sexta-feira, 7 de junho de 2019

Fundamentos socioculturais da educação – Alessandro de Melo

Editora: InterSaberes
ISBN: 978-85-8212-230-3
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 280
Sinopse: Ao discutir as especificidades do universo escolar, o livro apresenta uma análise inteligente e integradora de temas contemporâneos, como multiculturalismo, interculturalidade, etnocentrismo, diversidade e pluralidade cultural. Os conteúdos trabalhados pelo autor demonstram que a prática pedagógica é capaz de gerar consequências amplas em termos sociais e antropológicos em uma estrutura educacional.



“O processo educativo é a ação socialmente construída de transmissão dos conhecimentos de uma geração às demais que surgem. (...) Educação é processo humano, essencial para a perpetuação da humanidade e veículo de humanização. Educar é humanizar, ou seja, é um processo em que cada indivíduo se apropria daquilo que é produto do trabalho humano e expresso nos conteúdos da cultura, da arte, da linguagem, da técnica e tecnologia, assim como da história, da política, da economia etc.”


“Em primeiro lugar, é interessante entendermos o conceito fundamental do sociólogo Émile Durkheim: o “fato social”. Este integra todo o seu conjunto de reflexões sobre a sociedade, entendida como um conjunto dos fatos sociais, imersos numa totalidade que lhes dá organicidade. (...)
A primeira característica do fato social* é existir exteriormente ao indivíduo, ou seja, não ser um fato individual ou psicológico, mas sim social.
Mesmo estando de acordo com sentimentos que me são próprios, sentindo-lhes interiormente a realidade, esta não deixa de ser objetiva; pois não fui eu quem os criou, mas recebi-os através da educação. Assim também o devoto, ao nascer, encontra prontas as crenças e as práticas da vida religiosa; existindo antes dele, é porque existem fora dele. (Durkheim, As regras do método sociológico, 1984, p. 1-2)
Neste trecho há o que é essencial no pensamento de Durkheim com relação ao fato social: é objetivo, exterior ao indivíduo e transmitido pela educação. Mas a esse conjunto de características é somado ainda outro aspecto importante do fato social: é que ele não somente existe fora do indivíduo, mas também se impõe a ele como forma de ser na sociedade. Para Durkheim, o indivíduo, ao nascer, encontra prontas as regras sociais, as normas de convivência, as tradições e as relações sociais, assim como os valores e as crenças. Estas, por existirem anteriormente aos indivíduos, são lhes impostas como algo superior, e, portanto, a única alternativa é que se adaptem a essas regras, valores, crenças, normas e relações sociais.
Tal imposição, ou “coerção”, nas palavras de Durkheim, gera como consequência reações para todos os que se encontram fora dessas regras sociais. A coerção existe como mecanismo controlador e de manutenção por meio de sanções sociais que podem ser implícitas — como o desprezo, por exemplo —, ou explícitas, nas reações de adversidade dos outros diante de uma situação diferente, ou mesmo pela legislação, cabendo, nesse caso, sansões violentas, como a retirada da liberdade.
*: “Durkheim (1984, p. 11) conceitua fato social como “toda maneira de agir, fixa ou não, toda maneira de agir, fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior”; ou então, ainda, que “é geral na extensão de uma sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente das manifestações individuais que possa ter”.


“Para Durkheim, o estudo da sociedade é demarcado pelos fatos sociais entendidos como “coisas”, ou seja, fatos exteriores aos indivíduos, de caráter objetivo (ao contrário dos fatos psíquicos) e que obedecem a leis positivas, gerais e, no limite, invariáveis, o que denota a sua concepção positivista de sociedade, para a qual os indivíduos deveriam se moldar e não transformar.
Para Durkheim, não interessam as manifestações individuais dos fatos sociais, mas apenas as coletivas. As ações individuais são engajadas conforme os costumes de cada período, como, por exemplo, o impulso ao casamento, ao suicídio, à natalidade etc. A estatística reforça, para Durkheim, a constatação de que o fato social não é explicável pelas manifestações particulares:
Como cada um destes números compreende todos os casos particulares indistintamente, as circunstâncias individuais que podem desempenhar qualquer papel social na produção dos fenômenos se neutralizam mutuamente e, por conseguinte, não contribuem para determiná-lo. O que cada número exprime é um certo estado de alma coletiva. (Durkheim, 1984, p. 7)
Apreende-se em Durkheim, portanto, a distância entre os indivíduos e a sociedade como um todo. Para esse autor, não é possível dizer que a sociedade se constitui da soma das individualidades, mas, sim, que é algo totalmente estranho às manifestações individuais. No entanto, como a educação constitui-se como um fato social?
O fato social, como vimos, constitui-se como imposição de valores, hábitos crenças, hábitos, normas e regras sociais constituídas independentemente da ocorrência e da vontade individual.
Mas, se é assim, como cada indivíduo pode seguir essa herança social que lhe é imposta? Como cada indivíduo pode vir a conhecer esta herança para, então, praticá-la e conservá-la? Eis aí o papel da educação na sociedade.
A educação não deixa de ser, para Durkheim, um motor da coerção social, ou seja, um mecanismo de imposição da herança social que cada indivíduo deve assimilar e reproduzir em sociedade. E, portanto, uma instituição fundamental, devido ao seu papel conservador da coesão social, concretizado pela função de transmitir essa herança para as novas gerações. Conheça um dos conceitos de educação para o autor:
Toda educação consiste num esforço contínuo para impor às crianças maneiras de ver, de sentir e de agir às quais elas não chegariam espontaneamente [...] Desde os primeiros anos de vida, são as crianças forçadas a comer, beber, dormir em horas regulares; são constrangidos a terem hábitos higiênicos, a serem calmas e obedientes; mais tarde obrigamo-las a aprender a pensar nos demais, a respeitar usos e conveniências, forçamo-las ao trabalho etc. (Durkheim, 1984, p. 5)
O autor, portanto, concebe a educação num duplo movimento: de um lado, como impositora de valores e regras sociais a serem assimiladas pelas novas gerações; por outro, a necessidade intrínseca dessa “imposição” para a perpetuação da sociedade coesa, como um organismo em bom estado de funcionamento.
Para Durkheim, a educação é um mecanismo transmissor da cultura herdada pelas antigas gerações, fazendo com que sua assimilação seja o principal índice de socialização das novas gerações. A educação é, portanto, uma instituição socializadora, sendo esta ação, contrariamente, conservadora da sociedade.
A sociedade tende, segundo o autor, a formar à sua imagem e semelhança cada indivíduo, desde criança: “A pressão de todos os instantes que sofre a criança é a própria pressão do meio social tendendo a moldá-la à sua imagem, pressão de que tanto os pais quanto os mestres não são senão representantes e intermediários.” (Durkheim, 1984, p. 5).
Para esse sociólogo, a educação era a saída para a crise social pela qual passava a sociedade, pois ela é um mecanismo de integração social, de manutenção dos valores morais, que formam a “consciência coletiva”*.
Essa relação de imposição do social sobre os indivíduos, para Durkheim, não tem outro sentido que lançá-los para fora de si, ou seja, inserir os indivíduos na vida coletiva, levando cada um a considerar os outros na relação social e, dessa forma, auxiliando na coesão social.”
*: Segundo Durkheim (2004, Da divisão do trabalho social, p. 50), a consciência coletiva pode ser definida como o conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade que forma um sistema determinado com vida própria.


“Todo projeto educativo vincula-se a um projeto social e de homem, visando à manutenção da existência humana, como também ao desenvolvimento das formas de existência e também das necessárias transformações sociais que visam maior justiça social.”


“Para Saviani (Pedagogia histórico-crítica, 2000, p. 11):
a natureza humana não é dada ao homem mas é por ele produzida sobre a base da natureza biofísica. Consequentemente, o trabalho educativo é o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens.
Podemos inferir, a partir dessa citação, algumas questões importantes para a discussão. Admite-se como certo, por exemplo, que não existe uma “natureza humana” abstrata, inata, a priori, ou seja, não nascemos “humanizados” simplesmente por sermos seres humanos.
Humanizar-se é um processo concreto que ocorre no interior das relações humanas, que são por excelência relações sociais. Humanizar-se em sociedade é a única condição para que isso ocorra.”


“O objetivo da educação é reproduzir, individualmente, a humanidade produzida coletivamente, ou seja, o processo humanizador passa pela necessidade de que cada um de nós nos apropriemos dos elementos constitutivos da humanidade, que, por sua vez, são produtos coletivos e históricos.
Simplificando: Em síntese, humanizar-se é um processo de apropriação individual do produto coletivo dos homens, o que significa dizer que o homem, ser genérico, somente existe pelos resultados e processos da sua própria constituição. O ser humano é o que ele produz e o resultado dessa produção nas condições em que ela ocorre. Humanizar-se, portanto, é apropriar-se das produções humanas, as chamadas objetivações, que podem ser desde o conjunto das obras literárias ou arquitetônicas, até as obras de arte, poesia, teatro, como também os produtos tecnológicos e seus resultados: os alimentos, as máquinas, os recursos médicos, de saneamento etc.
Resta, a partir disso, uma questão: Se a humanização passa pela apropriação dos produtos sociais existentes, é possível afirmar que, em nossa sociedade, todos os indivíduos são igualmente humanizados?
Para que essa resposta fosse positiva, seria preciso admitir que existe um equilíbrio social no acesso aos produtos sociais, o que não é um fato concreto.”


Simplificando: Podemos resumir a cultura como um elemento diferenciador da prática humana em relação aos animais, prática esta que produz o que chamamos de cultura material, mas também que produz as tradições do grupo, as regras sociais e, inclusive, a influência na configuração dos indivíduos pertencentes a determinada sociedade; é também algo identitário, no sentido de que ela define uma certa homogeneidade de grupo, no interior do qual se reconhece; mas também é identitária no sentido justamente do oposto a isso, ou seja, a cultura se caracteriza, se conforma, como diferenciadora, como aquilo que produz contraste entre o “eu” e o “outro”.”


“A característica humana por excelência é a de ser um ser social, fadado, por assim dizer, a viver em sociedade, a depender dos outros e a aprender com os demais, especialmente com os mais velhos. (...)
De forma abrangente, podemos dizer que socializar o indivíduo é adaptá-lo à vida em sociedade, ensinando-o os hábitos, os costumes, a linguagem, os modos de vida, as regras sociais, o que é permitido e o que é proibido, a disciplina corporal e os conteúdos científicos, históricos, culturais etc., pertencentes ao arsenal dessa sociedade. Berger e Berger (1977, Sociologia e sociedade, p. 204) resumem a socialização como o “meio pelo qual o indivíduo aprende a ser membro da sociedade.”
É importante ressaltar que o processo de socialização, apesar de se constituir nitidamente como um processo adaptativo, somente tem sucesso quando ocorre sem que os indivíduos sintam “o peso dela sobre si”. Ou seja, quando ocorre naturalmente, como algo que, para o indivíduo, aparece como natural.
Se todo o processo de socialização fosse mediado pela dor e pela pressão, se cada indivíduo tivesse que encarar com terror cada etapa dele, então este seria degradante para a manutenção da sociedade, a qual é um dos objetivos precípuos da socialização.
Outro autor da sociologia define de forma mais específica esse processo:
é o processo pelo qual ao longo da vida a pessoa humana aprende e interioriza os elementos socioculturais do seu meio, integrando-os na estrutura de sua personalidade sob a influência de experiências de agentes sociais significativos, e adaptando-se assim ao ambiente social em que deve viver. (Rocher, Sociologia geral, 1971, p. 12)


“Podemos definir hegemonia em Gramsci, de forma sucinta, como o domínio e direção intelectual e moral de uma classe sobre outra ou sobre a sociedade como um todo. Os aparelhos de hegemonia contribuem para esse fim, como a mídia, a escola, a justiça, as forças armadas, a religião, os sindicatos, etc. Há, no entanto, nas sociedades, uma luta contra-hegemônica, ou seja, uma luta entre classes que querem tomar o domínio e a direção intelectual e moral, como, por exemplo, as lutas empreendidas pela classe trabalhadora. (Gramsci, Concepção dialética da história, 1978; Mochcovitch, Gramsci e a escola, 1992).
Rummert (Educação e identidade dos trabalhadores, 2000, p. 27, grifo nosso), resume essa concepção gramsciana:
O conceito de aparelho de hegemonia qualifica e precisa a hegemonia como a direção cultural e política que se procura imprimir à totalidade social através de permanente ação educativa... É por meio dessa ação educativa que são produzidas e valorizadas determinadas formas de representação da realidade, crenças e valores, padrões de relações e de comportamentos sociais e individuais que irão imprimir características particulares à cultura de uma dada sociedade.”


“Lévi-Strauss inicia o terceiro capítulo de seu livro Raça e história (1980) apontando a discussão sobre a diversidade das culturas e a reação a ela. Afirma que os homens raramente conviveram com as diversidades como elas são, ou seja, naturais, resultado das relações entre as sociedades. Ao contrário, sempre se referiram à diversidade de forma bruta, como se tratasse de uma monstruosidade, uma aberração.
O etnocentrismo, que estaria impresso nessa atitude, é, para o autor, a mais comum das atitudes, e a mais antiga. Nas suas palavras:
A atitude mais antiga e que repousa, sem dúvida, sobre fundamentos psicológicos sólidos, pois que tende a reaparecer em cada um de nós quando somos colocados numa situação inesperada, consiste em repudiar pura e simplesmente as formas culturais, morais, religiosas, sociais e estéticas mais afastadas daquelas com que nos identificamos. (Lévi-Strauss, 1980, p. 19-20)
Ao longo da história, formularam-se termos como bárbaros, que os greco-romanos indicavam como aqueles que não pertenciam ao seu império e civilização, ou selvagens, para os indígenas americanos, por exemplo.
Essa atitude, alerta o autor, é típica dos próprios selvagens. Em todos os tempos, os homens, nas mais diversas sociedades, construíram para si adjetivos que os qualificavam como “os homens”, “bons”, “excelentes”, sendo, portanto, uma característica comum que os homens esgotem a sua visão do mundo nas fronteiras das suas tribos.”


“Uma das estratégias características da categoria ideologia, é a abstração da realidade e, consequentemente, o ofuscamento da sua compreensão.”


Apesar de termos alcançado a capacidade de conduzir uma civilização baseada na fraternidade e no respeito, de constituirmo-nos social e historicamente e de criarmos as condições para garantir as condições de vida para todas as pessoas, ainda assim, contraditoriamente, vivemos ameaçados pela miséria e fome em muitos países e também pela violência e pela intolerância, que acaba por se reproduzir no nível micro, na escola, como reflexo do macro, ou seja, da violência e intolerância observadas na sociedade em geral.”


“Falar de inclusão na escola sem discutir a própria autonomia do professor em definir coletiva e autonomamente o seu trabalho é enganar-se ou fazer ideologia da inclusão; ainda, falar sem pensar sobre o lugar da escola na sociedade é não compreender que esta, cada vez mais, está relegada a instrumento das políticas da hora e a mando dos senhores de plantão, especialmente a burguesia industrial e seu projeto de educação para o mercado de trabalho, à moda do capital humano.”


“Quanto à concepção sociológica de Weber, é frequente a comparação com a obra de Durkheim, justamente por se contrapor a esta de maneira incisiva, como em geral foi a sua luta contra os postulados positivistas na sociologia. Em relação ao pensador francês, que partia do pressuposto teórico de que o fato social era uma “coisa”, objetiva, exterior aos indivíduos e que lhes coagia a se modelar às normas e valores da sociedade, para Weber o ponto de partida está justamente no indivíduo, que passa a ser compreendido como o motor das relações sociais.
O objetivo da sociologia weberiana relaciona-se com o seu principal conceito, que é a ação social. Para o autor, a sociologia é o estudo da ação social, levando em conta a necessidade de compreendê-la e interpretá-la em suas complexas causalidades e efeitos. (...)

Simplificando: Portanto, para Weber, o que distingue a ação social das demais ações humanas é que esta é uma ação com sentido e orientada pelas ações de outras pessoas. Ainda, somente é ação social se esta for compartilhada, em sentido, por ambas as partes dessa ação, sendo tal sentido não objetivamente constituído, como acreditava Durkheim. Ao contrário, é um dado subjetivo, ou seja, é acionado por cada participante da ação, ou ainda, conforme afirma Souza (Introdução à sociologia da educação, 2007, p. 45), é “expressão da própria vontade” do agente.

O funcionamento da sociedade é motivado pelas ações dos indivíduos entre si, nas várias facetas que a vida social promove e exige. É na caracterização das motivações das ações sociais que reside o trabalho do sociólogo. (...)
Se é assim que Weber considera o conteúdo das ações sociais, a sociedade, para ele, só pode ser uma totalidade composta de uma infinidade de significados diferentes, ou, como diz Souza (2007, p. 46, grifo do original), “uma tessitura infinita de coisas dotadas de sentido, uma teia de significados culturalmente construída pelos indivíduos em ação.”


“Portanto, vemos em Weber uma descrença na escola com relação aos ideais depositados nela como transformadora da sociedade. Ao contrário, a escola aparece como locus de reprodução cultural e de domínio social, como uma instituição na qual uma determinada cultura, de um determinado grupo, impõe-se a grande parte dos membros das novas gerações.
Souza (2007) esclarece ainda que o papel da escola é a “administração dos bens culturais”, entendidos estes como os “códigos simbólicos disponíveis em determinado meio cultural”. Para o autor, “o sistema escolar contém um conjunto de funções, dentro do qual se destacam as funções de imposição da legitimidade de uma cultura, de inculcação sistemática dela, de legitimação da ordem social e, finalmente, de reprodução do sistema de dominação.”


“A primeira de todas as premissas materialistas, desenvolvidas por Marx e Engels em A ideologia alemã (Marx; Engels, 1984), obra de 1845-1846, é que, para existir a história, é necessário que haja seres humanos vivos e em condições de realizar essa história. As condições da vida humana dependem, em primeira instância, da manutenção do corpo vivo, o que pressupõe a relação dos homens com a natureza para a constituição das condições dessa existência. Parte-se, como afirmam os autores, do corpo físico, das condições físicas naturais etc. Advém, então, um dos grandes saltos no que se refere ao materialismo:
Podemos distinguir os homens dos animais pela consciência, pela religião — por tudo o que se quiser. Mas eles começam a distinguir-se dos animais assim que começam a produzir os seus meios de vida, passo este que é condicionado pela sua organização física. Ao produzirem os seus meios vida, os homens produzem indiretamente a sua própria vida material. (Marx; Engels, 1984, grifo do original)
Os homens, na concepção materialista, não se distinguem dos animais por serem “racionais”, tese esta muito ensinada nas escolas ainda hoje. Os homens, na verdade, constituem-se como tais a partir do momento em que a sua existência passa a depender da sua própria ação para que se reproduza. Essa ação, bem entendido, ocorre por meio do trabalho, que é, portanto, em última instância, a ontologia do homem como ser social.
Mas um passo ainda é preciso ser dado aqui. A produção da vida física do homem em conjunto com outros homens não é suficiente para explicar a atividade humana.
Ao produzir sua existência, é a própria sociedade que o homem está construindo à sua imagem e semelhança, e nesse raciocínio surge mais uma questão de fundamental importância para o materialismo: “Tal como os indivíduos manifestam sua vida, assim são eles. O que eles são coincide, portanto, com sua produção, tanto com o que produzem, como com o modo como produzem. O que os indivíduos são, portanto, depende das condições materiais de sua produção.” (Marx, Engels, 1984, p. 27-28, grifo do original)

Portanto, a concepção de homem depende da forma como ele se organiza em sociedade para produzir a sua existência. Logo, a identidade humana é constituída nas relações de produção da vida material em sociedade, e essa identidade não pode ser resumida a uma só instância do homem, à sua reprodução material, mas, sim, a toda a vida humana.
Na concepção materialista de Marx e Engels, os homens são considerados não como eles se vem, mas como são realmente em suas relações sociais. E a forma como são pode ser conhecida pelo modo como se relacionam com a produção material da vida humana, “como são ativos sob determinados limites, pressupostos e condições materiais que independem do seu arbítrio” (Marx; Engels, 1983, p. 192). E, mais precisamente:
Os homens são os produtores das suas representações, ideias etc., mas os homens efetivos, atuantes, tal como são condicionados por um desenvolvimento determinado das suas forças produtivas e do intercâmbio correspondente às mesmas, até as suas formações mais amplas. A consciência nunca pode ser outra coisa do que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo efetivo de vida. (Marx; Engels, 1983, p. 192-193)
O trecho anterior ilustra com clareza a concepção materialista de Marx e Engels em relação à formação humana na sociedade. E mais, o materialismo marxiano concebe que os homens são aquilo que produzem e, portanto, queiram ou não, os homens reais são determinados por essa produção. Entende-se desse ponto a negação da representação individual. “Não é a consciência que determina a vida, mas a vida determina a consciência” (Marx; Engels, 1983, p. 193). Eis a regra de ouro dessa concepção.”


“As relações produzidas no capitalismo são também permeadas por uma contradição fundamental, assim como foram as relações feudais de produção. Essa contradição diz respeito ao fato de que, ao ascender ao poder, a burguesia não veio sozinha, mas foi obrigada a trazer consigo uma outra classe social que lhe deu sustentação moral e material, o proletariado.
Essa contradição, afirmam Marx e Engels, pode levar à derrocada da burguesia e, junto com ela, do capitalismo. Isso porque, ao mesmo tempo em que o capitalismo cria condições para que os homens possam adquirir todas as condições materiais dignas de vida, presencia também o aumento desenfreado da miséria da população mundial. Ou seja, o trabalho realizado socialmente gera riquezas de proporções monstruosas e suficientes para todos, mas esta não é socializada na mesma proporção, o que pode vir a ser um fator de contradição e derrota desse sistema. É o que Tonet (Ética e capitalismo, 2009) denomina de decadência ideológica.
Este é exatamente o fundamento da decadência desta forma de sociabilidade. Uma ordem social que, tendo alcançado a possibilidade de criar riquezas capazes de satisfazer as necessidade de todos, vê-se impossibilitada de atender essa exigência. E que, para manter-se em funcionamento, precisa impedir, de maneira cada vez mais aberta e brutal, o acesso da maior parte da humanidade à riqueza social. Em vez de impulsionar a humanidade toda no sentido de uma elevação, cada vez mais ampla e profunda, do seu padrão de ser (ontológica e não apenas material e empiricamente entendido), o que se vê é uma intensa e crescente degradação da vida humana.


A ética na sociedade capitalista é impossível de ser concretizada em sua concepção como busca do bem comum, haja vista que ela é, essencialmente, uma sociedade de classes permeada pela contradição entre os interesses particulares, que, por sua vez, afetam toda a totalidade social, inclusive atingindo a subjetividade dos indivíduos e naturalizando relações sociais e históricas, como a da propriedade privada.”


“Em Gramsci, a relação entre trabalho e educação carrega a positividade de ser uma possibilidade revolucionária, pela superação da subalternidade da classe trabalhadora, vítima da hegemonia burguesa, que impõe a essa classe o senso comum como forma dominante de conhecimento. É justamente no quadro da hegemonia que o pensador italiano formula sua maior contribuição ao marxismo e aos estudos em educação nessa linha. Para fins de esclarecer sinteticamente o conceito de hegemonia, recorremos a Mochcovitch (1992, p. 20-21):
Hegemonia é o conjunto das funções de domínio e direção exercidos por uma classe social dominante, no decurso de um período histórico, sobre outra classe social e até sobre o conjunto das classes da sociedade. A hegemonia é composta de duas funções: função de domínio e função de direção intelectual moral, ou função própria da hegemonia.
A hegemonia burguesa, portanto, não reside apenas no poder econômico, que é central, mas na consolidação de uma visão de mundo difundida na sociedade, uma ética, uma moral que a legitimam no poder. Por outro lado, a hegemonia é também resultado das relações econômicas de poder da sociedade.”

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Filosofia da Mente – Walter Menon

Editora: InterSaberes

ISBN: 978-85-5972-040-2

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 280

Sinopse: Questões acerca da mente ocupam o centro de debates filosóficos, religiosos e científicos. Afinal, o que é a mente? Do que ela é constituída? Como podemos entendê-la em relação ao cérebro? Esses são apenas alguns dos questionamentos que surgem ao tratarmos desse tema. Indagações que existem desde Platão e para os quais, até hoje, não encontramos respostas conclusivas – e talvez nunca possamos encontrar. No entanto, a filosofia continua se dedicando a investigar esses problemas, promovendo reflexões que levam à exploração de ideias, teorias e conceitos que são fortemente instigantes.



“Mentes têm, necessariamente, corpos. Sem os entes ou substâncias materiais complexas que são nossos corpos, não haveria nossas mentes. Porém, ao nos referirmos a nós mesmos em uma conversação, não apontamos para nosso corpo ou para parte de nosso corpo. Ainda que a mente dependa do corpo, não é parte do corpo nem constituída pelo corpo, que de fato é um ente composto de partes que não se identificam com o corpo e tampouco com a mente. O cérebro de Pedro não é Pedro e, embora Pedro compartilhe algumas propriedades com seu corpo, como altura e peso, essas propriedades não definem Pedro. Quando Pedro se utiliza do pronome eu em uma conversação para se referir a ele próprio, ao que, exatamente, ele está fazendo referência? O que é esse “eu” que Pedro é? Seria uma substância indivisível, sem extensão, como queria Descartes? Isso é uma substância simples? Se esse não é o caso, do que seria composta a mente?

Tendo em vista que a mente de alguém não é seu corpo nem mesmo uma parte do corpo, podemos afirmar que algumas partes do corpo, evidentemente, não pertencem à mente daquela pessoa, ou seja, não compõem sua mente. No entanto, isso não elimina a hipótese de que a mente seja uma substância composta. Pode não ser composta de substâncias simples materiais, entretanto, nada impede de entendermos a mente como um composto de estados e estruturas psicológicas.

Temos faculdades cognitivas, de percepção, de imaginação; temos conceitos de todo tipo e nossa mente realiza funções como calcular, elaborar pensamentos, memorizar acontecimentos. Todavia, do fato de que podemos falar de faculdades, conceitos etc. como propriedades da mente, não se deduz que essas propriedades sejam partes da mente, componentes que, somados, constituem a mente. Pensar uma mente em particular sem qualquer uma dessas faculdades é muito parecido com pensarmos na casa de blocos de montar sem algumas peças. Conforme subtraímos as peças, a casa paulatinamente perde sua funcionalidade até desaparecer, o mesmo ocorrendo com a mente quando perde suas faculdades. A ênfase aqui, portanto, é sobre a relação entre propriedades e função. Talvez falar em faculdades da mente seja apenas outra forma de nos referirmos à sua organização funcional, e não exatamente a propriedades ou partes constitutivas da mente entendida como um ente ou substância.

Afirmamos anteriormente que, ao associarmos a noção de mente à noção de “eu”, torna-se claro que este compartilha de certas partes do corpo. Quando digo que tenho 1,75m de altura, refiro-me a uma característica minha, ou seja, a mim, ou a meu “eu”, por meio de uma medida do meu corpo. Mas esse tipo de propriedade que o “eu” compartilha com o corpo não contradiz o fato de que a mente é uma substância simples, isto é, indivisível quanto à sua natureza. Altura ou volume não são componentes da mente ou de um ente complexo, que é o corpo, no mesmo sentido que um olho é um componente. Os pensamentos e sentimentos de uma pessoa qualquer não são pensamentos do seu corpo nem mesmo de seu cérebro, isto é, não compõem seu cérebro.

Por fim, mentes, segundo essa concepção, além de possuírem, é claro, propriedades mentais, também possuem propriedades materiais, mas não se reduzem aos corpos nos quais residem tais propriedades materiais.

Se, por um lado, a ideia de interação entre mente e corpo encontra-se no centro dessa proposta teórica, por outro, entender o modo como ocorre essa interação continua problemático. De que maneira a mente, que não é idêntica ao corpo e tampouco a uma qualquer parte sua, age sobre ele? Desejo pegar um objeto, decido, então, estender o braço para pegá-lo e, efetivamente, meu braço se movimenta em direção ao objeto. Saber como isso é possível permanece em aberto, basta lembrarmos que, para o sistema da física contemporânea, eventos físicos têm necessariamente causas físicas e, portanto, a mente não é contemplada como capaz de causar algo no mundo físico. Outra dificuldade que se apresenta é quanto à relação linear e direta de causalidade que o dualismo defende. Pensar que um estado mental causa uma ação corporal, por exemplo, incorre em certos absurdos quando pensamos na cadeia causal de maneira retrospectiva, ou seja, ao inverso.”

 

 

“O behaviorismo é a tese segundo a qual atribuímos um estado mental correspondente a um comportamento observado. Cada estado mental é, consequentemente, relacionado e reduzido a uma disposição comportamental. Vale ressaltar que o estado mental não causa um comportamento, ele é esse comportamento. Assim como no empirismo, para o behaviorismo não há conhecimento produzido pela mente, apenas aqueles comportamentos observados, que são chamados de estados mentais. Todo objeto existente é material.

Uma objeção à tese behaviorista é a de que um comportamento nem sempre é suficiente para descrever um estado mental, pois um comportamento pode ser fingido, imitado, dissimulado ou até mesmo mascarado, suprimido. A teoria limita-se a tratar como estado mental aquilo que é rigorosamente observado, sem ter o poder de saber com absoluta certeza qual é o estado mental que outra mente, que não a do observador, experimenta. As disposições comportamentais não são também necessárias para que exista um estado mental qualquer, como mostrado no argumento de Putnam (Philosophical Papers, 1979). Posso sentir algo sem demonstrar em comportamento físico que sinto esse algo; dessa maneira, nem todo enunciado formulado mentalmente pode ter sua comprovação verificada experimentalmente.”

 

 

“Para Ryle, falar em estados mentais é falar de uma entidade que não possui significado, é falar de algo que não possui referência. Portanto, poderíamos falar apenas em comportamentos. O que ele procura mostrar é a recorrente confusão linguística que fazemos quando, ao falarmos de estados mentais, atribuímos a esse estado um comportamento no mundo, como se estivéssemos nos referindo a um ente no mundo, o que não é o caso. Incorre-se no mesmo erro se pensarmos poder haver mentes independentes dos comportamentos observados das pessoas. Mentes e corpos não existem da mesma maneira, não são da mesma categoria de entes, como é afirmado pelo dualismo cartesiano, por exemplo.”

 

 

“Primeiramente, discordando do dualismo apresentado por Descartes, nas tendências contemporâneas, a mente não existe sem um corpo, sem estar associada a uma materialidade. Não quer dizer, com isso, que a mente seja necessariamente material, mas que, sem esse suporte, ela não existe. Também não quer dizer que ela seja o próprio corpo, embora dependa dele para existir, nem constituída pelo corpo, como se este fosse uma parte dela. Embora a mente seja constituída de propriedades essenciais que não são propriedades do corpo, tais como os conceitos, as ideias etc., não pode ser inferido que a mente seja uma composição dessas propriedades. De todo modo, nas teses dualistas, a mente resguarda sempre uma unidade que não se resume à matéria. Disso decorre o problema da interação, da causalidade entre as duas substâncias: mente e corpo. O dualismo não procura reduzir tudo a uma explicação causal física, como se os eventos mentais fossem resultados diretos dos efeitos físico-químicos produzidos pelo cérebro.”

 

 

“O funcionalismo considera os estados mentais não mais como substâncias, pelo que são, pelo caráter ontológico, mas pela função que desempenham, por aquilo que realizam, pelo caráter funcional. A mente humana, por exemplo, é considerada como o conjunto de funções exercidas pelo cérebro, embora nada impeça, ao menos teoricamente, que tais funções sejam realizadas por algo que não seja o cérebro humano. Como leva em consideração as funções exercidas por qualquer sistema material, o funcionalismo é, nesse sentido, um tipo de materialismo. O que importa é somente o nexo relacional entre os inputs e os outputs, a função exercida por eles, e não do que eles são constituídos.”

 

 

“Então, o que faz que um ser seja inteligente? Basicamente o fato de que ele divide o ambiente em que vive em várias partes, vários subconjuntos, mais simples de serem conhecidos e controlados, e utiliza esse conhecimento para planejar e decidir suas ações. As sensações captadas e processadas em informações acerca do mundo exterior constituem a primeira etapa do conhecimento estruturado. A capacidade de representar de maneira adaptativa o ambiente decorre de um segundo momento no processo cognitivo, no qual a combinação de conhecimentos produz uma ação com vistas a agir sobre o ambiente. Essa capacidade pressupõe a aprendizagem de novas informações que são arquivadas com o objetivo de modificar conhecimentos adquiridos, percepções e ações; a eficiência no processo de aprender as informações depende da circulação destas entre os indivíduos, ou seja, depende da comunicação.

No ser humano, essa comunicação se processa por meio da linguagem verbal, sobretudo. Isso confere à nossa espécie uma condição ímpar em relação à capacidade de estocar, representar e enviar informações. Nesse sentido, cognição é um processo que envolve desde a percepção, passando pela organização conceitual, raciocínio, aprendizagem e ação. Em todas essas etapas, encontra-se a troca de informação. Naturalmente, o sistema nervoso central é o ator principal desse processo e nisso reside um dos principais temas de pesquisa e debate no âmbito das ciências cognitivas, tendo em vista que a aposta na IA depende fundamentalmente de que a definição de mente esteja subsumida em grande medida à capacidade de se entender os processos cognitivos e, ainda, de entendê-los como desvinculados da parte material de seus mecanismos cerebrais.”

 

 

“Em suma, a filosofia da mente, embora tenha por horizonte fornecer respostas aos problemas que envolvem a relação entre mente e corpo, não tem em seu escopo respostas conclusivas. Ela permanece um campo de exploração em constante dependência dos progressos da neurociência e das ciências cognitivas, assim como das teorias evolucionistas e de outras áreas das ciências exatas. O papel da filosofia da mente é o de problematizar soluções que parecem definitivas e ajustar os dados científicos aos pressupostos conceituais filosóficos, e estes a argumentos lógicos. A ficção científica pode sonhar com robôs humanoides, mas a filosofia não pode se dar ao luxo de subestimar os problemas lógico-conceituais envolvidos nesse projeto.”

Sou Péssimo em Inglês: tudo que você precisa saber para alavancar de vez seu aprendizado – Carina Fragozo

Editora: HarperCollinsBrasil
ISBN: 978-85-9508-368-4
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 160
Sinopse: Pode não parecer, mas estudar inglês não é coisa de outro mundo. Falta de foco, dificuldade de entender o que é falado, medo de errar e falta de afinidade com a língua podem ser pedras no sapato de quem está tentando aprender o idioma mais influente do mundo. Em Sou péssimo em inglês, a professora Carina Fragozo, do canal English in Brazil, analisa todos esses problemas e explica as soluções, com dicas práticas para ajudar todo leitor a mudar sua relação com a língua inglesa e extrair dela o melhor que puder.



“Independentemente do seu objetivo, estudar inglês só uma vez por semana é mancada. Se quiser acelerar seu aprendizado, organize-se para estudar ou ter algum contato com a língua inglesa praticamente todos os dias, pois é muito mais eficiente se dedicar a estudar nem que seja vinte minutinhos diariamente do que passar o domingo inteiro em cima dos livros e depois só retomar os estudos na outra semana. A ideia que você verá ao longo de todo este livro é trazer o inglês para a sua vida para que você não só aprenda com mais rapidez e facilidade, como também não esqueça tudo aquilo que já estudou.”


“O fato é que, durante o processo de aprendizagem, erros serão inevitavelmente cometidos, tanto no sentido de “desvios da norma culta” quanto no sentido de “produção de frases agramaticais”, ou seja, que não existem no idioma que está sendo adquirido. Não podemos negar que a palavra “erro” geralmente vem carregada de um sentido negativo, algo a ser evitado de todas as formas, mas é importante estarmos cientes de que os nossos erros são uma evidência de que o aprendizado está acontecendo, uma etapa muito importante de todo esse processo. Por mais clichê que isso possa parecer, é errando que se aprende!
Mas, por que erramos? E de onde vêm os nossos erros? Bem, podemos classificar os erros cometidos pelos aprendizes de idiomas em pelo menos duas grandes categorias: erros de transferência e erros de desenvolvimento. Os erros de transferência são aqueles que resultam da influência da nossa língua materna. Muitos erros que cometemos na língua inglesa são influência do nosso conhecimento da língua portuguesa. Vejamos alguns exemplos:

ERROS DE TRANSFERÊNCIA

GRAMÁTICA 

ERRO: I have 20 years.
FORMA ESPERADA: I am 20 years old.

PRONÚNCIA
ERRO: I’m afraid of hats [hæts].
FORMA ESPERADA: I’m afraid of rats [ræts].

USO
ERRO: Waiter, I want a Coke.
FORMA ESPERADA: Can I have a Coke, please?
Perceba que, por influência do português, é comum cometermos erros de gramática como I have 20 years, tradução literal de Eu tenho 20 anos. Também cometemos erros de pronúncia como I’m afraid of [hæts], que significa Tenho medo de chapéus (hats)em vez de I’m afraid of [ræts], que significa Tenho medo de ratos (rats), simplesmente por usarmos o som do “r” do português em vez de usar o do inglês. Também é comum cometermos erros relacionados ao uso da língua, como na sentença Waiter, I want a Coke, tradução literal de Garçom, quero uma Coca-Cola. Embora a frase esteja correta do ponto de vista gramatical, ela pode soar muito rude em inglês, porque pedir a atenção do garçom chamando-o pelo nome da profissão pode ser considerado ofensivo. Além disso, fazer um pedido utilizando a estrutura I want (eu quero) é muito menos educado do que utilizarmos a estrutura Can I have a… ou May I have a… independentemente de se utilizar uma entonação amigável ou não.
Exemplos como esses mostram que aprender um idioma significa não só aprender novas palavras, novas estruturas gramaticais e novos sons, mas também novas formas de utilizá-lo em diferentes contextos.”


“CINCO DICAS PARA TORNAR O APRENDIZADO MAIS PRAZEROSO EM QUALQUER ETAPA DA VIDA
Uma das coisas boas de ser adulto é o fato de poder – na maioria das vezes – escolher aquilo que é melhor para si mesmo. Como adulto, você consegue estabelecer um significado para o que está aprendendo e tem a chance de buscar a melhor forma de tornar o processo mais prazeroso e significativo. Aprender inglês não precisa – e não deve! – ser um processo chato e maçante. Quer saber como aprender e praticar a língua de maneira divertida? Confira as cinco sugestões a seguir!

1) Aumente o som
Que tal aprender a cantar suas músicas favoritas em inglês? O simples ato de acompanhar as letras enquanto se escuta uma música ajuda a melhorar não só o listening, mas também a pronúncia, pois você acaba tentando imitar os sons que escuta. Para entender o significado da música, você pode procurar traduções prontas ou até tentar traduzir sozinho, caso ache isso interessante. Ah, detalhe importante: procure cantar em voz alta as músicas que você utilizar como material de estudo, pois desse modo você pratica a fala e se acostuma a articular os novos sons da língua.

2) Prepare a pipoca
Se você gosta de assistir a séries e filmes, que tal tirar proveito disso para estudar inglês? O bacana é que, quando você assiste a alguma cena, você conta com outras informações além do áudio que podem ajudar a entender o que está sendo dito, como os gestos feitos pelos personagens e o próprio cenário. E você deve estar se perguntando: Devo assistir com ou sem legendas? E as legendas devem ser em português ou em inglês? Bem, tudo vai depender do estágio de aprendizado em que você se encontra. Se você estiver bem no comecinho, não adianta colocar uma série com vocabulário megadifícil e já começar a assistir com áudio e legendas em inglês, pois você não vai entender nada. O melhor é inicialmente usar a legenda em português para ir se acostumando com a sonoridade de língua e, enquanto você assiste ao filme ou à série, tentar fazer relações entre o que você lê em português e o que você escuta em inglês. Outra opção é assistir a um episódio (curto, de preferência) de uma série com legendas em português e, depois, assistir a esse mesmo episódio com áudio e legenda em inglês. Desse modo, você consegue fazer a imersão na língua sem perder o conteúdo, uma vez que já vai conhecer o enredo. Quando você já tiver uma base no inglês, coloque o áudio e as legendas em inglês para realmente fazer uma imersão na língua enquanto assiste ao episódio ou ao filme. Ao se deparar com palavras e expressões desconhecidas, você pode pausar o filme ou a série, trocar a legenda para o português para descobrir o significado e depois voltar para o inglês, ou então simplesmente não fazer nada e seguir em frente, caso tenha conseguido entender pelo contexto. E lembre-se: não é preciso entender tudo, palavra por palavra, para conseguir acompanhar o contexto da trama e praticar o seu inglês. Se quiser começar a praticar mas ainda não sabe a qual série assistir, procure o vídeo “Melhores séries para aprender inglês na Netflix” no meu canal, pois dou várias sugestões.

3) Deixe seu like e inscreva-se
Muito se fala no uso de músicas, filmes e seriados para aprender inglês, mas nem todos percebem que o YouTube também pode ser uma ferramenta poderosíssima para o aprendizado de uma língua estrangeira. Além dos canais específicos para o ensino de inglês, como o próprio English in Brazil, você pode utilizar o YouTube para ter contato com a língua inglesa por meio de vídeos sobre praticamente qualquer assunto. Por exemplo, se você gosta de culinária, por que não assistir a vídeos de receitas em inglês? O mesmo serve para quem gosta de vídeos sobre beleza, cultura, viagem, entretenimento, enfim… há vídeos para definitivamente todos os gostos! A vantagem de praticar inglês no YouTube é que você pode parar o vídeo quando quiser para tentar entender algo que foi dito e ter tempo de anotar palavras novas no seu caderno de vocabulário, sobre o qual falaremos mais adiante. Além disso, os vídeos são geralmente bem mais curtos do que filmes e episódios de séries, o que permite que você assista ao mesmo vídeo mais de uma vez para compreender o assunto sem que a tarefa fique entediante. Alguns canais oferecem a opção de legendas em inglês, mas é importante ter em mente que algumas legendas podem conter erros, já que muitas vezes foram geradas automaticamente pelo sistema do YouTube.

4) Mergulhe na leitura
A leitura também é uma excelente forma de manter o contato com a língua de uma forma leve e divertida. Para quem está no nível básico, uma boa opção é começar com quadrinhos, já que a quantidade de texto não é muito grande e você ainda tem os desenhos para ajudar a entender o contexto. Eu, por exemplo, gosto muito dos gibis da Turma da Mônica (Monica’s Gang) na versão em inglês, pois além de as historinhas serem muito divertidas, cada gibi contém um glossário com a tradução das palavras mais complicadas na última página. Mas é claro que você pode escolher qualquer outro tipo de quadrinho.
Revistas também podem ser uma boa opção para quem deseja praticar a leitura, mas se assusta com o tamanho dos livros. De vez em quando eu compro revistas de moda e beleza em inglês só para observar as palavras e expressões que estão sendo usadas no momento, sabe? Então, que tal dar uma olhadinha na banca da sua cidade para ver se tem alguma revista importada interessante?
Em se tratando de leitura, é claro que não podemos deixar de falar dos livros, que são uma excelente fonte de entretenimento e conhecimento. Uma dica para facilitar a leitura é ler um livro cuja história você já conheça, como um conto de fadas ou a biografia de uma personalidade que você conhece bem. Outra opção é ler a versão em inglês de um livro que você já leu em português, pois assim você vai conseguir fazer relações com aquilo que já sabe da história. Se você gosta de literatura, mas ainda não se sente seguro para ler textos originais, sugiro procurar adaptações, isto é, livros que mantêm a história original, mas com uma linguagem simplificada. O legal é que muitos deles ainda vêm acompanhados do áudio, o que é interessante pelo fato de você já aprender a pronunciar as palavras novas que encontrar ao longo do texto. Se quiser mais dicas para começar a praticar a leitura em inglês, procure o vídeo “Dicas para ler em inglês” no meu canal.
E, por fim, caso deseje praticar a leitura, mas livros, quadrinhos e revistas não sejam a sua praia, que tal mergulhar de cabeça na imensidão de conteúdos em língua inglesa disponível na internet? Procure sites de notícias em inglês, blogs sobre os assuntos de que você gosta, enfim... comece a fazer buscas em inglês e divirta-se com o que aparecer! Se não entender o texto, já deixe o Google Tradutor ou um dicionário on-line aberto em outra aba para facilitar a sua vida.

5) Use a tecnologia a seu favor
Os aplicativos para smartphone são, sem dúvida, uma das melhores invenções tecnológicas dos últimos tempos. E você sabia que há uma infinidade de aplicativos desenvolvidos exclusivamente para o ensino de línguas? Alguns oferecem lições de inglês em uma sequência de conteúdos que podem servir como guia do seu aprendizado, alguns oferecem quizzes e games divertidos para você testar o seu conhecimento, outros ajudam na memorização de informações novas, além dos dicionários que apontam não só a tradução, mas também a pronúncia das palavras. Informe-se sobre aplicativos interessantes e aproveite essas ferramentas para praticar o inglês enquanto espera na fila do banco ou no intervalo do trabalho, ou simplesmente reserve um período do dia para praticar a língua utilizando esses apps. Garanto que você nem sentirá que está estudando, de tão interessantes que são as atividades oferecidas por eles.


1) Forma e conteúdo andam juntos
Estudar gramática e vocabulário pode trazer muitos benefícios para o seu aprendizado, mas não esqueça de que forma e conteúdo devem andar sempre juntos. Cuidado para não cair na besteira de mergulhar de cabeça em regras gramaticais, decorar os nomes dos tempos verbais e ler listas e mais listas de palavras e acabar esquecendo de ver a língua como um instrumento de comunicação. Aprender inglês fica muito mais divertido quando você se dedica a usar a língua para realizar alguma tarefa como ler um texto, escutar uma música, falar com um colega ou até escrever um elogio no Instagram da sua cantora favorita, por exemplo. Então leia muito, escute muito e não hesite em consultar livros e materiais de ensino de inglês quando sentir a necessidade de esclarecer alguma dúvida, quando tiver curiosidade ou quando precisar de um guia para orientar os seus estudos. E lembre-se que o mais importante é aprender a língua, e não instruções sobre a língua.

2) O contexto é nosso amigo
Qual o significado do verbo go? Depende do contexto. O que significa a palavra sick? Depende do contexto. E a frase tell me about it? Nem preciso dizer que também depende do contexto. As palavras e frases não ocorrem soltas, mas sempre dentro de um contexto que pode trazer informações muito preciosas, como o significado e a função de palavras que você não conhece. Observe a frase a seguir:
John blonked his kirt and smiled.
Você sabe o significado das palavras blonked kirt? Não venha me dizer que sabe, pois eu acabei de inventá-las (Ahápegadinha da Carina!). Mas perceba que, pelo contexto, você consegue inferir que blonked seria um verbo no passado e kirt, um substantivo que indica algo que pertence ao John. Se essas palavras fossem reais, talvez com um pouco mais de informação sobre a situação descrita na frase você acabaria descobrindo o que elas significam sem nem precisar abrir um dicionário. É muito importante aprender como as palavras se combinam e se organizam nas frases porque, desse modo, você terá mais facilidade para ler e se comunicar, já que não ficará traduzindo palavra por palavra para entender o que o seu interlocutor está dizendo, conseguirá captar a mensagem mais rapidamente, se lembrará das palavras em conjunto e não perderá tempo tentando juntar peças soltas para formar frases.

3) É assim porque é assim
Por que se diz have a drink e não drink a drink? Por que se diz I am 50 years old e não I have 50 years? Por que se diz on Sundays e não in Sundays? Por quê? Por quê? Por quê? Meu amigo, nem tudo tem um porquê e, mesmo que tivesse, você não precisaria entender todos eles. Mais importante do que saber explicar por que se usa on Sundays on a train em vez de in Sundays in a train é saber que é assim que se usa, e ponto final. Um dos maiores erros de quem estuda inglês é querer compará-lo com o português o tempo inteiro e ficar preso à ideia de que tudo deva ter uma explicação. Na maioria das vezes, o mais importante para o seu aprendizado é simplesmente aceitar que as coisas são do jeito que são e move on, seguir em frente.


“Para que o input se transforme em conhecimento, é preciso que ele seja minimamente compreensível. De acordo com Stephen Krashen, autor importante na área de aquisição de segunda língua, o input compreensível é aquele que está sempre um pouco à frente daquilo que o aprendiz já sabe. Na prática, isso significa que o ideal é praticar a língua utilizando materiais que não são nem muito fáceis e nem muito difíceis para o nosso nível.
Facilitar o input pode, portanto, facilitar a compreensão e, consequentemente, o aprendizado, mas esse não é o único aspecto envolvido na aquisição de uma segunda língua. Além da qualidade do input, há também a questão da quantidade: segundo Krashen, a quantidade insuficiente do input recebido por aprendizes de segunda língua em contextos não imersivos é um dos principais fatores para o insucesso na aquisição.”


2) Mergulhe na língua
Já falamos bastante sobre o quanto é importante ler e escutar materiais em inglês todos os dias e praticar a fala sempre que possível para o inglês entrar de vez na sua vida. Experimente também colocar as configurações do seu celular e das suas redes sociais em inglês, comece a seguir perfis de pessoas famosas que publicam conteúdo em inglês e substitua as legendas em português das suas séries favoritas por legendas em inglês assim que conseguir acompanhar o conteúdo dessa forma. Quando precisar consultar o significado de uma palavra, dê preferência para dicionários monolíngues (inglês-inglês) e, quando decidir anotar uma palavra nova no seu caderno de vocabulário ou aplicativo, procure escrever a definição da palavra em inglês e/ou uma frase que deixe claro o seu significado para evitar a tradução. Insira o inglês na sua vida e sempre que puder realizar alguma atividade usando esse idioma em vez do português, faça isso.”