Editora: Abril Cultural
Tradução: Leandro Konder
Opinião: ★★★★☆
Páginas: 53
“Todos vós conheceis a Lei das Dez Horas,3
ou, mais precisamente, das Dez Horas e Meia, promulgada em 1848. Foi uma das
maiores modificações econômicas que já presenciamos. Representou um aumento
súbito e obrigatório de salários não em umas quantas indústrias locais, porém
nos ramos industriais mais eminentes, por meio dos quais a Inglaterra domina os
mercados do mundo. Foi uma alta de salários em circunstâncias singularmente
desfavoráveis. O Dr. Ure, o Prof. Senior e todos os demais porta-vozes oficiais
da burguesia no campo da economia demonstraram, e, devo dizer, com razões muito
mais sólidas do que as do nosso amigo Weston, que aquilo era o dobre de finados
da indústria inglesa. Demonstraram que não se tratava de um simples aumento de
salários, mas de um aumento de salários provocado pela redução da quantidade de
trabalho empregado e nela fundamentado. Afirmaram que a duodécima hora que se
queria arrebatar ao capitalista era justamente aquela em que este obtinha o seu
lucro. Ameaçaram com o decréscimo da acumulação, a alta dos preços, a perda dos
mercados, a redução da produção, a consequente reação sobre os salários e,
enfim, a ruína. Sustentavam que a lei de Maximiliano Robespierre sobre os
limites máximos era uma ninharia comparada com essa outra; e, até certo ponto,
tinham razão. Mas qual foi, na realidade, o resultado? Os salários em dinheiro
dos operários fabris aumentaram, apesar de se haver reduzido a jornada de
trabalho, cresceu consideravelmente o número de operários em atividade nas
fábricas; baixaram constantemente os preços dos seus produtos, desenvolveram-se
às mil maravilhas as forças produtivas do seu trabalho e se expandiram
progressivamente, em proporções nunca vistas, os mercados para os seus artigos.
Em Manchester, na assembleia da Sociedade pelo Progresso da Ciência, em 1860, eu
próprio ouvi o Sr. Newman confessar que ele, o Dr. Ure, o Prof. Senior e todos
os demais representantes oficiais da ciência econômica se haviam equivocado, ao
passo que o instinto do povo não falhara.”
3: A Lei das Dez
Horas, que reduziu e regulamentou a duração da jornada de trabalho,
representou, na época, uma vitória da classe operária. [N. do E.]
“Para esclarecer esse ponto, recorrerei a um
exemplo geométrico muito simples. Quando comparamos a área de vários triângulos
das mais diversas formas e grandezas, ou quando comparamos triângulos com
retângulos, ou com outra quer figura retilínea, qual é o processo que
empregamos? Reduzimos a área de triângulo qualquer a uma expressão
completamente distinta de sua forma visível como, pela natureza do triângulo,
sabemos que a área dessa figura geométrica é sempre igual à metade do produto
de sua base pela sua altura, isso nos permite comparar entre si os diversos
valores de toda classe de triângulos e de todas as figuras retilíneas, já que
todas elas podem reduzir-se a um certo número de triângulos.
Temos que seguir o mesmo processo para os
valores das mercadorias. Teme que poder reduzi-los todos a uma expressão comum,
distinguindo-os unicamente pela proporção em que contém essa mesma e idêntica
medida. Como os valores de troca das
mercadorias não passam de funções sociais
delas, e nada têm a ver com suas propriedades naturais, devemos antes de mais nada perguntar: Qual é a substância social comum a todas as
mercadorias? É o trabalho. Para
produzir uma mercadoria tem-se que inverter nela, ou a ela incorporar, uma
determinada quantidade de trabalho. E não simplesmente trabalho, mas trabalho social.
Aquele que produz um objeto para seu uso pessoal e direto para consumi-lo, cria
um produto, mas não uma mercadoria. Como produtor que se mantém
a si mesmo, nada tem com a sociedade. Mas, para produzir uma mercadoria, não só se tem de criar um
artigo que satisfaça a uma necessidade social
qualquer, como também o trabalho nele incorporado deverá representar uma parte
integrante da soma global de trabalho invertido pela sociedade. Tem que estar
subordinado à divisão de trabalho dentro
da sociedade. Não é nada sem os demais setores do trabalho, e, por sua vez,
é chamado a integrá-los. Quando consideramos as mercadorias como valores, vemo-las somente sob o aspecto de trabalho social realizado, plasmado ou,
se assim quiserdes, cristalizado.
Consideradas desse modo, só podem distinguir-se umas das outras enquanto
representem quantidades maiores ou menores de trabalho, assim, por exemplo, num
lenço de seda pode encerrar-se uma quantidade maior de trabalho do que em um
tijolo. Mas como se medem as quantidades
de trabalho? Pelo tempo que dura o
trabalho, medindo este em horas, em dias etc. Naturalmente, para aplicar
essa medida, todas as espécies de trabalho se reduzem a trabalho médio, ou
simples, como a sua unidade.
Chegamos, portanto, a esta conclusão. Uma
mercadoria tem um valor por ser uma cristalização de um trabalho social. A grandeza de seu valor, ou seu valor relativo, depende da maior ou menor
quantidade dessa substância social que ela encerra, quer dizer, da quantidade
relativa de trabalho necessário à sua produção. Portanto, os valores relativos das mercadorias se
determinam pelas correspondentes
quantidades ou somas de trabalho invertidas, realizadas, plasmadas nelas.
As quantidades correspondentes de
mercadorias que foram produzidas no mesmo
tempo de trabalho são iguais. Ou, dito de outro modo, o valor de uma
mercadoria está para o valor de outra, assim como a quantidade de trabalho
plasmada numa está para a quantidade de trabalho plasmada na outra.
Suspeito que muitos de vós perguntareis:
existe então uma diferença tão grande, supondo que exista alguma, entre a
determinação dos valores das mercadorias na base dos salários e sua
determinação pelas quantidades relativas
de trabalho necessárias à sua produção? Não deveis perder de vista que a retribuição do trabalho e a quantidade de trabalho são coisas
perfeitamente distintas. Suponhamos, por exemplo, que num quarter* de trigo numa onça de ouro se plasmam quantidades iguais de iguais de trabalho. Valho-me desse exemplo
porque já foi empregado por Benjamin Franklin17 no seu primeiro
ensaio, publicado em 1729, sob o título de Uma
Modesta Investigação Sobre a Natureza e a
Necessidade do Papel-Moeda, que é um dos primeiros livros em que se
reconhece a verdadeira natureza do valor. Pois bem, suponhamos, como ficou
dito, que um quarter de trigo e uma
onça de ouro são valores iguais ou equivalentes, por serem cristalizações de quantidades iguais de
trabalho médio de tantos dias, ou tantas semanas de trabalho plasmado em
cada uma delas. Acaso, ao determinar assim os valores relativos do ouro e do
trigo, fazemos qualquer referência aos salários
que percebem os operários agrícolas e os mineiros? Em absoluto, nem por sombra.
Não dizemos, sequer remotamente, como se paga o trabalho diário ou semanal desses obreiros, nem ao menos dizemos se
aqui se emprega, ou não, trabalho assalariado. Ainda supondo que se empregue
trabalho assalariado, os salários podem ser muito desiguais. Pode acontecer que
o operário cujo trabalho se plasma no quarter
de trigo só perceba por ele dois bushel18,
enquanto o operário na mina pode ter percebido pelo seu trabalho metade da onça
de ouro. Ou, supondo que os seus salários sejam iguais, podem diferir nas mais
diversas proporções dos valores das mercadorias por ele produzidas. Podem
representar a metade, a terça, quarta ou quinta parte, ou outra fração qualquer
daquele quarter de trigo, ou daquela
onça de ouro. Naturalmente, os seus salários não podem exceder os valores das
mercadorias por eles produzidas, não podem ser maiores que estas, mas podem, sim, ser inferiores em todos os graus imagináveis. Seus salários achar-se-ão
limitados pelos valores dos produtos, mas os valores de seus produtos não se
acharão limitados pelos salários. E sobretudo aqueles valores, os valores
relativos do trigo e do ouro, por exemplo, se terão fixado sem atentar em nada
no valor do trabalho invertido neles, isto é, sem atender em nada aos salários. A determinação dos valores das
mercadorias pelas quantidades relativas de trabalho nelas plasmado
difere, como se vê, radicalmente, do método tautológico da determinação dos
valores das mercadorias pelo valor do trabalho, ou seja, pelos salários. Contudo, no decurso de nossa
investigação, teremos oportunidade de esclarecer ainda mais esse ponto. Para
calcular o valor de troca de uma mercadoria, temos de acrescentar à quantidade
de trabalho invertida nela, em último lugar,
a que antes se incorporou nas matérias primas com que se elaborou a mercadoria
e o trabalho aplicado aos meios de trabalho – ferramentas, maquinaria e
edifícios – que serviram para esse trabalho19. Por exemplo, o valor
de uma determinada quantidade de fio de algodão é a cristalização da quantidade
de trabalho incorporada ao algodão durante o processo de fiação e, além disso,
da quantidade de trabalho anteriormente plasmado nesse algodão, da quantidade
de trabalho encerrada no carvão, no óleo e em outras matérias auxiliares
empregadas, bem como da quantidade de trabalho materializado na máquina a
vapor, nos fusos, no edifício da fábrica etc. Os meios de trabalho propriamente
ditos, tais como ferramentas, maquinaria e edifícios, utilizam-se constantemente,
durante um período de tempo mais ou menos longo, em processos repetidos de
produção. Se se consumissem de uma vez, como acontece com as matérias-primas,
transferir-se-ia imediatamente todo o seu valor a mercadoria que ajudam a
produzir. Mas como um fuso, por exemplo, só se desgasta aos poucos, calcula-se
um termo médio tomando por base a sua duração média, o seu aproveitamento médio
ou a sua deterioração ou desgaste durante um determinado tempo, digamos, um
dia. Desse modo calculamos qual a parte do valor dos fusos que passa ao fio
fabricado durante um dia e que parte, portanto, dentro da soma global de
trabalho realizado, por exemplo, numa libra de fio, corresponde a quantidade de
trabalho anteriormente incorporado nos fusos. Para o objetivo a que visamos é
necessário insistir mais nesse ponto.
Poderia parecer que, se o valor de uma
mercadoria se determina pela quantidade
de trabalho que se inverte na sua produção, quanto mais preguiçoso ou
inábil seja um operário, mais valiosa será a mercadoria por ele produzida, pois
que o tempo de trabalho necessário para produzi-la será proporcionalmente
maior. Mas aquele que assim pensa incorre num lamentável erro. Lembrai-vos que
eu empregava a expressão “trabalho social”
e nessa denominação de “social” cabem
muitas coisas. Ao dizer que o valor de uma mercadoria é determinado pela quantidade de trabalho incorporado ou
cristalizado nela, queremos referir-nos a quantidade
de trabalho necessário para produzir essa mercadoria num dado estado social
e sob determinadas condições sociais médias de produção, com uma dada
intensidade social média e com uma destreza média no trabalho que se emprega.
Quando, na Inglaterra, o tear a vapor começou a competir com o tear manual,
para converter uma determinada quantidade de fio numa jarda de tecido de
algodão, ou pano, bastava a metade da duração de trabalho que anteriormente se
invertia. Agora, o pobre tecelão manual tinha que trabalhar 17 ou 18 horas
diárias, em vez das 9 ou 10 de antes. Não obstante, o produto de suas 20 horas
de trabalho só representava 10 horas de trabalho social: isto é, as 10 horas de
trabalho socialmente necessárias para converter uma determinada quantidade de
fio em artigos têxteis. Portanto, seu produto de 20 horas não tinha mais valor
do que aquele que antes elaborava em 10.
Se, então, a quantidade de trabalho
socialmente necessário, materializado nas mercadorias, é o que determina o
valor de troca destas, ao crescer a quantidade de trabalho exigível para
produzir uma mercadoria aumenta necessariamente o seu valor e vice-versa,
diminuindo aquela, baixa este.
Se as respectivas quantidades de trabalho
necessário para produzir as respectivas mercadorias permanecessem constantes,
seriam também constantes seus valores relativos. Porém, assim não sucede. A
quantidade de trabalho necessário para produzir uma mercadoria varia
constantemente, ao variarem as forças produtivas do trabalho aplicado. Quanto
maiores são as forças produtivas do trabalho, mais produtos se elaboram num
tempo de trabalho dado; e quanto menores são, menos se produzem na mesma
unidade de tempo. Se, por exemplo, ao crescer a população, se fizesse
necessário cultivar terras menos férteis, teríamos que inverter uma quantidade
maior de trabalho para obter a mesma produção, e isso faria subir, por conseguinte,
o valor dos produtos agrícolas. Por outro lado, se um só fiandeiro, com os
modernos meios de produção, ao fim do dia converte em fio mil vezes mais
algodão que antes fiava no mesmo espaço de tempo com auxílio da roca, é
evidente que, agora, cada libra de algodão absorverá mil vezes menos trabalho
de fiação que dantes e, por consequência, o valor que o processo de fiação
incorpora em cada libra de algodão será mil vezes menor. E na mesma proporção
baixará o valor do fio.
À parte as diferenças nas energias naturais e
na destreza adquirida para o trabalho entre os diversos povos, as forças
produtivas do trabalho dependerão, principalmente:
1 – Das condições naturais do trabalho: fertilidade do solo, riqueza das jazidas
minerais etc.
2 – Do aperfeiçoamento progressivo das forças sociais do trabalho por efeito da
produção em grande escala, da concentração do capital, da combinação do
trabalho, da divisão do trabalho, maquinaria, melhoria dos métodos, aplicação
dos meios químicos e de outras forças naturais, redução do tempo e do espaço
graças aos meios de comunicação e de transporte, e todos os demais inventos
pelos quais mais a ciência obriga as forças naturais a servir ao trabalho, e
pelos quais desenvolve o caráter social ou cooperativo do trabalho. Quanto
maior é a força produtiva do trabalho, menos trabalho se inverte numa dada
quantidade de produtos e, portanto, menor é o valor desses produtos. Quanto
menores são as forças produtivas do trabalho, mais trabalho se emprega na mesma
quantidade de produtos e por consequência, maior é o seu valor. Podemos, então,
estabelecer como lei geral o seguinte:
Os valores das mercadorias estão na razão direta do tempo de trabalho
invertido em sua produção e na razão inversa das forças produtivas do trabalho
empregado.
Como até aqui só temos falado do valor, acrescentarei algumas palavras
acerca do preço, que é uma forma
particular tomada pelo valor.
Em si mesmo, o preço outra coisa não é senão a expressão
em dinheiro do valor. Os valores de
todas as mercadorias deste país se exprimem, por exemplo, em preços-ouro,
enquanto no continente se expressam quase sempre em preços-prata. O valor do
ouro, ou da prata, se determina como o de qualquer mercadoria, pela quantidade
de trabalho necessário à sua extração. Permutais uma certa soma de vossos
produtos nacionais, na qual se cristaliza uma determinada quantidade de vosso
trabalho nacional, pelos produtos dos países produtores de ouro e prata, nos
quais se cristaliza uma determinada quantidade de seu trabalho. É por esse processo, na verdade pela simples troca,
que aprendeis a exprimir em ouro e prata os valores de todas as mercadorias,
isto é, as quantidades respectivas de trabalho empregadas na sua produção. Se
vos aprofundardes mais na expressão em
dinheiro do valor, ou, o que vem a ser o mesmo, na conversão do valor em preço, vereis que se trata de um processo por
meio do qual dais aos valores de todas as mercadorias uma forma independente e homogênea, por meio da
qual exprimis esses valores como quantidades de igual trabalho social. Na medida em que é apenas a expressão em
dinheiro do valor, o preço foi denominado preço
natural, por Adam Smith, e prix
nécessaire20, pelos fisiocratas franceses.
Que relação guardam, pois, o valor e os preços do mercado ou os preços
naturais e os preços do mercado?
Todos sabeis que o preço do mercado é
o mesmo para todas as mercadorias da
mesma espécie, por muito que variem as condições de produção dos produtores
individuais. Os preços do mercado não fazem mais que expressar a quantidade social média de trabalho, que
nas condições médias de produção, é necessária para abastecer o mercado com
determinada quantidade de um certo artigo. Calcula-se tendo em vista a
quantidade global de uma mercadoria de determinada espécie.
Até agora o preço de uma mercadoria no mercado
coincide com o seu valor. Por outra
parte, as oscilações dos preços do mercado que umas vezes excedem o valor, ou
preço natural, e outras vezes ficam abaixo dele dependem das flutuações da
oferta e da procura. Os preços do mercado se desviam constantemente dos
valores, mas, como diz Adam Smith:
“O preço natural é (...) o preço central em torno do qual gravitam
constantemente os preços das mercadorias. Circunstâncias diversas os podem
manter erguidos muito acima desse ponto e, por vezes, precipitá-los um pouco
abaixo. Quaisquer, porém, que sejam os obstáculos que os impeçam de se deter
nesse centro de repouso e estabilidade, eles tendem continuamente para lá”.21
Não posso agora esmiuçar esse assunto. Basta
dizer que, se a oferta e a procura se equilibram, os preços das mercadorias no
mercado corresponderão a seus preços naturais, isto é, a seus valores, os quais
se determinam pelas respectivas quantidades de trabalho necessário para a sua
produção. Mas a oferta e a procura devem constantemente tender para o
equilíbrio, embora só o alcancem compensando uma flutuação com a outra, uma
alta com uma baixa e vice-versa. Se, em vez de considerar somente as flutuações
diárias, analisardes o movimento dos preços do mercado durante um espaço de
tempo bastante longo, como o fez, por exemplo, o Sr. Tooke, na sua História dos Preços, descobrireis que as
flutuações dos preços no mercado, seus desvios dos valores, suas altas e
baixas, se compensam umas com as outras e se neutralizam de tal maneira que,
postas à margem a influência exercida pelos monopólios e algumas outras
restrições que aqui temos de passar por alto, vemos que todas as espécies de
mercadorias se vendem, em termo médio, pelos seus respectivos valores ou preços naturais. Os períodos
médios de tempo, durante os quais se compensam entre si as flutuações dos
preços no mercado, diferem segundo as distintas espécies de mercadorias, porque
numas é mais fácil que em outras adaptar a oferta à procura.
Se, então, falando de um modo geral e
abarcando períodos de tempo bastante longos, todas as espécies de mercadorias
se vendem pelos seus respectivos valores, é absurdo supor que o lucro – não em
casos isolados, mas o lucro constante e normal das diversas indústrias – brota
de uma majoração dos preços das
mercadorias, ou do fato de que se vendar por um preço que exceda
consideravelmente o seu valor. O
absurdo dessa ideia evidencia-se desde que a generalizamos. O que alguém
ganhasse constantemente como vendedor, haveria de perder constantemente como
comprador. De nada serve dizer que há pessoas que compram sem vender,
consumidores que não são produtores. O que estes pagassem ao produtor, teriam
antes de recebe-lo dele grátis. Se uma pessoa recebe o vosso dinheiro e logo
vo-lo devolve comprando-vos as vossas mercadorias, por esse caminho nunca
enriquecereis por mais caro que vendais. Essa espécie de negócios poderá
reduzir uma perda, mas jamais contribuir para realizar um lucro. Portanto, para
explicar o caráter geral do lucro não
tereis outro remédio senão partir do teorema de que as mercadorias se vendem,
em média, pelos seus verdadeiros valores
e que os lucros se obtém vendendo as
mercadorias pelo seu valor, isto é, em proporção a quantidade de trabalho
nelas materializado. Se não conseguirdes explicar o lucro sobre essa base, de
nenhum outro modo conseguireis explicá-lo. Isso parece um paradoxo e contrário
a observação de todos os dias. Parece também paradoxal que a Terra gire ao
redor do Sol e que a água seja formada por dois gases altamente inflamáveis. As
verdades científicas serão sempre paradoxais, se julgadas pela experiência de
todos os dias, a qual somente capta a aparência enganadora das coisas.”
*: Quarter,
medida inglesa de capacidade que equivale a 8 bushels, ou seja, cerca de 290
litros. (N. do E.)
17: Benjamin
Franklin 1706-17901, filósofo e estadista norte-americano, tornou-se conhecido
desde seu primeiro ensaio: A Modest
Inquiry into the Nature and Necessity of a Paper Currency. (N. do E.)
18: Medida
inglesa para secos, equivalente, nos Estados Unidos a 35.238litros, e, na
Inglaterra, a 36,367 litros. (N. do T.)
19: Ver RICARDO,
David. Princípio de Economia Política. Cap. 1, sec. IV. (N do T.)
20: Em francês,
no original, “preço necessário”. (N. do E)
21: SMITH, Adam. The Wealth of Nations, Nova York, 1931, t.1, cap. 7, p. 57. (N. do T.)
“O que o operário vende não é diretamente o
seu trabalho, mas a sua força de trabalho,
cedendo temporariamente ao capitalista o direito de dispor dela. Tanto é assim
que, não sei se as leis inglesas, mas, desde logo, algumas leis continentais
fixam o máximo de tempo pelo qual uma
pessoa pode vender a sua força de trabalho. Se lhe fosse permitido vendê-la sem
limitação de tempo, teríamos imediatamente restabelecida a escravatura.
Semelhante venda, se o operário se vendesse por toda a vida, por exemplo,
convertê-lo-ia sem demora em escravo do patrão até o final de seus dias.
Thomas Hobbes, um dos economistas mais
antigos e dos mais originais filósofos da Inglaterra, já havia assinalado em
seu Leviatã, instintivamente, esse ponto
que escapou a todos os seus sucessores. Dizia ele:
“O valor de um homem é, como
para todas as outras coisas, o seu preço, quer dizer, o que se pagaria pelo uso
de sua força”.
Partindo dessa base podemos determinar o valor do trabalho, como o de todas as
outras mercadorias.
Mas antes de fazê-lo, poderíamos perguntar:
de onde provém esse fenômeno singular de que no mercado nos encontremos um
grupo de compradores, que possuem terras, maquinaria, matérias-primas e meios
de vida, coisas essas que, exceto a terra, em seu estado bruto, são produtos de trabalho, e, por outro lado,
um grupo de vendedores que nada têm a vender senão sua força de trabalho, os
seus braços laboriosos e cérebros? Como se explica que um dos grupos compre
constantemente para realizar lucro e enriquecer-se, enquanto o outro grupo
vende constantemente para ganhar o pão de cada dia? A investigação desse
problema seria uma investigação do que os economistas chamam “acumulação prévia ou originária”23,
mas que deveria chamar-se expropriação
originária. E veremos que essa chamada acumulação originária não é senão
uma série de processos históricos que resultaram na decomposição da unidade
originária existente entre o homem trabalhador e seus instrumentos de
trabalho. Uma vez consumada a separação
entre o trabalhador e os instrumentos de trabalho, esse estado de coisas se
manterá e se reproduzirá em escala sempre crescente, até que uma nova e radical
revolução do sistema de produção a deite por terra e restaure a primitiva
unidade sob uma forma histórica nova.”
22: Thomas Hobbes
(1588-1679), filósofo inglês, empírico e sensualista, ideólogo da nobreza
aburguesada. Defendeu o poder ilimitado do Estado em suas obras, sobretudo no Leviatã,
escrito em 1651, que foi queimado em publico, após a restauração dos Stuart.
(N. do E.)
23: O mesmo que
“acumulação primitiva”, como diria Marx em O
Capital. (N. do E.)
“Que é, pois, o valor da força de trabalho?
Como o de toda outra mercadoria, esse valor
se determina pela quantidade de trabalho necessário para produzi-la. A força de
trabalho de um homem consiste, pura e simplesmente, na sua individualidade
viva. Para poder crescer e manter-se, um homem precisa consumir uma determinada
quantidade de meios de subsistência; o homem, como a máquina, se gasta e tem
que ser substituído por outro homem. Além da soma de artigos de primeira
necessidade exigidos para o seu próprio
sustento, ele precisa de outra quantidade dos mesmos artigos para criar
determinado número de filhos, que hão de substituí-lo no mercado de trabalho e
perpetuar a descendência dos trabalhadores. Ademais, tem que gastar outra soma
de valores no desenvolvimento de sua força de trabalho e na aquisição de uma
certa habilidade. Para o nosso objetivo bastar-nos-á considerar o trabalho médio, cujos gastos de educação e
aperfeiçoamento são grandezas insignificantes. Devo, sem embargo, aproveitar a
ocasião para constatar que, assim como diferem os custos de produção de força
de trabalho de diferente qualidade, assim têm que diferir, também, os valores
das forças de trabalho aplicadas nas diferentes indústrias. Por consequência, o
grito pela igualdade de salários
assenta num erro, é um desejo oco,
que jamais se realizará. É um rebento desse falso e superficial radicalismo que
admite as premissas e procura fugir às conclusões. Dentro do sistema do
salariado, valor da força de trabalho se fixa como o de outra mercadoria
qualquer; e, como distintas espécies de força de trabalho possuem distintos
valores ou exigem para a sua produção distintas quantidades de trabalho, necessariamente têm que ter preços
distintos no mercado de trabalho. Pedir uma retribuição
igual ou simplesmente uma retribuição justa, na base do sistema do
salariado, é o mesmo que pedir liberdade na base do sistema da escravatura. O
que pudésseis considerar justo ou equitativo não vem ao caso. O problema está
em saber o que vai acontecer necessária e inevitavelmente dentro de um dado
sistema de produção.
Depois do que dissemos, o valor da força de trabalho é determinado
pelo valor dos artigos de primeira
necessidade exigidos para produzir, desenvolver, manter e perpetuar a força
de trabalho.”
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