segunda-feira, 31 de julho de 2023

Ernesto Guevara, também conhecido como Che (Parte II), de Paco Ignacio Taibo II

Editora: Expressão Popular

ISBN: 978-85-7743-074-1

Tradução: Cláudia Schilling, Magda Lopes e Maria Carbajal

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 728

Sinopse: Ver Parte I



“Em 29 de novembro, enquanto os rebeldes limitam-se a cercar e provocar a coluna de Sánchez Mosquera, Ciro Redondo morre ao tentar penetrar nas posições inimigas, e os reforços conseguem romper o cerco dos rebeldes, obrigando-os a se retirarem. A pena pela perda do nosso querido companheiro Ciro Redondo foi muito grande, e a ela uniu-se o sentimento por não havermos podido aproveitar a vitória contra Sánchez Mosquera. Dias depois, Che escreve a Fidel: Era um bom companheiro, e, principalmente, um dos seus maiores suportes no que se refere à obsessão pela luta. Acho que seria justo que recebesse o título de comandante, embora isso agora só sirva para fins históricos, que é a única coisa à qual muitos de nós podemos aspirar.

 

 

“Passaram-se quatro meses e meio desde que foi nomeado comandante, e Che sente-se fracassado. Dirigiu algumas escaramuças de sucesso, cujos resultados iniciais não conseguiu explorar, teve que se retirar diversas vezes, teve que abrir mão de sua querida base de El Hombrito, entra em choque continuamente com a direção do movimento na planície e desconsiderou os conselhos de Fidel, arriscando-se muito, e agora está ferido. Esta sensação explica porque fica a cargo de um destacamento e devolve a Fidel o comando direto da parte mais importante da sua coluna, dirigida por Ramiro Valdés. E talvez ainda seja muito cedo para ele poder avaliar os dois grandes sucessos que obteve nesses meses: criou uma rede camponesa muito ampla, que tem por ele verdadeira adoração e respeito, e conseguiu criar a sua volta uma aura mágica – o Che é justo, igualitário, aquele tipo de homem que não pede para ninguém fazer o que ele próprio não faça.

Estes dois elementos valem muito mais do que parece. E Fidel, em vez de tirá-lo do comando da Coluna 4, perceberá o valor disso.”

 

 

A intervenção de Fidel no segundo combate de Pino del Agua fez com que, dias depois, um grupo de oficiais, inclusive eu, lhe enviasse um documento (...) pedindo-lhe, em nome da Revolução, que não arriscasse sua vida inutilmente. Este documento, um tanto infantil, que fizemos impelidos pelos desejos mais altruístas, acreditamos não ter merecido nem uma leitura de sua parte. E nem é preciso dizer que não lhe deu a mínima importância. Era um pouco chocante que comandantes, capitães e chefes de pelotão, que dirigiam o combate na base do exemplo, da lei dos mau-mau, pedissem a Fidel que fizesse o contrário. Ameijeiras conta: “Dava gosto ver alguns daqueles combatentes novatos, às vezes quase adolescentes, levantar-se no meio do combate, quando todo mundo estava grudado no chão com as balas silvando nos ouvidos: Fulano, olhe pra mim. A lei dos Mau! Então, levantava-se galhardamente no meio das balas e disparava sua arma contra o inimigo. Em seguida, o aludido também o imitava (...) Para resumir, esta era a lei dos mau. Lutar de pé e avançar no meio das balas ou atirar de frente contra os aviões. Coisas de homens que hoje parecem coisas de loucos.”

 

 

“A melhor defesa contra as bombas era um palito apertado entre os dentes. Outra defesa eram as cavernas. Mas a melhor defesa era perder o medo delas”, costumavam dizer os camponeses dessa região de Sierra Maestra, seguindo ao pé da letra os ensinamentos de Che, que, sob bombardeio tinha um comportamento insólito – às vezes ficava olhando para os aviões sem se proteger em um refúgio, como se quisesse provar algo, demonstrar algo para si mesmo.”

 

 

“Em Minas del Frío, Che admite em seu grupo outro adolescente, Jesús Parra, de 16 anos, que havia conhecido com impaludismo no posto de comando de Fidel. Parra, além de ter sido engraxate e ajudante de cozinha, também havia feito um curso de datilografia durante três meses, e escrevia 25 palavras por minuto; isso foi mais que suficiente para Che levá-lo em consideração e na coluna dizerem que ele era um “intelectual”. Para Parra, Che dará uma explicação da razão de ele se cercar de jovens: “dizia que os jovens eram mais loucos, arriscavam-se mais e não pensavam muito”. Era seu próprio retrato?

E esses jovens loucos estudam história de Cuba, treinam com paus à guisa de fuzis e passam fome, e até chegam a organizar uma greve de fome, que Che termina com sete palavras e dez insultos, além da ameaça de fuzilá-los a todos, e como castigo deixa-os cinco dias sem comer, em “greve de fome”. Castellanos, que desta vez tinha sido apenas observador, diz: “Che percebeu que a situação era grave, mas não se podia fazer nada, porque não havia comida”.”

 

 

“Chega o dia 9 de abril. Anos mais tarde, Ameijeiras recapitulava o caminho percorrido: “O Moncada, o 30 de novembro, o Granma, Alegría del Pío, La Plata, a entrevista de Herbert Matthews, o Corinthia, o Uvero, a morte de Frank País e a greve que ela provocou em quase todo o país, os dois combates de Pino del Agua, San Lorenzo, Mota y El Hombrito, a II Frente e a III Frente Frank Muñoz, a guerrilha do Diretório Revolucionário em Escambray, a noite das cem bombas, o sequestro de Fangio, Camilo na planície; além dos levantes no leste, Camaguey e Lãs Villas, deixaram claro a seriedade do movimento revolucionário.”

 

 

“Nos dias seguintes à greve de abril, Che, em uma de suas visitas ao posto de comando de Fidel, chega acompanhado por um guia a uma cabana onde o exército acaba de destruir um comboio de abastecimento para os rebeldes. O abandono da região, os cadáveres de homens e animais, assustam o guia, que se negou a me acompanhar, alegou desconhecimento do terreno e simplesmente subiu em seu cavalo e nos separamos de forma amigável. Eu tinha uma Beretta e, com ela engatilhada e levando o cavalo pelas rédeas, entrei nos primeiros cafezais. Ao chegar a uma casa abandonada, um barulho enorme me assustou a tal ponto que quase me fez disparar, mas era apenas um porco, também assustado pela minha presença. Lentamente, e com muito cuidado, percorri as poucas centenas de metros que me separavam da nossa posição, que encontrei totalmente abandonada (...) Toda aquela cena não tem para mim outro significado senão o da satisfação que experimentei por ter vencido o medo durante um trajeto que me pareceu eterno até chegar, finalmente – e sozinho – ao posto de comando. Esta noite, me senti valente.

Dias mais tarde, em um choque com as tropas de Sánchez Mosquera, Che fica isolado. O inimigo lançou, de início, alguns tiros de morteiro, sem maior pontaria. Por um momento, aumentou o tiroteio a minha direita, e fui inspecionar as posições, mas no meio do caminho começou também pela esquerda. Mandei meu ajudante a algum lugar e fiquei só entre os dois extremos dos disparos. À minha esquerda, as forças de Sánchez Mosquera, depois de disparar alguns obuses de morteiro, subiram a colina em meio a uma gritaria descomunal. Nosso pessoal, com pouca experiência, não conseguiu disparar, a não ser um ou outro tiro isolado, e saiu correndo colina abaixo. Sozinho, em um curral desguarnecido, vi aparecerem diversos capacetes de soldados. Um deles começou a correr colina abaixo, perseguindo nossos combatentes, que entravam nos cafezais. Disparei contra ele com a Beretta, sem atingi-lo, e imediatamente diversos fuzis me localizaram e começaram a atirar. Empreendi uma corrida em ziguezague, levando sobre os ombros mil balas em uma enorme cartucheira de couro, e seguido pelos gritos de desprezo de alguns soldados inimigos. Ao chegar perto do abrigo das árvores, minha pistola caiu. Meu único gesto altivo dessa manhã triste foi me deter, voltar sobre os meus passos, recolher a pistola e sair correndo, cumprimentado, desta vez, pela pequena nuvem de pó que as balas dos fuzis levantavam à minha volta. Quando me considerei a salvo, sem saber dos meus companheiros nem do resultado da ofensiva, fiquei descansando, entrincheirado atrás de uma grande pedra no meio da montanha. A asma, que piedosamente me havia deixado correr alguns metros, agora se vingava de mim e meu coração pulava dentro do peito. Ouvi o ruído de galhos se quebrando pelos passos de pessoas que se aproximavam. Já não podia mais continuar fugindo (que era na verdade o que eu tinha vontade de fazer), mas desta vez era outro companheiro nosso extraviado, um recruta recém-incorporado à tropa. Sua frase de consolo foi mais ou menos a seguinte: “Não se preocupe, comandante, eu morro aqui com o senhor”. Eu não tinha vontade de morrer, e tive a tentação de xingar a mãe dele, mas acho que não o fiz. Nesse dia, me senti covarde.”

 

 

“Em 10 de agosto, no último episódio da ofensiva, discute-se em Las Mercedes a última entrega de prisioneiros. Fidel novamente mostra seu talento, fazendo com que um prisioneiro libertado seja mais útil, por ferir profundamente o moral do inimigo, do que um prisioneiro que deve ser alimentado e vigiado.”

 

 

“Um informe emitido pelo SIM em 27 de dezembro sobre o estado das tropas de batista em Santa Clara mostra, de forma bastante objetiva, as dificuldades que o coronel Casillas iria encontrar: “Em geral, as tropas daquela província estão invadidas pelo pessimismo e se queixam de nunca terem sido ouvidas em nenhuma das oportunidades em que tiveram que enfrentar os rebeldes – sempre em maior número – e solicitam reforços de homens e munição”. O informe não diz a verdade; em todos os combates, as tropas de Batista tinham enfrentado forças inimigas iguais ou inferiores em número, e não superiores; os rebeldes também eram inferiores em armamento, mas se colocavam sempre na ofensiva e as suas carências eram compensadas por seu elevado moral e uma excelente direção, tanto no plano geral quanto em relação aos destacamentos e pelotões.

Em dez dias, as tropas de Che e do diretório arrebataram à ditadura um território de mais de 8 mil quilômetros quadrados, com uma população de quase 250 mil habitantes; tomam 12 quartéis do exército, assim como da guarda rural, da polícia e da marinha em oito povoados e pequenas cidades; forçam a retirada das guarnições de outra meia dúzia de povoados e pequenas cidades; capturam quase 800 prisioneiros e obtêm aproximadamente 600 armas longas e muita munição. Operando com grande flexibilidade e acelerando o ritmo da ofensiva – conforme vão descobrindo os pontos fracos do inimigo – os rebeldes têm um custo muito baixo em mortos e feridos (apenas 11 mortos em toda a campanha). Mas, certamente, a grande diferença é o extraordinário comando da guerra de guerrilhas desenvolvida por Che: a velocidade da ofensiva e seu ritmo desconcertante. Entre o combate de Fomento e o de Guayos e Cabaiguán transcorrem 61 horas, mas entre a conquista destas cidades e o ataque a Placetas transcorrem apenas duas horas, e entre a ocupação de Placetas e o início do ataque a Remedios e Caibarien, somente 12 horas. Ele aproveita todas as fraquezas do inimigo e a tremenda força dos invasores – aqueles jovens camponeses aparentemente incansáveis, valentes até as raias da loucura, irônicos, risonhos, fortemente motivados, solidários entre si, orgulhosos, mimados pela admiração popular e dirigidos por capitães e tenentes que também não ficavam nada a dever, e que tinham pago com seu sangue a ofensiva. Nenhum dos capitães rebeldes sai ileso, e vários tenentes rebeldes são feridos antes de serem promovidos a capitães...”

 

 

“A organização clandestina e até a UPI – por meio de um telegrama que informa que Batista enviaria outros 2 mil homens para Santa Clara – tinha lhes proporcionado abundante informação sobre as tropas que tinham à sua frente: o trem blindado com seus 380 soldados, morteiros, um canhão, bazucas e metralhadoras; a guarnição de Leoncio Vidal, o principal quartel da província, com 1.300 homens, tanques e carros de combate; a delegacia de polícia, com 400 homens entre policiais, informantes e soldados, além de dois tanques-cometa, dois tanques de menor tamanho e uma série de pequenos destacamentos reunindo mais de 200 soldados. No total, são quase 3.200 homens de Batista, aos quais é necessário acrescentar o apoio ativo da aviação. Che está especialmente preocupado porque tínhamos uma bazuca sem munição e teríamos de enfrentar uma dúzia de tanques, mas também sabíamos que, para fazer isso de forma efetiva, precisaríamos chegar aos bairros mais povoados da cidade, onde a eficiência dos tanques diminui muito.

Para o ataque, Che conta com sete pelotões reunindo 214 homens, a centena de homens que forma a coluna do diretório e outros 50 recrutas de Caballete de Casa, comandados por Pablo Ribalta e que tinham acabado de receber suas armas, entre os quais há alguns ex-combatentes da II Frente que passaram para suas fileiras. São quase nove soldados para cada rebelde e as forças de Che partem para o ataque. Todos os manuais militares concordariam que a ação que o comandante Guevara está planejando realizar é uma loucura. Pretende tomar a iniciativa e enfrentar uma guarnição superior em uma proporção de nove para um em números, e que conta com um poder de fogo infinitamente superior ao seu; renuncia a concentrar uma parte importante de seus guerrilheiros para realizar a operação, avança com tropas que quase não tinham descansado ou dormido nos últimos dez dias (alguns homens do pelotão-suicida estão há três noites sem dormir, da mesma forma que os combatentes do pelotão Alfonso Zayas) e a munição é escassa. Mas a guerra do povo não segue manuais. Che sabe que a velocidade da sua ofensiva impede que a ditadura possa enviar reforços a Santa Clara; luta contra forças desmoralizadas e conta com apoio popular. Mas, principalmente, conta com o surpreendente poder de combate de seus homens, curtidos nos combates dos últimos 11 dias, convencidos da justiça da sua causa e também da proximidade da vitória. Sabe que o exército ficaria preso na cidade que pensava defender e que pode ir isolando os redutos das forças militares para lutar contra eles separadamente. Também acredita que a batalha será longa.

Che só erra no último ponto.”

 

 

“À frente da coluna, rumo a Santa Clara, cavalgava a fama dos rebeldes conhecidos como mau-mau. Os boatos asseguram que eram cavaleiros magnânimos que libertavam seus prisioneiros depois de lhes explicar as razões da revolução, assistiam seus próprios feridos e também os do inimigo, nunca abandonavam um companheiro em combate, advertiam previamente dos seus ataques, recusavam-se a derramar sangue inutilmente, vingavam as ofensas ao povo e nunca eram derrotados.”

 

 

“Vaquerito (comandante do pelotão-suicida) arrisca-se muito. Seus companheiros recriminam-no, mas ele responde como sempre: “Nunca ouvimos a bala que vai nos matar”. Instala-se em um terraço da rua Garófalo, a 50 metros da delegacia, com Orlando Beltrán e Leonardo Tamayo – que se recuperou de seus ferimentos no hospital de Cabaiguán e voltou à linha de combate. Orlando conta: “Tínhamos acabado de chegar quando vimos um grupo de seis guardas correndo pelo meio do parque. Atacamos, mas dois tanques que estavam por perto, na rua, começaram a disparar com as ‘30’. Tamayo continua: “Eu gritei: Vaquerito, jogue-se no chão que vão te matar! Não obedeceu. Pouco depois, da minha posição gritei: O que está acontecendo? Por que não está atirando? Ele não respondeu. Olhei e vi que estava coberto de sangue. Imediatamente, o levamos até o médico. O disparo foi mortal. Um tiro de M-1 na cabeça”.

Che, que está indo ao encontro dos atacantes pelo túnel que tinha sido feito derrubando as paredes, cruza com os homens que levam o corpo do Vaquerito. As crônicas recolhem a frase desolada do comandante diante do mais agressivo de seus capitães, o mais pitoresco e o mais temerário: Perdi cem homens. (...) Alguns soldados lutavam chorando. (...) Pouco depois, Orestes Colina encontra-se com Che, que está acompanhando por um tenente do exército que tinha sido feito prisioneiro, e em um ataque de raiva diz: “O que devíamos fazer era matar este aqui”. Che responde suavemente: Você acha que somos iguais a eles?

 

 

Era sempre um contraste nossa atitude para com os feridos e aquela do exército, que não apenas assassinava nossos feridos, como abandonava os seus. Esta diferença foi surtindo efeito no decorrer do tempo e constitui um dos fatores do triunfo. Lá, com muita dor da minha parte, que sentia como médico a necessidade de manter reservas para nossas tropas, Fidel ordenou que se entregassem aos prisioneiros todos os remédios disponíveis para o cuidado dos soldados feridos. E foi isso que fizemos.

 

 

“Enquanto em Santa Clara os combatentes de Che e o diretório mantêm um controle férreo sobre as armas e a situação nas ruas, em Havana a multidão está fazendo a justiça há tanto tempo esperada; uma espécie de vandalismo racional e seletivo que dirige as multidões que atacam as estações da Shell, que apoiava Batista e lhe proporcionava os tanques; destroem os cassinos, propriedade da máfia estadunidense e do submundo de Batista; arrebentam os parquímetros, um dos negócios escusos do sistema; assaltam as casas das personalidades do regime (na de Mujal jogam o aparelho de ar condicionado pela janela). O descontrole do aparelho repressor, que se desagrega cada vez mais a cada minuto que passa, devido à fuga em massa dos dirigentes de Batista, gera um vazio de poder que nem Cantillo nem Barquín são capazes de preencher. As forças revolucionárias recusam-se a negociar. Os estúdios de televisão são tomados por populares que denunciam os horrores da repressão levada a cabo por Batista.”

 

 

“O combatente Mustelier pede a Che que lhe permita ir a Oriente para visitar sua família, mas o comandante da coluna responde rispidamente que não.

– Che, mas a revolução já ganhou.

Não, ganhamos a guerra. A revolução começa agora.

 

 

“Diante da campanha estadunidense, Fidel contra-ataca em um discurso proferido em 21 de janeiro na frente do palácio, comparando os crimes da ditadura com os de Nuremberg e ratificando o direito da justiça popular e dos fuzilamentos. Submete a referendo – pelo método de levantar as mãos – a justiça que está sendo aplicada aos torturadores para saber se é considerada correta. Segundo Carlos Franqui – diretor do jornal Revolución nessa época: Um sim unânime e descomunal respondeu à pergunta de Fidel. Uma pesquisa nacional privada determina que 93% da população está de acordo com os julgamentos e fuzilamentos” (...).

O tema é explosivo. A pressão popular entre os setores sociais favoráveis à revolução é enorme e Fidel sente que ceder nesta primeira fase às pressões estadunidenses é renunciar à soberania. O diário dirigido por Franqui conta que os fuzilamentos eram a resposta aos “bárbaros que arrancaram olhos, castraram, queimaram a carne ou arrancaram testículos, destroçaram unhas, introduziram ferro nas vaginas das mulheres, queimaram pés, cortaram dedos, enfim, criaram em Cuba uma paisagem espantosa” e declara: “Ontem ouvimos o Che responder a um grupo de milicianos que queria dar uma lição a uns delatores que ainda estavam soltos”.

Nem vocês nem ninguém pode atuar por conta própria. Existem tribunais revolucionários. Se algum de vocês atuar por contra própria, ordenarei que seja preso e julgado por um tribunal revolucionário.

Sem dúvida, Che é favorável aos julgamentos sumários, mas são totalmente irreais as versões geradas entre os exilados cubanos que o transformaram em “O açougueiro de La Cabaña”, responsável pela maior parte dos fuzilamentos que tiveram lugar em Havana. Em La Cabaña funcionam os Tribunais Revolucionários 1 e 2; o primeiro julga policiais e militares e o segundo (que não aplicou a pena de morte), civis. O TRI, dirigido por Miguel Ángel Duque de Estrada, aplica a pena de morte em diversos casos; pelo menos durante o mês de janeiro há duas dúzias de sentenças de morte. Che não participa em nenhum dos tribunais, mas na sua condição de comandante da guarnição, revisa as apelações. Não deve ter tido dúvidas ao ratificar as condenações, acreditava na justiça e nos últimos anos tinha ficado muito duro e capaz de enfrentar situações deste tipo.”

 

 

“Em 7 de fevereiro (de 1960), o Diário Oficial publica um curioso decreto mediante o qual adquirem a nacionalidade cubana “por nascimento” os comandantes rebeldes de origem estrangeira que tenham ocupado este cargo durante, pelo menos, um ano de processo revolucionário. Trata-se claramente de uma lei de exceção e que tem apenas um beneficiário – o comandante Ernesto Guevara. Homenagem e reconhecimento.

No dia seguinte, Che estreia sua nova nacionalidade fazendo um discurso muito radical em favor da reforma agrária, no qual expressa, mais uma vez, sua identidade com os camponeses. Já sou bastante guajiro, o ar da cidade não foi feito para mim. Em El Pedrero, onde passou algum tempo em um dos acampamentos durante a campanha de Las Villas, lançará um chamado à revolta agrária radical: Hoje, estamos decididos a chegar até o latifúndio, a atacá-lo e a destruí-lo (...) O exército rebelde está disposto a levar a reforma agrária às últimas consequências (...) A reforma agrária deve ser feita em ordem, para que não se cometam abusos (...) mas na terra que pertence ao povo, que a ocupou ou tomou pela revolução, não haverá um só comandante das nossas forças, nem um só soldado deste exército, que seja capaz de atirar contra os camponeses, que sempre foram nossos amigos... Se alguém pretende tirá-los dela, têm todo o direito de pegar uma arma e impedir que o façam. Incita à formação de associações de camponeses, constituídas de baixo para cima pelo voto popular.”

 

 

“Uma mulher pergunta-lhe se, por acaso, as casas dos camponeses queimadas pela ditadura aparecerão nos livros de história.

Não, não aparecerão nos livros de história... serão reconstruídas imediatamente.

 

 

Agora estamos em uma posição em que somos muito mais do que simples fatores de uma nação; constituímos neste momento a esperança da América ainda não redimida. Os olhos de todos os grandes opressores e também daqueles que não perderam a esperança estão voltados para nós. Da nossa atitude futura, da nossa capacidade para resolver os múltiplos problemas, depende em grande parte o desenvolvimento dos movimentos populares na América e cada passo que damos é vigiado pelos olhos onipresentes do grande credor e pelos olhos otimistas dos nossos irmãos da América.

domingo, 23 de julho de 2023

O último dia de um condenado, de Victor Hugo

Editora: Clube de Literatura Clássica

ISBN: 978-85-7448-066-4

Tradução: Priscila Catão

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 168

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Sinopse: Em um romance de surpreendente modernidade, o grande escritor do romantismo se joga de corpo e alma contra a pena de morte.


— Condenado à morte! — disse à multidão; e, enquanto me levavam, toda aquela gente se precipitou sobre meus passos com o estrondo de um edifício que desmorona. Eu caminhava, atordoado e estupefato. Uma revolução se produzira dentro de mim. Até a sentença de morte, eu me sentia respirar, palpitar, viver no mesmo meio que os outros homens; agora, distinguia claramente como uma barreira a me separar do mundo. Nada mais me aparecia sob o mesmo aspecto de antes. Aquelas largas janelas luminosas, aquele belo sol, aquele céu puro, aquela linda flor, tudo ficou branco e pálido, da cor de uma mortalha. Os homens, mulheres e crianças que se amontoavam à minha passagem, pareciam fantasmas.”

 

 

“Condenado à morte!

Afinal, por que não? “Os homens”, lembro de ter lido não sei em qual livro, mas que só havia isso de bom, “os homens são todos condenados à morte com protelações indefinidas.” O que haveria, assim, de tão diferente em minha situação?

Desde a hora em que minha sentença foi pronunciada, quantos dos que se preparavam para uma longa vida morreram! Quantos dos que esperavam, jovens, livres e saudáveis, ir ver cair minha cabeça em tal dia na Place de Grève4, anteciparam-se a mim! Quantos, daqui até lá, que andam e respiram ao ar livre, que entram e saem à vontade, talvez me precedam também!

Além disso, o que me oferece a vida para que eu lamente tanto ser privado dela? Na verdade, o dia sombrio e o pão negro do cárcere, a porção de sopa magra na tigela dos condenados às galés, ser tratado com aspereza, eu que sou refinado pela educação, ser brutalizado por carcereiros e guardas, não ver um ser humano que me julgue digno de ouvir ou de emitir-lhe uma palavra, estremecer o tempo todo por aquilo que fiz e por aquilo que me farão: eis aí quase os únicos bens que o carrasco pode me tirar.

Ah! Mas não importa, é horrível!”

4 Praça onde se realizavam as execuções, e onde, durante a Revolução, foi usada a guilhotina pela primeira vez.

 

 

Nos primeiros dias trataram-me com uma doçura que me era horrível. As atenções de um carcereiro cheiram a cadafalso. Por sorte, ao cabo de poucos dias, o hábito prevaleceu; confundiram-me com os outros prisioneiros numa comum brutalidade, sem mais aquelas não costumeiras distinções de polidez que me punham sempre a figura do carrasco diante dos olhos.”

 

 

“Enquanto o dia ainda não aparece, o que fazer da noite? Tive uma ideia. Levantei-me e aproximei a lamparina das quatro paredes da minha cela. Estão cobertas de escritos, desenhos, figuras bizarras, nomes que se misturam e se apagam uns aos outros. Parece que cada condenado quis deixar um vestígio, aqui pelo menos. São traços de lápis, giz, carvão, letras pretas, brancas, cinzas, muitas vezes profundos entalhes na pedra, aqui e ali caracteres enferrujados como que escritos a sangue. Se eu tivesse o espírito mais livre, por certo me interessaria por esse livro estranho que se desenvolve página a página ante meus olhos, em cada pedra deste cárcere. Gostaria de compor novamente um todo com esses fragmentos de pensamento, espalhados na pedra; de reencontrar cada homem sob cada nome; de devolver o sentido e a vida a essas inscrições mutiladas, a essas frases desmembradas, a essas palavras truncadas, corpos sem cabeça como daqueles que as escreveram.

À altura da minha cabeceira há dois corações inflamados, atravessados por uma flecha, e acima Amor por toda a vida. O infeliz não assumia um longo compromisso.”

 

 

“Ah! Como a prisão é abjeta! Há nela um veneno que tudo suja. (...) quando se encontra um pássaro na prisão, há lama em sua asa; quando se colhe e se cheira uma bela flor, ela fede.”

 

 

Estou calmo agora. Tudo está terminado, bem terminado. Saí da horrível ansiedade em que me lançou a visita do diretor. Pois, confesso, eu ainda tinha esperança. Agora, graças a Deus, não espero mais.

Eis o que acaba de se passar:

No momento em que soaram seis e meia, não, eram só seis e um quarto, a porta do meu cárcere voltou a se abrir. Um velho de cabeça branca, vestindo uma capa castanha, entrou. Entreabriu a capa; vi uma batina, um peitilho. Era um padre.

Esse padre não era o capelão da prisão, o que me pareceu sinistro.

Sentou-se à minha frente com um sorriso benévolo; depois sacudiu a cabeça e ergueu os olhos ao céu, ou seja, à abóbada do cárcere. Compreendi.

— Meu filho — ele me disse —, está preparado?

Respondi-lhe com uma voz fraca:

— Não estou preparado, mas estou pronto.”

 

 

“Eis então que fui transferido, como dizem os autos.

Mas vale a pena contar a viagem.

Eram sete e meia quando o meirinho se apresentou novamente na entrada do meu cárcere.

— Senhor, eu o espero — ele me disse.

Ai de mim, ali estavam ele e os outros.

Levantei-me, dei um passo; achei que não poderia dar o segundo, tão pesada estava a minha cabeça e tão fracas as pernas. Mas me recompus e continuei com um andar bastante firme. Antes de sair da cela. Mirei-a uma última vez — eu amava minha masmorra. Depois a deixei vazia e aberta, o que lhe dava um aspecto singular.

Mas não ficará assim por muito tempo. Alguém é esperado ali esta noite, disseram os guarda-chaves, um condenado que o tribunal está acabando de julgar.

No corredor, o capelão juntou-se a nós. Ele acabara de fazer seu desjejum.

Ao sairmos da prisão, o diretor apertou-me afetuosamente a mão e reforçou minha escolta de quatro veteranos.

Ao passar diante da enfermaria, um velho moribundo gritou-me: Até breve!

Chegamos ao pátio. Respirei; isso me fez bem.

Não caminhamos por muito tempo ao ar livre. Uma viatura puxada por cavalos estava estacionada no primeiro pátio; era a mesma viatura que havia me trazido, uma espécie de cabriolé oblongo, dividido em duas seções por uma grade transversal de arame tão espesso que parecia tricotado. As duas seções têm cada qual uma porta, uma na frente, a outra atrás. Tudo tão escuro, sujo e empoeirado que o carro fúnebre dos pobres, em comparação, é um carro de luxo.

Antes de entrar nesse túmulo de duas rodas, lancei um olhar ao pátio, um desses olhares desesperados diante dos quais parece que as paredes vão desabar. O pátio, uma pequena praça plantada de árvores, estava ainda mais cheia de espectadores do que para os galerianos. Era já a multidão!

Como no dia da partida dos galerianos, caía uma chuva própria da estação, uma chuva fina e gelada que ainda cai neste momento em que escrevo, que certamente cairá o dia todo, que vai durar mais do que eu.”

 

 

“São dez horas.

Ó minha pobre filha! Mais seis horas e estarei morto! Serei uma coisa imunda que colocarão na mesa fria dos anfiteatros; de um lado, uma cabeça que será moldada, de outro, um tronco que será dissecado. O que restar será posto num caixão e levado ao cemitério de Clamart.

Eis o que farão de teu pai, esses homens. Nenhum dos quais me odeia, homens que têm pena de mim e que poderiam me salvar. Vão me matar. Compreende isso, Marie? Matar-me a sangue frio, em cerimônia, para o bem de todos! Ah, grande Deus!

Pobre menina! Teu pai que te amava tanto, que beijava teu pescocinho branco e perfumado, que passava a mão nos cachos sedosos dos teus cabelos, que pegava teu lindo rosto redondo nas mãos, que te fazia saltar sobre os joelhos e à noite juntava tuas mãos para rezar a Deus!

Quem te fará tudo isso agora? Quem te amará? Todas as crianças da tua idade terão pais, com exceção de ti. Como esquecerás, minha criança, o dia do aniversário, os belos presentes, os bombons e os beijos? Como esquecerás, pobre órfã, quem te fazia beber e comer?”

 

 

“— Ninguém é ruim só pelo prazer de ser ruim.”

 

 

“Fechei os olhos e pus as mãos em cima, procurei esquecer, esquecer o presente no passado. Enquanto divago, as lembranças da minha infância e da minha juventude retornam uma por uma, doces, calmas, sorridentes, como ilhas de flores nesse abismo de pensamentos negros e confusos que turbilhonam no meu cérebro.

Revejo-me criança, escolar risonho e puro, brincando, correndo, gritando com meus irmãos na grande aleia daquele jardim selvagem onde se passaram meus primeiros anos, antiga abadia de religiosas junto à igreja do Val-de-Grâce36, com seu domo sombrio.

Quatro anos mais tarde, estou ainda ali, sempre criança, mas sonhador e apaixonado. Há uma menina no jardim solitário.

A espanholita de olhos grandes e cabelos compridos, pele morena e dourada, lábios vermelhos e faces rosadas, a andaluza de catorze anos, Pepa.

Nossas mães nos disseram para brincar juntos: fomos passear ali.

Disseram-nos para brincar, e conversamos, crianças da mesma idade, não do mesmo sexo.

No entanto, havia um ano apenas corríamos, lutávamos juntos. Eu disputava com Pepita a mais bela maçã da macieira; golpeava-a por um ninho de pássaro. Ela chorava, eu dizia: Bem feito! E íamos os dois nos queixar junto de nossas mães, que nos repreendiam em voz alta e nos davam razão em voz baixa.

Agora ela se apoia em meu braço e estou orgulhoso e comovido. Caminhamos lentamente, falamos em voz baixa. Ela deixa cair o lenço, eu o recolho. Nossas mãos tremem ao se tocarem. Ela me fala dos passarinhos, da estrela que se vê lá adiante, do pôr do sol vermelho atrás das árvores, ou então de suas amigas de pensionato, de seu vestido e de suas fitas. Dizemos coisas inocentes e coramos os dois. A menina está virando mocinha.

Naquele entardecer — era um dia de verão — estávamos sob as castanheiras, no fundo do jardim. Após um dos longos silêncios que preenchiam nossos passeios, ela deixou de repente meu braço: Vamos correr!

Ainda a vejo, estava vestida de preto, de luto por sua avó. Passou-lhe pela cabeça uma ideia de criança, Pepa voltou a ser Pepita e me disse: Vamos correr!

E pôs-se a correr diante de mim com sua cintura fina como a de uma abelha e com seus pezinhos que erguiam o vestido até a metade da perna. Eu a perseguia, ela fugia: o vento da corrida levantava por momentos a pelerine preta e deixava-me ver seus ombros morenos e bonitos.

Eu estava fora de mim. Alcancei-a perto do velho poço em ruínas; peguei-a pela cintura, com o direito de vitória, e a fiz sentar-se num banco de relva. Ela não resistiu. Estava ofegante e ria. Eu estava sério e olhava suas pupilas negras através de seus cílios negros.

— Sente-se aí — ela me disse. — Ainda há claridade, vamos ler alguma coisa. Tem um livro?

Eu trazia comigo o segundo tomo das Viagens de Spallanzani37. Abri ao acaso, me aproximei dela, que apoiou seu ombro ao meu, e passamos a ler cada um por seu lado, em silêncio, a mesma página. Antes de virar a folha, ela era sempre obrigada a me esperar. Meu espírito era mais lento do que o dela.

— Terminou? — ela me dizia, quando eu estava apenas no começo.

No entanto nossas cabeças se tocavam, nossos cabelos se misturavam, nossos hálitos aos poucos se aproximaram e, de repente, nossas bocas.

Quando quisemos continuar nossa leitura, o céu estava estrelado.

— Oh, mamãe, mamãe — disse ela ao voltar para casa —, se soubesse como corremos!

Fiquei em silêncio.

— Você não diz nada? — falou minha mãe. — Parece triste.

Eu tinha o paraíso no coração.

Foi um anoitecer que lembrarei por toda a minha vida.

Por toda a minha vida!”

36 Igreja parisiense.

37 Lazzaro Spallanzani (1729-1798), biólogo italiano. O livro mencionado é Viaggi alle Due Sicilie e in alcune parti dell’Appennino, publicado em cinco volumes.

 

 

“É uma hora e quinze da tarde.

Eis o que sinto agora:

Uma violenta dor de cabeça. A barriga fria, a testa ardendo. Toda vez que me levanto ou me inclino, um líquido parece que flutua no meu cérebro e faz bater os miolos contra as paredes do crânio.

Tenho tremores convulsivos, e de vez em quando a pena cai de minhas mãos como por um choque galvânico.

Meus olhos ardem como se eu estivesse na fumaça.

Meus cotovelos doem.

Mais duas horas e quarenta e cinco minutos e estarei curado.”

 

 

“Era a minha vez. Subi com uma atitude bastante firme.

— Ele vai bem! — disse uma mulher ao lado dos guardas.

Esse elogio atroz me deu coragem. O padre veio colocar-se junto a mim. Sentaram-me na banqueta traseira, de costas para o cavalo. Estremeci com essa última atenção.

Eles põem humanidade na cerimônia.

Quis olhar ao meu redor. Guardas à frente, guardas atrás; e depois multidão, multidão, multidão, um mar de cabeças na praça.

Um piquete de guardas a cavalo me esperava no portão gradeado do Palácio.

O oficial deu a ordem. A carroça e seu cortejo puseram-se em movimento, como que empurrados à frente pelos berros da populaça.

Atravessamos o portão. No momento em que a carroça tomou a direção da Pont-au-Change, a praça explodiu num clamor, do pavimento aos telhados, e as pontes e as ruas responderam como num tremor de terra.

Foi aí que o piquete que esperava juntou-se à escolta.

— Tirem o chapéu! Tirem o chapéu! — gritavam milhares de bocas ao mesmo tempo. — Como se fosse para o rei.

Então ri horrivelmente e disse ao padre:

— Eles tiram o chapéu; eu minha cabeça.

Seguíamos devagar.

As bancas de flores junto ao rio perfumavam o ar; é dia de feira. Os vendedores deixaram seus ramalhetes por mim.

Defronte, pouco antes da torre quadrada que faz esquina com o Palácio, há restaurantes cujas sobrelojas estão cheias de espectadores satisfeitos com seus bons lugares. Principalmente mulheres. O dia deve ser lucrativo para os donos de restaurantes.

Alugavam-se mesas, cadeiras, charretes. Tudo repleto de espectadores. Comerciantes de sangue humano gritavam a plenos pulmões:

— Quem quer um lugar?

Senti raiva contra esse povo. Tive vontade de gritar-lhes:

— Quem quer o meu?”

 

 

“No final da ponte, mulheres me lamentaram por eu ser tão jovem.

O lugar fatal se aproximava. Eu começava a não mais ver, a não mais ouvir. Todas aquelas vozes, aquelas cabeças nas janelas, nas portas, nos postes de luz, aqueles espectadores ávidos e cruéis, aquela multidão em que todos me conheciam e na qual eu não conhecia ninguém, aquele caminho pavimentado e murado de rostos humanos... Sentia-me bêbado, estúpido, insano. É uma coisa insuportável o peso de tantos olhares postos em nós.”

sábado, 22 de julho de 2023

USA (03): O grande capital, de John Dos Passos

Editora: Benvirá

ISBN: 978-85-64065-43-7

Tradução: Marcos Santarrita

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 712

Análise em vídeo: Clique aqui

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Sinopse: O grande capital apresenta os Estados Unidos em ascensão, em um crescimento desenfreado, que o levaria ao crash de 1929. É o momento do sucesso material e, diriam alguns, do declínio moral. Depois da guerra, surge o mercado de capitais, Lindenberg faz o primeiro voo solo, Henry Ford fabrica seus automóveis, e as relações amorosas se misturam aos negócios que se estendem de Nova York a Hollywood. Em busca do sucesso, regado a ganância e luxúria, os personagens são influenciados pelo tipo de vida que requer recompensa rápida. Milhões ganhos hoje na bolsa de valores são perdidos amanhã. O capitalismo competitivo transforma-se em capitalismo monopolista. A trilogia, iniciada em Paralelo 42, com trabalhadores do campo a bordo de um trem indo para o oeste norte-americano rumo a Chicago, termina com homens de negócio a bordo de um avião sobrevoando o litoral em direção à Golden Gate. Com este livro, John dos Passos encerra a trilogia mais ambiciosa e bela da história da literatura americana do século XX.


“— Aguentamos a guerra, mas a paz nos liquidou.”

 

 

“— Puxa — disse ele, rindo no rosto dela —, eu mal sei como agir.

— Deve ser uma mudança e tanto... em relação ao lado de lá. Mas aja com naturalidade. É o que eu faço.

— Oh, não, a gente sempre mete os pés pelas mãos quando age com naturalidade.”

 

 

“— Mas, Mary, o que eu quero é fazer com que esses rapazes entendam que muitas vezes o próprio trabalhador é seu inimigo nessas coisas.

— O trabalhador se lasca de qualquer jeito — disse Gus — e eu não sei se são os amigos ou os inimigos que mais lascam eles.”

 

 

“— Eu não preciso lembrá-la que nasce um tolo a cada minuto.”

 

 

“Mandaram o chofer deixá-las a duas quadras da casa e foram a pé até lá por um beco entre poeirentos conjuntos de bangalôs como aqueles onde tinham morado quando chegaram à Costa anos atrás.

Margo cutucou Agnes.

— Isso lhe lembra alguma coisa?

Agnes virou-se para ela de cenho franzido.

— A gente só deve se lembrar das coisas agradáveis e bonitas, Margie.”

 

 

“Digam-nos, doutores em filosofia, quais são as necessidades de um homem. Pelo menos um homem precisa nãoserpreso nãotermedo nãoterfome nãoterfrio não ficar sem amor, não trabalhar para um poder que nunca viu.”

 

 

“— Mas, Jerry como você aguenta? Se o Estado de Massachusetts pode matar esses dois inocentes enfrentando o protesto do mundo inteiro isso significa que nunca mais voltará a haver justiça na América

— E quando foi que houve, para início de conversa? — disse ele com um risinho sem alegria, curvando-se para encher o copo dela. — Já ouviu falar de Tom Mooney?

O branco ondulado dos cabelos dele dava um ar estranhamente jovem a seu rosto vermelho e inchado

— Mas tem alguma coisa de tão pacífico, tão honesto neles; a gente sai com uma tal sensação de grandeza depois de vê-los. Francamente, são grandes homens.

— Tudo que você diz só torna mais notável fato de já não terem sido executados há anos.

— Mas a gente comum, a gente trabalhadora, não vai permitir isso.

— É a gente comum que se diverte mais com a tortura e execução dos grandes homens... Se não for recuar muito eu gostaria de saber quem foi que exigiu execução de nosso amigo Jesus Cristo?”

 

 

“— Não vejo como um homem que ainda tenha um mínimo de virilidade possa deixar de ser vermelho... mesmo um jornalista pequeno-burguês.

— Meu caro Don, você deve saber a esta altura que a gente empenhou a virilidade em troca de uma chapinha de metal na época da Primeira Guerra Mundial... quer dizer, se é que se tinha alguma... Creio que há divergências a esse respeito.”

 

 

“Acabavam de esgueirar-se pela multidão até a porta quando uma jovem russa de negro com lindos olhos negros e sobrancelhas arqueadas veio correndo atrás deles.

— Oh, não devem sair. Leocadia Pavlovna gosta tanto de vocês. Ela gosta daqui, é informal... a bohème. É disso que gostamos em Leonora Ivanovna. Ela é bohème e nós também. Nós a adoramos.

— Infelizmente temos um compromisso de negócios — disse J. W. solenemente.

A jovem russa estalou os dedos, dizendo:

— Oh, negócios, é nojento... A América seria tão boa sem os negócios.”

 

 

“— Precisamos de dinheiro, senão tudo se lasca.”

 

 

“Quando tentou me passar uma garrafa, eu disse “Diabos, não, Ed”, ele se chama Ed também, “não vou beber um trago até depois da revolução e aí vou estar tão doido que nem vou precisar”.

Mary deu uma risada.

— Acho que todos devíamos fazer isso, Eddy... mas às vezes me sinto tão cansada e desencorajada à noite.

— Claro — disse Eddy, tornando-se sério. — A gente desanima pensando que eles têm todas as armas e todo o dinheiro e nós não temos nada.

— Uma coisa que você vai ter, camarada Spellman, é um par de luvas quentes e um bom casaco antes de fazer a próxima viagem.

O rosto sardento dele enrubesceu até a raiz dos cabelos ruivos.

— Falando sério, srta. French, eu não sinto frio. Pra falar a verdade, o motor esquenta tanto naquele velho monte de sucata que me esquenta mesmo no maior frio... Depois da próxima viagem a gente vai ter de botar uma nova embreagem e isso vai custar mais grana do que a gente pode economizar no leite... Estou lhe dizendo que o negócio está ruim nas minas de carvão neste inverno.

— Mas aqueles mineiros têm uma disposição de espírito tão maravilhosa — disse Mary.

— O problema, srta. Mary, é que com a barriga vazia a gente só mantém a disposição de espírito por certo tempo.”

 

 

“— Quero saber tudo sobre a greve dos mineiros — dizia George, franzindo as sobrancelhas. — É uma pena que os líderes locais tenham escolhido momento errado.

Mary se enfureceu.

— O tipo de observação que eu esperava de um homem como você. Se esperássemos um momento favorável não haveria greve alguma... Não há momento favorável para os trabalhadores.”