quinta-feira, 13 de outubro de 2022

De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso (Parte III), de Eduardo Galeano

Editora: L&PM Pocket

ISBN: 978-85-254-1942-2

Tradução: Sergio Faraco

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 384

Gravuras: Guadalupe Posada

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Sinopse: Ver Parte I



A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso imediato. Tudo muda no ritmo vertiginoso da moda, posta a serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos e são substituídas por outras de vida não menos fugaz. Neste fim de século, em que só a insegurança é permanente, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam tão voláteis quanto o capital que as financia e o trabalho que as gera. O dinheiro voa na velocidade da luz, ontem estava lá, hoje está aqui, amanhã ninguém sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potência. Paradoxalmente, os shopping centers, reinos da fugacidade, oferecem a mais bem-sucedida ilusão de segurança. Eles existem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, muito além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Nesses santuários do bem-estar se pode fazer tudo, sem necessidade de se expor à intempérie suja e ameaçadora. Até dormir se pode, segundo os últimos modelos de shoppings, que em Los Angeles e Las Vegas incluem serviços de hotelaria e ginásios. Os shoppings, que não estão sujeitos ao frio nem ao calor, estão a salvo das contaminações e da violência. Michael A. Petti publica seus conselhos científicos na imprensa mundial numa conhecida coluna chamada Viva más. Nas cidades com má qualidade de ar, o doutor Petti aconselha a quem quer viver mais: “Caminhe dentro de um centro comercial”. O cogumelo atômico da contaminação pende sobre cidades como México, São Paulo e Santiago do Chile, e nas esquinas o crime está à espreita; mas nesse neutro mundo fora do mundo, ar asséptico, passeios vigiados, pode-se respirar e caminhar e comprar sem riscos.

Os shoppings são todos mais ou menos iguais, em Los Angeles ou em Bangkok, em Buenos Aires ou em Glasgow. Esta unanimidade não os impede de competir na invenção de novos atrativos para chamar clientes. No fim de 1991, a revista Veja exaltava uma das novidades do shopping Praia de Belas, em Porto Alegre: “Para o conforto dos bebês, são oferecidos carrinhos, facilitando assim o passeio desses pequenos consumidores”. A segurança, contudo, é o artigo mais importante que todos os shopping centers oferecem. A segurança, mercadoria de luxo, está ao alcance de qualquer pessoa que penetre nesses bunkers. Em sua infinita generosidade, a cultura do consumo nos proporciona o salvo-conduto para a fuga do inferno das ruas. Rodeadas de imensas praias de estacionamento, onde os automóveis esperam, essas ilhas oferecem espaços fechados e protegidos. Ali pessoas se cruzam com pessoas, atraídas pelas vozes do consumo, como antes pessoas se encontravam com pessoas, atraídas pelo prazer do encontro, nos cafés ou nos espaços abertos das praças, nos parques e nos velhos mercados: em nossos dias, esses lugares estão demasiadamente expostos aos riscos da violência urbana. Nos shoppings não há perigo. A polícia pública e a polícia particular, a polícia visível e a polícia invisível, conduzem os suspeitos à rua ou à cadeia. Os pobres que não sabem disfarçar sua periculosidade congênita, sobretudo os pobres de pele escura, podem ser culpados até que nunca se prove sua inocência. E se são crianças, é pior. A periculosidade é inversamente proporcional à idade. Já em 1979, um informe da polícia colombiana, apresentado ao congresso policial sul-americano, explicava que autoridade policial para a infância não tivera outro remédio senão abandonar sua obra social para dedicar-se à “reprimir as perversidades” das crianças perigosas e “evitar o estorvo que sua presença causa nos centros comerciais”.

Esses gigantescos supermercados, transformados em cidades em miniatura, estão também sob a vigilância de sistemas eletrônicos de controle, olhos que veem sem ser vistos, câmeras ocultas que seguem os passos da multidão entre as mercadorias. Mas a eletrônica não é usada apenas para vigiar e castigar os indesejáveis que podem sucumbir à tentação do fruto proibido. A tecnologia moderna também serve para que os consumidores consumam mais. Na era cibernética, quando o direito à cidadania se fundamenta no dever do consumo, as grandes empresas espiam os consumidores e os bombardeiam com sua publicidade. Os computadores oferecem uma radiografia de cada cidadão. Pode-se saber quais são seus hábitos, seus gostos, seus gastos, através do uso que cada cidadão faz dos cartões de crédito, dos caixas automáticos e do correio eletrônico. De fato, assim ocorre cada vez mais nos países desenvolvidos, onde a manipulação do universo on-line está violando impunemente a vida privada para colocá-la a serviço do mercado. Torna-se cada vez mais difícil, por exemplo, que um cidadão norte-americano possa manter em segredo as compras que faz, as doenças de que sofre, o dinheiro que tem e o que deve: partindo-se desses dados, não é difícil de se descobrir os novos serviços que pode contratar, as novas dívidas que pode assumir e as novas coisas que pode comprar.”

 

 

Os donos do mundo usam o mundo como se ele fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota como se esgotam, logo depois de aparecer, as imagens que a televisão dispara como uma metralha, e como se esgotam também as modas e os ídolos que a publicidade, sem trégua, lança no mercado. Mas para que mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar na história de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas porque, estando de mau humor, resolveu privatizar o universo? A sociedade de consumo é uma arapuca para bobos. Os que puxam os cordéis fingem ignorar, mas qualquer um que tenha olhos pode ver que a grande maioria das pessoas consome necessariamente pouco, pouquinho ou nada, para que se garanta a existência da pouca natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro a corrigir, um defeito a superar: é uma necessidade essencial. Não há natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.

Os presidentes dos países do sul que prometem o ingresso no Primeiro Mundo – um passe de mágica que nos transformará em prósperos membros do reino do esbanjamento – deveriam ser processados por fraude e por apologia do crime. Por fraude, porque prometem o impossível. Se todos consumíssemos como consomem os espremedores do mundo, ficaríamos sem mundo. E por apologia do crime: este modelo de vida que nos é oferecido como um grande orgasmo da vida, estes delírios de consumo que dizem ser a chave da felicidade, estão adoecendo nosso corpo, envenenando nossa alma e nos deixando sem casa: aquela casa que o mundo quis ser quando ainda não era.”

 

 

A cibercomunidade nascente encontra refúgio na realidade virtual, enquanto as cidades se transformam em imensos desertos cheios de gente, onde cada qual vela por seu santo e está metido em sua própria bolha. Há quarenta anos, segundo as pesquisas, seis de cada dez norte-americanos confiavam na maioria das pessoas. Hoje a confiança murchou: só quatro de cada dez confiam nos demais. Esse modelo de desenvolvimento desenvolve o desvinculação. Quanto mais se sataniza a relação com as pessoas, que podem te passar a Aids, te tirar o emprego ou te depenar a casa, mais se sacraliza a relação com as máquinas. A indústria da comunicação, a mais dinâmica da economia mundial, vende os abracadabras que dão acesso à Nova Era da história da humanidade. Mas esse mundo comunicadíssimo está se parecendo demais com um reino de sozinhos e de mudos.

Os meios dominantes de comunicação estão em poucas mãos, que são cada vez menos mãos e em regra atuam a serviço de um sistema que reduz as relações humanas ao mútuo uso e ao mútuo medo.”

 

 

Dois de cada três seres humanos vivem no chamado Terceiro Mundo, mas dois de cada três correspondentes das agências noticiosas mais importantes fazem seu trabalho na Europa e nos Estados Unidos. Em que consistem o livre fluxo da informação e o respeito à pluralidade, que os tratados internacionais afirmam e os discursos dos governantes invocam? A maioria das notícias que o mundo recebe provém da minoria da humanidade e a ela se dirige. Isso é muito conveniente do ponto de vista das agências, empresas comerciais dedicadas à venda da informação, que arrecadam na Europa e nos Estados Unidos a parte do leão de seus ganhos. Um monólogo do norte do mundo: as demais regiões e países recebem pouca ou nenhuma atenção, salvo em caso de guerra ou catástrofe, e com frequência os jornalistas, que transmitem o que acontece, não falam a língua do lugar nem têm a menor ideia a respeito da história e da cultura locais. As informações que divulgam costumam ser duvidosas e, nalguns casos, francamente mentirosas. O sul fica condenado a olhar para si mesmo através de olhos que o depreciam.

No começo dos anos 80, a UNESCO patrocinou um projeto, nascido da certeza de que a informação não é uma simples mercadoria, mas um direito social, e que a comunicação tem a responsabilidade da função educativa que exerce. Aventou-se, então, a possibilidade de se criar uma nova agência internacional de notícias, para informar com independência e sem nenhum tipo de pressão, desde os países que são tratados com indiferença pelas fábricas de informação e de opinião. Embora o projeto tenha sido formulado em termos bem mais ambíguos e cuidadosos, o governo norte-americano trovejou furiosamente diante desse atentado contra a liberdade de expressão. Por que tinha de se imiscuir a UNESCO nos assuntos que pertencem às forças vivas do mercado? Os Estados Unidos se retiraram da UNESCO batendo a porta, retirou-se também a Grã-Bretanha, que costuma agir como se fosse colônia daquela que foi sua colônia, e assim foi arquivada a possibilidade de uma informação internacional desvinculada do poder político e do interesse mercantil. Por tímido que seja, qualquer projeto de independência é considerado ameaçador à divisão internacional do trabalho, que atribui a uns poucos a função ativa de produzir notícias e opiniões e atribui a todos os demais a função passiva de consumi-las.

Pouco se informa sobre o sul do mundo, e nunca, ou quase nunca, de seu ponto de vista: a informação massiva reflete, em regra, os preconceitos do olhar alheio, que olha de cima e de fora. Entre comerciais e comerciais, a televisão costuma introduzir imagens da fome e da guerra. Esses horrores, essas fatalidades, vêm do submundo onde o inferno acontece e servem para destacar o caráter paradisíaco da sociedade de consumo, que oferece automóveis para suprimir as distâncias, cremes faciais para suprimir as rugas, tinturas para suprimir os cabelos brancos, pílulas para suprimir a dor e muitos outros prodígios. A fome africana é mostrada como uma catástrofe natural e as guerras africanas são coisas de negros, sangrentos rituais de tribos que têm a selvagem tendência de se esquartejar entre si. As imagens da fome jamais aludem, nem sequer de passagem, ao saque colonial. Jamais se menciona a responsabilidade das potências ocidentais, que ontem dessangravam a África através do tráfico de escravos e do monocultivo obrigatório, e hoje perpetuam a hemorragia pagando salários de fome e preços vis. O mesmo ocorre com a informação sobre as guerras: sempre o mesmo silêncio sobre a herança colonial, sempre a mesma impunidade para o amo branco que hipotecou a independência africana, deixando em sua passagem burocracias corruptas, militares despóticos, fronteiras artificiais e ódios mútuos; e sempre a mesma omissão de qualquer referência à indústria da morte, que desde o norte vende as armas para que o sul se mate brigando.

À primeira vista, como diz o escritor Wole Soyinka, o mapa da África parece “a criação de um tecelão demente que não prestou nenhuma atenção à urdidura, à cor ou ao desenho da manta que tecia”. Muitas das fronteiras que rasgaram a África negra em mais de quarenta pedaços só se explicam como conveniências do controle militar ou comercial e não têm absolutamente nada a ver com as raízes históricas e tampouco com a natureza. As potências coloniais, que inventaram as fronteiras, também foram hábeis na manipulação das contradições étnicas. Divide et impera: um bom dia o rei da Bélgica decidiu que tutsis eram todos os que possuíam mais de oito vacas e hutus os que possuíam menos, no espaço que agora ocupam Ruanda e Burundi. Embora os tutsis, pastores, e os hutus, plantadores, tivessem origens diferentes, haviam compartilhado vários séculos de história comum no mesmo território, falavam a mesma língua e conviviam pacificamente. Eles não sabiam que eram inimigos, mas acabaram acreditando nisso com tanto fervor que, durante 1994 e 1995, as matanças entre eles causaram mais de meio milhão de vítimas. Nas informações sobre essa carnificina nem por casualidade se ouviu, e raras vezes se leu, qualquer menção à obra colonial da Alemanha e da Bélgica contra a tradição de convivência dos dois povos irmãos, nem à participação da França, que depois forneceu armas e ajuda militar para o mútuo extermínio.”

 

 

As horas de televisão superam amplamente as horas de aula – quando as horas de aula existem – na vida cotidiana das crianças de nosso tempo. É a unanimidade universal: com ou sem escola, as crianças encontram nos programas de tevê sua fonte primordial de informação, encontrando também seus temas principais de conversação. O predomínio da pedagogia da televisão ganha alarmante importância nos países latino-americanos, face à deterioração da educação pública nos últimos anos. Nos discursos, os políticos morrem pela educação e nos fatos a matam, liberando-a para as aulas de consumo e violência que a telinha ministra. Nos discursos, os políticos denunciam a praga da delinquência e exigem mão de ferro; nos fatos, estimulam a colonização mental das novas gerações: desde muito cedo, as crianças são adestradas para reconhecer sua identidade nas mercadorias que simbolizam o poder e para conquistá-las a balaços.

Os meios de comunicação refletem a realidade ou a moldam? O que vem do quê? O ovo ou a galinha? Como metáfora zoológica, não seria mais adequada a da cobra que morde o rabo? Oferecemos às pessoas o que as pessoas querem, dizem os meios de comunicação, e assim se absolvem, mas tal oferta, que responde à demanda, gera cada vez mais demanda da mesma oferta: faz-se costume, cria sua própria necessidade, transforma-se em soma. Nas ruas há tanta violência quanto na televisão, dizem os meios de comunicação. Mas a violência deles, que expressa a violência do mundo, também contribui para multiplicá-la.

A Europa fez saudáveis experiências em matéria de comunicação de massa. Em vários países europeus, a televisão e o rádio alcançaram um alto nível de qualidade como serviços públicos, dirigidos não pelo Estado, mas diretamente pelas organizações que representam as diversas expressões da sociedade civil. Essas experiências, que hoje em dia atravessam momentos difíceis face à investida da concorrência comercial, dão exemplos de uma comunicação realmente comunicativa e democrática, capaz de dirigir-se ao cidadão respeitando sua dignidade humana e seu direito à informação e ao conhecimento. Mas não é este o modelo que se internacionalizou. O mundo foi invadido pelo mortal coquetel de sangue, valium e publicidade ministrado pela televisão privada dos Estados Unidos: impôs-se um modelo baseado na premissa de que é bom tudo aquilo que dá mais lucro com menos custo, e mau tudo aquilo que não dá dividendos.

Na Grécia, nos tempos de Péricles, havia um tribunal que julgava as coisas: castigava uma faca, digamos, que tinha sido instrumento de um crime, e a sentença determinava que fosse partida em pedaços ou lançada no fundo das águas. Hoje em dia, seria justo condenar, talibanamente, o televisor? Pode-se dizer que o caluniam aqueles que lhe atribuem maus bofes ou o chamam de caixa boba: a televisão comercial reduz a comunicação ao negócio, mas, por óbvio que seja dizê-lo, o televisor é inocente do uso e do abuso que dele se faz. No entanto, isso não impede que se diga o que é mais do que evidente: esse adorado totem de nosso tempo é o meio que com mais êxito se usa para impor, nos quatro pontos cardeais, os ídolos, os mitos e os sonhos que os engenheiros de emoções desenham e as fábricas de almas produzem em série.”

 

 

Elogio da imaginação

Algum tempo atrás, a BBC perguntou às crianças britânicas se preferiam a televisão ou o rádio. Quase todas escolheram a televisão, o que foi algo assim como constatar que os gatos miam e os mortos não respiram. Mas entre as poucas crianças que escolheram o rádio, houve uma que explicou:

Gosto mais do rádio, porque pelo rádio vejo paisagens mais bonitas.

 

 

Talvez o mais adequado símbolo da época seja a bomba de nêutrons, que respeita as coisas e torra os seres vivos. Triste sorte da condição humana, tempo dos envoltórios sem conteúdo e das palavras sem sentido. A ciência e a técnica, postas a serviço do mercado e da guerra, põem-nos a seu serviço: somos instrumentos de nossos instrumentos. Os aprendizes de feiticeiro desencadearam forças que já não podem conhecer nem conter. O mundo, labirinto sem centro, está se rompendo e rompendo seu próprio céu. Os meios e os fins se divorciaram, ao longo do século, pelo mesmo sistema de poder que divorcia a mão humana do fruto de seu trabalho, obriga o perpétuo desencontro da palavra e do ato, esvazia a realidade de sua memória e faz de cada pessoa competidora e inimiga das demais.

Despojada de raiz e de vínculo, a realidade se transforma no reino do preço e da depreciação: o preço, que nos deprecia, define o valor das coisas, das pessoas e dos países. Os objetos de luxo causam inveja aos indivíduos que o mercado ningueniza, num mundo onde o mais digno de respeito é aquele que tem mais cartões de crédito. Os ideólogos da neblina, os pontífices do obscurantismo que agora está na moda, dizem-nos que a realidade é indecifrável, o que quer dizer que a realidade é imutável. A globalização reduz o internacionalismo à humilhação, e o cidadão exemplar é aquele que vive a realidade como fatalidade: se assim é, é porque assim foi; se assim foi, assim será. O século XX nasceu sob o signo das esperanças de mudança e logo foi sacudido pelos furacões da revolução social. Agora, no fim de seus dias, o século parece vencido pelo desalento e pela resignação.”

 

 

A santa mais chorada do fim do século, a princesa Diana, encontrou sua vocação na caridade, depois de ter sido abandonada pela mãe, atormentada pela sogra, enganada pelo marido e traída pelos amantes. Quando morreu, Diana presidia 81 organizações de caridade pública. Se estivesse viva, poderia muito bem assumir o Ministério da Economia de qualquer governo do sul do mundo. Por que não? Afinal, a caridade consola, mas não questiona.

Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo – disse o arcebispo brasileiro Hélder Câmara. – E quando pergunto por que eles não têm comida, me chamam de comunista.

Diferentemente da solidariedade, que é horizontal e praticada de igual para igual, a caridade é praticada de cima para baixo, humilha quem a recebe e jamais altera um milímetro as relações de poder: na melhor das hipóteses, um dia poderá haver justiça, mas lá no céu. Aqui na terra, a caridade não perturba a injustiça. Só se propõe a disfarçá-la.

Nasceu o século sob o signo da revolução e morre marcado pela desesperança. Aventura e naufrágio das tentativas de criação de sociedades solidárias: padecemos de uma crise universal da fé na capacidade humana de mudar a história. Parem o mundo, que eu quero descer: nestes tempos de desmoronamento, multiplicam-se os arrependidos, arrependidos da paixão política e arrependidos de toda paixão. Agora abundam os galos de rinha transformados em pacíficas galinhas, enquanto os dogmáticos, que se acreditavam a salvo da dúvida e do desalento, refugiam-se na nostalgia da nostalgia que evoca a nostalgia, ou se paralisam no estupor. Quanto tínhamos todas as respostas, mudaram as perguntas, escreveu uma mão anônima num muro da cidade de Quito.”

 

 

Durante boa parte do século XX, a existência do bloco do leste, o chamado Socialismo real, favoreceu as aventuras de independência de alguns países que quiseram tirar o pé da ratoeira da divisão internacional do trabalho. Mas os Estados socialistas do leste da Europa tinham muito de Estados e pouco ou nada de socialistas. Quando ocorreu o desmoronamento, fomos todos convidados para os funerais do Socialismo. Os coveiros se enganaram de defunto.

Em nome da justiça, esse presumido Socialismo sacrificava a liberdade. Reveladora simetria: em nome da liberdade, o Capitalismo, todos os dias, sacrifica a justiça. Estamos todos obrigados a nos ajoelhar diante de um desses dois altares? Quem não acredita que a injustiça seja o nosso destino inevitável, não há de identificar-se ao despotismo de uma minoria negadora da liberdade, que não prestava contas a ninguém, que tratava o povo como menor de idade e que confundia unidade com unanimidade e a diversidade com a traição. Aquele poder petrificado estava divorciado das pessoas. Isso explica, talvez, a facilidade com que desmoronou, sem pena nem glória, e a rapidez com que se impôs o poder novo, com os mesmos personagens: os burocratas deram um salto acrobático e, subitamente, transformaram-se em empresários de sucesso e chefes mafiosos. Moscou tem agora duas vezes mais cassinos do que Las Vegas, enquanto os salários caem pela metade e, nas ruas, a criminalidade cresce como os cogumelos depois da chuva.

Estes tempos são de trágica e quem sabe também saudável crise das certezas. Crise dos que acreditaram em Estados que diziam ser de todos e eram de poucos, e terminaram sendo de ninguém; crise dos que acreditaram nas fórmulas mágicas da luta armada; crise dos que acreditaram na via eleitoral, através de partidos que passaram da palavra ardente aos discursos de água e sal: partidos que começaram prometendo combater o sistema e terminaram administrando-o. São muitos os que pedem desculpas por ter acreditado que se podia conquistar o céu; são muitos os que fervorosamente se dedicam a apagar suas próprias pegadas e desmontam da esperança, como se a esperança não passasse de um cavalo cansado.

Fim do século, fim do milênio: fim do mundo? Quantos ares não envenenados ainda nos restam? Quantas terras não arrasadas, quantas águas não mortas? Quantas almas não enfermas? Em sua versão hebraica, a palavra enfermo significa “sem projeto” e esta é a mais grave enfermidade entre as muitas pestes deste tempo. Mas alguém, sabe-se lá quem, andou escrevendo num muro da cidade de Bogotá: Deixemos o pessimismo para tempos melhores.

Em língua castelhana, quando queremos dizer que ainda temos esperança, dizemos: abrigamos a esperança. Bela expressão, belo desafio: abrigá-la, para que não morra de frio nas implacáveis intempéries dos tempos que correm. Segundo uma pesquisa recente, realizada em dezessete países latino-americanos, três de cada quatro pessoas dizem que sua situação está estagnada ou piorando. Deve-se aceitar a desgraça como se aceitam o inverno e a morte? Já está na hora de nos perguntarmos, nós, os latino-americanos, se vamos nos resignar com o sofrimento e com nossa condição de caricatura do norte. Não mais do que um espelho que multiplica as deformações da imagem original? O salve-se quem puder agravado até o morra quem não puder? Multidões de perdedores numa corrida que expulsa a maioria da pista? O crime transformado em morticínio, a histeria urbana elevada à loucura total? Não temos outra coisa para dizer, para viver?”

 

 

“A história oficial, memória mutilada, é uma longa cerimônia de autoelogio dos mandachuvas do mundo. Seus refletores, que iluminam os topos, deixam a base na obscuridade. Na melhor das hipóteses, os invisíveis de sempre integram o cenário, como os extras de Hollywood. Mas são eles, os negados, mentidos, escondidos protagonistas da realidade passada e presente, que encarnam o esplêndido leque de outra realidade possível. Ofuscada pelo elitismo, pelo racismo, pelo machismo e pelo militarismo, a América continua ignorando a plenitude que contém. E isto é duas vezes certo para o sul: a América Latina conta com a mais fabulosa diversidade humana e vegetal do planeta. Ali residem sua fecundidade e sua promessa. Como disse o antropólogo Rodolfo Stavenhagen, “a diversidade cultural é para a espécie humana o que a diversidade biológica é para a riqueza genética do mundo”. Para que essas energias possam expressar as possíveis maravilhas das gentes e da terra, seria preciso não confundir a identidade com a arqueologia, nem a natureza com a paisagem. A identidade não está quieta nos museus, nem a ecologia se reduz à jardinagem.

Há cinco séculos, a gente e a terra das Américas foram incorporadas ao mercado mundial na condição de coisas. Uns poucos conquistadores, os conquistadores conquistados, foram capazes de intuir a pluralidade americana, e nela, e por ela, viveram. Mas a conquista, empresa cega e cegante como toda invasão imperial, só podia reconhecer os indígenas e a natureza como objetos de exploração ou como obstáculos. A diversidade cultural foi considerada como ignorância e castigada como heresia, em nome do deus único, da língua única e da verdade única, enquanto a natureza, besta feroz, era domada e obrigada a transformar-se em dinheiro. A comunhão dos indígenas com a terra constituía a certeza essencial de todas as culturas americanas e este pecado da idolatria mereceu a pena do açoite, da forca e do fogo.

Já não se fala em submeter a natureza: agora os verdugos preferem dizer que é preciso protegê-la. Num e noutro caso, antes e agora, a natureza está fora de nós: a civilização que confunde os relógios com o tempo, também confunde a natureza com os cartões postais. Mas a vitalidade do mundo, que zomba de qualquer classificação e está além de qualquer explicação, nunca fica quieta. A natureza se realiza em movimento e também nós, seus filhos, que somos o que somos e ao mesmo tempo somos o que fazemos para mudar o que somos. Como dizia Paulo Freire, o educador que morreu aprendendo: “Somos andando”.

A verdade está na viagem, não no porto. Não há mais verdade do que a busca da verdade. Estamos condenados ao crime? Bem sabemos que os bichos humanos andamos muito dedicados a devorar o próximo e a devastar o planeta, mas também sabemos que não estaríamos aqui se nossos remotos avós do paleolítico não tivessem sabido adaptar-se à natureza, da qual faziam parte, e não tivessem sido capazes de compartilhar o que colhiam e caçavam. Viva onde viva, viva como viva, viva quando viva, cada pessoa contém muitas pessoas possíveis e é o sistema de poder, que nada tem de eterno, que a cada dia convida para entrar em cena nossos habitantes mais safados, enquanto impede que os outros cresçam e os proíbe de aparecer. Embora estejamos malfeitos, ainda não estamos terminados; e é a aventura de mudar e de mudarmos que faz com que valha a pena esta piscadela que somos na história do universo, este fugaz calorzinho entre dois gelos.”

De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso (Parte II), de Eduardo Galeano

Editora: L&PM Pocket

ISBN: 978-85-254-1942-2

Tradução: Sergio Faraco

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 384

Gravuras: Guadalupe Posada

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Sinopse: Ver Parte I


Já nos tempos da conquista, era tido como certo que os índios estavam condenados à servidão nesta vida e ao inferno na outra. Sobravam evidências do reinado de Satã na América. Entre as provas mais irrefutáveis estava o fato de que o homossexualismo era praticado livremente nas costas do Mar do Caribe e outras regiões. Desde 1446, por ordem do rei Afonso V, os homossexuais iam para a fogueira: “Mandamos e pomos por lei geral que todo homem que tal pecado fizer, por qualquer guisa que possa ser, seja queimado e feito pelo fogo em pó, por tal que nunca de seu corpo e sepultura possa ser ouvida memória”. Em 1497, também Isabel e Fernando, os reis católicos da Espanha, mandaram que fossem queimados vivos os culpados do nefando crime da sodomia, que até então morriam a pedradas ou pendurados na forca. Os guerreiros que conquistaram a América deram algumas contribuições dignas de consideração à tecnologia das mortes exemplares. Em 1513, dois dias antes daquilo que chamam descobrimento do Oceano Pacífico, o capitão Vasco Núñez de Balboa aperreou cinquenta índios que ofendiam a Deus praticando abominável pecado contra natura. Em vez de queimá-los vivos, lançou-os a cães viciados em devorar carne humana. O espetáculo teve lugar no Panamá, à luz das fogueiras. O cão de Balboa, Leoncico, que recebia soldo de alferes, destacou-se entre os demais com sua mestria na arte de destripar.

Quase cinco séculos depois, em maio de 1997, na pequena cidade brasileira de São Gonçalo do Amarante, um homem matou quinze pessoas e se suicidou com um tiro no peito, porque na cidade andavam comentando que ele era homossexual. A ordem que impera no mundo desde a conquista da América não teve jamais a intenção de socializar os bens terrenos, que Deus nos livre e guarde, mas, em troca, dedicou-se fervorosamente a universalizar as mais desprezíveis fobias da tradição bíblica.

Em nosso tempo, o movimento gay ganhou amplos espaços de liberdade e respeito, sobretudo nos países do norte do mundo, mas ainda perduram muitas teias de aranha para sujar nossos olhos. Ainda há muita gente que vê no homossexualismo uma culpa sem expiação, um estigma indelével e contagioso, ou um convite à perdição que tenta os inocentes: os pecadores, doentes ou delinquentes dependendo de quem os julga, constituem, em qualquer caso, um perigo público. Numerosos homossexuais foram e continuam sendo vítimas dos grupos de limpeza social que operam na Colômbia e dos esquadrões da morte no Brasil, ou de qualquer dos tantos energúmenos de uniforme policial ou traje civil que, no mundo inteiro, exorcizam seus demônios espancando o próximo ou peneirando-o a punhaladas ou balaços. Segundo o antropólogo Luiz Mott, do Grupo Gay da Bahia, não menos do que 1800 homossexuais foram assassinados no Brasil nos últimos quinze anos. “Eles se matam entre si”, dizem as fontes oficiosas da polícia, “isso é coisa de bicha”. Que vem a ser exatamente a mesma explicação que amiúde se escuta sobre as guerras da África, “isso é coisa de negro”, ou sobre as matanças de indígenas na América, “isso é coisa de índio”.

“Isso é coisa de mulher”, diz-se também. O racismo e o machismo bebem nas mesmas fontes e cospem palavras parecidas. Segundo Eugenio Raúl Zaffaroni, o texto fundador do direito penal é El martillo de las brujas, um manual da Inquisição escrito contra a metade da humanidade e publicado em 1546. Os inquisidores dedicaram todo o manual, da primeira à última página, à justificação do castigo da mulher e à demonstração de sua inferioridade biológica. E já haviam sido as mulheres longamente maltratadas na Bíblia e na mitologia grega, desde os tempos em que a tolice de Eva fez com que Deus nos expulsasse do Paraíso e a imprudência de Pandora abriu a caixa que encheu o mundo de desgraças. “A cabeça da mulher é o homem”, explicava São Paulo aos coríntios, e dezenove séculos depois Gustave Le Bon, um dos fundadores da psicologia social, pôde concluir que uma mulher inteligente é algo tão raro quanto um gorila de duas cabeças. Charles Darwin reconhecia algumas virtudes femininas, como a intuição, mas eram “virtudes características das raças inferiores”.”

 

 

Pontos de vista/6

Se Eva tivesse escrito o Gênesis, como seria a primeira noite de amor do gênero humano?

Eva teria começado por esclarecer que não nasceu de nenhuma costela, não conheceu qualquer serpente, não ofereceu maçã a ninguém e tampouco Deus chegou a lhe dizer “parirás com dor e teu marido te dominará”. E que, enfim, todas essas histórias são mentiras descaradas que Adão contou aos jornalistas.”

 

 

Como também ocorre com os índios e os negros, a mulher é inferior, mas ameaça. “É preferível a maldade do homem à bondade da mulher”, advertia o Eclesiastes (42,14). E Ulisses sabia muito bem que precisava prevenir-se do canto das sereias, que cativam e desgraçam os homens. Não há tradição cultural que não justifique o monopólio masculino das armas e da palavra, nem há tradição popular que não perpetue o desprestígio da mulher ou que não a aponte como um perigo. Ensinam os provérbios, transmitidos por herança, que a mulher e a mentira nasceram no mesmo dia e que palavra de mulher não vale um alfinete, e na mitologia rural latino-americana são quase sempre fantasmas de mulheres, as temíveis almas penadas, que por vingança assustam os viajantes nos caminhos. No sono e na vigília, manifesta-se o pânico masculino diante da possível invasão dos territórios proibidos do prazer e do poder. E assim sempre foi pelos séculos dos séculos.

Por algo foram as mulheres vítimas da caça às bruxas e não só nos tempos da Inquisição. Endemoniadas: espasmos e uivos, talvez orgasmos e, para agravar o escândalo, orgasmos múltiplos. Só a possessão de Satã podia explicar tanto fogo proibido, que com o fogo era castigado. Mandava Deus que fossem queimadas vivas as pecadoras que ardiam. A inveja e o pânico diante do prazer feminino não tinham nada de novo. Um dos mitos mais antigos e universais, comum a muitas culturas de muitas épocas e de diversos lugares, é o mito da vulva dentada, o sexo da fêmea como uma boca cheia de dentes, insaciável boca de piranha que se alimenta da carne dos machos. E neste mundo de hoje, neste fim de século, há 120 milhões de mulheres mutiladas do clitóris.

Não há mulher que não seja suspeita de má conduta. Segundo os boleros, são todas ingratas; segundo os tangos, são todas putas (menos mamãe). Nos países do sul do mundo, uma de cada três mulheres casadas recebe pancadas como parte da rotina conjugal, o castigo pelo que fez e pelo que poderia fazer:

Estamos dormindo – diz uma operária do bairro Casavalle, de Montevidéu. – Um princípe te beija e te faz dormir. Quando despertas, o príncipe te baixa o pau.

E outra:

Eu tenho o mesmo medo que minha mãe tinha, e minha mãe tinha o mesmo medo que minha avó tinha.

Confirmação do direito de propriedade: o macho proprietário garante a pancadas seu direito de propriedade sobre a fêmea, assim como macho e fêmea garantem a pancadas seu direito de propriedade sobre os filhos.

E os estupros, acaso não são ritos que, pela violência, celebram esse direito? O estuprador não procura, não encontra prazer: precisa submeter. O estupro grava a fogo uma marca de propriedade na anca da vítima e é a expressão mais brutal do caráter fálico do poder, desde sempre manifestado através da flecha, da espada, do fuzil, do canhão, do míssil e de outras ereções. Nos Estados Unidos, uma mulher é estuprada a cada seis minutos. No México, a cada nove minutos. Diz uma mulher mexicana:

Não há diferença entre ser estuprada e ser atropelada por um caminhão, exceto que os homens, depois, perguntam se você gostou.

As estatísticas só registram os estupros denunciados, que na América Latina são em muito menor número do que os ocorridos. Em sua maioria, as mulheres estupradas calam por medo. Muitas meninas, estupradas em suas casas, vão parar na rua: fazem a vida, corpos baratos, e algumas, como os meninos de rua, têm sua casa no asfalto. Diz Lélia, quatorze anos, criada ao deus-dará nas ruas do Rio de Janeiro:

Todos roubam. Eu roubo e me roubam.

Quando Lélia trabalha, vendendo seu corpo, pagam-lhe quase nada ou pagam batendo nela. E, quando rouba, os policiais roubam dela o que ela rouba e ainda roubam seu corpo.

Diz Angélica, dezesseis anos, perdida nas ruas da cidade do México:

Eu disse à minha mãe que meu irmão tinha abusado de mim e ela me expulsou de casa. Agora vivo com um guri e estou grávida. Ele disse que, se for menino, vai me apoiar. Se for menina, não diz nada.

“No mundo de hoje, nascer menina é um risco”, diz a diretora da UNICEF. E denuncia a violência e a discriminação que a mulher sofre, desde a infância, a despeito das conquistas dos movimentos feministas no mundo todo. Em 1995, em Pequim, a Conferência Internacional sobre os Direitos das Mulheres revelou que, no mundo atual, elas ganham a terça parte do que ganham os homens por trabalho igual. De cada dez pobres, sete são mulheres. De cada cem mulheres, apenas uma é proprietária de algo. Voa torta a humanidade, pássaro de uma asa só. Nos parlamentos, em média, há uma mulher para cada dez legisladores, e em alguns parlamentos não há nenhuma. Se reconhece à mulher certa utilidade em casa, na fábrica ou no escritório e até se admite que possa ser imprescindível na cama ou na cozinha, mas o espaço público é virtualmente monopolizado pelos machos, nascidos para as lidas do poder e da guerra. Carol Bellamy, que encabeça a agência UNICEF das Nações Unidas, é um caso raro. As Nações Unidas pregam o direito à igualdade, mas não o praticam: no mais alto nível, onde são tomadas as decisões, os homens ocupam oito de cada dez cargos no máximo organismo internacional.”

 

 

“A justiça é como as serpentes: só morde os descalços. (Monsenhor Óscar Arnulfo Romero, Arcebispo de San Salvador, assassinado em 1980)”

 

 

O medo global

Os que trabalham têm medo de perder o trabalho.

Os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho.

Quem não tem medo da fome, tem medo da comida.

Os motoristas têm medo de caminhar e os pedestres têm medo de ser atropelados.

A democracia tem medo de lembrar e a linguagem tem medo de dizer.

Os civis têm medo dos militares, os militares têm medo da falta de armas, as armas têm medo da falta de guerras.

É o tempo do medo.

Medo da mulher da violência do homem e medo do homem da mulher sem medo.

Medo dos ladrões, medo da polícia.

Medo da porta sem fechaduras, do tempo sem relógios, da criança sem televisão, medo da noite sem comprimidos para dormir e medo do dia sem comprimidos para despertar.

Medo da multidão, medo da solidão, medo do que foi e do que pode ser, medo de morrer, medo de viver.”

 

 

América Latina, paisagens típicas

Os Estados deixam de ser empresários e tornam-se policiais.

Os presidentes se transformam em gerentes de empresas estrangeiras.

Os ministros da Economia são bons tradutores.

Os industriais se transformam em importadores.

Os mais dependem cada vez mais das sobras dos menos.

Os trabalhadores perdem seus trabalhos.

Os agricultores perdem suas terrinhas.

As crianças perdem sua infância.

Os jovens perdem a vontade de acreditar.

Os velhos perdem sua aposentadoria.

“A vida é uma loteria”, opinam os que ganham.”

 

 

Quem são os carcereiros, quem são os cativos? Poder-se-ia dizer que, de algum modo, todos nós estamos presos. Os que estão dentro das prisões e os que estamos fora delas. São livres, acaso, aqueles que são prisioneiros da necessidade, obrigados a viver para trabalhar porque não podem dar-se o luxo de trabalhar para viver? E os prisioneiros do desespero, que não têm trabalho nem o terão, condenados a viver roubando ou fazendo milagres? E os prisioneiros do medo, acaso somos livres? E acaso não somos todos prisioneiros do medo, os de cima, os de baixo e também os do meio? Em sociedades obrigadas ao salve-se quem puder, somos prisioneiros os vigias e os vigiados, os eleitos e os párias. (...)

Já vi grades até em alguns casebres de lata e tábua nos subúrbios das cidades, pobres se defendendo de outros pobres, uns e outros tão pobres quanto um rato de igreja. O desenvolvimento urbano, metástase da desigualdade: crescem os subúrbios, e nos subúrbios há choças e jardins. Os subúrbios ricos geralmente se situam não muito longe dos arrabaldes que os abastecem de criadas, jardineiros e guardas. Nos espaços do desemparo, espreita a revolta dos que só comem de vez em quando. Nos espaços do privilégio, os ricos vivem em prisão domiciliar.”

 

 

Os cativos do medo não sabem que estão presos. Mas os prisioneiros do sistema penal, que levam um número no peito, perderam a liberdade e perderam o direito de esquecer que a perderam. Os presídios mais modernos, últimos guinchos da moda, tendem a ser, todos eles, presídios de segurança máxima. Já não há uma proposta de reintegrar o delinquente à sociedade, recuperar o extraviado, como se dizia antigamente. A proposta, agora, é isolá-lo e já ninguém se dá o trabalho de mentir sermões. A justiça tapa os olhos para não ver de onde vem o que delinquiu, nem por que delinquiu, o que seria o primeiro passo de sua possível reabilitação. O presídio-modelo do fim do século não tem o menor propósito de regeneração e nem sequer de castigo. A sociedade enjaula o perigo público e joga fora a chave.”

 

 

“Muitos dos grandes negócios promovem o crime e do crime vivem. Nunca houve tanta concentração de recursos econômicos e  conhecimentos científicos e tecnológicos dedicados à produção da morte. Os países que mais vendem armas no mundo são os mesmos que têm a seu cargo a paz mundial. Felizmente para eles, se a ameaça à paz está diminuindo e já se afastam suas nuvens negras, o mercado da guerra se recupera e oferece promissoras perspectivas de carneações rentáveis. As fábricas de armas trabalham tanto quanto as fábricas que fazem inimigos na medida de suas necessidades.”

 

 

Pontos de vista/8

Até pouco tempo atrás, os historiadores da democracia ateniense só de passagem mencionavam os escravos e as mulheres. Os escravos eram a maioria na população da Grécia e as mulheres eram a metade. Como seria a democracia ateniense, considerada do ponto de vista dos escravos e das mulheres?

A Declaração de Independência dos Estados Unidos proclamou, em 1776, que “todos os homens nascem iguais”. O que isso significava do ponto de vista dos escravos negros, meio milhão de escravos que continuaram sendo escravos depois da declaração? E as mulheres, que continuaram sem ter nenhum direito, nasciam iguais a quem?

Do ponto de vista dos Estados Unidos, é justo que os nomes dos norte-americanos tombados no Vietnã estejam gravados num imenso muro de mármore, em Washington. Do ponto de vista dos vietnamitas que a invasão norte-americana matou, faltam ali sessenta muros.”

 

 

“Tampouco surpreende o infeliz balanço mundial da guerra e da paz. Por cada dólar que as Nações Unidas gastam em suas missões de paz, o mundo emprega dois mil dólares em gastos de guerra, destinados ao sacrifício de seres humanos em caçadas onde o caçador e a presa são da mesma espécie e onde tem mais êxito quem mais pessoas mata. Como dizia dom Theodore Roosevelt, “nenhum triunfo pacífico é tão grandioso quanto o supremo triunfo da guerra”. E em 1906, deram-lhe o Prêmio Nobel da Paz.”

 

 

“Boa parte da opinião pública norte-americana padece de uma assombrosa ignorância a respeito de tudo o que ocorre fora de seu país, e teme ou despreza o que ignora. No país que mais desenvolveu a tecnologia da informação, os noticiários da televisão dão pouco ou nenhum espaço às novidades do mundo, exceto para confirmar que os estrangeiros têm tendência ao terrorismo e à ingratidão. Cada ato de rebelião ou explosão de violência, ocorra onde ocorrer, torna-se uma nova prova de que a conspiração internacional segue sua marcha, alimentada pelo ódio e pela inveja. Pouco importa que a Guerra Fria tenha terminado, pois o demônio dispõe de um amplo guarda-roupa e não se veste apenas de vermelho.”

 

 

“Não é preciso ser um expert em politicologia para perceber que, em regra, os discursos só alcançam seu verdadeiro sentido quando entendidos ao contrário. A regra tem poucas exceções: na planície, os políticos prometem mudanças, no governo mudam... de opinião. Alguns ficam redondos de tanto dar voltas. Dá torcicolo vê-los girar, da esquerda para a direita, com tanta rapidez. Primeiro a educação e a saúde!, eles clamam, como clama o capitão do navio: Primeiro as mulheres e as crianças!, e a educação e a saúde são as primeiras que se afogam. Os discursos elogiam o trabalho, enquanto os fatos injuriam os trabalhadores. Os políticos que juram, com a mão no peito, que a soberania nacional não tem preço, costumam ser os mesmos que depois a oferecem; e os que anunciam que expulsarão os ladrões, costumam ser o mesmos que depois roubam até as ferraduras de um cavalo a galope.”

 

 

“O Fundo Monetário se chama Internacional, como o Banco se chama Mundial, mas estes irmãos gêmeos vivem, recebem e decidem em Washington; e a numerosa tecnocracia jamais cospe no prato em que come. Ainda que os Estados Unidos sejam o país com mais dívidas no mundo, ninguém lhe dita do exterior a ordem de leiloar a Casa Branca, e mesmo não passaria pela cabeça de nenhum funcionário internacional o cometimento de tal insolência. Em contrapartida, os países do sul do mundo, que entregam 250 mil dólares por minuto por conta do serviço da dívida, são países cativos, e os credores lhes esquartejam a soberania como os patrícios romanos, em outros tempos imperiais, esquartejavam seus devedores plebeus. Por muito que paguem esses países, não há maneira de mitigar a sede do grande balde furado que é a dívida externa. Quanto mais pagam, mais devem, e quanto mais devem, mais obrigados ficam a obedecer a ordem de desmantelar o estado, hipotecar a independência política e alienar a economia nacional. Viveu pagando e morreu devendo, podia constar das lápides.”

 

 

“Jorge Bermúdez tem três filhos e três empregos. Ao raiar do dia sai a recorrer as ruas da cidade de Quito num velho Chevrolet que faz as vezes de táxi. Na primeira hora da tarde passa a dar aulas de inglês, há dezesseis anos ele é professor num colégio público, onde ganha 150 dólares mensais. Quando termina sua jornada no colégio público, dá aulas num colégio particular até a meia-noite. Jorge Bermúdez jamais tem um dia livre. Há algum tempo sofre de ardências no estômago e anda de mau humor e com pouca paciência. Um psicólogo lhe explicou que eram mal-estares psicossomáticos e transtornos de conduta derivados do excesso de trabalho, e recomendou que abandonasse dois de seus três empregos para restabelecer sua saúde física e mental. O psicólogo não o orientou como fazer para chegar ao fim do mês.

No mundo ao avesso, a educação não compensa. O ensino público latino-americano é um dos setores mais castigados pela nova situação do trabalho. Os professores recebem elogios, são homenageados com discursos afetados que exaltam o trabalho abnegado dos apóstolos do magistério que, com suas mãos amorosas, moldam a argila das novas gerações; e, além disso, recebem salários que só se enxergam com lupa. O Banco Mundial chama a educação de “um investimento em capital humano”, o que, de seu ponto de vista, é um elogio, mas, num informe recente, propõe como possibilidade reduzir os salários do professorado nos países onde “a oferta de professores” permite manter o nível docente.

Reduzir os salários? Que salários? “Pobres, mas docentes”, diz-se no Uruguai. E também: “Tenho mais fome do que um professor”. Os professores universitários estão nas mesmas condições. Em meados de 1995, li nos jornais o chamamento para um concurso na Faculdade de Psicologia de Montevidéu. Precisava-se de um professor de Ética e ofereciam-se cem dólares por mês. Pensei cá comigo que era preciso ser um mago da ética para não se deixar corromper por semelhante fortuna.”

 

 

A história se repete? Ou só se repete como penitência para quem é incapaz de escutá-la? Não há história muda. Por mais que a queimem, por mais que a rasguem, por mais que a mintam, a história humana se nega a calar a boca. O tempo que foi continua pulsando, vivo, dentro do tempo que é, ainda que o tempo que é não o queira ou não o saiba. O direito de lembrar não figura entre os direitos humanos consagrados pelas Nações Unidas, mas hoje mais do que nunca é necessário reivindicá-lo e pô-lo em prática: não para repetir o passado, mas para evitar que se repita; não para que os vivos sejamos ventríloquos dos mortos, mas para que sejamos capazes de falar com vozes não condenadas ao eco perpétuo da estupidez e da desgraça. Quando está realmente viva, a memória não contempla a história, mas convida a fazê-la. Mais do que nos museus, onde a pobre se entedia, a memória está no ar que respiramos; e ela, no ar, nos respira.

Esquecer o esquecimento: Dom Ramón Gómez de la Serna contou a história de alguém que possuía tão má memória que um dia se esqueceu de que tinha má memória e se lembrou de tudo. Recordar o passado, para nos livrarmos de suas maldições: não para atar os pés do tempo presente, mas para que o presente caminhe livre das armadilhas. Há poucos séculos, dizia-se recordar para significar despertar e a palavra ainda é usada nesse sentido em algumas regiões da América Latina. A memória desperta é contraditória, como nós. Nunca está quieta e, conosco, vai mudando. Não nasceu para âncora. Tem, antes, a vocação da catapulta. Quer ser ponto de partida, não de chegada. Não renega a nostalgia, mas prefere a esperança, seu perigo, sua intempérie. Acreditavam os gregos que a memória era irmã do tempo e do mar, e não se enganavam.

A impunidade é filha da má memória.”

 

 

As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu aquilo que o esperanto ambicionou e não fez. Qualquer pessoa entende, em qualquer lugar, as mensagens que o televisor transmite. No último quarto de século, os gastos de publicidade duplicaram no mundo. Graças a eles, as crianças pobres tomam cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite, e o tempo do ócio vai tornando-se tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisor, e o televisor tem a palavra. Comprado a prazo, esse animalzinho prova a vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. Assim pobres e ricos ficam conhecendo as virtudes dos automóveis último tipo, e pobres e ricos ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que tal ou qual banco pode oferecer.

Pobre é aquele que não tem ninguém, diz e repete uma velha que fala sozinha pelas ruas de São Paulo. Cada vez mais se multiplicam as pessoas e cada vez estão mais sozinhas. Os sozinhos multiplicados formam multidões que se apertam e se empurram nas grandes cidades:

Por favor, quer tirar o cotovelo do meu olho?

Os experts sabem transformar mercadorias em passes de mágica contra a solidão. As coisas têm atributos humanos, acariciam, acompanham, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o carro é o amigo que nunca falha. A cultura de consumo fez da sociedade o mais lucrativo dos mercados. Os dolorosos vazios do peito são preenchidos com coisas ou com o sonho de possuí-las. E as coisas não se limitam a abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas te escolhem e te salvam do anonimato multitudinário. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou raramente o faz. Isso pouco importa. Sua função primordial é compensar frustrações e alimentar fantasias. Comprando esta loção de pós-barba, em quem você quer se transformar?”