quinta-feira, 21 de abril de 2016

Deus foi almoçar – Ferréz

Editora: Planeta
ISBN: 978-85-7665-889-4
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 240
Sinopse: Calixto é um homem comum, mas como tantos cidadãos ele acorda cedo para fazer parte do labirinto da vida cotidiana. À noite, volta pra casa onde encontra sua mulher e sua filinha, nada mais normal. Mas não é isso que está nesse livro. Sem que ele queira, tudo começa a não fazer mais sentido. Calixto parece não saber como reagir, se é que quer fazer isso. Suas tentativas logo se mostram infelizes e sua conformação incomoda, embora ele tenha a sua frente um portal para mudar tudo.
Neste romance psicológico, Ferréz impressiona o leitor ao perguntar se vamos querer de fato uma mudança.



“Sentou junto à máquina de escrever, a mesa toda cheia de papéis, notas fiscais que deveriam ter sido preenchidas, ele pensa naquela estranha conversa, religião, de repente ele poderia ir a algum culto ou reza, pra ver se melhorava mesmo seu astral, na cidade do Valdomiro, ou numa das fazendas dos dissidentes, mas se eles tiram amargura, dor, solidão, o que restaria dentro dele?”


“Quando passo em frente a uma casa de relaxamento, sou puto, quando ando em frente a uma igreja sou santo, faço o sinal da cruz, quando visito minha mãe deito no sofá, sou criança esperando o café com leite e o pão com manteiga esquentado de uma forma que só ela sabe fazer, quando vou na casa de algum amigo, se for do tempo da escola, até os apelidos da época são usados, se for à casa de vizinhos, as brincadeiras do bairro. (…)
Se a felicidade é um ponto de vista, Calixto estava cego.”


“Hoje as poucas revistas que sobraram têm fotos gigantes, ninguém quer ler, as pessoas querem é passar, virar página.”


“O homem criou a cidade, modelou seus jardins, fez da sua forma o tudo de novo, e também foi criado de outra forma por essa cidade.
Datas, dias, minutos e segundos, atrasos, interesses, ganhos e perdas, a vida era assim agora. Ele sorriu levemente, o homem é o único ser capaz de fazer uma armadilha para si mesmo.
Carros, apartamentos, pequenos bares, shoppings, tudo congestionado, tudo limitado, emparedado, fechado. A sensação de sair dessas coisas era indescritível, se tivesse uma pena por assalto ou homicídio, tanto fazia. Prisão ou shopping center? Não precisava olhar tudo para saber o que existia realmente, mas por mais que olhasse não saberia dizer o que era a verdade.”


“Parado às vezes olhando de soslaio para o poste, quase sempre para a rua, entendo pela primeira vez desde que fui tirado de dentro de outro ser, e que vou morrer sem entender quase nada desse novo tempo em que estou. (...) por que tudo está se desmanchando a minha volta e parece que sou só um telespectador da minha própria vida, não sou o motivador, de uns anos para cá sou somente levado, levado de um lado para outro, de uma situação para outra, vou estar um dia no comando, de repente vou estar novamente no comando, mas e se nunca estive?”


“É que nem as guerras, todas elas são uma merda, pode ser no Vietnã ou em Gorazde, todas as merdas de guerras são assim, e depois em algum escritório ou gabinete algum engravatado que não sabe o que é se afundar na merda, nem sequer pisou em alguma, vai estar falando em revolução, tirania e glória. E nós vamos ser resumidos a isso, uma porra de uma palavra, eles não sabem, meu filho, eles não sabem que o grau de dominação é tão alto, que a própria elite nem sente remorso mais pelo que faz, ela já está num estado tão inconsciente de dominação, que é o mais avançado, quando ela nem sente mais que está fazendo algo errado, quem nem essas coisas de jogar lixo no chão, discurso de filho da puta, meu filho, filhos da puta, não jogue o papel no chão, mas gastam mais com o gato do que doariam para um orfanato, não jogue o lixo na rua, mas pisam num mendigo se ele não sair da calçada, vamos reciclar, mas é por estudarem em faculdade pública mesmo sendo ricos que o homem com 70 anos hoje tem que vender bala no farol, porque não tem dinheiro pra todo mundo, e eles sabem disso e estão sempre no começo da fila, mas um dia isso muda, filho, o sucesso é solitário, essa raça de infeliz.”


“Todo dom pode também ser uma maldição.”


“Ao voltar do serviço, parou numa banca de jornal, as frases dos anúncios dos aplicativos podiam fazer ele rir e provocar alguns sentimentos estranhos: “Como se entupir de dinheiro”, “Você é rico e não sabe”, “Como explorar com consciência social”, “Gerenciando lucros e alimentando a pobreza”, “Empresa de segurança compra parte da frota da policia”, “Fazendo fluxo de caixa martirizando pessoas”, “Como obter visto para morar na cidade do Bispo Valdomiro”.
Entrou no carro.
Entrei no carro com ódio de tudo isso, dessa máquina maldita de moer gente. O pior de ser fantoche é quando olhamos pro alto e vemos as cordas.”


“As mulheres querem sua alma. Não é só o seu dinheiro, nem mesmo o carro. Apenas a porra da sua alma, toda a sua essência, e se existe algo que você viveu sem ela, esqueça, anule da sua cabeça, elas percebem como você trata sua mãe, percebem como trata o amigo, como trata a garçonete, elas observam tudo ao redor, não querem você, você é só um ornamento, elas querem todo o universo que o cerca, defeitos já esquecidos, passado recente, trechos de sorriso, afetos antigos.”


“A vida é um pesadelo do qual não se desperta.” (Almeida Garret)


“Ah! Deixa pra lá, problema de família, quando você pensa que tá tudo bem, surge alguém lá do inferno e te aborrece, você sabe, ninguém sabe machucar mais do que família.”

domingo, 17 de abril de 2016

História do cerco de Lisboa – José Saramago

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-7164-035-1
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 352
Sinopse: A história da tomada de Lisboa aos mouros no ano de 1147 e a crônica de um inesperado encontro amoroso na Lisboa de hoje – duas narrativas, tecidas e entretecidas de maneira brilhante, que fazem deste livro uma densa e fascinante meditação sobre a natureza e as relações entre a ficção e a história, o vivido e o narrado. Um dos mestres da literatura portuguesa contemporânea – Prêmio Nobel de Literatura – Saramago explora neste livro as possibilidades do romance enquanto meio de recriar o passado e o presente.

“Enquanto não alcançares a verdade, não poderás corrigi-la.
Porém, se a não corrigires, não a alcançarás.
Entretanto, não te resignes.”


“Ainda que, para que não quede sem exame e consideração o que esteja em contrário destas oposições entre oração e guerra, aqui se pudesse recordar já, estando tão próximo o tempo e sendo tantas e tão preclaras as testemunhas ainda vivas, aqui se pudesse recordar, tornamos a dizer, aquele milagre de Ourique, celebérrimo, quando Cristo apareceu ao rei português, e este lhe gritou, enquanto o exército prostrado no chão orava, Aos infiéis, Senhor, aos infiéis, e não a mim que creio o que podeis, mas Cristo não quis aparecer aos mouros, e foi pena, que em vez da crudelíssima batalha poderíamos, hoje, registar nestes anais a conversão maravilhosa dos cento e cinquenta mil bárbaros que afinal ali perderam a vida, um desperdício de almas de bradar aos céus. É assim, nem tudo se pode evitar, nunca a Deus faltamos com os nossos bons conselhos, mas o destino tem lá as suas leis inflexíveis, e quantas vezes com inesperados e artísticos efeitos, como foi este de haver podido aproveitar-se Camões do inflamado grito, distribuindo-o tal qual em dois versos imortais. É bem verdade que na natureza nada se cria e nada se perde, tudo se aproveita.
Eram bons aqueles tempos, quando, para receber satisfação, não tínhamos mais que pedir com as palavras apropriadas, mesmo em casos difíceis, por assim dizer já desenganado o paciente e sem esperança de remédio. Exemplo disto é este mesmo rei, que, tendo nascido de pernas encolhidas, ou atrofiadas, no falar de agora, foi extraordinariamente curado, sem que médico algum lhe tivesse posto a mão em cima, e se puseram não lhe adiantou. E até, certamente por ser pessoa fadada para a realeza, nem há sinais de que tenha sido preciso importunar as altas potestades, à Virgem e ao Senhor nos referimos, não aos anjos da sexta hierarquia, para que se produzisse o salutar sucesso, graças ao qual, sabe-se lá, Portugal deve talvez a sua independência. Foi caso que estando dormindo em sua cama D. Egas Moniz, aio do menino Afonso, lhe apareceu Santa Maria em visão e disse, D. Egas Moniz, dormes, e ele, que não sabia se estava acordado ou a sonhar, perguntou, para ter a certeza, Senhora, quem sois vós, e ela respondeu, com bons modos, Eu sou a Virgem, e te mando que vás a Carquere, que fica no concelho de Resende, e cava em esse lugar e acharás uma igreja que em outro tempo foi começada em meu nome, e acharás também uma imagem minha, conserta-a que bem necessitada está depois do triste abandono, e depois farás aí vigília, e porás o menino sobre o altar, e fica sabendo que nesse instante quedará sano e curado, e cuida bem dele para o diante, que o meu Filho sei eu que tem na sua ideia dar-lhe cargo de destruir os inimigos da fé, e claro está que não poderia fazê-lo assim de pernas curtas. Acordou D. Egas Moniz o mais alegre que se pode, reuniu o pessoal e, cavalgando a mula, foi dali a Carquere e mandou cavar no sítio indicado pela Virgem, e não é que lá estava a igreja, mas a surpresa é nossa, não deles, porque naqueles abençoados tempos não eram nunca gratuitos ou enganosos os avisos superiores. Verdade é que não cumpriu D. Egas precisamente os ditados da Virgem, que muito explicado ficou ter-lhe ela mandado que cavasse, entendemos nós que por suas próprias mãos, e vai ele, que fez, deu ordem que outros cavassem, os servos da gleba, provavelmente já naquela época havia destas desigualdades sociais. Agradecemos à Virgem não ser ela melindrosa a pontos de fazer encolher outra vez as pernas do menino Afonso, porque, assim como há milagres para o bem, também os tem havido para o mal, testemunhem-no aqueles infelizes porcos da Escritura que se lançaram ao precipício quando o Bom Jesus lhes meteu no corpo os mafarricos que no endemoninhado estavam, de que resultou padecerem martírio os inocentes animais, e só eles, pois muito maior tinha sido a queda dos anjos rebeldes, logo feitos demônios, quando do motim, e, que se saiba, não morreu nenhum, com o que não se pode perdoar a imprevidência de Deus Nosso Senhor que por essa desatenção deixou fugir a oportunidade de lhes acabar com a raça por uma vez, de bom conselho é o provérbio que previne, Quem o seu inimigo poupa, às mãos lhe morre, oxalá não venha Deus a ter de arrepender-se um dia, tarde de mais. Ainda assim, se nesse fatal instante tiver tempo de recordar a sua vida passada, esperemos que se lhe faça luz no espírito e possa compreender que nos deveria ter poupado, a todos nós, frágeis porcos e humanos, aqueles vícios, pecados e sofrimentos de insatisfação que são, diz-se, a obra e a marca do maligno. Entre o martelo e a bigorna somos um ferro em brasa que de tanto lhe baterem se apaga.”


“Errar, disse-o quem sabia, é próprio do homem, o que significa, se não é erro tomar as palavras à letra, que não seria verdadeiro homem aquele que não errasse.”


“Ninguém está satisfeito com o que lhe coube em sorte.”


“O diretor literário calou-se à espera de que o revisor fizesse uma declaração sobre as suas futuras intenções, ao menos as conscientes, já que as outras, se as havia, pertenciam aos planos da inconsciência, indevassáveis. Raimundo Silva percebeu o que se esperava dele, é verdade que as palavras necessitam palavras, por isso se diz Palavra puxa palavra, mas também é certo que Quando um não quer dois não discutem, imaginemos que o Romeiro deixava sem resposta a curiosidade fatal do Escudeiro Telmo, o mais provável seria comporem-se as coisas e não haveria conflito, drama, morte, desgraça geral, ou então suponhamos que um homem perguntou a uma mulher, Amas-me, e ela se cala, olhando-o apenas, esfíngica e distante, recusando dizer o Não que o destroçará ou o Sim que os destroçaria, concluamos, pois, que o mundo estaria bem melhor se se contentasse cada um com o que vai dizendo, sem esperar que lhe respondessem, e, mais ainda, sem o pedir nem o desejar.”


“Não se fica mais molhado caindo ao mar oceano do que ao rio da nossa aldeia.”


“Ela não podia, positivamente não podia, saber como ele ocupara o tempo durante este dia, o que fez foi deitar-se a adivinhar, enfim, coisas de mulheres, todas se imaginam prodigiosas sibilas e pitonisas, e acabam por enganar-se como o mais comum dos homenzinhos a quem geralmente consideram com irônica e tolerante benevolência.”


“Do dia o que se espera é movimento e ruído.”


“O cão é o melhor amigo do homem, pelo jeito que leva o mundo bem pode acabar por ser o último.”


“Foi neste instante que Raimundo Silva, sem meditar nem premeditar, tão alheio ao ato como às consequências dele, tocou levemente com dois dedos a rosa branca, e a doutora Maria Sara olhou-o de frente, estupefata, não o estaria mais se ele tivesse feito aparecer esta flor no solitário vazio ou cometido qualquer outra proeza similar, o que de todo não se esperaria é que mulher tão segura de si de repente se perturbasse a ponto de cobrir-se-lhe de rubor o rosto, foi obra de um segundo, mas flagrante, realmente parece incrível que se possa corar assim nos tempos que correm, que teria ela pensado, se algo pensou, foi como se o homem, ao tocar a rosa, tivesse aflorado na mulher uma escondida intimidade, daquelas da alma, não do corpo. Mas o mais extraordinário de tudo foi que Raimundo Silva corou também, e por mais tempo que ela permaneceu corado, segundamente porque se sentiu ridículo de morrer, Que vergonha, disse a si mesmo ou virá a dizê-lo. Em situações como esta, faltando a ousadia, e não nos perguntemos, Ousadia para quê, a salvação está na fuga, é bom conselheiro o instinto de conservação, o pior vem depois, quando repetimos as horríveis palavras, Que vergonha, todos passamos já por horrores assim, de raiva e humilhação damos socos na almofada, Como pude ser tão estúpido, e não sabemos responder, provavelmente porque seria preciso ser muito inteligente para conseguir explicar a estupidez, o que nos vale é estarmos protegidos pela escuridão do quarto, ninguém nos vê, se bem que tenha a noite, e por isso a tememos tanto, esse condão mau de tornar irremediáveis e monstruosas até as pequenas contrariedades, quanto mais uma desgraça como a de agora.”


“Mas nós devemos é atender a Raimundo Silva, que tem uma tarefa a cumprir e que logo de entrada se vê a braços com a dificuldade de conviver com personagem tão duvidosa, este Mogueime, Moqueime ou Moigema, que, além de mostrar não saber exatamente quem é, porventura está maltratando a verdade que, como testemunha presencial, seria seu dever respeitar e transmitir aos vindouros, nós.
Porém, disse o outro, atire a primeira pedra aquele que se achar sem pecado. Realmente, é muito fácil acusar Mogueime mente, Mogueime mentiu, mas nós, aqui, maiormente instruídos nas mentiras e verdades dos últimos vinte séculos, com a psicologia lavrando as almas, e a mal traduzida psicanálise, mais o resto, para cuja simples enunciação se requereriam cinquenta páginas, não deveríamos levar à ponta de intransigente espada os defeitos alheios se tão indulgentes costumamos ser com os nossos próprios, a prova é não haver lembrança de alguém que, julgador severo e radical dos atos por si cometidos, levasse o executório ânimo ao extremo de apedrejar o próprio corpo. Aliás, regressando ao passo evangélico, é-nos lícito duvidar que o mundo estivesse naquele tempo tão empedernido de vícios que para salvar-se carecesse do Filho de um Deus, pois é o próprio episódio da adúltera que aí está a demonstrar-nos que as coisas não iam assim tão más lá na Palestina, agora sim que estão péssimas, veja-se como naquele remoto dia nem mais uma pedra foi lançada contra a infeliz mulher, bastou ter proferido Jesus as fatais palavras e logo ali se recolheram as mãos agressoras, por esta maneira declarando, confessando e mesmo proclamando os seus donos que sim senhor ele tinha razão, em pecado estavam. Ora, uma gente que foi capaz de reconhecer-se culpada publicamente, ainda que de modo implícito, não estaria de todo perdida, conservava intacto em si um princípio de bondade, autorizando-nos portanto a concluir, com mínimo risco de erro, que terá havido alguma precipitação na vinda do Salvador. Hoje, sim, que teria valido a pena, pois não só os corruptos perseveram no caminho da sua corrupção, como se vai tornando cada dia mais difícil encontrar razões para interromper um apedrejamento começado.”


“Espere um momento, por favor, vou ver se a doutora Maria Sara pode receber a chamada, nunca momento nenhum foi tão breve, Não desligue, vou passar o telefone, silêncio. Raimundo Silva imaginou a cena, a mulher, com certeza uma criada, retirando a ficha da tomada, transportando o aparelho com as duas mãos, amparado ao peito, puerilmente assim o via, e entrando num quarto em penumbra, depois baixando-se para ligar a ficha nesta outra tomada, Como está, a voz soou inesperada, Raimundo Silva esperara ouvir ainda a criada dizer algo como Vou passar à senhora doutora, seriam três ou quatro segundos mais de adiamento, em vez disso a pergunta direta, Como está, invertendo a situação, a ele, sim, é que competia exprimir interesse pelo estado da enferma, Estou bem, obrigado, e acrescentou rapidamente, Vinha saber se está melhor, Como foi que soube que tenho estado doente, Na editora, Quando, Ontem de manhã, Então resolveu telefonar para saber como estou, Sim, Muito obrigada pelo seu cuidado, até agora foi o único revisor a interessar-se, Bom, achei que devia, espero não tê-la incomodado, Pelo contrário, fico-lhe muito grata, estou melhor, penso que amanhã, talvez depois, já poderei ir à editora, Não quero maçá-la mais, desejo-lhe umas rápidas melhoras, Antes de desligarmos, como foi que soube o número do meu telefone, Deu-mo a menina Sara, A outra, Sim, a telefonista, Quando, Já lho disse, ontem de manhã, E só me telefona hoje, Tive medo de ser importuno, Mas venceu o medo, Parece que sim, a prova é que estou a falar consigo, No entanto, deve saber que antes eu quis falar consigo. Durante dois segundos Raimundo Silva pensou em fingir que não recebera o recado, mas acabou por responder, quando já se ia passando o terceiro segundo, Sim, Posso portanto admitir que me telefonou porque não podia deixar de o fazer, uma vez que eu tinha tomado a iniciativa, Admitirá tudo quanto quiser, está no seu direito, mas admita também que se eu pedi o número à telefonista não foi para ficar com ele no bolso, à espera não se sabe de quê, Ficou mesmo à espera não se sabe de quê, A razão foi outra, Qual, Simplesmente falta de coragem. A sua coragem, pelos vistos, limitava-se àquele episódio de revisão de que não gosta de que se fale, De fato, telefono-lhe apenas para saber da sua saúde e desejar-lhe as melhoras, E não acha que é a altura de perguntar-me por que foi que lhe telefonei eu, Por que foi que me telefonou, Não sei se gosto desse tom, Dê importância às palavras, não ao modo, Supus que a sua experiência de revisor lhe teria ensinado que as palavras não são nada sem o tom, Uma palavra escrita é uma palavra muda, A leitura dá-lhe voz, Exceto se for silenciosa, Até mesmo essa, ou julgará o senhor Raimundo Silva que o cérebro é um órgão silencioso, Sou apenas um revisor, faço como faz o sapateiro, que se contenta com a chinela, o meu cérebro sabe de mim, eu não sei nada dele, Interessante observação, Ainda não respondeu à pergunta, Que pergunta, Por que foi que me telefonou, Agora não sei se me apetece dizer-lho, Afinal não sou o único cobarde, Não me lembro de ter falado em cobardia, Falou de falta de coragem, Não é o mesmo, As duas faces duma moeda são diferentes, mas a moeda é uma só, O valor só vai num lado, Não compreendo esta conversa, e acho que não devemos prossegui-la, sem esquecer que é uma imprudência, estando doente como está, Não Lhe fica bem o cinismo, Não sou cínico, Bem sei, portanto escusa de fingir, A sério, creio que já não sabemos o que estamos a dizer, Eu sei muito bem, Então explique-mo, Não precisa de explicações, Está a fugir à questão, É você quem foge à questão, esconde-se atrás de si mesmo, quer que lhe diga o que já sabe, Por favor, Por favor, quê, Acho melhor que desliguemos, este diálogo caiu num equívoco, Porque você o está a empurrar para lá, Eu, Sim, Está enganada, gosto das coisas claras, Então seja claro, diga-me por que é agressivo quando fala comigo, Não sou agressivo com ninguém, não tenho essa qualidade moderna, É agressivo comigo, porquê, Não sou, Desde o dia em que nos conhecemos, se precisa que lho lembre, As circunstâncias, Mas as circunstâncias modificaram-se depois, e a agressividade continuou, Desculpe, nunca tive essa intenção, Agora sou eu que Lhe peço, por favor, não use palavras inúteis, Calo-me, Então ouça, telefonei-lhe porque me sentia só, porque tive curiosidade de saber se estava a trabalhar, porque queria que me desejasse as melhoras, porque, Maria Sara, Não diga o meu nome assim, Maria Sara, eu gosto de si, pausa longa, Isso é verdade, É verdade, Levou tempo a dizer-mo, E talvez nunca lho dissesse, Porquê, Somos diferentes, pertencemos a mundos diferentes, Que é que sabe dessas diferenças todas, nossas e dos mundos, Imagino, vejo, concluo, Essas três operações tanto podem levar à verdade como conduzir ao erro, Admito-o, e o erro maior, neste momento, terá sido dizer-lhe que gosto de si, Porquê, Nada conheço da sua vida particular, se é, Casada, Sim, ou, De qualquer maneira comprometida, como antigamente se dizia, Sim, Imaginemos que sou realmente casada, ou que tenho um compromisso, impedi-lo-ia isso de gostar de mim, Não, E se eu fosse realmente casada, ou tivesse um outro compromisso, impedir-me-ia isso de gostar de si, se tal tivesse de acontecer, Não sei, Então tome nota de que gosto de si, pausa longa, Isso é verdade, É verdade, Ouça, Maria Sara, Diga, Raimundo, mas antes fique a saber que sou divorciada há três anos, que acabei há três meses com uma ligação, que não comecei outra, que não tenho filhos, que quero tê-los, que vivo em casa de um irmão, que a pessoa que o atendeu é a minha cunhada, e não precisa de dizer-me quem é a pessoa que recebeu o meu recado, é a sua empregada, e agora, sim, tem a palavra, senhor revisor, não faça caso, estou quase a rebentar de contentamento, Por que é que gosta de mim, diga-me, Não sei, gosto, E não teme que quando começar a saber, possa começar a não gostar, Às vezes acontece, acontece mesmo muito, Então, Então, nada, o depois só depois é que se conhece, Eu gosto de si, Acho que sim, que gosta, Quando nos veremos, Tão depressa eu me levante deste leito de dor, Onde, Em toda a parte, Agora posso perguntar-lhe que doença é essa, Nada de importância, ou melhor, esta foi a gripe mais importante da minha vida, Daí não me pode ver, mas estou a sorrir, Grande novidade, que até hoje foi coisa que nunca vi na sua boca, Posso dizer-lhe que a amo, Não, diga só que gosta de mim, Já o disse, Então guarde o resto para o dia em que for verdade, se esse dia chegar, Chegará, Não juremos sobre o futuro, esperemo-lo para ver se ele nos reconhece, e agora está débil e febril mulher pede que a deixem descansar, precisa de recuperar forças para a hipótese, acaso provável, de alguém se lembrar de tornar a telefonar-lhe hoje, A quem, a si, Ou a si o sentido da frase tem dois destinatários, depende, A ambiguidade não é sempre um defeito, Até logo, Deixe que me despeça com um beijo, Está a chegar o tempo deles, Para mim já vinha tardando, Só uma pergunta mais, Diga, Já começou a escrever a História do Cerco de Lisboa, Já, Não sei se continuaria a gostar de si se me respondesse que não, adeus.”


“São vagarosos os progressos da verdade.”


“Está também a inteligência, convergência ou relação de causa e efeito de que o computador não se pode gabar, pois que, sabendo tudo, não compreende nada. Dizem.”


“Ao lado tenho uma salita com assentos mais confortáveis, mas penso que se sentirá melhor aqui onde estamos, e tendo dito foi sentar-se à secretária, na única cadeira que restava, ficaram separados pela mesa, era como num consultório, Diga-me de que se queixa, porém Maria Sara não falava, ambos sabiam que era a ele que competia falar agora, que mais não fosse para dar as boas-vindas a quem chegara. E ele falou. Fê-lo num tom uniforme, praticamente sem modulações de persuasão ou insinuação, querendo que cada palavra valesse por si mesma pelo significado nu que naquele momento e naquela situação pudesse alcançar, Vivo sozinho nesta casa, e há muitos anos, não tenho mulher, exceto quando a necessidade aperta, e então continuo a não ter, sou uma pessoa sem atributos especiais, normal até nos defeitos, e não esperava muito da vida, enfim, esperava conservar a saúde porque é uma comodidade, e que o trabalho não me faltasse, a isto, que não é pouco, reconheço, se limitavam as minhas ambições, agora gostaria que a vida me desse o que nunca me lembro de ter tido, o sabor que ela certamente tem. Maria Sara ouvira-o sem desviar os olhos dos dele, salvo por um rápido momento em que a atenção concentrada foi substituída por uma expressão de surpresa e curiosidade, e disse quando Raimundo Silva chegou ao fim, Não estamos, creio eu, a estabelecer as condições de um contrato, nem precisa de me informar do que eu já sabia, É esta a primeira vez que lhe falo das coisas particulares da minha vida, As coisas que julgamos particulares são quase sempre do conhecimento geral, não imagina o que é possível ficar a saber em duas ou três conversas aparentemente desinteressadas, Andou a fazer perguntas a meu respeito, Fiz perguntas a respeito dos revisores que trabalham para a editora, apenas para me ajudar a ter uma ideia, compreende, mas as pessoas geralmente estão sempre dispostas a dizer mais do que se lhes pergunta, é questão de estimulá-las um pouco, de encaminhá-las sem que se apercebam disso, Já tinha notado essa sua habilidade, logo no princípio, Só a uso para bons fins, Não estou a queixar-me. Raimundo Silva passou a mão pela testa, hesitou um segundo, depois disse, Pintava o cabelo, deixei de pintá-lo, as raízes brancas não são um espetáculo agradável, desculpe, daqui por um tempo estarei no meu natural, Pois eu deixei de o estar, por sua causa fui hoje ao cabeleireiro tingir as veneráveis cãs, Eram tão poucas que não me parece que valesse a pena, Então tinha reparado, Olhei-a suficientemente de perto, como me terá olhado a mim para perguntar-se como é que um homem com a minha idade não tinha cabelos brancos, Nunca me perguntei tal coisa, metia-se pelos olhos dentro que pintava o cabelo, a quem é que pensa que andava a enganar, Provavelmente, só a mim mesmo, Como eu decidi agora começar a enganar-me, É igual, Que é que é igual, A sua razão para pintar, a minha para deixar de pintar, Explique melhor, Eu deixei de pintar o cabelo para ser como sou, E eu, por que o pintei eu, Para continuar a ser como é, Admirável casuística, vou ter de praticar ginástica mental todos os dias para estar à sua altura, Não sou o mais alto dos dois, sou apenas o mais velho. Maria Sara sorriu de leve, É uma evidência irremovível que, pelos vistos, o preocupa, Não me tem preocupado, a idade de cada um de nós só tem um real significado em relação à idade do outro, suponho que serei novo para uma pessoa de setenta anos, mas não tenho dúvidas de que para um rapaz de vinte estou na velhice, E em relação a mim, como se vê, Agora que tingiu os seus poucos cabelos brancos e eu estou a deixar aparecer todos os meus, sou um homem de setenta anos diante duma rapariga de vinte, As suas contas estão erradas, só quinze anos nos separam, Então tenho trinta e cinco anos. Riram ambos, e Maria Sara disse Vamos combinar uma coisa entre nós, Quê, Que o tema da idade e das idades ficou esgotado nesta conversa, Tentarei não voltar a ele, Convirá que faça mais do que tentar, porque eu não serei a interlocutora, Falarei com o espelho, Falará consigo mesmo, se lhe dá gosto, mas não foi para isso que vim a sua casa, Imagino que perguntar-lhe para que veio seria presunçoso da minha parte, Ou grosseiro, Não estou a dizer o que deveria, de repente sai-me uma frase que estraga tudo, Que esse medo o não apoquente, não estragou nada, a verdade é que estamos os dois assustados, Se eu me levantar daqui e lhe for dar um beijo, talvez, Não o faça, mas se o fizer não o anuncie primeiro, Cada vez pior, outro no meu lugar saberia como proceder, Outro no seu lugar teria aqui outra mulher, Rendo-me, Disse-lhe que era somente uma visita, pedi-lhe que esperasse, É o que faço, mas eu sei já o que quero, Concedo que seja importante saber o que se quer, toda a gente tem palavras dessas na boca, mas penso que é muito melhor querer o que se sabe, leva mais tempo, é certo, e as pessoas não têm paciência, Rendo-me outra vez, que posso então fazer, Pode mostrar-me a sua casa, habitualmente é por aí que se começa, Diz-me como vives e eu saberei quem és, Pelo contrário, dir-te-ei como não deves viver se me disseres quem és, Ando a tentar dizer-lhe quem sou, E eu a tentar descobrir como vamos viver.”


“Estava um crepúsculo suave, a friagem do entardecer mal se sentia. Lado a lado, com os cotovelos apoiados na varanda, Maria Sara e Raimundo Silva olhavam em silêncio, conscientes das suas mútuas presenças, o braço de um sentindo o braço do outro, e, pouco a pouco, a tepidez do sangue. O coração de Raimundo Silva batia com força, ressoava-lhe nos ouvidos, o de Maria Sara parecia querer abalá-la da cabeça aos pés. O braço dele chegou-se um pouco mais, o dela permaneceu onde estava, expectante, porém Raimundo Silva não ousou ir mais longe, aos poucos invadira-o o medo, Posso falhar, pensava, não via muito claramente, ou não queria ver, em que é que poderia falhar, mas essa mesma indeterminação fazia aumentar o seu pânico. Maria Sara sentiu que todo ele recuava, como um caracol que se recolhe à proteção da concha, mais e mais fundo, e disse cautelosamente, É uma bonita vista. As primeiras luzes apareciam nas janelas ainda tocadas por um resto de claridade diurna, os candeeiros da rua acabavam de acender-se, alguém ali perto, no Largo dos Lóios, falou em voz alta, alguém respondeu, mas as palavras ficaram incompreensíveis. Raimundo Silva perguntou, Ouviu aqueles, Ouvi, Não consegui perceber o que disseram, Eu também não, Nunca saberemos até que ponto as nossas vidas mudariam se certas frases ouvidas mas não percebidas tivessem sido entendidas, O melhor, penso eu, seria começar por não fazer de conta que não percebemos as outras, as claras e diretas, Tem toda a razão, mas há pessoas a quem atrai mais o duvidoso que o certo, menos o objeto do que o vestígio dele, mais a pegada na areia do que o animal que a deixou, são os sonhadores, É, evidentemente, o seu caso, Até certo ponto, embora tenha de lembrar-lhe que não foi minha a ideia de escrever esta nova história do cerco, Digamos que eu pressenti que tinha na minha frente a pessoa indicada, Ou que, prudentemente, prefere não ter a responsabilidade dos seus sonhos, Estaria aqui eu se essa fosse a verdade, Não, A diferença é que eu não busco pegadas na areia.”


(No cerco de Lisboa, em 1147) “Agora trata-se ainda de enterrar os trinta mortos nacionais que custou a tentativa de assalto à Porta de Ferro, e esses levá-los-ão as barcas ao outro lado do esteiro, e pela encosta acima, a braço, em padiolas improvisadas com paus toscamente aparelhados. À beira da fossa comum serão despidos das roupas que possam aproveitar a vivos, se não estão molestamente encortiçadas de sangue, e ainda assim algum menos escrupuloso e delicado a essas levará, donde vem a resultar que, no geral dos casos, os mortos baixam à sepultura tão nus como a terra que os recebe.
Alinhados, com os pés descalços a tocar a primeira fímbria do lodo, que as marés altas e as ondas mantêm fresco e mole, os mortos, sob os olhares e chufas dos mouros vencedores, lá no alto dos adarves, esperam a hora de embarcar. A tardança está em serem, para o transporte, menos os necessários do que os voluntários, o que poderia surpreender-nos tratando-se de tarefa tão penosa e lúgubre, mesmo levando em linha de conta o aliciante da compensação vestimentária, mas é caso que toda a gente quer ir realmente de barqueiro e cangalheiro, porque ali ao lado do cemitério se acabou de instalar, nestes dias, o bairro da putaria, até agora dispersas as mulheres por esses barrocos e revessas mais escusas à espera de ver em que pararia esta guerra, se seria chegar, ver e vencer, e aí qualquer arrumo precário serviria, ou se ia dar em cerco prolongado, como tudo indica que venha a ser, portanto apetecendo maiores comodidades, e nesta circunstância escolhe-se um espaço sombreado, por estar quente o tempo e puxar do corpo o exercício, e armam-se umas quantas choupanas de pau-a-pique e ramagens a fazer de toldo, para cama não se requer mais que uma paveia de feno ou umas rústicas ervas rodilhadas que com o tempo se volverão terriço confundido com a poeira dos mortos. Não seriam precisos extremos de erudição para notar, agora, como já naqueles medievos tempos, apesar da resistência da Igreja aos símiles clássicos, andavam emparceirados Eros e Tanatos, neste caso com Hermes por intermediário, pois não poucas vezes com as mesmas roupas dos mortos se pagavam os bons serviços de mulheres que, por estarem na infância da arte e a principiar um país, ainda acompanhavam com verdade e alegria os transportes do cliente.”


“O exército não terá de avisar as famílias por telegrama, No cumprimento do seu dever caiu no campo de honra, maneira sem dúvida mais elegante que explicar mui por claro, Morreu com a cabeça esmagada por uma pedra que um filho da puta de um mouro atirou lá de cima, é que estes exércitos ainda não têm cadastro, os generais, quando muito, e muito pela rama, sabem que ao princípio tinham doze mil homens e daqui para diante o que têm a fazer é ir descontando todos os dias uns tantos, soldado na frente de batalha não precisa de nome, Ó sua besta, se recuas levas um tiro nos cornos, e ele não recuou, e a pedra caiu, e ele morreu. Chamavam-lhe Galindo, é este, em estado tal que nem a própria mãe que o pariu o reconheceria, amolgada a cabeça de um lado, o rosto coberto de sangue seco, e tem à direita Remígio, de setas trespassado, duas de lado a lado, que os dois mouros que ao mesmo tempo o escolheram para alvo tinham olho de falcão e braço de sansão, mas não perdem pela demora, daqui a alguns dias tocar-lhes-á a vez, e ficarão, como estes expostos ao sol, à espera da sepultura, dentro da cidade que estando cercada já não se pode chegar ao cemitério, onde os galegos cometeram as mais nefandas profanações. A seu favor, se tal se pode dizer, só têm os mouros as despedidas da família, o alarido das mulheres, mas isso, quem sabe, até será pior para o moral dos tropas, sujeitos a um espetáculo de lágrimas de dor e sofrimento, de lutos sem consolação, Meu filho, meu filho, enquanto no acampamento cristão tudo se passa entre homens, que as mulheres, se estão lá, é por outros motivos e para outros fins, abrir as pernas a quem vier, soldado morto, soldado posto, as diferenças de comprimento e grossura, com o hábito, nem se notam, salvo casos excepcionais.”


“Jantaram num restaurante da Baixa, ela quis saber como ia a história do cerco, Menos mal, creio, para o absurdo que é, Ainda te falta muito para terminá-la, Poderia acabá-la em três linhas, no gênero depois casaram e foram muito felizes, no nosso caso os portugueses num supremo esforço tomaram a cidade, ou então ponho-me a enumerar as armas e as bagagens, a enredar as pessoas e as personagens, e nunca mais chegarei ao fim, uma alternativa seria deixá-la ficar tal qual está, agora que já nos encontramos, Preferiria que a terminasses, tens de resolver as vidas daquele Mogueime e daquela Ouroana, o resto será menos importante, de toda a maneira sabemos como a história terá de acabar, a prova é estarmos a jantar em Lisboa, não sendo mouros nem turistas em terra de mouros, Provavelmente passaram por aqui as barcas que levaram ao cemitério os mortos do ataque às portas da cidade, Quando voltarmos para casa vou pôr-me a ler desde o princípio, Se não estivermos ocupados em questões mais interessantes, Temos muito tempo, caro senhor, Aliás, a história é curta, em meia hora terás lido tudo, limitei-me, como verás, ao que me parecia poder ser essencialmente decorrente do fato de os cruzados se terem ido embora sem ajudar os portugueses, E que daria um romance, É possível, mas quando me meteste nestes trabalhos sabias que eu não passava de um normal e modesto revisor, sem outras qualidades, As suficientes para teres aceitado o repto, Deverias chamar-lhe antes provocação, Seja provocação, Que ideia tinhas tu na cabeça quando me desafiaste, que buscavas, Naquela altura não o via com muita clareza, por muitas explicações que pudesse ter dado a mim própria, ou a ti, quando as pediste, agora já é evidente que era a ti que buscava, Este tipo magro e sisudo, com os seus cabelos mal pintados, vivendo fechado em casa, triste como um cão sem dono, Um homem que me agradou logo que o vi, um homem que fizera deliberadamente um erro onde estava obrigado a emendá-los, um homem que percebera que a distinção entre não e sim é o resultado duma operação mental que só tem em vista a sobrevivência, É uma boa razão, É uma razão egoísta, E socialmente útil, Sem dúvida, embora tudo dependa de quem forem os donos do sim e do não, Orientamo-nos por normas geradas segundo consensos, e domínios, mete-se pelos olhos dentro que variando o domínio varia o consenso, Não deixas saída, Porque não há saída, vivemos num quarto fechado e pintamos o mundo e o universo nas paredes dele, Lembra-te de que já foram homens à lua, O seu quartinho fechado foi com eles, És pessimista, Não chego a tanto, limito-me a ser cética da espécie radical, Um cético não ama, Pelo contrário, o amor é provavelmente a última coisa em que o cético ainda pode acreditar, Pode, Digamos antes que precisa.”


“Veio a senhora Maria à hora do costume, depois do almoço, e mal entrou pôs-se a fungar de um modo que tanto tinha de discreto como de ostensivo, cometimento em extremo difícil de alcançar, pois leva a dupla finalidade de parecer disfarçar que se pretenda saber algo, mostrando ao mesmo tempo, que não se está disposto a permitir que o outro se dê por desentendido. É, por excelência, uma arte diplomática, mas dirigida pela intuição, se não pelo instinto, e que, em geral, atingia o seu objetivo principal, que era o de criar no revisor um vago sentimento de pânico, como se visse prestes a serem revelados em público os seus mais ocultos segredos. A senhora Maria é sádica e não o sabe. Deu as boas-tardes da porta do quarto, fungou duas vezes para que Raimundo Silva percebesse que lá por ser ela uma pobre mulher-a-dias, ainda era dotada de olfato de bastante qualidade para captar o que no ar tenha ficado de um perfume. Raimundo Silva respondeu à saudação e continuou a escrever, limitando-se a lançar um olhar rápido para o lado dela, decidido a fazer de conta que não sabia o que estava a passar-se, a senhor Maria, assombrada primeiro e logo com a expressão especial que significa, Bem me queria a mim parecer, fitando a cama, que, em vez do puxão sumário que Raimundo Silva aprendera a dar-lhe para que não se confundisse com tarimba de maltês, apresentava-se irrepreensível, como só mãos femininas são capazes. Tossiu para chamar a atenção, mas Raimundo Silva fingia-se distraído, embora o seu coração estivesse em estúpido alvoroço, Não tenho que dar contas da minha vida, pensava, e indignou-se consigo mesmo por buscar justificações cobardes, ele que havia começado agora um amor assim, inteiro, então levantou a cabeça, perguntou, Quer alguma coisa, num tom seco, sacudido, que desarmou a impertinência da mulher, Não senhor, não quero nada, estava só a olhar. Raimundo Silva podia ter-se contentado com a atrapalhação da resposta, mas preferiu desafiar, A olhar o quê, Nada, a cama, Que tem a cama, Nada, está feita, Pois está, e daí, Nada, nada, a senhora Maria virou costas, acobardara-se, não fez a pergunta que lhe ardia na língua, Quem a fez, e assim não soube que resposta lhe daria Raimundo Silva, o qual, por sua vez, tão-pouco a sabia. Durante todo o tempo a senhora Maria não voltou ao quarto, como se estivesse significando a Raimundo Silva que considerava aquela parte da casa já fora da sua jurisdição, porém, ou não pôde ou não quis abafar a frustração mal-humorada, não abafando também os ruídos próprios do seu trabalho e, pelo contrário, exagerando-os. Raimundo Silva resolveu levar o caso a sorrir, mas o abuso tornava-se notório, por isso veio ao corredor, Menos barulho, por favor, que estou a trabalhar, a senhora Maria podia ter-lhe respondido que também ela estava, e que não tinha a sorte de certas pessoas que podem ganhar a vida sentadas, quietas e caladas, mas a precisão, mesmo tão conflitiva como esta, pôde mais do que a vontade, e calou-a. O que sobretudo irrita a senhora Maria é que tão grandes mudanças estejam a passar-se à sua revelia, não fosse ela a espertíssima pessoa que é, e um dia destes, inesperadamente, dava com outra mulher em casa, sem poder atirar-lhe a pergunta mais apetecida, Quem é a senhora, quem a chamou cá, os homens são uns insensíveis e uns incompetentes, que é que custava a Raimundo Silva uma meia palavra de risonha confidência por muito que doesse sempre seria um lenitivo para tão amargo ciúme, que esse é o mal de que sofre a senhora Maria, e não sabe. Outras considerações, das práticas e prosaicas, ocupam também os seus pensamentos, sendo a principal o risco em que poderá vir a estar o emprego se à tal mulher, supondo que não se trate de um arranjinho de ocasião, lhe der para implicar com o seu trabalho, Limpe isto outra vez, exibindo a ponta de um dedo sujo da poeira dum friso de porta, esse gesto odioso a que nenhuma mulher-a-dias até hoje se lembrou de responder com uma frase que entraria na história, Se você o meter no cu sai de lá mais sujo. Pobre de quem veio ao mundo para obedecer, pensa a senhora Maria, e volta a limpar o que já estava limpo, enquanto, sem ver porquê, lhe sobem as lágrimas do coração aos olhos, quis o acaso que isto acontecesse diante do espelho da casa de banho, à senhora Maria, neste momento, nem os seus lindos cabelos a consolam.
Com tudo isto, não está excluído que a senhora Maria venha a gostar de Maria Sara, também do coração se pode esperar tudo, até a harmonia das suas contradições.”


“Estás a falar de mim, bem o sei, mas o que dizes não me agrada, Calculo, Dure esta relação o que durar, quero vivê-la limpamente, gostei de ti pelo que és, presumo que o que sou não te impede de gostares de mim, e basta, Desculpa-me, Não adianta pedires desculpa, o mal está em vocês, homens, todos, a macheza, quando não é a profissão é a idade, quando não é a idade é a classe social, quando não é a classe social é o dinheiro, alguma vez vocês se decidirão a ser naturais na vida, Nenhum ser humano é natural, Não é preciso ser-se revisor para saber isso, uma simples licenciada não o ignora, Parece que estamos em guerra, Claro que estamos em guerra, e é guerra de sítio, cada um de nós cerca o outro e é cercado por ele, queremos deitar abaixo os muros do outro e continuar com os nossos, o amor será não haver mais barreiras, o amor é o fim do cerco.”

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A louca de Maigret – Georges Simenon

Editora: L&PM
ISBN: 978-85-254-1906-4
Tradução: Paulo Neves
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 160
Sinopse: Uma velha senhora, Léontine, não é levada a sério pela polícia quando reclama que parece estar sendo atormentada por alguém. Continuamente ela encontra seus utensílios domésticos dispostos em diferentes lugares da casa. Mas, então, ela é encontrada morta. Maigret não consegue encontrar nenhuma pista, apesar de haver evidência que uma arma de fogo esteve na casa. A atenção se volta para a sobrinha da senhora, Angèle, e seu amante, o qual tem conexões com alguns gangsters. Um revólver um tanto incomum está no centro do mistério.



“– Corro certamente um perigo, mas você vai pensar que digo disparates. Os jovens tendem a achar que as pessoas velhas são caducas.”


“– Suportamos o vinho e o álcool durante anos, depois chega uma idade em que o organismo não os tolera mais.”


“– Esta manhã, na sua casa, encontramos vestígios dessa arma que ficou escondida por certo tempo em cima do seu guarda-roupa.
– Quem afirma isso é o senhor.
– Os peritos comprovarão. Ou foi a senhorita que pôs a arma ali, ou foi seu amante.
– Não gosto dessa palavra.
– Ela a incomoda?
– É inexata, pois não havia amor entre nós.”

Idade Média (I): Bárbaros, Cristãos e Muçulmanos – Umberto Eco (org.)

Editora: Dom Quixote

ISBN: 978-9722044790

Revisão: Rita Bento

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 934

Sinopse: Umberto Eco, com a colaboração dos mais importantes medievalistas de diversas disciplinas, acompanha-nos nesta viagem envolvente e surpreendente através da sociedade, arte, história, literatura, música, filosofia e ciência deste período intenso da história da civilização europeia.


 

“A Idade Média anterior ao ano 1000 era de certeza um período de indigência, fome e insegurança em que circulavam histórias de um santo subitamente aparecido que recuperava uma foice que o aldeão deixara cair ao poço: histórias que nos permitem compreender que o ferro se tornara naquela época tão raro que a perda da foice podia significar a impossibilidade definitiva de amanhar a terra.”

 

 

“Ao falar nos seus Historiarum Libri de acontecimentos ocorridos apenas 30 anos depois do fim do milênio, Rodolfo, o Glabro, descreve-nos uma escassez provocada por um tempo tão inclemente que, principalmente por causa das inundações, não se conseguia encontrar momento propício nem para a sementeira nem para a colheita. A fome tornava esqueléticos os pobres e os ricos, e – quando já não havia mais animais para comer – comia-se toda a espécie de bicho morto e “outras coisas que só de falar causam calafrios”, tendo havido quem se visse obrigado a ingerir carne humana. Os viajantes eram agredidos, abatidos, cortados em pedaços e cozidos, e aqueles que se deitavam ao caminho na esperança de fugir à fome eram degolados de noite e comidos por quem os hospedava. Havia quem atraísse crianças, mostrando-lhes um fruto ou um ovo, para as esganar e comer. Em muitos sítios foram exumados e comidos cadáveres: certo homem que levara carne humana já cozida para o mercado de Tournus foi descoberto e colocado na fogueira, mas depois foi também queimado outro que fora de noite tirar a carne de onde o haviam enterrado.

A população, cada vez menos numerosa e mais débil, era ceifada por doenças endêmicas (tuberculose, lepra, úlceras, eczemas, tumores) e por tremendas epidemias como a peste. É sempre difícil fazer cálculos demográficos pelos milênios passados, mas, segundo certos autores, a Europa, que no século III poderia ter entre 30 e 40 milhões de habitantes, estava reduzida no século VII a 14 ou 16 milhões. Pouca gente a cultivar pouca terra e pouca terra a alimentar pouca gente. Mas os números modificam-se com a aproximação da viragem do milênio e de novo se fala de 30 ou 40 milhões de habitantes no século XI; e no século XIV já a população da Europa oscilará entre os 60 e os 70 milhões. Ainda que os números não sejam exatos, podemos dizer que a população duplicou, pelo menos, em quatro séculos.”

 

 

“Na verdade, a fragmentação do Ocidente romano não pode ser atribuída a um único acontecimento deflagrante. A crítica histórica está de acordo na reconstrução das últimas fases do período tardo-antigo como um momento convulso e dramático da história de Roma, cuja queda, já irreversível, se prolonga por decênios cobrindo, grosso modo, mais de um século.

Por outro lado, a perda do domínio, por parte do governo central, das províncias imperiais, que compreendem a região norte-africana, a Península Ibérica, a Gália e as Ilhas Britânicas, é o desfecho de um longo processo de falência política e, principalmente, militar que, tendo embora na sua origem um decisivo fator externo representado pelas invasões bárbaras, tem a sua primeira e decisiva causa numa multiplicidade de elementos internos, como o gigantismo da administração, a vasta corrupção das instituições, a retração do comércio, o declínio das cidades e a reduzida vitalidade demográfica da população. Destes fatores de debilidade interna resulta a crescente incapacidade de providenciar a defesa dos territórios imperiais e respectivos habitantes, cuja tutela é frequentemente confiada a exércitos compostos, em grande parte, por milícias bárbaras, o que rapidamente favorece uma notável infiltração de soldados germânicos nas próprias hierarquias militares que, por sua vez, preludia a instalação estável dos seus povos no interior das regiões ocidentais do império. Até aos anos 40 do século V, os romanos tentam opor uma forte resistência ao avanço dos povos germânicos. A derrota de Ravena, capital do império do Ocidente, onde, à frente das tropas bárbaras de hérulos, ciros, turcilingos e rúgios, Odoacro (c. 434-493) depõe em 476 o imperador Rômulo Augústulo (459-476, imperador desde 475) e envia a Constantinopla as insígnias imperiais, sela definitivamente este processo de infiltração do elemento bárbaro e de dissolução da unidade imperial dos ocidentais que se iniciara há vários séculos.”

 

 

“Os motivos por que falta no mundo romano uma compilação oficial das normas (jurídicas) podem ser identificados segundo várias direções: o peso dos costumes (mores), particularmente importante em Roma, que impede que se mude radicalmente uma tradição jurídica que não prevê códigos; o fato de, pelo menos até aos primeiros decênios do principado, o direito se ter caracterizado em sentido fortemente jurisprudencial; a consequente dificuldade de se compilar um direito que nasce para uma cidade-estado, mas que tem de ser aplicado a um império universal e cosmopolita. De qualquer modo e seja qual for a explicação que se queira dar, fica um dado objetivo: até muito perto do fim da sua história, Roma nunca tem uma compilação oficial das suas normas.

A partir do século III, alguns juristas particulares preparam para uso das escolas e dos operadores do direito, segundo determinados sistemas expositivos, umas recolhas de leis imperiais (as leges), como no caso do Codex Gregorianus e do Codex Hermogenianus, ou de trechos da jurisprudência antiga (os iura), ou de ambas estas fontes. Em 429, o imperador do Oriente, Teodósio II (401-450, imperador desde 408), promove uma primeira codificação oficial; renunciando aos projetos iniciais mais ambiciosos e depois de laboriosas diligências, manda compilar um código, que, embora não nos tenha chegado na íntegra, conhecemos com o nome de Codex Theodosianus, em que estão contidas as constituições imperiais promulgadas depois de Constantino, o primeiro imperador que se converte ao cristianismo.

Se as coletâneas se tivessem limitado às privadas, ou a esta de Teodósio II, os vindouros teriam recebido apenas uma pequeníssima parte do direito romano (e não será preciso sublinhar que a grande maioria das obras originais se perdeu), e a história do direito teria, decerto, tomado características muito diferentes em comparação com aquilo que foi a sua evolução na Europa ao longo dos séculos seguintes à queda de Roma. Daí a enorme importância da compilação justiniana (c. 482-565) na história do direito de todos os tempos.”

 

 

“O cristianismo, que se torna religião de Estado quando o império já está em declínio, acompanha-o nos seus destinos; e, segundo muitos historiadores, além do concurso de outros fatores – como as invasões dos bárbaros, a anarquia militar, o relaxamento dos costumes e das virtudes cívicas, a fragmentação do poder –, é justamente a nova religião que desfere o golpe de misericórdia em Roma, ao instalar-se pouco a pouco sobre as cinzas do império decrépito, herdando a sua autoridade, enquanto no Oriente tem pela frente uma estrutura estatal centrada e eficiente que mantém a Igreja sob o seu domínio (cesaropapismo).”

 

 

“A crise da época é bem sintetizada pelo bispo Liutprando de Cremona numa frase em que diz que a nobreza italiana prefere ter dois reis porque, deste modo, não terá de obedecer a nenhum deles. (...)

A crise do império carolíngio põe de joelhos o papado, que, privado de tal apoio, já não encontra os recursos econômicos e morais necessários para exercer o seu magistério e a districtio disciplinar sobre os bispos e o clero. Além disso, estão quase esgotadas as campanhas missionárias destinadas à conversão dos povos ainda pagãos, no Nordeste da Europa.

Quanto à política interna, o papado está, no século X, à mercê das forças centrífugas e aristocráticas. São usurpados terrenos da Igreja e subtraídas ao papa numerosas prerrogativas. De 887 a 962, sucedem-se no trono pontifício 21 papas, nenhum deles possuidor, evidentemente, de autoridade bastante para deixar memória da sua ação. É inquietante e emblemático para a reconstituição da sombria e dramática atmosfera deste século o episódio em que é protagonista o já mencionado papa Formoso, condenado post mortem por um sínodo, desenterrado e lançado ao Tibre vestido com os paramentos pontificais. As famílias nobres, que controlam as eleições dos papas segundo os interesses do momento e os equilíbrios diplomáticos sucessivamente vigentes, são aguerridas e destituídas de escrúpulos.”

 

 

“A época medieval começa por um quadro que nas suas linhas gerais apresenta sinais visíveis de retração em relação à época precedente: enquanto o mundo bizantino conserva os aspectos fundamentais da civilização helenístico-romana, multiplicam-se na área ocidental os indícios de uma involução que abrange o número dos homens, a intensidade das suas atividades e a organização do território.

Os sinais de retrocesso em relação aos últimos séculos da época tardo-antiga coincidem nas raras fontes da alta Idade Média. As cidades e as aldeias, onde as construções de pedra cedem o lugar às de madeira, contraem-se e são abandonadas ou deslocadas para áreas mais restritas e mais aptas à defesa. Por outro lado, mesmo quando os povoados se mantêm vivos, o seu perfil especificamente habitacional atenua-se, porque as casas e as praças entrelaçam-se com terras de cultivo e de pastagem, frequentemente encontradas até no interior das cinturas muradas urbanas. A manutenção das margens dos cursos de água e dos canais deixa de ser feita, com a consequente multiplicação de pauis e de zonas de aluimento que deixam amplos vestígios na toponímia italiana, onde são numerosas as localidades com nomes como Palude, Piscineo ou Marane. Semelhante destino atinge também o sistema viário, os portos, as zonas costeiras que sofrem – embora com importantes diferenças regionais – as consequências da retração demográfica e do retardamento das trocas.

Este ambiente, em que a natureza parece retomar a primazia, é fortemente marcado pela presença de terras incultas. Na realidade, até nas áreas cultivadas a incultura é parte integrante do sistema produtivo: o alqueive é o principal sistema a que se recorre para a fertilização das terras, deixando-as em repouso em anos alternados segundo um sistema denominado rotação bienal.

Algo de análogo acontece nas florestas. Muitas delas, principalmente na zona europeia centro-setentrional, são durante muito tempo uma espécie de fronteira impenetrável para os homens. Mas, nas margens das zonas povoadas, a floresta mostra, juntamente com a sua difusão, um rosto mais familiar: constantemente presente nas fontes como lugar do imaginário popular ou culto, palco das fábulas e das hagiografias, a floresta não é só o lugar do perigo e do mistério, é também um espaço frequentemente percorrido pelos camponeses que levam até lá os animais para pastar (porcos, principalmente) e lá se deslocam para caçar (javalis, veados, corças), para apanhar lenha ou para recolher frutos de natureza silvestre (bagas, raízes, tortulhos, bolotas). Só deste modo muitos camponeses conseguem obter meios de subsistência.”

 

Um declínio de longa duração

Este mundo contraído e empobrecido, com perfil indiscutivelmente rural, esta, com toda a evidência, muito menos povoado do que na época imperial.

A quebra demográfica é geralmente relacionada com o turbulento período das invasões, mas na realidade já começara na época tardo-antiga, pelo menos a partir dos séculos II e III, quando o despovoamento começa a mostrar os seus efeitos, como atestam as providências destinadas a fixar os lavradores à terra, só compreensíveis num contexto de carência de mão de obra, e também o fato de se começar a acolher as populações germânicas no interior das fronteiras do império.

É neste quadro, já demograficamente empobrecido, que se inserem as guerras do período tardo-antigo e, depois, a partir do século IV, as deslocações de populações e os ajustamentos territoriais recíprocos dos reinos romano-germânicos nascentes. Em Itália, a situação é posteriormente agravada pelas guerras greco-góticas, entre 535 e 553, e pela invasão lombarda a partir de 568.

As devastações bélicas são acompanhadas e agudizadas pelas repetidas epidemias: houve umas vinte vagas epidêmicas nos séculos VI e VII. A repetição de guerras e epidemias com breves intervalos pode ser identificada como o elemento determinante do retrocesso demográfico: abrem-se na população da Europa vazios que os sobreviventes, já debilitados, não têm tempo para colmatar antes que a foice da morte os dizime. Não é fácil quantificar a ordem de grandeza destes vazios de população.

Com todas as aproximações razoáveis, já foram calculados os dados respeitantes ao território italiano: a população é avaliada no século I em cerca de sete milhões e meio de habitantes e, no começo do século VII, em cerca de dois e meio. No plano europeu, os números são de uma ordem pouco diferente: a população, avaliada entre 30 e 40 milhões de habitantes por volta do século III, diminuiu drasticamente e chega no século VII a roçar um número estimado entre 14 e 16 milhões; recomeça a crescer no século VIII, e só nos séculos X e XI atinge níveis próximos dos iniciais.

A quebra demográfica pode ser facilmente relacionada com o retrocesso do urbanismo e a redução dos fluxos de trocas, que caracterizam a paisagem e a economia medievais. Mas é um retrocesso e uma redução, e não desaparecimento ou interrupção, como durante muito tempo se pensou: em nenhum momento (e isto aplica-se, em particular, ao território italiano) a cidade perde por completo a sua especificidade; em nenhum momento a economia pode dizer-se realmente parada.”



“Observa-se que, enquanto no mundo latino a guerra constitui um instrumento para a sociedade, um dos meios por que se pode exprimir de forma racional a personalidade jurídica do Estado, para os germanos é a própria sociedade que é modelada segundo as necessidades da guerra. Nos povos bárbaros, e não só nos seminômades e pagãos dos primeiros séculos da era cristã, mas até nas nationes que, já evangelizadas, se estabelecem na Europa nos séculos V e VI, a atividade bélica tende a plasmar o ordenamento da sociedade concedendo o poder aos indivíduos que mostram inclinação especial para o comando (duces, reges) e consolidando-o mediante adequadas formas de associação fiduciária entre os combatentes e os chefes militares (comitatus, trustis). Esta atividade penetra também na esfera familiar por via do magistério marcial que o pai exerce sobre os filhos e da estrutura francamente militar dos grupos parentais amplos (clãs); e determina, além disso, com a igualdade homem livre/guerreiro, a própria condição jurídica dos indivíduos, que se reflete, por outro lado e com força, numa originalíssima onomástica: “Ricardo (Rik-hard: poderoso-ousado; Armando (Heri-man: homem de guerra); Rogério (Hort-gar: lança gloriosa); Guilherme (Wile-helm: vontade-elmo); […] Gertrudes (Gaire-trudis: segurança-lança); Matilde (Macht-hildis: poderosa para a guerra)”.

Desta cultura tipicamente tribal e amadurecida ao longo de séculos de permanência em áreas escassamente povoadas provém a especial vocação guerreira dos bárbaros e, com ela, a sua agressividade, resumida na palavra wut, do gótico woths (possesso), origem também de Wothan, uma espécie de estado catártico a que o combatente chega durante a batalha com o objetivo de excitar as suas forças. Com base nestas premissas pode compreender-se melhor a vantagem numérica “relativa” dos bárbaros, embora as suas populações sejam quantitativamente exíguas comparadas com os povos latinizados: no decurso das invasões, os cerca de 500 mil efetivos imperiais, dispersos por uma zona geográfica enorme, e com uma presença nas fronteiras calculada em cerca de 150 a 200 soldados por quilômetro linear, estão de fato a enfrentar, em espaços operacionais relativamente restritos, tribos germânicas que, reunindo em armas todos os varões adultos dos 15 anos até à idade senil válida, chegam a contar 20 a 30 mil guerreiros.”

 

 

“As complicadas peripécias que acompanham a consolidação da religião cristã também correspondem à delineação dos papéis masculinos e femininos no interior das comunidades eclesiais ou nas sociedades em contínua transformação. A posição da mulher tem muitas alterações, sofrendo e beneficiando, ao mesmo tempo, de contradições dificilmente resolúveis. A afirmação da igualdade em Cristo de todos os crentes (Gal 3, 28), confirmada pelo papel que as mulheres desempenham na difusão da Boa Nova nas comunidades primitivas, é redimensionada pela aquisição, por parte das igrejas cristãs, de sistemas familiares e sociais dos povos evangelizados, fortemente marcados pelas relações hierárquicas e patriarcais. Confluem na religião nascente, que tem a sua consagração ao tornar-se religião do império no século IV, com Constantino (c. 285-337, imperador desde 306), a cultura hebraica, a filosofia grega e a jurisdição romana, contribuindo, cada uma a seu modo, para a construção de uma antropologia que delineia uma imagem do masculino e do feminino destinada a permanecer normativa ao longo dos séculos.

Apesar da igualdade proclamada, os autores medievais são substancialmente concordantes em insistir na imperfeição e insuficiência da natureza da mulher, nascida para viver subordinada ao homem. Repetem a filosofia grega e as Sagradas Escrituras, lidas através do prisma da interpretação patrística, que, embora com as devidas distinções, aceita unanimemente uma tradição em que ainfirmitas mulieris é uma realidade óbvia e irrefutável. A criação de Eva (da costela de Adão, Gen 2, 21) e a sua punição (ficar-lhe-ás submetida, Gen 3, 16) tornam-se modelos representativos da efetiva condição da mulher e, por efeito de uma discutível e preconceituosa exegese, as palavras das epístolas de Paulo (século I) “calem-se as mulheres na assembleia” (1 Cor 14, 34) e “não autorizo nenhuma mulher a ensinar nem a ditar leis ao homem” (1 Tim 2, 12) são guindadas à condição de fundamentos teológicos e disciplinares para excluir as mulheres do exercício de funções públicas e de magistério.”

 

 

“Os séculos que decorrem entre a queda do Império Romano e o ano 1000 são os mais estéreis de toda a Idade Média, e a eles se deve a locução enganadora “idade das trevas” que também foi estendida aos anos seguintes. Uma vez derruída a autoridade central romana e enquanto os povos bárbaros, enxameando por toda a Europa, instauram os novos reinos romano-germânicos e laboriosamente vão surgindo e expandindo-se aquelas que serão as novas línguas europeias, assiste-se à crise das cidades, ao descalabro da rede de estradas romana, ao regresso de uma floresta que se reapropria de terras anteriormente cultivadas e ao alastrar de uma fome endêmica. (...)

Para compreender como era percebida nestes anos a situação geral do império, pode recordar-se uma data que tem efeitos devastadores nos contemporâneos: em 24 de agosto de 410, um exército godo comandado por Alarico (c. 370-410) saqueia durante três dias a cidade de Roma, o centro de uma civilização milenar e de um império que se identifica com as próprias ideias de civilização, de ordem e de história. “Se Roma pode perecer, que poderá haver de seguro?”, pergunta Jerônimo (c. 347-c. 420) numa das suas cartas.”

 

 

“Tirando partido da competência linguística e teológica que adquiriu na tradução dos escritos de Pseudo-Dionísio, João Escoto ilustra as dificuldades que a palavra humana encontra ao falar de Deus: é impossível descrevê-lo em termos afirmativos; mas também é impróprio falar dele apofaticamente, pois negar um atributo de Deus parece querer afirmar um seu limite. É, pois, necessário, conclui João Escoto, chegar a uma terceira teologia, nem simplesmente afirmativa nem apenas negativa, mas superlativa: Deus é superior a toda e qualquer atribuição humana de sentido e ultrapassa, portanto, integralmente as possibilidades descritivas da linguagem.

O homem tem portanto à sua frente dois caminhos para falar de Deus: ou este mesmo indicado, seguindo uma teologia que supere toda e qualquer qualificação positiva e negativa, ou confiando-se aos sinais que Deus deixou no mundo. As Escrituras e a natureza são manifestações do Criador, presente nas primeiras como fonte de inspiração e na segunda como teofania. Com efeito, o universo criado é manifestação de Deus, embora seja, na sua materialidade, fruto de uma condição de decadência. A primeira e verdadeira criação acontece antes dos tempos, no Intelecto divino, no Verbo, naquela segunda natureza criada por Deus mas, por sua vez, criadora por conter as noções de todas as coisas. Até o homem era, antes do pecado original, uma noção na mente divina; caído desta condição por não ter querido manter-se fiel ao seu criador, pôs implicitamente as condições para o nascimento do mundo físico, que a João Escoto parece, na esteira de Gregório de Nissa, um palco por Deus preparado para este efeito. O fim do ser humano, a terceira natureza, que é criada e não cria, será, pois, o regresso (redditus) à condição originária de unidade com Deus. Só então, na perfeição de uma unidade recomposta, terá sentido a quadripartição eriugeniana, concluída com a quarta natureza que coincide com Deus no final do processo descrito no Gênesis, obviamente não criado, mas já não criador.”

 

 

“A definição do calendário litúrgico e das principais festividades cristãs ocorre numa época em que o saber científico grego ainda não é considerado totalmente hostil. Por um lado, algumas das festas cristãs são decalcadas das festas pagãs para herdar o seu aspecto sagrado e, ao mesmo tempo, apagar a sua memória. Por exemplo, o Natal é fixado em 25 de dezembro (correspondente à festividade pagã do solstício do inverno) e o dia de São João em 24 de junho (correspondente à festividade pagã do solstício do verão). Por outro lado, uma festa móvel extremamente importante, como a Páscoa, é fixada pelo Concílio de Niceia do ano 325 com base num tipo ainda mais requintado de informação astronômica. Para melhor evidenciar o caráter absolutamente miraculoso do obscurecimento do Sol no momento da morte de Jesus na cruz, os participantes no concílio decidem fazer cair a Páscoa num dia da primavera em que nunca pudesse haver um eclipse natural do Sol. Por isso, o dia escolhido foi o primeiro domingo depois do primeiro plenilúnio seguinte a 21 de março, a data do equinócio da primavera. Mas a introdução de conceitos astronômicos específicos significa que, embora os padres da Igreja procurem demolir as cosmologias gregas, não podem renunciar aos resultados – como a determinação exata do dia do equinócio e do primeiro plenilúnio da primavera – que constituem os fundamentos ou os efeitos materiais dessas cosmologias.”

 

 

“A tradução de Jerônimo substituiu gradualmente as veteres, mas só acabará por se impor depois da época carolíngia. Com efeito, Carlos Magno (742-814, rei desde 765, imperador desde 800) solicita na sua Admonitio Generalis (789) uma revisão crítica do texto bíblico com o objetivo de assegurar um texto de referência à liturgia de todas as terras que governa. Desta empresa filológica, baseada na Vulgata, datam muitos exemplares manuscritos resultantes do trabalho de Alcuíno (735-804) e do seu escritório de Tours (incluindo a Bíblia Vallicelliana, de Roma, e a Bíblia de Moutier-Grandval, hoje em Londres, que são dos primeiros exemplares de Bíblias integrais segundo o modelo da Bíblia Amiatina, atualmente conservada na Biblioteca Medicea Laurenziana, de Florença). Mas também deixam vestígios de uma revisão filológica do texto bíblico o bispo Teodulfo, no seu scriptorium de Saint-Mesmin de Micy, e outras oficinas monásticas de Corbie ou de Metz. O trabalho dos carolíngios produz textos mais corretos e completos, mas não uma edição “aprovada”: isto deve-se ao trabalho dos corretoria da universidade parisiense nos séculos XII e XIII e a personalidades como Stephen Langton (1150-1228), que introduz a divisão em versículos da Sagrada Escritura.”

 

 

Os apócrifos

O termo vem do grego apókuphos (subtraído à vista, através do lat. tard.apocryphus, de ap(o)-+krúphos, ação de ocultar). Na Idade Média ocidental, os glossários traduzem-na por secretum ou reconditum vel occultum. Na origem, o conceito não se refere, portanto, a um problema de cânones, mas de acessibilidade. O caráter secreto dos livros apócrifos não provém de algum conteúdo perigoso, mas da obscuridade da sua proveniência, como escreve Agostinho (354-430) no Contra Faustum: earum occulta origo non claruit patribus(a sua origem desconhecida não foi clara para os padres). Por isso, Etymologiæde Isidoro de Sevilha (c. 560-636), a enciclopédia mais lida na alta Idade Média, define os livros apócrifos como secretos, quia in dubio veniunt (porque suscitam a dúvida, VI 2, 51), isto é, suscitam dúvidas sobre a sua autoridade e, portanto, sobre a credibilidade do que transmitem.

No plano canônico, a primeira condenação vem do Concílio de Toledo de 400, seguida de uma decretal de Inocêncio I (?-417), em 405, e de novos pronunciamentos de sínodos nos séculos seguintes. Quais são em concreto estes livros é estabelecido pelo Decretum de Libris Recipiendis et non Recipiendis (Decreto sobre os Livros Aceitáveis e não Aceitáveis), atribuído ao papa Gelásio (?-496, pontífice desde 492), mas provavelmente redigido na Gália no século VII e oficialmente acolhido pela Igreja no século IX. Figuram nele muitos livros rejeitados sob a acusação de apócrifos (porque provenientes de autores heréticos ou cismáticos), mas também alguns textos que exercem profunda influência na cultura medieval de todas as línguas, como os Atos de Tomás e o Protoevangelho de Tiago, e até livros completamente alheios ao cânone bíblico, mas com autoridade no plano intelectual, como as obras do poeta Comodiano (século III?). Na realidade, a percepção do público culto é variada e confusa. Jerônimo (c. 347-c. 420) adverte contra a tentação de procurar “ouro na lama” dos apócrifos, mas admitindo que é prática corrente, especialmente com o intuito de obter, nos apócrifos, elementos narrativos sobre os milagres de Jesus ou dos apóstolos: esta prática é sugerida no século VI por Gregório de Tours (538-594), pai da história de França, que propõe que dos Atos de André sejam extirpadas as patranhas (verbositas) heréticas e aproveitados os milagres. A atitude dos medievais perante os apócrifos é confirmada pelo compilador de De Nativitate Mariæ, uma redução do Evangelho de Pseudo-Mateus falsamente atribuída a Jerônimo, que declara na carta prefaciadora ter-se limitado a referir “aquilo que está escrito ou que verossimilmente poderia ter sido escrito”. Oscila-se, pois, entre uma questão de autenticidade demonstrada e a busca de uma verdade de fé, mesmo em obras não admitidas pela Igreja, mas universalmente conhecidas e cuja utilidade consiste, sobretudo, em colmatar algumas lacunas da narrativa dos Evangelhos e dos Atos. Entre os gêneros mais apreciados salientam-se os apocalipses, que contam os misteriosos acontecimentos ocorridos entre a morte e a ressurreição de Cristo, e em especial a Visio Pauli e o Evangelho de Nicodemos, que descreve minuciosamente a descida de Jesus aos infernos. Esta ambiguidade dará origem a disputas teológicas como a que oporá Hincmar (c. 806-882), arcebispo de Reims, que incluíra entre os livros da sua catedral um opúsculo sobre o nascimento da Virgem, a Ratramnus de Corbie (c. 800-c. 868), fautor de um rigorismo inspirado no Decretum pseudogelasiano. Nesta disputa, Hincmar é porta-voz de uma certa tolerância motivada pela necessidade de informações suplementares sobre fatos e personagens que os livros canônicos deixam parcialmente na sombra. A solução adotada e repetida por muitos teólogos consiste em distinguir os apócrifos totais (in totum reiicienda) e os apócrifos parciais (non penitus abominanda), entendendo por apócrifo um “livro com conteúdo parcialmente secreto, que não deve ser lido em público”, mas legível em privado, não podendo ser citado nos debates teológicos como fonte autorizada. Com mais ou menos máscaras ou distinções, será este o princípio adotado no resto da Idade Média, de tal modo que Vicente de Beauvais (c. 1194-1264), rei dos enciclopedistas da baixa Idade Média, escreve uma Apologia de Apocriphis justificando o permissivo usus ecclesiæ com a presença de apócrifos até nas epístolas de São Paulo e São Tiago, e que Tiago de Varazze (1228-1298), na sua Legenda Aurea, uma coletânea de vidas de santos, destinada a ter uma imensa popularidade em toda a Europa e a exercer uma profunda influência na literatura e na iconografia artística, aceita citar, em certos casos, os apócrifos como fontes hagiográficas.

 

 

“Para compreender a linguagem figurativa cristã é fundamental a maneira como o sistema da imagem da divindade e da santidade em geral ganha forma. O que hoje é para nós óbvio e imediatamente compreensível – se tivermos um mínimo de educação religiosa – teve inicialmente de ser calibrado e selecionado segundo um formulário preexistente: é por isso que a figura de Cristo, e mais especificamente o seu rosto, é aquela que hoje todos nós conhecemos, com o cabelo comprido e solto a cair nos ombros e a barba espessa, porque para seu modelo é escolhido o “modelo” de divindade representado não só por Javé e Zeus, mas também por outros, como por exemplo Asclépio, ou até por elementos da categoria dos filósofos. Deste modo, para Pedro escolhe-se o modelo de rosto barbudo e anguloso, aquele que melhor sugere o aspecto da “pedra” sobre a qual Cristo fundou a sua Igreja (Mt 16, 19); a incipiente calvície e a longa barba de Paulo correspondem ao tipo normativo do filósofo.”

 

 

“Até à época da paz da Igreja, os anos seguintes ao édito de Milão de 313, não se pode falar de uma verdadeira arquitetura cristã no que respeita à forma dos edifícios utilizados para as celebrações e para a sinaxe eucarística. Como se deduz das Epístolas de São Paulo e dos Atos dos Apóstolos, até ao início do século II, as reuniões das comunidades cristãs realizam-se em espaços domésticos colocados à disposição da comunidade por um dos seus membros. São espaços descaracterizados, de dimensões reduzidas e desprovidos de mobiliário litúrgico, onde as refeições eucarísticas (agapai) decorrem em simples mesas (trapeza) de madeira. O desinteresse pela concepção de lugares exclusivos para o culto resulta de uma teologia que força a identificação do templo de Deus com a própria comunidade dos fiéis na sua unidade espiritual e segundo a qual a ligação com o divino não depende do uso de templos e de altares como os dos pagãos: daí a possibilidade, muitas vezes referida pelas fontes, de missas celebradas ao ar livre com altares portáteis. Mas há também a necessidade de não exibir as práticas da Igreja, durante muito tempo tolerada e só legalizada por Constantino.”

 

 

“Segundo Le Goff, a Idade Média é o tempo em que as lágrimas são um dom, o sangue e o esperma um tabu, o riso proscrito e o sonho reprimido; o tempo em que os estigmas se imprimem na carne dos eleitos; o tempo da peste, a partir de meados do século VI, e da lepra, a partir do século VII; o tempo em que os mortos se misturam com os vivos, com os cemitérios em pleno espaço urbano; o tempo dos monstros, dos corpos com partes hipertrofiadas, deformadas, mutiladas ou deslocadas, dos corpos hibridados com animais, com plantas ou com corpos do outro sexo. Pelo contrário, o cristianismo trabalha, por intermédio dos seus instrumentos seculares, para eliminar estas práticas, para tornar o corpo liso e impermeável, sem irregularidades nem aberturas nem protuberâncias, num processo que procura separar a dimensão corporal da dimensão sagrada, quase a querer excluir a possibilidade de alcançar esta última por caminhos que não estão inseridos na via legítima da liturgia eclesiástica. (...)

Na Idade Média, “o corpo é lugar de paradoxo” por ser a sede do pecado, mas pode também ser instrumento de redenção e salvação, como diz o corpo martirizado e glorificado de Cristo. Do mesmo modo, a dança, que no corpo encontra instrumento e substância imprescindíveis, oscila entre dois modelos bíblicos antagônicos e polarizantes: o modelo devoto do rei David perante Deus e o modelo malvado de Salomé no festim de Herodes. A ambivalência a respeito do corpo e dos valores nele identificados aplica-se também à dança, que, justamente por este seu caráter peculiar, tem até o poder de tornar explícitas as conexões intrinsecamente humanas do alto com o baixo, do imaterial com o material, baseando-se num depósito infinito de sinais, superabundantes em relação às capacidades sistematizadoras do saber racional.”