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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Dao De Jing (Parte II), de Laozi

Subtítulo: Escritura do Caminho e Escritura da Virtude com os comentários do Senhor às margens do Rio

Editora: Unesp

ISBN: 978-85-393-0623-7

Tradução, notas, variantes e seleção de textos: Giorgio Sinedino

Opinião: N/A

Páginas: 630

Link para compra: Clique aqui

Sinopse: Ver Parte I



“Embainha teu brilho...1

O Céu é longevo, a Terra é eterna.

Comentários

[Este capítulo começa com a] afirmação de que Céu e Terra são eternos e longevos; seu objetivo é instruir e orientar as pessoas [para tomar Céu e Terra como espelho].

 

Ambos têm esse poder, porque Céu e Terra não dão vida a si próprios:

Comentários

Apenas Céu e Terra são longevos e diuturnos. Isso se deve a que ambos se mantêm tranquilos e em paz,2 [uma vez que] não busquem recompensa por aquilo que dispuseram [no mundo]. [Dessa forma,] não se parecem com as pessoas [comuns], tão angustiadas em sua azáfama, [sempre] à busca de vantagens, beneficiando-se daquilo que tomam dos outros.

 

É por isso que obtêm longa vida.

Comentários

Por não buscarem sobreviver [a todo custo] é que [Céu e Terra] têm uma vida longa, que não se finda jamais.

 

[Intuindo-o,] o Sábio coloca-se em último lugar;

Comentários

[Assim como o Céu e a Terra, o Sábio] põe as outras pessoas em primeiro lugar, colocando-se em último.

 

Mas [termina] à frente [de todos].

Comentários

Tudo sob o Céu honra o Sábio, colocando-o à frente [da sociedade, como] chefe do [corpo de] funcionários.3

 

Coloca-se fora [das atenções]

Comentários

[Isto é,] atribui pouco valor a si e grande valor aos outros.4

 

E todavia permanece [em seu centro].5

Comentários

Os cem clãs6 o veneram como se fosse seu pai e mãe; o brilho emitido pelos espíritos7 protege-o como se fosse um recém-nascido,8 por isso permanece por um longo tempo [no mundo].9

 

Isso não advirá de seu desprendimento [das coisas do mundo]?

Comentários

[Como disse acima,] o Sábio é amado pelas pessoas, é protegido pelo brilho dos espíritos. Se não for por ele ser uma pessoa imparcial, correta, [cujas atitudes] não são [motivadas] por seus interesses, por que será?

 

Eis a forma [de o Sábio] promover seus [interesses] pessoais.

Comentários

O que as pessoas veem como interesses pessoais tem sua raiz na ambição de obter distinções [e honrarias]. Contudo, o Sábio as obtém mesmo sem [agir conforme] seus interesses. É por isso que [Laozi, em aparente contradição, diz que o Sábio] promove seus interesses pessoais.10”

1 Dinâmica do Ocultamento: o título remete ao provérbio chinês 韜光養晦 (taoguang yanghui) ou “embainhe seu brilho e cultive-se na escuridão”. Trata-se de um conselho dirigido às pessoas de potencial que desejavam ingressar no competitivo e traiçoeiro mundo da política na China antiga. Curiosamente, esse ditado foi escolhido por Deng Xiaoping como diretriz para a inserção internacional chinesa no período de Abertura e Reforma (1979-2008?). A discrição do governo chinês, que ora paulatinamente fica para trás, não pode ser confundida com timidez ou modéstia; é resultado de um cálculo pragmático, que poderia ser descrito como reculer pour sauter. Dentre os loci classici, convém discutir duas perspectivas sobre “embainhar o brilho”. Primeiramente, merece menção o poema “Oblação”, recolhido na terceira seção do Clássico dos poemas,《詩經·周頌·酌》: “Oh, fulgurantes hostes do rei/marchem na escuridão e conquistem/raiará seu sol, no momento preciso/E o Céu derramará bons augúrios” 於鑠王師, 遵養時晦。時純熙矣, 是用大介. Esse poema celebra a sedição organizada pela casa de Zhou que, antes de lançar operações armadas, durante um longo período esmerou-se em formar alianças, obviamente com o propósito de tomar o poder. As operações militares somente aconteceram quando “Zhou tinha 2/3 de Tudo sob o Céu”. Vale a pena contrastá-lo com outra importante referência, a anedota registrada nos Analectos (9.13): “Zigong disse: ‘tenho aqui uma bela peça de jade. [O Mestre] a esconderia num estojo e a guardaria? Ou procuraria um bom preço e a venderia?’. O Mestre disse: ‘Venda-a! Venda-a! Eu esperaria um bom preço’” 子貢曰: “有美玉於斯, 韞匵而藏諸 求善賈而沽諸”。 子曰: “沽之哉!沽之哉!我待賈者也”. Zigong usa a peça de jade para aludir a uma pessoa de talentos; ele pergunta se tal pessoa deveria sair em busca de um patrono, alguém que lhe oferecesse uma posição política. Confúcio, que se via nessa posição, responde conforme seus impulsos mais íntimos. Não é necessário dizer que Zhou conquistou a China e o indivíduo Confúcio nunca conseguiu vender seu jade por um bom preço. Mais à maneira do Clássico dos poemas e diferentemente de Confúcio, Laozi propõe “guardar o jade no estojo”, isto é, propõe que o praticante do Dao primeiro se submeta a um longo processo de autocultivação para que, uma vez desenvolvido seu potencial, ele possa exercer o seu devido papel no mundo. Esse também é o entendimento do Senhor do Rio, que esclarece o pano de fundo moral da receita. Apesar de suas origens promissoras, “embainhar o brilho e cultivar-se na escuridão” tornou-se uma referência àquelas pessoas que, incapazes de aceitar as imperfeições da sociedade chinesa, preferiram distanciar-se da vida político-burocrática para se dedicar ao estudo das tradições literárias e/ou religiosas.

2 “Isso se deve a que ambos se mantêm tranquilos e em paz”. A edição Cânone taoista traz: “Isso se deve a que ambos se mantêm tranquilos, em paz, conforme a Espontaneidade” 以其安靜自然.

3 Se há um ideal comum ao longo de 2.500 anos de pensamento chinês, esse é o de que os sábios devem ser postos no poder, apesar de que eles pessoalmente não o ambicionem. Na China, a alta cultura clássica consiste em coleções de textos e formas de expressão artística elaborados por e dirigidos a uma elite intelectual extremamente homogênea. Por mais que transformações econômicas e tecnológicas tenham alterado a sociedade chinesa, a cultura clássica manteve-se um subproduto dessa vida político-burocrática. Buscar um cargo público permaneceu o principal caminho para a realização dos ideais filosóficos e espirituais maiores dessa elite, de modo que o Sábio e o funcionário ideal possuem certa equivalência.

4 “[Isto é,] atribui pouco valor a si e grande valor aos outros”. O manuscrito Liu lê: “[Isto é,] atribui pouco valor a si e coloca-se atrás das pessoas” 薄己而後人也

5 “Coloca-se fora [das atenções] e todavia permanece [em seu centro]”. Uma leitura alternativa seria “coloca-se fora [do mundo] e assim vive [longamente]. O texto original, conciso e dúbio, presta-se a muitas interpretações – contraditórias, inclusive. Tudo depende dos objetivos do leitor e da imagem que ele atribui a Laozi.

6 Cem Clãs: cf. cap. 3, nota 22.

7 Brilho dos Espíritos/Divino: O termo 神明 (shenming) alude à influência dos “espíritos”, que devem ser compreendidos prioritariamente como emanações inteligentes dos princípios Yin e Yang. A linguagem utilizada pelo Senhor do Rio assemelha-se à do Livro das mutações – enquanto enfatiza a acepção típica de medicina chinesa. Nesse contexto, “brilho emitido pelos espíritos” (神明), expressa a relação harmônica, “saudável”, entre Yin e Yang. Eis a passagem, da segunda parte dos Comentários anexos 《周易·繫辭傳下》: “O Mestre disse: ‘[os hexagramas] “qian” e “kun”, não serão eles as portas para as mutações?’ ‘Qian’ representa todas as coisas [que podem ser classificadas como] ‘yang’; ‘Kun’, tudo [que pode ser visto como] ‘yin’. Yin e Yang unem as suas Virtudes, dando substância ao ‘rígido’ e ao ‘macio’. [A união do Yin e Yang] dá forma [aos padrões] de mudança que ocorrem entre o Céu e a Terra, sendo permeada pela Virtude do ‘brilho divino’” 子曰: “乾坤, 其易之門邪?” 乾, 陽物也; 坤, 陰物也。陰陽合德, 而剛柔有體, 以體天地之撰, 以通神明之德. Analogamente ao descrito nesse trecho, o Senhor do Rio sugere que o praticante taoista faça o mesmo com seu corpo, mantendo o equilíbrio entre Yin e Yang nos cinco recipientes.

8 “O brilho emitido pelos espíritos protege-o como se fosse um recém-nascido”. A edição Cânone taoista diz: “respeitam-no como se possuísse um brilho divino, protegem-no como se fosse um recém-nascido” 敬之如神明, 祐之若赤子。

9 “Por isso permanece por um longo tempo”. O texto Cânone taoista diz: “por isso obtém a longa vida para si” 故身而長存也. O texto Juzhen lê: “por isso permanece fora [da vida política] e obtém a longevidade para si”.

10 Altruísmo/Egoísmo: No comentário, o Senhor do Rio modifica o sentido das palavras do texto principal, retificando uma expressão de Laozi que soa incompatível com seu estatuto: “eis a forma de o Sábio promover seus interesses pessoais”. Conforme o ideal chinês, o Sábio nunca age conforme seus interesses particulares – é a epítome do altruísmo. A dicotomia entre “altruísmo” (公, gong) e “egoísmo” (私, si) tem uma importante posição no vocabulário político dos chineses antigos. A língua moderna herdou esse atavismo, em que 公 e 私 são base das palavras “público” e “privado”, respectivamente. De acordo com o contexto, 公 é traduzida por “imparcialidade”, “desprendimento”, “às claras”; 私, por “egoísmo”, “busca de interesses particulares”, “às escondidas” etc. Portanto, é necessário saber que, em chinês antigo, há um juízo de valor absoluto entre os dois: tudo que diz respeito ao indivíduo corre o risco de ser pichado como “egoísta”. “Público”, ao contrário, exprime o ideal máximo da governança: o altruísmo do Sábio.

 

 

“Nivelando-se [às pessoas comuns]

Se continuamos [a encher uma vasilha] até transbordar, é melhor parar.

Comentários

“Transbordar” deve ser lido como encher. “Parar” deve ser lido como cessar. Quando seguramos [uma vasilha] que está cheia [além da conta, o líquido] transbordará. Por isso é melhor cessar.

 

Se martelamos [uma lâmina] para afiá-la [além do ponto], não é possível manter [seu fio].

Comentários

“Martelar” aqui quer dizer [dar forma ao metal]. Ora martelamo-lo para que fique pronto, mas logo depois teremos que o jogar fora.

 

Quando ouro e jade preenchem os salões, não há ninguém que consiga protegê-los.

Comentários

Desejos e vícios prejudicam nosso espírito; riquezas e abundância são um fardo para nossos corpos.

 

Os que enriquecem e adquirem posição a ponto [de transbordarem] de orgulho prenunciam sua própria ruína.”

 

 

“Retorno à pureza

 

Se abolida [a noção de] Sábio1

Comentários

[Laozi propõe] abolir as obras [civilizatórias] dos [grandes] Sábios, fazendo com que [a sociedade] retorne ao seu início, preservando suas origens.2 Os Cinco Di3 conceberam as Imagens4 e Cang Jie5 as transformou em caracteres, mas [nada do que fizeram] se compara com a sociedade [mais primitiva dos] Três Huang6 que, [sem sentir a necessidade de] desenvolver a escrita, dava nós em cordas.7

 

E descartada [a sua] Sapiência,8

Comentários

[Deve-se] abandonar [toda expressão de] inteligência ou sabedoria, retornando9 a [um estado de] Inação.10

 

O povo sairá beneficiado cem vezes mais.

Comentários

As tarefas da lavoura serão realizadas com empenho, [seus frutos] beneficiando a todos, sem privilegiar particulares.11

 

Se eliminada a Humanidade12 e despojado o dever,13

Comentários

Deve ser abolida a Humanidade que transparece como favores e graças [concedidos a outrem]; deve ser descartado o senso de dever que exalta palavras floridas.

 

O povo voltará [a observar a] Piedade filial e o carinho paterno.14

Comentários

[Pois o poder de] transformação15 moral da Virtude [do Rei] é puro.

 

Se extinguidos os artifícios e esquecidos os privilégios,

Comentários

Por “extinguir os artifícios” [Laozi quer dizer todo tipo de] trapaça, fraude e distorção da verdade. Por “esquecer os privilégios”, [propõe-se] fechar os caminhos das pessoas ambiciosas e trancar as portas dos que buscam o poder [para si].

 

Não haverá mais ladrões e malfeitores.

Comentários

Se os superiores [forem capazes de] transformar [o povo] em pessoas retas e imparciais, [será extirpada] toda forma de comportamento egoísta ou malicioso.

 

Estas três [medidas],

Comentários

[Laozi] se dirige às três coisas [acima], que devem ser abolidas e esquecidas.

 

Não adianta transcrevê-las [em lei];

Comentários

Não adianta transcrevê-las [em leis], porque [leis] escritas não são capazes de doutrinar o povo.

 

É necessário que [as pessoas] se incorporem [ao Dao]:

Comentários

Têm que se submeter aos seguintes [princípios]:

 

“Manifestai a [pureza] da seda não tingida; abraçai a [simplicidade] da tábua virgem”.

Comentários

[A metáfora] “manifestar a [pureza] da seda não tingida” urge [os praticantes do Dao] a abraçar [um ideal de vida] como o da seda não tingida e a preservar a sua condição genuína.16 Não se deve celebrar o refinamento artístico e os dons literários.17 [A metáfora] “abraçar a [simplicidade] da tábua virgem” convoca [os praticantes do Dao] a abraçar a natureza da madeira não trabalhada para exibi-la a quem está abaixo [de si,18 conseguindo], dessa maneira, constituir-se num modelo e princípio [para o comportamento de outrem].

 

“[Agi] menos em benefício próprio, restringi [vossos] desejos a um mínimo”.

Comentários

[Exortando a “agir] menos em benefício próprio”, [Laozi estimula] retidão e desprendimento. [Encorajando a] “restringir desejos a um mínimo”, [Laozi sublinha que] é necessário saber dar-se por satisfeito [com o que se tem].”

1 Sábio: cf. cap. Nutrindo o corpo, nota 8.

2 “Fazendo com que [a sociedade] retorne ao seu início, preservando suas origens”. A edição Anotações reunidas diz: “Fazendo com que [a sociedade] retorne ao seu início, preservando o Vazio” 反初守無.

3 Cinco Di: “Cinco Di” (五帝) ou “Cinco Imperadores” indica um grupo de figuras legendárias que governaram o povo da “China” antes de Xia (夏), a primeira dinastia “histórica” da China. A era dos Cinco Di assinala a “idade de ouro” do país, pelo menos na perspectiva dos chineses antigos. Há pelo menos quatro versões diferentes sobre quem eram os “cinco imperadores”. Na mais conhecida delas, o Livro das mutações menciona Fu Xi (伏羲) – o criador das “Oito Imagens” (ver nota infra); Shen Nong (神農), que ensinou o povo chinês a cultivar a terra; Huang Di (黃帝), o “Imperador Amarelo”, que se destacou como líder militar, atribuindo-se-lhe também o desenvolvimento dos Ritos, o cerimonial político-religioso que está na raiz do excepcionalismo chinês; Tang Yao (唐堯) e Yu Shun (虞舜), duas figuras que permaneceram referências de Virtude pessoal e cívica para o período imperial chinês. Outra versão, também bastante influente, é a do cronista Sima Qian (司馬遷, 145 ou 135-86 a.C.). Sima compilou a primeira crônica do país no período imperial, que se tornou o modelo para as 21 histórias oficiais das dinastias seguintes. A lista de Sima é idêntica à da tradição de Dai De (戴德, ativo no século I a. C.) do Clássico dos Ritos, chamada de Registro dos Ritos de Dai Sê­nior《大戴禮記》: Huang Di, Zhuan Xu (顓頊), Di Ku (帝嚳), Tang Yao e Yao Shun.

4 Imagem: refletindo o uso da palavra em Laozi, passagem do Livro das mutações prescreve um duplo papel para as imagens《周易·繫辭傳》: “as Imagens são (1) o meio com que os Sábios observam os recônditos do Céu e da Terra e (2) atribuem um sentido às coisas, conforme sua aparência e conteúdo: eis o que se chama de Imagem” 是故夫象, 聖人有以見天下之賾, 而擬諸其形容, 象其物宜, 是故謂之象. O primeiro sentido é cosmológico. O Dao modela a realidade segundo um conjunto de “Imagens” (象, xiang). Dentre elas, o Céu e a Terra (Yin-Yang) são as duas primeiras e mais importantes. Cumpre destacar que o termo Imagem possui um sentido técnico criado pelo Clássico das mutações. De fato, um dos capítulos dessa obra é chamado de Tratado sobre as Imagens (象傳, xiangzhuan), que atribui significados simbólicos a cada um dos 64 hexagramas – chamados de “Grandes Imagens”, e também a cada uma das seis linhas que compõem os hexagramas – chamadas de “Pequenas Imagens”. Sem entrar em particularidades, essas imagens são vistas como um “mapa conceitual” das dez mil coisas e de todas as ocorrências naturais e sociais. O segundo sentido define as imagens como os arquétipos da escrita chinesa. O Livro das mutações sugere que os ideogramas chineses teriam se desenvolvido a partir das primeiras Imagens, os oito trigramas de Fu Xi 《周易·繫辭傳上》: “Em tempos passados, ainda quando o Senhor Bao Xi (Fu Xi) reinava em Tudo sob o Céu, ergueram-se os olhos para contemplar as Imagens no Céu, baixou-se a vista para observar os modelos na Terra. Atentou-se para os contornos das bestas e aves, bem como para tudo aquilo que é produzido pelo solo. Dentre as coisas próximas, buscou-se o que estava próximo do corpo e, dentre as distantes, o que poderia ser percebido nos objetos e seres – e assim foram concebidos os oito trigramas, para que permeassem a Virtude do Brilho Divino e classificassem em tipos as características das dez mil coisas” 古者包犧氏之王天下也, 仰則觀象於天, 俯則觀法於地, 觀鳥獸之文與地之宜, 近取諸身, 遠取諸物, 於是始作八卦, 以通神明之德, 以類萬物之. Com base em dois tipos de linha, contínuas para representar Yang (–) e quebradas para representar Yin (--), Fu Xi compôs oito “imagens” básicas com três linhas. A essas “imagens” deram-se os seguintes nomes: “qian” (乾), imagem do Céu; “dui” (兌), do pântano; “li” (離), do fogo; “zhen” (震), do trovão; “kan” (坎), da água; “xun” (巽), do vento; “gen” (艮), da montanha; e “kun” (坤), da Terra. Reza a tradição que, no início do segundo milênio a.C., o fundador da dinastia Zhou, rei Wen, combinou os oito trigramas em grupos de dois, produzindo os 64 hexagramas que hoje integram o Livro das mutações. Embora não seja uma explicação convincente da origem da escrita chinesa, essa narrativa comprova, por outro lado, o papel religioso dos ideogramas – bem como sua natureza sagrada e transcendente. Ao citar as “Imagens”, Laozi certamente pressupõe o papel modelar da linguagem e seu poder de transmitir o Dao, ainda que imperfeitamente.

5 Cang Jie (倉頡) é uma figura lendária, de quem se diz ter sido servo de Huang Di, o Imperador Amarelo. A Cang se atribui a criação dos ideogramas chineses. Há menções à sua lenda dispersas em obras como Hanfeizi, Huainanzi, Primavera e Outono de Lü Buwei e no posfácio a SWJZ.

6 Três Huang: Os “Três Huang” (三皇) ou “Três Augustos” são reis sábios da alta antiguidade chinesa, anteriores aos “cinco imperadores”. Seu locus classicus mais antigo talvez seja o recolhido no capítulo “Funcionários da Primavera” dos Ritos de Zhou 《周礼·春官》: Fu Xi, Shen Nong e Huang Di – nomes que repetem figuras previamente descritas como “Di”. Outras listas importantes trazem Fu Xi, Nü Wa (女媧) e Shen Nong – sendo Fu e Nü um par hierogâmico – como a da Primavera e Outono do Senhor Lü. Uma tradição diferente é representada por Sima Qian, que diz serem eles o “Augusto da Terra” (地皇), o “Augusto do Céu” (天皇) e o “Augusto magnífico” (泰皇) – o que acena para o panteão taoista, nessa época ainda em formação.

7 Cf. o cap. 80: “Faze com que o povo volte a dar nó em cordas e que adote [essa e outras práticas do passado]”.

8 “Se abolida [a noção de] Sábio e descartada [a sua] Sapiência”. GD propõe: “Se abolida a sapiência e descartada a eloquência” 絶知棄辯.

9 Retorno: é a tradução da palavra chinesa 反 (fan). SWJZ diz que, etimologicamente, 反 significa “emborcar, colocar ao contrário”. O sentido mais óbvio da palavra, portanto, é “oposto”, donde o comentário de Wang Bi a este verso: “Coisas altas têm o que está embaixo como base; os nobres têm plebeus como sua raiz. O que existe tem o Nada como sua utilidade; eis o seu oposto. Todos os movimentos percebem onde há um espaço vazio, por isso é que as coisas o permeiam. Laozi diz: “o contrário, eis para onde se move o Dao” 高以下為基, 貴以賤為本, 有以無為用, 此其反也。動皆知其所無, 則物通矣。故曰: 反者道之動也。 Não obstante, a palavra também pode ser associada ao cognato 返 (a redação adotada por MWD), cujo sentido é “retornar, voltar” – donde a tradução. Esse “Retorno” assinala o caráter cíclico e dinâmico do Dao, tal como manifestado pelo Caminho do Céu (cf. cap. 22, nota 2). Por exemplo, dia e noite se repetem; semanas, meses e anos vão e voltam; as quatro estações se sucedem ciclicamente. Esses são aspectos do “retorno” do Dao. Conforme Laozi, essas são mudanças “espontâneas” (cf. cap. 1, nota 7) e produzidas por “Inação” (cf. cap. 1, nota 8). Reforça-o o uso do termo em outras partes de Laozi. No cap. 25, diz: “[E] ‘o que chega ao longe’, diz-se, ‘[há de] retornar’” 遠曰反. No cap. 65, lê-se: “É o oposto das coisas, Até o ponto de realizar a Grande Obediência”.

10 Inação: 無為 (wuwei) é um dos termos mais debatidos na hermenêutica de Laozi. Como atributo do Dao, a Inação também é um conceito cosmológico, mas sua influência é sentida principalmente na ética e na política. 為 refere-se ao tipo de ação, tipicamente humana, criticado pelo taoismo. Segundo essa doutrina, os homens agem por artifício: planejam seus atos, dirigindo-os a objetivos preestabelecidos e dependem das próprias forças para produzir resultados. Para o taoismo, portanto, essa atitude viola a Espontaneidade do Dao, perturbando seu equilíbrio e acabando com sua tranquilidade. A inação opõe-se-lhe, não como simples far niente, mas como “seguir o curso das coisas” 順其自然 – adaptar-se às novas situações e dar-se por satisfeito com o que se recebe (ou perde). Confrontado com a crítica de que sua doutrina leva ao conformismo, Laozi replica que o Dao tende ao equilíbrio em todos os momentos (cf. alegoria do arco, cap. 77), de modo que, controlando as próprias expectativas e acomodando-se ao desenrolar dos fatos, toda pessoa é capaz de realizar seus objetivos e de ser feliz. Naturalmente que isso não pode ser garantido individualmente ao praticante do Dao – é necessário que a sociedade como um todo seja doutrinada para observá-lo. Dessa maneira, a Inação também possui uma dimensão política: é o método de governo do Sábio. Além de praticar o Dao pessoalmente, o Sábio deve estabelecer-se implícita e silenciosamente como o modelo para seus subordinados. No processo de assimilação do budismo na China, o conceito de Nirvana 涅槃 (niepan) foi primeiramente descrito como idêntico à Inação taoista.”

11 “As tarefas da lavoura devem ser realizadas com empenho, [seus frutos] beneficiando a todos, sem privilegiar particulares”. A edição Anotações reunidas lê: “As tarefas da lavoura devem ser praticadas com abnegação”.

12 Humanidade: 仁 (ren) é a qualidade moral mais importante no pensamento chinês ortodoxo. A tradução Humanidade justifica-se por duas razões: o ideograma 仁 tem a mesma leitura que 人 (ren) ou “homem”; e sua estrutura significa “dois homens” – sublinhando a natureza relacional dessa virtude. Portanto, “Humanidade” é vista como o bem inerente ao homem, emanando de sua vocação social. Isto posto, é difícil associar a Humanidade chinesa a noções mais absolutas de “amor/caridade”, “misericórdia”, “benevolência” e assim por diante, já que o termo tem por contexto uma sociedade hierárquica e ciosa da primazia do parentesco sobre outras relações. A Doutrina do meio demonstra tais dificuldades 《中庸章句》: “‘Humanidade’ [é a virtude peculiar] do ser humano, cujo maior cânone é tratar familiares com o afeto devido” 仁者人也, 親親為大. Não se trata, portanto, de um amor universal e uniformemente distribuído aos seres, cujo conteúdo talvez seja mais bem apreendido como “cuidado” – soin, Sorge ou care – objetivamente devido às pessoas conforme seu estatuto, orientado ao fim de zelar pela harmonia e estabilidade da sociedade. Além do sentido comum de Humanidade, cada uma das escolas de pensamento concedia-lhe uma ênfase e prioridade especiais. No caso do confucionismo, era a Virtude por excelência – em cuja prática os homens deviam esmerar-se. Ao longo da dinastia Han, foi associada à virtude cosmológica 元 (yuan) e à primavera, talvez sob influência da visão taoista de Laozi, a qual postula que a autêntica Humanidade deve ser “espontânea”, isto é, equivalente ao Dao e sua Virtude. Emblemático da ética taoista, o capítulo 18 propõe que a prática intencional da Humanidade corre o risco de viciar-se, gerando o que Laozi chama de “fraudes” e “falsidade”.

13 Dever: é a tradução adotada para 義 (yi), umas das quatro (ou cinco) virtudes fundamentais do pensamento chinês. A definição mais sintética do termo é: “[‘senso de] dever’ [implica corresponder ao] exigido [em cada situação]” 義, 宜也. Embora traduções usuais incluam, por exemplo, “justiça”, a palavra “dever” é melhor por duas razões. Em primeiro lugar, o termo enfatiza o conteúdo relacional da virtude ao sublinhar o jogo de expectativas sociais que a determina, isto é, o vínculo entre um subordinado e o seu superior. Em segundo, o termo assinala a natureza eminentemente moral e explícita dessa virtude. Nesse ponto, parece mais apropriado do que justiça, dado que essa transmite a ideia de algo mais institucional e explícito.

“Se abolida a Humanidade e descartado o dever”. GD diz: “Se abolida a falsidade e descartadas as maquinações (ou trapaças)” 絕偽棄慮(詐.

14 Piedade Filial/Carinho Paterno: respectivamente 孝 (xiao) e 慈 (ci), são duas espécies de dever (cf. nota 4, supra). A ênfase quase religiosa dada ao dever dos filhos de servir aos pais – e dos pais de cuidar dos filhos – chama a atenção no cotidiano chinês (e na Ásia do Leste como um todo). Não se trata, contudo, de um afeto puramente privado, ou seja, restrito à vida das famílias tomadas individualmente; também as relações políticas de respeito e submissão ao governante modelavam-se no dever de piedade filial. Na China antiga, havia a doutrina de que o imperador era “pai e mãe do povo” (民之父母, minzhi fumu) e que a burocracia agia em seu nome. Embora abusos não sejam raros, também não se pode alegar que a ideologia não tinha contrapartidas: o soberano teria a responsabilidade de satisfazer as necessidades do povo – donde o forte teor paternalista das relações entre governantes e governados no país até hoje.”

15 Transformação (Política): cf. cap. 3, nota 6.

16 Preservar a Genuinidade (Condição Original E Genuína): é uma tradução aproximada do sentido mais prosaico dos dois caracteres 本真 (benzhen). Contudo, trata-se de um termo prenhe de conotações religiosas. 本真 é composto por duas palavras. 本 é “origem”. No taoismo, o tempo (e, indiretamente, a vida) está dividido em duas dimensões: (1) “antes do Céu” (先天, xiantian), o momento em que Céu e Terra ainda não haviam sido divididos e as energias vitais primordiais ainda se encontravam unidas num todo caótico; e (2) “depois do Céu” (後天, houtian), quando as energias Yin e Yang, divididas, obraram a criação de vida material, com o fluxo dos Cinco Agentes (cf. cap. 28, nota 12). Portanto, 本 alude a um estado “natural”, sem distinções de “eu” e “outro” etc. A seu turno, 真 quer dizer “aquilo que é real”. Como já se mencionou, o praticante taoista busca produzir um estado de Unidade com o Dao. Aqueles que atingem esse objetivo são chamados de “真人”, ou “homem genuíno”. Eles são os protagonistas do folclore taoista, os imortais dotados de poderes sobrenaturais que vez por outra aparecem no mundo das pessoas comuns, seja para mudar o curso da história, seja apenas para deixá-las perplexas (cf. cap. 54, nota 6). Segundo o taoismo, são as pessoas que realizaram todo o potencial humano e que conseguiram retornar ao Dao.

17 Refinamento Artístico e Dons Literários: é a tradução de 文飾 (wenshi) mais adequada a esse contexto. O primitivismo ético e religioso de Laozi acentua uma das polaridades da cultura chinesa, de que decorre a crítica ao outro pendor, o culto às letras e artes. Em termos filosóficos, ao discutir dois estilos de vida, Laozi revela a tensão intrínseca entre Naturalidade e Refinamento (cf. cap. 3, nota 2). Em outros contextos, 文飾 também pode ser traduzido como “insígnias e adereços de distinção social” (cf. cap. 64).

18 “[A metáfora] ‘abraçar a [simplicidade] da tábua virgem’ convoca [os praticantes do Dao] a abraçar a naturalidade da madeira não trabalhada para exibi-la a quem está abaixo [de si]”. A edição impressa Song lê: “Convoca [os praticantes do Dao] a exibir sua honestidade e naturalidade da madeira virgem, para exibi-la a quem está abaixo [de si]” 當見其篤樸以示下. O texto Gu lê “Convoca [os praticantes do Dao] a exibir sua honestidade e naturalidade da madeira virgem, para exibi-la a Tudo sob o Céu” 當抱其質樸以示天下.

 

 

“Imagem primordial

 

Há uma coisa1 indiferenciada, porém completa; [ela já existia] antes [mesmo de haver] Céu e Terra.

Comentários

[Este verso] explica que o Dao não tem forma; é [a partir] do Hundun2 que se produzem as dez mil coisas: logo, [o Dao é] anterior ao Céu e à Terra.

 

Oh, [sempre em] quietude! Oh, [nunca] assume forma [definida]! Não depende de nada; não muda jamais.

Comentários

[Laozi discorre sobre quatro atributos do Dao:] com “Quieto”, descreve o que não tem nem som, nem voz. “Informe” é o que é vazio, sem forma. “Independente” porque não possui um par que combine consigo.3 “Imutável” é o que há de permanente4 no processo de transformação.5

 

Ubíqua é sua influência, mas nunca corre perigo;6

Comentários

A influência do Dao permeia Céu e Terra, não há lugar em que não se faça presente. Sob o sol, não queima; à sombra, não apodrece.7 A tudo permeia, impregna a tudo; consequentemente, nunca periclita, nunca sofre dano.

 

Daí seu condão de se tornar mãe de Tudo sob o Céu.8

Comentários

O Dao concebe e alimenta a energia pura9 [que gera e sustenta] as dez mil coisas; é como a mãe que amamenta o filho.

 

Eu não conheço o seu nome. Dao é [apenas] um apelido que lhe dei.

Comentários

Nós não conseguimos ver nem a forma, nem o aspecto do Dao; não sabemos como denominá-lo. [Contudo,] ao percebermos que todas as dez mil coisas recebem sua vida do Dao, usamos [tal termo] como apelido, o Caminho [a que tudo segue].

 

Se forçado a dizer seu nome, chamá-la-ei de “Grande”;10

Comentários

Não sabemos como se chama. Dizemos “Grande” [meramente enquanto] denominação forçosa. [Tal] “grande” [define algo] tão alto que não tem cimo; cobre [as coisas de uma forma tal] que nada fica de fora, não havendo nada que não esteja dentro de si. Eis a razão por que [Laozi] diz “grande”.

 

[Ao explicar] “Grande”, direi que é “o que está de passagem”;

Comentários

A grandeza [do Dao a que Laozi se refere] é diferente da do Céu, que está sempre acima; também difere da grandeza da Terra, que está sempre abaixo. [O Dao] continuamente deixa o lugar em que está, não possui um paradeiro permanente.

 

“O que está de passagem”, diz-se, “chega ao longe”;

Comentários

O “chegar ao longe” [de Laozi significa] alcançar o fim daquilo que não tem fim. [O Dao] propaga a energia vital,11 não há nada que não permeie.

 

[E] “o que chega ao longe”, diz-se, “[há de] retornar”;12

Comentários

[Este verso] diz que não se pode ir além da distância [que o Dao atinge],13 de modo que [a menção a] “há de retornar” [indica] o corpo humano.

 

Sabendo disso, [vê-se que] o Dao é Grande, o Céu é Grande, a Terra é Grande; o Rei14 também é Grande.15

Comentários

A grandeza do Dao abarca Céu e Terra, não há nada que não possa ser contido por ele. A grandeza do Céu é tamanha que não existe nada que não cubra. A grandeza da Terra é tal, que não há nada que não suporte. A grandeza do Rei é tanta, que não há nada que não controle.

 

No espaço16 [onde vivemos] há quatro Grandezas,17 e o Rei é uma delas.

Comentários

Dentro dos Oito Extremos18 existem Quatro Grandezas. O Rei ocupa uma delas.

 

O Homem modela-se19 pela Terra;

Comentários

O homem deve tomar como modelo a terra, [imitar] sua placidez e tranquilidade, sua ternura e afabilidade. Se nela plantarmos, colheremos os cinco grãos; se a escavarmos, encontraremos fontes de água doce. [A Terra] moureja sem queixas, tem méritos, mas não talha [a tábua virgem].20

 

A Terra modela-se pelo Céu;

Comentários

Imóvel, o Céu transmite a [mesma] serenidade de águas em repouso; quando dispõe [algo no mundo, contudo], não espera recompensa. Dá vida e faz crescer as dez mil coisas, não há nada que espere receber delas.

 

O Céu modela-se pelo Dao;

Comentários

Silente, o Dao é puro e límpido. Yin e Yang fazem com que a energia pura revolva21 e, neste processo, as dez mil coisas dão forma a si mesmas.22

 

O Dao modela-se pela Espontaneidade.

Comentários

A natureza24 do Dao é espontânea,25 não havendo nada em que se modele!”

 

1 O termo 物 (wu), coisa, é substituído nos manuscritos de Guodian pelo ideograma composto pelas partes 爿 e 首, sobre cuja leitura ainda pairam dúvidas. Embora a posição majoritária recomende 狀 (zhuang), “aspecto”, não se pode excluir a possibilidade de que seja lido como 道 (Dao). Cf. Li Ling (2007), p.7.

2 Hundun: transcrição fonética do termo 混沌 que, no taoismo, está associado a um mito cosmogônico. Embora o Comentário de Zuo ao Clássico da Primavera e Outono seja a mais antiga autoridade, a breve lenda contida no sétimo capítulo de Zhuangzi é mais relevante para o taoismo《莊子·應帝王篇第七》: “O imperador dos mares do sul chamava-se de Shu, o desleixado; o dos mares do norte, Hu, o desatento; no centro havia o imperador Hundun, o confuso. Shu e Hu à época encontravam-se nos domínios de Hundun – que os tratava com grande generosidade. Shu e Hu discutiam como recompensar as benesses de Hundun: ‘todos os homens têm sete orifícios para ver, ouvir, comer e respirar, somente Hundun não os possui – que tal tentarmos furá-los nele?’ A partir de então, a cada dia perfuravam um novo orifício no imperador do centro; sete dias depois, Hundun morreu” 南海之帝為儵, 北海之帝為忽, 中央之帝為渾沌。儵與忽時相與遇於渾沌之地, 渾沌待之甚善。儵與忽謀報渾沌之德, 曰: “人皆有七竅以視聽食息, 此獨無有, 嘗試鑿之”。日鑿一竅, 七日而渾沌死. Posto à parte o que há de insólito na narrativa, é importante considerar a simbologia da passagem. Hundun simboliza uma etapa no desenvolvimento cosmológico em que não há distinção, em que todas as coisas estão confusas num todo indiviso. Os dois outros imperadores representam Yin e Yang, a procissão de opostos que dá origem à realidade tal como a percebemos. Perfurar sete orifícios significa o momento em que o todo indiviso torna-se capaz de estabelecer conceitos organolépticos, ou de se dar conta de sua própria existência. Com a consciência da interação dos opostos, Hundun divide-se, perdendo sua existência para dar vida ao que se chama de “realidade dividida”.

3 Em outras palavras, já que não assume uma forma fixa, o Dao pode ser assemelhado à Unidade (cf. cap. 1, nota 27 e cap. 42). Diferentemente do Dao, tudo que possui forma definida é capaz de ser confrontado com um oposto (cf. cap. 2: “longo e curto”, “alto e baixo” etc.). Segundo o pensamento taoista, os opostos nascem da Unidade, Yin-Yang são concebidos pelo Dao.

4 Permanência: cf. cap. A Fonte do Nada, nota 5.

5 “‘Imutável’ é o que há de permanente no processo de transformação”. O texto Anotações reunidas lê: “Imutável é a permanência do Homem Nobre” 不改者君子常. Transformação (Cosmológica): cf. cap. 1, nota 16.

6 “Ubíqua é sua influência, mas nunca corre perigo” não aparece nem em MWD, nem em GD.

7 Yin-Yang: cf. cap. 1, nota 20. “Sob o sol” e “à sombra” no original são, respectivamente, os sentidos etimológicos de Yang e Yin. “Sob o sol, não queima; à sombra, não apodrece”. Na edição Anotações reunidas há: “sob o sol não queima, marcando-se a sombra não há dano” (sic) 在陽不焦, 記陰不竊。

8 “Daí seu condão, de se tornar mãe de Tudo sob o Céu”. MWD lê: “mãe do Céu e da Terra”.

9 Energia Pura / Espírito Puro: 精神 (jingshen) refere-se aos espíritos puros e sutis que habitam nos cinco receptáculos. O termo corresponde à fusão de duas palavras: “energia pura” (精氣, jingqi) e “espírito original” (元神, yuanshen). “Espírito puro” designa a quintessência da energia vital, existindo informe na natureza. A criança, ao ser concebida, recebe duas essências puras dos pais, como mediadores do Céu e da Terra. Segundo o Cânone de medicina do imperador amarelo (素问·上古天真论), essa energia estoca-se nos rins e nos demais “recipientes”, respondendo pelo crescimento, maturação, decadência e morte do indivíduo em ciclos cujas etapas duram sete anos para as mulheres e oito para os homens.

10 Grande: Os versos posteriores demonstrarão que, na cultura chinesa, “Grande” conota muito mais do que simples dimensões físicas ou temporais. Laozi reforça a importância cosmogônica da “Grandeza”, dizendo que “o Dao é Grande, o Céu é Grande, a Terra é Grande; o Rei também é Grande”. O dicionário de sinônimos Er’ya, um dos treze clássicos confucianos, dedica seu terceiro verbete a essa ideia《爾雅·釋詁第一》, listando nada menos que quarenta sinônimos para “Grande”, dentre os quais têm relevo os termos descrevendo a grandeza do Rei e seus feitos.

11 Energia Vital: cf. nota 9 acima..

12 Retorno: cf. nota 9, cap. Retorno à natureza.

13 “[Este verso] diz que não se pode ir além da distância [que o Dao atinge]”. O manuscrito Qiang lê: “[Este verso] diz que a distância [do Dao] é impossível de se ultrapassar, uma distância que ninguém pode cruzar” 其遠不超然絕遠.

14 FY traz “homem” no lugar de “rei”, possivelmente baseado no verso “o homem modela-se pela Terra”. Atualmente, muitos comentaristas substituem “rei” por “homem” para acentuar uma leitura possível da obra – de que o gênero humano distingue-se como o que há de mais inteligente (靈, ling) dentre as dez mil coisas, o que lhe garante uma posição própria após Céu e Terra como uma das Três Potências (三才). Não obstante, é inegável que os 81 capítulos de Laozi fundam um projeto político: tanto o elemento cosmológico, como o projeto de transformação moral-espiritual do indivíduo estão vinculados à personalidade ideal do Sábio taoista. Esse Sábio não existe fora de um arranjo sociopolítico que, por sua vez, tem um rei em seu topo. Por exemplo, o comentário de Wang Bi reconhece o lugar especial do homem na natureza, mas dá um passo além, dizendo que o rei é o primeiro entre homens.

15 “Sabendo disso, [vê-se que] o Dao é Grande, o Céu é Grande, a Terra é Grande; o Rei também é Grande”. De uma cosmologia fundada no Dao, absoluto e indeterminado, atravessam-se os fenômenos naturais, celestes e telúricos, para se chegar a uma justificativa do poder total que o rei possui sobre seus domínios. Mais do que uma justificativa, Laozi constrói um sistema de “correspondências por afinidade” entre o domínio do inefável, a natureza visível e a sociedade que aparece aqui e abaixo como um corolário desse todo.

16 “No espaço [onde vivemos] há quatro grandezas”. MWD traz: “Nas terras [onde vivemos] há quatro grandezas” 國中有四大.

17 A edição impressa Song intercala o comentário de Wang Bi a esta passagem: “as Quatro Grandezas são o Dao, o Céu, a Terra e o Rei. Todos esses possuem uma denominação, um nome próprio, por isso não atingiram a Polaridade, o limite. Se dizemos Dao, há um ensejo para tanto; tendo um ensejo para tanto é que podemos dizer algo dele, chamá-lo de Dao. No entanto, apesar de o ‘Dao’ ser a maior das denominações, não é tão Grande como o que não tem nome. O que não tem denominação é algo a que não podemos dar um nome, por isso que Laozi diz ‘o espaço [onde vivemos]’. Dao, Céu, Terra e Rei, todos estão dentro desse algo inefável; por isso Laozi diz ‘dentro desse espaço há Quatro Grandezas’”

18 Oito Extremos: Zhuangzi e Huainanzi também citam o termo “oito extremos”, que significa os oito pontos cardeais e seus intermediários.

19 Modelo/Moldar: é a tradução da palavra “法” (fa), próxima de seu sentido etimológico, “forma” (ô). Dele deriva o sentido de regra, ou lei – muito mais importante na perspectiva da história das ideias. Apesar de se situar num período além do que mais interessa a esta tradução, o mesmo termo foi adotado também para descrever o Dharma budista. 法 não é empregado no sentido de “lei” em Laozi, mas o termo aparece com alguma frequência nas glosas do Senhor do Rio. Trata-se de um fato muito curioso que atesta a antiguidade da obra Laozi, uma vez “法” tenha se tornado o conceito central do pensamento e da política chinesa no século imediatamente anterior à unificação do país em 221 a.C. A principal voga intelectual daquela época é chamada de “escola dos “legalistas” (法家, fajia), que vaticinava o respeito estrito à vontade do monarca, manifestada em um conjunto de mandamentos escritos, válidos erga omnes (as 法, fa) e em um conjunto de receitas de governo, regras práticas sobre administração e protocolo, finanças, guerra, entre outros (chamadas de 術, shu). O objetivo dessa ideologia era concentrar o poder e unificar a fonte de legitimidade na figura do imperador, o que parecia uma solução razoável para o eterno vício de origem do sistema político chinês: a partilha do poder entre clãs, que ultimamente degringolava em guerra por influência e controle. Independentemente de Laozi utilizar o termo na acepção específica, pode-se argumentar que dispersos na obra – e particularmente neste capítulo – já há argumentos sólidos para revestir o Rei de uma autoridade universal e absoluta. Diferentemente das tradições políticas de Zhou, o Rei do Dao possui uma ideologia abstrata, sem condicionantes de tempo ou espaço, que o coloca como o autor por excelência da sociedade que rege. Embora os Legalistas viessem a especificar e aprofundar questões específicas de governo, em Laozi já estão alinhavados os princípios gerais de sua teoria. Não é de gerar surpresa que o primeiro grande cronista da China, Sima Qian, haja reunido as biografias de Laozi com as dos primeiros grandes pensadores Legalistas, nem que as obras dos Legalistas tenham sido recolhidas no Cânone taoista.

20 “Não talha [a tábua virgem]”, cf. Grande Artesão: cap. 28, nota 14. Esta glosa tem afinidades com um trecho da primeira parte dos “Comentários Anexos” ao Clássico das mutações 《周易·繫辭傳》: “[A terceira linha do hexagrama ‘Qian’ lê:] ‘Diligente e Respeitoso, o Homem Nobre o é do início ao fim; bons auspícios [para aquele que sorteia esta linha]’. O Mestre disse: ‘moureja sem se jactar, não reivindica para si os méritos que tem; eis o clímax da austeridade. Ao se expressar, usa seus méritos para se colocar abaixo dos outros.’ Virtude quer dizer prática da Magnanimidade; a adequação aos Ritos quer dizer adotar maneiras polidas. O hexagrama Qian, [símbolo da modéstia, presume que] se aja [sempre] de modo cortês para que se possa preservar sua posição na sociedade”. “勞謙, 君子有終, 吉”。子曰: “勞而不伐, 有功而不德, 厚之至也。語以其功下人者也。” 德言盛, 禮言恭。謙也者, 致恭以存其位者也. Se de fato for uma paráfrase intentada pelo Senhor do Rio, a referência ao hexagrama Qian (謙, “Modéstia”) é muito adequada, já que os dois trigramas que o compõem representam “montanha em baixo e terra em cima”. Existe aí um significado alegórico: uma montanha que se esconde sob a terra. Uma leitura atenta da glosa de Heshang Gong revela, ainda, que esse traço de modéstia jaz sob todas as características apontadas para a Terra. Atente-se para que o comportamento da Terra deve-se a sua inferioridade e passividade em relação ao Céu.

21 “Yin e Yang fazem com que a energia pura revolva”. A edição Wang Ka diz: “Yin faz mover as energias puras” 陰行精氣.

22 “As dez mil coisas dão forma a si mesmas”. A edição Gu diz: “As dez mil coisas não se transformam, dão-se forma” 萬物不化自成也. O Cânone taoista diz: “as dez mil coisas ganham vida e crescem espontaneamente” 萬物自然生長也.

23 Espontaneidade: o conceito taoista 自然 (ziran) pode ser explorado a partir de duas perspectivas. Estaticamente, significa “uma coisa tal como ela é”; e, dinamicamente, quer dizer “segue sua própria forma de ser”. O termo português “espontaneidade” transmite ambos os sentidos com sofisticação – sugerindo uma determinada leveza de espírito, a liberdade de amarras e a simplicidade de atuação tão almejadas pelos praticantes do Dao. Na língua chinesa moderna, 自然 significa Natureza (φὐσις, natura) – por vezes expressa como 大自然, a “grande espontaneidade”, para singularizá-la como o modelo para os seres. Alguns leitores de Laozi tendem a dar um peso desproporcional à Natureza, enxergando na Espontaneidade não um mero predicado do Dao, mas sua própria essência. Isso não parece ser correto, contudo, porque o melhor equivalente de “Natureza” em chinês arcaico é “Céu e Terra” – dois conceitos cosmologicamente posteriores ao Dao. O próprio Laozi diz “[já existia], antes [mesmo de haver] Céu e Terra” (cap. 25). Nesse sentido, por mais perfeita que pareça, a Natureza deve ser vista como uma manifestação do Dao. Em termos históricos, os chineses assemelharam a Espontaneidade taoista 自然 com o “Tal Qual” 如如 (ruru) budista, ignorando as profundas diferenças epistemológicas entre a cultura indiana e sua própria. Nesses termos, ambos indicam a essência íntima e autêntica das coisas.

24 Natureza: (性, xing) descreve o patrimônio de energia vital que se recebe do pai e da mãe ao nascer. O 11o Capítulo de Mêncio traz a definição clássica do termo: “Natureza é aquilo que se é ao nascer” 生之謂性. Mais adiante, a mesma passagem coloca um importante problema: “a Natureza de um cão é como a de um boi? A Natureza de um boi é como a de um homem?” 然則犬之性, 猶牛之性; 牛之性, 猶人之性與?, ou seja, até que ponto a vida orgânica, tida em comum pelos seres, prevalece sobre suas diferenças específicas? O fato de todos serem produtos da energia vital elimina as especificidades em geral, e a superioridade humana em particular? Malgrado a questão ficar sem uma resposta explícita no trecho, pode-se dizer que Mêncio tem entre seus temas principais a investigação da moralidade humana enquanto corolário dessa origem comum dos seres. Isso reflete o grande projeto intelectual chinês de produzir uma justificação moral do universo. Atesta-o a definição bipartida de Natureza, encontrada no dicionário SWJZ: “Natureza é as energias Yang do homem; a Natureza é boa” 性, 人之陽氣; 性善者也. No período compreendido entre a composição de Laozi e o comentário do Senhor do Rio, enfatiza-se mais a primeira metade da definição de SWJZ, isto é, a relação entre Natureza e as teorias do Yin-Yang (cf. cap. 1, nota 20) e dos Cinco Elementos (cf. cap. 28, nota 12). Consideradas as convicções morais e religiosas dos chineses antigos, a energia vital de cada ser provinha do Céu e da Terra, através do pai e da mãe. Trata-se das essências (cf. cap. 3, nota 16), recebidas não pelo que se descreveria no Ocidente como um ato de criação, mas por um estado de Espontaneidade (cf. cap. 1, nota 7). Dessa maneira, através da energia vital, é possível partir do homem e remontar até sua causa primeira. Fica clara, portanto, a dimensão cosmológica da Natureza, como uma contrapartida do Destino ou Mandato do Céu (cf. cap. 16, nota 8). Embora não pertença à tradição taoista, ilustra-o o ensinamento consagrado da Doutrina do Meio 《中庸章句》: “O que se chama de Natureza é o Mandato do Céu; dar expressão à Natureza é o que se chama de dao (n.d.t.: “dao” aqui deve ser compreendido como um modus vivendi); praticar o dao é o que se chama de Doutrinação” 天命之謂性, 率性之謂道, 修道之謂教. É digno de nota que a palavra 性 não aparece uma vez sequer em Laozi. O Senhor do Rio, ao contrário, dá grande relevo ao conceito. Isso não deve ser interpretado como uma intervenção criativa do glosador. A exemplo dos Cinco Elementos, não é necessário que o termo reincida frequentemente para que ele seja importante em Laozi. Uma das razões está em que o vocabulário utilizado por Laozi é deveras limitado; muitas vezes devem se encaixar conceitos mais específicos dentro das grandes teses do livro, estabelecer associações com as metáforas e ler nas entrelinhas. Nesse sentido, Natureza está embutida no tratamento da Virtude e nos momentos em que Laozi usa a alegoria da água, como neste capítulo e no 78o.

25 “A natureza do Dao é espontânea”. A edição Anotações reunidas diz: “o Dao nasce e cresce espontaneamente” 道生長自然.

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