domingo, 17 de abril de 2011

64 contos – Rubem Fonseca

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-359-0581-6
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 800
Sinopse: Grão-mestre do conto brasileiro contemporâneo, Rubem Fonseca afirmou-se – desde Os prisioneiros e A coleira do cão a Pequenas criaturas – como narrador de situações extremas, marcadas pela violência e pelo erotismo. Em contos como Feliz ano novo, Passeio noturno e O cobrador, o escritor carioca produz curtos-circuitos que desnudam personagens de todas as origens e pretensões sociais e põem marginais e figurões em pé de igualdade.
Avesso ao sentimentalismo e à cor local, Rubem Fonseca inspira-se na economia do cinema e na literatura de escritores como Ernest Hemingway e Isaac Bábel para forjar uma dicção própria e inconfundível. Mais que isso, o autor traz para seu próprio estilo a contundência e o desencantamento dos ambientes e heróis de que se ocupa. Assim, na mesma linhagem em que figuram Machado de Assis, Lima Barreto e João do Rio, transfigurou o Rio de Janeiro num território ficcional repleto de segredos e contradições e consagrou-se como um dos grandes contistas da língua brasileira.



“A primeira aula era do Cambaxirra, assim apelidado por ser ele mirrado e seus braços parecerem asas de um passarinho feio. Tínhamos-lhe desprezo e talvez ódio: os jovens não perdoam os fracos.”


“Naquele tempo Copacabana não era ainda a favela de maior densidade demográfica do mundo; era um lugar onde as pessoas elegantes e ricas moravam.”


“Frei Euzébio (era assim que Najuba se chamava agora) respondeu:
“A única realidade é a nossa imaginação”.
“Berkeley. Era bispo.”
“Anglicano”.
“Deus existe ou está em nossa imaginação?”
“Os homens sem imaginação não alcançam Deus. Deus existe.”
“Eu não sei. Agora, aqui neste silêncio, neste mosteiro velho, eu não sei. Mas em outras ocasiões, sei que ele não existe.”


“E as verdades sobrenaturais? Essas ele não as alcançava. Talvez porque Deus quisesse humilhar o raciocínio orgulhoso dos homens, essas verdades só podiam entrar na mente através do coração. As coisas naturais têm que ser reconhecidas antes de serem amadas; as coisas sobrenaturais só chegam a ser conhecidas por aqueles que as amam.”


“Tinha dado o máximo, se eu provocasse ele explodia, esquecia o campeonato, apelava para a ignorância, mas eu não ia fazer isso, não só porque a minha raiva já tinha passado depois que briguei com ele em pensamento, mas também porque João tinha pedido desculpa e quando homem pede desculpa a gente desculpa.”


“Não gosto de olhar o Corcundinha. Ele tem mais de seis tiques diferentes. “Você está melhorando dos tiques”, eu disse; mas que besteira, ele não estava, por que eu disse aquilo? “Estou, não estou?”, disse ele satisfeito, piscando várias vezes com incrível rapidez o olho esquerdo.”


“Mas Leninha também não ia acreditar nessa história da condessa, que acabou tendo um fim triste como todas as histórias verdadeiras.”


(...) “E me deu vontade de rezar, e de ter amigos, o pai vivo, e um automóvel. E fui rezando lá por dentro e imaginando coisas, se tivesse pai ia beijar ele no rosto, e na mão tomando bênção, e seria seu amigo e seríamos ambos pessoas diferentes.”


“Quando um homem e uma mulher estão num restaurante – e ela 1º) não é a mulher dele; 2º) não é velha nem feia – isso significa que um processo erótico qualquer está em curso.”


“Solidão é bom (mas) depois que eu me esvaziei com uma mulher ou me enchi com uma mulher.”


“Na portaria do hotel, em grandes letras de vapor de mercúrio, estava escrito: SE VOCÊ NÃO CONHECE HÁ MUITO TEMPO ESSE(A) HOMEM(MULHER) QUE ESTÁ COM VOCE, NÃO VÁ PARA A CAMA COM ELE(A). PROTEJA SUA VIDA.
Se o povo fosse atrás disso, ninguém ia mais para a cama com ninguém, disse a mulher.”


“Uma injeção de anestesia na gengiva. Mostrou o dente na ponta do boticão: A raiz está podre, vê?, disse com pouco caso.
São quatrocentos cruzeiros.
Só rindo. Não tem não, meu chapa, eu disse.
Não tem não o quê?
Não tem quatrocentos cruzeiros. Fui andando em direção à porta.
Ele bloqueou a porta com o corpo. É melhor pagar, disse. Era um homem grande, mãos grandes e pulso forte de tanto arrancar os dentes dos fodidos. E meu físico franzino encoraja as pessoas. Odeio dentistas, comerciantes, advogadas, industriais, funcionários, médicos, executivos, essa canalha inteira. Todos eles estão me devendo muito. Abri o blusão, tirei o 38, e perguntei com tanta raiva que uma gota de meu cuspe bateu na cara dele, -- que tal enfiar isso no teu cu? Ele ficou branco, recuou. Apontando o revólver para o peito dele comecei a aliviar o meu coração: tirei as gavetas dos armários, joguei tudo no chão, chutei os vidrinhos todos como se fossem balas, eles pipocavam e explodiam na parede. Ar­rebentar os cuspidores e motores foi mais difícil, cheguei a machucar as mãos e os pés. O dentista me olhava, várias vezes deve ter pensado em pular em cima de mim, eu queria muito que ele fizesse isso para dar um tiro naquela barriga grande cheia de merda.
Eu não pago mais nada, cansei de pagar!, gritei para ele, agora eu só cobro!
Dei um tiro no joelho dele. Devia ter matado aquele filho da puta.
A rua cheia de gente. Digo, dentro da minha cabeça, e às vezes para fora, está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo. (...) Tão me devendo colégio, namorada, aparelho de som, respeito, sanduíche de mortadela no botequim da rua Vieira Fazenda, sorvete, bola de futebol, (..) xarope, meia, cinema, filé mignon e buceta.”


“Quando não se tem dinheiro / é bom ter músculos / e ódio”.


“Quer atirar? pode atirar, a velha não vai ouvir. Mais para cima um pouco. Com a ponta do dedo suspendo o cano até a altura da minha testa. Aqui não dói.
Você já matou alguém? Ana aponta a arma pra minha testa.
Já.
Foi bom?
Foi.
Como?
Um alívio.
Como nós dois na cama?
Não, não, outra coisa. O outro lado disso.”


“Augusto, logo que entra, vai até o lago, ali perto estão as esculturas dos franceses. O campo tem uma velha história, dom Pedro foi aclamado imperador no Campo de Santana, tropas amotinadas ali acamparam enquanto aguardavam ordens de atacar, mas Augusto pensa apenas nas árvores, as mesmas daquele tempo longínquo, e passeia por entre os baobás, as figueiras, as jaqueiras ostentando enormes frutos; como sempre, tem vontade de se ajoelhar ante as árvores mais antigas, mas ficar de joelhos lembra a religião católica e ele agora odeia todas as religiões que fazem as pessoas ficarem de joelhos, e também odeia Jesus Cristo, de tanto ouvir os padres, os pastores, os eclesiásticos, os negociantes falarem nele; o movimento da Igreja ecumênica é a cartelização dos negócios da superstição, um pacto político de não-agressão entre mafiosos: não vamos brigar uns contra os outros que o bolo dá para todos.”


“Nem tenho desejo, nem esperança, nem fé nem medo. Por isso ninguém pode me fazer mal. Ao contrário do que o Velho disse, a falta de esperança me libertou.”


“Sabe quando descobri que estava velho? Quando passei a gostar mais de comer do que de foder. Esse é um indício terrível, pior do que os cabelos crescendo no nariz. Agora não gosto nem de comer.”


“Existem coisas piores do que ter um livro idiota escrito a nosso respeito.
Sim, sim, existem. Por exemplo, (com a idade) o esperma do sujeito ficar fininho como água.”


“Você dormiu vestido?”, pergunta Lou, à mesa do café.
“Não tenho pijama.”
“Nem uniforme”.
“Você é casada?”
“Por que você quer saber?”
“Estava pensando no seu marido.”
“Não tenho marido.”
“Sujeito de sorte. Esse que não casou com você.”


“Os críticos... Mary McCarthy tem razão: os críticos são os maiores inimigos dos leitores.”


“Enquanto vê, da janela de sua suíte no hotel, os Alpes surgirem com as primeiras luzes do dia, Landers desenvolve um raciocínio estremunhado: toda literatura, vista de uma determinada perspectiva, pode ser considerada “de evasão”. Diferente, porém, da evasão sedativa ou alienante da música. Escritores e leitores, por saberem que não são eternos, evadem-se, nietzschianamente, da morte. Quando se lê ficção ou poesia está-se fugindo dos estreitos limites da realidade dos sentidos para uma outra, a que já disseram ser a única realidade existente, a realidade da imaginação. Vem à mente de Landers a história de um idiota que percorria todos os dias as ruas de uma aldeia de pescadores gritando “eu vi a sereia, eu vi a sereia!” e que um dia realmente viu a sereia e ficou mudo. O poeta é como esse bobo da aldeia? Se o confronto com a realidade ofuscar sua imaginação ele também ficará mudo?”


“Vamos presumir que o balão fantasma exista. E que está sendo feito aos pedaços, em locais diferentes, para nós não descobrirmos, e depois eles vão juntar tudo, acender a bucha e soltar o bicho. Não dá para você descobrir alguma coisa, alguém dar o serviço?
Depois que foi proibido soltar balão ninguém mais abre o bico. É uma espécie de religião.
Cristãos na catacumba.
Uma coisa assim. Lembra, doutor, daquele avião francês que os terroristas sequestraram? Um passageiro que estava no avião disse que estava tranquilo até que os sequestradores se reuniram num canto e começaram a rezar. Então ele percebeu que aquela reza significava que os passageiros estavam fodidos. Logo em seguida começou a matança dos reféns. Religião é isso. O balão é a reza dos baloeiros. O senhor pode trazer um deles para cá e arrancar os colhões do elemento com um alicate que ele não dá o serviço. E os colhões são o bem mais precioso de um homem, não é verdade?
É verdade, respondi, pensando em Fabiana.
O senhor sabe que o Zé de Souza é meu amigo, não sabe?
Estou sabendo agora.
O Zé de Souza um dia me disse que está cagando para a lei dos tribunais e para a frescura dos ecologistas. Nossa briga, ele me disse, é com a lei de Newton. Quando eu falei nas florestas ele respondeu fodam-se as florestas, as florestas pegam fogo há milhões de anos e o mundo não acabou.”


“Meu avião só partia no dia seguinte. Pela primeira vez lamentei não ter um retrato da minha mãe comigo, mas sempre achei uma idiotice andar com retratos da família no bolso, ainda mais da mãe.
Eu não me incomodava de ficar mais dois dias vagando pelas ruas daquele grande formigueiro sujo, poluído, cheio de gente estranha. Era melhor do que andar por uma cidade pequena com ar puro e caipiras que dizem bom-dia quando cruzam com você. Eu ficaria ali um ano se não tivesse aquele compromisso me esperando.
Andei o dia inteiro respirando monóxido de carbono. À noite meu anfitrião me convidou para jantar. Uma mulher nos acompanhava.
Comemos vermes, o prato mais caro do restaurante. Ao olhar um deles na ponta do garfo, pareceu-me uma espécie de larva ou pupa de berne que ao ser frita perdera os pelos negros e a cor leitosa. Era um verme raro, explicaram-me, extraído de um vegetal. Se fosse um berne a iguaria seria ainda mais cara, respondi, irônico, já tive berne no meu corpo três vezes, dois na perna e um na barriga, e os meus cavalos e os meus cães também tiveram, é difícil tirar ele inteiro, de forma a ser comido frito, somente frito poderia ser saboroso, como estes aqui – e enchi minha boca de vermes.”


“Um sujeito rico deve ter uma amante, tira o cara do ramerrão burguês. Um sujeito pobre também deve ter uma amante, se puder, evidentemente, faz bem à saúde e torna a miséria mais amena. As esposas são sempre chatas, nos livros e na vida real, uma amante faz você ter mais paciência com ela, a esposa.”


“O que me resta? Deus? Deus é um placebo como qualquer outro.”


“As mães perdoam os filhos, os filhos é que não perdoam as mães.”


“Você disse que estava tudo resolvido. Como é que estava tudo resolvido? Como foi que tudo estava resolvido? De que maneira você resolveu tudo? Você não me disse como foi.
Porra, Clarinha, que interrogatório!
Como é que uma coisa resolve e depois desresolve?
Essa palavra não existe.
Eu já fiz as malas.
Que malas?
As malas.
Nós não vamos a lugar nenhum.
Não vamos a lugar nenhum? E a viagem a Miami?
Não vamos a lugar nenhum.
Vamos ficar aqui sentados?
Podemos ficar de pé.
Senta, Alfredinho. Você me põe nervosa.
Eu também estou nervoso. Minha vida é mais complicada que a sua.
Por que? Prova.
Você não precisa arranjar dinheiro. Eu preciso arranjar para nós dois. A única coisa realmente complicada na vida é arranjar dinheiro. O resto sai na urina.
E cuidar da mãe paralítica?
Quem cuida é a enfermeira.
E ser amante de homem casado?
É pior ser homem casado amante de mulher solteira.
E ter que pedir dinheiro pro amante?
É pior ter que dar dinheiro pra amante.
Ah, é?! Não quero mais um tostão seu.
Eu estava brincando. Ei, onde é que você vai? Abre a porta, Clarinha.”


“Foder é viver, não existe mais nada, como bem sabem os poetas.”


“E sua mãe?
Morreu de parto, eu não a conheci, só de retrato...
Sinto muito...
Quem nunca teve mãe não sente a falta dela.
Às vezes quem tem também não sente, disse a doutora, mas eu não entendi bem o que ela queria dizer com isso.”


“Astuto, escrevo uns óbvios poemas de amor para Agnes, e deixo-os impressos, de propósito, na gaveta da mesa do computador, um local que Negrinha sempre vasculha. Ela vive fuçando minhas coisas, é muito ciumenta.
Negrinha fica furiosa quando descobre os poemas. Xinga-me, profere palavras duras, respondidas com doçura por mim. Esmurra o meu peito e a minha corcunda, diz que me ama, que me odeia, enquanto respondo com palavras meigas. Li não sei onde que, numa separação, aquele que não ama é o que diz as coisas carinhosas.”


“Minha namorada chegou e fomos para a cama.
Você está preocupado com alguma coisa, ela disse, depois de algum tempo.
Não estou me sentindo bem.
Não se preocupe, querido, podemos ficar apenas conversando, adoro conversar com você.
Essa é uma das piores frases que um homem pode ouvir quando está nu com uma mulher nua na cama.”

O homem e o cavalo (teatro) – Oswald de Andrade

Editora: Globo
ISBN: 978-85-2500-829-9
Opinião★★☆☆☆
Páginas: 128


“ETELVINA – Vocês estão ficando histéricas. Precisam consultar um psicopata!”


         “O POETA-SOLDADO – Eu sou o companheiro de leito da morte! A morte é o cabaço da necessidade! Como é que um espermatozoide pretende ser imortal! Que és tu, espectador, senão um espermatozoide de colarinho! E por isto te recusas a conhecer a verdade que a guerra traz nas artérias. Cantemos o nosso hino! Entoemos a nossa loa! Kip! Kip! Burra!”


“QUERUBINA – Por que é que você o matou, querido?!
O POETA-SOLDADO – Eu não o matei! O desencarnei! Há muita diferença. O que vocês queriam, suas messalinas modernas, era pilhar um preto no céu! Para estragar a raça!
ETELVINA – Mas ele não era preto! Era chocolate ariano.
O POETA-SOLDADO – Com aquela cara!
ETELVINA – Ficou preto porque passou perto do sol. A três léguas! Era natural que amorenasse!
O POETA-SOLDADO – Não quero saber! Em negócio de raça, eu não transijo! Nada de misturas. Não sofro de delicadezas! Vou matando logo. Vocês sabem que as almas são brancas. Como os esqueletos das baratas! São arianas! Ora, ele mesmo, descascado como está agora, já vai sentindo as vantagens incalculáveis do arianismo! Se você falasse a ele, antes da desencarnação, na necessidade que a gente branca tem de submeter, explorar e humilhar a gente de cor, ele talvez não compreendesse. Agora compreende. Já discreteamos sobre Civilização, Cultura, Imperialismo, Capital, Raça e outros temas brancos. Olhem, outro sujeito que me encoleriza é esse judeu...
MALVINA – São Pedro, coitado!
O POETA-SOLDADO – Coitado por quê? Eu por mim dava cabo dele! Cristão-novo!
MALVINA – Não faça isso! Deus castiga!
O POETA-SOLDADO – Deus? Você não sabe que Deus nosso Senhor foi crucificado pelos judeus! Pedro, antes de ser naturalizado cristão, era judeu. E judeu pobre! O que é inadmissível! Bolas! Somos ou não somos arianos? Olhe! Se vocês quiserem, tenho um plano diabólico, terrível. 
Todos se aproximam. 
AS QUATRO – Diga! Fale!
O POETA-SOLDADO – Vocês não denunciam? Posso contar com a altura dos vossos sentimentos raciais?”


“O POETA-SOLDADO – Inaugurou-se há dois dias na Alemanha de Hitler a campanha de morticínio contra os judeus*...”
*: a peça foi escrita em 1934 – antes de Hitler perpetrar o massacre do holocausto.


         “SÃO PEDRO – Vamos assistir. É um espetáculo empolgante. Há buracos na trincheira. Espia!
         ICAR – Prefiro trepar.”



“ICAR – Aquele outro é Job.
SÃO PEDRO – É Job novo-rico. Está ao lado da alimária bíblica, Leviatã. Escuta. Ele pediu a palavra. Vai falar!
A VOZ DE JOB – Eu sou Job, o pedagogo. Resolvi há três mil anos o problema do empregado que quer ficar sócio do patrão. Avacalhai-vos! eis o meu lema. Um dia talvez Deus tenha dó! Então ele vos dará o dobro do que tirou. A mais-valia por intermédio da Providência. E tereis de novo honras, mulheres e festins. A família vos abandonará quando estiverdes na miséria. Mas voltará, quando ficardes rico outra vez. Talvez traga alguns rebentos a mais. Não faz mal. O pai é sempre o marido. A legitimidade é feita pela herança. Deus quer assim!
ICAR – Mas é a propaganda da mansidão e do servilismo.
A VOZ DE JOB – Qualquer revolta é insensata. O homem nasceu para a desgraça como o pássaro para voar!
SÃO PEDRO – Corno!
A VOZ DE JOB – É preciso adorar o arbítrio. Achar bom tudo o que acontece. O arbítrio possui Behemoth – Leviatã Dio a sempre raggione!
VOZES (Aclamando.) – Be-he-moth – Le-vi-a-tã!
ICAR (Emocionado.) – Desceu da tribuna! Vai puxando pelo queixo o monstro bíblico!
VOZES – Be-he-moth – Leviatã! Dio a sempre raggione!
SAO PEDRO – Eles conduzem para a guerra um grande carro. Credo! Os trabalhadores são forçados a atirar sob as rodas dele suas mulheres e filhas!
ICAR – O desemprego e o pauperismo abrem alas... e recrutam as vítimas.
SÃO PEDRO – É o carro de Djaggernat?
ICAR – Não! É o rolo compressor do capital!
SÃO PEDRO – Job dirige a marcha...”



“ICAR – Ficou um para trás. Sem cavaleiro! É Rocinante!
SÃO PEDRO – Sancho vai montá-lo. É a pequena burguesia que tomou conta do cavalo idealista do D. Quixote. O fascismo!
A VOZ DO POETA-SOLDADO – MacBeth cavalga Incitatus! Manefrego de todas as vidas humanas! A guerra é divina porque carrega consigo a juventude.
UMA VOZ ISOLADA – Para a mutilação e para a morte.
A VOZ DO POETA-SOLDADO – Espedaçados no campo da luta, renasceremos-dionisicamente! Quem não quiser me seguir – vista saia!

Clamores. Sereias. Canhões. Motores de avião. Ruídos de marcha.

A VOZ DO DIVO – Eu sou o patos da destruição! Pela raça branca! Pela classe rica! Pela moral cretina! Pelo rei cornudo! Pelo altar vendido! Heil! Duce! Heil! Duce!
A VOZ DO POETA-SOLDADO – O sangue espirra na ponta das nossas espadas.
ICAR – Felizmente eu deixei de ser preto.
SÃO PEDRO – Eu sou judeu batizado!
A VOZ DO DIVO – Heil! Duce! Heil! Duce!
A VOZ DO POETA – Somos a herança de Roma. A salvaguarda da Civilização! Debout les rats!”


“MYSTER BYRON – Que dor de ouvido!
LORD CAPONE – Por quê?
MYSTER BYRON – É o seu calão que fere a minha nobre trompa de Eustáquio.
LORD CAPONE – Fiteiro! No parlamento inglês dizia-se amigo dos operários!
MYSTER BYRON – Demagogia, meu caro. O cartismo foi um movimento perigoso. No fundo, sempre julguei a miséria uma necessidade social. Uma arma para acorrentar as classes pobres às ocupações duras e repugnantes. A tudo que a vida tem de desagradável e vil. Para que a nossa classe tenha dignidade, repouso e gramática. O senhor deve conhecer as minhas origens históricas – a expropriação do camponês pela lã.
LORD CAPONE – Confraternizemos então! Num outro continente e numa etapa mais avançada, eu sou a heroica imagem. O romantismo. O senhor comia lã e cagava rimas! Eu bebo cerveja e mijo gasolina...
MYSTER BYRON – Simbolicamente...
LORD CAPONE – Sim. Comercialmente, bancariamente. Somos símbolos apoiados em metralhadoras.
MYSTER BYRON – Para o trabalhador revoltado há sempre um trocadilho final – a força ou a forca...
LORD CAPONE – Há melhor que isso. A pressão pacífica e silenciosa da fome.”



“LORD CAPONE – Detesto o romantismo policial. Me mexe com os nervos. A burguesia não me compreendeu.
MYSTER BYRON – Nem a mim. Classe desunida pela concorrência acaba se estrepando!
LORD CAPONE – Vamos ser francos. Ela nunca devia ter feito o que fez comigo! Sempre fui um moralista, um inimigo do comunismo e da Rússia. Ela agora me põe na cadeia e reconhece os sovietes. Bolas!
MYSTER BYRON – O senhor é mundialmente conhecido como filantropo.
LORD CAPONE – Sou a fauce do monopólio. Inventei os processos mais avançados de vencer a concorrência...
MYSTER BYRON – À bala!, como diria Floriano Peixoto.
LORD CAPONE – Os que tinham olhos não me viam. Os que tinham pernas não me alcançavam. Os que tinham braços não me agarravam. Corpo fechado!
MYSTER BYRON – Mas como é que foi preso?
LORD CAPONE – Traição da pequena burguesia! Quando a gente não divide com os outros, eles se tornam moralistas. Foi o que se deu!”


“ICAR – Quero ir à missa. Neste país não há mais igrejas. Eu quero rezar. Me regenerar.
SÃO PEDRO – Deixa de besteira.”


“A VOZ DO SOLDADO VERMELHO – Para comer e trepar todos os homens estão preparados!”


“SÃO PEDRO – O que nasceu da mulher pode por acaso ser perfeito?”


“A 2ª CRIANÇA – Proprietários? Que negócio é esse?
A 1ª CRIANÇA – Foram os homens que se apossaram da terra pela força, pelo ludíbrio ou pela herança, para fazer os despojados trabalharem para eles!
A 2ª CRIANÇA – Mas o solo não era de todos?
A 3ª CRIANÇA – Não era não. Nem as máquinas. E os burgueses lutaram séculos para que esse regímen continuasse. Quando as crises apertavam, promoviam guerras patrióticas a fim de massacrar o povo. Os filhos dos ricos não iam para as trincheiras. As famílias dos trabalhadores e dos pobres, transformadas em família de soldados, perdiam os seus chefes e filhos. Os resultados das guerras eram distribuídos entre os ricos. Os soldados que voltavam cegos, mutilados ou sem emprego eram abandonados pelos seus sinistros empresários e acabavam mendigando nas pontes e nas portas das igrejas...
A 2ª CRIANÇA – Igreja?
A 3ª CRIANÇA – Sim, igrejas, bobinha! Não vê que, para manter a exploração das massas que trabalhavam, os exploradores, de acordo com piratas que se chamavam sacerdotes, inventavam que havia um ser supremo e terrível que enchia a pança dos ricos na terra e para os pobres reservava o céu...
A 1ª CRIANÇA – Conseguiam, prometendo ilusões e castigos, que o povo não se revoltasse contra a miséria que lhe impunham as classes ricas...
A 2ª CRIANÇA – Mas o povo se revoltou...”



“Mme. ICAR – Mas teus pais procuram incutir-te bons sentimentos...
A 2ª CRIANÇA – Sentimentos os mais torpes, os mais falsos! O da caridade que manda restituir aos desgraçados uma migalha do que eles nos dão no trabalho diário. Só para que eles não se revoltem e exijam o que é deles. O amor sentimental, complicado, masoquista e absurdo. Todos os recalques catalogados pelo professor Freud. A falsa virtude, a hipocrisia, a libidinagem...
Mme. ICAR – Isso são pecados...
A 2ª CRIANÇA – Pecados que o Deus dos ricos perdoa facilmente. E que só os pobres não podiam ter no vosso mundo...”


     “O que não convém ao enxame não convém à abelha.”


“O EMPREGADO DA GARE – De que te queixas? De teres produzido um benefício para a humanidade? Restituíste apenas o que ela te deu. Velho idealista, acreditas ainda que as invenções são obras de um só homem. Não vês como delas a humanidade se apropria serenamente. (...) Não sabes que o inventor é apenas quem acrescenta a última pedra ao edifício, experimentado antes por inúmeros trabalhadores, anônimos e sacrificados?”