sexta-feira, 31 de agosto de 2018

Bíblia Sagrada – O Evangelho Segundo São Lucas

Editora: Paulus

ISBN: Bíblia do Peregrino (BPe) – 978-85-349-2005-6 / Bíblia de Jerusalém (BJ) – 978-85-349-4282-9 / Bíblia Pastoral (BPa) – 978-85-349-0228-1

Tradução, introdução e notas (BPa): Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin

Tradução (BPe): Ivo Storniolo e José Bortolini

Notas (BPe): Luís Alonso Schökel

Opinião: N/A

Páginas: BPe – 94 / BJ – 48 / BPa – 41

Sinopse: Ver aqui

 


“Maria disse:

Minha alma proclama a grandeza do Senhor,

meu espírito festeja a Deus, meu salvador,

porque olhou a humildade de sua escrava

e daqui para a frente me felicitarão todas as gerações.

Porque o Poderoso fez proezas,

seu nome é sagrado.

Sua misericórdia com seus fiéis

continua de geração em geração.

Seu poder é exercido com seu braço:

dispersa os soberbos em seus planos:

derruba do trono os potentados

e exalta os humildes:

cumula de bens os famintos

e despede vazios os ricos.

Socorre Israel seu servo,

recordando a lealdade,

prometida a nossos antepassados,

em favor de Abraão e sua descendência para sempre.”

(Lc 1,46-55 – BPe)

1: Maria dirige o louvor para Deus, que fez tudo, ao passo que ela deixou fazer. Na passagem prodigiosa da virgindade à maternidade ela descobre o estilo e o esquema da ação renovadora de Deus, manifestada também na esfera política e na econômica (1Sm 2,4-8; SI 113,6-9): não para mudar os lugares, deixando as coisas como estão, mas sim no espírito messiânico das bem-aventuranças (felicidades, venturas). A ela felicitarão (Gn 30,13; Ct 6,9) todos os que reconhecerem esses valores. Ela é a “serva” que representa Israel, “servo” desvalido e socorrido por Deus (e também a igreja das bem-aventuranças). O hino é de puro estilo bíblico, cheio de citações e reminiscências do AT (...). (BPe)

2: (...) O cântico de Maria inspira-se no cântico de Ana (1 Sm 2,10) e em muitas outras passagens do AT. Além das principais semelhanças literárias, sublinhadas nas referências marginais, notem-se os dois grandes temas: 1. pobres e pequenos são socorridos, em detrimento de ricos e poderosos (Sf 2,3+; cf. Mt 5,3+); 2. Israel, objeto da graça de Deus (cf. Dt 7,6+ etc.), desde a promessa feita a Abraão (Gn 15,1+; 17,1+). Lc deve ter encontrado esse cântico no ambiente dos “pobres”, onde era talvez atribuído à Filha de Sião; julgou conveniente pô-lo nos lábios de Maria, inserindo-o em sua narrativa, que é em prosa. (BJ)

 

 

“Jesus voltou para a Galileia, com a força do Espírito, e sua fama espalhou-se por toda a redondeza. Ele ensinava nas sinagogas, e todos o elogiavam. Jesus foi à cidade de Nazaré, onde se havia criado. Conforme seu costume, no sábado entrou na sinagoga, e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus encontrou a passagem onde está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor.” Em seguida Jesus fechou o livro, o entregou na mão do ajudante, e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Então Jesus começou a dizer-lhes:

– Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir.”

(Lc 4,14-21 – BPe)

 

 

“Certo dia, Jesus estava na margem do lago de Genesaré. A multidão se apertava ao seu redor para ouvir a palavra de Deus. Jesus viu duas barcas paradas na margem do lago; os pescadores haviam desembarcado, e lavavam as redes. Subindo numa das barcas, que era de Simão, pediu que se afastasse um pouco da margem1. Depois sentou-se e, da barca, ensinava as multidões. Quando acabou de falar, disse a Simão:

– Avance para águas mais profundas, e lancem as redes para a pesca.

Simão respondeu:

– Mestre, tentamos a noite inteira, e não pescamos nada. Mas, em atenção à tua palavra, vou lançar as redes.

Assim fizeram, e apanharam tamanha quantidade de peixes, que as redes se arrebentavam. Então fizeram sinal aos companheiros da outra barca, para que fossem ajudá-los. Eles foram, e encheram as duas barcas, a ponto de quase afundarem. Ao ver isso, Simão Pedro atirou-se aos pés de Jesus, dizendo:

– Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!2

É que o espanto tinha tomado conta de Simão e de todos os seus companheiros, por causa da pesca que acabavam de fazer. Tiago e João, filhos de Zebedeu, que eram sócios de Simão, também ficaram espantados. Mas Jesus disse a Simão:

– Não tenha medo! De hoje em diante você será pescador de homens.3

Então levaram as barcas para a margem, deixaram tudo, e seguiram a Jesus.”

(Lc 5,1-114 – BPa)

1: O primeiro chamado tem como cenário as multidões; no entanto, Jesus se afasta para expor-lhes “a palavra de Deus”, fórmula que a liturgia popularizou e que designa a mensagem evangélica. As duas posturas de Jesus definem sua atitude: de pé, comprimido pelo povo, ensinando sentado. Em seguida, sobre o fundo realista de pescadores em ação, toma forma o relato teológico do chamado, claramente concentrado na pessoa de Pedro. (BPe)

2: Mais importante, Pedro tem de descobrir sua condição pecadora revelada pela presença e atuação de Jesus, o Santo, e como pano de fundo do chamado: de modo semelhante a Isaías, “eu, homem de lábios impuros” (Is 6,5); como o salmista: “Puseste nossas culpas diante de ti, nossos segredos à luz do teu olhar” (Sl 90,8). Como pecador, sente que Jesus de deve afastar-se do seu contato; mas o chamado pede mais, como que uma reconciliação. (BPe)

3: Pescar é imagem de apostolado, como será depois o pastoreio; o pescador vive em mais contato com a natureza, está mais exposto ao acaso dos elementos e à sorte do trabalho. A abundância da pesca pode simbolizar para a comunidade a expansão da Igreja. Simão é o primeiro; quando “cai aos pés” de Jesus, já tem o nome oficial de Simão Pedro. Ao final da cena se acrescentam os dois irmãos que formarão o trio dos íntimos. Ao chamado respondem com o seguimento imediato e incondicional. (BPe)

4: Cf. Mt 4,18-22, Mc 1,16-20 e Jo 1,35-42.

 

 

“Levantando os olhos para os discípulos, Jesus disse:

– Felizes de vocês, os pobres, porque o Reino de Deus lhes pertence.

Felizes de vocês que agora têm fome, porque serão saciados. Felizes de vocês que agora choram, porque hão de rir.

Felizes de vocês se os homens os odeiam, se os expulsam, os insultam e amaldiçoam o nome de vocês, por causa do Filho do Homem. Alegrem-se nesse dia, pulem de alegria, pois será grande a recompensa de vocês no céu, porque era assim que os antepassados deles tratavam os profetas.

Mas, ai de vocês, os ricos, porque já têm a sua consolação!

Ai de vocês, que agora têm fartura, porque vão passar fome! Ai de vocês, que agora riem, porque vão ficar aflitos e irão chorar!

Ai de vocês, se todos os elogiam, porque era assim que os antepassados deles tratavam os falsos profetas.1

Mas, eu digo a vocês que me escutam: amem os seus inimigos, e façam o bem aos que odeiam vocês. Desejem o bem aos que os amaldiçoam, e rezem por aqueles que caluniam vocês. Se alguém lhe dá um tapa numa face, ofereça também a outra; se alguém lhe toma o manto, deixe que leve também a túnica. Dê a quem lhe pede e, se alguém tira o que é de você, não peça que devolva. O que vocês desejam que os outros lhes façam, também vocês devem fazer a eles2. Se vocês amam somente aqueles que os amam, que gratuidade é essa? Até mesmo os pecadores amam aqueles que os amam.

Se vocês fazem o bem somente aos que lhes fazem o bem, que gratuidade é essa? Até mesmo os pecadores fazem assim. E se vocês emprestam somente para aqueles de quem esperam receber, que gratuidade é essa? Até mesmo os pecadores emprestam aos pecadores, para receber de volta a mesma quantia. Ao contrário, amem os inimigos, façam o bem e emprestem, sem esperar coisa alguma em troca3. Então, a recompensa de vocês será grande, e vocês serão filhos do Altíssimo, porque Deus é bondoso também para com os ingratos e maus. Sejam misericordiosos, como também o Pai de vocês é misericordioso.”4

Não julguem, e vocês não serão julgados; não condenem, e não serão condenados; perdoem, e serão perdoados5. Deem, e será dado a vocês; colocarão nos braços de vocês uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante. Porque a mesma medida que vocês usarem para os outros, será usada para vocês.

Jesus contou uma parábola aos discípulos:

– Pode um cego guiar outro cego? Não cairão os dois num buraco? Nenhum discípulo é maior do que o mestre; e todo discípulo bem formado será como o seu mestre. Por que você fica olhando o cisco no olho do seu irmão, e não presta atenção na trave que há no seu próprio olho? Como é que você pode dizer ao seu irmão: ‘Irmão, deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando você não vê a trave no seu próprio olho? Hipócrita! Tire primeiro a trave do seu próprio olho, e então você enxergará bem, para tirar o cisco do olho do seu irmão.6

Não existe árvore boa que dê frutos ruins, nem árvore ruim que dê frutos bons; porque toda árvore é conhecida pelos seus frutos. Não se colhem figos de espinheiros, nem se apanham uvas de plantas espinhosas. O homem bom tira coisas boas do bom tesouro do seu coração, mas o homem mau tira do seu mal coisas más, porque a boca fala daquilo de que o coração está cheio.7

Por que vocês me chamam: ‘Senhor! Senhor!’, e não fazem o que eu digo? Vou mostrar a vocês com quem se parece todo aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática. É semelhante a um homem que construiu uma casa: cavou fundo e colocou o alicerce sobre a rocha. Veio a enchente, a enxurrada bateu contra a casa, mas não conseguiu derrubá-la, porque estava bem construída. Aquele que ouve e não põe em prática, é semelhante a um homem que construiu uma casa sobre a terra, sem alicerce. A enxurrada bateu contra a casa, e ela imediatamente desabou; e foi grande a ruína dessa casa.”

(Lc 6,20-498 – BPa)

1: O povo vem de todas as partes ao encontro de Jesus, porque a ação dele faz nascer a esperança de uma sociedade nova, libertada da alienação e dos males que afligem os homens. Os vv. 20-26 proclamam o cerne de toda a atividade de Jesus: produzir uma sociedade justa e fraterna, aberta para a novidade de Deus. Para isso, é preciso libertar os pobres e famintos, os aflitos e os que são perseguidos por causa da justiça. Isso, porém, só se alcança denunciando aqueles que geram a pobreza e a opressão e depondo-os dos seus privilégios. Não é possível abençoar o pobre sem libertá-lo da pobreza. Não é possível libertar o pobre da pobreza sem denunciar o rico para libertá-lo da riqueza. (BPa)

2: Se alguém procura instintivamente o próprio bem, pense que também os outros o procuram. Se duvida como tratar o próximo, consulte seus próprios desejos. Não somente tratar como o tratam, mas como desejaria que o tratassem. Para tanto promove a iniciativa de fazer o bem. Pôr-se na situação do outro, adivinhar seus desejos, sentindo os próprios. Em outro contexto, Ben Sirac aconselha: “Pensa que teu vizinho é como tu” (Eclo 31,16). Como seria uma sociedade regida por esse princípio? (BPe)

3: Repete três normas: amar, fazer o bem, emprestar. Três coisas que os homens honestos praticam, só que em limites estreitos e pensando no interesse. O que Jesus propõe é superior porque derruba os limites da reciprocidade e o motor do interesse. (BPe)

4: A vida em sociedade é feita de relacionamentos de interesses e reciprocidade, que geram lucro, poder e prestígio. O Evangelho revoluciona o campo das relações humanas, mostrando que, numa sociedade justa e fraterna, as relações devem ser gratuitas, à semelhança do amor misericordioso do Pai. (BPa)

5: Lucas salienta que as relações numa sociedade nova não devem ser de julgamento e condenação, mas de perdão e dom. Só Deus pode julgar. (BPa)

6: Outra vinheta feliz, hiperbólica, que nos legou as expressões “o cisco e a trave”. Quem corrige os outros que se corrija. A trave é como uma cegueira para os próprios defeitos. Atenção aos censores que se creem exemplares. (BPe)

7: Assim como as árvores são conhecidas pelos frutos, do mesmo modo os homens são conhecidos pelos seus atos. (BPa)

8: Cf. Mt 5,1-12

 


“Naquela ocasião, com o júbilo do Espírito Santo, Jesus disse:

– Dou-te graças, Pai, Senhor do céu e da terra! Porque, ocultando essas coisas aos entendidos, tu as revelaste aos ignorantes. Sim, Pai, essa foi a tua escolha. Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece quem é o Filho, a não ser o Pai, e quem é o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho decida revelá-lo.

Voltando-se para os discípulos, disse-lhes em particular:

– Felizes os olhos que veem o que vedes! Eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que vós vedes, e não viram, escutar o que vós escutais, e não escutaram.

Nisso um jurista se levantou e, para pô-lo à prova, lhe perguntou:

– Mestre, que devo fazer para herdar vida eterna?

Respondeu-lhe:

O que está escrito na Lei? O que é que lês?

Replicou:

– Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, com toda a alma, com toda a força, com toda a mente e ao próximo como a ti mesmo.

Respondeu-lhe:

– Respondeste corretamente: faze isso e viverás.

Ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus:

– E quem é meu próximo?

Jesus lhe respondeu:

– Um homem descia de Jerusalém para Jericó. Deu de cara com assaltantes que lhe tiraram a roupa, o cobriram de golpes e foram embora deixando-o semimorto. Coincidiu que descia por esse caminho um sacerdote e, ao vê-lo, passou longe. O mesmo fez um levita: chegou ao lugar, viu-o e passou longe. Um samaritano que ia de viagem, chegou onde estava, viu-o e se compadeceu. Pôs azeite e vinho nas feridas e as atou. A seguir, montando-o em sua cavalgadura, o conduziu a uma pousada e cuidou dele. No dia seguinte, tirou dois denários, deu-os ao dono da pousada e lhe recomendou: Cuida dele, e o que gastares eu te pagarei na volta. Qual dos três te parece que se portou como próximo daquele que deu de cara com os assaltantes

Respondeu:

– Aquele que o tratou com misericórdia.

E Jesus lhe disse:

– Vai e faze tu o mesmo.”1

(Lc 10,21-372 – BPe)

1: O primeiro a colocar obstáculos no caminho de Jesus é um teólogo. Este sabe que o amor total a Deus e ao próximo é que leva à vida. Mas, não basta saber. É preciso amar concretamente. A parábola do samaritano mostra que o próximo é quem se aproxima do outro para lhe dar uma resposta às necessidades. Nessa tarefa prática, o amor não leva em conta barreiras de raça, religião, nação ou classe social. O próximo é aquele que eu encontro no meu caminho. O legista estabelecia limites para o amor: “Quem é o meu próximo?” Jesus muda a pergunta: “O que você faz para se tornar próximo do outro?” (BPa)

2: Cf. Mt 11,25-27; 13,16-17.

 

 

“Quando dizia isso, uma mulher da multidão levantou a voz e disse:

– Feliz o ventre que te carregou e os peitos que te amamentaram!

Jesus replicou:

– Felizes, antes, os que excutam a palavra de Deus e a cumprem.”

(Lc 11,27-28 – BPe)

 

 

“Depois Jesus falou a todos:

– Atenção! Tenham cuidado com qualquer tipo de ganância. Porque, mesmo que alguém tenha muitas coisas, a sua vida não depende de seus bens.

E contou-lhes uma parábola:

– A terra de um homem rico deu uma grande colheita. E o homem pensou: ‘O que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita’. Então resolveu: ‘Já sei o que fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir outros maiores; e neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: meu caro, você possui um bom estoque, uma reserva para muitos anos; descanse, coma e beba, alegre-se!’ Mas Deus lhe disse: ‘Louco! Nesta mesma noite você vai ter que devolver a sua vida. E as coisas que você preparou, para quem vão ficar?’ Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico para Deus.”

(Lc 12,15-34 – BPa)

 


“Então Jesus falou aos seus discípulos:

– Por isso eu lhes digo: não fiquem preocupados com a vida, com o que comer; nem com o corpo, com o que vestir. Pois a vida vale mais do que a comida, e o corpo mais do que a roupa. Observem os corvos: eles não semeiam, nem colhem, não possuem celeiros ou armazéns. E, no entanto, Deus os alimenta. Vocês valem muito mais do que as aves. Quem de vocês pode crescer um centímetro à custa de se preocupar com isso? Portanto, se vocês não podem nem sequer fazer a menor coisa, por que se inquietam com o resto? Observem como os lírios crescem: eles não fiam, nem tecem. Porém, eu digo a vocês que nem mesmo o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada no forno, quanto mais ele fará por vocês, gente de pouca fé! Quanto a vocês, não fiquem procurando o que vão comer e o que vão beber. Não fiquem inquietos. Porque são os pagãos deste mundo que procuram tudo isso. O Pai bem sabe que vocês têm necessidade dessas coisas. Portanto, busquem o Reino dele, e Deus dará a vocês essas coisas em acréscimo. Não tenha medo, pequeno rebanho, porque o Pai de vocês tem prazer em dar-lhes o Reino. Vendam os seus bens e deem o dinheiro em esmola. Façam bolsas que não envelhecem, um tesouro que não perde o seu valor no céu: lá o ladrão não chega, nem a traça rói. De fato, onde está o seu tesouro, aí estará também o seu coração.”1

(Lc 12,22-34)

1: A aquisição de bens necessários para viver se torna ansiedade contínua e pesada, se não é precedida pela busca do Reino, isto é, a promoção de relações de partilha e fraternidade. (BPa)

 

 

“Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para o escutar. Mas os fariseus e os doutores da Lei criticavam a Jesus, dizendo: “Esse homem acolhe pecadores, e come com eles!”

Então Jesus contou-lhes esta parábola:

– Se um de vocês tem cem ovelhas e perde uma, será que não deixa as noventa e nove no campo para ir atrás da ovelha que se perdeu, até encontrá-la? E quando a encontra, com muita alegria a coloca nos ombros. Chegando em casa, reúne amigos e vizinhos, para dizer: ‘Alegrem-se comigo! Eu encontrei a minha ovelha que estava perdida’. E eu lhes declaro: assim, haverá no céu mais alegria por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão.”1

Se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, será que não acende uma lâmpada, varre a casa, e procura cuidadosamente, até encontrar a moeda? Quando a encontra, reúne amigas e vizinhas, para dizer: ‘Alegrem-se comigo! Eu encontrei a moeda que tinha perdido’. E eu lhes declaro: os anjos de Deus sentem a mesma alegria por um só pecador que se converte.”2

(Lc 15,1-103 – BPa)

1: A primeira toma a imagem de uma atividade muito sensível na tradição bíblica: compare-se a figura do rei pastor que vai à luta para resgatar uma ovelha (1Sm 17,34-36) e a grande exposição de Ezequiel (em particular Ez 34,11-16). As noventa e nove ficam em lugar seguro. Leva a ovelha nos ombros (como em Is 40,11). É um por centro da sua propriedade; no entanto, alegra-se com uma alegria comunicativa e incontida, como se tivesse com a ovelha uma relação pessoal e não simplesmente econômica (cf. 2Sm 12,1-4). É a alegria que sobe até o céu. A frase é audaz: no céu se festeja o acontecimento. (BPe)

2: O segundo caso parece mais modesto à primeira vista. Mas a mulher é mais pobre e perdeu um décimo de seus bens. Proporcionalmente a alegria é a mesma e só em parte a aplicação: não se fala de alegria comparativa. Contudo, a alegria acusa um sofrimento precedente: a perda dói. Um pecador convertido é algo valioso que os anjos de Deus recuperam. (BPe)

3: Cf. Mt 18,12-14.

 

 

“– Ninguém pode servir a dois senhores: com efeito, ou odiará um e amará o outro, ou se apegará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro.”

(Lc 16,13 – BJ)

 

 

“Havia um homem rico que vestia púrpura e linho e banqueteava esplendidamente cada dia. E havia um pobre, chamado Lázaro, coberto de chagas, e deitado à porta do rico. Queria saciar-se com o que caía da mesa do rico. Até os cães iam lamber-lhe as chagas.

O pobre morreu e os anjos o levaram para junto de Abraão. O rico também morreu e o sepultaram. Estando no Hades, em meio a tormentos, levantou os olhos e avistou Abraão com Lázaro a seu lado. Chamou-o e lhe disse: Pai Abraão, tem piedade de mim, e envia Lázaro, para que molhe a ponta do dedo na água e me refresque a língua, pois estas chamas me torturam1. Abraão respondeu: Filho, recorda que em vida recebeste bens, e Lázaro, por sua vez, desgraças. Agora ele é consolado, e tu, atormentado2. Além disso, entre vós e nós há um abismo imenso; de modo que, ainda que se queira, não é possível atravessar daqui até vós, nem passar daí até nós. O rico insistiu: Então, por favor, manda-o à casa de meu pai, onde tenho cinco irmãos, para que os admoeste a fim de que não venham também eles parar neste lugar de tormento. Abraão lhe disse: Eles têm Moisés e os profetas: que os escutem. O rico insistiu: Não, pai Abraão; se um morto os visita, eles se arrependerão. Mas Abraão lhe disse: Se não escutam Moisés nem os profetas, mesmo que um morto ressuscite, não lhe farão caso.3

(Lc 16,19-31 – BPe / BJ)

1: O fogo como tormento não é tradicional. E o elemento divino, o Inacessível, em Is 33,14, o aniquilador em SI 68,3. (BPe)

2: A resposta de Abraão desmente uma teoria da retribuição nesta vida. Pobreza e riqueza estão em correlação. A riqueza de um, desfrutada com egoísmo, provocou e conservou a pobreza do outro. As vítimas inocentes que choram “serão consoladas”. (BPe)

3: A frase se abre para sugerir a ressurreição de Jesus e a resistência dos incrédulos. (BPe)

 

 

“Jesus contou ainda esta parábola para alguns que, convencidos de serem justos, desprezavam os outros.

– Dois homens subiram ao Templo para rezar; um era fariseu, o outro era cobrador de impostos. O fariseu, de pé, rezava assim no seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço, porque não sou como os outros homens, que são ladrões, desonestos, adúlteros, nem como esse cobrador de impostos. Eu faço jejum duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’. O cobrador de impostos ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!’ Eu declaro a vocês: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva, será humilhado, e quem se humilha, será elevado.”

(Lc 18,9-14 – BPa / BJ)

 

 

“Entre os apóstolos houve também uma discussão sobre qual deles deveria ser considerado o maior. Jesus, porém, disse:

– Os reis das nações têm poder sobre elas, e os que sobre elas exercem autoridade, são chamados benfeitores. Mas entre vocês não deverá ser assim. Pelo contrário, o maior entre vocês seja como o mais novo; e quem governa, seja como aquele que serve. Afinal, quem é o maior: aquele que está sentado à mesa, ou aquele que está servindo? Não é aquele que está sentado à mesa? Eu, porém, estou no meio de vocês como quem está servindo. Vocês ficaram comigo em minhas provações. Por isso, assim como o meu Pai confiou o Reino a mim, eu também confio o Reino a vocês. E vocês hão de comer e beber à minha mesa no meu Reino, e sentar-se em tronos para julgar as doze tribos de Israel.1

(Lc 22,24-302 – BPa)

1: O primeiro salmo recitado do Hallel canta Deus. “encimado” que “se abaixa” e “levanta do pó o desvalido... para sentá-lo com os nobres” – entendendo-se sentar-se em posto de autoridade (SI 113,5-7). O que se canta vale para os discípulos? – Sim, mas não como eles imaginam, mas pelo caminho contrário. Como Davi recebeu do Senhor, Jesus recebeu do Pai, numa espécie de pacto, a autoridade real (Is 55,3; SI 89,4.29.35). Logo vai reparti-la com os apóstolos, só que num estilo novo, fundado em seu exemplo. Não fundado no poder, como os reinos humanos, mas no serviço. Numa espécie de corpo colegial, de doze tronos ou escanos, vão governar o novo Israel, fraterno e diferenciado. (BPe)

2: Cf. Mt 20,24-28 e Mc 10,41-45.

Bíblia Sagrada – O Evangelho Segundo São Marcos

Editora: Paulus

ISBN: Bíblia do Peregrino (BPe) – 978-85-349-2005-6 / Bíblia de Jerusalém (BJ) – 978-85-349-4282-9 / Bíblia Pastoral (BPa) – 978-85-349-0228-1

Tradução, introdução e notas (BPa): Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin

Tradução (BPe): Ivo Storniolo e José Bortolini

Notas (BPe): Luís Alonso Schökel

Opinião: N/A

Páginas: BPe – 55 / BJ – 26 / BPa – 26

Sinopse: Ver aqui

 


“Alguns doutores da Lei, que eram fariseus, viram que Jesus estava comendo com pecadores e cobradores de impostos. Então eles perguntaram aos discípulos:

– Por que Jesus come e bebe junto com cobradores de impostos e pecadores?”

Jesus ouviu e respondeu:

– As pessoas que têm saúde não precisam de médico, mas só as que estão doentes. Eu não vim para chamar justos, e sim pecadores.”

(Mc 2,16-17 – BPa)

 

 

“Jesus começou a ensinar de novo às margens do mar da Galiléia. Uma multidão se reuniu em volta dele. Por isso, Jesus entrou numa barca e sentou-se. A barca estava no mar, enquanto a multidão estava junto ao mar, na praia. Jesus ensinava-lhes muitas coisas com parábolas. No seu ensinamento dizia para eles:

– Escutem. Um homem saiu para semear. Enquanto semeava, uma parte caiu à beira do caminho; os passarinhos foram e comeram tudo. Outra parte caiu em terreno pedregoso, onde não havia muita terra; brotou logo, porque a terra não era profunda. Porém, quando saiu o sol, os brotos se queimaram e secaram, porque não tinham raiz. Outra parte caiu no meio dos espinhos. Os espinhos cresceram, a sufocaram, e ela não deu fruto. Outra parte caiu em terra boa e deu fruto, brotando e crescendo: rendeu trinta, sessenta e até cem por um.

E Jesus dizia:

– Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!

Quando Jesus ficou sozinho, os que estavam com ele, junto com os Doze, perguntaram o que significavam as parábolas. Jesus disse para eles:

– Para vocês, foi dado o mistério do Reino de Deus; para os que estão fora tudo acontece em parábolas, para que olhem, mas não vejam, escutem, mas não compreendam, para que não se convertam e não sejam perdoados.

Jesus lhes perguntou:

– Vocês não compreendem essa parábola? Como então vão compreender todas as outras parábolas? O semeador semeia a Palavra. Os que estão à beira do caminho são aqueles nos quais a Palavra foi semeada; logo que a ouvem, chega Satanás e tira a Palavra que foi semeada neles. Do mesmo modo, os que recebem a semente em terreno pedregoso, são aqueles que ouvem a Palavra e a recebem com alegria; mas eles não têm raiz em si mesmos: são inconstantes, e, quando chega uma tribulação ou perseguição por causa da Palavra, eles logo desistem. Outros recebem a semente entre os espinhos: são aqueles que ouvem a Palavra; mas surgem as preocupações do mundo, a ilusão da riqueza e todos os outros desejos, que sufocam a Palavra, e ela fica sem dar fruto. Por fim, aqueles que receberam a semente em terreno bom, são os que ouvem a Palavra, a recebem e dão fruto; um dá trinta, outro sessenta e outro cem por um.”

(Mc 4,1-201 – BPa)

1: Cf. Mt 13,1-23 e Lc 8,4-15.

 


“E Jesus dizia ainda:

– Prestem atenção no que vocês ouvem: com a mesma medida com que vocês medirem, também vocês serão medidos.”

(Mc 4,24 – BPa)

 

 

“Jesus anunciava a Palavra usando muitas outras parábolas como essa, conforme eles podiam compreender. Para a multidão Jesus só falava com parábolas, mas, quando estava sozinho com os discípulos, ele explicava tudo.”

(Mc 4,33-341)

1: Cf. Mt 13,34.

 

 

“Jesus lhes dizia:

– Um profeta é desprezado só em sua pátria, entre seus parentes e em sua casa.”

(Mc 6,41 – BPe)

1: Cf. Mt 13,34.

 

 

“Então Jesus chamou a multidão e os discípulos. E disse:

– Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas, quem perde a sua vida por causa de mim e da Boa Notícia, vai salvá-la. Com efeito, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida? Que é que um homem poderia dar em troca da própria vida?”

(Mc 8,34-371 – BPa)

1: Cf. Mt 16,24-26 e Lc 9,23-25.

 


“Jesus lhes respondeu:

– Estais enganados, pois não entendeis a Escritura nem o poder de Deus. A propósito de que os mortos ressuscitarão, não lestes no livro de Moisés o episódio da sarça? Deus lhes diz: Eu sou o Deus de Abraão, o deus de Isaac, o deus de Jacó. Não é um Deus de mortos, mas de vivos.”

(Mc 12,24.26-27a1)

1: Cf. Mt 22,29.31-32 e Lc 20,37-38.

 

 

“Um doutor da Lei que ouviu a discussão e apreciou o acerto da resposta, aproximou-se e lhe perguntou:

– Qual é o mandamento mais importante?

Jesus respondeu:

– O mais importante é: Escuta, Israel, o Senhor nosso Deus é um só. Amarás o Senhor teu Deus com todo o coração, com toda a alma, com toda a mente, com todas as tuas forças. O segundo é: Amarás o próximo como a ti mesmo. Não há mandamento maior do que estes.

O letrado lhe respondeu:

– Muito bem, Mestre; o que dizes é verdade: ele é um só, e não há outro fora dele. Amá-lo com todo o coração, com toda a inteligência e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios.

Vendo que havia respondido com sensatez, Jesus lhe disse:

– Não estás longe do reino de Deus.

E ninguém mais se atreveu a fazer-lhe perguntas.”

(Mc 12,28-341 – BPe / BPa)

1: Cf. Mt 22,36-40 e Lc 10,25-28.

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Bíblia Sagrada – O Evangelho Segundo São Mateus

Editora: Paulus

ISBN: Bíblia do Peregrino (BPe) – 978-85-349-2005-6 / Bíblia de Jerusalém (BJ) – 978-85-349-4282-9 / Bíblia Pastoral (BPa) – 978-85-349-0228-1

Tradução, introdução e notas (BPa): Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin

Tradução (BPe): Ivo Storniolo e José Bortolini

Notas (BPe): Luís Alonso Schökel

Opinião: N/A

Páginas: BPe – 77 / BJ – 73 / BPa – 47

Sinopse: Ver aqui

 


“Jesus viu as multidões, subiu à montanha e sentou-se. Os discípulos se aproximaram, e Jesus começou a ensiná-los:

Felizes os pobres em espírito,

porque deles é o Reino do Céu.

Felizes os afligidos,

porque serão consolados.

Felizes os despossuídos,

porque herdarão a terra.

Felizes os que têm fome e sede de justiça,

porque serão saciados.

Felizes os que são misericordiosos,

porque encontrarão misericórdia.

Felizes os puros de coração,

porque verão a Deus.

Felizes os que promovem a paz,

porque serão chamados filhos de Deus.

Felizes os que são perseguidos por causa da justiça,

porque deles é o Reino do Céu.

Felizes vocês, se forem insultados e perseguidos, e se disserem todo tipo de calúnia contra vocês, por causa de mim. Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa no céu. Do mesmo modo perseguiram os profetas que vieram antes de vocês.”

(Mt 5,1-121 – BPa / BPe).

1: Cf. Lc 6,20-23.

 

 

“Pois eu vos digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês! Assim vocês se tornarão filhos do Pai que está no céu, porque ele faz o sol nascer sobre maus e bons, e a chuva cair sobre justos e injustos. Pois, se vocês amam somente aqueles que os amam, que recompensa vocês merecerão? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? E se vocês cumprimentam somente seus irmãos, o que é que vocês fazem de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu.”

(Mt 5,44-48 – BPa/BPe)

 

 

“Quando vocês rezarem, não sejam como os hipócritas, que gostam de rezar em pé nas sinagogas e nas esquinas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo: eles já receberam sua recompensa. Ao contrário, quando você rezar, entre no seu quarto, feche a porta, e reze ao seu Pai ocultamente; e o seu Pai, que vê o escondido, recompensará você1. Quando vocês rezarem, não usem muitas palavras, como fazem os pagãos. Eles pensam que serão ouvidos por causa do seu palavreado. Não sejam como eles, pois o Pai de vocês sabe do que é que vocês precisam, ainda antes que vocês façam o pedido. Vocês devem rezar assim:

Pai nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. Dá-nos hoje o pão nosso de cada dia. Perdoa as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores. E não nos deixes cair em tentação2, mas livra-nos do mal.

De fato, se vocês perdoarem aos homens os males que eles fizeram, o Pai de vocês que está no céu também perdoará a vocês. Mas, se vocês não perdoarem aos homens, o Pai de vocês também não perdoará os males que vocês tiverem feito.”

(Mt 6,5-15 – BPa / BJ)

1: Na oração, o homem se volta para Deus, reconhecendo-o como único absoluto, e reconhecendo a si mesmo como criatura, relativizando a autossuficiência. Por isso, rezar para ser elogiado é colocar-se como centro, falsificando a oração. (BPa)

2: Cf. Lc 11,2-4.

 

 

“Não acumulem riquezas aqui na terra, onde a traça e a ferrugem corroem, onde os ladrões assaltam e roubam. Acumulem riquezas no céu, onde nem a traça nem a ferrugem corroem, e onde os ladrões não arrombam nem roubam. De fato, onde está o seu tesouro, aí estará também o seu coração. Ninguém pode servir a dois senhores1. Porque, ou odiará a um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro2.”

(Mt 6,19-21.24 – BPa / BPe / BJ)

1: Todo homem, consciente ou inconscientemente, tem na vida um valor fundamental, um absoluto que determina toda a sua forma de ser e viver. Qual é o absoluto: Deus ou as riquezas? Deus leva o homem à liberdade e à vida, através da justiça que gera a partilha e a fraternidade. As riquezas são resultado da opressão e da exploração, levando o homem à escravidão e à morte. É preciso escolher a qual dos dois queremos servir. (BPa)

2: Mamom é o deus do dinheiro, da cobiça: rival inconciliável do Deus verdadeiro, que ´doador generoso (Sl 21,5; 37,4; 136,25 etc.) e ensina a dar. A cobiça é idolatria, diz Cl 3,5. O cobiçoso não possui, mas é possuído por seus bens e suas ânsias. Quevedo sentenciava: Poderoso cavaleiro é Dom Dinheiro. (BPe)

 

 

“Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal.”

(Mt 6,34 – BJ)

 

 

““Não julguem, e vocês não serão julgados1. De fato, vocês serão julgados com o mesmo julgamento com que vocês julgarem, e serão medidos com a mesma medida com que vocês medirem.

Por que você fica olhando o cisco no olho do seu irmão, e não presta atenção à trave que está no seu próprio olho? Ou, como você se atreve a dizer ao irmão: ‘deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando você mesmo tem uma trave no seu? Hipócrita, tire primeiro a trave do seu próprio olho, e então você enxergará bem para tirar o cisco do olho do seu irmão.

Não deem aos cães o que é sagrado2, nem atirem pérolas aos porcos; eles poderiam pisá-las com os pés e, virando-se, estraçalhar vocês.

Peçam, e lhes será dado! Procurem, e encontrarão! Batam, e abrirão a porta para vocês! Pois todo aquele que pede, recebe; quem procura, acha; e a quem bate, a porta será aberta. Quem de vocês dá ao filho uma pedra, quando ele pede um pão? Ou lhe dá uma cobra, quando ele pede um peixe? Se vocês, que são maus, sabem dar coisas boas a seus filhos, quanto mais o Pai de vocês que está no céu dará coisas boas aos que lhe pedirem.

Tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles. Pois nisso consistem a Lei e os Profetas.3

Entrem pela porta estreita, porque é larga a porta e espaçoso o caminho que levam para a perdição, e são muitos os que entram por ela! Como é estreita a porta e apertado o caminho que levam para a vida, e são poucos os que a encontram!

Cuidado com os falsos profetas: eles vêm a vocês vestidos com peles de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes4. Vocês os conhecerão pelos frutos deles: por acaso se colhem uvas de espinheiros ou figos de urtigas? Assim, toda árvore boa produz bons frutos, e toda árvore má produz maus frutos. Uma árvore boa não pode dar frutos maus, e uma árvore má não pode dar bons frutos. Toda árvore que não der bons frutos, será cortada e jogada no fogo. Pelos frutos deles é que vocês os conhecerão.5

“Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino do Céu. Só entrará aquele que põe em prática a vontade do meu Pai, que está no céu.

Naquele dia muitos me dirão: ‘Senhor, Senhor, não foi em teu nome que profetizamos? Não foi em teu nome que expulsamos demônios? E não foi em teu nome que fizemos tantos milagres?’ Então, eu vou declarar a eles: Jamais conheci vocês. Afastem-se de mim, malfeitores!6

“Portanto, quem ouve essas minhas palavras e as põe em prática, é como o homem prudente que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, os ventos sopraram com força contra a casa, mas a casa não caiu, porque fora construída sobre a rocha.

Por outro lado, quem ouve essas minhas palavras e não as põe em prática, é como o homem sem juízo, que construiu sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, os ventos sopraram com força contra a casa, e a casa caiu, e a sua ruína foi completa!”

Quando Jesus acabou de dizer essas palavras, as multidões ficaram admiradas com o seu ensinamento, porque Jesus ensinava como alguém que tem autoridade, e não como os doutores da Lei.”

(Mt 7 – BPa)

1: Não julguei os outros, para não serdes julgados por Deus. Do mesmo modo se entenda o v. seguinte (cf. Tg 4,12). (BJ)

2: Porções de carne consagrada, alimentos santificados por terem sido oferecidos no Templo (cf. Ex 22, 30; Lv 22,14). — Do mesmo modo, não se deve propor uma doutrina preciosa e santa a pessoas incapazes de recebê-las bem e que poderiam fazer mau uso delas. O texto não especifica que tipo de pessoas se trata: seriam os judeus hostis? Ou os pagãos (cf. 15-16)?” (BJ)

3: A regra de ouro, síntese de toda a Escritura, se encontra, na sua formulação negativa, em outras culturas, também em Tb 4,15. Sua aplicação abrange desde o cotidiano até o heroico. É outra formulação do amor ao próximo: “como a si mesmo” em sua vertente ativa. (BPe)

4: Os falsos profetas foram o pesadelo dos autênticos (cf. Jr 23 e Ez 13 entre outros). Elogiam e não denunciam (Is 30,10); prometem falsamente a paz (Jr 6,14; 8,11). Não faltarão falsos profetas nas comunidades cristãs (Mt 24,1 2 fala de anticristos), nem mestres que “elogiem os ouvidos” (2Tm 4,3). (BPe)

5: “Nada se parece tanto com um verdadeiro profeta, como um falso profeta.” As ideologias que nos afastam da opção fundamental pelo Reino e sua justiça são cheias de fascínio, e sempre trazem a aparência de humanidade e até mesmo de fé. Só poderemos perceber a sua falsidade através daquilo que elas produzem na sociedade: a cobiça e a sede de poder, que levam à exploração e opressão. (BPa)

6: Nem mesmo o ato de fé mais profundo da comunidade, que é o reconhecimento de Jesus como o Senhor, faz que alguém entre no Reino. Se o ato de fé pela palavra não for acompanhado de ações, é vazio e sem sentido. A expressão “naquele dia” indica o Juízo final e nos remete a Mt 25,31-46, onde são mostradas as ações que qualificam o autêntico reconhecimento de Jesus como Senhor. (BPa)

 

 

“Estando Jesus à mesa em casa de Mateus, muitos cobradores de impostos e pecadores foram e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. Alguns fariseus viram isso, e perguntaram aos discípulos: “Por que o mestre de vocês come com os cobradores de impostos e os pecadores?” Jesus ouviu a pergunta e respondeu: “As pessoas que têm saúde não precisam de médico, mas só as que estão doentes. Aprendam, pois, o que significa: ‘Eu quero a misericórdia e não o sacrifício’1. Porque eu não vim para chamar justos, e sim pecadores”.”

(Mt 9,10-132 – BPa)

1: À prática rigorista e exterior da Lei, Deus prefere os sentimentos íntimos do coração sincero e compassivo. Eis um tema frequente dos profetas (Am 5,21+). (BJ)

2: Cf. Mc 2,15-17 e Lc 5,29-32.

 

 

“Nessa ocasião Jesus tomou a palavra e disse:

— Dou-te graças, Pai Senhor do céu e da terra! Porque, ocultando estas coisas aos entendidos, tu as revelaste aos ignorantes1.

Sim, foi tua escolha2. Meu Pai me confiou tudo: ninguém conhece o Filho, senão o Pai; ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e a quem o Filho decidir revelá-lo. Vinde a mim, vós que andais cansados e curvados, e eu vos aliviarei. Tomai meu jugo e aprendei de mim, que sou tolerante e humilde, e vos sentireis aliviados. Pois meu jugo é suave e minha carga é leve.2

(Mt 11,25-303 – BPe)

1: Diante da soberba e arrogância das cidades amaldiçoadas desprende-se no contexto essa exaltação do humilde e simples. “Deus revela seus segredos aos humildes” (Eclo 3.20). Destaca-se como um pico, estreito e altíssimo, esta efusão da espiritualidade íntima de Jesus; testemunho da predileção do Pai, do seu sentimento filial e da missão soberana que recebeu. Como em Is 29,14, os prodígios de Deus confundem a sabedoria dos sábios: “Eu continuarei prodigiando prodígios... a sabedoria dos sábios fracassará”. O prodígio presente é o envio e presença de seu Filho, mistério que os “ignorantes” humildes compreendem, pois não vivem satisfeitos com seus preconceitos; ao passo que os doutores que se creem suficientes olhando não veem (cf. Is 42,20). A fé pascal dos cristãos acolhe e proclama essa revelação. A relação filial de Jesus com seu Pai, o Deus criador do universo, é única. Do Pai recebe, como mediador único, a missão de revelar e salvar. O evangelho e a primeira carta de João são o melhor comentário a essa breve e densa perícope. (BPe)

2: Não só os animais, também os homens carregam o jugo como sinal e exercício de escravidão. Era um jugo curvo de madeira, apoiado com almofadas sobre os ombros, que servia para transportar cargas equilibradas. A imagem é frequente no AT: pode referir-se à lei (Jr 2,20; 5,5 etc.), à tirania estrangeira (Is 10,27; Jr 27,8 etc.) e também à sabedoria, em princípio jugo, no fim joia (Eclo 6,24.30 no contexto 18-31). A escravidão no Egito se definia pelas “cargas” (Ex 6,6). O jugo que Jesus impõe, aceito com amor e levado com sua ajuda, é leve, particularmente se comparado com as cargas dos fariseus (23,4). (BPe)

3: Cf. Lc 20,21.

 


“Se soubésseis o que significa: Misericórdia é que eu quero e não sacrifício, não condenaríeis os que não têm culpa.”

(Mt 12,7 – BJ)

 

 

“Jesus contou outra parábola à multidão: “O Reino do Céu é como um homem que semeou boa semente no seu campo. Uma noite, quando todos dormiam, veio o inimigo dele, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. Quando o trigo cresceu, e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. Os empregados foram procurar o dono, e lhe disseram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?’ O dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’. Os empregados lhe perguntaram: ‘Queres que arranquemos o joio?’ O dono respondeu: ‘Não. Pode acontecer que, arrancando o joio, vocês arranquem também o trigo. Deixem crescer um e outro até à colheita. E no tempo da colheita direi aos ceifadores: arranquem primeiro o joio, e o amarrem em feixes para ser queimado. Depois recolham o trigo no meu celeiro.”1

(Mt 13,24-30 – BPa)

1: A imagem do joio no meio do trigo tornou-se proverbial em nossos tempos, a tal ponto que a parábola evangélica nos é transparente. Duas coisas não se tornaram proverbiais e temos de destacá-las. Que há poderes empenhados em malograr a boa colheita, que se aproveitam dos momentos de descuido ou descanso legítimo (cf. Sl 127,2). Que é preciso levar em conta o joio com paciência e lucidez. Isso se deve entender no contexto social da Igreja, de sorte que é lido como um capítulo de eclesiologia em germe. “Saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos” (1 Jo 2,19). O final alude ao julgamento escatológico (cf. Is 27,11). (BPe)

 

 

“Um profeta só não é estimado em sua própria pátria e em sua família.”

(Mt 13,57b – BPa)

 

 

“Alguns fariseus e diversos doutores da Lei, de Jerusalém, se aproximaram de Jesus, e perguntaram:

– Por que os teus discípulos desobedecem à tradição dos antigos?1 De fato, comem pão sem lavar as mãos!”

Jesus respondeu:

– Por que é que vocês também desobedecem ao mandamento de Deus em nome da tradição de vocês? Pois Deus disse: ‘Honre seu pai e sua mãe’. E ainda: ‘Quem amaldiçoa o pai ou a mãe, deve morrer’. E no entanto vocês ensinam que alguém pode dizer ao seu pai e à sua mãe: ‘O sustento que vocês poderiam receber de mim é consagrado a Deus’. E essa pessoa fica dispensada de honrar seu pai ou sua mãe2. Assim vocês esvaziaram a palavra de Deus com a tradição de vocês. Hipócritas! Isaías profetizou muito bem sobre vocês, quando disse: ‘Esse povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim. Não adianta nada eles me prestarem culto, porque ensinam preceitos humanos.’

Em seguida, Jesus chamou a multidão para perto dele, e disse: “Escutem e compreendam. Não é o que entra na boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isso torna o homem impuro”.”

(Mt 15, 1-103 – BPa)

1: Tradição oral que, sob pretexto de assegurar a observância da Lei escrita, ia mais longe do que ela. Os rabinos faziam-na remontar, através dos “antigos”, a Moisés. (BJ)

2: Porque os bens assim votados (korbân) passaram a revestir caráter “sagrado”, que interditava aos pais pretenderem para si qualquer parte deles. Esse voto, aliás, fictício, não obrigando a nenhuma doação real, era meio odioso de livrar-se de dever sagrado. Os rabinos, embora reconhecendo o seu caráter imoral, consideravam válidos tais votos. (BJ)

3: Cf. Mc 7,1-16.

 

 

“Quando Jesus chegou à região de Cesareia de Filipe, interrogou os discípulos:

— Quem dizem os homens que é este Homem?

Responderam:

— Uns que é João Batista; outros, Elias; outros, Jeremias ou algum outro profeta.

Disse-lhes:

— E vós, quem dizeis que eu sou?

Respondeu Simão Pedro:

— Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo.

Jesus lhe replicou:

— Feliz és tu, Simão, filho de Jonas! Porque não foi alguém de carne e sangue que te revelou isso, e sim meu Pai do céu. Pois eu te digo que tu és Pedro e sobre esta Pedra construirei minha igreja, e o império da morte não a vencerá1. A ti darei as chaves do reino de Deus: o que atares na terra ficará atado no céu; o que desatares na terra ficará desatado no céu.2

(Mt 16,13-19 – BPe)

1: (...) O povo não hostil, que presenciou a atividade de Jesus, considera-o algum enviado especialíssimo de Deus para preparar a era messiânica; inclusive alguém poupado da morte (Eclo 48,1) ou morto e redivivo para ter maior autoridade (LC 16,30). Simão, que pela carne e sangue é filho de Jonas, declara que Jesus é o Messias esperado; e Jesus o ratifica, declarando que a confissão procede de uma revelação do Pai (cf. II ,27), pela qual Pedro tem uma bem-aventurança particular.

Dito isso, prossegue estabelecendo e declarando a função específica de Simão. Jesus se propõe "construir" um templo, que é uma comunidade nova, na qual Pedro será uma "pedra" fundamental. O grego petros designa uma pedra ou pedregulho, algo que se pode pegar e lançar. Ao passo que petra designa um silhar ou penha ou rocha onde se assenta um edifício. O edifício ou comunidade é obra e domínio de Jesus, "minha igreja", que substitui a comunidade sagrada qahal Yhwh ou qahal Yisrael (Dt 23,2; 1Rs 8,22 etc.). Pedro terá nela uma função medianeira central: por sua adesão ou aderência a Cristo, participará da solidez da rocha. Contra a igreja de Jesus nada poderá o poder da morte, que abre suas portas para prender e fecha para não soltar. A obra de Jesus é imortal (talvez sugira a ressurreição e a vida eterna dos seus membros). (BPe)

Pedro terá as chaves de acesso ao reino de Deus (de acordo com as bem-aventuranças, 5,310) e terá o poder de julgar, perdoar e condenar, ratificado por Deus. Diante de doutores e fariseus que "amarram fardos pesados" (23,4) e fecham o acesso ao reino de Deus (23,13) (...). (BPe)

2: Exatamente como a Cidade da morte, a Cidade de Deus tem portas, que não deixam entrar senão os que são dignos; comparar Mt 23,13p. Pedro recebe as suas chaves. Caberá a ele, pois, abrir ou fechar o acesso ao Reino dos Céus, por meio da Igreja. – “Ligar” e “desligar” são dois termos técnicos da linguagem rabínica que se aplicam primeiro ao domínio disciplinar da excomunhão com que se “condena” (ligar) ou “absolve” (desligar) alguém, e mais tarde às decisões doutrinais ou jurídicas, com o sentido de “proibir” (ligar) ou “permitir” (desligar). Pedro como mordomo (cuja insígnia são as chaves, cf. Is 22,22) da casa de Deus, exercerá o poder disciplinar de admitir ou excluir quem ele bem julgar, e administrará a comunidade através de todas as decisões cabíveis em matéria de doutrina e de moral. As sentenças e decisões serão ratificadas por Deus do alto dos céus. – Essas promessas eternas valem não só para a pessoa de Pedro, mas também para os seus sucessores. Embora essa consequência não seja explicitamente indicada no texto, é legítima, entretanto, em virtude da intenção clara que Jesus tem de prover o futuro de sua Igreja como instituição que a morte de Pedro não podia tornar caduca. – Dois outros textos, Lc 22,31s e Jo 21,15s, deixarão claro que o primado de Pedro deve exercer-se particularmente na ordem da fé e que ele o torna chefe não só da Igreja futura, mas já dos demais Apóstolos. (BJ)

 


“Pedro aproximou-se de Jesus, e perguntou:

– Senhor, quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?”

Jesus respondeu:

– Não lhe digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete. Porque o Reino do Céu é como um rei que resolveu acertar as contas com seus empregados. Quando começou o acerto, levaram a ele um que devia dez mil talentos1. Como o empregado não tinha com que pagar, o patrão mandou que fosse vendido como escravo, junto com a mulher e os filhos e tudo o que possuía, para que pagasse a dívida. O empregado, porém, caiu aos pés do patrão e, ajoelhado, suplicava: ‘Dá-me um prazo. E eu te pagarei tudo’. Diante disso, o patrão teve compaixão, soltou o empregado, e lhe perdoou a dívida. Ao sair daí, esse empregado encontrou um de seus companheiros que lhe devia cem denários2. Ele o agarrou, e começou a sufocá-lo, dizendo: ‘Pague logo o que me deve’. O companheiro, caindo aos seus pés, suplicava: ‘Dê-me um prazo, e eu pagarei a você’. Mas o empregado não quis saber disso. Saiu e mandou jogá-lo na prisão, até que pagasse o que devia. Vendo o que havia acontecido, os outros empregados ficaram muito tristes, procuraram o patrão, e lhe contaram tudo. O patrão mandou chamar o empregado, e lhe disse: ‘Empregado miserável! Eu lhe perdoei toda a sua dívida, porque você me suplicou. E você, não devia também ter compaixão do seu companheiro, como eu tive de você?’ O patrão indignou-se, e mandou entregar esse empregado aos torturadores, até que pagasse toda a sua dívida. É assim que fará com vocês o meu Pai que está no céu, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão.3

(Mt 18,21-35 – BPa / BJ)

1: Mais de trezentas e quarenta toneladas de ouro: quantia exorbitante, escolhida intencionalmente. (BJ)

2: Menos de trinta gramas de ouro. (BJ)

3: Na comunidade de Jesus não existem limites para o perdão (setenta vezes sete). Ao entrar na comunidade, cada pessoa já recebeu do Pai um perdão sem limites (dez mil talentos). A vida na comunidade precisa, portanto, basear-se no amor e na misericórdia, compartilhando entre todos esse perdão que cada um recebeu. (BPa)

 

 

“Jesus disse aos seus discípulos:

– Eu vos asseguro: um rico dificilmente entrará no reino de Deus. Eu vos repito: é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus.”

(Mt 19,23-241 – BPe)

1: Cf. Mc 10,23-25 e Lc 18,24-25.

 

 

“Mas Jesus os chamou e lhes disse:

– Sabeis que entre os pagãos os governantes submetem os súditos, e os poderosos impõem sua autoridade. Não será assim entre vós; pelo contrário, quem quiser ser grande entre vós, que se torne vosso servidor; e quem quiser ser o primeiro que se torne o vosso escravo. Da mesma forma que este Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida como resgate por todos.1

(Mt 20,25-282 – BPa)

1: Os pecados humanos determinam uma dívida do homem para com a justiça divina, a pena de morte exigida pela Lei (cf. 1Cor 15,56; 2Cor 3,7.9; Gl 3,13; Rm 8,3-4 e as notas). A fim de libertá-los dessa servidão do pecado e da morte (Rm 3,24+), Jesus pagará o resgate e satisfará a dívida com o preço do seu sangue (1Cor 6,20; 7,23; Gl 3,13; 4,5 e as notas), isto é, morrendo em lugar dos culposos, como fora predito a respeito do “Servo de Iahweh” (Is 53). (BJ)

2: Cf. Mc 10,42-45.

 

 

“Jesus entrou no Templo e expulsou todos os vendedores e compradores que lá estavam. Virou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. E disse-lhes:

– Está escrito: Minha casa será chamada casa de oração. Vós, porém, a convertestes em um covil de ladrões!”

(Mt 21,12-131 – BJ / BPe)

1: Cf. Mc 11,15-17; Lc 19-45-46; Jo 2,14-16.

 

 

“– Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?"

Ele respondeu:

Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Esse é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a esse: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.”

(Mt 22,36-401 – BJ)

1: Cf. Mc 12,28-31.

 

 

O juízo final1 – Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso. Todos os povos da terra2 serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. E colocará as ovelhas à sua direita, e os cabritos à sua esquerda. Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Venham vocês, que são abençoados por meu Pai. Recebam como herança o Reino que meu Pai lhes preparou desde a criação do mundo. Pois eu estava com fome, e vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro, e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar’3. Então os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar?’ Então o Rei lhes responderá: ‘Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram.’

Depois o Rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastem-se de mim, malditos. Vão para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos. Porque eu estava com fome, e vocês não me deram de comer; eu estava com sede, e não me deram de beber; eu era estrangeiro, e vocês não me receberam em casa; eu estava sem roupa, e não me vestiram; eu estava doente e na prisão, e vocês não me foram visitar’. Também estes responderão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou sem roupa, doente ou preso, e não te servimos?’ Então o Rei responderá a esses: ‘Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês não fizeram isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizeram’. Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna.4

(Mt 25,31-46 – BPa)

1: Esta é a única cena dos Evangelhos que mostra qual será o conteúdo do juízo final. Os homens vão ser julgados pela fé que tiveram em Jesus. Fé que significa reconhecimento e compromisso com a pessoa concreta de Jesus. Porém, onde está Jesus? Está identificado com os pobres e oprimidos, marginalizados por uma sociedade baseada na riqueza e no poder. Por isso, o julgamento será sobre a realização ou não de uma prática de justiça em favor da libertação dos pobres e oprimidos. Esta é a prática central da fé, desde o início apresentado por Mateus como o cerne de toda a atividade de Jesus: “cumprir toda a justiça” (3,15). É a condição para participar da vida do Reino. (BPa)

2: Todos os homens de todos os tempos. A ressurreição dos mortos não é mencionada, mas deve ser subentendida (cf. 10,15; 11 22-24; 12.41s). (BJ)

3: Os homens são julgados segundo suas obras de misericórdia (descritas de forma bíblica, cf. Is 58,7; Jó 22,6s; Eclo 7.32s etc.), não segundo suas ações excepcionais (cf. 7,22s). (BJ)

4: A expressão "os mais pequeninos dos irmãos" (v. 40) designa todos aqueles que estão em necessidade, pois o termo "irmão" não parece ter aqui o sentido restritivo segundo o qual designaria apenas os missionários cristãos (cf. Henoc 61 ,8; 62,25; 69,27). Esta poderosa cena dramática inclui elementos parabólicos (o pastor, as ovelhas e os bodes), mas não se pode minimizar a importância deste texto transformando-o em simples parábola; também não devemos tomá-lo como uma descrição "cinematográfica" do julgamento. O acento do texto recai sobre o amor ao próximo, valor moral supremo (cf. 22,34-40); contrariamente ao costume do autor, é o Filho que é apresentado como juiz e não Deus Pai. (BJ)

 

 

“Jesus ainda falava, quando chegou Judas, um dos Doze, com uma grande multidão armada de espadas e paus. Iam da parte dos chefes dos sacerdotes e dos anciãos do povo. O traidor tinha combinado com eles uma senha: “Aquele que eu beijar é Jesus. Prendam-no.” Judas logo se aproximou de Jesus, e disse:

– “Salve, Mestre.”

E o beijou.

Jesus lhe disse:

– “Amigo, faça logo o que tem a fazer.”

Então os outros avançaram, lançaram as mãos sobre Jesus, e o prenderam. Nesse momento, um dos que estavam com Jesus estendeu a mão, puxou da espada, e feriu o empregado do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha. Jesus, porém, lhe disse: “Guarde a espada na bainha. Pois todos os que usam a espada, pela espada morrerão. Ou você pensa que eu não poderia pedir socorro ao meu Pai? Ele me mandaria logo mais de doze legiões de anjos. E, então, como se cumpririam as Escrituras, que dizem que isso deve acontecer?” 1

E nessa hora, Jesus disse às multidões: “Vocês saíram com espadas e paus para me prender, como se eu fosse um bandido. Todos os dias, no Templo, eu me sentava para ensinar, e vocês não me prenderam.” Porém, tudo isso aconteceu para se cumprir o que os profetas escreveram. Então todos os discípulos, abandonando a Jesus, fugiram.”

(Mt 26,47-562 – BPa / BPe)

1: O episódio serve de admoestação para a Igreja em tempo de perseguição. Morrer por Cristo, não matar por Cristo, é seu heroísmo (cf. 5,10-11.39-41). Jesus concentra três argumentos: Primeiro, o provérbio que penetrou como refrão: nele ressoa a lei do talião ou a dialética da violência; que a provoca tornam-se vítima dela. Segundo, o auxílio celeste milagroso. Terceiro, a vontade do Pai. (BPe)

2: Cf. Mc 14,43-52; Lc 22,47-53; Jo 18,3-12.

 

 

“Os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado1. Quando viram Jesus, ajoelharam-se diante dele. Ainda assim, alguns duvidaram. Então Jesus se aproximou, e falou: “Toda a autoridade foi dada a mim no céu e sobre a terra. Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que ordenei a vocês. Eis que eu estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo.”

(Mt 28,16-20)

1: 28,16-20 Para concluir, Mateus compõe uma cena magistral. No espaço de cinco vv. condensa o substancial da sua cristologia e eclesiologia.

Vão à Galileia, como que voltando ao começo e abandonando Jerusalém, aonde foi só para morrer. Sobe a um monte, em ascensão simbólica, como quando lançou seu manifesto (5-7) ou se transfigurou (17). Os onze daquele momento representam toda a Igreja; por isso não falta quem duvide, como no lago (8,26; 14,30-41). Veem o ressuscitado e hão de ser suas testemunhas.

Jesus toma a palavra, afirmando sua plena autoridade recebida de Deus (aludindo a Dn 7,14; Mt 9,6). Em virtude desta, envia seus discípulos para a missão universal, não mais limitada aos judeus (10.6; 15.24). Não hão de ensinar para serem mestres de muitos discípulos (23,8), mas para "fazer discípulos" de Jesus. Como rito de consagração administrarão o batismo, com a invocação trinitária explícita (compare-se com a fórmula de At 2,38; 8,16; ICor 1,13; Gl 3,27). Como consequência, a vida de acordo com o ensinamento de Jesus.

Inaugura-se o tempo da Igreja, cujo fim não é iminente. É preciso viver e agir nesse tempo com a certeza de que Jesus, não obstante ir-se embora, fica com eles. Emanuel era Deus conosco na história do povo eleito. Agora é Jesus glorificado com sua Igreja para sempre. (BPe)

2: Nessas últimas instruções de Jesus, com a promessa que as acompanha está condensada a missão da Igreja apostólica. Cristo glorificado exerce tanto na terra como no céu (6,10; cf. Jo 17,2, Fl 2,10; Ap 12,10) o poder sem limite (Mt 7,29; 9,6; 21,23 etc) que recebeu de seu Pai (cf. Jo 3,35+). “Portanto” os seus discípulos exercerão esse poder em seu nome pelo batismo e pela formação dos cristãos. Sua missão é universal: depois de ter sido anunciada primeiro ao povo de Israel (10,5s+;15,24), como exigia o plano divino, a salvação doravante devia ser oferecida a todas as nações (8,11; 21,41; 24,14-30s; 25,32; 26,13; cf. At 1,8+; 13,5+; Rm 1,16+). Nessa obra de conversão universal, por mais demorada e laboriosa que seja, o Ressuscitado, estará vivo e ativo com os seus. (BJ)