terça-feira, 1 de julho de 2014

1776: A história dos homens que lutaram pela independência dos Estados Unidos – David McCullough

Editora: Jorge Zahar
ISBN: 978-85-7110-921-6
Tradução: Roberto Franco Valente
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 424
Sinopse: A independência dos Estados Unidos não teve origem somente na famosa Declaração escrita por Thomas Jefferson, em 1776. Sem a vitória do exército de fazendeiros e camponeses comandados por George Washington sobre as tropas da poderosa Coroa britânica, os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca pela felicidade se tornariam apenas mais uma aspiração moral perdida no tempo.
O historiador David McCullough, duas vezes ganhador do prêmio Pulitzer, transporta o leitor para a cena dos conflitos que decidiram os rumos da história dos Estados Unidos.
Com base em uma extensa pesquisa em arquivos britânicos e norte-americanos, onde pôde ter acesso a cartas, jornais, memórias e documentos oficiais da época, o autor mostra o ambiente de sofrimento e superação vivido por homens simples e comandantes inexperientes que derrotaram o exército mais temido do mundo naquele momento.



“George III tinha 22 anos quando, em 1760, subiu ao trono, ali permanecendo – fato notável – como um homem de gostos simples e de poucas pretensões. Gostava da comida caseira, bebia pouco – somente vinho. Desafiava a moda, recusando-se a usar perucas. De modo algum incomodava-se com o fato de que o palácio de Saint James já estava um tanto antiquado. Ele o preferia assim. Sentia-se constrangido na corte – muitos se decepcionavam com ele, achando-o maçante – e preferia perambular pelas fazendas de sua propriedade, em Windsor, vestido com roupas de camponês. E, em notável contraste com a elegante sociedade, onde as amantes e as infidelidades eram não só um aspecto geralmente aceito da vida, mas também até alardeado, o rei permaneceu solidamente fiel à desgraciosa rainha – a princesa alemã Charlotte Sophia de Mecklemburg-Strelitz – com quem tivera dez filhos até então (mas que no final seriam 15). Diziam os boatos que os principais prazeres do fazendeiro George consistiam num pernil de carneiro e na sua pequena e pouco atraente esposa.
Mas não era bem assim. E tampouco era ele esse homem desprovido de atrativos e abobado, que mais tarde seus críticos proclamaram. Alto, relativamente bonito, olhos azuis claros e uma expressão quase sempre alegre, George III sentia um genuíno amor pela música, e tocava violino e piano. (Seu compositor favorito era Haendel, mas também adorava a música de Bach e, em 1764, deliciara-se ao ouvir o menino Mozart apresentar-se ao órgão.) Gostava de arquitetura, tendo mesmo vários desenhos técnicos de sua autoria. Dotado de discernimento para a arte, logo começou a fazer a sua própria coleção, até ali com obras de Canaletto, um pintor italiano contemporâneo, e também com aquarelas e desenhos dos antigos mestres Poussin e Rafael. Colecionava livros avidamente, a ponto de reunir uma das melhores bibliotecas do mundo. Adorava os relógios, maquetes de barcos, tinha um grande interesse pelas coisas práticas, pela astronomia, e fundou a Royal Academy of Arts.”


“Quando os interesses de um grande povo estão envolvidos, deve-se superar as dificuldades, e não se curvar a elas.” (John Dyke Acland)


“Aos 33 anos, Nathanael Greene era o general mais jovem do que então constituía o exército norte-americano. E, se a sua mocidade era um fato óbvio, a Gloriosa Causa era, em grande parte, a causa dos moços: o comandante-chefe do exército, George Washington, era um homem de apenas 43 anos; John Hancock, presidente do congresso continental, tinha 39; John Adams, 40; Thomas Jefferson, 32 – mais moço ainda que o jovem general de Rhode Island.”


“‘O exército de Washington’, escreveu um jovem da Nova Inglaterra de tendências legalistas, chamado Benjamim Thompson, ‘era o mais esfarrapado do mundo, e era um bando tão sujo de seres mortais que chegava a envergonhar a própria patente de soldado... Era melhor deixar que as roupas apodrecessem no corpo, do que se dar ao trabalho de lavá-las’. Segundo Thompson, todas aquelas ‘desordens pestilentas, infecciosas e malignas’, cujo preço pago foi tão alto (em mortes) deviam-se àquele ‘asqueroso modo de vida’ (...).
Era perfeitamente compreensível que tantos deles estivessem assim tão cobertos de imundícies, uma vez que quando não estavam participando de alguma expedição, passavam o dia inteiro a cavar trincheiras, a transportar pedras e juntar grandes montes de terra para a trincheira. Em determinado momento, no início do cerco, quatro mil homens estavam trabalhando, só em Prospect Hill. Era um trabalho sujo e árduo, e quase não havia tempo ou meios para se tomar um banho sequer, ou se dar ao luxo de trocar de roupa.
Poucos homens possuíam algo que se pudesse chamar de uniforme. Era impossível distinguir os oficiais superiores dos soldados que comandavam. Não só a maioria dos homens vivia sem banho, e quase sempre barbados, como também todos se vestiam com uma variedade incrível de tudo o que se pudesse imaginar, na maior parte tudo que eles – ou os seus, em casa – conseguiram juntar às pressas na mala, antes de marchar para a guerra. Vestiam camisas e agasalhos pesados e tecidos em casa, muitas vezes aos farrapos de tanto uso, calções de todas as cores e tipos, mocassins e sapatos de couro de boi, e na cabeça velhos chapéus de feltro com abas largas, manchados pelas condições do tempo e pelo suor, chapéus de castor, chapéus de palha de lavrador, ou lenços listrados à cabeça, como os marujos. O tricórnio, chapéu formal, era usado mais provavelmente pelos oficiais, ou alguém de status mais elevado, como os capelães e os médicos. Só de vez em quando aparecia algum velho casaco de regimento, coisa que não se via desde a Guerra Francesa e Indígena.
As armas que usavam eram tão variadas quanto suas roupas, principalmente os mosquetes e as espingardas de caça (garruchas, na verdade), e parece que quanto mais antigas eram essas armas, maior orgulho sentiam os seus proprietários. A arma mais comum, e de longe a mais importante, era o mosquete de cano liso a espoleta, de um só tiro e de carregar pela boca, e que projetava uma bala pesando cerca de 300 gramas, capaz de causar terríveis estragos. Seu comprimento era de um metro e meio, em média, e o peso, de cerca de quatro quilos e meio. Embora não fosse especialmente preciso, podia-se carregá-lo de pólvora e balas, disparar e, logo em seguida, carregar e disparar outra vez. Para um bom atirador de mosquete, era possível dar um tiro a cada 15 segundos.”


“No início da guerra ninguém mencionava a independência. E nem esse tema estava presente nas mentes dos que lutaram em Bunker Hill, ou nos pensamentos de Washington ao assumir o comando do exército. A caminho de Cambridge, vindo da Filadélfia, ele fora perfeitamente específico ao assegurar ao Congresso Provincial de Nova York que “qualquer esforço dos meus valorosos colegas, e o meu próprio, se estenderá igualmente ao restabelecimento da paz e da harmonia entre a nação materna e as colônias”.”


“O inverno na América foi uma experiência a qual jamais os soldados britânicos puderam acostumar-se, como também não se adaptaram ao clamor incessante dos sapos, nas noites de primavera, ou aos mosquitos norte-americanos, ou à falta de uma cerveja decente. É claro que os terríveis ventos do inverno e as violentas nevascas da região da baía lançavam a miséria indiscriminadamente sobre ambos os exércitos; mas para os homens do rei, desacostumados àquele clima, aquela punição era absolutamente insuportável. Um jovem irlandês da nobreza, o capitão Francis Lorde Rawdon, descreveu os sofrimentos dos seus homens acampados em Bunker Hill, no começo de dezembro, com suas tendas “tão arrebentadas”, que seria a mesma coisa dormirem ao relento – “e ouvimos dizer, com uma certa inveja, dos vários bailes e concertos que nossos irmãos têm tido em Boston”. Os soldados congelavam até morrer em posição de vigia. Mesmo quando as tropas se mudaram para habitações de inverno, algumas semanas depois, era quase impossível alguém se manter aquecido.
O mar aberto continuava sendo a única tábua de salvação para se obter carvão e alimento para a cidade, porém, com a severidade das tempestades no Atlântico Norte, e os corsários norte-americanos operando na costa em número cada vez maior, a despeito do mau tempo, cada vez menos navios de suprimento conseguiam chegar.
O almirante britânico Samuel Graves, cuja responsabilidade era patrulhar a linha da costa contra os corsários, descreveu as tempestades de neve no mar, entre o cabo Ann e o cabo Cod, como desafiadoras até dos homens mais afoitos. 
Esse tipo de tempestade é tão sério que nem olhar para ela é possível, e a neve, congelando tudo tão rápido quanto cai, impede qualquer resistência –  pois as roldanas ficam emperradas, a maquinaria é recoberta por uma crosta, as cordas e as velas congelam e logo o navio se transforma num bloco de gelo... Na verdade, se for assim a severidade do inverno neste clima, onde o sentinela da praia frequentemente é encontrado morto, congelado em seu posto, embora haja troca de guarda a cada meia hora, o leitor pode ter alguma ideia do que sofre um marinheiro de vigia, principalmente nos barcos pequenos.”


“Knox estivera ausente por dois meses, e conseguiu realizar todas as expectativas, apesar das terríveis caminhadas pela floresta, dos lagos congelados, das tempestades de neve, dos degelos, das montanhas selvagens e dos vários acidentes que muitas vezes teriam desencorajado um espírito menos forte. Ele foi bem-sucedido no seu plano, ousado e praticamente impossível, e logo no momento certo, justificando, assim, toda a confiança que Washington depositara nele. Por semanas, a história daquela expedição, seria narrada, muitas e muitas vezes, no meio do exército, e nos anos que se seguiram.
Partindo de Cambridge a cavalo, no dia 16 de novembro, Knox e seu irmão William viajaram primeiro até à cidade de Nova York, onde fizeram arranjos para o envio de suprimentos militares a Boston, e em seguida apressaram-se em direção ao norte, subindo até o Hudson Valley, percorrendo às vezes até 65 quilômetros num só dia.
Chegaram ao forte de Ticonderoga em 5 de dezembro. Construído pelos franceses em 1755, no início da Guerra Francesa e Indígena, o forte de pedra calcária foi tomado pelos britânicos em 1759, e depois pelos norte-americanos em maio de 1775. Situava-se na extremidade sul do lago Champlain, onde este se encontra com a parte norte do lago George.
As armas que Knox fora buscar eram na maioria francesas: morteiros, canhões de 12 e 18 libras (ou seja, canhões que lançavam balas de 5,5 quilos e 8 quilos) e um gigantesco canhão de bronze, de 24 libras (balas de quase 11 quilos). Nem todas as armas estavam em boas condições de uso. Após examiná-las, Knox selecionou 58 morteiros e canhões. Três dos morteiros pesavam, cada um, uma tonelada, e o canhão de 24 libras, mais de 2,2 toneladas. Acreditava-se que a carga inteira pesasse não menos que 54,5 toneladas.
O plano era transportar as armas por barco, descendo o lago George – ainda não completamente congelado. Na extremidade sul do lago teria início, então, o longo processo de leva-las por terra até Albany, ao sul, antes de volver para o leste, em direção a Boston, pelas montanhas de Berkshire. A distância a ser coberta era de aproximadamente 485 quilômetros. Knox planejava transportar as armas em trenós de grande porte, e contara para isso com a neve, mas até ali apenas uma fina camada de poeira gelada cobria o solo. 
Com o auxílio de soldados locais e de homens contratados, imediatamente ele se pôs em ação. Só o traslado das armas desde o forte até o cais de embarque mostrou ser uma tarefa dificílima. A descida pelo lago George, de cerca de 64 quilômetros demorou 8 dias. Três barcos, com sua imensa carga, largaram velas em 9 de dezembro, e nas primeiras horas tiveram um vento favorável. Após isso, a progressão se fez sob as “piores dificuldades”. Na verdade, segundo as apressadas e quase ilegíveis passagens do diário de Knox, a primeira hora sobre o lago parece ter sido a única, em todo o percurso, que não trouxe as “piores dificuldades”.
Uma das embarcações, um saveiro, bateu numa rocha e afundou, embora suficientemente perto da praia para que se pudesse retirar a água, reparar o estrago e mais uma vez fazê-la navegar. Knox registrou as ocasiões em que foi necessário remar com toda a força contra implacáveis ventos contrários –  num dia, 4 horas a “remar com extraordinário esforço”, em outro, 6 horas “a remar com esforço extraordinário”. Em certos lugares, os barcos tinham de abrir caminho pelo gelo. O irmão de Knox, Wiliam escreveu ao final de 14 de dezembro: “Batendo os remos o tempo todo contra o vento... Que Deus nos mande um vento bom.” As noites na praia eram terrivelmente frias.
“Não é fácil imaginar as dificuldades que temos enfrentado”, escreveu Knox a Washington, ao final da viagem pelo lago, numa carta de 17 de dezembro e que só chegaria a Cambridge quase ao mesmo tempo em que ele próprio chegou.
No caminho para o norte, com destino a Ticonderoga, Knox determinara que se reunissem  ou fabricassem trenós comuns ou de carga, num total de quarenta e dois, e que os mesmos estivessem disponíveis no forte George, na extremidade sul do lago George, a aproximadamente 56 quilômetros ao sul de Ticonderoga. (“Peço-lhe, com a maior seriedade, que não se poupem esforços, ou as despesas que forem necessárias”, disse a um oficial local.) Com os trenós, e mais 80 parelhas de bois, Knox agora estava preparado para prosseguir. “Confiando que... teremos uma boa nevasca... Espero que dentro de 16 ou 17 dias nós possamos apresentar a Vossa Excelência um nobre carregamento de artilharia”. 
À sua mulher, Knox afirmou que a parte mais difícil já havia passado, e conjeturou: “Não será pouco o que iremos arrasar pelo país todo, com os nossos canhões.” 
Mas a neve continuava sem cair. Em vez disso, um “cruel degelo” teve início, impedindo o avanço por vários dias. O caminho sul para Albany exigia quatro travessias do Hudson. Com a camada de gelo tão fina sobre o rio, a pesada caravana teve de permanecer parada no forte George, à espera de que o tempo mudasse. Quando aconteceu essa mudança, veio uma forte nevasca. Noventa centímetros de neve caíram no início do dia de Natal. Determinado a prosseguir sozinho para Albany, Knox quase morreu congelado, lutando a pé contra a neve, até achar cavalos e um trenó para completar o caminho.
Por fim, “o precioso comboio” partiu do forte George. “Nossa cavalgada era muito imponente”, lembrou John Becker, que aos 12 anos havia acompanhado o pai, um dos guias da expedição. Eles seguiam vagarosamente, laboriosamente, sob pesada neve, passando pelo vilarejo de Saratoga, depois por Albany, onde Knox começou a fazer furos na camada de gelo do Hudson, a fim de reforçá-la. (A ideia era de que a água, subindo pelo furos, se espalharia sobre a superfície e congelaria, engrossando assim, gradualmente, a camada de gelo.) 
No dia do Ano-Novo, o tempo voltou a esquentar. ”Está se perdendo um precioso tempo”, escreveu a Lucy. “O degelo tem sido tão sério, que chego a tremer pelas consequências, pois, sem a neve, a minha carga tão importante não poderá partir”. 
Mas a temperatura caiu de novo. Em 7 de janeiro, o general Schuyler escreveu a Washington, de seu quartel em Albany: “Esta manhã tive a satisfação de ver a primeira divisão de trenós atravessar o rio com canhões”.
Eles se deslocavam cautelosamente sobre o rio, e por muitas horas pareceu que os furos feitos por Knox tinham dado certo. Quase 12 trenós já haviam atravessado sem incidentes, quando de repente um dos canhões maiores, um de 18 libras (balas de pouco mais de oito quilos), arrebentou a camada de gelo e afundou, não muito longe da praia, deixando um buraco de mais de 4 metros de diâmetro. Sem se deixar abalar, Knox logo iniciou os trabalhos para recuperar o canhão do fundo do rio, perdendo um dia inteiro nessa operação, porém conseguindo ao fim, como escreveu: “Graças à ajuda da boa gente de Albany”.
Em 9 de janeiro, a expedição partiu da margem leste do Hudson, tendo pela frente mais de 160 quilômetros de percurso. A neve em Berkshire estava espessa, exatamente como precisava, mas as montanhas, íngremes, desordenadas e cortadas por profundos e estreitos vales, eram o pior desafio de todos. Knox, sem nenhuma experiência prévia num terreno daqueles, descreveu a subida dos picos “de onde quase poderíamos ver todos os reinos da terra”. 
“Para mim, era quase um milagre que homens com uma carga tão pesada fossem capazes de subir e descer aquelas montanhas”, dizia outra passagem do seu diário.
Para conter os trenós carregados pelas descidas, tão íngremes como telhados, foram amarradas cordas de contenção às árvores. Arbustos e correntes eram colocadas por baixo dos esquis. Quando alguns do seu grupo, com medo do perigo, se recusaram a prosseguir, Knox passou três horas discutindo e apelando, até que eles finalmente concordaram em seguir em frente.
Em Springfield, a fim de acelerar o ritmo, Knox trocou os bois por cavalos. Na etapa final da jornada, o número de curiosos que assistia a jornada crescia a cada dia. 
Finalmente, pararam em Framingham, a cerca de 32 quilômetros a oeste de Boston. As armas foram descarregadas, enquanto Knox partia a toda pressa para Cambridge.
Chegara intacto o “nobre comboio” de Knox. Nem uma só arma foi perdida. Centenas de homens haviam participado, e o seu trabalho e resistência foram excepcionais. Mas foi a ousadia e a determinação do próprio Knox foi o que contou acima de tudo. O vendedor de livros de Boston, de 25 anos, havia mostrado ser um líder de notável capacidade, um homem não só capaz de arriscar ideias, mas também dotado do poder de torná-las reais. Imediatamente, ele foi colocado por Washington no comando da artilharia.”


“O total da armada britânica – ancorada agora em um “longo e espesso agrupamento” nas costas de Staten Island – chegava quase a 400 navios, grandes e pequenos, 73 navios de guerra, incluindo 8 navios das forças regulares, cada um com 50 canhões ou mais. Como comentavam alegremente entre si os oficiais britânicos, era a maior frota jamais vista em águas norte-americanas. Na verdade, foi a maior expedição do século XVIII, a maior e a mais poderosa força que a Grã-Bretanha, ou qualquer outra nação jamais produzira.
Pela proporção do que se passava nas colônias norte-americanas em 1776, era uma demonstração de poder militar que ultrapassava a imaginação. No total, 32 mil soldados haviam desembarcado em Staten Island, uma força bem armada, treinada e equipada, mais numerosa do que toda a população Nova York, ou mesmo da Filadélfia, que era a maior cidade da América, com cerca de 30 mil habitantes.”


“Para Charles Willson Peale, caminhando pelo meio dos soldados no litoral da Pensilvânia, aos primeiros clarões da manhã  seguinte, aqueles homens davam a impressão de serem os mais infelizes que ele jamais vira. Um deles quase não tinha roupa alguma. “Estava com um velho e sujo casaco feito com um lençol, a barba comprida, o rosto tão cheio de feridas que nem podia limpá-lo”. De tal forma “desfigurado” ele estava, que Peale não conseguiu logo reconhecer aquele homem: era seu próprio irmão, James Peale, que chegara com uma unidade de Maryland do batalhão da retaguarda.”


“A aflição é a época radiante de um homem de bem.” (Edward Young)


“De todos os oficiais generais que participaram do cerco a Boston, apenas dois ainda serviam quando da rendição britânica em Yorktown: Washington e Greene. Henry Knox, que se tornara general de brigada após a batalha de Trenton, e que lutou em todas as batalhas que Washington tomou parte, também estava presente em Yorktown. Greene e Knox, os dois jovens inexperientes da Nova Inglaterra, selecionados por Washington no início como a melhor “matéria-prima” com quem teria de trabalhar, mostraram ambos possuir verdadeira grandeza e permaneceram na luta até o final. 
O apoio financeiro vindo da França e da Holanda, e o militar do exército e da marinha francesas, desempenhariam um grande papel no resultado final. Mas em última análise, foi Washington e o seu exército que venceram a guerra da independência norte-americana. O destino da guerra e da revolução se deveu ao exército. O Exército Continental – e não o controle do rio Hudson, ou o domínio de Nova York, ou da Filadélfia – foi a chave da vitória. E foi Washington quem manteve unido o exército, dando-lhe ânimo por todo o mais desesperado dos tempos.
Ele não era um brilhante estrategista ou tático, nem um orador talentoso, e também não era um intelectual. Por diversos momentos cruciais, demonstrou uma acentuada indecisão. Cometeu vários erros de julgamento. Porém, a experiência foi sempre o seu maior mestre, desde a infância, e no seu grande teste ele aprendeu inabalavelmente com a experiência. Acima de tudo, Washington nunca se esqueceu de tudo o que estava em risco, e em momento algum desistiu.”

domingo, 22 de junho de 2014

Elogio da Loucura – Erasmo de Roterdã

Editora: Livro distribuído
Tradução base: Paulo M. Oliveira
Opinião: ★★☆☆☆
Páginas: 154
Sinopse: Escrito em latim, publicado no ano de 1509, o Elogio da loucura foi um dos best-sellers do século XVI. De rara violência contra os poderosos da época, o livro e seu autor só escaparam à fogueira porque Erasmo se escondeu atrás de uma máscara, como faziam os bobos da corte, únicas pessoas a quem se permitia serem insolentes por sua condição de corcundas ou aleijados. No caso, a máscara escolhida foi a loucura, narradora em primeira pessoa dessa prosopopeia.
 
Erasmo de Roterdã

“Já escreveu sensatamente alguém que ser deus consiste em favorecer os mortais.”


“Quando a trôpega velhice coloca os homens à beira da sepultura, então, na medida do que sei e do que posso, eu os faço de novo meninos. De onde o provérbio: Os velhos são duas vezes crianças. (...)
Enfim, quanto mais entra na velhice, tanto mais se aproxima o homem da infância, a tal ponto que sai deste mundo como as crianças, sem desejar a vida e sem temer a morte.”


“O delírio e a loucura não serão, talvez, próprios das crianças? Que é que, a vosso ver, mais agrada nas crianças? A falta de juízo. Um menino que falasse e agisse como um adulto não seria um pequeno monstro? Pelo menos, não poderíamos deixar de odiá-lo e de ter por ele um certo horror. Há muitos séculos, é trivial o provérbio: Odeio o menino de saber precoce. Quem, por outro lado, poderia fazer negócios ou ter relações com um velho, se este aliasse a uma longa experiência todo o vigor do espírito e a força do discernimento?”
     

“Segundo o provérbio dos gregos, o macaco é sempre macaco, mesmo vestido de púrpura.”


“Tão agradável é a amizade que afastá-la do mundo equivaleria a afastar o sol.”


“Um homem que odeia a si mesmo poderá, acaso, amar alguém? Um homem que discorda de si mesmo poderá, acaso, concordar com outro? Será capaz de inspirar alegria aos outros quem tem em si mesmo a aflição e o tédio?”


“A natureza, que em muitas coisas é mais madrasta do que mãe, imprimiu nos homens, sobretudo nos mais sensatos, uma fatal inclinação no sentido de cada qual não se contentar com o que tem, admirando e almejando o que não possui: daí o fato de todos os bens, todos os prazeres, todas as belezas da vida se corromperem e reduzirem a nada.”


“Os homens que se consagram ao estudo da ciência são, em geral, infelicíssimos em tudo, sobretudo com os filhos. Suponho que isso provenha de uma precaução da natureza, que dessa forma procura impedir que a peste da sabedoria se difunda em excesso entre os mortais.”


“Se alguém se aproximasse de um cômico mascarado, no instante em que estivesse desempenhando o seu papel, e tentasse arrancar-lhe a máscara para que os espectadores lhe vissem o rosto, não perturbaria assim toda a cena? Não mereceria ser expulso a pedradas, como um estúpido e petulante? No entanto, os cômicos mascarados tornariam a aparecer; ver-se-ia que a mulher era um homem, a criança um velho, o rei um infeliz e Deus um sujeito à-toa. Querer, porém, acabar com essa ilusão importaria em perturbar inteiramente a cena, pois os olhos dos espectadores se divertiam justamente com a troca das roupas e das fisionomias. Vamos à aplicação: que é, afinal, a vida humana? Uma comédia. Cada qual aparece diferente de si mesmo; cada qual representa o seu papel sempre mascarado, pelo menos enquanto o chefe dos comediantes não o faz descer do palco. O mesmo ator aparece sob várias figuras, e o que estava sentado no trono, soberbamente vestido, surge, em seguida, disfarçado em escravo, coberto por miseráveis andrajos. Para dizer a verdade, tudo neste mundo não passa de uma sombra e de uma aparência, mas o fato é que esta grande e longa comédia não pode ser representada de outra forma.”


“Quando se reflete atentamente sobre o gênero humano, e quando se observam como de uma alta torre (justamente a maneira pela qual Júpiter costuma proceder, segundo dizem os poetas), todas as calamidades a que está sujeita a vida dos mortais, não se pode deixar de ficar vivamente comovido. Santo Deus! Que é, afinal, a vida humana? Como é miserável, como é sórdido o nascimento! Como é penosa a educação! A quantos males está exposta a infância! Como sua a juventude! Como é grave a velhice! Como é dura a necessidade da morte! Percorramos, ainda uma vez, esse deplorável caminho. Que horrível e variada multiplicidade de males! Quantos desastres, quantos incômodos se encontram na vida! Enfim não há prazer que não tenha o amargor de muito fel. Quem poderia descrever a infinita série de males que o homem causa ao homem, como sejam a pobreza, a prisão, a infâmia, a desonra, os tormentos, a inveja, as traições, as injúrias, os conflitos, as fraudes, etc.? Eu não saberia dizer-vos que delito teria o homem cometido para merecer tão grande quantidade de males, nem que deus furioso o teria constrangido a nascer em tão horrível vale de misérias.”


“Só a gramática é mais do que suficiente para nos aborrecer durante toda a vida.”


“A verdade se encontra no vinho e nas crianças.” (Alcebíades)


“Só se costuma defender a verdade quando não se é atingido por ela.”


“Suponha-se que, em meio a todos esses prejuízos, surgisse um odioso moralista que, em tom apostólico, fizesse esta patética, mas verdadeira exortação: “Não basta ter devoção por São Cristóvão: é preciso, também, viver segundo a lei divina, para não chegar a um mau fim. Não basta oferecer uma pequena moeda para obter perdões e indulgências: é preciso, ainda, odiar o mal, chorar, velar, rezar, jejuar, numa palavra, mudar de vida, praticando constantemente o Evangelho. Confiais em algum santo? Pois segui os seus exemplos, vivei como ele viveu, e assim merecereis a graça do vosso santo protetor”. Aqui entre nós: esse moralista não andaria mal falando dessa forma, mas, ao mesmo tempo tiraria os homens de um estado de felicidade, para lançá-los na miséria e na dor.”


“Os cômicos, os músicos, os oradores, os poetas eis aí, eis os melhores amigos do amor próprio! Quanto mais ignorantes, tanto mais perfeitos se julgam em sua arte, e, assim prevenidos em benefício próprio, aproveitam todas as ocasiões para celebrar os próprios louvores. Mas, não penseis que não encontrem quem os aplauda, pois toda tolice, por mais grosseira que seja, sempre encontra sequazes. Mas, ainda é pouco: quanto mais contrária ao bom senso é uma coisa, tanto maior é o número dos seus admiradores, e constantemente se vê que tudo o que mais se opõe à razão é justamente o que se adota com maior avidez.”


“É uma grande extravagância querer fazer consistir a felicidade do homem na realidade das coisas, quando essa realidade depende exclusivamente da opinião que dela se tem. Tudo na vida é tão obscuro, tão diverso, tão oposto, que não podemos certificar-nos de nenhuma verdade.”


“Se, finalmente, pudésseis observar, do mundo da lua, como o fez Menipo, as inúmeras agitações dos mortais, decerto acreditaríeis estar vendo uma densa nuvem de moscas ou de pernilongos brigando, insidiando-se, guerreando-se, invejando-se, espoliando-se, enganando-se, fornicando-se, nascendo, envelhecendo, morrendo. Não podeis sequer imaginar os horrores e as revoluções com que enche a terra esse animalzinho, tão pequeno e de tão pouca duração, que vulgarmente se chama homem.”


“A loucura tem uma força maior do que a razão, porque, muitas vezes, aquilo que não se pode conseguir com nenhum argumento se obtém com uma chacota.”


“Seria menos difícil sair de um labirinto do que desembaraçar-se do embrulho dos realistas, dos noministas, dos tomistas, dos albertistas, dos occanistas, dos scotistas, ai de mim! já me falta a respiração, e, contudo, só citei as principais seitas da escola, não falando de muitíssimas outras. Em todas essas facções, são tantas as erudições e tantas as dificuldades, que, se os próprios apóstolos descessem à terra e fossem obrigados a discutir com os teólogos modernos sobre essas sublimes matérias, sou de opinião que teriam necessidade de um novo espírito totalmente diverso daquele que, em seu tempo, lhes dava a possibilidade de falar. 
Os apóstolos consagravam com devoção e com piedade o sacramento da Eucaristia: se tivessem, porém, de explicar como Deus pode passar de um lugar para outro por meio da consagração; como se dá a transubstanciação; como um mesmo corpo pode encontrar-se ao mesmo tempo em vários lugares; que diferença existe entre o corpo de Jesus Cristo no céu, na cruz e na Eucaristia; em que momento se verifica a transubstanciação, de vez que a fórmula sacramental, como dizem eles, sendo composta de sílabas e de palavras, só pode ser pronunciada sucessivamente, creio eu que, se esses primeiros teólogos do cristianismo tivessem de dirimir tais dificuldades, teriam necessidade da agudeza dos scotistas, que são verdadeiros Mercúrios na arte de argumentar e definir. 
Tiveram os apóstolos, é verdade, a sorte de conviver com a mãe de Jesus, mas nenhum deles a conheceu tão bem como os nossos teólogos, que provaram geometricamente ter sido a Virgem fecunda preservada da mancha do pecado original. São Pedro recebeu as chaves das próprias mãos do Homem-Deus, sendo de supor-se que este não tivesse tido a intenção de colocá-las em más mãos; mas, não sei se o beato pescador conhecia bem o significado daquelas místicas chaves. Nós, porém, sabemos, com certeza, que ele nunca perguntou a Deus seu mestre como poderia um grosseiro e ignorante pescador ter as chaves da ciência. 
Os apóstolos batizavam continuamente, mas, apesar disso, nunca ensinaram a causa formal, material, eficiente e final do batismo, nem fizeram menção do caráter delével e indelével do mesmo. Esses fundadores da religião cristã adoravam a Deus, mas a sua adoração apoiava-se neste princípio fundamental do evangelho: Deus é um espírito puro e é preciso adorá-lo em espírito e verdade. Parece, igualmente, não ter sido revelado aos apóstolos que o culto, nas escolas chamado latria, possa prestar-se tanto a Jesus Cristo em pessoa como às suas imagens rabiscadas na parede com carvão, bastando que representem o filho de Deus dando a bênção com os dois dedos, índice e médio, da mão direita levantada, e com a cabeça ornada por uma longa cabeleira e um tríplice círculo de raios. Mas, como poderiam os apóstolos possuir tão grande e salutar erudição? Eles não encaneceram no fatigante estudo das ciências físicas e metafísicas de Aristóteles e dos scotistas. Os apóstolos costumam falar da graça, mas não distinguem a graça gratuita da graça gratificante; exortam às boas obras, mas não distinguem a obra operante da obra operada; inculcam a caridade, mas não separam a infusa da adquirida, além de não explicarem se essa amável e divina virtude é substância ou acidentecriada ou incriada; detestam o pecado, mas eu quisera morrer se eles já foram capazes de definir cientificamente o que chamamos de pecado, a não ser que tenham sido inspirados pelo espírito dos scotistas. Se São Paulo, pelo qual devemos julgar todos os outros apóstolos, tivesse tido uma boa teoria do pecado, teria ele condenado com tanta insistência as polêmicas, as contendas, as querelas, as discussões em torno de palavras? Digamos, pois, com franqueza, que São Paulo não conhecia as argúcias e as qualidades espirituais que distinguem os modernos, tanto mais quanto as controvérsias surgidas na primitiva Igreja não passavam de pueris mesquinharias diante do refinamento dos nossos mestres, que, em matéria de sutileza, ultrapassaram de muito o próprio sofista Crisipo. Façamos, porém, justiça à sua modéstia, pois não condenam o que os apóstolos escreveram com pouco acerto e precisão, mas se limitam a interpretá-lo de modo favorável, para usar de certa consideração para com a venerável antiguidade e para com o apostolado. Não seria, aliás, razoável pretender que os apóstolos tratassem dessas difíceis matérias, quando o seu divino mestre nunca lhes disse uma palavra a respeito. (...)
Não considerareis felicíssimas essas pessoas? Mas, prossigamos ainda um pouco. Quantas lindas lorotas não vão esses doutores impingindo a respeito do inferno? Conhecem tão bem todos os seus apartamentos, falam com tanta franqueza da natureza e dos vários graus do fogo eterno, e das diversas incumbências dos demônios, discorrem, finalmente, com tanta precisão sobre a república dos danados, que parecem já ter sido cidadãos da mesma durante muitos anos. Além disso, quando julgam conveniente, não se poupam o trabalho de criar ainda novos mundos, como o mostraram formando o décimo céu, por eles denominado empíreo e fabricado expressamente para os beatos, sendo mais do que justo que as almas glorificadas tivessem uma vasta e deliciosa morada para aí gozarem de todo o conforto, divertindo-se juntas e até jogando a péla quando tivessem vontade.
Os nossos finos pensadores têm a cabeça tão cheia, tão agitada por essas bobagens, que decerto não estava mais cheia a cabeça de Júpiter quando, ao querer parir Minerva, implorou o socorro do machado de Vulcano. Não vos admireis, pois, ao vê-los aparecer nas defesas públicas com a cabeça cuidadosamente cingida com tantas faixas, pois não fazem senão procurar impedir, por meio desses respeitáveis liames, que ela arrebente de todos os lados em virtude da porção de ciência de que o seu cérebro se acha sobrecarregado.”


“Depois desses, segue-se imediatamente a espécie melhor do gênero animal, isto é, os que vulgarmente se chamam monges ou religiosos.
Seria, porém, abusar grosseiramente dos termos chamá-los, ainda hoje, por tais nomes. Com efeito, por via de regra, não há pessoas mais irreligiosas do que essas e, como a palavra monge significa solitário, parece-me não se poder aplicá-la mais ironicamente as pessoas que se encontram em toda parte, acotovelando-se a cada passo. Sem o meu socorro (da Loucura), que seria desses pobres porcos dos deuses? São de tal forma odiados que, quando por acaso são vistos, costuma-se tomá-los por aves de mau agouro. Isso não impede que cuidem escrupulosamente da sua conservação e se considerem personagens de alta importância. A sua principal devoção consiste em não fazer nada, chegando ao ponto de nem ler. Sem dar-se ao trabalho de entender os salmos, já se julgam demasiados doutos quando lhes conhecem o número, e, quando os cantam em coro, imaginam enlevar o céu com a asnática melodia. Entre esse variegado rebanho, alguns se encontram que se gabam da própria imundície e da própria mendicidade, indo de casa em casa esmolar, mas com uma fisionomia tão descarada que parecem mais exigir um crédito do que pedir a esmola. Albergues, botequins, carros, diligências, todos, em suma, são por eles importunados, com grande prejuízo dos verdadeiros necessitados. É dessa forma que pretendem ser, como dizem eles, os nossos apóstolos, com toda a sua imundície, toda a sua ignorância, toda a sua grosseria, todo o seu descaramento. 
Nada mais ridículo do que a ordem exata e precisa que observam em todos os seus atos: tudo é feito por eles a compasso e à medida. Os sapatos devem ter tantos nós, o cíngulo deve ser de tal cor, a roupa composta de tantas peças, a cinta de tal qualidade e de tal largura, o hábito de tal forma e de tal tamanho, a coroinha de tantas polegadas de diâmetro. Além disso, devem comer a tal hora, tal qualidade e tal quantidade de alimento, dormir somente tantas horas, etc. Ora, todos podem compreender muito claramente que é impossível conciliar tão precisa uniformidade com a infinita variedade de opiniões e de temperamentos. Pois é nessa metódica exterioridade que os monges encontram argumento para desprezar os que eles chamam de seculares. Muitas vezes, dá causa a sérias contendas entre as diferentes ordens, a ponto dessas santas almas que se vangloriam de professar a caridade apostólica se destruírem mutuamente. E por que? Por causa de um cíngulo diverso ou da cor mais carregada da roupa.
Alguns desses reverendos mostram, contudo, o hábito de penitência, mas evitam que se veja a finíssima camisa que trazem por baixo; outros, ao contrário, trazem externamente a camisa e a roupa de lã sobre a pele. Os mais ridículos, a meu ver, são os que se horrorizam ao verem dinheiro, como se se tratasse de uma serpente, mas não dispensam o vinho nem as mulheres. Não podeis, enfim, imaginar quanto se esforçam por se distinguirem em tudo uns dos outros. Imitar Jesus Cristo? É o último dos seus pensamentos. Muito se ofenderiam se lhes dissésseis que obtiveram isto ou mais aquilo deste ou daquele instituto. Julgais que a enorme variedade de sobrenomes e de títulos não deleite muito os seus ouvidos? Há os que se gabam de chamar-se franciscanos, tronco que se subdivide nos seguintes ramos: os reformados, os menores observantes, os mínimos, os capuchinhos; outros se dizem beneditinos; estes se chamam bernardinos e aqueles de Santa Brígida; outros são de Santo Agostinho; estes se denominam guilherminos e aqueles jacobitas, etc. Como se não lhes bastasse o nome de cristãos. Quase todos confiam tanto em certas cerimônias e em certas tradiçõezinhas humanas, que um só paraíso lhes parece um prêmio muito modesto para os seus méritos. No entanto, Jesus Cristo, desprezando todas essas macaquices, só julgará os homens pela caridade, que é o primeiro dos seus mandamentos. Em vão, tremendo no dia do juízo final, apresentarão eles a Deus um corpo bem nutrido por tudo quanto é peixe; em vão lhe oferecerão o canto dos salmos e os inúmeros jejuns; em vão sustentarão que arrumaram a barriga com uma única refeição; em vão produzirão uma porção de práticas fradescas, capazes de carregar pelo menos sete navios; em vão se gabará este de ter passado sessenta anos sem tocar em dinheiro, a não ser com dois dedos muitos sujos; em vão mostrará aquele o seu hábito tão sórdido que até um barqueiro se recusaria a vesti-lo; em vão se gabará outro de ter vivido cinquenta e cinco anos sempre encerrado em seu claustro, como uma esponja; em vão aquele fará ver que perdeu a voz de tanto cantar, e este que a longa solidão lhe perturbou o cérebro; em vão dirá um outro que o perpétuo silêncio entorpeceu-lhe a língua. Interrompendo todas essas gabolices (pois do contrário seria um nunca mais acabar), Jesus Cristo dirá: 
– De que país vem essa nova raça de judeus? Pois não dei aos homens uma lei única? Sim, e somente essa eu reconheço como verdadeiramente minha. E esses malandros não dizem sequer uma palavra a respeito? Abertamente e sem parábolas, eu prometi, outrora, a herança do meu Pai, não às túnicas, nem às oraçõezinhas, nem à inédia, mas à observância da caridade. Não, não reconheço pessoas que apreciam demais as suas pretensas obras meritórias e querem parecer mais santas do que eu próprio. Procurem, se quiserem, um céu a parte. Mandem construir um paraíso por aqueles cujas frívolas tradições eles preferiram à santidade dos meus preceitos. 
Qual não será a consternação de todos eles, ao ouvirem tão terrível sentença e ao verem que se lhes antepõem os barqueiros e os carroceiros? No entanto, a despeito de tudo isso, são sempre felizes com suas vãs esperanças, o que, em substância, não é senão o efeito da minha bondade para com eles.”


“(Estes teólogos) Principiam sempre as suas mixórdias com uma invocação tomada de empréstimo aos poetas, e fazem um exórdio sem relação alguma com o assunto que devem abordar. Devem, por exemplo, pregar a caridade? Começam pelo rio Nilo. Devem pregar sobre o mistério da cruz? Começam pelo Belo, o fabuloso dragão da Babilônia. Devem pregar o jejum quaresmal? Começam pelas doze constelações do zodíaco. Devem pregar a fé? Começam pela quadratura do círculo. E assim por diante. (...)
Pregam como os charlatães, e juraríeis que, embora conheçam muito mais que os frades o coração humano, com estes é que aprenderam a sua arte. Com efeito, é tal a semelhança das suas declamações que de duas uma: ou os charlatães aprenderam retórica com os nossos pregadores, ou os nossos pregadores estudaram eloquência com os charlatães.”


“Passemos, agora, aos grandes da corte. Não há escravidão mais vil, mais repulsiva, mais desprezível do que aquela a que se submete essa ridícula espécie de homens, que, não obstante, costuma ganhar para si, de alto a baixo, o resto dos mortais. Convenhamos, porém, que são modestíssimos num único ponto: é que, satisfeitos de possuir o ouro, as pedras, a púrpura e todos os outros símbolos da sabedoria e da virtude, cedem facilmente aos outros o cuidado da sabedoria e da virtude.”


“Com efeito, o principal objetivo dos nossos Ilustríssimos e Reverendíssimos consiste em viver alegremente, e, quanto ao rebanho, que dele cuide Jesus Cristo. Aliás, já não possuem os arcediagos, os vigários gerais, os confessores, os frades e mil outros fiéis mastins, que estão sempre em guarda contra o lobo do inferno? Os bispos chegaram a esquecer que o seu nome, tomado ao pé da letra, significa trabalho, zelo, solicitude pela redenção da almas. Mas por Baco! não se esquecem nunca das honrarias e do dinheiro.”


“Os nossos Santíssimos Pais de Cristo e o seus vigários gerais nunca empregam com maior zelo esse espantoso castigo do que no caso daqueles que, à instigação do demônio, tentam diminuir ou danificar o patrimônio de São Pedro. Dizia este bom apóstolo ao seu Mestre: 
– Deixamos tudo para seguir-te. 
Compreendereis que grande sacrifício fez o pobre pescador! Foi a fortuna o que ele conseguiu em virtude dessa renúncia; é por isso que Sua Santidade glorificada possui terras, cidades, domínios, e percebe impostos e taxas. E é sobretudo para defender e conservar essa rica aquisição que os pontífices romanos costumam condenar as almas. É verdade que nem ao menos poupam os corpos, e, inflamados pelo zelo de Jesus Cristo, desfraldam a bandeira de Marte e, sem piedade, empregam o ferro e o fogo para sustentar as suas razões. Bem vedes que não se pode fazer semelhante guerra sem derramar o sangue cristão.
– Mas, que importa? – respondem os papas – Estamos defendendo apostolicamente a causa da Igreja e só deporemos as armas quando tivermos vingado a esposa de Jesus Cristo contra os seus inimigos. 
Eu desejaria saber, porém, se haverá para a Igreja inimigos mais perniciosos do que esses ímpios pontífices, os quais, em lugar de pregar Jesus Cristo, deixam no esquecimento o seu nome e o põem de lado com leis lucrativas, alteram a sua doutrina com interpretações forçadas e, finalmente, o destroem com exemplos pestilentos.
Além disso, assim como a Igreja cristã foi fundada com sangue, confirmada com sangue, dilatada com sangue, assim também os papas a governam com sangue, como se nunca Jesus Cristo tivesse existido para protegê-la e sustentá-la. 
A guerra é, por natureza, tão cruel, que muito mais conviria às feras do que aos homens; tão insensata que os poetas a atribuíram às fúrias do inferno; tão pestilenta que corrompe todos os costumes; tão iníqua que a fazem melhor perversos ladrões do que homens probos e virtuosos; finalmente, tão ímpia que nenhuma relação possui com Jesus Cristo nem com sua moral. Isso não impede que alguns pontífices abandonem todas as funções pastorais para consagrar-se inteiramente a esse flagelo da humanidade. (...) E acham razões para provar que desembainhar a espada e cravá-la no coração de um irmão não é absolutamente infringir o grande mandamento da caridade para com o próximo.”


“Naturalmente, todos os homens fazem um alto conceito de si mesmos.”


“Não vos esqueçais deste antigo provérbio dos gregos: Muitas vezes, também o homem louco fala judiciosamente.”


“Em lugar de um epílogo quero oferecer-vos duas sentenças. A primeira, antiquíssima, é esta: Eu jamais desejaria beber com um homem que se lembrasse de tudo. E a segunda, nova, é a seguinte: Odeio o ouvinte de memória fiel demais.”

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A Torre Negra: Lobos de Calla, de Stephen King

Editora: Suma de Letras

ISBN: 978–85–81050–25–6

Tradução: Mário Molina

Opinião: ★★★★☆

Páginas: 744

Sinopse: Depois de escapar das perigosas entranhas de Blaine, o monotrilho desgovernado, e das garras do vingativo feiticeiro Randall Flagg, Roland e seu Ka-tet retomam o caminho do Feixe de Luz que conduz à Torre Negra, centro de todo tempo e todo espaço.

Nas fronteiras do Mundo Médio, o grupo de pistoleiros é abordado por um assustado grupo de representantes da cidade de Calla Bryn Sturgis. Dali a menos de um mês, Calla será atacada pelos Lobos – cavaleiros mascarados que surgem uma vez a cada geração, para roubar metade das crianças da cidade e devolvê-las semanas depois, física e mentalmente incapacitadas.

Enquanto isso, na Nova York de 1977, a Corporação Sombra planeja atacar o terreno baldio na esquina da Segunda Avenida com a Rua Quarenta e Seis onde floresce uma rosa – na verdade a Rosa, manifestação da Torre Negra no mundo atual.

Como Roland e seus amigos poderão ao mesmo tempo salvar a Rosa e combater os Lobos? Somente com a ajuda do Treze Preto, o mais poderoso dos Globos do Mago, na verdade o próprio olho do Rei Rubro. Mas, para salvar o mundo do caos, os pistoleiros terão de aprender a confiar nesse objeto sinistro e traiçoeiro...

Inspirada no universo imaginário de J.R.R. Tolkien, no poema épico do século XIX Childe Roland a Torre Negra Chegou, e repleta de referências à cultura pop, às lendas arturianas e ao faroeste, A Torre Negra mistura ficção científica, fantasia e terror numa narrativa que forma um verdadeiro mosaico da cultura popular contemporânea.



“Eddie passou no mínimo uma hora contando a Roland a história de João e Maria, transformando a perversa bruxa comedora de crianças em Rhea do Coos quase sem pensar nela. Quando chegou a parte em que ela tentava engordar as crianças, ele se interrompeu e perguntou a Roland: – Conhece esta? Uma versão desta?

– Não – disse Roland –, mas é uma bela história. Conte até o fim, por favor.

Eddie contou, acabando com o exigido E viveram felizes para sempre, e o pistoleiro aquiesceu.

– Ninguém nunca vive feliz para sempre, mas deixamos as crianças aprenderem isso por conta própria, não é?”

 

 

“A mãe de Roland tinha um ditado: O amor tropeça.”

 

 

“– Se – disse Roland. – Um velho mestre meu dizia que esta era a única palavra de mil letras.”

 

 

“Havia um ditado em Gilead: Que o mal espere pelo dia em que deve se abater.”

 

 

“– Os que mantêm conversa consigo mesmos viram triste companhia.”

 

 

“Eddie sorriu e nada disse por mais algum tempo, esperando que Telford mudasse de assunto. Esperando que Telford desse o fora, na verdade. Não existe tal sorte. Os chatos não desgrudam da gente: isto era quase uma lei da natureza.”

 

 

“Acima de pequenas doses, o álcool é uma toxina, e Callahan vinha se envenenando todas as noites. Era o veneno em seu sistema, não o estado do mundo nem o de sua própria alma, que o estava derrubando. Fora isso sempre tão óbvio assim? Depois (em outra reunião dos AA), ele ouvira um sujeito referir-se ao alcoolismo e à dependência como o elefante na sala: como era possível não vê-lo? Callahan não lhe dissera, ainda estava nos primeiros noventa dias de sobriedade àquela altura (“Tire o algodão dos ouvidos e enfie na boca”, aconselhavam os dos velhos tempos, e todos agradecemos), mas podia ter-lhe dito, na verdade, sim. Era possível não ver o elefante se fosse um elefante mágico, se tivesse o poder de toldar as mentes dos homens. De fazer a gente acreditar mesmo que nossos problemas eram espirituais e mentais, mas de modo algum etílicos. Meu Bom Jesus, só a perda do sono REM, relacionada à bebedeira, bastava para nos foder com plena razão, mas de algum modo a gente nunca pensava nisso quando estava ativo. A pinga transformava seu processo mental numa coisa semelhante àquele número circense em que todos os palhaços vêm saltando do carrinho. Quando as revíamos na sobriedade, as coisas que disséramos e fizéramos nos faziam estremecer (“Eu me sentava num bar resolvendo todos os problemas do mundo, depois não conseguia encontrar meu carro no estacionamento”, lembrou um colega na reunião, e todos agradecemos”).”

 

 

“– Eu sei como começa a escalada de volta – disse. – Tinha tomado suficientes drinques de fundo, ido a suficientes reuniões dos AA no East Side, Deus sabe. Portanto, quando me deixaram sair, encontrei os AA em Topeka e passei a ir todo dia. Nunca olhava para a frente, nunca olhava para trás. “O passado é história, o futuro é um mistério”, dizem. Só que desta vez, em vez de me sentar no fundo da sala e não dizer nada, eu me obrigava a ir direto para a frente, e durante as apresentações dizia: “Sou Don C. e não quero beber mais.” Eu queria, sim, todo dia sentia falta, mas nos AA eles têm ditados para tudo, e um deles é: “Finja até conseguir.” E aos pouquinhos eu consegui mesmo. Acordei um dia no outono de 1982 e compreendi que realmente não queria mais beber. A compulsão, como eles dizem, se fora.”

 

 

“– As promessas são feitas para serem quebradas.”

 

 

“– Jack Kennedy não era um homem mau – disse Susannah calmamente. – Jack Kennedy era um homem bom. Um grande homem.

– Talvez. Mas sabe de uma coisa? Eu acho que é preciso ser um grande homem para cometer um grande erro.”

 

 

     “Meu pai e o pai de Cuthbert tinham uma regra entre eles: primeiro chegam os sorrisos, depois, as mentiras. Por último, o tiroteio.”

 

 

“Em Calla Bryn Sturgis (como na maioria dos lugares), os homens em estado de sobriedade não gostavam muito de falar sobre seus corações.”

 

 

“Susannah pôs a mão no quadril dele e virou-o para ela.

– Mas as coisas podem dar errado, por isso eu quero lhe dizer uma coisa enquanto estamos só nós dois, Eddie. Quero dizer o quanto amo você. – Falou simplesmente, sem drama.

– Eu sei que me ama – disse ele –, mas diabos me levem se eu souber por quê.

– Porque você me faz sentir inteira. Quando eu era mais jovem, vacilava entre achar que o amor era esse grande e glorioso mistério e que era apenas uma coisa que um bando de produtores de Hollywood inventou pra vender mais ingressos na Depressão, quando tudo deu errado – Eddie riu.

– Agora acho que todos nós nascemos com um buraco em nossos corações, e andamos por aí à procura da pessoa que possa enchê-lo. Você – Eddie, você o encheu até em cima.”

 

 

“Um amigo do padre Callahan dera-lhe uma blasfema mostra de tapeçaria que o fizera soltar rajadas de risada horrorizada na época, mas que foi parecendo mais verdadeiro e menos blasfemo com o passar dos anos: Deus me conceda a SERENIDADE para aceitar o que não posso mudar, a TENACIDADE para mudar o que posso e a BOA SORTE para não foder tudo com muita frequência.”