terça-feira, 22 de maio de 2018

Socialismo: uma utopia cristã (Parte IV) – Luiz Francisco F. de Souza

Editora: Casa Amarela
ISBN: 978-85-8682-147-9
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 1152


“Max Beer, na obra História do socialismo e das lutas sociais (Editorial Lalvino Ltda., Rio de Janeiro, 1944, p. 458, 2° volume, trad. de Horácio Mello), traz um bom texto de Necker:
Jacques Necker, ministro das Finanças de Luís XVI (1732-1804), terminou sua obra sobre o comércio dos cereais com as seguintes palavras;
“Contemplando a sociedade, é impossível deixar de verificar que todas as leis, todas as instituições sociais têm por finalidade única a garantia do bem-estar dos ricos. Se abrirmos um código de leis, ficaremos horrorizados porque iremos encontrar, em cada página, a confirmação dessa verdade. Compulsando as leis, tem-se a impressão de que uma ínfima minoria, um punhado de homens, dividiram a terra e fizeram as leis para se defender contra a massa de indivíduos que nada possuem. (...) As leis, para esses homens, têm a mesma utilidade que as cercas que se levantam para proteger as florestas das incursões de animais ferozes.
De fato, “as leis” e “as instituições sociais” liberais (capitalistas) têm como finalidade primária defender os interesses dos ricos (do latifúndio e do capital, especialmente do capital monopolista, dos trustes e cartéis). No entanto, tais “leis” e "instituições" podem e devem ser alteradas, para abolir essas formas jurídicas arcaicas e servis aos ricos (a empresa capitalista e o latifúndio), substituindo-as por formas jurídicas cooperativas que realizem o bem comum.
A propriedade quiritária, absoluta, somente beneficia os ricos. Na verdade, nem mesmo a esses, pois mergulham os capitalistas num terrível vazio existencial (cf. Viktor Frankl, Louis Lavelle e outros) e, por isso, vivem embriagados, drogados, etc. Livrar os ricos dos bens supérfluos (e das formas jurídicas concentradoras de bens) é libertar os ricos do mal, proporcionando a estes a chance de se regenerarem.”


“O padre Sieyès nasceu em 1748 e estudou em Saint Sulpice. Até 1799, não teve paróquia. Depois, com a ajuda do Lubersac, bispo de Treguier, foi nomeado vigário-geral. Participou da Assembleia provincial de Orleans. De novembro de 1788 a janeiro de 1789, publicou Vista sobre os meios de execução que os representantes da França poderão dispor em 1789, Ensaio sobre os privilégios e O que é o terceiro Estado?. Escreveu textos como:
É, portanto, uma verdade eterna (...) que a ação pela qual o poderoso manténs sob seu jugo o mais fraco não poderá jamais transformar-se em direito; por outro lado, é sempre um direito aquilo que o mais fraco faz para escapar do jugo do poderoso, além de ser um dever no que toca a si próprio.”


“Sobre a relação dos socialistas com o clero e os erros do anticlericalismo, vejamos dois textos de Luis Carlos Prestes, publicados na revista Divulgação Marxista, n.° 1, de 1/7/1946 (Editorial Calvino Limitada, Rio de Janeiro, pp. 89-92), que explicitou a posição do PCB (expressa por Prestes), sobre a proibição — devido à tolice — do anticlericalismo:
Numa sabatina realizada entre os ferroviários, uma das perguntas dirigidas a Prestes foi sobre posição do Partido Comunista do Brasil em face da religião. Eis, em síntese, a resposta de Prestes:
“Há clero e há clero.
Existem realmente padres reacionários ligados aos exploradores do povo e aos fascistas. (...) Fazem parte do alto clero, que vive na pompa e na abastança, alheio aos padecimentos do povo e indiferente aos seus justos anseios e aspirações.
Mas existem também os padres que vivem ligados às massas mais desprotegidas, que participam da vida dos trabalhadores e conhecem de perto a sua luta, o seu esforço para vencer as condições adversas da sua vida. Esses não nos atacam, e são sacerdotes amigos do povo, como o foram o padre Miguelino, o padre Roma, frei Caneca e tantos outros vigários que, nos subúrbios e no interior, vivem com o povo, amparando-o e ajudando-o. (...)
As portas do Partido Comunista estão abertas para todos os que queiram vir lutar conosco ao lado do povo. Temos, entre nós, católicos, protestantes, espíritas, homens de todas as crenças, que são, antes de mais nada, democratas convictos e honestos. O Partido Comunista sempre contou em suas fileiras com grandes lutadores católicos, democratas honestos e verdadeiros antifascistas que, ao lado do nosso povo, vieram lutar pela democracia. Hoje, os católicos nas fileiras do Partido são em número muito maior ainda. (...)
Aqui, centenas e centenas de católicos integram as fileiras do Partido Comunista e, conosco, lutam na vanguarda do proletariado e pelo engrandecimento de nossa Pátria, pela liquidação total do fascismo e pelo fortalecimento da democracia.
Na Europa, os católicos lutaram com grande heroísmo contra o nazifascismo que escravizou suas Pátrias até a libertação trazida pelas armas das nações aliadas.
Na França e na Itália, por exemplo, lutam ao lado dos comunistas e demais democratas, que não aceitaram a dominação nazista ou fascista”. (...)
Numa sabatina realizada em Belo Horizonte, respondendo a uma pergunta sobre qual deve ser a conduta de comunistas que foram anticlericais antes de entrarem para o PCB, Prestes esclareceu:
“Nenhum comunista pode ser anticlerical, e muito menos quando ocupar um cargo de direção no Partido.
Se o companheiro que fez essa pergunta é um dirigente do Partido e já foi anticlerical, nesse caso deverá fazer uma autocrítica pública, escrevendo um artigo num jornal, por exemplo, explicando que não é mais anticlerical, porque isso é lutar contra o Partido.
O anticlerical é uma deformação pequeno-burguesa uma manifestação de caráter anarquista. E nós não somos anarquistas, somos marxistas. Os comunistas, e principalmente os marxistas não podem combater a religião, de acordo com a própria natureza da doutrina que abraçam.
Os fascistas e reacionários sustentam sua campanha principalmente sobre dois pontos a que dão uma falsa interpretação. (...)
Com efeito, a linguagem usada pelas religiões e pelos padres, quando dizem que o pobre deve ter pena dos ricos e deve rezar por eles porque eles irão para o inferno, e que “é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar nos reinos dos céus”, a nosso ver justifica o ponto de vista de Marx.
Com isso, entretanto, Marx não procura ofender nenhum crente, nenhuma religião, nem aconselha ninguém a lutar contra nenhuma crença.


         “No livro G. Babeuf, o tribuno do povo (editado pela Iniciativas Editoriais, Lisboa, 1977, p. 48), foi possível colher os seguintes textos de Babeuf, repletos de ideias religiosas:
         (…) Assentamos em que a perfeita igualdade decorre do direito primitivo.
que o pacto social, longe de atentar contra este direito natural, apenas deve dar a cada indivíduo a garantia de que tal direito jamais será violado, que a partir de então jamais deveria ter havido instituições que favorecessem a desigualdade, a cupidez, que permitissem que o necessário de uns pudesse ser invadido para formar o supérfluo de outros. (...)
Verificamos, todavia, que tinha acontecido o contrário; que convenções absurdas se tinham introduzido na sociedade e haviam protegido a desigualdade, permitido a espoliação da maioria pela minoria;
que houve épocas em que as derradeiras consequências dessas mortíferas regras sociais consistiram em que a universalidade das riquezas de todos se encontrava concentrada nas mãos de alguns;
em que a paz, natural quando todos são felizes, se encontrava então necessariamente ameaçada; em que a massa do povo, impossibilitada de sobreviver, desapossada de tudo, reencontrava na casta que tudo açambarcou apenas corações desapiedados; todos estes efeitos provocaram o aparecimento da época das grandes revoluções, dos períodos memoráveis, profetizados no Livro dos tempos e do destino, quando uma subversão geral de todo o sistema de propriedade se torna inevitável, quando a revolta dos pobres contra os ricos é de uma necessidade invencível.
(...) É mais do que tempo. É tempo de o povo, espezinhado e assassinado, manifestar, de uma maneira mais imponente, mais solene, mais geral, que jamais se cumpriu a sua vontade, para que, não somente os sinais, os adereços da miséria, mas a realidade, a própria miséria, seja eliminada. Que o povo proclame o seu Manifesto. Que nele defina a democracia como considera que a deve ter e tal como, segundo os puros princípios, deve existir. Que prove que a democracia consiste na obrigação de satisfazer, pelos que têm demasiado, tudo quanto falta aos que de modo algum possuem o suficiente! Que todo o deficit que se encontra na fortuna desses apenas provém do que aqueles lhe roubaram.
Roubo legal, se assim se quer, isto é, graças a leis de salteadores que, sob os regimes mais recentes como sob os mais antigos, permitiram todos os latrocínios; graças a leis iguais a todas as que existem presentemente; graças a leis segundo as quais sou forçado, para viver, a desfazer-me todos os dias de mais um pouco da minha casa, de levar a todos os ladrões que tais leis protegem até ao último farrapo que me cobre! Que o povo declare que exige a restituição de todos roubos, dessas vergonhosas confiscações dos ricos sobre os pobres. Tal restituição será tão legítima, sem dúvida, quanto a que é feita a emigrados. Através do restabelecimento da democracia, queremos, em primeiro lugar, que os nossos farrapos e os nossos velhos móveis nos sejam devolvidos e que esses que deles se apropriaram fiquem no futuro impossibilitados de recomeçar semelhantes atentados. Queremos, depois, isso a que temos direito e de acordo com o que se tem por justo.
(...) Explicaremos claramente em que consiste a felicidade comum, fim da sociedade.
Demonstraremos que o destino de qualquer homem não devia piorar com a passagem do estado natural ao estado social.
Definiremos a propriedade.
Provaremos que a terra não pertence a quem quer que seja, mas sim a todos.
Provaremos que tudo quanto um indivíduo se apropria além do que lhe é suficiente para o sustentar constitui um roubo social.
Provaremos que tudo quanto um membro do corpo social possui abaixo do que lhe basta para satisfazer as suas necessidades de todo o gênero e de todos os dias resulta de uma espoliação da sua propriedade natural individual realizada pelos espoliadores dos bens comuns.
(...) Que, na mesma ordem de consequência, tudo quanto um membro do corpo social possui acima do que lhe basta para satisfazer as suas necessidades, de todo o gênero e de todos os dias, resulta de um roubo realizado aos outros coassociados, que necessariamente priva um número maior ou menor da sua cota-parte nos bens comuns.
Que quaisquer raciocínios, por mais sutis que sejam, não podem prevalecer contra estas inalteráveis verdades.
Que foi assim que, no estado social, se destruiu, se arruinou, o equilíbrio do bem-estar, uma vez que nada se prova melhor do que a nossa grande máxima: não se consegue possuir demasiado sem fazer com que outros não possuam o suficiente.
Que é claro, pelo que precede, que tudo quanto possuem os que têm haveres para além da sua cota-parte individual nos bens da sociedade constitui roubo e usurpação.
Que, por consequência, é justo reavê-lo.
Que, mesmo quem provasse que, por efeito unicamente das suas forças naturais, seria capaz de fazer tanto quanto quatro e que, por conseguinte, exigisse a retribuição de quatro, nem por isso seria menos um conspirador contra a sociedade porque, por esse único meio, lhe destruiria o equilíbrio e, assim, a preciosa igualdade.
            (...) Que não existe verdade mais importante do que a que (...) um filósofo proclamou nos seguintes termos: discorrei tanto quanto vos apeteça acerca da melhor forma de governo, nada conseguireis enquanto não destruirdes os germes da cupidez e da ambição.
Que é preciso, portanto, que as instituições sociais consigam suprimir em todo o indivíduo a esperança de se tornar alguma vez mais rico, mais poderoso, mais culto do que qualquer dos seus iguais.
Que, para precisar melhor isto, importa conseguir acorrentar a sorte, tornar a de cada parceiro social independente dos acasos e das circunstâncias felizes e infelizes, assegurar a cada qual e à sua posteridade, por mais numerosa que seja, a suficiência, mas nada mais do que a suficiência, e fechar para quem quer que seja todas as vias possíveis para que jamais obtenha além da cota-parte individual nos produtos da natureza e do trabalho.
(...) Dominadores culpados! No momento em que julgais poder, sem perigo, descarregar os vossos braços de ferro sobre este povo virtuoso, ele far-vos-á sentir a sua superioridade, libertar-se-á de todas as vossas usurpações e das vossas algemas, readquirirá os seus direitos primitivos e sagrados. Desde há demasiado tempo que beneficiais da sua magnanimidade, há demasiado tempo que insultais a sua agonia.
            (...) Repitamo-lo ainda: todos os males atingiram o auge, já não podem piorar, apenas podem interromper-se através de uma subversão total. Que então tudo se confunda (...), que todos os elementos se misturem, se embaralhem, se entrechoquem! (...) Que tudo mergulhe no caos e que do caos saia um mundo novo e regenerado! (O Tribuno do Povo, n° 35, 30 de novembro de 1795). (...)
            Quanto charlatanismo, quanta astúcia, quantas grosseiras mentiras, quantos desajeitados sofismas, quantas calúnias vulgares, quantas frases banais nessa proclamação do Diretório acerca dos escritos, discursos e reuniões pretensamente sediciosos!
Pretendeu-se com isso fazer crer que pedíamos a pilhagem da mais pequena loja e da mais modesta habitação, como se não pertencesse apenas ao governo ter sabido realizar habilmente tal pilhagem.
Como se, pelo seu regime de fome, não tivesse encontrado o segredo de fazer transportar para a casa do agiota e de todos os tratantes endinheirados, pelos próprios infelizes, tudo quanto possuíam nas suas modestas habitações e nas suas pequenas lojas.
Como se ainda lá se encontrasse alguma coisa para pilhar. Como se, diferentemente do que procura o governo, não tivéssemos sempre claramente anunciado que queríamos restabelecer, fortificar as pequenas lojas e as modestas habitações, fazendo lá entrar pelo menos o equivalente do que a ladroeira legal delas fez sair. Como se todas as fortunas comuns não devessem ficar absolutamente garantidas pelas nossas francas declarações. Como se não tivéssemos dito sempre que pretendíamos demolir apenas as fortunas colossais e melhorar todas as outras.”


“Babeuf, com Buonarotti, considerava como sinônimos os termos “bem comum” e “comunidade de bens”, como está claro no “Manifesto dos iguais” e também no “Manifesto dos plebeus”. Como foi demonstrado neste livro, o bem comum era o mesmo conceito usado pelos Santos Padres, o princípio da destinação universal dos bens, ou seja, Deus fez tudo para todos. Os bens devem ser usados de acordo com as necessidades das pessoas (conforme o direito a uma existência digna, como ensinou Paulo VI, na “Pacem in Terris”), seguindo o princípio bíblico (duas vezes expresso no livro “Atos dos Apóstolos”, para descrever as comunidades modelares do cristianismo primitivo): “a cada um de acordo com suas necessidades” (que Marx e Engels, e também Lênin e Stalin, consideravam como o princípio fundamental do comunismo).
Praticamente nessa linha, São Tomás de Aquino, no livro Summa teológica, 11-11, Questão 47, X, 2, escreveu: “quem busca o bem comum da multidão busca também como consequência o próprio bem por duas razões: 1°.) porque o bem próprio não pode existir sem o bem comum, seja da família, seja da cidade ou do reino, por isso Valério Máximo disse dos antigos romanos que “preferiam ser pobres em um império rico, que ricos em um império pobre”; 2°.) porque, sendo o homem parte da casa ou da cidade, deve considerar como bem próprio o que considera prudente para o bem da multidão”, do povo, da sociedade, da comunidade.
A sociedade — ao estruturar o Estado e o ordenamento jurídico positivo, para se organizar juridicamente e obter o constrangimento (e os impulsos positivos) necessário para conter vícios e animar virtudes — deve proporcionar a cada pessoa ou grupo as condições (bens) que necessitam para realizar o bem pessoal de cada um. A justiça social exige a regulamentação estatal (planejamento participativo) dos bens para a promoção do bem comum, ponto totalmente esquecido pelo liberalismo econômico, que não tem nem compaixão e nem senso de justiça.
Logo, quando os primeiros cristãos (o cristianismo primitivo, considerado revolucionário e comunista por Engels) se reuniam nas primeiras igrejas (tendo tudo em comum, distribuindo os bens de acordo com as necessidades de cada um e com ampla cooperação social), não significa que estatizavam (dando atribuições exclusivas a uma pessoa jurídica abstrata e alienada do povo, verniz para burocratas) todos os bens, e sim que distribuíam (davam o controle, atribuições, poder efetivo, ao povo) largamente, reduzindo a propriedade a uma mera administração (gestão, uso) com muitos deveres sociais (sujeição ao bem comum, à soberania da sociedade). Usavam os bens para satisfazer as necessidades básicas, que distribuíam largamente, atentos aos deveres sociais (no fundo, formas de planificação participativas, consensuais). Até mesmo aceitavam pagar tributos e respeitavam as propriedades públicas, somente exigindo que o Estado estivesse submetido ao direito (no fundo, subordinação à soberania do povo), que chamavam de “vontade Deus”, pois Deus fala pelos movimentos naturais das consciências, da razão.
Não era permitido o supérfluo individual (o luxo) e nem a miséria. O ideal buscado era, assim, o de igualdade social, a mediania, como recomenda o Antigo Testamento (ver “Provérbios”, capítulo 32, os textos de Moisés, profetas e outros) e o Novo Testamento.”


“(William) Godwin teve o avô, o pai e um tio ligados à igreja, como pregadores. O próprio Godwin foi pregador, o que basta para demonstrar as fontes cristãs de seu pensamento. No livro Investigações sobre a justiça política e sua influência na virtude e na felicidade geral, tradução de J. Prince, publicada em Buenos Aires pela Americalee, ele é claríssimo quanto ao fato de amparar suas ideias no Evangelho (o mesmo hábito de Fourier e Saint-Simon):
A doutrina da injustiça da propriedade monopolizada se acha nos fundamentos de toda moral religiosa. Esta incita os homens a reparar tal injustiça, mediante o exercício da virtude individual. Os mais zelosos pregadores da religião se hão visto obrigados a pronunciar rigorosas verdades a esse respeito.
Ensinaram aos ricos que deviam considerar-se simples depositários dos bens de que dispunham, sentindo-se responsáveis até pela menor porção da riqueza gasta, ao modo de administradores e não de amos absolutos. Mas o defeito de tal doutrina consiste precisamente em que somente incita a diminuir o mal, em vez de extirpá-lo de raiz.
Encerra essa doutrina, no entanto, uma verdade essencial. Não há ação humana e, sobretudo, não há ação relativa a propriedade que não esteja sujeita às noções do bem e do mal, a cujo respeito a moral e a razão não possam prescrever normas específicas de conduta.
O que reconhece que os demais homens são de igual natureza que ele mesmo e seja capaz de imaginar o juízo que sua conduta possa merecer aos olhos de um observador imparcial, terá a sensação clara e precisa de que o dinheiro que inverte na aquisição de objetos fúteis ou desnecessários é um dinheiro injustamente desperdiçado, posto que poderia empregar-se na obtenção de coisas substanciais e indispensáveis para a existência de outros homens. Seu espírito equânime lhe dirá que cada chelin deve ser investido de acordo com as exigências da justiça. Mas sofrerá por sua ignorância sobre o modo de cumprir os mandamentos da justiça e de servir à utilidade geral.
Há alguém que ponha em dúvida a verdade dessas observações? Não se admitirá acaso que quando emprego qualquer soma de dinheiro, pequena ou grande, na compra de um objeto supérfluo, incorro em uma injustiça? É tempo já que tudo isso seja plenamente compreendido. É tempo já que ou desprezemos por completo os termos de virtude e justiça ou bem reconheçamos de uma vez que não nos autorizam a acumular luxo enquanto nossos semelhantes carecem do indispensável para sua vida e sua felicidade. (...)
Se a religião nos ensina que todos os homens devem receber o necessário para a satisfação de suas necessidades, devemos concluir por nossa conta que uma distribuição gratuita realizada pelos ricos constitui um modo muito indireto e sumamente ineficaz de conseguir aquele objetivo. A experiência de todas as idades nos demonstra que semelhante método produz resultados muito precários.


“O livro Os grandes escritos anarquistas (Editores L&PM, Porto Alegre, 1998, pp. 118-122) traz um texto de William Godwin sobre a propriedade, colhido de outro livro Inquérito sobre a justiça política, 1793, — que merece ser transcrito.
A propriedade é a base que completa o sistema de justiça social. Segundo o erro ou acerto das ideias que tivermos sobre o tema, seremos capazes de entender as consequências de uma forma simples de sociedade sem governo, eliminando os preconceitos que nos mantêm presos à complexidade. Não há nada que possa distorcer tanto o nosso julgamento e as nossas opiniões do que as ideias erradas que tivermos sobre os benefícios da fortuna. Finalmente, o período que deverá pôr um fim no sistema de coerção e castigo está intimamente ligado às circunstâncias que colocarão a distribuição da propriedade em bases mais equitativas.
Há três tipos de propriedade.
O primeiro e mais simples deles é aquele que garante o meu direito permanente sobre determinadas coisas, as quais, ao me ser atribuído o seu uso, poderão proporcionar-me uma soma muito maior de benefícios e prazeres do que ocorrerá caso pertencessem a qualquer outro. Nesse caso não importa saber como cheguei à posse dessas coisas, sendo a única condição necessária para tal a grande utilidade que possam ter para mim e o fato de que meu direito a elas é aceito unanimemente pelos membros da comunidade em que vivo. E será injusto todo aquele que, com respeito a tais coisas, se conduzir de forma a infringir, em qualquer grau, a minha capacidade de desfrutá-las no momento em que seu uso for realmente importante para mim.
Já vimos que um dos direitos essenciais do homem é aquele que me garante a compreensão dos meus semelhantes; não apenas o meu direito a que evitem fazer qualquer coisa que, como consequência direta, possa vir a afetar a minha vida ou a posse dos meus poderes, mas que evitem interferir na minha compreensão dos fatos, concedendo-me uma determinada esfera de ação para que eu possa exercitar a minha própria capacidade de julgamento. É preciso que seja assim, em primeiro lugar porque, assim como eu posso errar, eles também poderão fazê-lo; em segundo, porque o exercício da compreensão é essencial ao desenvolvimento do ser humano e, finalmente, porque, mesmo que a interferência de outrem em assuntos que são de real importância para mim exista apenas na minha imaginação, a dor e o desconforto que eu vier a sentir diante dessa interrupção serão tão reais como se ela tivesse realmente existido. Segue-se ao acima exposto que, em circunstâncias normais, nenhum homem poderá fazer uso dos meus aposentos, móveis, roupas e alimentos, seja por empréstimo ou por troca, sem que meu primeiro tenha obtido o meu consentimento.
O segundo grau de propriedade é o império que todo o homem deve ter sobre o produto do seu próprio trabalho, mesmo daquela parte dele cujo uso não lhe for atribuído. Ele não tem direito de escolha na disposição geral de qualquer coisa que lhe venha a cair nas mãos. Cada centavo que lhe pertença, e até mesmo cada produto do seu esforço por menor que seja, já receberam um destino determinado pelas medidas da justiça. Ele é apenas o administrador, mas, ainda assim, um administrador. Todas as coisas devem ser confiadas a sua decisão, controlada apenas pelo poder de censura e pela opinião favorável ou contrária do grupo em que ele vive. Quando é impedido de agir segundo os ditames da sua inteligência, todo homem se transforma, de indivíduo capaz e dotado de infinitas qualidades, na pior e mais desprezível coisa que a imaginação seria capaz de criar.
Logo se poderá perceber que este segundo tipo de propriedade é, a rigor, mais importante do que o primeiro. Ele é, sob um determinado ponto de vista, uma usurpação, pois confere a mim a preservação daquilo que, por direito, pertence a outro.
O terceiro tipo de propriedade é aquele que recebe as maiores atenções dos Estados civilizados da Europa. É o sistema, estabelecido seja de que modo for, pelo qual um determinado homem passa a ter o direito de dispor sobre o produto do trabalho de outro homem. Não há quase nenhuma forma de riqueza, consumo ou luxo em qualquer país civilizado que não seja, de alguma forma, consequência do trabalho manual e do esforço conjunto dos homens que nele vivem. Os recursos naturais de um país são quase sempre poucos e em quase nada contribuem para o aumento da riqueza, do consumo e do luxo.
Basta que cada homem calcule, a cada cálice de vinho que bebe ou diante de cada objeto que usa como adorno, quantos indivíduos foram condenados à escravidão, ao suor, a uma labuta incessante, a uma vida de dificuldades permanentes, má alimentação, ignorância e à mais brutal insensibilidade para que ele pudesse dispor desses luxos. Uma das grandes imposturas que os homens costumam lançar sobre si mesmos é falar nos bens que lhes foram legados por seus antepassados, pois na verdade esses bens são resultado do trabalho diário de seres que vivem no presente. Seus antepassados deixaram-lhes apenas um papel embolorado que eles apresentam como um título que lhes concede o direito de extorquir dos seus semelhantes tudo aquilo que estes produziram com seu próprio esforço. Fica portanto claro que o terceiro grau de propriedade contradiz frontalmente o segundo.
Pois o fato de que um determinado homem possa desfrutar dos confortos mais rudimentares enquanto esses mesmos confortos permanecem inacessíveis à maioria dos membros da comunidade é, em termos absolutos, um erro. Todos os refinamentos, todos os luxos supérfluos, todas as inovações que exijam o emprego de um grande número de trabalhadores são diretamente contrários à propagação da felicidade. Cada novo imposto criado, cada nova forma encontrada para aumentar os gastos do erário público — a menos que sejam compensados (o que raramente acontece) por uma diminuição proporcional da riqueza das classes privilegiadas — é um pouco mais que se acrescenta ao capital da ignorância, servidão e sofrimento (...)
Uma das fontes inesgotáveis do crime consiste no fato de que um homem possa ter em abundância tudo aquilo de que um outro carece. Antes que possamos impedir que a mente seja poderosamente influenciada quando colocada diante dessa situação, seria preciso mudar a sua natureza. Seria necessário que o homem esquecesse os sentidos, os prazeres da gula, a vaidade, antes que pudesse assistir sem revolta ao monopólio desses prazeres. Seria preciso que deixasse de ter o sentido da justiça antes que pudesse aceitar sem reservas o mundo em que vive, misto de miséria e supérfluo. E, se é certo que a melhor forma de curar essa desigualdade seria através da razão e não da violência, a tendência instintiva dos governantes é convencer os homens de que a razão é impotente. A injustiça, contra a qual tanto reclamam, é sustentada pela força e eles se deixam induzir por ela com demasiada facilidade para que sequer pensem em lançar mão dela para corrigir as injustiças do mundo em que vivem. Limitam-se apenas a tentar corrigir parcialmente essas injustiças que a educação lhes diz serem necessárias, mas que a razão, mais poderosa, afirma serem tirânicas.
A força tem origem no monopólio. Isso poderia ter acontecido pela primeira vez acidentalmente entre os selvagens cujos apetites excedessem as provisões de que dispunham, ou cujas paixões tivessem sido demasiado inflamadas pelo objeto de seus desejos. Mas logo teria desaparecido gradualmente à medida que a razão e a civilização avancessem. Porém a propriedade acumulada fixou o poder supremo e, a partir de então, tudo se resume numa competição, na luta aberta entre a força e a astúcia de outro. Sendo assim, as lutas violentas e prematuras que possam surgir entre os necessitados serão sempre um erro, pois, na maior parte das vezes, acabarão provocando a derrota das causas que mais de perto os interessam, contribuindo para adiar o triunfo da justiça. Mas o verdadeiro crime estará sempre na predisposição que todo o homem tem para o egoísmo e a parcialidade, para pensar apenas em si mesmo, desprezando as necessidades do outro. E é de homens iguais a esse que são feitas as classes privilegedas.
A opressão, o servilismo e a fraude são os frutos imediatos da atual forma de administração da propriedade, tão hostis ao progresso moral quanto ao desenvolvimento intelectual do ser humano. Outros males tais como a inveja, a malícia e a vingança são seus companheiros inseparáveis.
Numa sociedade em que todos vivessem em meio à abundância, compartilhando igualmente as riquezas que a natureza oferece, esses sentimentos desapareceriam inevitavelmente. Se nenhum homem fosse obrigado a guardar o pouco que lhe pertence, ou tivesse que prover, com sofrimento e angústia, todas as necessidades incessantes, cada um deixaria de pensar apenas em si para pensar no bem comum. Nenhum homem seria o inimigo do seu vizinho, pois não teriam razões de disputa e, em consequência, a filantropia voltaria a ocupar o lugar supremo que lhe foi concedido pela razão. Liberta da angústia permanente de prover o sustento físico, a mente estaria livre para exercer as funções para as quais foi criada. Cada homem poderia responder às indagações de todos”.


“Benoit Malon, na obra O socialismo integral, historia das theorias e tendências geraes (impresso em Lisboa — TYE, pelo Instituto Geral das Artes Gráficas, em 1899 traduzido por Heliodoro Salgado), trouxe boas informações sobre Buret:
Buret especialmente elevou-se até ao mais generoso socialismo:
Todos o repetem, todos têm disso o pressentimento, nós assistimos a um mundo novo, isto não pode durar mais, o deixar-correr compra a riqueza à custa da miséria, não sabe aumentar a produção senão à custa daqueles que a produzem; não tem melhor meio de aumentar o capital do que reduzir de cada vez mais a parte que compete ao trabalho (...)
Enfim, o estado miserável das populações industriais é incompatível não só com as esperanças da civilização mas ainda com a sua existência.
Chegou um momento na história em que a escravidão se tornou um crime, justamente imputável à classe que dela tirava proveito (...) Da mesma sorte o fato da miséria nos há de ser severamente imputado, desde o momento em que, sendo conhecidas as verdadeiras causas, nós não trabalharmos em combatê-las”.
Depois, os processos capitalistas não têm feito senão cavar o inferno do salariato e F. Engels viu-se autorizado a dizer do capitalismo: “É a concorrência vital darwiniana transplantada da natureza para a sociedade com uma violência potenciada. A selvageria animal apresenta-se como último termo do desenvolvimento humano (em sistema capitalista). O antagonismo entre produção social e apropriação individual capitalista tomou a forma de antagonismo na organização da produção em cada fábrica particular e de anarquia da produção na sociedade inteira.”


“Aloísio Teixeira, no livro Utópicos, heréticos e malditos (Editora Rio de Janeiro, 2002, pp. 196-228) traz alguns bons textos de Louis Blanc:
Organização do Trabalho (1839)
Mas será que o que é verdadeiro no plano das ideias filosóficas deixará de sê-lo no plano das ideias econômicas? Ah! Graças a Deus, não há para as sociedades nem progresso parcial nem queda parcial. Toda a sociedade se eleva ou toda a sociedade regride. São as leis da justiça melhor compreendidas? Todas as condições sociais saem ganhando. Recaem no obscurantismo as nações onde há justiça? Todas as condições sociais saem perdendo. Uma nação na qual uma classe é oprimida assemelha-se a um homem que tem uma ferida na perna: a perna doente impede a perna sadia de fazer qualquer exercício. Por isso, por mais paradoxal que essa proposição possa parecer, opressores e oprimidos ganharão igualmente se a opressão for eliminada; e perdem igualmente se ela for mantida. Querem uma prova gritante? A burguesia estabeleceu sua dominação com base na concorrência ilimitada, que é um princípio de tirania. Muito bem! É pela concorrência ilimitada que vemos hoje a burguesia perecer. Por exemplo: se tenho dois milhões e meu rival apenas um, eu o arruinarei, com toda a certeza, no campo aberto da indústria e com o exército dos preços baixos. Homem débil e insensato! Não compreendeis que amanhã, armando-se contra vós com vossas próprias armas, algum impiedoso Rothschild vos arruinará? Tereis então cara para vos lastimar: Nesse abominável sistema de lutas cotidianas, a indústria média devora a pequena indústria. Vitória de Pirro! Porque ela será devorada por sua vez pela grande indústria, a qual, ela mesma, obrigada a perseguir até a extremidade do globo consumidores desconhecidos, participará em breve apenas de um jogo de azar que, como todos os jogos de azar, acabará para uns em ladroeira, para outros em suicídio. A tirania não é somente odiosa, ela é estúpida. Não ha inteligência onde não há entranhas (misericórdia, compaixão, amor ao próximo). (...)
         A humanidade tem estado muito afastada de sua finalidade para que nos seja dado atingi-la em um dia. A civilização corruptora da qual sofremos ainda o jugo confundiu todos os espíritos e envenenou as fontes da inteligência humana. A iniquidade tornou-se justiça, mentira tornou-se verdade, e os homens vêm-se entredevorando em meio às trevas.
Muitas ideias falsas devem ser destruídas; elas desaparecerão, não devemos duvidar. Chegará, assim, o dia, por exemplo, em que será reconhecido que, quem recebeu de Deus mais força ou mais inteligência, deve mais a seus semelhantes. Será então um gênio, constatando, o que é digno dele, seu legítimo poder não pela importância do tributo que imporá à sociedade, mas pela grandeza dos serviços que lhe prestará. Porque não é para a desigualdade de direitos que a desigualdade de talentos deve conduzir, e sim para a desigualdade de deveres (p. 228).


         “Dizia Marx em 1844:
“Weitling, conhecedor de Rousseau, referia-se ao estado natural de felicidade do passado: “O homem, fruto do amor de Deus e da natureza, no primeiro período da criação sentiu felicidade e gozou no paraíso desta bela terra.”
Mas o egoísmo e a cobiça de uns, que queriam ter mais do que os outros, fizeram mudar o estado primitivo e começaram a aparecer os conceitos de meu, de propriedade, que por sua vez, produziram os de direito e de troca (isto é, de comércio). A propriedade, inconcebível nos primórdios da existência do homem, afirmou-se e a terra, que era livre e estava à disposição de todos, foi “murada”, tornou-se gozo exclusivo de um indivíduo ou de alguns poucos, e mais, aquilo que ao princípio fora um simples estado de fato foi depois “santificado” por leis que puniam severamente aqueles que contra isso se revoltavam. A propriedade teve como consequência a herança, isto é, prefiguração de uma relação válida não apenas no presente, mas também no futuro; mais ainda, pensava Weitling, reportando-se às teorizações do livre-cambismo e sobretudo às do liberalismo, extensivo a toda a coletividade humana e para toda a eternidade. As consequências da propriedade foram a luta por ela, a guerra e, derivada desta, a escravatura, isto é, não a luta pela sobrevivência mas sim por um poder econômico a exercer sobre as coisas e sobre os homens.
O discurso de Weitling nesta altura ampliava-se muito e ultrapassava as concepções iniciais de Rousseau, até por influência das críticas mais violentas à sociedade fundada sobre a “propriedade privada”, especialmente as de Fourier. Passou efetivamente do exame da escravatura na antiguidade ao da escravatura presente, concluindo que “outrora se tornava um homem escravo pela força; hoje este vende-se espontaneamente, juntamente com a sua saúde, a sua juventude, o seu sangue”. Essa alienação era possível porque aqueles que se haviam apoderado da propriedade tinham um verdadeiro direito de vida e de morte sobre todos, isto é, podiam aproveitar-se da sua posição, eram “privilegiados” que miravam obter cada vez mais à custa da restante parte do gênero humano.
Os detentores da propriedade eram os ricos, que eram, ao mesmo tempo, poderosos e injustos e tinham a possibilidade de gozar mais do que o necessário porque, na sua avidez e no seu egoísmo, não empregavam apenas as suas forças, mas também as dos outros que trabalhavam para eles, transformando-se assim em exploradores. A diferenciação do trabalho fora a primeira ação impor à discriminação; na sociedade atual, os ricos possuíam o supérfluo, enquanto aos operários faltavam os bens necessários para a sua sobrevivência.
Portanto, Weitling deduzia: “A causa de tudo isso é a desigual divisão do trabalho e dos bens produzidos pelo trabalho. Com o trabalho geraram-se a pobreza e a riqueza. [...] Ser rico e poderoso significa ser injusto. Contai os ricos e os poderosos e achareis um número igual de pessoas injustas. O reino do Céu é apenas destinado aos justos”.


“Gian Mário Bravo, no livro História do socialismo (vol. I, coleção Saber, Publicação Europa-América), expõe as fontes religiosas do “socialismo alemão” (chamado de “verdadeiro socialismo). (...)
“O máximo representante do “verdadeiro” socialismo, o expoente mais coerente do grupo (a liga dos justos), foi Moses Hess (1812-1875), judeu, o qual, no decurso da sua vida, passou por experiências intelectuais e políticas de gênero vário e, se bem que o seu pensamento possa ser sempre ligado ao socialismo, na verdade tratou-se de um socialismo de formas diferentes conforme as épocas. (...)
Hess levanta o problema da passagem do humanismo teórico de Feuerbach a um humanismo prático (...), recusando, juntamente com a “liberdade de iniciativa”, também a “mútua exploração, a sede de dinheiro”, que não era outra coisa senão “a sede de sangue do animal social rapace”. O homem, o indivíduo, o trabalhador, era separado na sociedade burguesa do seu próprio produto e “alienado” na civilização capitalista, regida apenas pela economia, onde a lei única e dominante era a da opressão, da exploração, do lucro, do egoísmo. (...)
Como fundamento desta relação falseada encontrava-se justamente o dinheiro: por um lado, ele apresentava a avaliação objetiva desse, os males que dele derivavam (“a existência da escravidão humana, porque ele não é mais do que o sinal da escravidão humana, representando em números o valor humano”), e, por outro lado, a variação dominada pela paixão e no fundo, retórica (“o dinheiro é sangue que escorre, suado pelos pobres, que levam ao mercado a sua própria riqueza inalienável, a sua pessoalíssima capacidade, a sua própria atividade vital”).”


“Na revista Encontro com a Civilização Brasileira, n° 17, de novembro de 1979 (da Editora Civilização Brasileira), há um bom artigo de Albert Einstein, intitulado “Por que o socialismo?” (Einstein, A., “Ideas and Opinions”. New York, Bonanza Books, 1954). Vejamos os trechos principais, que coincidem, em muitos pontos, com as ideias de Gandhi e dos teólogos da libertação:
            Indivíduo e sociedade
O homem é, ao mesmo tempo, um ser solitário e um ser social.
Como ser solitário, procura proteger sua própria existência e a dos que estão mais próximos dele, para satisfazer seus desejos pessoais e para desenvolver suas habilidades inatas.
Como ser social, procura ganhar o reconhecimento e afeto dos outros seres humanos, participar dos seus prazeres, confortá-los nos seus sofrimentos e melhorar suas condições de vida.
Apenas a existência destes diversos e, frequentemente, conflitivos esforços explica o caráter especial do homem e numa combinação específica determina a extensão na qual pode conseguir um equilíbrio interno e contribuir para o bem-estar da sociedade. (...)
O conceito abstrato de “sociedade” significa para o ser humano individual a soma total de suas relações diretas e indiretas com seus contemporâneos e com todas as pessoas de gerações anteriores.
O indivíduo pode pensar, sentir, lutar e trabalhar por si mesmo, mas depende tanto da sociedade — na sua existência física, intelectual e emocional —, que é impossível pensar nele ou compreendê-lo fora da estrutura da sociedade. É a sua “sociedade” que fornece casa, comida, roupas, ferramentas de trabalho, linguagem, as formas de pensamento e a maior parte do conteúdo do mesmo; sua vida deve-se ao trabalho e aos talentos de muitos milhões de seres passados e presentes, escondidos atrás da pequena palavra “sociedade”. (...)

A fonte do mal
Cheguei ao ponto onde quero indicar brevemente qual é, para mim, a essência da crise do nosso tempo: a relação dos indivíduos com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência da sociedade. Entretanto, ele não vivencia essa dependência como valor positivo, como um laço orgânico, mas, pelo contrário, como uma ameaça aos seus direitos naturais ou mesmo à sua existência econômica. Além disso, sua posição na sociedade é tal que a direções egoístas da sua constituição estão se acentuando constantemente, ao passo que as suas direções sociais, que por sua natureza são mais débeis, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, independentemente da sua posição na sociedade estão sofrendo desse processo de deterioração. Prisioneiros sem sabê-lo de seu próprio egoísmo, sentem-se inseguros, sós e desprovidos das ingênuas, simples e tolas alegrias da vida. O homem pode encontrar significado na vida, curta e perigosa como ela é, apenas dedicando-se à sociedade. (...)
            A anarquia econômica da sociedade capitalista, tal como existe hoje, é, na minha opinião, fonte real do mal. (...)

Propriedade de trabalho
Para simplificar as coisas, na discussão que se segue, chamarei de “trabalhadores” todos que não participam da propriedade dos meios de produção – embora isso não corresponda totalmente ao uso costumeiro do termo. O proprietário dos meios de produção reúne condições para comprar a força de trabalho do trabalhador. Mediante o emprego dos meios de produção, o trabalhador produz novos bens, que se convertem em propriedade do capitalista. O ponto essencial desse processo é a relação entre o que o trabalhador produz e o que recebe como pagamento, ambos medidos em termos de valor real. Enquanto a contratação de mão-de-obra é “livre”, o que o trabalhador recebe não é determinado pelo valor real dos bens que produz, mas sim pelo valor mínimo que o capitalista pode pagar para a força de trabalho – o que tem relação direta com o número de trabalhadores que compete pelos empregos. É importante compreender que, mesmo na teoria, o pagamento ao trabalhador não é determinado pelo valor de seu produto.
O capital privado tende a concentrar-se em poucas mãos, em parte pela concorrência entre capitalistas e em parte porque o crescente desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão de trabalho fomentam a formação de grandes unidades de produção às expensas das pequenas. O resultado desses desenvolvimentos é uma oligarquia de capital privado, cujo enorme poder não pode ser contido nem sequer mediante uma sociedade política organizada democraticamente. Isso é verdade na medida em que os membros dos organismos legislativos são escolhidos por partidos políticos, amplamente financiados ou influenciados de uma ou de outra forma pelos capitalistas privados, que devido a um objeto prático, separam o eleitorado de seus representantes no parlamento. A consequência disso é que os representantes do povo realmente não protegem suficientemente os interesses das camadas desamparadas da população. Além disso, sob as condições existentes, os capitalistas privados controlam inevitavelmente, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). Dessa forma, é extremamente difícil, e na verdade na maioria dos casos quase impossível, para o cidadão individual chegar a conclusões objetivas e fazer uso inteligente de seus direitos políticos.

Os princípios do capitalismo
Assim, a situação predominante em uma economia baseada na propriedade privada do capitalismo se caracteriza por dois princípios fundamentais: primeiro, os meios de produção (capital) são propriedade privada e os seus proprietários dispõem deles de acordo com a sua conveniência; segundo, a contratação de mão-de-obra é livre. Certamente não existe uma sociedade capitalista pura neste sentido. Particularmente, podemos observar que os trabalhadores, através de amplas e amargas (encarniçadas) lutas políticas, conseguiram obter melhores formas de “livre contratação de mão-de-obra” para certas categorias de trabalhadores. No entanto, considerada em seu conjunto, a economia atual não difere muito do capitalismo “puro”.
            A produção é orientada para o lucro, não para o uso. Nada garante que todos aqueles indivíduos capazes e desejosos de trabalhar terão sempre condições de encontrar emprego; há quase permanentemente um “exército de desempregados”. O trabalhador está constantemente temeroso de perder o seu trabalho. Visto que os desempregados e os trabalhadores mal-pagos não proporcionam um amplo mercado consumidor, a produção de bens de consumo fica restrita, o que acarreta graves consequências. O progresso tecnológico frequentemente se traduz antes em um maior desemprego do que em uma redução de trabalho para todos. A motivação do lucro, juntamente com a concorrência entre capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e por uma utilização do capital que leva a depressões cada vez maiores. A concorrência ilimitada leva a uma grande desvalorização da mão-de-obra, prejudicando a consciência social dos indivíduos que eu mencionava antes.
Esse prejuízo para os indivíduos parece ser o pior mal do capitalismo. Nosso sistema educacional global sofre desse mal. Uma exagerada atitude competitiva é inculcada no estudante, o qual é estimulado a supervalorizar a acumulação de bens de materiais como preparação para sua carreira futura.

Planificação não é socialismo
Estou convencido de que há apenas uma forma de eliminar esses grandes males, que é o estabelecimento de uma economia socialista, aliada a um sistema educacional orientado para metas sociais. Nessa economia, os meios de produção são propriedade da sociedade e utilizados de forma planejada. Uma economia planejada, que ajusta sua produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho de tal forma que todos poderiam trabalhar, e garantiria uma vida para cada homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, além de estimular suas próprias habilidades inatas, procuraria desenvolver nele um sentido de responsabilidade para com o próximo, em vez de incentivar a glorificação do poder e do êxito como acontece em nossa atual sociedade.
Sem dúvida, é necessário lembrar que uma economia planejada não é sinônimo de socialismo. Uma economia planejada pode ser seguida da total escravização do indivíduo. A realização do socialismo requer a solução de alguns problemas sócio-políticos extremamente difíceis: como é possível, diante da centralização de grande alcance do poder político e econômico, evitar que a burocracia se torne toda poderosa e arrogante? Como é possível proteger os direitos dos indivíduos, para assegurar, dessa forma, um contrapeso democrático ao poder da burocracia?”
(Traduzido por Marcia Lamarão do original em espanhol da revista Nexos, n. 17, Cidade do México, maio de 1979.)

Socialismo: uma utopia cristã (Parte III) – Luiz Francisco F. de Souza

Editora: Casa Amarela
ISBN: 978-85-8682-147-9
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 1152


“Em vez de buscarem pontos de discordância, os cristãos e os marxistas deveriam buscar consensos, pontos consensuais e de síntese que permitiriam um combate mais acirrado contra o capitalismo, o latifúndio e o imperialismo.”


         “Até agora, os Estados políticos mais não têm sido do que a continuação do regime de conquista que presidiu ao estabelecimento da autoridade e à opressão das massas. O que sempre tem existido é a autoridade encarregada de manter as populações no respeito da lei estabelecida em benefícios de alguns. Essa autoridade pode ser mais ou menos rígida, mais ou menos arbitrárias, mas isso não altera a base das relações econômicas e os trabalhadores continuam sempre na dependência dos detentores do capital.
Para ser definitiva, a revolução que se avizinha não deve limitar-se a unia simples mudança do rótulo governamental e a algumas reformas de detalhe. A sociedade não pode continuar a deixar a riqueza pública à disposição dos privilégios arbitrários do nascimento ou do êxito. Produto do trabalho coletivo, a riqueza pública só pode ser empregada em proveito da coletividade. Mas essa riqueza social só pode assegurar o bem-estar da humanidade se estiver nas mãos do trabalho.” (Louis-Eugène Varlin)


         “A subjetividade (a intersubjetividade, pela natureza social, comunitária e política do ser humano) é a base da personalidade. A pessoa é naturalmente comunitária, cooperativa e política. Lèvinas apontou corretamente que a subjetividade é intersubjetividade. Por isso, estruturas comunitárias são estruturas cooperativas, combinando o controle do trabalhador sobre os bens e o domínio eminente das comunidades. A sociedade deve ser formada por diversas comunidades interligadas, sob o controle dos membros. Ninguém nasceu para viver sozinho e sim destinado a viver em comunhão, com Deus e com a humanidade. A libertação é social e pessoal.
A Igreja defende uma forma social onde sejam respeitados a subjetividade, os direitos humanos fundamentais, a liberdade, a pessoa, o trabalho (a atividade da pessoa), a sociedade, etc. A subjetividade é a base da liberdade, da autodeterminação, do primado do sujeito. A Igreja defende, assim, o controle social e popular, a participação, a afirmação da pessoa como sujeito e não como objeto (por isso, defende a difusão das relações cooperativas e o planejamento participativo). Defende, ainda, a cidadania (os direitos humanos), a mediania, a igualdade social. (...)
Segundo Michael Löwy, no livro A guerra dos deuses (Ed. Vozes, 2000, p. 173), o leitmotiv (a ideia fundamental) da teologia da libertação é a auto-emancipação dos pobres, “o topos principal da teologia da libertação”. Lowy transcreve a homilia de dom Oscar Romero: “a libertação só chegará quando os Pobres forem os donos e os protagonistas de sua própria luta e libertação”. Os donos e protagonistas significa quando tiverem o controle sobre suas próprias vidas, sobre as relações sociais, as condições sociais, a sociedade em que vivem.
A teologia da libertação, segundo Enrique Dussel, tem como núcleo maior as frases ditas por Cristo, em Nazaré, ao anunciar a missão: libertar os oprimidos, assegurar a todos a libertação, a liberdade.”


“Liberdade é agir de acordo com nossa natureza, que é intelectual (e também comunitária, social, política, afetiva, fraterna, boa, instintiva e afetiva). Daí a importância da frase “conhecereis a verdade e esta vos libertará”. Agir de acordo com a natureza é agir de acordo com a razão, com a inteligência, com o direito, com a ética, com base em boas ideias comunitárias. Como escreveu São Tomás, agir segundo a razão (logo, com a verdade, pois a verdade é a adequação das ideias com a realidade) é agir virtuosamente, com virtude. E agir assim é a fonte fundamental de felicidade, de alegria, como demonstrou São Francisco de Assis, Santa Terezinha do Menino Jesus ou São Filipe de Néri.
Liberdade é controlar-se a si mesmo, ordenando os instintos, os afetos e as paixões, em planos participativos (comunitários, sociais), de comunhão e amor. Ordenar não é desprezar os sentimentos, como defendiam os estoicos e os kantianos. A pessoa é formada de tal forma que há uma estrutura organizada (harmonia preestabelecida, cf. Leibniz), em que nossos melhores instintos e sentimentos movimentam-se em consonância com nossas melhores ideias.”


“Vejamos uma pequena coletânea de textos de Santos Padres (sendo muitos Doutores da Igreja) sobre a comunhão ou bem comum:
Doutrina dos Doze Apóstolos, 1, 5: “A quem te pedir, dá e não exijas restituição; pois o Pai quer que todos participem de seus bens”.
Doutrina dos Doze Apóstolos, IV, 7-8: “Não enxotarás o pobre, mas participarás de todas as coisas com o teu irmão, e não dirás que são coisas tuas; de fato, se participais em comum dos bens eternos, com mais razão deveis fazê-lo com os que passam”.
Clemente de Alexandria na obra O Pedagogo II, 12: “Deus fez todas as coisas para todos; portanto, todas as coisas são comuns. Deus nos deu somente o uso das coisas. É injusto, pois, que uns vivam luxuosamente, enquanto os demais são pobres”.
São Crisóstomo na obra Omelie, passim: “Deus, no início, não fez uns ricos e outros pobres, mas deu a todos a mesma terra. (...) E então os frutos da terra devem ser comuns a todos. As palavras ‘meu’ e ‘teu’ são motivo de discórdia. A comunhão é muito mais conveniente à ordem natural do que a propriedade. (...)
São Basílio na obra O rico insensato:
E o que não veste quem está nu quando pode fazê-lo, merece por acaso outro nome? O pão que guardas para ti é do faminto, o manto que conservas no guarda-roupa é do despido, os sapatos que apodrecem em tua casa são do descalço, o dinheiro que escondes embaixo da terra é do necessitado.
São Justino Mártir na obra A Primeira Apologia, XIV: “Nós, que outrora amávamos e procurávamos o outro e a propriedade, agora colocamos tudo em comum”.
Hermas, na obra O pastor: faz o bem, e aquilo que Deus te dá pelos teus esforços dá aos pobres com simplicidade, sem ficar indeciso a quem dar ou a quem não dar. Dá a todos, pois a todos Deus quer que se dê os seus bens”.
São Gregório de Nissa na obra Omélia: “Quem tem demais não é irmão e, sim, ladrão”. “Quem importa que o rico faça um pouco de esmola: esse dinheiro custa as lágrimas de cem pobres”.
Santo Ambrósio na obra A história de Nabot de Jezrael: “Mais do que o próprio, os ricos comem o pão dos outros, habituados que estão a viver de rapina e a sustentar as próprias despesas com fraudes”.
São João Crisóstomo na obra Omelie. “Meu e teu não são senão palavras”.
“Não ajudar os pobres é roubar, o que possuímos não nos pertence, mas a todos”.
Esses são dos primeiros anos do cristianismo, bem próximos de Cristo e exprimem as ideias da Tradição da Igreja conectadas com as ideias bíblicas.
Valdir Gambin, no livro Ensino social da Igreja e o destino comum dos bens (Ed. Voz Petrópolis, 1992, pp. 13-17), apresenta uma excelente coletânea de textos de Santos da Igreja sobre a questão social:
Teodoreto de Cirro, no Ensino sobre a Providência, diz: “E assim que os que vivem como malvados em razão de sua riqueza contraem as sobrancelhas, incham as bochechas, montam sobre seus cavalos com os quais varrem a praça. Desprezam os outros na mesma medida que merecem ser desprezados, cometem iniquidades, mostram-se, ávidos de possuir cada vez mais, apropriam-se do que não lhes pertence, cobiçam o que não têm, arrebatam os bens do seu próximo, desfrutam a vida à custa dos bens alheios, traficam com a desgraça dos pobres e fazem isso apoiados na força e no poder da riqueza”.
Com ironia, Clemente de Alexandria no ensino O Pedagogo, diz: “Por outro lado, é uma coisa totalmente estúpida e digna de zombaria o fato de haver homens que usam urinóis de prata e latrinas de vidro: e as mulheres, tão ricas como loucas, mandam fazer recipientes de prata para seus excrementos, como se esse pessoal rico até para defecar precisasse fazer de uma forma orgulhosa. Suplico a Deus que eu sempre tenha ao ouro o apreço que tenho ao lixo.
Santo Astério de Amasséia, no Ensino sobre o rico e Lázaro diz. “Aquele que não se compadece nem se comove diante da fome e da enfermidade de seu próximo é um animal irracional, que não tem o direito de ter aspecto de homem, pois contradiz ou desmente sua natureza.
São Gregório de Visa diz: “Se alguém pretende apoderar-se de tudo e a negar a seus irmãos a terça ou a quinta parte, tal pessoa é um tirano duríssimo, bárbaro impecável, fera saciável, que deseja o banquete só para si, é mais feroz que as próprias feras”.
Comentando o Evangelho de São Mateus, São João Crisóstomo diz: (...) são os que possuem campos e tiram sua riqueza da terra. Pode haver alguém mais iníquo do que estes homens? Se analisarmos como tratam os míseros e esforçados lavradores, concluiremos que são mais cruéis que os bárbaros. Impõem exigências contínuas e insuportáveis aos que estão consumidos pela fome e passam a vida trabalhando, sendo obrigados a suportar os mais penosos trabalhos. Seus corpos se assemelham aos dos asnos ou burros ou, melhor dizendo, são como se fossem pedra, pois não lhes concedem sequer um momento para respirar. Que a terra produza ou não, são oprimidos da mesma forma, nada lhes sendo perdoado”.

4. Os mecanismos de exploração para os Santos Padres
Os Santos Padres tinham consciência de que a sociedade do seu tempo era injusta e desigual. Para eles a riqueza e a pobreza não são frutos do acaso. Os ricos acumulam riquezas por mecanismos bem conhecidos.
Em primeiro lugar, destaca-se a usura que possibilita a expropriação do patrimônio alheio. Por trás de um alívio passageiro, os pobres descobrem que os juros se reproduzem à custa de seu patrimônio e aumentam o capital do avarento. Como exemplo citamos o ensino de São Basílio na homilia sobre o Salmo 14: “Não se junte com uma fera tão fecunda. As coelhas acabam de parir e ficam prenhes logo a seguir. É dessa forma que os usuários veem o dinheiro: produz e se multiplica ao mesmo tempo. Tão logo você toma o empréstimo e já lhe cobram os juros deste mês. Esse empréstimo gera, por sua vez, outro mal que gera outro e assim até o infinito. (...) Usura sobre usura é prole má de maus pais. Essas crias de juros devem se chamar filhotes de serpentes. Dizem que durante a gestação as serpentes devoram o ventre de sua mãe. O mesmo se dá com os juros que, apenas nascidos, começam a corroer e a consumir o patrimônio do devedor. (...) Os animais perdem sua força geradora quando suas crias chegam à maturidade, mas a usura, os juros e o capital não param de se reproduzir: Livre-se, pois, do perigo desta besta monstruosa”.
O segundo mecanismo de espoliação e acumulação da riqueza, para os Santos Padres, é a exploração do trabalho. É pelo trabalho do pobre que o rico fica cada vez mais rico.
Santo Ambrósio, no livro sobre Nabot e Jezrael ensina: “São os pobres que escavam o ouro que depois lhes é negado. Padecem fadigas para procurar e descobrir o que depois jamais poderão possuir”. São João Crisóstomo, na Homilia sobre o Evangelho de São Mateus, diz: “Que espetáculo miserável! Depois de trabalharem durante todo o inverno, depois do gelo, das chuvas e das vigílias, têm que se retirar com as mãos vazias e, ainda por cima, cheios de dívidas. Quem poderá descrever os negócios que se fazem com eles, os tráficos vilipendiosos a que são submetidos, enquanto seus amos enchem lagares e celeiros à custa do trabalho daqueles infelizes, não lhes sendo consentido levar para casa nem uma parte ínfima”.
O terceiro mecanismo de acumulação de riquezas, para os Santos Padres, é o comércio.
Santo Ambrósio, no livro sobre Nabot e Jezrael, diz: “O avarento se sente arruinado pela abundância das colheitas, ao considerar o baixo preço dos alimentos. A fecundidade é um bem para todos, mas a má colheita só é vantajosa para o avarento. Sente maior prazer com o preço elevado do que com a abundância de produtos e prefere que só ele tenha algo para vender a todos. O rico reclama só para si o produto das terras, não porque deseja usá-lo, mas para negá-lo aos outros”.
São Zenão de Verona, no Terceiro Tratado sobre a justiça, diz: “Por causa da avareza os celeiros de uns poucos estão cheios de trigo e o estômago de muitos, vazio; por causa dela, a elevação dos preços é pior do que a falta de produtos. Através dela surgem a fraude, a rapina, as discussões e a guerra. A avareza procura os lucros à custa dos gemidos alheios. Ela converte o confisco das bens em indústria”.

5. Os santos padres de da propriedade privada
Para os Santos Padres, a ideia de que a propriedade privada existe desde sempre não é verdadeira. Esta não é adequada à condição humana. Para eles, o regime de propriedade privada não permite que se cumpra a função social dos bens. Vamos a alguns exemplos:
Tertuliano, no livro sobre a Paciência, diz: “A avareza não consiste tanto na concupiscência do alheio. O que parece que é nosso é alheio, pois nada é nosso, porque todas as coisas são de Deus, a quem também nós pertencemos”.
Lactâncio, nas Instituições Divinas, falando dos primeiros cristãos, diz: “Contentando-se com pouco, preferiam religiosamente, como narra Ciro, o que é próprio da nossa religião. Não era lícito demarcar o campo. Possuíam tudo em comum. Com efeito, Deus entregou a terra indistintamente a todos os homens, a fim de que desfrutem de todos os bens que produzem em abundância Não a entregou para que cada um, com avareza furiosa, reivindique tudo para si nem para que alguém se veja privado do que a terra produz para todos”. (...)
São Cirilo de Alexandria, no Comentário ao Evangelho de Mateus, diz: “E não nos apoderemos do que foi dado para o proveito comum de nossos irmãos, pois tornaríamos a riqueza iníqua pelo fato de retê-la, sendo, como é, coisa alheia. E é coisa alheia primeiro porque pertence realmente aos pobres. O ato de enriquecer é coisa totalmente alheia a todo homem.

6. Não somos donos, mas administradores.
Desde o início do cristianismo se difundiu o ensinamento de que os bens são considerados dons de Deus. Com isso, se reconhecia que os bens são dados gratuitamente por Deus e também Deus é único dono. A partir dessa verdade os Santos Padres ensinavam a partilha gratuita do que foi recebido de Deus e a tarefa de administrar os bens em nome de Deus, em favor do próximo. Essa é uma verdade fundamental na pregação dos Santos Padres. Citemos alguns exemplos:
Santo Astério de Amasséia, na Homilia sobre o administrador infiel, diz: “É uma ideia pensar que o que temos para usar durante a vida, possuímo-lo como donos e senhores. Porque pensamos assim, lutamos ardentemente por essas coisas, fazemos guerra entre nós, recorremos aos tribunais e, como se se tratasse de bens fundamentais, abraçamo-nos a eles com toda força”.
São João Crisóstomo, na Homilia sobre a Primeira epístola aos tessalonicenses, ensina: “Isso não é verdadeira possessão e propriedade; destina-se apenas ao uso. Como falar de propriedade se, uma vez tendo expirado, queira você ou não, outros se apoderarão de todos os seus bens? Eles, por sua vez, os doarão a outros, e estes a outros. Todos nós somos estrangeiros (...) A propriedade não passa de um nome. Na realidade, somos todos donos de bens alheios”.
Falando ao povo de Antioquia, diz: “Não me digam que vocês passaram anos e anos acumulando fortuna, que possuem milhares de talentos de ouro e que seus lucros têm aumentando dia após dia. Tudo que vocês disserem sobre esse assunto será mera questão de palavra (...) As Escrituras estão repletas de textos que ensinam isto. O rico de hoje, amanhã é pobre. Daí, que, muitas vezes, tenho achado graça, ao ler em certos testamentos: Deixo para fulano minha casa e minhas casas e para o outro o usufruto”. A verdade é que todos nos temos somente o usufruto e ninguém possui nada.

7. Destino comum dos bens
Seguindo a ideia de que não somos donos, mas administradores dos bens, os Santos Padres ensinam que os bens têm um destino comum. Daí a orientação de que a posse dos bens deve ser comum. Os Santos Padres não apontam formas concretas de propriedade coletiva ou socializada, mas seu ensinamento aponta nessa direção. Vamos a alguns textos:
São Clemente de Alexandria, no texto O pedagogo, ensina: “Logo, tudo é comum e não pretendam os ricos possuir mais do que os outros. Portanto, aquela afirmação de que “tenho de sobra, por que não hei de desfrutar?”, não é humana nem própria da comunhão de bens. (...) Sei muito bem que Deus deu a faculdade do uso, mas apenas dentro dos limites do necessário e quis que o uso fosse comum. É um absurdo que apenas um viva entre as delícias, enquanto os outros se acham na miséria”.
São Gregário de Nissa, no escrito Sobre o Eclesiastes, diz: “Meu e teu, palavras funestas, não tinham o mínimo sentido nos primórdios da vida. Como são comuns o sol e o ar, e tudo o que vem de Deus é graça e bênção comum, assim, do mesmo modo, oferecia-se voluntariamente a qualquer um a participação do bem e não se conhecia a paixão da avareza”.
São João Crisóstomo, na Homilia sobre a Primeira epístola a Timóteo, afirma: No início Deus não criou um pobre e outro rico, nem mostrou a um grandes tesouros e privou a outro deste achado. Deus pôs a mesma terra diante de todos. Como, pois, sendo comum, vocês possuem grandes vastidões e o outro não tem nem sequer um torrão?”
Santo Ambrósio, falando dos deveres dos ministros, diz: Julgaram os filósofos pagãos como forma de justiça que o bem público pertencia ao público e o bem privado ao cidadão particular. Isso, sem dúvida, não está de conformidade com a natureza, porque esta deu a todos todas as coisas em comum. Deus dispôs a criação de tal forma que tudo constituísse alimento comum para todos e a terra pertencesse a todos em comum. A natureza engendrou, pois, o direito comum e a usurpação fez o direito privado”.
Santo Agostinho, no seu Comentário sobre os Salmos, diz: “Muitos não dão lugar ao Senhor. Procuram e amam o seu, ficam satisfeitos com o seu poder. Quem quiser dar lugar ao Senhor deve se alegrar não no privado, mas no comum. Os primeiros cristãos transformaram em comuns seus bens privados (...) Por isso, bem-aventurados os que dão lugar ao Senhor, de modo a não se alegrar por sua propriedade privada”.”


“O frade franciscano Olírio Plínio Colombo, no livro A doutrina de Santo Ambrósio sobre o uso dos bens temporais (Editora Sulina, Porto Alegre RS, 1974, pp. 100-108), demonstra que a concepção histórica de Karl Marx sobre o comunismo primitivo era inspirada nos Santos Padres. E que o cristianismo primitivo foi principal fonte do movimento socialista: (...)
         “No oriente, Gregário Nazianzeno (330-390) também utiliza o mito supracitado. Esse autor acha não ser intenção de Deus que o homem dominasse seu irmão. Para Gregário Nazianzeno, de fato, antes do pecado não havia nem escravo nem senhor. Somente quando entrou a “pleonexia” (avareza), que destruiu a harmonia da natureza e criou leis para proteger a injustiça e a opressão é que desapareceu a igualdade primitiva. Somente depois do pecado é que apareceram os governantes.” (...)
         “Para Ambrósio, as abelhas constituem um exemplo de república perfeita. Aí tudo é comum: trabalho, habitação, alimentos e responsabilidade. Todavia, existe a máxima ordem e eficiência. Os peixes também não têm limites prescritos, nem leis e nem chefes. São governados pela lei da natureza. A república dos grús é descrita com uma finalidade clara; a responsabilidade e a liberdade seriam as bases mais vantajosas para um Estado. Onde há responsabilidade, a doação é maior e mais profunda e a realização do indivíduo é mais completa. Na república dos grús não existem leis, chefes e coerções, mas serviço voluntário.
Porém, o que mais nos interessa é a descrição que Ambrósio fazia, num sermão pronunciado em 387, da república primitiva dos homens. Aí os homens viviam em liberdade e igualdade. O poder estava dividido entre todos e não havia inveja nem opressão.
 “Ninguém sabia exigir do companheiro de natureza os obséquios da escravidão”.
Hic erat pulcherrimus renum status...”, exclama Ambrósio. Certo dia entrou a “libido dominandi” (sede de poder) e o homem começou a usurpar e assegurar-se poderes indevidos e não mais aceitou desfazer-se dos mesmos. Assim o poder não era mais ordem e não estava mais endereçado ao bem comum. O trabalho tomou-se escravidão e, por isso, surgiu a negligência. (...)
Na prática Ambrósio, como os outros padres supracitados, aceitou a autoridade civil como qualquer bom cidadão. Somente que, como bispo, nunca se conformou com as injustiças cometidas pela autoridade política. Sempre afirmava que essa autoridade estava para servir e não para enriquecer e, por isso, os governantes deviam estar isentos de avareza. O poder, para Ambrósio, tem sua origem com o pecado e, por isso, é perigoso. Em muitos casos é acompanhado da vontade de dominar e de escravizar os mais fracos. (...)
            Uma das características, talvez a mais importante, do Século do Ouro era a comunidade de bens. Isso já vimos quando expusemos esse mito na cultura clássica. Agora veremos como os Padres da Igreja concluíram pela comunidade de bens nessa era mítica.  (...)
Também outros padres, embora mais vagamente, indicam a possibilidade de uma comunidade de bens primitiva. É o caso de Basílio. Ele supõe que os mais fortes, em determinado momento da história, apoderaram-se dos bens temporais. Agora não permitem aos pobres o uso desses bens, que, segundo a intenção de Deus, estão destinados ao uso comum de todos. É ainda o caso de S. Jerônimo (344-420), quando afirma:
Dives aut iniquus aut iniqui baeres”.
Também João Crisóstomo (344-407) parece ver no sistema da propriedade um defeito inicial.
Mas é de Ambrósio que devemos falar. (...) Depois de, no seu De Officiis, ter falado que conforme à natureza tudo devia ser comum, ele afirma: “Quem não desejaria possuir esta virtude (a justiça) no seu mais alto grau se a primeira avareza não tivesse diminuído e enfraquecido sua força? Porque pelo desejo de aumentar nossas riquezas, acumular dinheiro, estender nossas propriedades..., perdemos a justiça. (...)
Os padres da Igreja perceberam esse problema. Além daquilo que já vimos no parágrafo anterior é necessário acrescentar ainda Clemente de Alexandria que também afirma que, conforme à natureza, a propriedade é injusta.
Santo Agostinho justifica a propriedade e, logo, o direito das nações. Isso, em virtude do pecado, o que revela uma solução de emergência.
Mais tarde Isidoro de Sevilha (entre o VI e VII século) repetia que conforme o direito natural tudo devia ser comum. E no século XII um monge camaldulense de nome Graciano, o qual reuniu todas as leis eclesiásticas do tempo num único compêndio, o famoso Decretum Gratiani, repropõe as mesmas ideias. Identificando o direito natural com o Sermão da Montanha ele fala da comunidade de bens como algo conforme à natureza. (...)
Importante é que Ambrósio, ao escrever a famosa passagem do De Officiis, tem diante de si o texto de Cícero, segundo o qual a propriedade é lícita em virtude do direito das nações. Cícero dizia:
“Pela natureza não existem bens privados; a propriedade inicia ou pela primeira ocupação como o caso daqueles que chegaram (por primeiro) a um país deserto; ou pela vitória como os que se apoderaram de algo pela guerra; ou pela lei, convenção, cláusula, sorte”.
Ambrósio não está de acordo. A propriedade, o direito das nações são frutos da avareza, da usurpação e do pecado. Segundo a natureza e a vontade de Deus tudo devia ser comum. Ambrósio assim se manifesta em várias ocasiões. Apresentamos dois textos principais para que o leitor possa perceber melhor aquilo que pretendemos dizer. O primeiro provém do seu De Officiis Ministrorum, escrito em 386 e endereçado a seu clero, onde ele contradiz Cícero. O segundo provém de seu Comentário ao Salmo 118 e foi pronunciado, provavelmente, num sermão dominical em 389. Vejamos os textos.
De Officiis Ministr 1,132.
“Os filósofos (Ambrósio se refere a Cícero) creram que a justiça consistiria em considerar as coisas públicas como públicas e as privadas como privadas. Mas também esse princípio não é segundo a natureza A natureza, na verdade, doou a todos seus dons; isso porque Deus ordenou que tudo fosse produzido para o comum benefício de todos e que a terra fosse, de certa maneira, posse de todos. A natureza, portanto, gerou o direito comum, a usurpação fez o direito privado”.
Expos ps CXVIII 8,22;
“O Senhor nosso Deus quis que esta terra fosse posse comum de todos os homens e que seus frutos fossem ministrados a todos, mas a avareza distribuiu os direitos de propriedade. Justo é, portanto que, se te atribuis algo como próprio daquilo que fora destinado para o uso comum de todo o gênero humano (...) pelo menos, com tais bens privados faças esmolas aos pobres, diante dos quais, tens obrigações de consórcio (...)”.”


“No livro Basílio de Cesaréia (Paulus, São Paulo, 1999, pp. 26-37) há textos de São Basílio ensinando que o direito de propriedade (dos bens), previsto pela Igreja, refere-se apenas a uma quantidade (o controle desses bens), cuja medida é a necessidade de cada um para uma vida digna. (...)
Vejamos o texto de São Basílio:
A generosidade de Deus
Eis quanto provém de Deus: fertilidade do solo, condições atmosféricas propícias, abundância das sementes, a ajuda dos bois e outros elementos que contribuem para o incremento da agricultura. E da parte do homem? Dureza de coração, misantropia e avareza: é dessa maneira que o homem agradece ao próprio benfeitor. Não se recordou da comunhão de natureza, não pensou que precisava dividir o supérfluo entre os indigentes, não levou em conta o mandamento: “Não negues um benefício ao necessitado” (Pr 3,27). “A caridade e a confiança não te abandonem” (Pr 3,3). “Reparte o pão com o faminto” (Is 58,7). Permaneceu surdo ao grito de todos os profetas e de todos os mestres. (p. 26). (...)
O homem é administrador dos dons divinos
Reconhece, ó homem, o teu doador. Recorda-te de ti mesmo: quem sou, que coisa administra, de quem recebeste, porque foste preferido entre muitos. És servidor da bondade de Deus, administrador dos teus companheiros de servidão. Não creias que tudo seja destinado a teu ventre. Considera os bens que estão nas tuas mãos como coisa de outros: por breve tempo alegram-te, depois deslizam e desaparecem rapidamente; deles deverás prestar contas pormenorizadas.
Embora tenhas tudo bem fechado com portas trancadas, amarrado e selado, todavia as preocupações te impedem o sono. Ruminas dentro de ti, estulto conselheiro de ti mesmo: “Que farei?”. Seria, ao invés, ocasião de dizer: saciarei quem tem fome, abrirei meus celeiros e chamarei todos os indigentes. Imitarei o benéfico edito de José: “Quantos não tenham pão, vinde a mim, tome cada um o suficiente do dom concedido por Deus, como de uma fonte comum” (Gn 47,13-26).
Por que não és assim também tu? Tens medo de que outros tirem proveito desses bens e, ruminando na alma sentimentos maus, meditas, não tanto como distribuir a cada um segundo a necessidade, mas como ajuntar ainda mais bens e tirar de todos os proventos para ti.
Já haviam chegado aqueles que lhe pediriam a alma (cf. Lc 12,20) e ele confabulava consigo sobre alimentação; naquela mesma noite o levariam deste mundo (cf. Lc 12,20) e ele fantasiava gozar ainda por muitos anos. Foi-lhe deixado desejar tudo, expressar seu pensamento, para que seu propósito sofresse a sentença que merecia. (p. 26-28).
Participação dos bens privados
“O que faço de errado, diz ele, guardando o que é meu?”
Dize-me, de que modo é teu? Donde tiraste, tomando-o para teu sustento? É como alguém que, indo ao teatro, se apoderasse do espetáculo e quisesse excluir os que entrassem depois, pretendendo ser só seu aquilo que é comum a todos os que se apresentam, conforme lhes parece bem. Assim são os ricos. Por se haverem apoderado do que é comum, tomam posse dele a dado de ocupação primeira. Se alguém se apoderasse apenas do suficiente para satisfazer suas necessidades e deixasse o supérfluo para os necessitados, ninguém seria rico, mas também ninguém seria pobre. Não saíste nu do útero e não retornarás nu para a terra? (Jó 1,21) Os bens que possuis, de onde vêm? Se dizes que provêm do acaso, és ímpio, não reconhecendo o Criador e não dando graças ao doador. Se, ao invés, admites que são de Deus, dize-me por que os recebeste. É talvez injusto Deus, que nos distribui os meios de subsistência de modo desigual? Por que tu és rico e aquele é pobre? Certamente para que tu pudesses receber a recompensa da bondade da fiel administração e aquele pudesse conseguir o magnífico prêmio da paciência. E tu, enquanto procuras abarcar tudo nos insaciáveis ventres da avareza, julgas não fazer injustiça a ninguém, privando tanta gente do necessário? Quem é o avarento? Aquele que não se contenta com aquilo que lhe é suficiente. Quem é o ladrão? Quem tira aquilo que é de outro. Não és avaro? Não és ladrão, tu que fazes tua a propriedade que recebeste para administrar? Quem espolia alguém que está vestido é tido como ladrão; e quem, podendo fazê-lo, não reveste quem está nu merecerá outro nome? O pão que tu reténs pertence ao faminto, o manto que guardas no armário é de quem está nu; os sapatos que apodrecem em tua casa pertencem ao descalço; o dinheiro que tens enterrado é do necessitado. Porque tantos são aqueles aos quais fazes injustiças, quanto aqueles que poderias socorrer.
Juízo de Deus
“Belas palavras”, dirás, “mas o ouro é ainda mais belo!” (...) De que modo te porei sob os olhos os sofrimentos do pobre, para que te convenças com quantos gemidos acumulas riquezas? Como te parecerá justa, no dia do juízo, esta bela frase: “Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino preparado para vós desde a criação do mundo: porque tiveste fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, estava nu e me vestistes” (Mt 25, 34-36).
Quanto terror para ti, quanto suor! Quais trevas te envolverão, se ouvires a condenação: “Afastai-vos de mim, malditos, nas trevas exteriores, preparadas para o Diabo e para os seus anjos: porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, estive nu e não me vestiste (Mt 25, 41-42.30). Naquele momento não é julgado o ladrão, mas é condenado o egoísta.
Disse tudo quanto julgo útil. Se me deres razão, e evidente que, segundo as promessas, te são reservados tais bens; se, ao contrário, ignorai-os, está escrita para ti a condenação, que te desejo não experimentá-la, para que tuas riquezas te sejam preço de resgate e tu estejas seguro de alcançar os bens celestes, por graça daquele que nos chamou todos ao seu Reino. A ele a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém” (pp., 35-37).”


“No documento “Igreja e problemas da terra”, aprovado na 18ª Assembleia da CNBB, em 14 de fevereiro de 1980, há a mesma ideia:
1. A terra é um dom de Deus a todos os homens (...)
58. A Igreja, na sua doutrina social, tratou muitas vezes do problema da propriedade e, explicitamente, da propriedade da terra.
59. Essa doutrina, a Igreja não a formulou apenas em resposta aos desafios que o problema levanta em nossa sociedade, mas também em consonância com uma longa tradição que tem suas raízes na Bíblia, na mensagem de Jesus, no pensamento dos Santos Padres e Doutores. Com amor e fidelidade, ela meditou nestes textos e deles soube extrair as suas implicações sociais para a sociedade em que vivemos. (...)
62. Formulando hoje sua doutrina social, a Igreja conserva a lembrança das severas advertências dos Profetas de Israel, que denunciavam a iniquidade dos que usavam a terra como instrumento de espoliação e opressão dos pobres e dos humildes. Não se esquece do desígnio de Deus de que a terra devia ser o suporte material da vida de uma comunidade fraterna e serviçal.
63. Mas é especialmente nos ensinamentos de Jesus que ela vai procurar as fontes de sua doutrina social.
64. Jesus, o Filho de Deus, inaugura a Nova Aliança e constitui o novo Povo de Deus e a nova fraternidade pela participação em sua vida divina. Ele nos reconcilia com o Pai, realiza a libertação total da escravidão do pecado e nos faz a todos herdeiros de Deus e seus co-herdeiros.
65. Todo o Novo Testamento, a Nova Aliança de Deus com seus filhos, irmãos de Jesus, nos orienta no sentido da partilha e da prática da Justiça na distribuição dos bens materiais, como condição necessária da fraternidade dos filhos do mesmo Pai, conforme o ensinamento do Sermão da Montanha (Mt 5; 6; 7). A conversão sincera encontra logo a expressão do gesto do dom e do restabelecimento da Justiça, tão bem retratada no episódio de Zaqueu (Lc 19,1-3). O apego exagerado aos bens materiais, a recusa a reparti-los com os pobres, podem significar uma barreira para o seguimento radical ao Senhor (Mt 19,16-18).
66. O ideal evangélico a ser atingido, a prefiguração na terra do reino definitivo, quando Deus será tudo em todos, é a construção de uma sociedade fraterna, fundada na Justiça e no amor. Para o Evangelho, os bens materiais não devem ser causa de separação, de egoísmo e de pecado, mas de comunhão e de realização de cada pessoa na comunidade dos filhos de Deus.
67. A Igreja tem presente a experiência da primitiva comunidade de Jerusalém, quando a fraternidade em Cristo, vencendo as barreiras do egoísmo, exprimia-se em gestos de partilha: “Todos os fiéis tinham tudo em comum; vendiam suas propriedades e seus bens e dividiam-nos por todos segundo a necessidade de cada um” (At 2,44-45).
68. Na elaboração de sua doutrina, a Igreja, hoje, procura aprender da experiência dos Santos Padres Antigos, que procuravam traduzir, para as suas sociedades, as lições da Sagrada Escritura. Ela ouve ainda o eco das expressões de grande vigor com que eles também denunciavam a iniquidade dos poderosos.
69. “Foi a avareza que repartiu os pretensos direitos de posse” (Sto. Ambrósio, P.L. Vol. A 2, Coluna 1046). “A terra foi dada a todos e não apenas aos ricos” (Sto. Ambrósio, Apud Populorum Progressio, nº 23, De Nabuthe, C. 12, nº 53 P. L. 14,747).
70. “Pelo direito das gentes, implantou-se a distinção das propriedades e o regime de servidão. Pelo direito natural, porém, vigorava a posse comum de todos e de todos a mesma liberdade” (Decr. de Graciano, L.II, D.13). Texto particularmente expressivo pelo fato de associar à apropriação individual o regime de servidão. O egoísmo provoca os fortes a se apropriarem não só das coisas, mas também das pessoas dos mais fracos.
71. Ainda hoje a Igreja vai procurar luz e orientação no pensamento dos grandes Doutores que tentavam também fazer a síntese entre a fidelidade à Tradição e as novas realidades sociais com que se defrontavam.
Ela consulta com especial atenção o pensamento de Santo Tomás de Aquino que já vira na propriedade particular não um obstáculo à comunhão dos bens, mas um instrumento para a realização de sua destinação social: “A comunidade dos bens é atribuída ao direito natural, não no sentido de que o direito natural prescreva que tudo deva ser possuído em comum e nada seja possuído como próprio, mas no sentido que, segundo o direito natural, não existe distinção de posses, que é o resultado da convenção entre os homens e decorre do direito positivo.
Daí se conclui que a apropriação individual não é contrária ao direito natural, mas se acrescenta a ele por invenção da razão humana” (Summa Theologica, II, IIae q. 66 art. 2, ad 1). Assim a apropriação individual seria, para Santo Tomás, um dos meios de realizar a destinação social dos bens a todos. É o que ele mesmo explicita no mesmo texto, com maior precisão: “Quanto à faculdade de administrar e gerir, é lícito que o homem possua coisas como próprias; quanto ao uso, não deve o homem ter as coisas exteriores como próprias, mas como comuns, a saber, de maneira a comunicá-las aos outros”.
72. Com a evolução da Sociedade, o direito positivo teve também de evoluir e explicitar normas jurídicas para regulamentar a crescente complexidade da vida em sociedade e especificamente com relação ao problema da propriedade, da posse e do uso da terra.
73. A Igreja, embora respeitando sempre a justa autonomia das ciências jurídicas e do direito positivo, considera de seu dever pastoral a missão de proclamar as exigências fundamentais da justiça.”


“Tudo, não apenas a terra, mas tanto o trabalho, a personalidade, a consciência, o amor do homem, como a ciência, tudo se torna inevitavelmente subornável enquanto dura o poder do capital.” (Lênin)


         “Mesmo São Bento foi bastante influenciado por Santo Agostinho, e queria uma sociedade fraternal, sem injustiças, sem miséria e sem ricos. Vejamos um texto deste santo, que mostra bem seu pensamento favorável à igualdade social:
Não devemos desejar a existência de míseros para que possamos exercer as obras de misericórdia. Dás pão ao que tem fome: melhor seria que ninguém tivesse fome e a ninguém tivesses que dar. Vestes ao que não tem roupa: oxalá todos andassem vestidos e não houvesse tal necessidade! Dás sepultura ao morto: oxalá chegue enfim aquela vida em que ninguém morre!
Pacificas aos que brigam: oxalá venha enfim aquela paz eterna de Jerusalém, onde ninguém discorde — Todos esses são misteres da necessidade. Acabemos com os míseros: cessarão as obras de misericórdia. Sim, cessarão as obras de misericórdia: porventura ficará extinto o ardor da caridade? Mais fraternalmente amas ao homem feliz, ao qual não tens o que dar. Tal amor será mais puro e muito mais sincero. Pois se socorres ao mísero, talvez te queres exaltar perante ele, e o queres submeter, com motivo do teu benefício. Ele precisou, tu contribuíste. Porque assim contribuíste, pareces maior do que ele.
Deseja o igual, para que ambos estejais sob Aquele a quem nada se pode dar”. (In Epist. Jo. Ad Parthos, tract 8° n. 5, M. L. 35, col. 2038).”


“O livro de Vergilio Gamboso, Vida de santo Antônio (editora Santuário Aparecida, São Paulo, 1979, pp. 139-145), apontou claramente que os ricos exploram os pobres e os necessitados, “a modo de prensa”, “esmagam”, “espremem”, arrancam a pele e os ossos dos trabalhadores. Santo Antônio considerava os ricos como “animais ferozes”, “pérfidos usurários”, “ladrões”, “prontos para roubar, esmagar e devorar os bens dos pobres, dos órfãos, das viúvas”. Vejamos os textos de um dos Doutores da Igreja e considerado também como grande orador da Igreja:
Os soberbos e os avaros deste mundo, a modo de prensa, esmagam e espremem os pobres e os necessitados. Sobre eles falou o profeta (Miquéias 3,2-3): Arrancais violentamente e lentamente a pele (ao povo) e a carne de cima de seus ossos. Comeram a carne do meu povo, e arrancaram-lhe a pele, e quebraram-lhe os ossos.
Estes tais não merecem que lhes anunciemos a palavra de Deus, nem devemos chorar por eles, porque nem a palavra dobra a dureza de seus corações, nem as lágrimas conseguem extinguir o fogo da sua cobiça.
As riquezas são espinhos que ferem e provocam perda de sangue; são animais ferozes os pérfidos usurários, que rapinam e devoram (...) Este mundo, cheio de amargura, está repleto de riquezas, de delícias; é bem larga a estrada que leva à perdição. É ampla, não para os pobres de Cristo, que entram pela porta estreita, mas para os usurários que já se apoderam do mundo todo com mãos rapaces (...) Raça maldita, cresceram fortes e incontáveis sobre a terra, têm dentes de leão. O usurário não respeita nem o Senhor, nem os homens; seus dentes sempre em movimento, prontos para roubar, esmagar e devorar os bens dos pobres, dos órfãos, das viúvas (...).
E vejam só, que mãos ousam fazer esmolas, mãos gotejando o sangue dos pobres. Existem usurários que exercem a sua profissão às escondidas; outros, abertamente, mas não em grande estilo, para parecer misericordiosos; outros, enfim, pérfidos, desesperados, o fazem do modo mais escancarado possível, em plena luz do sol. Estes infelizes nem percebem a realidade da vida, como nela entraram e como dela sairão: entrando nus — saindo envoltos numa roupa velha.
De onde lhes vêm, pois, tantos haveres? Das roubalheiras e fraudes.
O escaravelho recolhe muito esterco, e com muito trabalho o transforma numa bola (na qual a fêmea esconde o ovo); mas de repente passa um asno que mete seu casco em cima do escaravelho e sua imunda bolinha, esmagando, em um instante, um e outro. De modo semelhante o avaro e o fraudador, com todas as forças acumulam o esterco do dinheiro e nisto se empenham sem parar, mas, à traição, chega o demônio e os estrangula.
Então, a alma fica com os demônios, a carne com os vermes, as riquezas com os parentes.
E o que é pior ainda: a tais miseráveis, não basta eles mesmos rejeitar e sufocar a boa Inspiração de Deus, mas tudo fazem para expulsá-la também do coração da mulher e dos filhos. Se um pobre filho, tocado pelo temor do juízo de Deus e do inferno, se propõe viver honestamente, e o Pai vem a sabê-lo, com todo o seu poder tenta afastar essa graça. Quantos males perpetram esses homicidas! Matam em si mesmos e nos outros o arrependimento e a recordação da paixão de Cristo.
Aos 15 de março de 1231, exatamente no fim da última quaresma, a comuna de Pádua emanou um estatuto “por solicitação do venerável Frei Antônio, da Ordem dos menores”, em favor dos devedores insolventes, que, segundo bárbara usança do tempo, estavam encarcerados.
Quem possui bens, descontado o necessário para o alimento e o vestido, o que sobrar, deve dá-lo ao irmão necessitado, pelo qual Cristo morreu. Se não dá, se fecha o seu coração ao irmão pobre, digo que peca mortalmente, que a caridade de Deus não está nele; se a tivesse, daria de boa vontade ao irmão pobre. Ai daqueles que têm a cantina e o celeiro cheios e os guarda-roupas bem fornidos, enquanto os pobres de Cristo, esfaimados e nus, gritam à sua porta. Aos quais se dá de má vontade e pouco, e não do melhor, mas os restos. Virá, virá, sim, a hora em que também os gozadores da vida hão de gritar, parados à porta: — Senhor, Senhor, abre-nos! — e ouvirão o que não quereriam ouvir: — Em verdade vos digo, não vos conheço (...)” (Mt 7,22-23).
Os ricos deste mundo, que amontoam riquezas da iniquidade, ou seja, aproveitando-se das desigualdades, não têm amigos mais vizinhos do que as mãos dos pobres.
Ó rico, dá a Cristo aquilo que ele mesmo te deu. Dá o que recebeste. Estende a tua mão que a avareza ressecou e em virtude da esmola ela há de reflorir. E não basta oferecer com a mão, mas é preciso unir o afeto do coração. Como o gafanhoto entorpece durante o inverno e perde suas forças, mas depois, retornado o calor, salta de alegria, assim também o pobre, no tempo da fome e no gelo da necessidade, perde as forças, treme de frio, tem o olhar macilento. Mas, chegando a esmola, logo se revigora, e agradece a Deus e ao benfeitor o benefício recebido.
A natureza nos gera pobres-dizia-nus nós vimos ao mundo e nus morremos. Foi a malícia que criou os ricos e quem deseja tornar-se rico tropeça nas tramas preparadas pelo demônio.”


         “O livro História das ideologias – decadência do feudalismo e revoluções burguesas, dirigido por V. S. Pokrovski (Editorial Estampa, São Paulo, 1977, pp. 116-127), resume o pensamento de Morelly e de Mably: (...)
 Morelly retrata a sociedade como uma espécie de “autômato maravilhoso” em que tudo está ajustado, equilibrado e previsto, “tudo tende para um fim comum”. Ao descrever os principais recursos dessa “admirável máquina”, criada pela natureza, assinala que esta última deixou aos homens em propriedade indivisível o campo que dá os seus frutos, deixou a todos e a cada um o uso das suas generosidades. O mundo é uma mesa em que há alimentos suficientes para todos os homens. (...)” Portanto, ninguém tem o direito de se considerar seu dono absoluto.
Opondo ao regime existente na propriedade privada o estado natural em que governam as leis da natureza, o pensador afirma que, naquela ordem natural, os homens viviam agrupados em famílias, sem Estado, reinando entre eles o acordo e a unidade, a benevolência recíproca e o respeito aos velhos e aos indivíduos que se distinguiam pela sua inteligência e arte.
Essa ordem natural foi violada pela implantação da propriedade privada, que destrói a honestidade natural e gera nos homens a cobiça, vício fundamental, de que todos os restantes são variedades. Os homens começam por opor o seu bem particular ao geral, quando o primeiro é um mero efeito do segundo. Perseguem o seu interesse particular, essa “peste universal”, essa febre extenuante, essa sensível doença de qualquer sociedade. (...)
Também as obras de Mably traduzem as ideias do socialismo utópico.
O abade Gabriel Bonnot de Mably (1709-1785) foi autor de grande número de obras sobre temas históricos, filosóficos e políticos. Há que mencionar entre elas, sobretudo, Dos direitos e deveres do cidadão (escrita em 1758 e publicada em 1789) e Da legislação ou princípios das leis (1776). (...)
A implantação da propriedade privada trouxe aos homens todas as calamidades e deu origem aos vícios. A imoralidade é a fonte de nossos vícios. “A ambição e a cobiça não são as mães, passe a expressão, mas as filhas da desigualdade”. Esta dá também origem ao despotismo e à escravidão.
Considera que a riqueza e a moralidade são incompatíveis. A sua ideia oral está totalmente impregnada de ascetismo: o seu modelo é a sóbria e simples vida dos espartanos. Faz notar que a igualdade de bens que une todos os homens, eleva-lhes o espírito e educa-os nos sentimentos de benevolência e amizade recíprocas. Por isso, o legislador deve concentrar a sua atenção na instauração da igualdade de bens e das situações dos cidadãos. “A desigualdade de bens e de estados perverte, por assim dizer, o homem e modifica as atrações naturais do seu coração” e “os desejos inúteis à sua verdadeira felicidade levam-no a pensar nos preconceitos e desregramentos mais injustos e absurdos”. “Num Estado, quanto menor for a igualdade, tanto maiores são a vaidade, a baixeza, a ferocidade, a cobiça e a tirania”. (...)
Mably formula uma hipótese sobre o caráter da classe do direito. A desigualdade de estados é, em sua opinião, um travão à imparcialidade das leis. “Nós criamos duas espécies de pesos e medidas e, para vergonha da nossa razão, – os abastados sentenciam a morte por roubo perante o medo de serem roubados e aprovam as conquistas, por serem eles mesmos que saqueiam os povos”. (...)
Mably formula uma hipótese sobre o caráter da classe do direito. A desigualdade de estados é, em sua opinião, um travão à imparcialidade das leis. “Nós criamos duas espécies de pesos e medidas e, para vergonha da nossa razão, – os abastados sentenciam a morte por roubo perante o medo de serem roubados e aprovam as conquistas, por serem eles mesmos que saqueiam os povos”. (...)
Animado por princípios de um rigoroso ascetismo, considera necessário “reduzir as necessidades e facilitar os hábitos modestos”. Projeta leis contra o luxo, que devem tornar-se extensivas a móveis, casas, comida e vestuário. “Quanto mais rigorosos forem as leis, tanto menor será o perigo da desigualdade de bens”.
Considera necessário restringir o comércio que traz, segundo ele, inerente o “espírito da cobiça”, e que dá origem a toda a espécie de excessos e vícios.