munições suficientes; depois, num crescendo de cólera e de angústia, se referiu à mácula que para sempre lhe sombrearia o nome. Finalmente explodiu: não o sacrificassem àquela cobardia imensa...

Apesar disto manteve-se a resolução.

Era completar a agonia do valente infeliz. Revoltado, deu a sua última ordem: fizessem uma ata de tudo aquilo, deixando-lhe margem para um protesto, em que incluiria o abandono da carreira militar.

A dolorosa reprimenda do chefe ferido por duas balas não moveu, contudo, a oficialidade incólume.

Rodeavam-na, perfeitamente válidos ainda, centenares de soldados, oitocentos talvez; dispunha de dois terços das munições e estava em posição dominante sobre o inimigo...

Mas a luta sertaneja começara, naquela noite, a tomar a feição misteriosa que conservaria até o fim. Na maioria mestiços, feitos da mesma massa dos matutos que os soldados, abatidos pelo contragolpe de inexplicável revés, em que baqueara o chefe reputado invencível, ficaram sob a sugestão empolgante do maravilhoso, invadidos de terror sobrenatural, que extravagantes comentários agravavam.

O jagunço, brutal e entroncado,162 diluía-se em duende intangível. Em geral os combatentes, alguns feridos mesmo no recente ataque, não haviam conseguido ver um único; outros, os da expedição anterior, acreditavam, atônitos e absortos ante o milagre estupendo, ter visto, ressurretos, dois ou três cabecilhas que, afirmavam convictos, tinham sido mortos no Cambaio; e para todos, para os mais incrédulos mesmo, começou a despontar algo de anormal nos lutadores-fantasmas, quase invisíveis, ante os quais haviam embatido impotentes, mal os lobrigando, esparsos e diminutos, rompendo temerosos dentre ruínas, e atravessando incólumes os braseiros dos casebres em chamas.

É que grande parte dos soldados era do Norte, e criara-se ouvindo, em torno, de envolta com o dos heróis dos contos infantis, o nome de Antônio Conselheiro. E a sua lenda extravagante, os seus milagres, as suas façanhas de feiticeiro sem par, apareciam-lhes — então — verossímeis, esmagadoramente, na contraprova tremenda daquela catástrofe.

Pelo meio da noite todas apreensões se avolumaram. As sentinelas cabeceavam nas fileiras frouxas do quadrado, estremeceram, subitamente despertas, contendo gritos de alarma.

Um rumor indefinível avassalara a mudez ambiente e subia pelas encostas. Não era, porém, um surdo tropear de assalto. Era pior. O inimigo, embaixo, no arraial invisível — rezava.

E aquela placabilidade extraordinária — ladainhas tristes, em que predominavam, ao invés de brados varonis, vozes de mulheres, surgindo da ruinaria de um campo de combate — era, naquela hora, formidável. Atuava pelo contraste. Pelo burburinho da soldadesca pasma, os kyries* estropiados e dolentes entravam, piores que intimações enérgicas. Diziam, de maneira eloquente, que não havia reagir contra adversários por tal forma transfigurados pela fé religiosa.

A retirada impunha-se.

Pela madrugada uma nova emocionante tornou-a urgentíssima. Falecera o coronel Moreira César.”

162. Robusto, corpulento. * “Kyrie eleison”, expressão grega que significa “Senhor, tende piedade”, muitas vezes cantada nas missas.

 

 

Levaram para o arraial os quatro Krupps; substituíram nas mãos dos lutadores da primeira linha as espingardas velhas de carregamento moroso pelas Mannlichers e Comblains fulminantes; e como as fardas, cinturões e bonés, tudo quanto havia tocado o corpo maldito das praças, lhes maculariam a epiderme de combatentes sagrados, aproveitaram-nos de um modo cruelmente lúgubre.

Os sucessos anteriores haviam-lhes exacerbado, a um tempo, o misticismo e a rudeza. Partira-se o prestígio do soldado, e a bazófia dos broncos cabecilhas repastava-se171 das mínimas peripécias dos acontecimentos. A força do governo era agora realmente a “fraqueza” do governo, denominação irônica destinada a permanecer por todo o curso da campanha. Haviam-na visto chegar — imponente e terrível — apercebida de armas ante as quais eram brincos de criança os clavinotes brutos; tinham-na visto rolar terrivelmente sobre o arraial, e assaltá-lo, e invadi-lo, e queimá-lo, varando-o de ponta a ponta; e, depois destes arrancos temerários, presenciaram o recuo, e a fuga, e a disparada doida, e o abandono pelos caminhos fora das armas e bagagens.

Era sem dúvida um milagre. O complexo dos acontecimentos perturbava-os e tinha uma interpretação única: amparava-os visivelmente a potência superior da divindade.

E a crença, revigorada na brutalidade dos combates, crescendo, maior, num reviver de todos os instintos bárbaros, malignou-lhes a índole.

Atesta-o fato estranho, espécie de divertimento sinistro, lembrando a religiosidade trágica dos Achantis, que rematou estes sucessos.

Concluídas as pesquisas nos arredores, e recolhidas as armas e munições de guerra, os jagunços reuniram os cadáveres que jaziam esparsos em vários pontos. Decapitaram-nos. Queimaram os corpos. Alinharam depois, nas duas bordas da estrada, as cabeças, regularmente espaçadas, fronteando-se, faces volvidas para o caminho. Por cima, nos arbustos marginais mais altos, dependuraram os restos de fardas, calças e dólmãs multicores, selins, cinturões, quepes de listras rubras, capotes, mantas, cantis e mochilas...

A catinga, mirrada e nua, apareceu repentinamente desabrochando numa florescência extravagantemente colorida no vermelho forte das divisas, no azul desmaiado dos dólmãs e nos brilhos vivos das chapas dos talins e estribos oscilantes ...

Um pormenor doloroso completou esta encenação cruel: a uma banda avultava, empalado, erguido num galho seco, de angico, o corpo do coronel Tamarindo.

Era assombroso... Como um manequim terrivelmente lúgubre, o cadáver desaprumado, braços e pernas pendidos, oscilando à feição do vento no galho flexível e vergado, aparecia nos ermos feito uma visão demoníaca.

Ali permaneceu longo tempo...

Quando, três meses mais tarde, novos expedicionários seguiam para Canudos, depararam ainda o mesmo cenário: renques de caveiras branqueando as orlas do caminho, rodeadas de velhos trapos, esgarçados nos ramos dos arbustos e, de uma banda — mudo protagonista de um drama formidável — o espectro do velho comandante...”

171. Nutria-se.

 

 

“O caso, vimo-lo anteriormente, era mais complexo e mais interessante. Envolvia dados entre os quais nada valiam os sonâmbulos erradios e imersos no sonho da restauração imperial. E esta insciência ocasionou desastres maiores que os das expedições destroçadas. Revelou que pouco nos avantajávamos aos rudes patrícios retardatários. Estes, ao menos, eram lógicos. Insulado no espaço e no tempo, o jagunço, um anacronismo étnico, só podia fazer o que fez – bater, bater terrivelmente a nacionalidade que, depois de o enjeitar21 cerca de três séculos, procurava levá-lo para os deslumbramentos da nossa idade dentro de um quadrado de baionetas, mostrando-lhe o brilho da civilização através do clarão de descargas.

Reagiu. Era natural. O que surpreende é a surpresa originada por tal fato. Canudos era uma tapera miserável, fora dos nossos mapas, perdida no deserto, aparecendo, indecifrável, como uma página truncada e sem número das nossas tradições. Só sugeria um conceito – e é que, assim como os estratos geológicos não raro se perturbam, invertidos, sotopondo-se22 uma formação moderna a uma formação antiga, a estratificação moral dos povos por sua vez também se baralha, e se inverte, e ondula riçada de sinclinais23 abruptas, estalando em faults,24 por onde rompem velhos estádios há muito percorridos.

Sob tal aspecto era, antes de tudo, um ensinamento e poderia ter despertado uma grande curiosidade. A mesma curiosidade do arqueólogo ao deparar as palafitas de uma aldeia lacustre,25 junto a uma cidade industrial da Suíça...

Entre nós, de um modo geral, despertou rancores. Não vimos o traço superior do acontecimento. Aquele afloramento originalíssimo do passado, patenteando todas as falhas da nossa evolução, era um belo ensejo para estudarmo-las, corrigirmo-las ou anularmo-las. Não entendemos a lição eloquente.

Na primeira cidade da República, os patriotas satisfizeram-se com o auto-de-fé de alguns jornais adversos, e o governo começou a agir. Agir era isto – agremiar batalhões.”

21. Abandonar, repudiar. 22. Pondo-se abaixo. 23. Na geologia, dobras com rochas estratigraficamente mais jovens, cuja concavidade é voltada para cima. 24. Falhas ou fraturas em uma rocha resultantes de deslocamentos de camadas geológicas da crosta terrestre. Nas três primeiras edições e no AP, a palavra aparece grafada como flaults, erroneamente. 25. À beira de um lago (em latim, lacus).

 

 

“O grande movimento de armas de março fora uma ilusão. Não tínhamos exército, na significação real do termo, em que se inclui, mais valiosa que a existência de alguns milhares de homens e espingardas, uma direção administrativa, técnica e tática, definida por um Estado-maior enfeixando todos os serviços, desde o transporte das viaturas aos lineamentos superiores da estratégia, órgão preparador por excelência das operações militares.

Faltava tudo. Não havia um serviço de fornecimento organizado, de sorte que numa base de operações provisória, presa ao litoral por uma estrada de ferro, foi impossível conseguir-se um depósito de víveres. Não havia um serviço de transporte suficiente para cerca de cem toneladas de munições de guerra.

Por fim não havia soldados: os carregadores de armas, que por ali desembarcaram, não vinham dos polígonos de tiro, ou campos de manobra. Os batalhões chegavam, alguns desfalcados, menores que companhias, com o armamento estragado e carecendo das noções táticas mais simples. Era preciso completá-los, armá-los, vesti-los, municiá-los, adestrá-los e instruí-los.

Queimadas fez-se um viveiro de recrutas e um campo de instrução. Os dias começaram a escoar-se monotonamente em evoluções e manobras, ou exercícios de fogo, numa linha de tiro improvisada num sulco aberto na caatinga próxima. E o entusiasmo marcial dos primeiros tempos afrouxava, molificando na insipidez daquela Cápua invertida,56 em que bocejavam, remansando, centenares de valentes, marcando passo diante do inimigo...

Dali seguiram, batalhão por batalhão, iludindo em transporte parcial a carência de viaturas, para Monte Santo, onde a situação não variou. Continuaram até meados de junho os mesmos exercícios e a mesma existência aleatória de mais de 3 mil homens em armas, dispostos aos combates mas impotentes para a partida e – registremos esta circunstância singularíssima – vivendo à custa dos recursos ocasionais de um município pobre e talado57 pelas expedições anteriores.

A custo terminara-se a linha telegráfica de Queimadas, pela comissão de engenheiros militares, dirigida pelo tenente-coronel Siqueira de Meneses. E foi a única coisa apreciável durante tanto tempo perdido. O comandante-em-chefe, sem carretas para o transporte de munições, desapercebido dos mais elementares recursos, quedava-se, sem deliberar, diante da tropa acampada, e mal avitualhada por alguns bois magros e famintos dispersos em torno sobre as macegas secas das várzeas. O deputado do Quartel-Mestre-General58 não conseguira sequer um serviço regular de comboios, que partindo de Queimadas abastecessem a base das operações, de modo a armazenar reservas capazes de sustentar por oito dias a tropa. De sorte que ao chegar o mês de julho, quando a 2.ª coluna, atravessando Sergipe, se abeirava de Jeremoabo, não havia em Monte Santo um único saco de farinha em depósito. A penúria e uns como prenúncios de fome condenavam à imobilidade a divisão em que se achava o principal chefe da campanha.”

56. Alusão à campanha de Aníbal, na Segunda Guerra Púnica. Após ter invadido a Itália, resolveu passar o inverno em Cápua, no sul da península, com toda a comodidade possível, interrompendo sua marcha contra Roma no momento em que ela se encontrava indefesa. Daí surgiu a expressão “delícias de Cápua” para designar algo que nos distrai de alcançar a vitória próxima. Não é difícil entender por que Euclides chama Queimadas de “Cápua invertida”. 57. Arruinado, devastado. 58. Oficial encarregado pelo abastecimento do exército.

 

 

“O rarefeito dos estampidos denunciava, naquela banda, raros franco-atiradores. Mas estes, embora diminutos, tolhiam, pelo rigor das pontarias, o passo a pelotões inteiros.

Di-lo episódio expressivo.

Foi no último arranco da investida. A força, na ocasião fortalecida pela 4.ª Brigada tendo à frente o coronel Carlos Teles, cujo Estado-maior quase todo baqueara, abalara transpondo a última ladeira, quando as seções extremas daquele flanco, rudemente batidas, convergiam em acelerado para a direita, na repulsa a adversários que não viam, na planura desnuda e chata, que as vistas, entretanto, num lance devassavam. Arremeteram, ao acaso, na direção de um umbuzeiro, frondente ainda. Era a única árvore que ali aparecia. Os tiros rápidos, porém sucessivos como feitos por um homem único, bateram-nas, então de frente. Vararam-nas; desfalcaram-nas, derrubando, um a um, inflexivelmente, os que as formavam. Destes, muitos, por fim, estacaram atônitos pelo inconceptível de um fuzilamento em plaino escampo e limpo, onde não havia a ondulação mais ligeira acobertando o adversário inexorável. Outros, porém, teimaram, correndo para a árvore solitária. E a alguns passos dela, viram afinal, à borda de uma cova circular, ressurgir à flor do chão um rosto bronzeado e duro. E pulando do fojo,208 sem largar a arma, o jagunço, escorregando célere ao viés da encosta, desapareceu embaixo no afogado das grotas. Na trincheira soterrada trezentos e tantos cartuchos vazios diziam que o caçador feroz estivera largo tempo de tocaia naquela espera ardilosamente escolhida. Outras, idênticas, salpicando o solo, apareciam, salteadamente em roda. Em todas os mesmos restos de munições revelavam a estadia recente de um atirador. Eram como fogaças perigosas, alastrando-se por toda a banda. O chão explodia sob os pés da tropa. Os sertanejos desalojados desses esconderijos acolhiam-se, recuando, noutros; e as novas trincheiras arrebentavam logo em descargas vivas, até serem por sua vez abandonadas – concentrando-se pouco a pouco, aqueles, no arraial, cujas primeiras casas foram, ao cabo, atingidas às dez horas da manhã.”

208. cova, buraco, fundo.

Os sertões: campanha de canudos (Parte II), de Euclides da Cunha

Editora: Clube de Literatura Clássica

ISBN: 978-65-8703-620-5

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 690

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Sinopse: Ver Parte I



POPULAÇÃO MULTIFORME. POLÍCIA DE BANDIDOS. O TEMPLO. ESTRADA PARA O CÉU.

Lá se firmou logo um regímen modelado pela religiosidade do apóstolo extravagante.

Jugulada pelo seu prestígio, a população tinha, engravecidas, todas as condições do estádio social inferior. Na falta da irmandade do sangue, a consanguinidade moral dera-lhe a forma exata de um clã, em que as leis eram o arbítrio do chefe e a justiça as suas decisões irrevogáveis. Canudos estereotipava o facies dúbio dos primeiros agrupamentos bárbaros.

O sertanejo simples transmudava-se, penetrando-o, no fanático destemeroso e bruto. Absorvia-o a psicose coletiva. E adotava, ao cabo, o nome até então consagrado aos turbulentos de feira, aos valentões das refregas eleitorais e saqueadores de cidades — jagunço.

De sorte que ao fim de algum tempo a população constituída dos mais dispares elementos, do crente fervoroso abdicando de si todas as comodidades da vida noutras paragens, ao bandido solto, que lá chegava de clavinote ao ombro em busca de novo campo de façanhas, se fez a comunidade homogênea e uniforme, massa inconsciente e bruta, crescendo sem evolver, sem órgãos e sem funções especializadas, pela só justaposição mecânica de levas sucessivas à maneira de um polipeiro719 humano. É natural que absorvesse, intactas, todas as tendências do homem extraordinário do qual a aparência proteica720 — de santo exilado na terra, de fetiche de carne e osso, e de bonzo721 claudicante —estava adrede talhada para reviver os estigmas degenerativos de três raças.

Aceitando, às cegas, tudo quanto lhe ensinara aquele; imersa de todo no sonho religioso; vivendo sob a preocupação doentia da outra vida, resumia o mundo na linha de serranias que a cingiam. Não cogitava de instituições garantidoras de um destino na terra.

Eram-lhe inúteis. Canudos era o cosmos.

E este mesmo transitório e breve: um ponto de passagem, uma escala terminal, de onde decampariam722 sem demora; o último pouso na travessia de um deserto — a Terra. Os jagunços errantes ali armavam pela derradeira vez as tendas, na romaria miraculosa para os céus...

Nada queriam desta vida. Por isto a propriedade tornou-se-lhes uma forma exagerada do coletivismo tribal dos beduínos: a apropriação pessoal apenas de objetos móveis e das casas, comunidade absoluta da terra, das pastagens, dos rebanhos e dos escassos produtos das culturas, cujos donos recebiam exígua quota-parte, revertendo o resto para a companhia. Os recém-vindos entregavam ao Conselheiro noventa e nove por cento do que traziam, incluindo os santos destinados ao santuário comum. Reputavam-se felizes com a migalha restante. Bastava-lhes de sobra. O profeta ensinara-lhes a temer o pecado mortal do bem-estar mais breve. Voluntários da miséria e da dor, eram venturosos na medida das provações sofridas. Viam-se bem, vendo-se em andrajos. Este desprendimento levado às últimas consequências chegava a despi-los das belas qualidades morais, longamente apuradas na existência patriarcal dos sertões. Para Antônio Conselheiro — e neste ponto ele ainda copia velhos modelos históricos — a virtude era como que o reflexo superior da vaidade. Uma quase impiedade. A tentativa de enobrecer a existência na terra implicava de certo modo a indiferença pela felicidade sobrenatural iminente, o olvido do além maravilhoso anelado.

O seu senso moral deprimido só compreendia a posse deste pelo contraste das agruras suportadas.

De todas as páginas de catecismo que soletrara ficara-lhe preceito único:

Bem-aventurados os que sofrem...723

A extrema dor era a extrema-unção.724 O sofrimento duro a absolvição plenária;725 e teriaga726 infalível para a peçonha dos maiores vícios.

Que os homens se desmandassem ou agissem virtuosamente — era questão de somenos.727 Consentia de boa feição que errassem, mas que todas as impurezas e todas as escorralhas728 de uma vida infame caíssem, afinal, gota a gota, nas lágrimas vertidas.

Ao saber de caso escandaloso em que a lubricidade729 de um devasso maculara incauto donzela teve, certa vez, uma frase ferozmente cínica, que os sertanejos repetiam depois sem lhe aquilatarem a torpeza:

 

“Seguiu o destino de todas; passou por baixo da árvore do bem e do mal!”

 

Não é para admirar que se esboçasse logo, em Canudos, a promiscuidade de um hetairismo730 infrene.731 Os filhos espúrios não tinham à fronte o labéu732 indelével da origem, a situação infamante dos bäncklings733 entre os germanos. Eram legião.

Porque o dominador, se não estimulava, tolerava o amor livre. Nos conselhos diários não cogitava da vida conjugal, traçando normas aos casais ingênuos. E era lógico. Contados os últimos dias do mundo, fora malbaratá-los734 agitando preceitos vãos, quando o cataclismo iminente viria, em breve, apagar para sempre as uniões mais íntimas, dispersar os lares e confundir no mesmo vórtice todas as virtudes e todas as abominações. O que urgia era antecipá-lo pelas provações e pelo martírio. Pregava, então, os jejuns prolongados, as agonias da fome, a lenta exaustão da vida. Dava o exemplo fazendo constar, pelos fiéis mais íntimos, que atravessava os dias alimentando-se com um pires de farinha. Conta-se que em certo dia foi visitado por um crente abastado das cercanias. Repartiu com ele a refeição escassa; e este — milagre que abalou o arraial inteiro! — saiu, do banquete minúsculo, repleto, empanzinado, como se volvesse de festim soberbo.

Este regímen severo tinha efeito duplo: tornava, pela própria debilidade, mais vibrátil a enervação enferma dos crentes e preparava-os para as aperturas dos assédios, talvez previstos. Era, talvez, intenção recôndita de Antônio Conselheiro. Nem de outro modo se compreende que permitisse assistissem no arraial indivíduos cuja índole se contrapunha à sua placabilidade humilde.

Canudos era o homizio735 de famigerados736 facínoras. Ali chegavam, de permeio com os matutos crédulos e vaqueiros iludidos, sinistros heróis da faca e da garrucha. E estes foram logo os mais quistos daquele homem singular, os seus ajudantes de ordens prediletos, garantindo-lhe a autoridade inviolável. Eram, por um contraste natural, os seus melhores discípulos. A seita esdrúxula — caso de simbiose moral em que o belo ideal cristão surgia monstruoso dentre aberrações fetichistas — tinha os seus naturais representantes nos Batistas truculentos, capazes de carregar os bacamartes homicidas com as contas dos rosários...

Graças a seus braços fortes, Antônio Conselheiro dominava o arraial, corrigindo os que saíam das trilhas demarcadas. Na cadeia ali paradoxalmente instituída — a poeira, no dizer dos jagunços — viam-se diariamente, presos pelos que haviam cometido a leve falta de alguns homicídios os que haviam perpetrado o crime abominável de faltar às rezas.

Inexorável para as pequenas culpas, nulíssima para os grandes atentados, a justiça era, como tudo o mais, antinômica,737 no clã policiado por facínoras. Visava uma delinquência especial, traduzindo-se na inversão completa do conceito do crime. Exercitava-se, não raro duramente, cominando738 penas severíssimas sobre leves faltas.

O uso da aguardente, por exemplo, era delito sério. Ai! dipsomaníaco739 incorrigível que rompesse o interdito imposto!

Conta-se que de uma feita alguns tropeiros inexpertos, vindos do Juazeiro, foram ter a Canudos, levando alguns barris do líquido inconcesso.740 Atraía-os o engodo de lucro inevitável. Levavam a eterna cúmplice das horas ociosas dos matutos. Ao chegarem, porém, tiveram, depois de descarregarem na praça a carga valiosa, desagradável surpresa. Viram, ali mesmo, abertos os barris, a machado, e inutilizado o contrabando sacrílego. E volveram rápidos, desapontados, tendo às mãos, ao invés do ganho apetecido, o ardor de muitas dúzias de palmatoadas,741 amargos bolos742 com que os presenteara aquela gente ingrata.

Este caso é expressivo. Sólida experiência ensinara ao Conselheiro todos os perigos que adviriam deste haxixe nacional. Interdizia-o menos por debelar um vício que para prevenir desordens. Mas, fora do povoado, estas podiam espalhar-se à larga. Dali partiam bandos turbulentos arremetendo com os arredores. Toda a sorte de tropelias eram permitidas, desde que aumentassem o patrimônio da grei. Em 1894, as algaras,743 chefiadas por valentões de nota, tornaram-se alarmantes. Foram em um crescendo tal, de depredações e desacatos, que despertaram a atenção dos poderes constituídos, originando mesmo calorosa e inútil discussão na Assembleia Estadual da Bahia.

Em dilatado raio em torno de Canudos, talavam-se744 fazendas, saqueavam-se lugarejos, conquistavam-se cidades! No Bom Conselho, uma horda atrevida, depois de se apossar da Vila, pô-la em estado de sítio, dispersou as autoridades, a começar pelo juiz da comarca e, como entreato hilariante na razzia escandalosa, torturou o escrivão dos casamentos que se viu em palpos de aranhas745 para impedir que os crentes sarcásticos lhe abrissem, tosquiando-o, uma coroa larga, que lhe justificasse o invadir as atribuições sagradas do vigário.746

Os desordeiros volviam cheios de despojos para o arraial, onde ninguém lhes tomava conta dos desmandos.

Muitas vezes, diz o testemunho unânime da população sertaneja, tais expedições eram sugeridas por intuito diverso. Alguns fiéis abastados tinham veleidades políticas. Sobrevinha a quadra eleitoral. Os grandes conquistadores de urnas que, a exemplo de milhares de comparsas disseminados neste país, transformam a fantasia do sufrágio universal na clava de Hércules da nossa dignidade, apelavam para o Conselheiro.

Canudos fazia-se, então, provisoriamente, o quartel das guardas pretorianas dos capangas, que de lá partiam, trilhando rumos prefixos, para reforçarem, a pau e a tiro, a soberania popular, expressa na imbecilidade triunfante de um régulo747 qualquer; e para o estraçoamento748 das atas; e para as mazorcas749 periódicas que a lei marca, denominando-as “eleições”, eufemismo que é entre nós o mais vivo traço das ousadias da linguagem. A nossa civilização de empréstimo arregimentava, como sempre o fez, o banditismo sertanejo.

Ora, estas arrancadas750 eram um ensinamento. Eram úteis. Eram exercícios práticos indispensáveis ao preparo para recontros mais valentes. Compreendera-as, talvez, assim, o Conselheiro. Tolerava-as. No arraial, porém , exigia, digamos em falta de outro termo — porque os léxicos não o têm para exprimir um tumulto disciplinado — ordem inalterável. Ali permaneciam, inofensivos porque eram inválidos, os seus melhores crentes: mulheres, crianças, velhos alquebrados, doentes inúteis. Viviam parasitariamente da solicitude do chefe, que lhes era o Santo protetor, ao qual saudavam entoando versos há vinte e tantos anos correntes nos sertões:

 

Do céu veio uma luz

Que Jesus Cristo mandou

Santo Antônio Aparecido

Dos castigos nos livrou!

***

Quem ouvir e não aprender

Quem souber e não ensinar

No dia do Juízo

A sua alma penará!751

 

Estas velhas quadras, que a tradição guardara, lembravam ao infeliz os primeiros dias da vida atormentada e avivam-lhe, porventura, os últimos tragos da vaidade, no confronto vantajoso com o santo milagreiro por excelência.

O certo é que abria aos desventurados os celeiros fartos pelas esmolas e produtos do trabalho comum. Compreendia que aquela massa, na aparência inútil, era o cerne vigoroso do arraial. Formavam-na os eleitos, felizes por terem aos ombros os frangalhos imundos, esfiapados sambenitos752 de uma penitência, que lhes fora a própria vida; bem-aventurados porque o passo trôpego,753 remorado754 pelas muletas e pelas anquiloses,755 lhes era a celeridade máxima, no avançar para a felicidade eterna.

Além disto ali os aguardava, no termo da jornada, a última penitência: a construção do templo.

A antiga capela não bastava. Era frágil e pequena. Mal sobranceava os colmos achatados. Retratava por demais, no aspecto modestíssimo, a pureza principal da religião antiga.

Era necessário que se lhe contrapusesse a arx756 monstruosa, erigida como se fosse o molde monumental da seita combatente.

Começou a erigir-se a igreja nova. Desde antemanhã757 enquanto uns se entregavam às culturas ou tangiam os rebanhos de cabras, ou abalavam para fazer o saco758 nas vilas próximas, e outros, dispersando-se em piquetes759 vigilantes, estacionavam nas cercanias, bombeando760 quem chegava, o resto do povo moirejava761 na missão sagrada.

Defrontando o antigo, o novo templo erguia-se no outro extremo da praça. Era retangular, e vasto, e pesado. As paredes mestras, espessas, recordavam muralhas de reduto.762 Durante muito tempo teria esta feição anômala, antes que as duas torres muito altas, com ousadias de um gótico rude e imperfeito, o transfigurassem.

É que a catedral admirável dos jagunços tinha essa eloqüência silenciosa dos edifícios, de que nos fala Bossuet...763

Devia ser como foi. Devia surgir, mole764 formidável e bruta, da extrema fraqueza humana, alteada pelos músculos gastos dos velhos, pelos braços débeis das mulheres e das crianças. Cabia-lhes a forma dúbia de santuário e de antro, de fortaleza e de templo, irmanando no mesmo âmbito, onde ressoariam mais tarde as ladainhas e as balas, a suprema piedade e os supremos rancores...

Delineara-a o próprio Conselheiro. Velho arquiteto de igrejas, requintara no monumento que lhe cerraria a carreira. Levantava, volvida para o levante, aquela fachada estupenda, sem módulos,765 sem proporções, sem regras; de estilo indecifrável, mascarada de frisos grosseiros e volutas766 impossíveis, cabriolando767 num delírio de curvas incorretas; rasgada de ogivas768 horrorosas, esburacada de troneiras;769 informe e brutal, feito a testada de um hipogeu770 desenterrado; como se tentasse objetivar, a pedra e cal, a própria desordem do espírito delirante.

Era a sua obra-prima. Ali passava os dias, sobre os andaimes altos e bailéus771 bamboantes772. O povo enxameando embaixo, na azáfama do transporte dos materiais, estremecia muita vez ao vê-lo passar, lentamente, sobre as tábuas flexuosas e oscilantes, impassível, sem um tremor no rosto bronzeado e rígido, feito uma cariátide773 errante sobre o edifício monstruoso.

Não faltavam braços para a tarefa. Não cessavam reforços e recursos à sociedade acampada no deserto. Metade, por assim dizer, das gentes de Tucano e de Itapicuru para lá abalou. De Alagoinhas, Feira de Santana e Santa Luzia, iam toda a sorte de auxílios. De Jeremoabo, Bom Conselho e Simão Dias, grandes fornecimentos de gados.

Não assombravam aos recém-vindos os quadros que se lhes antolhavam. Tinham-nos como obrigatória a prova desafiando-lhes a fé inabalável.

Os ingênuos contos sertanejos desde muito lhes haviam revelado as estradas facinadoramente traiçoeiras que levam ao inferno. Canudos, imunda antessala do paraíso, pobre peristilo774 dos céus, devia ser assim mesmo — repugnante, aterrador, horrendo...

Entretanto, lá tinham ido, muitos, alimentando esperanças singulares. “Os aliciadores da seita se ocupam em persuadir o povo de que todo aquele que se quiser salvar precisa vir para Canudos, porque nos outros lugares tudo está contaminado e perdido pela República. Ali, porém, nem é preciso trabalhar, é a terra da promissão, onde corre um rio de leite e são de cuscuz de milho as barrancas.”

Chegavam.

Deparavam o Vaza-Barris seco, ou empanzinado, volvendo apenas águas barrentas das enchentes, entre os flancos entorroados das colinas...

Tinham esvaecida a miragem feliz; mas não se despeavam no misticismo lamentável...”

*: “Face” em latim, também grafada “fácies”; designa o conjunto de características ou configuração de determinado campo, aqui, geográfico. 719. Colônia de pólipos; seus mais conhecidos representantes são os corais, anêmonas e medusas. 720. Multiforme (relativo a Proteu). 721. Monge budista; por extensão: pessoa preguiçosa, ou sonsa. 722. Levantariam acampamento. 723. Mateus 5, 10: “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus”. 724. Sacramento dos moribundos, em que o sacerdote os unge com os óleos santos. “Extrema” tem o sentido de “última”. 725. Absolvição de todos os pecados. 726. Composto químico antigo com mais de 60 substâncias, usado como preventivo e contra o veneno de animais; teria sido criado por Andrômaco de Creta, médico de Nero. 727. Nota do autor: Montanus ne prenait même pas la peine d'interdire un acte devenu absolument insignifiant, du moment que l'humanité en était à son dernier soir. La porte se trouvait ainsi ouverte à la débauche. — Renan, Marc-Aurèle, p. 215. Tradução do editor: “Montano nem mesmo se dava ao trabalho de proibir um ato que se tornara absolutamente insignificante a partir do momento em que a humanidade estava em seu último crepúsculo. A porta se encontrava assim aberta à devassidão.” 728. Literalmente, resíduo líquido que fica no fundo das vasilhas. 729. Sensualidade. 730. Sistema de prostituição na Grécia antiga; na antropologia, designa um modelo primitivo de sociedade e que as relações sexuais são praticadas livremente, em comunidade. 731. Desenfreado. 732. Mancha, desonra. 733. Bastardos. 734. Desperdiçá-los (os conselhos). 735. Esconderijo. 736. Famosos (em sentido pejorativo). 737. Contraditória, incoerente. 738. Impondo. 739. Beberrão. 740. Proibido. 741. Literalmente, pancadas de palmatória. 742. Golpes. 743. Incursões a cavalo em terras inimigas. 744. Devastavam-se, arrasavam-se. 745. Apêndices bucais da aranha; a expressão significa “estar em apuros, em situação difícil”. 746. A “coroa” refere-se à tonsura sacerdotal. Trata-se de uma revolta contra o casamento civil: o escrivão teria usurpado as funções do sacerdote, por isso o castigo de lhe tosquiarem a cabeça. 747. Tiranete. O latim regulus é o diminutivo de rex; portanto: “reizinho”. 748. Espedaçamento. 749. Tumultos, badernas. 750. Investidas. 751. Nota do autor: Sílvio Romero, Estudos sobre a poesia popular no Brasil. O escritor transcrevia aquelas quadras em 1879, precedendo-as com o seguinte comentário: “Era um missionário a seu jeito. Com tão poucos recursos fanatizou as povoações que visitou, que o tinham por Santo Antônio Aparecido”. Já em 1879!... 752. Hábito reles, usado pelos penitentes acusados pela Inquisição. 753. Arrastado, dificultoso. 754. Retardado, demorado. 755. Imobilidade ou inflexibilidade das articulações. 756. Em latim, cidadela, fortaleza. 757. Madrugada, logo antes de amanhecer. 758. Bernucci cita a definição do próprio Euclides: “ganhar o que dê para alguns dias, uma semana”. 759. Corpos de guarda. 760. Vigiando, espionando. 761. Labutava, trabalhava duro (como mouros). 762. Fortificação no interior de outra, para servir à última resistência. 763. Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704) foi um bispo francês, considerado o maior orador sacro da língua francesa. 764. Construção de vastas proporções. 765. Unidades de medida que regulam as proporções e dimensões de uma construção.

 

 

POR QUE NÃO PREGAR CONTRA A REPÚBLICA?

Pregava contra a República; é certo.

O antagonismo era inevitável. Era um derivativo à exacerbação mística; uma variante forçada ao delírio religioso.

Mas não traduzia o mais pálido intuito político; o jagunço é tão inapto para apreender a forma republicana como a monárquico-constitucional.

Ambas lhe são abstrações inacessíveis. É espontaneamente adversário de ambas. Está na fase evolutiva em que só é conceptível o império de um chefe sacerdotal ou guerreiro.

Insistamos sobre esta verdade: a guerra de Canudos foi um refluxo em nossa história. Tivemos, inopinadamente,823 ressurrecta e em armas em nossa frente, uma sociedade velha, uma sociedade morta, galvanizada por um doido. Não a conhecemos. Não podíamos conhecê-la. Os aventureiros do século XVII, porém, nela topariam relações antigas, da mesma sorte que os iluminados da Idade Média se sentiriam à vontade, neste século, entre os demonopatas824 de Verzegnis ou entre os stundistas da Rússia.825 Porque essas psicoses epidêmicas despontam em todos os tempos e em todos os lugares como anacronismos palmares, contrastes inevitáveis na evolução desigual dos povos, patentes sobretudo quando um largo movimento civilizador lhes impele vigorosamente as camadas superiores.

Os perfectionistas826 exagerados rompem, então, lógicos, dentre o industrialismo triunfante da América do Norte, e a sombria Stürmisch, inexplicavelmente inspirada pelo gênio de Klopstock, comparte o berço da renascença alemã...827

Entre nós o fenômeno foi porventura ainda mais explicável.

Vivendo quatrocentos anos no litoral vastíssimo, em que palejam828 reflexos da vida civilizada, tivemos de improviso, como herança inesperada, a República. Ascendemos, de chofre, arrebatados na caudal dos ideais modernos, deixando na penumbra secular em que jazem, no âmago do país, um terço da nossa gente. Iludidos por uma civilização de empréstimo; respigando,829 em faina cega de copistas, tudo o que de melhor existe nos códigos orgânicos de outras nações, tornamos, revolucionariamente, fugindo ao transigir mais ligeiro com as exigências da nossa própria nacionalidade, mais fundo o contraste entre o nosso modo de viver e o daqueles rudes patrícios mais estrangeiros nesta terra do que os imigrantes da Europa. Porque não no-los separa um mar, separam-no-los três séculos...

E quando pela nossa imprevidência inegável deixamos que entre eles se formasse um núcleo de maníacos, não vimos o traço superior do acontecimento. Abreviamos o espírito ao conceito estreito de uma preocupação partidária. Tivemos um espanto comprometedor ante aquelas aberrações monstruosas; e, com arrojo digno de melhores causas, batemo-los a cargas de baionetas. reeditando por nossa vez o passado, numa entrada inglória, reabrindo nas paragens infelizes as trilhas apagadas das bandeiras...

Vimos no agitador sertanejo, do qual a revolta era um aspecto da própria rebeldia contra a ordem natural, adversário sério, estrênuo paladino do extinto regímen, capaz de derruir as instituições nascentes.

E Canudos era a Vendeia...830

Entretanto, quando nos últimos dias do arraial foi permitido o ingresso nos casebres estraçoados, salteou o ânimo dos triunfadores decepção dolorosa. A vitória duramente alcançada dera-lhes direito à devassa dos lares em ruínas. Nada se eximiu à curiosidade insaciável.

Ora, no mais pobre dos saques que registra a História, onde foram despojos opimos831 imagens mutiladas e rosários de coco, o que mais acirrava a cobiça dos vitoriosos eram as cartas, quaisquer escritos e, principalmente os desgraciosos versos encontrados. Pobres papéis, em que a ortografia bárbara corria parelhas com os mais ingênuos absurdos e a escrita irregular e feia parecia fotografar o pensamento torturado, eles resumiam a psicologia da luta. Valiam tudo porque nada valiam. Registravam as prédicas de Antônio Conselheiro; e, lendo-as, põe-se de manifesto quanto eram elas afinal inócuas, refletindo o turvamento intelectual de um infeliz. Porque o que nelas vibra em todas as linhas é a mesma religiosidade difusa e incongruente, bem pouca significação política, permitindo emprestar-se às tendências messiânicas expostas. O rebelado arremetia com a ordem constituída porque se lhe afigurava iminente o reino de delícias prometido. Prenunciava-o a República — pecado mortal de um povo —heresia suprema indicadora do triunfo efêmero do Anticristo. Os rudes poetas, rimando-lhe os desvairos em quadras incolores, sem a espontaneidade forte dos improvisos sertanejos, deixaram bem vivos documentos nos versos disparatados, que deletreamos pensando, como Renan, que há, rude e eloquente, a segunda Bíblia do gênero humano, nesse gaguejar do povo.832

Copiemos ao acaso alguns:

 

“Saiu D. Pedro segundo

Para o reino de Lisboa

Acabosse a monarquia

O Brasil ficou à toa!”

 

A República era a impiedade:

 

“Garantidos pela lei

Aqueles malvados estão

Nós temos a lei de Deus

Eles têm a lei do cão!”

 

***

 

“Bem desgraçados são elles

Pra fazerem a eleição

Abatendo a lei de Deus

Suspendendo a lei do cão!”

 

“Casamento vão fazendo

Só para o povo iludir

Vão casar o povo todo

No casamento civil!”

 

O governo demoníaco, porém, desaparecerá em breve:

 

“D. Sebastião já chegou

E traz muito regimento

Acabando com o civil

E fazendo o casamento!”

 

“O Anticristo nasceu

Para o Brasil governar

Mas aí está o Conselheiro

Para delle nos livrar!”

 

***

 

“Visita nos vem fazer

“Nosso rei D. Sebastião.

“Coitado daquelle pobre

“Que estiver na lei do cão!

 

A lei do cão...

Este era o apotegma834 mais elevado da seita. Resumia-lhe o programa. Dispensa todos os comentários.

Eram, realmente, fragílimos aqueles pobres rebelados...

Requeriam outra reação. Obrigavam-nos a outra luta.

Entretanto enviamos-lhes o legislador Comblain;835 e esse argumento único, incisivo, supremo e moralizador — a bala.”

825. Os stundistas são um grupo evangélico que se original entre os ucranianos do Império Russo. Seu nome deriva do alemão Stunde (“hora”), e professam uma moral rígida. 826. Grupo religioso fundado em Oneida, NY, em 1848. Os perfectionists criam que Jesus já havia retornado, e que era possível eles mesmos construírem o milênio e serem perfeitos, aqui mesmo na Terra. John Humphrey Noyes, o líder da seita, disse, após a comunidade ter alcançado 200 adeptos, que eles haviam atingido a santidade, sendo por isso impossível que pecassem: toda a propriedade privada foi abolida, e o sexo era livre. A comunidade durou até 1881, quando se converteu numa empresa de cutelaria, a Oneida Limited, até hoje ativa. 827. Friedrich Gottlieb Klopstock (1724-1803) foi um poeta alemão, autor de Der Messias e um dos maiores nomes da renovação literária no domínio da língua alemã. O adjetivo stürmisch refere-se aqui ao movimento Sturm und Drang, que colocou a literatura alemã no patamar das grandes literaturas europeias. 828. Aqui, aparecem palidamente. 829. Catando. 830. Departamento francês, na fronteira com a Espanha. Ficou conhecida pelas Guerras da Vendeia, durante a Revolução, por ter oferecido uma resistência monarquista e católica aos revolucionários republicanos e laicistas. Até hoje o departamento tem o Sagrado Coração de Jesus em seus símbolos cívicos. 831. Ricos, abundantes. 832. No capítulo 28 de seu já referido livro, Renan faz um balanço dos grandes personagens do Cristianismo do segundo século, classificando-os de grosseiros. Analisa também os seus escritos: (p. 513): “A mesma reflexão pode ser aplicada aos escritos que nos deixaram essas eras antigas. Eles são superficiais, simples, grosseiros, ingênuos, análogos às cartas sem ortografia que escrevem hoje em dia os sectários comunistas mais desprezíveis. Tiago e Judas lembram Cabet ou Babick, tal fanático de 1848 ou de 1871, convencido, mas não sabendo a sua língua, se exprimindo a esmo, de modo tocante, sua aspiração ingênua à consciência. E, contudo, é esse gaguejar do povo que se tornou a segunda Bíblia do gênero humano. O tapeceiro Paulo escrevia em grego tão mal quanto Babick em francês.” Tradução e grifos nossos. 833. Nota do autor: Conservamos os originais destas quadras cuja ortografia alteramos em parte. Complemento do editor: Preferimos atualizar a ortografia. O original mantido por Euclides é basicamente a ortografia vigente na época. 834. Máxima, aforismo. 835. Rifle belga muito usado, na América do Sul, pelos exércitos brasileiro e chileno.

 

 

“Antônio Conselheiro há vinte e dois anos, desde 1874, era famoso em todo o interior do Norte e mesmo nas cidades do litoral até onde chegavam, entretecidos de exageros e quase lendários, os episódios mais interessantes de sua vida romanesca; dia a dia ampliara o domínio sobre as gentes sertanejas; vinha de uma peregrinação incomparável, de um quarto de século, por todos os recantos do sertão, onde deixara como enormes marcos, demarcando-lhe a passagem, as torres de dezenas de igrejas que construíra; fundara o arraial de Bom Jesus, quase uma cidade; de Chorrochó à Vila do Conde, de Itapicuru a Jeremoabo, não havia uma só vila, ou lugarejo obscuro, em que não contasse adeptos fervorosos, e não lhe devesse a reconstrução de um cemitério, a posse de um templo ou a dádiva providencial de um açude; insurgira-se desde muito, atrevidamente, contra a nova ordem política e pisara, impune, sobre as cinzas dos editais das câmaras de cidades que invadira; destroçara completamente, em 1893, forte diligencia policial, em Macete, e fizera voltar outra, de oitenta praças de linha, que seguira até Serrinha; em 1894, fora, no Congresso Estadual da Bahia, assunto de calorosa discussão na qual, impugnando a proposta de um deputado, chamando a atenção dos poderes públicos para a “parte dos sertões perturbada pelo indivíduo Antônio Conselheiro”, outros eleitos do povo, e entre eles um sacerdote, apresentaram-no como benemérito do qual os conselhos se modelavam pela ortodoxia a cristã mais rígida; fizera voltar, abortícia, em 1895, a missão apostólica planeada pelo arcebispo baiano, e no relatório alarmante a propósito escrito por frei João Evangelista afirmara o missionário a existência, em Canudos — excluídas as mulheres, as crianças, os velhos e os enfermos — de mil homens, mil homens robustos e destemerosos “armados até aos dentes”; por fim, sabia-se que ele imperava sobre extensa zona dificultando o acesso à cidadela em que se entocara, porque a dedicação dos seus sequazes era incondicional, e fora do círculo dos fiéis que o rodeavam havia, em toda a parte, a cumplicidade obrigatória dos que o temiam...”