quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Visão do Paraíso: os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil (Parte I), de Sérgio Buarque de Holanda

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 978-85-359-1667-6

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 600

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Sinopse: Os castelhanos reproduziram histórias sobre o Novo Mundo repletas de elementos fantásticos; os portugueses, por sua vez, usaram todo o seu pragmatismo. Originalmente defendido como uma tese na Universidade de São Paulo, em 1958, este célebre ensaio sobre o imaginário do colonizador da América agora em edição revista e com imagens do acervo pessoal do autor.

Examinando um período abrangente, que se inicia nos primeiros contatos realizados pelos colonizadores portugueses e espanhóis com o continente americano, até o século XVI, Visão do Paraíso inaugura o ensaísmo sobre o imaginário do colonizador. O livro, editado pela primeira vez em 1959, antecipou a historiografia das mentalidades ao estudar os mitos edênicos que acompanharam as narrativas dos descobrimentos e da colonização da América.

Na época de seu lançamento, predominava o cunho econômico-social dos estudos, mas Sérgio Buarque de Holanda recompôs a concepção paradisíaca que os descobridores tinham do Novo Mundo, desenvolvendo uma abordagem de longa duração, cujos efeitos se fazem sentir até os dias de hoje.

O diálogo estabelecido com a historiografia europeia, acompanhado de um domínio amplo das fontes documentais que retratam as visões idílicas do continente americano, permitiu ao autor realizar uma comparação particularmente original entre a colonização portuguesa e a espanhola da América.

O autor nos mostra como as descrições do Novo Mundo produzidas pelos conquistadores castelhanos estão repletas de elementos fantásticos e correspondem fielmente às temáticas edênicas, enquanto, no caso português, o pragmatismo lusitano assume o lugar da imaginação criadora, assegurando às visões do Paraíso um espaço limitado na América portuguesa.

Nas palavras de Sérgio Buarque: “todo o mundo lendário nascido nas conquistas castelhanas e que suscita eldorados, amazonas, serras de prata, lagoas mágicas, fontes de Juventa tende antes a adelgaçar-se, descolorir-se ou ofuscar-se, desde que se penetra na América lusitana”.

Esta nova edição traz um caderno de imagens com reproduções de documentos e fotografias do acervo pessoal do autor, além de posfácios inéditos dos historiadores Laura de Mello e Souza e Ronaldo Vainfas.


“Não sem pedantismo, mas com um bom grão de verdade, diria efetivamente que uma das missões do historiador, desde que se interesse nas coisas do seu tempo — mas em caso contrário ainda se pode chamar historiador? —, consiste em procurar afugentar do presente os demônios da História. Quer isto dizer, em outras palavras, que a lúcida inteligência das coisas idas ensina que não podemos voltar atrás e nem há como pretender ir buscar no passado o bom remédio para as misérias do momento que corre.”

 

 

“O resultado mais fecundo do exame que se tentou aqui de algumas pesquisas ultimamente realizadas acerca do quadro ideal que do Novo Mundo forjaram os europeus — ou melhor, castelhanos e portugueses de um lado, do outro anglo-saxões — na era dos grandes descobrimentos está em que, obedecendo geralmente a um paradigma comum fornecido pelos motivos edênicos, esse quadro admitia, no entanto, duas variantes consideráveis que, segundo todas as aparências, se projetariam no ulterior desenvolvimento dos povos deste hemisfério. Assim, se os primeiros colonos da América Inglesa vinham movidos pelo afã de construir, vencendo o rigor do deserto e selva, uma comunidade abençoada, isenta das opressões religiosas e civis por eles padecidas em sua terra de origem, e onde enfim se realizaria o puro ideal evangélico, os da América Latina se deixavam atrair pela esperança de achar em suas conquistas um paraíso feito de riqueza mundanal e beatitude celeste, que a eles se ofereceria sem reclamar labor maior, mas sim como um dom gratuito. Não há, neste último caso, contradição necessária entre o gosto da pecúnia e a devoção cristã. Um e outra, em verdade, se irmanam frequentemente e se confundem: já Cristóvão Colombo exprimira isto ao dizer que com o ouro tudo se pode fazer neste mundo, e ainda se mandam almas ao Céu.”

 

 

“Não era essa, então, a atitude comum entre povos navegadores. Já às primeiras notícias de Colombo sobre as suas Índias tinham começado a desvanecer-se naquele Novo Mundo os limites do possível. E se todas as coisas ali surgiam magnificadas para quem as viu com os olhos da cara, apalpou com as mãos, calcou com os pés, não seria estranhável que elas se tornassem ainda mais portentosas para os que sem maior trabalho e só com o ouvir e o sonhar se tinham por satisfeitos. Nada parece, aliás, quadrar melhor com certa sabedoria sedentária do que a impaciência de tudo resolver, opinar, generalizar e decidir a qualquer preço, pois o ânimo ocioso não raro se ajusta com a imaginação aventureira e, muitas vezes, de onde mais minguada for a experiência, mais enfunada sairá a fantasia.”

 

 

“E um erudito pesquisador da história literária dos descobrimentos marítimos pôde de modo semelhante, e sem intuito, aliás, de pretender associá-la diretamente à sobriedade de imaginativa daqueles pilotos e exploradores, apresentar como uma das consequências de sua obra a progressiva retração da área tradicional dos países da lenda e do sonho. “Na época de Colombo e de Pigafetta”, observa efetivamente Leonardo Olschki, “as experiências coloniais dos portugueses tinham arrebatado até mesmo às terras da Ásia e da África muitos dos seus encantos. À medida em que, no século XV, prosseguiam os empreendimentos inspirados por Henrique o Navegador ao longo da orla ocidental africana, as representações fabulosas e monstruosas preexistentes se iam apagando dos roteiros, dos mapas, das imaginações, deslocando-se para outros rumos. Desde que Dinis Dias tomou posse do Cabo Branco, em 1445, e que, passado um ano, Álvaro Fernandes se lançou até a embocadura do Rio Grande, ou que Alvise Cadamosto [ou Alvide da Ca' da Mosto], gentil-homem veneziano, penetrou na região do Senegal, subindo o curso do rio para lugares não sabidos, a costa africana deixou de ser uma incógnita e, em seguida às explorações de Bartolomeu Dias, pareceu despojar-se até de seus mistérios. E quando, mais tarde, Vasco da Gama, dobrando o Cabo da Boa Esperança, chega, aos 20 de novembro de 1498, à vista de Calicute, também a Índia fabulosa vai converter-se num imenso mercado que o grande navegador, feito vizo-rei, ensinará a desfrutar em nome de seu soberano”25.”

25 Leonardo OLSCHKI, Storia Letteraria delle Scoperte Geografiche, págs. 34 e segs. Tornam-se inevitáveis, contudo, alguns reparos às circunstâncias históricas que se relatam nesse trecho. Assim é que o descobrimento e consequente posse do Cabo Branco pelos portugueses data, segundo as melhores probabilidades, de 1441, não de 1445. E foi devido a Nuno Tristão, não a Dinis Dias: a ação deste último anda associada ao descobrimento do Cabo Verde, no continente, não ao do Branco. Nada autoriza a crer, além disso, que Álvaro Fernandes tivesse atingido o Rio Grande, ou seja, o Geba atual, célebre pelo fenômeno do macaréu. Finalmente não parece muito exato, no caso de Vasco da Gama, relacionar-se o aproveitamento do imenso mercado indiano, em nome do soberano português, com o fato do grande navegador ter sido feito vizo-rei da Índia. A verdade é que o Gama só exerceu esse posto durante os últimos três meses, mal contados, de 1524, quando pouco tempo lhe sobraria para enfrentar a oposição dos muçulmanos do Malabar.

 

 

“MAS COLOMBO não estava tão longe de certas concepções correntes durante a Idade Média acerca da realidade física do Éden que descresse de sua existência em algum lugar do globo. E nada o desprendia da ideia, verdadeiramente obsessiva em seus escritos, de que precisamente as novas Índias, para onde o guiara a mão da Providência, se situavam na orla do Paraíso Terreal. Se à altura do Pária chega ele a manifestar com mais veemência essa ideia, o fato é que muito antes, e desde o começo de suas viagens de descobrimento, a tópica das “visões do paraíso” impregna todas as suas descrições daqueles sítios de magia e lenda.

O espetáculo que mais fortemente o impressionara no Haiti, por exemplo, a formosura, única na terra, daquela ilha coberta de árvores de mil maneiras, tão altas que parecem tocar o céu, e que, tudo o leva a crer, jamais perdem as folhas (pois que as vê em novembro, quando registra o fato, tão viridentes e viçosas como o seriam em maio na Espanha), é um traço inseparável da paisagem edênica. Diante do Gabo Hermoso exclama, extasiado: “Y llegando yo aqui a este cabo vino el olor tan bueno y suave de flores ó árboles de la tierra, que era la cosa mas dulce del mundo”. O gentio de Cuba é ao seu ver um povo “de amor y sin cudicia, y convenible para toda cosa, que certifico a Vuestras Altezas que en el mundo creo que no hay mejor gente ni mejor tierra: ellos aman a sus prójimos como á si mismos, y tienen una habla la mas dulce del mundo, y mansa, y siempre con risa. Ellos andam desnudos, hombres y mujeres, como sus madres los parieron”1. (“E quando cheguei aqui neste cabo, veio o cheiro das flores ou das árvores da terra, tão bom e suave, que era a coisa mais doce do mundo." O gentio de Cuba é ao seu ver um povo “de amor e sem pudicícia, e adequado para tudo, o que certifico a Vossas Altezas que no mundo acredito que não há gente melhor nem terra melhor: amam o próximo como se eles próprios, e têm a fala mais doce do mundo, e mansa, e sempre rindo. Eles andam nus, homens e mulheres, como suas mães os deram à luz”.) (…)

Nem por isso é menos exato dizer que a convenção literária dos motivos edênicos, onde a narrativa bíblica se deixara contaminar de reminiscências clássicas (mito da Idade de Ouro, do Jardim das Hespérides...) e também da geografia fantástica de todas as épocas veio a afetar decisivamente aquelas descrições. Da selva tropical apresentada por Cristóvão Colombo não parece demasiado pretender, com efeito, que é uma espécie de réplica da “divina foresta spessa e viva”, que o poeta, “prendendo la campagna; lento lento”, vai penetrar para atingir finalmente o paraíso terrestre5.

Pouco importa se alguma forma descomunal ou contrafeita parece às vezes querer perturbar o espetáculo incomparável. Não serão apenas primores e deleites o que se há de oferecer aqui ao descobridor. Aos poucos, nesse mágico cenário, começa ele a entrever espantos e perigos. Lado a lado com aquela gente suave e sem malícia, povoam-no entidades misteriosas, e certamente nocivas — cinocéfalos, monoculi, homens caudatos, sereias, amazonas —, que podem enredar em embaraços seu caminho.

Ainda em Cuba, subjugado por uma natureza que lhe oferece todas as galas do Paraíso — “árboles y frutas de muy maravilloso sabor [...]. Aves y pajaritos y el cantar de grillos en toda noche con que se holgaban todos: los aires sabrosos y dulces de toda la noche, ni frio ni caliente”6 (“árvores e frutas de sabor muito maravilhoso [...]. Os pássaros e as aves e o canto dos grilos a noite toda com que todos se divertiam: o ar gostoso e doce de toda a noite, nem frio nem quente”) —, recebe as primeiras notícias daqueles horrores: “hombres de un ojo y otros con hocicos de perros que comiam hombres, y que en tomando uno lo degollaban y le bebian su sangre y le cortaban su natura”7. (“homens com um olho e outros com focinho de cachorro que comiam homens, e quando pegavam um deles cortavam sua garganta e bebiam seu sangue e eliminavam sua natureza.”)

Mais tarde dizem-lhe que em Cibao os homens nascem com rabo8. Por informações de certos índios que tomara a bordo na Espanhola, soubera, ainda em janeiro de 1493, três meses após o descobrimento, de uma ilha chamada Matinino, a atual Martinica, só habitada por mulheres. Em dada época do ano lá desembarcavam os homens da Ilha de Caribe (ou seja, de Porto Rico) e faziam com elas o que iam a fazer: desses seus ajuntamentos, se nasciam machos, logo os mandavam à dita Ilha de Caribe. As meninas, deixavam-nas ficar consigo9.

É interessante notar como nestes casos, não menos do que nos motivos claramente edênicos, se mostra Colombo ainda tributário de velhas convenções eruditas, forjadas ou desenvolvidas por inúmeros teólogos, historiadores, poetas, viajantes, geógrafos, até cartógrafos, principalmente durante a Idade Média. E convenções, por pouco que o pareçam, continuamente enlaçadas ao próprio tema do Paraíso Terreal. Quase se pode dizer de todas as descrições medievais do Éden que são inconcebíveis sem a presença de uma extraordinária fauna mais ou menos antropomórfica. Ela pertence, a bem dizer, aos arrabaldes daquele jardim mágico, e foi posta ali aparentemente pela própria mão de Deus. Santo Isidoro, que acreditava piamente na existência desses seres estranhos e chegou a dividi-los em quatro ramos distintos, os portentos, os ostentos, os monstros e os prodígios, segundo parecessem anunciar, manifestar, mostrar ou predizer algo futuro, rebate a afirmação dos que os imaginavam nascidos contra a lei da Natureza, pois a verdade, diz, 6 que “foram feitos pela vontade divina e a natureza de toda coisa criada é a vontade do Criador sobre ela”10.

Alegoricamente poderia talvez interpretar-se a sua presença nas proximidades do paraíso como significando que não nos devemos, um só momento, descurar de nossa salvação, e ainda que a alma não se há de encaminhar aos prêmios imortais tão segura deles e com tal salvo-conduto que pareça ir sem medo.

Ao genovês não custaria traduzir segundo seu gosto e certeza — a certeza de que se achava no extremo oriente da Ásia — os gestos e mímicas dos índios que interpelava. E assim como se convencionara situar no Oriente, onde a tradição colocara também o Paraíso, um terreno de eleição para essa fauna fantástica, fazia-se mister encontrá-la nas terras novamente descobertas. De sorte que os cinocéfalos, por exemplo, a que pareceram aludir os índios de Cuba, não deveriam ser diversos daqueles habitantes da Ilha Agama, talvez os andamaneses de hoje, a que se referira Marco Polo: homens que tinham todos “cabeças de cão e dentes e focinho semelhantes aos de um grande mastim”11. De homens com rabo de “mais de um palmo de comprido” também tratara o veneziano, localizando-os no reino de Lambri, rico em árvores de pau-brasil: “II hi a berci en grant abondance”12 ( Ele foi embalado em grande abundância”), diz com efeito o velho texto francês. Dessa planta preciosa foram levadas sementes a Veneza e o frio as não deixou germinar.

O Paraíso Terrestre não se inclui no itinerário de Marco Polo; outros, porém, que presumem tê-lo visto ou conhecido por notícias fidedignas, não deixariam de dizer que era um jardim rodeado de figuras monstruosas, que nada ficam a dever aos cinocéfalos e caudatos. No Ymago Mundi de Hygden, anterior a 1360, aparece na parte oriental, ao alto, um quadrilátero destinado ao Éden. Três rios que saem desse local para desembocar no Indo são atravessados por uma inscrição indicando a existência ali de seres humanos que se sustentam do simples perfume das frutas. Outras inscrições, estas à esquerda do Paraíso, falam de homens que encanecem na mocidade e criam, na velhice, cabelos pretos (“hic homines canescunt in iuventude et nigrescunt in senectute”) (aqui os homens são grisalhos na juventude e negros na velhice), de mulheres que concebem aos cinco anos de idade para perecerem aos oito, e finalmente de hermafroditas com o peito direito de homem e o esquerdo de mulher13. Ainda em 1436, o mapa de Andréa Bianco, provavelmente conhecido de Colombo, mostra, ao lado do Paraíso, numa península projetada do oriente da Ásia, homens sem cabeça e com os olhos e a boca no peito14.”

1 D. Martin Fernandez NAVARRETE, Colección de los Viajes y Descubrimientos, I, pág. 249.

5 “Purgatório”, XXVIII, I.

6 D. Martin Fernandez NAVARRETE, Colección de los Viajes y Descubrimientos, I, pág. 187. A referência à amenidade perpétua do clima “nem frio, nem quente” — non ibi frigus, non aestus — constitui, pelo menos a partir de Santo Isidoro de Sevilha, uma constante das visões do Paraíso.

7 NAVARRETE, Colección de los Viajes, I, pág. 192.

8 NAVARRETE, Colección de los Viajes, I, pág. 301.

9 NAVARRETE, Colección de los Viajes, I, pág. 273.

10 SANTO ISIDORO DE SEVILHA, Etimologias Lib. XI, cap. III.

11 MARCO POLO, Il Milione, pág. 282.

12 MARCO POLO, Il Milione, pág. 279 e n. Segundo todas as probabilidades, essa alusão a homens de cauda refere-se aos orangotangos, de que o viajante poderia ter tido notícia nos lugares que percorreu.

13 Joachim LELEWEL, Géographie du Moyen-Âge, V (Épilogue), págs. 147 e segs.

14 Joachim LELEWEL, Géographie du Moyen-Âge, II, pág. 86.

 

 

A ideia de que existe na Terra, com efeito, algum sítio de bem-aventurança, só acessível aos mortais através de mil perigos e penas, manifestos, ora sob a aparência de uma região tenebrosa, ora de colunas ígneas que nos impedem alcançá-lo, ou então de demônios ou pavorosos monstros, pode prevalecer, porém, independentemente das tradições clássicas ou das escolásticas sutilezas. Na história, por exemplo, das peregrinações de São Brandão, originária de antigas lendas celtas, a Ilha dos Santos, meta dos navegadores irlandeses, só é atingida após dilatada viagem sobre um mar infestado de dragões e gigantes, povoado de ilhas sagradas ou malditas, de onde se eleva, ao cabo, uma larga muralha de trevas, espécie de “mar tenebroso”, que hão de transpor os peregrinos quando já se achem quase à vista do lugar a que se destinam.

Não falta sequer, na ilha de Paulo o eremita, visitada por Brandão e seus companheiros, uma réplica da fonte de Juventa, que aparece quase obrigatoriamente nas descrições medievais do Paraíso Terrestre19. Segundo versão bastante generalizada entre essas descrições, é do próprio Éden que manam suas águas para ir jorrar de sítio não muito apartado dele, após um percurso subterrâneo. Mandeville, ainda que, muito a seu pesar, não pudesse visitar aqueles jardins maravilhosos, cujo ingresso é vedado aos humanos por um largo deserto povoado de feras, cortado de montanhas invencíveis e ásperos rocheados, e também pelo tenebroso, pôde, no entanto, ver a fonte e beber de sua água três ou quatro vezes, com o que se sentira melhor disposto e assim contava permanecer até que o chamasse Deus desta vida mortal. Achava-se ela situada ao sopé da montanha chamada Polumbo e o cheiro e sabor das águas, posto que mudassem de hora em hora, lembravam toda casta de especiarias20.

No texto da célebre carta do Preste João, precisa-se que a mesma fonte ficava situada à distância de três dias do jardim de onde Adão fora expulso. Quem provasse por três vezes daquelas águas, achando-se em jejum, ficaria livre de quaisquer enfermidades e passaria a viver como se não tivesse mais de 32 anos de idade21.”

19 Journal de Bord de Saint-Brendam, pág. 189.

20 Mandeville’s Travels, II, págs. 325 e segs.: “Et dist on que celle fontaine vient de paradis, et pour ce est elle si vatueuse. Est avec ce ceuls qui souvent en boivent semblent entre tousjours jeunes, dont les aucuns lappellent et dient que c'est la fontaine de iouuent, pour ce quelle fait ressembler a estre les gens iouenes.” (“E dizem que esta fonte é proveniente do paraíso, por isso é tão bela. É por isso que aqueles que bebem dela muitas vezes parecem sempre jovens, alguns dos quais a designam como a fonte da alegria, por fazer as pessoas parecerem jovens”).

21 Richard HENNIG, Terrae Incognitae, II, págs. 361 e segs.; Mandeville's Travels, II, pág. 159.

 

 

“De que podem valer especulações desvairadas, inquietas solicitudes e fantasias, bons ou maus agouros, afinal, se indiferente a tudo isso, o mundo há de seguir seu curso? “Admitindo que conheças as coisas vindouras pelos astros, de que te servirá isso? Qui iuvat?” Assim escreveu o português Francisco Sanches em seu poema sobre o medonho cometa de 1577, que alguns hão de ter por anúncio do fim sombrio de Dom Sebastião. “A ninguém”, acrescenta esse filósofo, “a ninguém é dado furtar-se ao próprio fado. Aquilo que há de vir, virá, seja qual for o teu alvitre”91. E é nesse fatalismo, tão alheio à curiosidade universal dos humanistas, que em grande parte se nutre um pensamento onde não faltou, contudo, quem pretendesse vislumbrar antecipações de Bruno ou de Bacon.”

91 Francisco SANCHES, “Carmen De Cometa Anui M. D. LXXVII”. Opera Philosophica, pág. 143 e segs.

 

 

“Mas a própria hipótese, se fundada em melhores razões, de uma inspiração da Ordem de Cristo, quando esta se achava já empolgada pela Coroa, não pode simbolizar senão o poder de uma realeza absorvente e disciplinadora das vontades individuais e que, por isso, deixa pouco lugar à fantasia turbulenta dos heróis da cavalaria. No que respeita a essa afirmação decisiva do poder monárquico não há dúvida que Portugal amadureceu cedo: mais cedo do que o resto da península hispânica e, quase se pode dizer, do que o resto da Europa.

Todavia, se a unificação logo obtida e a sublevação popular e “burguesa”, que dera o poder supremo à Casa de Avis, ajudaram largamente a mudar-lhe a fisionomia, reorganizando em sentido moderno, isto é, no sentido de absolutismo, suas instituições políticas e jurídicas, além de abrir caminho à expansão no Ultramar, não é menos certo que o deixaram ainda, por muitos aspectos, preso ao passado medieval. E a própria rapidez e prematuridade da mudança fora, de algum modo, responsável por esses resultados.

A verdade é que tinham ascendido novos homens, mas não ascenderam, com eles, suas virtudes ancestrais. Uma burguesia envergonhada de si, de seu antigo abatimento social, substituíra-se à velha nobreza, contestando-se com o acomodar-se, tanto quanto possível, aos padrões desta. E como sucede constantemente em casos tais, aferra-se tanto mais às aparências quanto mais lhe faltava em substância.

O resultado foi esse estranho conluio de elementos tradicionais e expressões novas, que ainda irá distinguir Portugal em pleno Renascimento, posto a serviço da pujança da monarquia. Melhor se diria, forçando a comparação, que as formas modernas respeitaram ali, em grande parte, e resguardaram, um fundo eminentemente arcaico e conservador. Moderna é, sem dúvida, aquela avassaladora preponderância da Coroa, num tempo em que o poder real ainda luta, cm outras terras, com maior ou menor êxito, por sobrepujar as vontades particularistas. Aqui, ao contrário, como encontrasse poucas resistências desse lado, a realeza lograra mobilizar em torno de si energias ativas da população.

Tratava-se, não obstante, de uma simples fachada que mal encobria os traços antiquados, sobretudo a forma mentis vinculada ao passado e avessa, por isso, à especulação e à imaginação desinteressadas do humanismo renascentista. No íntimo sempre se mostrarão os portugueses pouco afeitos às transformações espirituais que, em muitos outros países, se operam simultaneamente com a grande obra dos navegadores do Reino. Seu conservantismo, nesse ponto, seria semelhante ao do ermitão de um dos diálogos de Frei Heitor Pinto, para quem a verdadeira filosofia não consiste tanto no saber quanto no fazer e no amar14.

E quando, já para os fins do século XVI, mesmo esse antigo cerne se deixa corroer por todas as partes, nada de autêntico o substituirá, desfalecidas que se acham, e como “burocratizadas”, as energias verdadeiramente criadoras do povo. Alarmam-se, então, inutilmente, os moralistas, ante o gosto de novas invenções, das burlas, dos fumos da fantasia, o dar ao querer mais vela do que lastro. Em suma, ante o rápido descaimento, no Reino, de tudo quanto parecera ter produzido sua passada grandeza. Às vésperas mesmo da catástrofe nacional que se há de seguir à morte del-rei Dom Sebastião, tentara ainda Diogo do Couto apontar para o exemplo oferecido pelas nações pouco dadas a mudanças, como os chineses e os venezianos15. Não estaria nesse conservantismo a causa principal das qualidades que os distinguiam, da grandeza de uns e da fama de outros?

No Brasil, de qualquer forma, só aos poucos parece ir perdendo terreno, em favor das novas fumaças, aquele realismo repousado, quase ascético ou ineloquente, que vemos refletido, por exemplo, nos escritos dos primeiros cronistas. Abrem exceção, mesmo antes de Simão de Vasconcelos, algumas biografias — quase hagiografias — de um Padre Anchieta, mas as concessões ao milagroso não são novidade nem escândalo, num gênero que, por definição, deve abrir crédito ao sobrenatural.

É lícito pensar ainda que certas ideias bem precisas ou até pragmáticas servissem de reforço à simples devoção visionária sempre aberta à possibilidade de raros portentos, feitos maravilhosos, profecias, intuições divinatórias, transes, aparições, levitações, ubiquidades, como os que se multiplicam nas páginas desses livros, pois o que inspira muitos de seus autores, fiéis neste ponto ao espírito da era do barroco, é sobretudo o afã de despertar os ânimos, ocupando os olhos. E porventura alguma ambição ainda mais definida, como seja a de ver eternamente glorificada a obra missionária dos inacianos nesta parte do Novo Mundo, através da canonização de um de seus maiores apóstolos, de sorte que o Brasil nada ficasse a dever às Índias. Anchieta canarino de ascendência basca seria como a réplica americana de São Francisco Xavier, outro basco.

Já em Vasconcelos, porém, essa imaginação piedosa irá complicar-se através da fascinação mirífica dos segredos e “curiosidades” da terra. E a tanto vai a fascinação que não se contenta ele apenas com o invocar testemunhos alheios, mas procura sustentar-se, cm um ou outro caso, nas próprias e delirantes visões. Assim é que trata de abonar com seu depoimento pessoal os mais extravagantes fenômenos, como o é a metamorfose de uns bichinhos brancos, nascidos à tona da água, que julga ver, com seus olhos, fazerem-se mosquitos, estes mudarem-se em lagartixas, estas tornarem-se borboletas e finalmente as borboletas transformarem-se em colibris16.

Ainda aqui é preciso dizer que os olhos do cronista se deixaram simplesmente iludir pelo prestígio de uma opinião corrente e já tradicional entre os índios da costa, que costumavam dar os colibris por mensageiros de outra vida. Apesar de oposta à lei da natureza e ainda à velha doutrina de que nenhum vivente se pode converter em outro sem corrupção, a mesma crença, já registrada, ainda que mais discretamente, por Anchieta17 e Cardim18, teria em seu favor manifestas aparências. Sabe-se, com efeito, de certas borboletas do Brasil, que são muitas vezes vistas a esvoaçar junto aos beija-flores em busca do mesmo pasto, e Wappaeus, que relembra essa circunstância, também alude ao caso do observador que, em sua caça, atirava nelas cuidando ter apontado para estes pássaros19.”

14 Frei Heitor PINTO, Imagem da Vida Cristã, I, pág. 77.

15 Diogo do COUTO, O Soldado Prático, pág. 145.

16 Simão de VASCONCELOS, Vida do P. Joam de Almeida da Companhia de Jesus na Província do Brasil, pág. 236.

17 Padre Joseph de ANCHIETA, S.J., Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões, pág. 124.

18 Fernão CARDIM, Tratados da Terra e Gente do Brasil, pág. 52.

19 Padre Joseph de ANCHIETA, Cartas, Informações etc., p. 140, n.

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Fundação (01): Fundação, de Isaac Asimov

Editora: Aleph

ISBN: 978-85-7657-197-1

Tradução: Fábio Fernandes

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 299

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Sinopse: Obra-prima de Isaac Asimov, a trilogia da Fundação recebeu o histórico prêmio Hugo de Melhor série de ficção científica e fantasia de todos os tempos.

Baseada no clássico Declínio e queda do Império Romano, de Edward Gibbon, a trilogia sedimentou seu autor como um dos maiores escritores do gênero e influenciou outras mentes geniais, como Carl Sagan, Steven Spielberg, George Lucas, o nobel de economia Paul Krugman, Elon Musk.

A humanidade está em risco. Uma ciência revolucionária prevê uma longa e inevitável era de trevas e barbárie. Para evitar que isso aconteça, o chamado plano Seldon é colocado em prática ao longo de séculos, e percorre a história da galáxia, prevendo conflitos de nossa civilização. Mas poderá o comportamento humano obedecer a um padrão científico?


“P. O senhor não considera sua declaração como sendo desleal?

R. Não, senhor. A verdade científica está além de lealdade e deslealdade.”

 

 

“– É mesmo? É uma bela de uma alucinação, não é? Seu grupo aqui é um exemplo perfeito do que andou errado com toda a galáxia por milhares de anos. Que espécie de ciência é ficar aqui, preso por séculos, classificando a obra de cientistas do milênio passado? Vocês já pensaram em trabalhar olhando para a frente, estendendo o conhecimento deles e o aprimorando? Não! Vocês estão estagnados e felizes. Toda a Galáxia está assim e sabe lá o espaço há quanto tempo. É por isso que a Periferia está se revoltando; é por isso que as comunicações estão se deteriorando; é por isso que guerras mesquinhas estão se tornando eternas; é por isso que sistemas inteiros estão perdendo a energia nuclear e voltando a técnicas bárbaras da energia química. Se vocês querem saber a minha opinião – ele gritou – o Império Galáctico está morrendo!

 

 

“– Por que passar por todas as cerimônias da audiência oficial do prefeito? Estou ficando muito velho para toda pompa. Além do que, lisonjas são úteis quando você lida com jovens... particularmente quando não se compromete com nada.”

 

 

“– Suas opiniões são suas, é claro. Mas o senhor ainda é muito jovem.

– É um defeito do qual a maioria das pessoas é culpada em algum momento de suas vidas – foi a resposta seca.”

 

 

“– Agora é um pouco tarde para falar de ameaças – Wienis havia olhado rapidamente para o relógio em sua mesa. – Escute aqui, Hardin, você já esteve em Anacreon uma vez antes. Na época você era jovem; ambos éramos jovens. Mas, mesmo então, já tínhamos maneiras diferentes de olhar para as coisas. Você é o que chamam de homem de paz, não é?

– Suponho que sim. Pelo menos, considero a violência um meio não econômico de se atingir um objetivo. Existem sempre melhores substitutos, embora eles possam ser um pouco menos diretos.

– Sim. Já ouvi o seu famoso slogan: “A violência é o último refúgio do incompetente”. E, no entanto – o regente coçou uma orelha gentilmente numa abstração afetada –, eu não me chamaria exatamente de incompetente.”

 

 

“Não há mérito em disciplina sob circunstâncias ideais. Ou eu a tenho em face da morte, ou ela é inútil.”

O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa

Editora: Companhia das Letras

ISBN: 978-85-3592-890-7

Tradução e posfácio: Maurício Santana Dias

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 384

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Sinopse: Itália, anos 1860, Risorgimento. Os fragmentados estados italianos estavam em um tormentoso processo de unificação, e o estabelecimento de uma nova ordem se mostrava cada vez mais pungente. Ambientado num universo intensamente melancólico e sensual e repleto de elementos de ironia e humor, O Leopardo acompanha a história de Dom Fabrizio Salina e de sua decadente família aristocrática siciliana – cujo brasão carrega inscrito o Leopardo que dá nome ao livro –, ameaçados pelas forças revolucionárias e democráticas durante os embates dessa transição. Nesse intrincado contexto, Salina precisa decidir como encarar as novas mudanças que se impõem tanto em sua vida pública como privada.

Único romance do escritor italiano, O Leopardo foi recusado por duas editoras e só veio a ser publicado um ano depois da morte de Lampedusa, em 1958, quando ganhou atenção da crítica e transformou-se num cultuado best-seller na Itália. Esta edição tem tradução e posfácio de Maurício Santana Dias e inclui textos do apêndice de Gioacchino Lanza Tomasi.

 

 

“Porque morrer por alguém ou por alguma coisa, tudo bem, é normal; mas é preciso saber ou, pelo menos, ter certeza de que se sabe por quem ou por que se morreu.”

 

 

“Se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude.”

 

 

“Mais uma vez o Príncipe se viu diante de um dos enigmas sicilianos. Nesta ilha secreta, onde as casas têm trancas e os camponeses dizem desconhecer o caminho que leva ao povoado em que vivem e que se avista bem ali, na colina, a dez minutos de estrada, nesta ilha, malgrado o ostensivo luxo de mistério, a discrição é um mito.

Fez sinal para que Russo se sentasse e o mirou fixo nos olhos: “Pietro, vamos falar de homem para homem, você também está metido nessas aventuras?”. Metido não estava, respondeu, era pai de família e esses riscos são coisa para jovens como o sr. Tancredi. “Eu jamais esconderia algo de Vossa Excelência, que é como meu pai.” (No entanto, três meses antes, havia escondido em seu depósito cento e cinquenta cestos de limões do Príncipe, e sabia que o Príncipe sabia.) “Mas devo dizer que meu coração está com eles, com esses rapazes valentes.” Ergueu-se para dar passagem a Bendicò, que fazia a porta tremer sob seu ímpeto amistoso. Tornou a sentar-se. “Vossa Excelência sabe, não é mais possível: buscas, interrogatórios, papeladas para qualquer coisa, um policial em cada canto; um cavalheiro não tem liberdade de cuidar do que é seu. Depois, em compensação, teremos liberdade, segurança, taxas mais brandas, facilidades, comércio. Todos estaremos melhor: só os padres vão perder. O Senhor protege os pobres coitados como eu, não eles.” Dom Fabrizio sorria: sabia que era justo ele, Russo, que desejava comprar Argivocale por meio de um intermediário. “Haverá dias de tiroteio e confusão, mas a vila Salina continuará segura como uma rocha; Vossa Excelência é nosso pai, e eu tenho muitos amigos aqui. Os Piemonteses vão entrar com o chapéu na mão, só para reverenciar Vossas Excelências. Que aliás é tio e tutor de Dom Tancredi!” O Príncipe sentiu-se humilhado: agora se via rebaixado à categoria de protegido dos amigos de Russo; seu único mérito, ao que parecia, era ser tio do moleque Tancredi. “Daqui a uma semana é capaz que minha vida seja salva só porque tenho Bendicò em casa.” Afagava uma orelha do cão entre os dedos com tanta força que o pobre animal gania, sem dúvida lisonjeado, mas sofrendo.

Pouco depois, algumas palavras de Russo lhe trouxeram certo alívio. “Tudo vai ser melhor, acredite em mim, Excelência. Os homens honestos e capazes poderão tomar a dianteira. O resto será como antes.” Essa gente, esses liberaizinhos rurais queriam um meio de se aproveitar mais facilmente. Apenas isso. As andorinhas bateriam asas mais cedo, e só. De resto, ainda havia muitas no ninho.

“Talvez você tenha razão. Quem sabe?” Agora havia penetrado todos os sentidos ocultos: as palavras enigmáticas de Tancredi, as enfáticas de Ferrara, as falsas mas reveladoras de Russo tinham franqueado seu reconfortante segredo. Muitas coisas ocorreriam, mas tudo seria uma comédia, uma comédia barulhenta e romântica com algumas manchas de sangue no figurino bufão. Este era o país das conciliações, não havia a fúria dos franceses; de resto, mesmo na França, com a exceção do Junho de Quarenta e Oito, quando acontecera algo de fato sério? Teve vontade de dizer a Russo, mas a cortesia inata o deteve: “Entendi perfeitamente: vocês não querem destruir a nós, que somos seus ‘pais’; querem apenas tomar nosso lugar. Com doçura, com boas maneiras, quem sabe pondo em nossos bolsos uns milhares de ducados. É assim? Seu sobrinho, meu caro Russo, vai acreditar sinceramente que é um barão; e você se tornará, sei lá, o descendente de um boiardo moscovita, graças a seu nome, e não o filho de um matuto de cabelo ruivo, como justamente seu nome revela. Antes disso sua filha desposará um de nós, quem sabe até o próprio Tancredi, com seus olhos azuis e suas mãos flexíveis. De resto, ela é linda, e uma vez que tenha aprendido a se lavar… ‘Para que tudo continue como está.’ Como está, no fundo: simplesmente uma lenta substituição de classes. Minhas chaves douradas de aristocrata de câmara, o cordão cereja de San Gennaro ficarão guardados na gaveta e depois vão parar numa vitrine do filho de Paolo, mas os Salina permanecerão os Salina; e talvez tenham até alguma compensação: o Senado da Sardenha, a fita pistache de San Maurizio. Penduricalhos estes, penduricalhos aqueles”.”

 

 

““Não somos cegos, caro Padre, somos apenas homens. Vivemos numa realidade movediça, à qual tentamos nos adaptar assim como as algas se dobram sob o impulso do mar. À Santa Igreja a imortalidade foi prometida explicitamente; a nós, como classe social, não. Para nós, um paliativo que prometa durar cem anos equivale à eternidade. Podemos até nos preocupar com nossos filhos, talvez com nossos netos; mas, para além do que podemos acariciar com estas mãos, não temos compromissos; e eu não posso me preocupar com os meus eventuais descendentes em 1960. A Igreja, sim, precisa cuidar disso, porque está destinada a não morrer. Em seu desespero, o conforto é implícito. E o senhor acredita que, se ela pudesse agora, ou no futuro, salvar a si mesma com nosso sacrifício, não o faria? Claro que sim, e faria bem”.”

 

 

“Despertado pelas primeiras luzes do dia, imerso no suor e no fedor, não pôde deixar de comparar aquela viagem asquerosa à sua vida, que de início avançara por planícies risonhas, depois subira por íngremes montanhas, atravessara gargantas ameaçadoras para enfim desembocar em intermináveis ondulações monocromáticas, desertas como o desespero. Essas fantasias de manhã cedo eram o que de pior poderia acontecer a um homem de meia-idade; e, embora Dom Fabrizio soubesse que se dissipariam com as atividades do dia, sofria agudamente com isso, porque já era experiente o bastante para saber que elas deixavam no fundo da alma um sedimento de luto que, acumulando-se a cada dia, acabaria sendo a verdadeira causa da morte.”

 

 

“O amor. Claro, o amor. Fogo e labaredas por um ano, cinzas por trinta.”

 

 

“A volúpia de gritar “a culpa é sua!” é a mais forte que uma criatura humana possa gozar.”

 

 

“Essas marchas no fio da navalha estavam de todo suspensas para o momento, junto a outros pensamentos, no arcaísmo perfumado do campo, se assim se podiam chamar os locais em que com tanta frequência caçava. No termo “campo” está implícito um sentido de terra transformada pelo trabalho: já o bosque, agarrado às encostas de uma colina, encontra-se no mesmo estado de entrelaçamento aromático em que o haviam encontrado Fenícios, Dórios e Jônios quando desembarcaram na Sicília, esta América da Antiguidade. Dom Fabrizio e Tumeo subiam, desciam, escorregavam e eram arranhados pelos espinhos tal e qual um Arquídamo ou um Filóstrato qualquer se cansaram e se arranharam vinte e cinco séculos antes; viam as mesmas árvores, o mesmo suor grudento banhava suas roupas, o mesmo indiferente vento sem trégua, marinho, movia os mirtos e as giestas, disseminava o cheiro do timo. As repentinas paradas pensativas dos cães e sua patética tensão à espera da presa eram idênticas às dos dias em que, para a caça, se invocava Ártemis. Reduzida a esses elementos essenciais, com o rosto lavado da maquiagem das preocupações, a vida se mostrava sob um aspecto tolerável.”

 

 

““A verdade, Excelência, é que dom Calogero é muito rico, e muito influente também; é sovina (quando a filha estava no colégio, ele e a esposa dividiam um ovo frito), mas sabe gastar quando necessário; e, como cada tarì gasto no mundo acaba no bolso de alguém, aconteceu que muita gente agora depende dele; mas é preciso reconhecer que, quando ele é amigo, é amigo; cede sua terra a quatro meeiros e os camponeses têm de suar sangue para pagar, mas um mês atrás emprestou cinquenta onças a Pasquale Tripi, que o tinha ajudado no período do desembarque; e sem juros, o que é o maior milagre que já se viu desde que Santa Rosalia acabou com a peste em Palermo. De resto, é inteligente feito o diabo; Vossa Excelência deveria ter visto o homem na primavera passada: corria para cima e para baixo em todo o território feito um morcego, de carroça, montado em mula, a pé, debaixo de sol ou de chuva; e por onde passava se formavam círculos secretos, preparava-se o caminho para os que estavam por vir. Um castigo de Deus, Excelência, um castigo de Deus! E só estamos vendo o início de sua carreira! Daqui a uns meses vai ser deputado em Turim, e daqui a uns anos, quando os bens da Igreja forem postos à venda na bacia das almas, ele vai arrematar os feudos de Marca e de Masciddàro e se tornar o maior proprietário da província. Esse é dom Calogero, Excelência, o homem novo como deve ser; mas é pena que deva ser assim”.”

 

 

“Aqueles foram os melhores dias da vida de Tancredi e Angelica, vidas que depois seriam tão distintas, tão pecaminosas sobre o fundo inevitável de dor. Mas eles no momento não o sabiam e perseguiam um futuro que supunham mais concreto, embora depois se mostrasse feito apenas de névoa e vento. Quando ficaram velhos e inutilmente sábios, seus pensamentos costumavam retornar àqueles dias com um lamento insistente: tinham sido os dias do desejo sempre presente porque sempre vencido, das muitas camas que se haviam oferecido e foram recusadas, do estímulo sensual que, justo por ter sido reprimido, num instante se sublimara em renúncia, isto é, em amor verdadeiro. Aqueles dias foram a preparação para o casamento deles que, mesmo no aspecto erótico, foi malsucedido; uma preparação que se conformou num conjunto autônomo, delicioso e breve: como aquelas sinfonias que sobrevivem às óperas esquecidas e que fazem referência, com uma graça velada de pudor, a todas as árias que, na ópera, seriam desenvolvidas sem destreza, até o fracasso.”

 

 

“Na manhã seguinte, Tancredi e Cavriaghi o levaram a passeio ao jardim, lhe mostraram a pinacoteca e a coleção de tapeçarias; também deram uma volta com ele pelo vilarejo; sob o sol cor de mel de novembro, tudo parecia menos sinistro que na noite anterior; depararam-se até com alguns sorrisos, e Chevalley de Monterzuolo começou a se tranquilizar em relação à Sicília rural. Tal fato foi notado por Tancredi, que logo se viu assaltado pela comichão típica dos nativos da ilha em contar aos forasteiros histórias assustadoras, infelizmente sempre verídicas. Passavam diante de um bizarro palácio cuja fachada trazia relevos grosseiros. “Esta, meu caro Chevalley, é a casa do barão Mùtolo; agora está vazia e fechada porque a família mora em Agrigento desde que o filho do barão foi sequestrado por bandoleiros, dez anos atrás.” O piemontês começava a tremer. “Coitado! Quem sabe quanto precisou pagar para ser libertado!” “Não, o barão não pagou nada; já estava em dificuldades financeiras, desprovido de dinheiro líquido, como todos aqui. Ainda assim o rapaz foi restituído, mas em parcelas.” “Como assim, Príncipe?” “Em parcelas, isso mesmo, em parcelas: pedaço por pedaço. Primeiro chegou o indicador da mão direita. Depois de uma semana, o pé esquerdo e, por fim, num belo cesto, sob uma camada de figos (era agosto), a cabeça; tinha os olhos arregalados e sangue seco no canto dos lábios. Eu não vi nada disso, na época era um menino; mas me disseram que o espetáculo não foi nada bonito. O cesto foi deixado naquele degrau ali, o segundo em frente à porta, por uma velha com um xale preto na cabeça: ninguém a reconheceu.” Os olhos de Chevalley se contraíram de desgosto; já tinha ouvido sobre aquele caso, mas agora, ver sob esse belo sol o degrau onde fora depositada a oferenda insólita, era outra coisa. Sua alma de funcionário o socorreu: “Que polícia incompetente a dos Bourbon. Em breve, quando nossos policiais estiverem aqui, tudo isso vai acabar”. “Sem dúvida, Chevalley, sem dúvida.”

Passaram então na frente do Clube dos Civis, que, à sombra dos plátanos da praça, fazia sua exposição cotidiana de cadeiras de ferro e de homens enlutados. Cumprimentos, sorrisos. “Observe-os bem, Chevalley, guarde a cena na memória: umas duas vezes por ano, um desses senhores é fulminado na sua poltroninha; um tiro disparado na luz incerta do pôr do sol; e ninguém nunca sabe quem foi que atirou.” Chevalley precisou se apoiar no braço de Cavriaghi para sentir perto de si um pouco de sangue continental.

Logo em seguida, no topo de uma estradinha íngreme, em meio às guirlandas multicoloridas das roupas de baixo a secar, despontou uma igrejinha ingenuamente barroca. “Aquela é Santa Ninfa. Cinco anos atrás o pároco foi assassinado ali dentro enquanto celebrava a missa.” “Que horror! Tiros numa igreja!” “Tiros coisa nenhuma, Chevalley! Somos muito bons católicos para fazer grosserias desse tipo. Simplesmente puseram veneno no vinho da Comunhão; é mais discreto, quero dizer, mais litúrgico. Nunca se soube quem fez isso: o pároco era uma ótima pessoa e não tinha inimigos.”

Assim como um homem que, despertando no meio da noite, vê um espectro sentado em sua cama, sobre seus pés, e se salva do terror tentando acreditar que tudo não passa de uma peça de amigos brincalhões, do mesmo modo Chevalley refugiou-se na crença de estar sendo zombado: “Muito engraçado, Príncipe, realmente espirituoso! O senhor deveria escrever romances, conta tão bem essas lorotas!”. Mas sua voz tremia; Tancredi sentiu pena dele e, embora na volta para casa tenham passado diante de três ou quatro locais igualmente evocativos ou mais, absteve-se de atuar como cronista e falou de Bellini e Verdi, as eternas pomadas curativas das chagas nacionais.”

 

 

“Na Sicília, não importa fazer o mal ou o bem: o pecado que nós, sicilianos, nunca perdoamos é simplesmente o de ‘fazer’. Somos antigos, Chevalley, muito, muito antigos. Faz pelo menos vinte e cinco séculos que carregamos nos ombros o peso de magníficas civilizações heterogêneas, todas vindas de fora já completas e aperfeiçoadas, nenhuma germinada de nós mesmos, nenhuma à qual tenhamos dado a afinação; somos brancos assim como o senhor, Chevalley, e tanto quanto a rainha da Inglaterra; no entanto, há dois mil e quinhentos anos somos colônia. Não digo isso para me lamentar: em grande parte é culpa nossa, mas mesmo assim estamos exaustos e esgotados”. (...)

“O senhor me falava há pouco de uma jovem Sicília que se abre às maravilhas do mundo moderno; a meu ver, parece-me bem mais uma velha centenária arrastada numa cadeira de rodas à Exposição Universal de Londres, que não compreende nada, não se importa com nada, nem com as aciarias de Sheffield nem com as tecelagens de Manchester, e que só anseia voltar a cochilar entre seus travesseiros babados e o urinol debaixo da cama”.

Ainda falava em tom baixo, mas a mão em torno do San Pietro já se contraía; no dia seguinte, constatou-se que a pequena cruz acima da cúpula estava quebrada. “O sono, caro Chevalley, o que os sicilianos querem é o sono, e eles sempre odiarão quem os quiser despertar, ainda que seja para lhes dar os mais belos presentes; e, cá entre nós, tenho minhas dúvidas de que o novo reino traga muitos presentes para nós na bagagem. Todas as manifestações sicilianas são oníricas, até as mais violentas: nossa sensualidade é desejo de esquecimento, nossos tiroteios e facadas, desejo de morte; desejo de imobilidade voluptuosa, isto é, ainda de morte, nossa preguiça, nossos sorvetes de salsifi-negro ou de canela; nosso ar meditativo é o do vazio que quer perscrutar os enigmas do nirvana. Disso deriva a prepotência de certas pessoas entre nós, dos que estão semiacordados; daí o famoso atraso de um século das manifestações artísticas e intelectuais sicilianas; as novidades só nos atraem quando sentimos que estão mortas, incapazes de dar lugar a correntes vitais; daí o inacreditável fenômeno da formação atual, contemporânea a nós, de mitos que seriam veneráveis se fossem antigos de verdade, mas que não passam de tentativas sinistras de mergulhar de novo num passado que nos atrai justamente porque está morto”.

Nem tudo era compreendido pelo bom Chevalley; sobretudo a última frase lhe parecia obscura: tinha visto as carroças coloridas puxadas por cavalos paramentados e desnutridos, tinha ouvido falar do teatro de marionetes cavaleirescas, mas acreditava que fossem velhas tradições autênticas. Disse: “Mas o senhor não acha que está exagerando um pouco, Príncipe? Eu mesmo conheci em Turim alguns sicilianos emigrados… Crispi, para mencionar apenas um… que me pareceram o oposto de dorminhocos”.

O Príncipe se irritou: “Somos muitos, é evidente que há exceções; de resto, já mencionei nossos semiacordados. Quanto a esse jovem Crispi, decerto não eu, mas talvez o senhor mesmo possa observar que, quando velho, ele recairá em nosso devaneio voluptuoso: todos fazem isso. Por outro lado, vejo que me expliquei mal: disse os sicilianos, mas deveria ter acrescentado a Sicília, o ambiente, o clima, a paisagem. Estas são as forças que, juntas, e talvez mais que o domínio estrangeiro e as violações incongruentes, lhe formaram o espírito: esta paisagem que ignora os meios-termos entre a malemolência lasciva e a aspereza amaldiçoada; que nunca é mesquinha, prosaica, relaxante, humana, como deveria ser um espaço feito para acolher seres racionais; este lugar que, a poucas milhas de distância, tem o inferno em torno de Randazzo e a beleza da baía de Taormina, ambos desmedidos e, portanto, perigosos; este clima que nos inflige seis meses de uma febre de quarenta graus; pode contá-los, Chevalley, pode contá-los: maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro; seis vezes trinta dias de sol a pino nas cabeças; este nosso verão tão longo e terrível quanto o inverno russo, e contra o qual se luta com menos sucesso; o senhor ainda não sabe, mas pode-se dizer que aqui neva fogo, como nas cidades amaldiçoadas da Bíblia; em cada um desses meses, se um siciliano trabalhasse a sério, consumiria força suficiente para três; além disso, a água ou não existe, ou é preciso trazê-la de tão longe que cada gota se paga com uma gota de suor; e ainda temos as chuvas sempre tempestuosas, que fazem delirar as torrentes secas, que afogam animais e homens exatamente onde uma semana antes ambos morriam de sede. Essa violência da paisagem, essa crueldade do clima, essa tensão contínua em cada coisa, até esses monumentos do passado, magníficos mas incompreensíveis porque não foram construídos por nós, que estão à nossa volta como extraordinários fantasmas mudos; todos esses governos, desembarcados em armas vindos sabe-se lá de onde, imediatamente servidos, logo detestados e sempre incompreendidos, que só se expressaram por meio de obras de arte enigmáticas para nós e de concretos coletores de impostos gastos depois em outros lugares; tudo isso formou nosso caráter, que assim permanece condicionado por fatalidades exteriores e por uma assombrosa insularidade da alma”.”

 

 

“Quem segue a própria estrada está sempre certo, contanto que não cometa torpezas.”

 

 

““Se você, dom Pietrino, não estivesse dormindo neste momento, com certeza me diria, enfático, que os senhores fazem mal em cultivar esse desprezo pelos outros, e que todos nós, sujeitos da mesma forma à dupla servidão do amor e da morte, somos iguais perante o Criador; e eu só poderia lhe dar razão. Mas acrescentaria que não é justo acusar de desprezo apenas os ‘senhores’, já que esse é um vício universal. Quem ensina na Universidade despreza o pobre professor das escolas paroquiais, ainda que não o demonstre; e já que o senhor está dormindo posso lhe dizer sem meios-termos que nós, sacerdotes, nos consideramos superiores aos leigos, nós, Jesuítas, superiores ao resto do clero, assim como vocês, boticários, desprezam os tira-dentes, que por sua vez debocham de vocês; já os médicos zombam dos tira-dentes e dos boticários e são por seu turno tratados como asnos pelos doentes que pretendem continuar vivendo com o coração e o fígado em frangalhos. Para os juízes, os advogados não passam de importunos que buscam procrastinar o funcionamento das leis; por outro lado, a literatura transborda de sátiras contra a pomposidade, a indolência e às vezes até coisa pior desses mesmos magistrados. Os únicos que são desprezados até por seus pares são os camponeses; quando aprenderem a debochar de outros, o círculo se fechará e será preciso começar tudo de novo.”

 

 

“Toda vez que se encontra um parente, se encontra um espinho.”

 

 

“Aqui, na Itália, nunca se exagera o bastante em matéria de sentimentalismo e afagos: são os argumentos políticos mais eficazes que temos.”

 

 

Dom Fabrizio conhecia desde sempre aquela sensação. Havia décadas sentia como se a seiva vital, a faculdade de existir, enfim, a vida e talvez até a vontade de continuar vivendo saíssem dele lenta mas continuamente, como os grãozinhos que se juntam e caem em fila um a um, sem pressa e sem trégua, pelo estreito orifício de uma ampulheta. Em alguns momentos de atividade intensa e grande concentração, esse sentimento de contínuo abandono desaparecia para reapresentar-se, impassível, à mais breve ocasião de silêncio ou introspecção, como um rumor ininterrupto no ouvido, como as batidas de um pêndulo se impõem quando todo o resto se cala — e assim nos dão a certeza de que sempre estiveram ali, vigilantes, mesmo quando não as ouvíamos.

Em todos os outros momentos, bastava-lhe um mínimo de atenção para notar o chiado dos grãos de areia se esvaindo de leve, os átimos de tempo escapando de sua vida e o abandonando para sempre; a sensação, de resto, não estava ligada a nenhum mal-estar, ao contrário, essa imperceptível perda de vitalidade era a prova, a condição, por assim dizer, da sensação vital; e para ele, habituado a perscrutar espaços exteriores ilimitados, a indagar vastíssimos abismos interiores, isso não era nada desagradável; era a percepção de um contínuo e minúsculo desmantelo da personalidade, porém associado a um vago presságio de reedificação, noutro lugar, de uma individualidade (graças a Deus) menos consciente, porém mais ampla; aqueles grãozinhos de areia não se perderiam: desapareceriam, sim, mas se acumulariam quem sabe onde para testar uma construção mais duradoura. Mas construção — refletiu — não era a palavra exata, era muito pesada; tampouco grãos de areia: eram mais como partículas de vapor aquoso que emanassem de um pântano estreito e subissem ao céu para formar grandes nuvens, leves e livres. Às vezes ele se surpreendia que o reservatório vital ainda pudesse conter algo depois de tantos anos de perdas. “Nem se fosse grande como uma pirâmide.” Noutras, mais frequentes, se orgulhava de ser quase o único a perceber essa fuga incessante, enquanto à sua volta ninguém parecia sentir o mesmo; e disso extraiu motivo para desprezar os demais, assim como o velho soldado despreza o recruta que se ilude pensando que as balas a zunir ao redor são varejeiras inócuas. São coisas que, não se sabe bem por qual razão, não se confessam; deixa-se que os outros as intuam, e ninguém à volta dele jamais as intuíra, nenhuma das filhas que sonhavam um além-túmulo idêntico a esta vida, repleto de magistraturas, chefes de cozinha, conventos e relojoeiros, de tudo; nem mesmo Stella, que, devorada pela gangrena da diabetes, se agarrara mesquinhamente a essa existência de sofrimentos. Talvez apenas Tancredi, por um instante, o compreendera quando lhe dissera com sua pungente ironia: “Você, tiozão, está seduzindo a morte”. Agora a sedução terminara: a beldade havia dado seu sim, a fuga estava decidida, o compartimento no trem, reservado.”

 

 

“Pois o significado de uma linhagem nobre consiste inteiramente nas tradições, nas recordações vitais; e ele era o último a possuir recordações incomuns, distintas das de outras famílias. Fabrizietto teria recordações banais, idênticas às de seus colegas de ginásio, recordações de merendas econômicas, de brincadeirinhas malvadas com os professores, de cavalos adquiridos com o olho mais no preço que em suas qualidades; e o significado do nome se transformaria em pompa vazia, sempre amargurada pela ameaça de que outros pudessem sobrepujá-la. Ocorreria a caçada a um casamento rico quando isso já teria se tornado uma routine ordinária, e não mais uma aventura audaciosa e predatória como fora a de Tancredi. As tapeçarias de Donnafugata, os amendoais de Ragattisi, quem sabe até a fonte de Anfitrite, coisas delicadas e vagas que eram, teriam a sorte grotesca de ser metamorfoseados em terrinas de foie gras logo digeridas e em mulherzinhas de Bataclan mais efêmeras que seus batons. E dele restaria apenas a lembrança de um avô velho e colérico que se arrebentara numa tarde de julho, justo a tempo de impedir o rapaz de sair em férias para as praias de Livorno. Ele mesmo dissera que os Salina seriam sempre os Salina. Havia errado. O último era ele. Garibaldi, aquele Vulcano barbudo, no fim das contas vencera.”

 

 

“Mais com o gesto que com a voz, disse: “Saiam! Saiam!”. Queria se confessar. As coisas se fazem ou não se fazem. Todos se retiraram, mas, quando precisou falar, se deu conta de que não tinha muito a dizer: recordava alguns pecados específicos, mas lhe pareciam tão mesquinhos que realmente não valia a pena ter importunado um digno sacerdote naquele dia tórrido. Não que se sentisse inocente: mas era toda a vida que era culpada, não este ou aquele fato determinado; há um só pecado verdadeiro, o pecado original; e ele não tinha mais tempo de confessá-lo.”

 

 

“A conversa prosseguiu por algum tempo, mas não se pode dizer que dela Concetta tivesse participado muito. A revelação repentina penetrou em sua mente com lentidão, mas a princípio não a fez sofrer demasiado. Porém, quando as visitas se despediram e foram embora, e ela se viu só, começou a perceber com mais clareza e então a sofrer mais. Os fantasmas do passado tinham sido exorcizados havia anos; é lógico que se encontravam ocultos em tudo, e eram eles que conferiam amargor à comida, e tédio às companhias; mas seu verdadeiro rosto não se mostrava fazia muito tempo; agora saltava para fora envolto na comicidade fúnebre dos problemas irreparáveis. Decerto seria absurdo dizer que Concetta ainda amasse Tancredi; a eternidade amorosa dura poucos anos, não cinquenta; mas, assim como uma pessoa curada de uma varíola que a acometeu cinquenta anos antes ainda traz suas marcas no rosto, embora possa ter esquecido o tormento do mal, ela trazia em sua vida atual, oprimida, as cicatrizes de uma desilusão já quase histórica, aliás, histórica a ponto de celebrar oficialmente seu meio século. Mas até hoje, quando raras vezes ela repensava o que acontecera em Donnafugata naquele distante verão, sentia-se amparada por um senso de martírio sofrido, de erro cometido contra si; pela animosidade em relação ao pai, que a sacrificara; por um sentimento devastador diante do outro morto — esses sentimentos derivados, que haviam constituído o esqueleto de seu modo de pensar, também se desfaziam; não houvera inimigos, mas uma só adversária, ela mesma; seu futuro tinha sido destruído por sua própria imprudência, pelo ímpeto raivoso dos Salina; agora, justo no momento em que depois de décadas as recordações voltavam a ganhar vida, lhe faltava a consolação de poder atribuir sua infelicidade aos outros, consolação que é o último filtro enganoso dos desesperados.”

 

 

“Mas seria esta, de fato, a verdade? Em nenhum lugar como na Sicília a verdade tem vida tão breve: o fato ocorreu há cinco minutos, e já seu núcleo genuíno sumiu, camuflado, embelezado, desfigurado, oprimido, aniquilado pela fantasia e pelos interesses; o pudor, o medo, a generosidade, o mau humor, o oportunismo, a caridade, todas as paixões, tanto as boas quanto as más, se precipitam sobre o fato e o fazem em pedaços; num instante ele desaparece. E a pobre Concetta queria encontrar a verdade de sentimentos não expressos, mas apenas entrevistos meio século atrás! A verdade não existia mais; sua precariedade fora substituída pela irrefutabilidade da pena.”