terça-feira, 27 de setembro de 2011

Notícias do Império, de Fernando del Paso

Editora: Record
ISBN: 978-85-0105-384-8
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 660
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Sinopse: O livro Notícias do império relata a história de um louco amor e a louca história da fracassada tentativa de criar um império mexicano. A moratória da dívida com os bancos franceses e ingleses somada à cobiça pelas minas de prata da região de Sonora e o medo do aumento da influência dos Estados Unidos na região levaram o imperador francês Napoleão III a ocupar o México, derrubar o índio zapoteca Benito Juárez e instalar como imperador Fernando Maximiliano, irmão do arquiduque da Áustria, Francisco José.



“Mas estranho que o senhor considere os ingleses europeus. Em mais de um sentido, a Inglaterra não é a Europa. Digamos que podemos considerar os ingleses europeus quando nos convém e como bárbaros, vikings ou o que quiser quando for mais adequado para nossos interesses. Afinal, eles, e ninguém mais, são os culpados de que haja na América vinte milhões de ianques, os novos vândalos da história, que querem roubar todo o continente, a começar pelo nome, do qual já se apossaram.” 


“O chanceler austríaco Klemens Lothar Metternich, apelidado de Grande Inquisidor da Europa, e a quem, graças à sua insistência e bom gosto, se deve a invenção do bolo de chocolate vienense Sachertorte, afirmava que o café devia ser quente como o amor, doce como o pecado e negro como o inferno.” 


“E, sim, claro, os astecas também eram cruéis, não é verdade? Faziam sacrifícios humanos. Isso, claro, era errado. Mas o que não podemos permitir é que nós europeus continuemos a nos espantar com esses sacrifícios quando, na época em que soubemos deles, a Inquisição agia na Europa com todo o seu horror. Com uma diferença: a religião dos astecas era uma religião de deuses cruéis, portanto o sacrifício tinha uma lógica: macabra, sim, mas uma lógica. Nós, na Europa, torturávamos inocentes e queimávamos bruxas em nome de um Deus todo misericordioso.” 


“Acaba de ser publicado um regulamento para os bailes à fantasia no jornal oficial, no que agora é chamado de Diário do Império... É muito curioso: é proibido fantasiar-se de sacerdote, freira, bispo ou cardeal... Mais que curioso, diria eu, é redundante, pois proíbe fantasiar-se com fantasias... pois são isso as batinas e os hábitos: fantasias de teatro. Recordo-me agora do que um amigo meu dizia sobre os jesuítas, que são talvez os mais perigosos de todos: sob o manto negro de Inácio de Loyola esconde-se a espada de Iñigo López.”


“Mas acontece algo muito irônico: quanto mais distinto e culto é um mexicano, menos mexicano ele é, e também menos parece importar a ele o futuro de seu país. O que interessa a eles é viver como europeus e que seus filhos sejam educados como tais.” 


“Mas o que se pode esperar de um país onde todos os meses são descobertas e destruídas duas ou três máquinas para falsificar moeda e no qual essa arte era praticada desde o tempo dos astecas? Ou seja, aqui já se falsificava a moeda quando esta ainda não existia. Serei mais claro: naquela época o que fazia as vezes de moeda era o cacau – que agora descobri ser originário do México. Ou melhor, usava-se a semente de seu fruto, que é grande. Pois bem, você não vai acreditar, mas havia índios que faziam um buraco na semente, tiravam seu conteúdo, com o que é feito o chocolate, e depois enchiam o buraco com barro e disfarçavam o orifício.” 


“‘Veja bem, o México’, dizia-me outro dia um importante geógrafo, ‘tem a forma de uma cornucópia’. Limitei-me a assentir, com um leve levantar de sobrancelhas. Não quis dizer ao bom homem, primeiramente, que o país adquiriu essa forma depois que os americanos roubaram metade do mesmo; segundo, que a boca da cornucópia está para cima, ou seja, voltada para os Estados Unidos, como uma premonição, talvez, do destino futuro das riquezas deste país.”


“Mas um pouco antes Mejía deu mostras de que não perdera o bom humor: quando Maximiliano, no convento, escutou uma trombeta e perguntou a ele se aquele seria o sinal de partida para o patíbulo, “o negrinho” respondeu: “Não sei, Vossa Majestade, é a primeira vez que me executam”.” 


“Morto o cão, dizem, acaba a raiva.”

sábado, 10 de setembro de 2011

A misteriosa chama da rainha Loana – Umberto Eco

Editora: Record

ISBN: 978-85-0107-143-9

Tradução: Eliana Aguiar

Opinião: ★★☆☆☆

Páginas: 456

Sinopse: Imagine acordar um dia e perceber que você perdeu a memória. Não sabe onde está, como se chama, quem é sua mulher (ou marido), se é casado ou não, quem são — se é que existem — seus filhos... É o que acontece com Yambo, o protagonista de A Misteriosa Chama Da Rainha Loana.

Yambo lembra-se de Waterloo, de como se dirige um automóvel e se escova os dentes, mas não lembra quem ele é. Permanece a memória semântica (sabe tudo que leu sobre Napoleão ou Julio César e consegue citar trechos inteiros da Divina Comédia) e automática, mas perdeu-se a memória afetiva, o que constitui seu ser e sua própria história.

Depois do coma que causou a amnésia, por recomendação médica, Yambo viaja para a casa de campo que fora de seu avô — um colecionador de tralhas, quinquilharias, jornais e revistas antigas —, nas montanhas do Piemonte, onde passou grande parte de sua infância e adolescência. E é lá que Yambo, na verdade Giambattista Bodoni, um comerciante de livros antigos já na meia-idade, mergulha em sua própria vida. Com a ajuda de músicas, odores, livros e quadrinhos, coisas que viu e tocou há sessenta anos, Yambo tenta retornar para o presente. De Flash Gordon e Dick Tracy ao primeiro amor, Umberto Eco resgata sua própria juventude, misturando-se, página a página, com seu protagonista.

Eco passou dois anos à procura de imagens e ícones que representassem a memória de Yambo (e a sua própria). A Misteriosa Chama Da Rainha Loana recompõe a história da Itália dos anos 1930 e 40. Eco traz à tona histórias de Julio Verne; discos de 78 rotações; figurinhas de álbuns famosos; gibis; as obras de Emilio Salgari; canções populares, por onde passam jovens frágeis e inesquecíveis (Signorinella pallida), outras, apaixonadas (C’eravamo tanti amati), ousadas, patriotas (Le ragazze di Trieste); além dos hinos fascistas, com suas promessas de perenes primavera e juventude (Primavera, Giovinezza), visando ao fortalecimento moral das fronteiras do Império Italiano. E mais, o rádio de galena, as ondas curtas e a BBC de Londres. Toda uma semiologia que leva aos tempos do Fascismo e às portas da Segunda Grande Guerra.

Montado o quebra-cabeça, A Misteriosa Chama Da Rainha Loana revela-se a autobiografia de uma geração. Um romance-fábula sensível que mostra que, muitas vezes, é preciso revisitar o passado para viver o presente. Um livro emocionante, cheio de calor e lembranças, de suspiros e saudades.



“(Eu havia perdido minha memória, estava com amnésia.) Disse que me sentia fraco e precisava dormir. Saíram, eu chorava. As lágrimas são salgadas. Donde, eu ainda tinha sentimentos. Sim, mas fresquinhos da hora. Aqueles de antes já não eram mais meus. Quem sabe, perguntava-me, se alguma vez fui religioso: certamente, de qualquer jeito, perdera a alma.”

 

 

“Recordar é um trabalho, não um luxo.”

 

 

“Eu lia muito?”

“Você é um leitor incansável. Com uma memória de elefante. Sabe um monte de poesias de cor.”

“Escrevia?”

“Nada seu. Sou um gênio estéril, costumava dizer, nesse mundo ou se lê ou se escreve, os escritores escrevem por desprezo pelos colegas, para ter, de vez em quando, alguma coisa de bom para ler.”

“Tenho tantos livros. Desculpe, temos.”

“Aqui são cinco mil. E tem sempre o idiota de plantão que entra e diz quantos livros o senhor tem, já leu todos?”

“E o que respondo?”

“Em geral: nenhum, de outra maneira por que os conservaria aqui? O senhor por acaso guarda latas de carne depois de esvaziá-las? Os cinquenta mil que li, doei a prisões e hospitais. E o idiota vacila.”

 

 

“Evidente, se não começar a pensar que é tudo uma comédia, você dá um tiro na cabeça.”

 

 

“Perguntei a Paola quais eram as minhas posições políticas: “Não gostaria de descobrir que sou, sei lá, nazista.”

“Você é aquilo que se chama de um democrático”, respondeu Paola, “mais por instinto do que por ideologia. Eu sempre disse que a política o entediava – e você, para polemizar, me chamava de La pasionaria. Era como se tivesse se refugiado nos livros antigos por medo do mundo, ou desprezo. Não, estou sendo injusta, não era desprezo, porque você se inflamava com os grandes problemas morais. Assinava pelos pacifistas e pela não-violência, se indignava com o racismo. Até se inscreveu em uma liga contra a vivissecção.”

“Animal, imagino.”

“Claro. A vivissecção humana se chama guerra.”

“E sempre... fui assim, mesmo antes de encontrar você?”

“Na infância e na adolescência você resvalava. É bem verdade que nunca consegui entendê-lo nessas coisas. Sempre foi um misto de piedade e cinismo. Se havia uma condenação à morte em algum lugar, assinava contra, mandava dinheiro para uma comunidade antidroga, mas se lhe diziam que dez mil crianças foram mortas, digamos, em uma guerra tribal na África, dava de ombros, como quem dissesse que o mundo não deu certo e não há nada que se possa fazer. Sempre foi um homem jovial, apreciava as belas mulheres, os bons vinhos, a boa música, mas me dava a impressão de que era como que uma crosta externa, um modo de se esconder. Quando se soltava, dizia que a história é um enigma sangrento e o mundo um erro.”

Nada poderá tirar-me da mente que este mundo é fruto de um deus tenebroso cuja sombra eu prolongo.”

“Quem disse isso?”

“Não sei mais.”

 

 

“Precisamos saber de que somos feitos nós, estirpe de Caim.”

 

 

“Telefonei para o médico, Gratarolo perguntou-me se fizera alguma coisa que não devia e tive que admitir que carregava caixas, bebia pelo menos uma garrafa por refeição, fumava vinte Gitanes por dia, além de infligir-me doces taquicardias. Repreendeu-me: estava em convalescença, se a pressão subisse às estrelas o acidente poderia se repetir e talvez eu não conseguisse escapar de fininho como da primeira vez. Prometi que iria me cuidar, ele aumentou a dose dos comprimidos e acrescentou outros para eliminar sal através da urina.

Pedi que Amália salgasse menos a comida, e ela disse que durante a guerra para conseguir um quilo de sal tinha que dar saltos mortais e ainda dois ou três coelhos em troca, logo o sal é uma graça de Deus que, quando falta, as coisas já não têm gosto de nada. Eu disse que o médico me proibira e ela rebateu que os doutores estudam tanto e depois ficam mais burros que os outros e que não se deve dar ouvido a eles – bastava olhar para ela, que nunca tinha visto um médico em sua vida e que aos setenta completos se desancava todo o santo dia em mil trabalhos, e não tinha nem ciática como os outros. Paciência, eliminaria o seu sal com minhas urinas.”

 

 

“Nada excita mais ao holocausto que o rancor de uma derrota.”

 

 

“Poesias tão ruins só podiam ser minhas. Acne juvenil. Acho que todos nós escrevemos poesia aos dezesseis anos, é uma fase de passagem entre adolescência e idade adulta. Não sei mais onde li que os poetas dividem-se em duas categorias, os bons poetas, que a certa altura destroem suas poesias ruins e vão vender armas na África, e os maus poetas, que as publicam e continuam a escrevê-las até a morte.”

 

 

“Quem morre jaz e quem vive lhe dá paz.”

 

 

“Então estou morto e o além é esse território monótono e tranquilo no qual por toda a eternidade reviverei minha vida passada, pior para mim se ela foi atroz (será o inferno), do contrário o paraíso. Ora! Imagine que você nasceu corcunda, cego e surdo-mudo ou que as pessoas que amava caíram a seu redor como moscas, pais, mulher, filho de cinco anos e que o além não fosse mais que a repetição, diferente, mas contínua, dos sofrimentos que viveu? O inferno não são les autres mas o rastro de morte que deixamos ao viver? Mas nem mesmo o mais maligno dos deuses poderia imaginar tal sorte para nós.”

 

 

“E, enfim, como se sabe, o inferno, se existe, é vazio.”

 

 

“Revejo uma cena rápida que deve ter acontecido alguns anos antes. Pergunto:

“Mamãe, o que é revolução?”

“É uma coisa em que os operários vão para o governo e cortam a cabeça de todos os funcionários como seu pai.”

 

 

“Perguntei por que frequentava o Oratório, já que todos diziam que era ateu. Respondeu que vinha porque era o único lugar em que podia ver gente. E além do mais não era ateu, era anarquista. Na época não sabia o que era anarquista e ele explicou que eram pessoas que desejavam a liberdade, sem patrões, sem rei, sem estado e sem padres. “Sem estado, sobretudo, não como os comunistas que, na Rússia, têm um estado que diz até quando podem ir ao banheiro”. (...)

Voltou depois a falar mal dos comunistas que mataram os anarquistas na Catalunha. Perguntei por que, sendo contra os comunistas, estava com os garibaldinos, que eram comunistas. Respondeu que, número um, nem todos os garibaldinos eram comunistas, e entre eles havia socialistas e até anarquistas, número dois, porque naquele momento o inimigo era o nazifascismo e em casos do gênero não se deve ligar muito para sutilezas. “Primeiro se vence junto, depois se acertam as contas.”

Em seguida acrescentou que ia ao Oratório porque era uma coisa boa. Os padres eram uma raça ruim, mas eram como os garibaldinos, entre eles também tinha gente boa. “Sobretudo nesses tempos em que não se sabe onde os meninos vão parar, até o ano passado ensinavam-lhes o livro e a espada. No Oratório pelo menos não deixam que se estraguem, são educados para serem honestos, embora eles insistam um pouco demais na história das punhetas (de ser pecado praticá-las), mas não importa, porque vocês continuam do mesmo jeito e no máximo se confessam depois. Portanto, venho ao Oratório e ajudo dom Cognasso a entreter os meninos. Quando chega a hora da missa, fico no fundo da igreja em silêncio, porque Jesus Cristo eu respeito, mas Deus não”.”

 

 

“Como li o verbete Hegel no Novíssimo Melzi (“Ins. Fil. Al. da escola panteísta”), perguntei quem era. “Hegel não era panteísta e seu Melzi é um ignorante. Panteísta, no máximo, era Giordano Bruno. Um panteísta diz que Deus está em toda parte, até no cocô da mosca que você vê bem ali. Bela satisfação, estar em toda parte é como não estar em parte alguma. Pois bem, para Hegel, não era Deus, mas o Estado que tinha de estar por toda parte, e portanto era um fascista.”

“Mas ele não viveu mais de cem anos atrás?”

“E o que importa? Joana D’Arc também, e era uma fascista de primeira ordem. Os fascistas sempre existiram. Desde os tempos... desde os tempos de Deus. Pegue Deus. Um fascista.”

“Mas você não é ateu, não diz que Deus não existe?”

“Quem disse isso? Don Cognasso, que não entende nada de porra nenhuma? Eu acredito que Deus existe, infelizmente. Só que é um fascista.”

“Mas por que Deus é fascista?”

“Ouça, você é jovem demais para que possamos discutir teologia. Vamos partir daquilo que sabe. Recite os dez mandamentos, já que no Oratório vocês são obrigados a sabê-los de cor.”

E eu recitava. “Pois bem”, dizia, “agora preste atenção. Entre esses dez mandamentos tem quatro, atenção, não mais que quatro, que aconselham boas coisas – se bem que até eles, hum, depois veremos. Não matar, não roubar, não dar falso testemunho e não desejar a mulher do próximo. Este último é um mandamento para homens que sabem o que quer dizer honra, de um lado não transformar os amigos em cornos e, do outro, tentar manter de pé a família, e isso até pode ser bom, embora a anarquia queira eliminar a família, não se pode fazer tudo de uma vez só. Quanto aos outros três, certo, mas também é o mínimo que o bom senso aconselha. Mesmo que depois seja preciso dar um desconto, mentira todo mundo diz, talvez até com um objetivo bom, mas matar não, não se pode, nunca.”

“Nem quando o rei manda você para a guerra?”

“Aí está o ponto. Os padres dizem que se for mandado para a guerra pelo rei, você pode, aliás, deve matar. De qualquer forma a responsabilidade é do rei. Assim, justifica-se a guerra, que é uma besta imunda, sobretudo se quem o mandou para lá foi Crapone. Note-se que os mandamentos não dizem que se pode matar na guerra. Dizem não matar e ponto final. Mas depois...”

“Depois?”

“Vamos ver os outros mandamentos. Eu sou o senhor teu Deus. Isso não é um mandamento, senão seriam onze. É o prólogo. Mas é um prólogo vivaldino.” (...)

“E sempre fez assim: tem que acreditar na bíblia porque é inspirada por Deus, mas quem falou que a bíblia é inspirada por Deus? A própria bíblia. Entendeu a manha? Mas vamos adiante. O primeiro mandamento diz que não terás outro Deus fora ele. Assim, esse senhor o proíbe de pensar, sei lá, em Alá, em Buda ou talvez em Vênus – que, a bem da verdade, ter como deusa um pedaço de mulher daqueles não era nada mau. Mas quer dizer que também não se pode acreditar, sei lá, na filosofia, na ciência, porque podem botar na sua cabeça que o homem descende do macaco. Só ele, e basta. Agora preste atenção, todos os outros mandamentos são fascistas, feitos para obrigar a aceitar a sociedade do jeito que é. Guardar domingos e festas... O que acha?”

“Bem, na verdade manda ir à missa aos domingos, o que há de mau?”

“Isso é o que diz dom Cognasso, que, como todos os padres, não sabe nem onde fica a bíblia da casa. Acorde! Numa tribo primitiva como aquela que Moisés andava levando para passear, isso significava observar os rituais e os rituais servem para engambelar o povo, dos sacrifícios humanos aos comícios de Crapone na praça Venezia! E depois: Honrar pai e mãe. Calado, não me diga que é justo obedecer aos pais, isso está bom para as crianças que precisam ser guiadas. Honrar pai e mãe quer dizer respeitar as ideias dos mais velhos, não se opor à tradição, não pretender mudar o modo de vida da tribo. Entendeu? Não cortar a cabeça do rei, como ao contrário, Deus manda – quer dizer, desculpe, como se deve fazer se tivermos a cabeça, a nossa, no lugar, sobretudo com um rei como o anão de Savóia que traiu seu exército e mandou seus oficiais para a morte. E então se entende que até não roubar não é aquele mandamento inocente que parece, pois ordena que não se toque na propriedade privada, que é de quem enriqueceu roubando gente como você. Mas quem dera fosse só isso. Ainda faltam três mandamentos. O que significa não cometer atos impuros? Os vários dom Cognasso querem que acredite que serve apenas para impedir que você sacuda a coisa que tem no meio das pernas, mas incomodar as tábuas da lei por causa de umas punhetas me parece um desperdício. O que devo fazer eu, que sou um fracassado, aquela boa mulher da minha mãe não me fez bonito, e ainda por cima manco e que uma mulher, uma mulher de verdade nunca toquei? Querem me tirar até esse desafogo? (...)

Deus podia dizer, sei lá, pode trepar, mas só para fazer neném, sobretudo porque naquela época tinha muito pouca gente no mundo. Mas os dez mandamentos não dizem isso: de um lado, não se pode desejar a mulher do próximo e do outro não se deve cometer atos impuros. Resumindo, quando é que se trepa? Ora, é preciso fazer uma lei que sirva para todo mundo, os romanos, que não eram Deus, quando fizeram leis foi coisa que serve até hoje, e Deus baixa um decálogo que não diz as coisas mais importantes? Você vai dizer: sim, mas a proibição dos atos impuros proíbe trepar fora do casamento. Está certo de que era isso mesmo? O que eram atos impuros para os hebreus? Eles tinham regras severíssimas, por exemplo, não podiam comer carne de porco e nem boi abatido de certa maneira e, ouvi dizer, nem mesmo sardinhas ainda novinhas. Então os atos impuros são todas as coisas que o poder proibiu. Quais? Todas as que o poder definiu como atos impuros. É só inventar, o Crapone considera impuro falar mal do fascismo e eles mandam você para o exílio. É impuro ser solteiro e toca pagar uma taxa sobre o celibato. É impuro desfraldar uma bandeira vermelha. Etc. etc. etc. E agora chegamos ao último mandamento, não desejar as coisas dos outros. Mas você nunca perguntou o porquê desse mandamento, quando já tinha não roubar? Se você deseja ter uma bicicleta como a de seu amigo é pecado? Não, se não roubá-la. Dom Cognasso diz que esse mandamento proíbe a inveja, que com certeza é coisa ruim. Mas tem uma inveja ruim, aquela que, quando um amigo tem uma bicicleta e você não, lhe dá um desejo de que ele quebre o pescoço numa ladeira, e tem a inveja boa, aquela que faz você desejar, você também, uma bicicleta e, para poder comprar uma, mesmo usada, começa a trabalhar que nem um doido, e a inveja boa é o que faz girar o mundo. E depois tem uma outra inveja, que é a inveja da justiça, que leva a não aceitar que alguém tenha tudo, enquanto tem gente que morre de fome. E se você sente essa bela inveja, que é a inveja socialista, começa a trabalhar para realizar um mundo em que a riqueza seja mais bem distribuída. Mas é justamente isso que o mandamento proíbe: não desejar mais do que tem, respeitar a ordem da propriedade. Nesse mundo tem quem tenha dois campos de trigo só porque herdou e tem quem é obrigado a roçá-lo por um bocado de pão, e quem roça não pode desejar o campo do patrão senão o estado desmorona e estamos em plena revolução. Portanto, meu caro rapaz, não mate e não roube os pobres como você, mas deseje sim as coisas que os outros tiraram de você. Esse é o sol do futuro e é por isso que os companheiros estão lá em cima na montanha, para dar um fim no Crapone, que chegou ao poder financiado pelos proprietários de terras, e pelos pequeno-burgueses de Hitler que queria conquistar o mundo para ajudar aquele Krupp, que constrói cada Berta desse tamanho, a vender mais canhões. Mas você, o que vai entender dessas coisas, você que foi criado aprendendo a repetir de cor juro obedecer às ordens do Duce?”

“Não, estou entendendo, mas nem tudo.”

“Espero.”

Naquela noite sonhei com o Duce.”

 

 

“Está vendo, meu rapaz, o mundo é dominado pelo mal. Aliás, Mal com maiúscula. E não falo só do mal de quem mata um semelhante para roubar dois tostões ou do mal das SS que enforcam nossos companheiros. Estou falando do Mal em si, que faz meus pulmões apodrecerem, uma colheita estragar, uma tempestade de granizo que pode levar à miséria o proprietário de uma pequena vinha que é tudo que ele tem. Nunca se perguntou por que existe o Mal no mundo, e antes de mais nada a morte, por que as pessoas gostam tanto de viver, mas um belo dia, ricos ou pobres, a morte vem levá-las, às vezes ainda crianças? Já ouviu falar da morte do universo? Eu que leio sei: o universo, quero dizer inteiro, as estrelas, o sol, a via láctea, é como uma lanterna elétrica que vai funcionando, funcionando, mas vai descarregando também e um dia se esgota. Fim do universo. O Mal do males é que o próprio universo está condenado à morte. Desde o nascimento, por assim dizer. Mas será mesmo um belo mundo, esse em que o Mal existe? Não seria melhor um mundo sem Mal?”

“É, sim”, filosofava eu.

“Certo, pode-se dizer que o mundo nasceu por engano, o mundo é uma doença do universo que já não andava tão bem sozinho e um belo dia lhe nasce um furúnculo que é o sistema solar, e nós com ele. Mas as estrelas, a via láctea e o sol não sabem que devem morrer, logo, não se incomodam. No entanto, da doença do universo nascemos nós, que para a nossa desgraça somos uns espertos e acabamos descobrindo que é preciso morrer. E assim, não somos apenas vítimas do Mal, mas temos que saber disso. Que alegria!”

“Mas quem diz que o mundo não foi feito por ninguém são os ateus e você diz que não é ateu...”

“Não sou porque não sou capaz de acreditar que todas essas coisas que vemos a nosso redor e o modo como crescem as árvores e os frutos, e o sistema solar, e o nosso cérebro nasceram por acaso. São bem-feitos demais. Logo, deve ter existido uma mente criadora. Deus.”

“E então?”

“Então como acertar Deus com o Mal?”

“Assim, como assim, não sei, deixe-me pensar...”

“É claro, deixe-me pensar, diz ele, como se durante séculos e séculos as mentes mais sagazes não tivessem pensado nisso...”

“E a que conclusão chegaram?”

“A um figo podre. O Mal, disseram, foi introduzido no mundo pelos anjos caídos. Mas como? Deus vê e prevê tudo e não sabia que anjos caídos se rebelam? Por que os criou se sabia que se rebelariam? Como alguém que fizesse pneus de modo que arrebentassem depois de dois quilômetros. Seria um idiota. Mas não, ele criou os anjos e depois ficou satisfeitíssimo, olha que esperto que sou, sei até fazer anjos... Depois esperou que se rebelassem (e sabe-se lá quanto se deleitou esperando que dessem esse passo em falso) e jogou-os no inferno. Mas então é uma hiena. Ouros filósofos pensaram diferente: o Mal não existe fora de Deus, ele o tem dentro de si, como uma doença, e passa a eternidade tentando se libertar. Pobrezinho, talvez seja assim. Mas eu, como sei que sou tísico, nunca vou colocar crianças no mundo para não criar mais desgraçados, porque a tísica passa de pai para filho. E um Deus que sabe que tem essa doença lá dele e se mete a fazer um mundo que, por melhor que seja, será sempre dominado pelo Mal? É pura ruindade. E mais, um de nós pode fazer um filho sem querer, porque se empolgou certa noite e esqueceu de usar camisinha, mas Deus, ele fez o mundo porque queria mesmo.”

“E se foi uma coisa que nos escapou, como nos escapa o xixi?”

“Você pensa que está dizendo uma coisa engraçada, mas é justamente o que pensaram outros grandes cérebros. A Deus, o mundo lhe escapuliu como nos escapa o xixi. O mundo é um efeito de sua incontinência, como alguém com a próstata inchada.”

“O que é próstata?”

“Não importa, faz de conta que dei um outro exemplo. Mas olhe, acreditar que o mundo tenha lhe escapulido, que Deus realmente não tenha conseguido se segurar e que tudo isso seja feito do Mal que ele carrega consigo, essa é a única maneira de desculpar Deus. Estamos na merda até o pescoço, mas ele também não está melhor que nós. Mas então caem como peras maduras todas as lindas coisas que contam no Oratório, sobre Deus que é o Bem e que é o ser perfeitíssimo criador do céu e da terra. Foi o criador do céu e da terra justo porque é imperfeitíssimo. E assim construiu estrelas como uma lanterna que não se pode carregar.”

“Desculpe, mas Deus pode ter construído um mundo no qual nós estamos destinados a morrer, mas o fez para nos colocar à prova e permitir que ganhássemos o paraíso e, portanto, a felicidade eterna.”

“Ou gozássemos do inferno.”

“Os que cedem às tentações do diabo.”

“Você fala como um teólogo, só que todos eles falam de má-fé. Dizem como você que o Mal existe, mas Deus nos deu o mais belo presente do mundo que é o livre-arbítrio. Podemos livremente fazer o que Deus ordena ou o que o Diabo sugere, e se depois vamos para o inferno é porque não fomos criados como escravos, mas como homens livres, só que usamos mal a nossa liberdade e isso foi uma decisão nossa.”

“Isso.”

“Isso? Mas quem lhe disse que a liberdade é um presente? Ou melhor, tome cuidado para não confundir as coisas. Nossos companheiros na montanha estão lutando pela liberdade, mas é a liberdade contra outros homens que queriam nos transformar em um monte de maquinetas. A liberdade é uma coisa bela entre o homem e homem, você não tem o direito de me fazer agir e pensar o que quiser. E os nossos companheiros eram livres para decidir se deviam ir para as montanhas ou esconder-se em algum lugar. Mas a liberdade que Deus nos deu, que liberdade é essa? É a liberdade de ir para o paraíso ou para o inferno, sem alternativas. Você nasce e já é obrigado a jogar essa partida de bisca, e se perder, vai sofrer por toda a eternidade. E se eu não quisesse jogar? Crapone que, entre tanta coisa ruim, algo de bom deve ter feito, proibiu os jogos de azar, pois há lugares em que as pessoas são tentadas e acabam se arruinando. E não vale dizer que o homem é livre para ir ou não. Melhor não induzir as pessoas à tentação. Mas isso é um presente? É como se eu o jogasse daquele penhasco e lhe dissesse para ficar tranquilo porque você tem a liberdade de agarrar um arbusto qualquer e subir de volta ou de deixar-se cair até o fundo, até se reduzir àquela carne moída que eles comem em Alba. Você poderia dizer: mas por que me empurrou se eu estava tão bem aqui? E eu respondo: para que você pudesse provar se era mesmo bom. Grande brincadeira. Você não queria provar que era bom, contentava-se em não cair.”

“Agora estou confuso. Qual é a sua ideia, então?”

“É simples, só que ninguém pensou nisto antes. Deus é mau. Por que os padres dizem que Deus é bom? Porque ele nos criou. Mas essa é justamente a prova de que é mau. Deus é o Mal. Talvez, visto que é eterno, não fosse mau há milhares de anos. Ficou mau como aquelas crianças que no verão se entediam e começam a arrancar asinha de mosca, para passar o tempo. Preste atenção, se você pensa que Deus é mau, todo problema do Mau fica claríssimo.”

“Todos mau, então, até Jesus?”

“Ah, não! Jesus é a única prova de que pelo menos nós, homens, sabemos ser bons. Para dizer tudo, não estou seguro de que Jesus fosse filho de Deus, como uma matéria boa assim pode nascer de um pai cuja maldade é tanta coisa que não sei explicar. Também não estou seguro de que Jesus realmente existiu. Talvez nós o tenhamos inventado, mas é justamente esse o milagre, que tenhamos tido uma ideia tão bonita. Ou talvez tenha existido, era o melhor de todos e dizia ser filho de Deus por bom coração, para nos convencer de que Deus era bom. Mas se você lê bem o evangelho, percebe que ele também se deu conta no final de que Deus era mau: assustou-se no monte das Oliveiras e pediu que afastasse dele aquele cálice, e necas, Deus não lhe dá ouvidos; grita na cruz, pai, por que me abandonaste, e necas, Deus estava virado para o outro lado. Mas Jesus nos ensinou o que um homem pode fazer para reparar a maldade divina. Se Deus é ruim, podemos ao menos tentar ser bons, perdoar-nos uns aos outros, não nos ferir mutuamente, cuidar dos doentes e não nos vingarmos das ofensas. Ajudar-nos entre nós já que aquele lá não nos ajuda. Entendeu como era grande a ideia de Jesus? E quem sabe como Deus ficou irritado. Jesus é o único verdadeiro inimigo de Deus, nada de Diabo. Jesus é o único amigo que nós, pobres cristos, temos.”

“Você não seria um herege como aqueles que foram queimados...”

“Eu sou o único que entendeu a verdade, só que para não ser queimado não posso andar espalhando por aí e só contei a você. Jura que não vai dizer nada a ninguém.”

“Juro”, e cruzei os dedos sobre os lábios. “Cruzin, cruzan...”

 

 

“Comenta Hugo: “A mulher nua é a mulher armada.”

 

 

“O sonho é ilógico e sonhando você não reclama que o seja.”

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O totem do lobo – Jiang Rong

Editora: Sextante
ISBN: 978-85-99296-32-5
Tradução: Vera Ribeiro
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 506
Sinopse: Na década de 1960, em plena Revolução Cultural da China, o jovem estudante Chen Zhen parte para as estepes do Olonbulag, na Mongólia Interior. Sob a tutela do sábio Bilgee, Chen aprende muito mais do que pastorear ovelhas: ele descobre como superar as dificuldades da vida nômade e a sinergia milenar que une o povo aos lobos selvagens das planícies.
Fascinado pela relação entre os homens e esses animais temidos e idolatrados, Chen compreende a rica relação espiritual que existe entre esses adversários e o que cada um pode aprender com o outro.
No entanto, a paz da existência solitária de Chen é destruída quando membros da República Popular formam multidões nas cidades para levar modernização e produtividade aos campos, interrompendo o delicado equilíbrio entre os habitantes das estepes.
Usando o lobo como metáfora, Jiang Rong constrói uma linda história, que é também uma dura crítica aos ideais da revolução, expondo a grave ferida aberta na cultura milenar que o estudante Chen aprendeu a amar e defender.
O totem do lobo é um belo e comovente retrato de uma terra e uma cultura que não existem mais e, ao mesmo tempo, uma revelação fascinante da visão do país sobre si mesmo, sua história e seu povo.


“Quando o pelo dos lobos brilha, eles estão com fome.”


“A paciência é a chave de uma boa caçada.”


“– Todos dizem que as peles de lobo são a forração mais quente que existe. As pessoas daqui, caçadores e pastores, matam muitos lobos, mas nunca vi uma pele na casa de um pastor. Por quê? As únicas que vi foram um capacho na casa do Dorji e um par de culotes que o pai dele usa em cima das calças de pele de ovelha, com o pelo virado para fora.
– Dorji é um mongol do noroeste – disse o velho. – Eles são lavradores que possuem algumas cabeças de gado e ovelhas, mas convivem com os chineses há tanto tempo que começaram a adotar os costumes dos han. As pessoas que vêm de fora se esqueceram dos mongóis e de sua própria origem. Quando morre alguém em sua família, elas o colocam num caixão e o enterram, em vez de dá-los aos lobos como alimento. Então é claro que não veem nada de errado em usar peles de lobo como culotes. Aqui nas estepes as peles de lobo são mais grossas e mais densas, de modo que não há nada melhor para acabar com o frio. Duas peles de ovelha juntas não o manterão tão aquecido quanto uma única pele de lobo. Mas nós não as usamos como roupa de cama. Temos muito respeito por esses animais. Um mongol que não os respeita não é um mongol de verdade. Preferimos morrer congelados a dormir sobre uma pele de lobo, porque isso insulta os deuses mongóis e faz com que nossas almas não sigam para o Tengri. Por que você acha que o Tengri concede suas graças aos lobos?
– O senhor não disse que os lobos são os espíritos protetores das estepes? – Chen Zen perguntou.
– Certo – concordou o velho, com os olhos espremidos pelo sorriso largo. – É exatamente isso. Tengri é o pai, estepe é a mãe, e os lobos só matam os animais que a prejudicam. Como o Tengri poderia não favorecê-los?”


“– Quando você vive como nômade nas estepes por um período prolongado, não faz diferença a que grupo étnico pertença, já que, mais cedo ou mais tarde, começa a adorar os lobos e a tratá-los como mentores. Foi o que aconteceu com os hunos, os wusuns, os turcos, os mongóis e outros povos. Pelo menos é o que dizem os livros. Mas os chineses são uma exceção. Eu garanto que eles poderiam viver aqui por gerações sem adorar o totem do lobo.
– Talvez sim, talvez não – disse Chen, puxando as rédeas do cavalo. – Veja eu, por exemplo. Os lobos me conquistaram em pouco mais de dois anos.
– Mas a grande maioria dos chineses é composta por lavradores – objetou Yang. Os han têm uma mentalidade camponesa impossível de modificar, e, se mudassem para cá, eu ficaria surpreso se não tirassem a pele de todos os lobos das estepes. Somos uma raça de agricultores, o medo e o ódio pelos lobos está no nosso sangue. Como poderíamos venerar um lobo como totem? Nós cultuamos o Rei Dragão, o único que olha por nossa linhagem agrária, nosso totem do dragão, aquele a que rendemos homenagens, aquele a que nos submetemos humildemente. Como se poderia esperar que essas pessoas aprendessem com os lobos, os protegessem, adorassem e, ainda assim, os matassem, como fazem os mongóis? Só o totem de um povo é realmente capaz de despertar seu espírito e seu caráter étnicos, seja ele um dragão ou um lobo. As diferenças entre o povo agrário e os nômades são simplesmente grandes demais. Antigamente, quando estávamos imersos no vasto oceano chinês dos han, não tínhamos ideias dessas diferenças, mas, vindo para cá, as fraquezas inerentes a nossos antecedentes se tornaram óbvias. Sim, meu pai é um professor de renome, mas o avô dele e a avó da minha mãe eram camponeses.”


“De acordo com a prática secular do Olonbulag, quando morre um pastor as pessoas o despem e enrolam seu corpo num feltro, embora, às vezes, deixem o cadáver vestido e abram mão do feltro. Depois colocam o corpo numa carroça, em cima de uma tábua comprida, atravessada e firmada sobre os eixos. Nas horas que antecedem o amanhecer, os dois homens mais velhos da família conduzem a carroça até o local do funeral celeste, onde chicoteiam os cavalos para que eles partam a galope. Inevitavelmente, o corpo cai da carroça, e esse é o ponto de partida para o retorno de sua alma ao Tengri. Os dois parentes desmontam e, quando o corpo está despido, desenrolam o feltro e estendem o morto no chão, de costas, virado para o céu, exatamente como veio ao mundo, nu e inocente. Nesse momento, o morto pertence aos lobos e aos deuses. Se sua alma entrará ou não no Tengri vai depender das virtudes que ele teve em vida ou da falta delas. Em geral toma-se conhecimento disso em três dias. Se, depois desse prazo, não resta nada além dos ossos do cadáver, é porque sua alma entrou no Tengri. Mas se o morto permanecer mais ou menos intacto a família entra em pânico. Entretanto, há muitos lobos no Olonbulag e Chen nunca ouviu falar de uma única pessoa cuja alma não houvesse entrado no Tengri.
Ele já conhecia os funerais celestes tibetanos, mas só ao chegar às estepes descobrira que essa também era uma prática mongol, com os lobos substituindo as águias como agentes fúnebres.”


“– Quando falta a um homem ou a uma raça o espírito de preferir a morte à rendição, a disposição de morrer junto com o inimigo, o resultado inevitável é a escravidão. Qualquer um que tome como modelo o espírito suicida dos lobos se tornará um herói e será enaltecido com canções e lágrimas. Aprender a lição errada leva ao fascismo dos samurais, e quem não prefere a morte à rendição sempre sucumbirá a eles – disse Bilgee.”


“(...) – No fim não é exagero dizer que os lobos estão por trás da natureza selvagem e feroz dos garanhões mongóis. (...) Esses animais são os déspotas das estepes. Temem que uma alcatéia ataque suas fêmeas e suas crias, mas, fora isso, não têm medo de mais nada, nem de lobos nem de seres humanos, com certeza. É comum falarmos sobre trabalhar como um boi ou um cavalo, mas isso não tem nada a ver com os garanhões. Não há muita diferença entre uma tropa de cavalos mongóis e uma tropa selvagem, a não ser, é claro, pelos capões. Passei muito tempo com os cavalos, mas ainda não consigo imaginar o que a população primitiva fez para domesticá-los. Como essa gente descobriu que poderia montar um cavalo se o castrasse?
Chen e Yang se entreolharam e apenas balançaram a cabeça. Satisfeito com essa reação, Zhang continuou:
– Passei muito tempo pensando nisso e acho que os primeiros habitantes das estepes encontraram meios de capturar garanhões selvagens feridos por lobos. Depois de tratá-los até que se recuperassem, não conseguiram montá-los, mesmo quando tinham um sucesso modesto com cavalos ainda pequenos. Assim, continuaram tentando, com diversos cavalos feridos, geração após geração, até que um dia pegaram um cavalo cujos testículos tinham sido arrancados a dentadas, talvez um potro de dois anos, e conseguiram montá-lo quando ele atingiu a maturidade... e isso os levou à conclusão óbvia. Seja como for que tenha acontecido, foi algo complexo e deve ter levado muito tempo. E muitos habitantes primitivos das estepes devem ter morrido tentando. Esse é um dos maiores avanços da história humana, muito mais significativo que o papel, a impressão, a bússola e a pólvora, as quatro grandes invenções da China. Sem os cavalos, a vida na antiguidade seria inimaginável, muito pior do que vivermos sem automóveis, trens e tanques na sociedade moderna. E é por isso que as contribuições dos antigos nômades para a humanidade são incalculáveis.”


“– O espírito de luta é mais importante que o espírito pacífico de trabalho. A maior obra de engenharia do mundo, em termos de produção da mão-de-obra, a nossa Grande Muralha, não resistiu aos guerreiros montados de uma das menores raças do mundo. Se você sabe trabalhar mas não é capaz de lutar, quem é você? É como um capão: trabalha para as pessoas, ouve desaforos delas e lhes serve de transporte. E, ao se deparar com um lobo, enfia o rabo entre as pernas e foge. Agora, compare isso com um daqueles garanhões que usam os dentes e os cascos como armas.”


“Nas lutas entre cães e lobos, o ventre dos adversários é um alvo muito importante. Quando um consegue atingir a barriga do outro, aquele que foi ferido está condenado. É por isso que nem os cães nem os lobos expõem a barriga a ninguém, animal ou humano, em quem não tenham absoluta confiança.”


“– Agora entendo como a cavalaria de Gêngis Khan conseguia se deslocar tão depressa. Os lobos obrigavam os cavalos a correr noite após noite, e eles ganhavam velocidade e energia para percorrer longas distâncias. É comum eu assistir à sua luta incessante e trágica pela sobrevivência contra esses predadores. Os lobos atacam à noite, de forma implacável, e nunca desistem, não dando aos cavalos a chance de descansar. Quando ficam para trás, os cavalos velhos, doentes, lentos e pequenos, assim como os potros e as éguas prenhes, são cercados e devorados vivos. Você nunca viu a triste cena de cavalos correndo para salvar a vida. Eles não param, soltando espuma pela boca e banhados de suor. Alguns usam toda sua força para escapar e morrem assim que param e se deitam. Literalmente morrem de cansaço. Os mais velozes às vezes conseguem algum intervalo para devorar um pouco de capim. Ficam tão famintos que são capazes de comer qualquer coisa, até juncos secos, e têm tanta sede que bebem de tudo, inclusive água salobra, mesmo misturada com urina de bois e ovelhas. Os cavalos mongóis vêm em primeiro lugar em matéria de força, energia, digestão, sistema imunológico e capacidade de resistir ao calor e ao frio. Mas só os tropeiros sabem que todas essas qualidades foram desenvolvidas à força, pela velocidade e pelas presas dos lobos. (...)
– Lembro-me de você ter dito que todas as tribos das estepes que travaram batalhas aqui, desde os quanrongs, os hunos, os tungus e os turcos até os mongóis de hoje, compreendiam os segredos e o valor dos lobos. Isso faz cada vez mais sentido para mim. Os lobos deram aos mongóis a natureza feroz dos combatentes, a sabedoria da guerra sofisticada e os melhores cavalos de batalha. Essas três vantagens militares tornaram possíveis suas impressionantes conquistas.”


“Segundo Bilgee, em tempos antigos os cães-da-pradaria eram usados como alvos vivos para crianças mongóis treinarem arco-e-flecha. Escolhidos por sua velocidade e pela visão aguçada, eram bons alvos para as crianças da Mongólia, que eram instruídas a não voltar para casa enquanto não acertassem o número de animais que seus pais determinavam. O parque de diversões dessas crianças eram as estepes, e essa era sua brincadeira favorita. Era comum elas ficarem tão entretidas que se esqueciam de ir para casa comer. Já mais velhas, trocavam seus pequenos arcos por outros maiores e exercitavam o tiro a cavalo. Jebe, o general de Gêngis Khan que conquistou a Rússia, era um arqueiro famoso e tinha aprendido a disparar assim. Era capaz de acertar um cão-da-pradaria na cabeça, montado num cavalo a galope, a uma distância de 100 metros. Bilgee dizia que a habilidade dos mongóis como cavaleiros e arqueiros havia protegido as estepes e contribuído para que eles dominassem o mundo. Acertar o alvo menor, mais esperto e mais difícil, era sua maneira de se aperfeiçoar no arco-e-flecha.”

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Mapas do Acaso: 45 variações sobre um mesmo tema – Humberto Gessinger

Editora: Belas Letras
ISBN: 978-85-60174-78-2
Opinião: ★★★☆☆
Páginas: 144
Sinopse: Neste livro, Humberto Gessinger passa o passado a limpo, resgata momentos especiais da sua intimidade desde menino e conta novas velhas histórias dos Engenheiros do Hawaii, nunca antes publicadas. De Passo Fundo a Moscou, passando por “Esparta Alegre”, lembranças de um futuro que ele imaginava dão forma a essas linhas conduzidas pelos mapas do acaso. Para saber qualé a dele e da sua poesia, que é pura grandeza a partir de coisas simples, é só embarcar... e seguir viagem...



“Na ilusão de que seria um eterno provisório, comprei a armação de óculos que me pareceu mais bacana, sem pensar em como ficaria no meu rosto. Não me dei conta de que, daquele momento em diante, aquilo também seria meu rosto. Só depois, descobri que rola uma ciência aí, se não me engano, aconselham armações com formato contrário ao do rosto. Rosto comprido, óculos estreitos. Algo assim... nem sempre o modelo que se quer é o modelo que se deve.
Essa é uma briga para a vida inteira: querer o que se pode, poder o que se quer. O único esporte para o qual eu levava algum jeito, quando criança, era o vôlei. Mas eu não gostava. Fui mais feliz sendo um goleiro mediano e um tenista sofrível do que sendo um bom jogador de vôlei.
Frequentemente, aplico esse raciocínio aos instrumentos que toco. Quais quero e quais eu devo? Me tranquilizo lembrando que a arte não tem objetivos lineares como o esporte. Não se trata de ganhar ou perder, ser mais rápido ou mais forte.
A utilização de óculos desde cedo pode ser sublimada em uma canção, como muito bem fizeram os Paralamas do Sucesso. Mais difícil é glamourizar os óculos que chegam, e chegam para todos, aos quarenta anos. Resta o consolo de Martin Fierro: “O diabo sabe mais por ser velho do que por ser diabo”. Essa citação do poema de José Hernandez também deve valer mais por velha e surrada do que por sábia.”


“Em dezembro de 1985, ainda mais estudantes de arquitetura do que músicos, os Engenheiros do Hawaii tocaram em Passo Fundo. Cidade distante uns 300 quilômetros de Porto Alegre, nunca tínhamos ido tão longe. Tempos anteriores à internet. Longe era longe. (...)
Meu equipamento era uma guitarra Gianini e um pedal de efeito. Amplificador, eu dava um jeito de arranjar. Não tínhamos disco, ainda. Viajávamos com uma fita da música Segurança para a eventualidade de alguma rádio local se aventurar a tocar. Não tocávamos covers, éramos autorais até os ossos. Um pouco por virtude e um pouco por defeito. Quando tentava tocar alguma música de outro cara, eu acabava compondo uma nova antes de aprender.”


“Depois do show, enquanto batíamos papo na rua (bons tempos em que dava pra fazer isso) vi chegar um Fiat 147, carro que parecia incrivelmente pequeno na época. Havia uma vaga do tamanho exato para estacionar. Ao contrário do que se costuma fazer, o motorista entrou com a parte dianteira do carro na vaga. Desligou o motor, saiu, agarrou o pára-choque traseiro, de costas, ergueu e acabou de estacionar o carro no braço! Esfregou as mãos, e, com o canto do olho, conferiu se todos tinham visto a façanha. Desde então, para mim, estacionar o carro do jeito normal passou a ser tão enfadonho!”


“Não cheguei a conhecer meus avós paternos, Rodolfo e Rosália. Morreram antes do meu nascimento. Nos feriados de finados, sempre visitávamos o pequeno cemitério onde eles estão enterrados, numa cidade do interior gaúcho. Lembro do portãozinho, coisa de meio metro, que rangia muito e excitava minha imaginação de criança. Para que serviria um portão de cemitério? Para evitar que alguém entrasse ou que algo saísse?”


“Quando eu tinha uns 10 anos, um caso esquisito dominava as manchetes: o sequestro da herdeira de um milionário império jornalístico americano. Se chamava Patrícia Hearst. Foi sequestrada pelo Exército Simbionês de Libertação, um grupo terrorista de orientação marxista. Estranho, né? Ela acabou se juntando ao grupo e participando de um assalto a banco. Diziam que havia sofrido lavagem cerebral.
Talvez viesse daí o fascínio que o caso exercia: “lavagem cerebral”. Duas palavras que ficaram estranhas uma ao lado da outra. Depois começaram a falar em “Síndrome de Estocolmo”, um estado psicológico no qual a vítima se identifica emocionalmente com o agressor.
Acho que desenvolvi uma síndrome dessas ao contrário. Um estado psicológico em que o vencedor se identifica emocionalmente com o derrotado. Costumo virar simpatizante dos times que perdem para o Grêmio em jogos emblemáticos. Até coleciono suas camisas. Estão na lista Hamburgo, Peñarol e Náutico. Chamo essas camisas de “escalpos”. Carinhosamente.”


“Nessa época, eu aproveitava as viagens para aumentar minha coleção de camisetas de clubes. As “oficiais”, em muitos lugares, eram quase impossíveis de conseguir. Em Recife, ganhei camisas do Náutico, Sport e Santa Cruz. Agradeci ao cara que me deu de presente, e ele disse: “Não me custa, sou dirigente.” “De qual time?”, perguntei. “Dos três!”.”


“Um relógio parado acerta a hora pelo menos duas vezes ao dia. Assim como a roupa no fundo do armário voltará à moda, num mundo sem passado, onde, passados quinze minutos, tudo é vintage. Assim como a gente pode parecer inteligente, esperto e bem informado ficando calado.”


“Amadurecer é um pouco isso, deixar de ser esperto.”


“Quem fala, e só fala, de música gostar de pensar Lady Gaga com as mesmas ferramentas que serviam para pensar Janis Joplin. Como se LP e download fossem, apenas, formas diferentes de fazer a mesma coisa. Como se fosse possível separar forma e conteúdo.
Para falar dos novos tempos, sempre ressuscitam a “aldeia global”, de Marshall McLuhan ou a “relatividade” de Albert Einstein. Será que eles sabiam mais sobre nosso tempo do que meu sobrinho que joga videogame?
Os tempos são outros
Os erros, os mesmos


“Esses livros da minha infância eram, fisicamente, feios. Apesar de uma ou outra capa com desenho legal (Mês de Cães Danados, do Moacyr Scliar, por exemplo, era até tatuável). Lembro de ter comprado uma coleção em que, irritantemente, não havia dois livros do mesmo tamanho. Muitas folhas eu tive de separar com uma faca. Bordas ásperas, cola e costuras que se desfaziam na primeira leitura.
Esses livros da minha infância são, fisicamente, lindos. Meu Lobo da Estepe se mantém uno por uma sucessão de camadas de fita durex. Só o passar dos anos ensina que até o durex é transitório. Quando a gente aplica a fita, ela parece segura e permanente. Nada disso. Com o tempo, ela também dança. Meu Lobo da Estepe pode ser visto como se vê um tronco de árvore cortado, cada anel significando um ano. Uma fatia da Terra onde se conta o tempo geológico.
Minha assinatura nos livros também testemunha passagem de tempo e busca de identidade. Começa como imitação da assinatura do meu pai, passa a ser imitação de letra de arquiteto e chega ao que é agora, que não sei bem o que é, que deve ser o que sou. Isso falta aos livros de biblioteca: na primeira folha, assinatura de quem os leu.
Hoje, livrarias e livros estão tão bonitos! Parecem viver um momento especial, ocupando um pouco do espaço dos discos, que Deus os tenha. Talvez os livros sejam os próximos a fazer a travessia. E talvez o mundo virtual seja ecologicamente correto. Para mim e para minha geração, discos e livros eram testemunhas físicas de nosso crescimento. Cada palmo conquistado nas prateleiras da casa correspondia a um mundo interior mais rico. Difícil de medir em bytes.”


“Livros comprados, livros de biblioteca e livros emprestados são coisas completamente diferentes. Cada uma com seus atrativos. Os emprestados são mais estranhos. Sempre trazem um pouco de catequese. Os olhos de quem emprestou vêm junto. A leitura carrega a perspectiva de um futuro diálogo: “E aí, o que achou?”. Sem falar no pecado mortal que seria não devolvê-los. Tirando todo esse peso, há sempre o bom astral da atitude generosa.”


Nota mental para uma próxima vida:
Falar mais devagar, digitar com mais atenção,
reler antes de postar,
escrever de forma legível, pensar antes de falar,
falar mais devagar...


“Tudo bem se a digitação transformar Pra Ser Sincero em Prazer Sincero. Só não pode transformar Simples de Coração em Simples Decoração. É bom ficar ligado para que lesma lerda não vire mesma merda. Uma digitação afoita pode transformar uma coisa fofa numa coisa foda. (...)
Quanto à minha letra, não tenho esperança de torná-la legível nem em uma próxima vida. Quando comecei a gravar recados para mim mesmo, senti que estava cometendo eutanásia, dando a extrema-unção à minha caligrafia. Ah, como eu queria de volta as horas que perdi tentando ler o que havia escrito em pedaços de papel mal rasgados na noite anterior...”


Nota mental para uma próxima vida:
Cineminha, ao menos uma vez por semana.
Chocolate, só uma vez por semana.


“Sem uma equipe na qual diluir a natural decadência, todo atleta individual, se for honesto, acaba sua carreira por baixo. Com olho roxo, se for boxeador. Se for tenista, perdendo para alguém pior, mas com pernas mais jovens. Na sinuca, mastigando um cigarro que mãos trêmulas levaram à boca. No xadrez, sofrendo uma estafa que o fará ver as peças se moverem sozinhas. Se não vivêssemos numa sociedade infantilmente escrava da vitória, apreciaríamos essas derrotas como representações do ciclo natural da vida.”


“Num estúdio, em Los Angeles, li uma placa que poderia ser traduzida assim: “Relaxe, senão, conseguiremos alguém para relaxar no seu lugar”. Quer deixar alguém tenso? Diga para ele relaxar (Quer contar uma piada para Deus: Faça um plano). É a sina de quem depende do sutil equilíbrio entre inspiração e transpiração. Grace under pressure. A sina de quem ouve vozes. Vozes que nem sempre soam quando são esperadas. Uma interessante família espiritual vive disso. Ainda que a arte não tenha objetivos lineares como o esporte, em inglês, com a mesma palavra (play), se joga tênis e se toca guitarra.”


“Não chegam a me perguntar, mas acho que algumas pessoas, de tanto ficar olhando a capa de algum disco antigo, gostariam de saber se sou meu pai. Com sorte e com o passar do tempo, chegará o dia em que teremos, todos, a cara dos nossos avós.
A não ser que façamos como os políticos estão fazendo. Chegam ao fim da campanha mais jovens do que começaram. Todos com os mesmos dentes brancos e os mesmos sorrisos e ideias botoxados.
Uma pena. As definições de esquerda e direita que parecem não valer mais na economia e na política, poderiam encontrar refúgio em questões éticas e estéticas. Contra a extinção do cabelo grisalho! Contra o medo das rugas, que nada mais é do que medo da vida! Contra o medo. Não era assim? Pela generosidade, esquerdas...”


Nota mental para uma próxima vida:
Aprender com a natureza.
Meus cães, por exemplo: eles só comem e dormem.
(e não têm animais de estimação)


“Mudança, como se tudo coubesse num caminhão. (...) Ali, logo ali, depois da curva, meu time, o Grêmio, vai trocar de estádio. (...)
Do estádio que conheci com meu pai, estou me despedindo, aos poucos, com minha filha. Esse espaço mágico e único vai se transformar em mais um pedaço da cidade, igual a outros. Certamente, teremos um estádio bacana, a Arena. Talvez tenhamos que carregar algum nome de patrocinador, Arena Alguma Coisa. São os tempos, vamos que vamos. Mas é estranho. Certas coisas deveriam durar, senão para sempre, pelo menos mais do que a gente.”


Nota mental para uma próxima vida:
Tenha talento, trabalhe como um condenado, sue sangue, e você conseguirá tudo sem esforço.


“A aposta que faço é no talento, no trabalho, no senso de missão e na possibilidade de fracasso. Talvez, até, na necessidade do fracasso. Nestes tempos tão casuais, ninguém quer se comprometer com uma missão. Muito menos inventar, construir sua própria missão. Fica um acordo tácito no ar, de que nada vale muito à pena. Falta de ambição virou um salvo conduto. É filminho pra lá, musiquinha pra cá, livrinho pra lá, piadinha pra todo lado. Acorrentados ao que temos para o momento, transcendência virou palavrão. Já que a vida é uma só, que seja só uma bobagem. Já que a queda é inevitável, que seja da menor altura possível. Uma boa desculpa para rastejar.”


Sweet Tulipa
ele queria todas as noites a mesma estrela
ela queria todas as estrelas a mesma noite
ela tinha o andar apressado de quem não pode parar
ele tinha o olhar parado de quem não pode acreditar
ele olhava a porta que se abria
ela abria os olhos mas não (ha)via nada
ninguém quis dançar conforme a música do ballet do rancor

ele sem sair de casa, sem sair do quarto, sem sair da cama
ela mudando de roupa, mudando o canal, em outro planeta
ela, que não acreditava em Deus, disse: Deus te proteja
ele, que nunca teve medo, pensou duas vezes
e o rio segue seu curso…
sem ouvir o que se diz, o que se discursa
e se renova, sem revolta, sem recusa, é o seu único recurso.


“Viola caipira é o instrumento que a gente passa metade do tempo afinando e metade do tempo tocando desafinada.
A vida é um pouco assim, a gente pode passar metade do tempo fazendo planos e a outra metade tendo que improvisar.”