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sábado, 23 de abril de 2022

A peste escarlate, de Jack London

Editora: Literatura Clássica

ISBN: 978-65-87036-26-7

Tradução: Tiago Gadotti

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 128

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Sinopse: Em A Peste Escarlate (1912), Jack London aproxima-se da ficção científica. A história decorre no século XXI e tem como protagonistas um velho professor universitário e três netos, todos eles reduzidos ao estado selvagem. São dos poucos sobreviventes de uma peste que dizimou a humanidade e aniquilou a civilização no ano 2013. Vítima das partidas dos netos, o avô conta aos três rapazes as aventuras que viveu para escapar à peste, através do mundo despovoado, de desertos e de cidades mortas, procurando aos mesmo tempo incutir-lhes os valores do conhecimentos e da sabedoria.



“– “Os sistemas fugidios evaporam como espuma” – murmurou o que era evidentemente uma citação. – Isso é tudo: espuma e fugacidade. Toda a labuta do homem sobre o planeta não passou de espuma: domesticou os animais úteis, destruiu os animais hostis e limpou a terra de sua vegetação selvagem. E então desapareceu, e o dilúvio da vida primordial caiu novamente sobre a terra, varrendo seu trabalho manual: as ervas daninhas e a floresta inundaram seus campos, as feras varreram seus rebanhos, e agora há lobos na praia de CliffHouse – ficou horrorizado com esse pensamento. – Aqui, onde quatro milhões de pessoas se divertiam, os lobos selvagens vagueiam hoje, e a progênie selvagem de nossos lombos, com armas pré-históricas, se defende contra os despojadores ferozes. Pense nisso! E tudo por causa da Morte Escarlate...”

 

 

“Hoo-Hoo, deitado de bruços, e cavoucando a areia com o pé, gritou, e examinou, primeiro, a unha do pé e, depois, o pequeno buraco que havia cavado. Os outros dois garotos se juntaram a ele, escavando a areia rapidamente com as mãos até que três esqueletos ficassem expostos. Dois eram de adultos, sendo o terceiro o de uma criança parcialmente crescida. O velho homem caminhou pelo chão e espreitou o achado.

– Vítimas da peste – anunciou. – Foi assim que morreram em todos os lugares nos últimos dias. Deve ter sido uma família fugindo do contágio, perecendo aqui na praia de Cliff House. Eles... o que está fazendo, Edwin?

Essa pergunta foi feita com repentina consternação, pois Edwin, usando a traseira de sua faca de caça, começou a arrancar os dentes das mandíbulas de um dos crânios.

– Vou fazer um colar – foi a resposta.

Os três garotos ficara In obcecados por isso; em meio a batidas e marteladas, os balbucios de Granser passaram despercebidos.

– Vocês são verdadeiros selvagens. Começaram com o costume de usar dentes humanos. Na próxima geração, estarão perfurando as narinas e orelhas, e usando ornamentos de osso e concha. Eu sei. A raça humana está condenada a afundar-se cada vez mais na noite primitiva, antes de recomeçar sua sangrenta escalada para cima, para a civilização. Quando sentirmos a falta de espaço, começaremos a matar uns aos outros. E então, suponho, pendurarão cabelo humano em sua cintura, assim como você, Edwin, que é o mais gentil de meus netos, já fez com esse rabo de porco. Jogue-o fora, Edwin, rapaz, jogue-o fora.”

 

 

“Aqui o velho partiu numa digressão sobre germes e suas naturezas, usando palavras e frases tão longas e sem sentido, que os rapazes sorriam uns para os outros e olhavam para o oceano deserto, até esquecerem que o velho estava balbuciando.

– Mas e a Morte Escarlate, Granser? – Edwin finalmente sugeriu.

Granser voltou a si, e, de sobressalto, saiu da tribuna da sala de aula, onde, para o público de outro mundo, expunha, sessenta anos atrás, a mais recente teoria sobre germes e doenças relacionadas.

– Sim, sim, Edwin; tinha esquecido. Às vezes a memória do passado é muito forte, e me esqueço de que sou um velho sujo, vestido de pele de cabra, vagando com meus netos selvagens, criadores de cabras no deserto primitivo. “Os sistemas fugazes evaporam como espuma”, e assim evaporou nossa gloriosa e colossal civilização. Eu sou Granser, um velho cansado.”

 

 

““Eu estava sozinho em minha grande casa. Como já lhes disse muitas vezes, naqueles dias podíamos conversar um com o outro por fio ou pelo ar. O telefone tocou, e comecei a falar com meu irmão. Disse que não vinha para casa por medo de pegar a peste de mim, e que havia levado nossas duas irmãs para ficar na casa do professor Bacon. Aconselhou-me a permanecer onde estava, e a esperar para descobrir se tinha, ou não, sido contaminado pela peste.

Concordei e fiquei em casa, tentando cozinhar pela primeira vez na vida. E a peste não se manifestou em mim. Pelo telefone, podia falar com quem quisesse e receber as notícias. Além disso, havia os jornais. Assinei todos eles, para saber o que estava acontecendo com o resto do mundo.

Nova York e Chicago estavam em caos. E o mesmo acontecia em todas as grandes cidades. Um terço da polícia de Nova York tinha morrido. O xerife também morreu, assim como o prefeito. Toda a lei e ordem tinham cessado. Os corpos jaziam nas ruas insepultos. Todas as ferrovias e embarcações que transportavam alimentos para a grande cidade haviam parado. Os pobres famintos, aos montes, saqueavam lojas e armazéns. Assassinato, roubo e embriaguez grassavam em toda parte. Os homens fugiam da cidade aos milhões – primeiro os ricos, em seus carros particulares e dirigíveis, e depois a grande massa da população, a pé, carregando a peste com eles, passando fome e pilhando os agricultores e todas as cidades e vilas no caminho.

“O homem que enviava as notícias, o operador da rede sem fio, estava sozinho com seu instrumento no topo de um edifício. As pessoas que permaneceram na cidade – ele as estimou em várias centenas de milhares – enlouqueceram de medo e embriaguez, e incêndios pululavam por toda parte ao redor de seu edifício. Foi um herói aquele homem que se manteve em seu posto – muito provavelmente, um jornalista obscuro.

“Por vinte e quatro horas, disse ele, nenhum dirigível transatlântico havia chegado, e não vinham mais mensagens da Inglaterra. Declarou, porém, que uma mensagem de Berlim, que fica na Alemanha, anunciava que Hoffmeyer, um bacteriologista da Escola Metchnikoff, tinha descoberto o soro para a peste. Essa foi a última notícia, até hoje, que nos americanos recebemos da Europa. Se Hoffmeyer descobriu mesmo o soro, já era tarde demais, pois os exploradores europeus já teriam vindo à nossa procura. Podemos apenas concluir que o que aconteceu na América aconteceu na Europa, e que, na melhor das hipóteses, alguns devem ter sobrevivido à Morte Escarlate em todo aquele continente.

“Por mais um dia, os telegramas continuaram a chegar de Nova York. Por fim, também cessaram. O homem que os enviava, empoleirado em seu alto edifício, ou havia morrido da peste ou havia sido consumido pelas grandes conflagrações que descrevera. E o que acontecera a Nova York replicou-se em todas as outras cidades. Foi o mesmo em São Francisco, Oakland, e Berkeley. Na quinta-feira, as pessoas estavam morrendo tão rapidamente, que seus corpos não podiam ser manuseados, e os cadáveres estavam por toda a parte. Na quinta-feira à noite espalhou-se o pânico pelo país. Imaginem, meus netos, pessoas, mais gente do que o cardume de salmões que vocês veem no rio Sacramento, fugindo das cidades aos milhões, lançando-se loucamente ao interior, na tentativa vã de escapar à morte onipresente. Vejam, carregavam os germes consigo. Até mesmo as aeronaves dos ricos, fugindo para as montanhas e para o deserto, carregavam os germes.

“Centenas dessas aeronaves escaparam para o Havaí, e não só levaram a peste consigo, mas descobriram que a peste já estava lá antes. Soubemos disso pelos telegramas, até o dia em que a ordem em São Francisco ruiu completamente, e não havia operadores nos postos para receber ou enviar mensagens. Foi surpreendente, espantosa essa perda de comunicação com o mundo. Era exatamente como se o mundo tivesse parado, sido apagado. Por sessenta anos, esse mundo não existe mais para mim. Sei que devem existir lugares como Nova York, Europa, Ásia e África; mas não ouvimos nenhuma palavra sobre eles por sessenta anos. Com a chegada da Morte Escarlate, o mundo desmoronou, absolutamente, irremediavelmente. Dez mil anos de cultura e civilização passaram em um piscar de olhos, ‘evaporaram como espuma’.”

 

 

“Afastei-me apressado, desci uma rua transversal, e na primeira esquina vi outra tragédia. Dois operários apanharam um homem e uma mulher com dois filhos, e os estavam roubando. Conhecia o homem de vista, embora nunca tivéssemos sido apresentados. Era um poeta cujos versos há muito tempo admirava. Mas não o ajudei, pois quando cheguei ao local, ouvi um tiro de pistola e o vi caindo no chão. A mulher gritou, e foi atingida por um golpe de punho de um dos selvagens. Dei um grito ameaçador, e descarregaram as pistolas contra mim, que tive de fugir pela esquina. Aqui fui bloqueado por um incêndio crescente. Os prédios de ambos os lados estavam queimando e a rua estava cheia de fumaça e chamas. De algum lugar daquela escuridão, ouvi a voz de uma mulher clamando por ajuda. Mas não fui até ela. O coração de um homem vira ferro em meio a tais cenas, e os gritos de socorro eram muitíssimos.”

“Voltando à esquina, vi que os dois ladrões tinham desaparecido. O poeta e sua esposa estavam mortos na calçada. Foi uma visão chocante. As duas crianças tinham desaparecido – para onde, não sei. E descobri, agora, por que os fugitivos que encontrava andavam tão furtivamente e com rostos tão pálidos. Dentro de nossa civilização, em nossas favelas e guetos, tínhamos criado uma raça de bárbaros, de selvagens; e agora, no tempo de nossa calamidade, voltaram-se contra nós como animais selvagens e nos destruíram. E também se destruíam uns aos outros. Inflamavam-se com bebida forte e cometiam mil atrocidades, brigando e matando uns aos outros na loucura geral. Vi um grupo de trabalhadores, de bom caráter, que tinham se unido e, deixando as mulheres e crianças no meio, os doentes e idosos carregados em macas, e uma série de cavalos puxando uma carga de provisões, estavam lutando para sair da cidade. Era bonito vê-los descendo a rua em meio à fumaça, embora quase atirassem em mim quando apareci no caminho. Enquanto passavam, um de seus líderes gritou comigo, em pedido de desculpas. Disse que estavam matando ladrões  e saqueadores, e que andavam assim em bando por ser o único meio de escapar dos salteadores.

“Foi aqui que vi pela primeira vez o que veria depois com tanta frequência. Um dos viandantes mostrou-me a marca inconfundível da peste. Imediatamente os circunstantes se afastaram e ele, sem pestanejar, saiu de seu lugar para deixá-los passar. Uma mulher, muito provavelmente sua esposa, tentou segui-lo. Estava conduzindo um menino pela mão. Mas o marido ordenou-lhe severamente que prosseguisse viajem, enquanto outros a seguraram pela mão e a impediram de segui-lo. Isso eu vi, e vi também o homem, com seu rosto escarlate, entrar numa porta do lado oposto da rua. Ouvi o disparo de sua pistola e o vi cair morto no chão.”

 

 

“Reunimos uma grande quantidade de provisões, e um comitê de alimentos se encarregou de distribuir porções diárias para as diversas famílias que se organizavam em pequenos grupos. Vários comitês foram nomeados e desenvolvemos uma organização muito eficiente. Eu fazia parte do comitê de defesa, embora no primeiro dia nenhum inimigo se aproximasse. No entanto, podíamos vê-los à distância, e, pela fumaça dos incêndios, sabíamos que estavam ocupando a outra extremidade do campus. A embriaguez era abundante, e muitas vezes os ouvíamos cantando canções vulgares ou gritando insanamente. Enquanto o mundo ruía sobre eles, e todo o ar se impregnava da fumaça de suas queimadas, essas criaturas vis davam livre curso à sua bestialidade, brigavam, bebiam e morriam. Mas afinal, o que importava? Todos morriam de qualquer maneira, os bons e os maus, os fortes e os fracos, os que amavam a vida e os que a desprezavam. Eles também passaram. Tudo passou.”

 

 

“– Vou fazer com que Granser ensine essa coisa de pólvora – disse Edwin calmamente –, e então botarei todos vocês para correr. Você, Hare-Lip, lutará por mim e buscará minha carne, e você, Hoo-Hoo, enviará o bastão da morte por mim e fará com que todos tenham medo. E se eu pegar Hare-Lip tentando quebrar sua cabeça, Hoo-Hoo, eu o castigarei com a pólvora. Granser não é um tolo como pensam. Vou escutá-lo, e um dia serei o chefe de todo o grupo.

O velho sacudiu a cabeça tristemente, e disse:

– A pólvora virá. Nada pode detê-la: a mesma velha história, de novo e de novo. O homem se multiplicará, e os homens lutarão. A pólvora permitirá aos homens matar milhões, e somente desta forma, por fogo e por sangue, surgirá uma nova civilização, em algum dia remoto. E de que proveito será? Assim como a velha civilização passou, a nova também passará. Pode levar cinquenta mil anos para ser construída, mas vai passar. Todas as coisas passam. Somente permanecem a força cósmica e a matéria, sempre em fluxo, sempre agindo e reagindo e realizando os tipos eternos – o sacerdote, o soldado e o rei.

Da boca das crianças sai a sabedoria de todas as eras.10 Alguns lutarão, outros governarão, e outros rezarão; e todos os demais hão de labutar e sofrer dor enquanto, sobre seus cadáveres, é recriada de novo e de novo, num ciclo sem fim, a beleza surpreendente, a maravilha suprema do estado civilizado. Tanto faz se eu destruir aqueles livros da caverna – quer permaneçam, quer pereçam, todas as suas velhas verdades serão descobertas, e as velhas mentiras serão revividas e transmitidas. De que adianta...”

10. Expressão bíblica: “Da boca das crianças e dos que mamam tu suscitaste força, por causa dos teus adversários, para fazeres calar o inimigo e vingativo.” (Salmo 8, 2) Também nos Evangelhos, Jesus cita esse versículo: “Vendo, então, os principais dos sacerdotes e os escribas as maravilhas que fazia e os meninos clamando no templo: ‘Hosana ao Filho de Davi’, indignaram-se e disseram-lhe: ‘Ouves o que estes dizem?’ E Jesus lhes disse: ‘Sim; nunca lestes: Pela boca dos meninos e das criancinhas de peito tiraste o perfeito louvor?’” (Mateus 21, 15-16.) – NE.

Quem ajudou a Hitler (Parte IV), de I. Maiski

Editora: Civilização Brasileira

Tradução: Cristiano M. Oiticica

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 212

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SinopseVer Parte I


 

“Em resumo, a URSS obteve as seguintes vantagens do acordo com a Alemanha:

Primeiro, frustrou-se a possibilidade de formar uma frente única capitalista contra o povo soviético: mais ainda, foram firmadas as premissas para a criação ulterior da coligação antihitlerista na qual as potências ocidentais nem sequer pensavam então. Só pensavam Chamberlain e Daladier, àquele tempo, em empurrar, a todo custo, a Alemanha hitlerista à guerra contra a União Soviética.

O pacto de não-agressão tornou impossível o desencadeamento da Segunda Guerra Mundial com agressão à União Soviética.

A assinatura do pacto significou falência completa dessa vergonhosa estratégia de Munique.

O fato desempenhou sem dúvida alguma, importante papel nos destinos da URSS e de toda a humanidade.

Segundo, graças ao tratado com a Alemanha, desapareceu a ameaça de agressão à URSS por parte do Japão, aliado da Alemanha no bloco antissoviético. Se não tivesse existido o pacto de não-agressão sovieto-alemão, a União Soviética poderia ter-se encontrado em situação difícil: ter de fazer a guerra em duas frentes, dado que, naquele momento, a agressão da Alemanha à URSS, vinda do Oeste, implicaria a agressão do Japão a Este. Precisamente em agosto de 1939, os combates junto ao rio Halhin-Gol atingiram o maior encarniçamento. O governo de Hiranuma se negava, teimosamente, a resolver o conflito por via pacífica e concentrava tropas na fronteira soviética, esperando que a Alemanha se lançasse à luta. Entretanto, após assinado o pacto germano-soviético de não-agressão (23 de agosto), caiu o governo de Hiranuma (28 de agosto), e o governo de Abe, que lhe sucedeu, apressou-se a aceitar a solução pacífica do conflito militar. Portanto, a assinatura do tratado com a Alemanha teve como consequência imediata a extinção da fogueira bélica acesa nas fronteiras orientais da URSS.

O governo soviético teve de considerar, como era natural, que o acordo com a Alemanha podia ser utilizado (e o foi, realmente) para atiçar as paixões antissoviéticas nos “países democráticos”: que, no estrangeiro, havia pessoas, inclusive não inimigas da URSS, que não compreendiam (como ocorreu, na realidade) a justeza de seus atos. E, entretanto, após sopesar os prós e os contras, o governo soviético chegou à conclusão de que os primeiros predominavam, indubitavelmente, sobre os segundos. Daí por que assinou o acordo com a Alemanha. Era a única saída, saída que nos foi imposta pela política estupidamente criminosa de Chamberlain e Daladier.

Há mais outra acusação que gostam de lançar contra a URSS os seus inimigos do estrangeiro: “Ao assinar o acordo com a Alemanha — dizem — os senhores desencadearam a Segunda Guerra Mundial”. Desprezíveis e cegos caluniadores! Como se vê do exposto, a responsabilidade autêntica do desencadeamento da Segunda Guerra Mundial recai, por um lado, sobre Hitler e, por outro, sobre Chamberlain e Daladier (sirvo-me desses nomes com sentido simbólico). Sim, sim, a grave responsabilidade de todas as calamidades que acarretou a Segunda Guerra Mundial recai sobre os grupos políticos que se achavam no poder, na Inglaterra e na França, na segunda metade da década de 30; recai sobre os grupos que, cegos pelo ódio de classe, aplicaram a política de “apaziguamento” dos agressores e confiaram no desencadeamento de uma guerra de extermínio recíproco entre a Alemanha e a URSS. Foram, justamente, esses grupos que colocaram a URSS à beira do cepo em que, entretanto, eles mesmos caíram, pois a agressão hitlerista, na Segunda Guerra Mundial, não descarregou o seu primeiro golpe sobre Moscou, mas sobre Londres e Paris. Assim aconteceu porque a diplomacia soviética veio a ser mais inteligente que a anglo-francesa. Mas não temos por que escusar-nos disso.”

91 Izvestia, 24 de agosto de 1939.

 

 

“De tudo que dissemos nas páginas precedentes dimanam numerosas conclusões. As mais importantes são:

1. Nos anos de pré-guerra a que se referem essas recordações (1932-1939), a União Soviética procurou, sincera e insistentemente, estabelecer as melhores relações com a Inglaterra. Assim o ditavam, de um lado, a sua política geral de paz e coexistência pacífica com os Estados de sistemas diferentes do existente na URSS; de outro, o cálculo político concreto do governo soviético de erguer, conjuntamente com a Inglaterra e a França, barreira segura ante as potências fascistas agressoras: Alemanha e Itália, na Europa.

2. Entretanto, os bons propósitos da União Soviética não encontraram, lamentavelmente, eco de simpatia na Inglaterra. É claro que, no país, existiam não poucos elementos (operários, grupos consideráveis de intelectuais e os representantes mais perspicazes da burguesia) que simpatizavam com a ideia de levantar barreira tripartida à agressão fascista, que ameaçava também a Inglaterra e as suas posições no mundo. Entretanto, no período descrito, o poder público encontrava-se firmemente nas mãos dos setores mais reacionários da burguesia inglesa, cegos pelo ódio de classe à URSS como país do socialismo. O centro político dirigente desses setores mais reacionários era chamado camarilha de Cliveden, que se reunia no salão de lady Astor e tinha por líder reconhecido Neville Chamberlain. Por causa da sua extremada hostilidade a União Soviética, a camarilha de Cliveden era resolutamente contra a criação de barreira tripartida para defender dos agressores fascistas as posições britânicas, concebendo a ideia “feliz”, segundo ela, de empurrar a Alemanha contra a URSS, com o propósito de impor à Europa, quando ambas as potências se esgotassem em dura guerra, uma paz lucrativa para a Grã-Bretanha. Essa estúpida e criminosa concepção foi-se fortalecendo, paulatinamente, e alcançou o seu apogeu depois de 1937, quando Neville Chamberlain passou a ser o Primeiro-Ministro da Inglaterra e Lord Halifax, Ministro das Relações Exteriores. Da citada concepção, em que se inspirava a camarilha de Cliveden, dimanou a política de “apaziguamento” dos agressores; em primeiro lugar, de Hitler. Na expectativa do êxito dessa política (êxito que não se chegou a lograr), a Inglaterra e a França, com o apoio de certas esferas dos Estados Unidos, sacrificaram, em 1938 e 1939, a Áustria, a Espanha e a Tchecoslováquia.

3. Apesar dessas condições, tão desfavoráveis, a União Soviética prosseguiu nos esforços de estreitar as relações com a Inglaterra e, em 1939, para levantar barreira ante a Alemanha e a Itália, sob a forma de pacto tripartido de assistência mútua, no qual via a melhor garantia contra a agressão fascista. De fato, a iniciadora desse pacto foi, precisamente, a URSS. Sob a pressão de vastos setores da opinião pública britânica e de alguns Estados estrangeiros que temiam, de maneira especial, Hitler e Mussolini, a camarilha de Cliveden, inimiga acérrima de semelhantes planos, viu-se obrigada a manobrar e a aparentar, de quando em quando, estar disposta a criar a barreira tripartida contra os agressores. Essas manobras alcançaram a sua maior amplitude em 1939, depois que Hitler destruiu o acordo de Munique. Essa foi a origem da concessão pela Inglaterra (e França), em março e abril de 1939, de garantias unilaterais à Polônia, Romênia e Grécia para o caso desses países se verem atacados pelos Estados fascistas. Essa foi também a origem de que o governo de Chamberlain (assim como o de Daladier) considerasse necessário participar das negociações tripartidas para a assinatura de um pacto de assistência mútua com a URSS. Mas foram negociações entabuladas contra a sua vontade, à força e com o propósito de enganar as massas. Por isso, reduziram-se, de fato, à mais pura sabotagem, da qual tão abundantes exemplos citamos nas páginas anteriores. O que mais preocupava Chamberlain (e Daladier) não era concluir o quanto antes o pacto tripartido, mas encontrar a maneira de fugir à sua assinatura. Essa linha de conduta do governo britânico (e do francês) teve como consequência inevitável que as conversações tripartidas, definitivamente, fracassassem em agosto de 1939. Ficou inteiramente esclarecido que, por causa da sabotagem de Chamberlain e Daladier (e só por causa dele), era impossível erguer uma barreira tripartida verdadeiramente eficaz contra os agressores fascistas.

4. Tendo falhado todas as tentativas de negociações contra a nossa vontade, a melhor forma de luta contra a agressão das potências fascistas, a União Soviética teve de pensar em outros meios para garantir a sua segurança, embora de forma apenas temporária e precária. Nos primeiros meses que se seguiram a Revolução de outubro, o grande Lenin deu exemplo genial de manobra na palestra internacional. Com o fim de assegurar à Rússia Soviética, recém-nascida, uma “trégua” — que era o de que mais precisava, então — Lenin propôs, a princípio, a todos os países beligerantes a assinatura de uma paz democrática geral, sem anexações, nem tributos, vendo nisso a forma mais desejável de o povo soviético obter uma “trégua”, capaz até de converter-se em longo período de paz. Entretanto, quando ficou claro que o apelo do governo soviético caíra em terreno pedregoso, Lenin decidiu fazer a paz em separado com a coligação alemã. Era, como dizia Lenin, paz “grosseira”, extremamente desvantajosa para a Rússia Soviética; mas, em todo caso, proporcionava a esta uma “trégua” temporária e, como demonstraram os acontecimentos ulteriores, se justificava plenamente, do ponto de vista histórico. Recordando esse magnífico exemplo político, o governo soviético resolveu segui-lo em 1939. É claro que a situação e as condições eram, àquela altura, um tanto diversas das de 22 anos antes (sobretudo porque, desde então, havia crescido, em imenso grau, o poderio do povo soviético); mas, não obstante, na situação mundial de 1939, concorriam não poucos elementos que a tornavam semelhante à de 1917-1918. Era necessário impedir, a todo custo, a criação de uma frente única capitalista contra a URSS; era preciso conjurar ou, pelo menos, retardar o mais possível a agressão das potências fascistas à União Soviética. Assim o ditavam o senso elementar de autoconservação, próprio de todo Estado, qualquer que seja a sua natureza. Assim o ditavam também considerações de caráter mais geral. Porque, no período que analisamos, a União Soviética não era, simplesmente, uma grande potência de nosso planeta. A União Soviética representava algo muito mais importante: era, então, o único país da Terra que constituía a pátria do socialismo e levava em si o germe do futuro comunista de toda a humanidade. Sobre os ombros dos soviéticos daquela época, em particular sobre os ombros do governo soviético, recaía enorme responsabilidade pela manutenção da integridade e independência de um país de tão excepcional importância histórica. Essa responsabilidade grandiosa exigia também audácia, flexibilidade e decisão grandiosas.

5. Em meados de agosto de 1939, o governo chegou, definitivamente, à conclusão de que a política de Chamberlain e Daladier excluía a possibilidade de concluir um pacto tripartido eficaz. Por isso, resolveu mudar de rumo político; cessar as negociações com a Inglaterra e a França, que careciam de sentido, e concluir um acordo com a Alemanha. Os nossos adversários do estrangeiro puseram em circulação a caluniosa lenda de que o governo soviético jogou com pau de dois bicos durante a primavera e o verão de 1939; manteve negociações públicas com a Inglaterra e a Franca acerca do pacto tripartido de assistência mútua contra os agressores e, por trás delas, procurou, em segredo, fazer acordo amistoso com a Alemanha e, em última instancia, preferiu a Alemanha às “democracias ocidentais”. Com o propósito de demonstrar essas balelas pérfidas, o Departamento de Estado dos Estados Unidos chegou inclusive a publicar, em 1948, uma compilação, extremamente tendenciosa, de documentos diplomáticos alemães dos quais se apoderaram os norte-americanos, na Alemanha. Entretanto, a análise circunstanciada dos citados documentos (correspondentes ao período das negociações tripartidas) que fizemos nas páginas precedentes prova, sem dúvida alguma, a completa falsidade de semelhantes afirmações. Pelo contrário, até meados de agosto de 1939, apesar da flagrante sabotagem das negociações tripartidas pelos governos da Inglaterra e da Franca, a URSS foi absolutamente leal aos seus companheiros de negociações e rejeitou todas as tentativas da Alemanha (não poucas, certamente) de abrir uma brecha entre a URSS e as “democracias ocidentais”. Foi quando, em meados de agosto, o governo soviético chegou à conclusão de que as negociações tripartidas careciam de toda perspectiva, resolveu mudar o rumo da sua política e, com efeito, mudou-o. O governo soviético exerceu, nesse caso, legítimo direito de qualquer governo de substituir uma linha política por outra, se as circunstâncias a tanto o obrigam. Nesse caso concreto, a mudança de rumo era mais que justificada, pois fora imposta ao governo soviético pela estúpida e criminosa conduta de Chamberlain e Daladier.

6. O pacto germano-soviético de 23 de agosto de 1939 não foi, naturalmente, um ato perfeito (o próprio governo soviético jamais o considerou assim); mas, em todo o caso, evitou a possibilidade de formar-se uma frente única capitalista contra a URSS, livrou 13 milhões de ucranianos e bielo-russos ocidentais do terrível destino de se transformarem em escravos do hitlerismo, assegurou a reunificação nacional de todos os ucranianos e bielo-russos em uma só família, que marcha, rapidamente, pela senda do desenvolvimento socialista; e avançou as fronteiras soviéticas várias centenas de quilômetros na direção ocidental, fato que teve grande importância estratégica. Conforme mostraram os acontecimentos ulteriores, o referido acordo atrasou cerca de dois anos a agressão da Alemanha à URSS, facilitou, em larga medida, a defesa dos centros vitais do país e a passagem das forças armadas soviéticas à vitoriosa contraofensiva, tornou possível a derrota da Alemanha hitlerista e criou as premissas para um restabelecimento mais rápido da URSS em suas fronteiras atuais.”

94 Pravda, 27 de agosto de 1939.

 

 

“Em 27 de novembro de 1958, Nikita Kruchov enviou a Dwight Eisenhower, então Presidente dos Estados Unidos, extensa nota, na qual se referia, de passagem, à situação mundial existente as vésperas da Segunda Guerra Mundial:

“Sabe-se que — dizia nessa nota o chefe do governo soviético — os Estados Unidos, assim como a Grã-Bretanha e a França, não chegaram, então, sequer à conclusão de que era necessário colaborar com a União Soviética para fazer frente à agressão hitlerista, apesar de o governo soviético ter-se declarado constantemente disposto a isso. Nas capitais dos Estados ocidentais prevaleceram, durante longo tempo, as aspirações opostas...

Só quando a Alemanha fascista, após deitar por terra os cálculos míopes dos inspiradores de Munique, voltou-se contra as potências ocidentais, só quando o exército hitlerista iniciou o seu avanço para o Ocidente, esmagando a Dinamarca, a Noruega, a Bélgica e a Holanda e precipitando-se sobre a França, os governos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha não tiveram outro remédio senão reconhecer os seus erros de cálculo e trataram de organizar, conjuntamente com a União Soviética, a resistência à Alemanha e à Itália fascistas e ao Japão. Se a política das potências ocidentais tivesse sido mais perspicaz, essa colaboração da União Soviética, Estados Unidos, Grã-Bretanha e França poderia ter-se estabelecido muito antes, já nos primeiros anos que seguiram a tomada do poder por Hitler na Alemanha e então não teria havido ocupação da França, nem Dunquerque, nem Pearl Harbor (grifo do autor).85 Então, teria sido possível preservar os milhões de vidas dados pelos povos da União Soviética, Polônia, Iugoslávia, Inglaterra, Tchecoslováquia, Estados Unidos, Grécia, Noruega e outros países para dominar os agressores.

W. Churchill diz, nas suas memórias de guerra, referindo-se às negociações tripartidas de 1939:

“Não pode caber dúvida, inclusive à luz da perspectiva histórica, de que a Grã-Bretanha e a França deveriam ter aceitado a proposta russa... Mas Mr. Chamberlain e o Foreign Office pareciam enfeitiçados pelo enigma da esfinge. Quando os acontecimentos se desenrolam com tal rapidez e abundância como aconteceu àquele tempo, o mais acertado é dar, consequentemente, um passo atrás do outro. A aliança da Inglaterra, França e Rússia, em 1939, teria despertado o mais profundo alarma no coração da Alemanha, e ninguém pode provar que a guerra não teria sido, então, evitada (grifo do autor). O passo seguinte poderia ter sido dado existindo superioridade de forças a favor dos aliados. A diplomacia teria reconquistado a iniciativa. Hitler não poderia ter ousado nem se atirar a uma guerra em duas frentes — que com tanta energia ele mesmo sempre condenou — nem permitir malogro. É pena não se haver colocado em tão difícil situação, que poderia ter-lhe custado a vida... Se, por exemplo, Mr. Chamberlain houvesse dito, ao receber a proposta russa: “Sim, unamo-nos os três e torçamos o pescoço a Hitler”, ou outras palavras no mesmo estilo, o Parlamento as teria aprovado, Stalin o teria compreendido e a história poderia haver seguido curso diferente... Em vez disso, continuou (em resposta à proposta russa. — I. M.) longo silêncio e, enquanto isso, se prepararam diversas semimedidas e compromissos artificiosos”.96

Apesar de todas as diferenças existentes entre os autores das citações que acabo de reproduzir (e não julgo necessário demonstrar que são muito grandes), ambos coincidem na opinião de que a Segunda Guerra Mundial poderia ter sido conjurada se a URSS, a Inglaterra, a França e os Estados Unidos, (pelo menos, a URSS, a Inglaterra e a França) houvessem criado, com rapidez, firmeza e decisão, uma barreira eficaz contra a agressão das potências fascistas.

Quem impediu a criação dessa barreira? A União Soviética? Não, a União Soviética não tem culpa disso! Pelo contrário, a União Soviética fez tudo o que era humanamente possível para erguer barreira à agressão. Tudo o que dissemos neste livro não deixa a menor dúvida sobre isso. Quem impediu, efetivamente, a criação da barreira tripartida foram a camarilha de Cliveden, na Inglaterra, e as “duzentas famílias”, na França. E ao falar-se nas pessoas que ajudaram Hitler, que encarnaram em maior grau essas forças reacionárias e aplicaram com a maior atividade a política que lhes convinha, ter-se-á de mencionar, principalmente, Neville Chamberlain e Daladier. É difícil sobrestimar toda a gravidade de sua responsabilidade histórica pelo desencadeamento da Segunda Guerra Mundial e pelas inumeráveis vítimas, perdas e sofrimentos que acarretou a todo o gênero humano.”

95 Pravda, 28 de novembro de 1958.

96 W. Churchill, Second World War, vol. I, págs. 325-328.

Quem ajudou a Hitler (Parte III), de I. Maiski

Editora: Civilização Brasileira

Tradução: Cristiano M. Oiticica

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 212

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SinopseVer Parte I


“Chamberlain teve a ideia de apoiar-se nos precedentes do passado para se defender dos ataques que lhe eram feitos pela sabotagem das negociações. Disse que as negociações relativas à aliança anglo-japonesa de 1903 haviam durado seis meses: a Entente anglo-francesa de 1904 exigira nove meses de negociações e a Entente anglo-russa de 1907, quinze meses... A conclusão era clara; as negociações que, então, se mantinham com a URSS duravam, apenas, quatro meses e meio. Que era, pois, que se queria dela?46 É difícil de imaginar exemplo mais claro de inatividade política do que esses argumentos do Primeiro-Ministro britânico, em um momento no qual estava a ponto de se desencadear uma tormenta histórica.

Apesar da indignação dos mais vastos setores da opinião pública inglesa, Chamberlain continuou fiel a sua linha geral, sem perder a esperança de atirar a Alemanha contra a URSS, conforme provavam todos os atos do governo britânico, inclusive naquele instante tardio.”

46 Parliamentary Debates. House of Commons, vol. 350, col. 2.023.

 

 

“O quadro geral das forças armadas das três potências era o seguinte:

A França dispunha de 100 divisões, sem contar a defesa antiaérea, a defesa costeira e as tropas aquarteladas na África; havia, além disso, uns 200.000 combatentes da República Espanhola55 que haviam entrado na França depois da vitória de Franco e pedido seu engajamento no exército francês. O armamento das forças francesas constava de 4.000 tanques modernos e de 3.000 peças de artilharia de grosso calibre, de 150 mm para cima (sem contar a artilharia de divisão). A frota aérea da França tinha 2.000 aviões de primeira linha, dois terços dos quais eram modernos para o nível daqueles tempos, entre eles caças com velocidade de 450 a 500 Km/h e bombardeiros cuja velocidade oscilava entre 400 e 450 Km/h.

A Inglaterra tinha preparadas 6 divisões, podia transferir outras 9 para o continente “em prazo brevíssimo” e acrescentar “no segundo escalão” mais 16 divisões: quer dizer, 32 divisões ao todo. As forças aéreas da própria Inglaterra compreendiam mais de 3.000 aviões de primeira linha.

A União Soviética dispunha, para lutar contra a agressão na Europa, de 120 divisões de infantaria e 16 de cavalaria, 5.000 canhões pesados, 9.000 a 10.000 tanques e 5.000 a 5.500 aviões de combate.

Além disso, as três grandes potências tinham a seu serviço Marinhas de Guerra entre as quais se destacava pelo seu poderio a Esquadra britânica.56

Como vemos, as forças armadas dos eventuais firmadores do pacto tripartido eram muito consideráveis e superavam de longe as que tinham, então, a Alemanha e a Itália. Essas forças bastariam ou teriam bastado, sem dúvida alguma, para conjurar a agressão fascista, mas com uma condição iniludível: que os três governos quisessem, realmente, criar uma frente única eficaz contra Hitler e Mussolini. O governo soviético tinha muita vontade de chegar a essa frente única, mas não se pode dizer o mesmo, absolutamente, do governo da França e, muito menos, da Inglaterra.”

55 A cifra de espanhóis era muito exagerada.

56 “Negociações das missões militares da URSS, Inglaterra e França, em Moscou, em agosto de 1939”, revista La Vida Internacional, Moscou, 1959, n.º 2, págs. 144-158; n.º 3, págs. 139-158.

 

 

“Que era que se podia fazer?

O governo soviético se deparou diante de um agudo dilema: prosseguir nas negociações tripartidas com os governos inglês e francês, que não desejavam, evidentemente, o pacto, ou procurar outros rumos para reforçar a sua segurança?

Vinha à memória, involuntariamente, impressionante episódio dos primeiros tempos da União Soviética.

Logo após a Revolução de outubro, o jovem Estado Soviético, ainda não fortalecido, viu-se colocado ante a necessidade de solucionar importante e difícil problema: como pôr fim à guerra em meio a qual havia nascido? Da solução que se desse a esse problema dependia todo o futuro da revolução e do povo soviético; mais ainda: todo o futuro da humanidade.

Na verdade, qual era a situação?

Na Rússia, acabava de ocorrer a Grande Revolução, que se chocara com a furiosa resistência das velhas classes dominantes, apoiadas por todo o mundo capitalista, e que herdara do regime czarista a grave ruína econômica, bem como a ignorância das grandes massas populares. Para poder manter-se e subsistir, a jovem República dos Sovietes, ainda fraca, necessitava, sobretudo, de paz, ou, pelo menos, de “trégua”.

Como procedeu, então, o governo soviético, dirigido por Vladimir Ilitch Lenin?

No famoso Decreto da Paz, de 8 de novembro de 1917, e nas subsequentes notas dirigidas a diversos governos, apelou, em primeiro lugar, para todos os países beligerantes, propondo-lhes que cessassem, imediatamente, as hostilidades e assinassem uma paz geral, justa e democrática, sem anexações, nem tributos. O governo soviético achava que essa forma de acabar com a guerra era a mais desejável, a mais condizente com os interesses da classe operária e de toda a humanidade.

Sabe-se que a iniciativa do governo soviético caiu, então, em terreno pedregoso. Nem a Alemanha, nem a Áustria-Hungria, nem a Inglaterra, nem a França, nem os Estados Unidos deram importância ao apelo do Estado soviético. Atenazados por luta de morte, prosseguiram a guerra durante mais de um ano.

Como procedeu, nessa situação, o governo soviético? Como procedeu Lenin?

O governo soviético não empreendeu o caminho da “guerra revolucionária”, para o qual o empurravam os chamados “comunistas da esquerda”, nem o de “nem paz, nem guerra”, que lhe recomendava Trotski; escolheu outro caminho. Raciocinou assim: se, por motivos alheios à sua vontade, não se podia conseguir paz democrática geral — que teria sido, naturalmente, o melhor — pelo menos tinha que se preocupar em tirar, o quanto antes, da guerra o próprio país. Isso tinha excepcional importância para salvar a revolução e preservar a pátria do Socialismo. Se não se podia conseguir “trégua” mediante a assinatura da paz geral, era preciso consegui-la, ao menos, mediante paz em separado com a Alemanha. Sim, a Alemanha era, efetivamente, uma potência imperialista agressiva. Que importava, porém? A Rússia soviética não existia no vazio, mas se via cercada pelo mundo capitalista hostil. E já que, apesar da aspiração soviética, a paz democrática geral era impossível naquele momento, tinha-se de conseguir, pelo menos, uma “trégua” temporária mediante acordo com o imperialismo alemão (mas com a condição iniludível, e claro, de não se imiscuir nos negócios internos da Rússia Soviética).

E Lenin deu o passo decisivo que, para alguns pareceu, então, apostasia dos princípios da Revolução de outubro, mas que foi, na prática, manobra genial, justamente com base nesses princípios.

Nasceu, assim, a paz de Brest-Litovsk, paz muito dura, com anexações e tributos à custa do povo soviético, paz má, paz “grosseira”, como a qualificou Lenin. Entretanto, essa paz deu a República Soviética o que ela mais necessitava, naquele instante: “trégua”, que, como ficou demonstrado mais tarde, foi a premissa indispensável do pujante desenvolvimento da URSS, nos decênios seguintes. A história justificou plenamente a conduta de Lenin, nesses dias difíceis. Lenin revelou ser grande mestre da causa revolucionária que não sacrifica a sua essência às frases revolucionárias.65

Vinte e dois anos depois de se assinar a paz de Brest-Litovsk, em 1939, o governo soviético viu-se, de novo, à frente de importante e difícil problema. Certamente, durante o tempo transcorrido desde então, haviam mudado muitas coisas no mundo e, em primeiro lugar, crescera imensamente o poderio da União Soviética. Todavia, na situação de 1939, concorriam não poucos elementos semelhantes aos que havia predominado em 1917.

Em 1939, a União Soviética via-se novamente ameaçada por grande perigo: o perigo da agressão das potências fascistas, principalmente, a Alemanha e o Japão. Ainda mais: existia o perigo de se criar uma frente única capitalista contra o Estado soviético, visto que, segundo mostrava claramente o desenvolvimento das negociações tripartidas, Chamberlain e Daladier podiam colocar-se, a qualquer momento, ao lado das potências fascistas e apoiar, de uma maneira ou de outra, a agressão à URSS. Era preciso conjurar esse perigo a todo custo: mas como?

A melhor saída, à qual tendia o governo soviético, com todas as forças e meios, era criar poderosa coligação defensiva dos países não interessados no desencadeamento da Segunda Guerra Mundial. Concretamente tratava-se, em primeiro lugar do pacto tripartido de assistência mútua entre a Inglaterra, a França e a URSS. Nas páginas anteriores, mostramos com suficiente força de convicção que o governo soviético enveredara, no começo, precisamente por esse caminho. Fora ele que propusera a Inglaterra e a França a assinatura de um pacto tripartido. E fora ele também que sustentara, tenazmente, durante quatro longos meses, negociações com Londres e Paris para a assinatura desse pacto, revelando paciência quase angélica.

Entretanto, a sabotagem sistemática de Chamberlain e Daladier — os quais, como assinalamos repetidas vezes, cifravam as suas esperanças no desencadeamento de uma guerra germano-soviética — fez afundarem as negociações tripartidas, em agosto de 1939. A disputa relativa à passagem das tropas soviéticas pelo território da Polônia e da Romênia não foi mais que um último e definitivo elo da longa cadeia de desilusões precedentes. Ficou absolutamente claro que o pacto tripartido de luta contra os agressores era impossível, e não precisamente por culpa da URSS. Mesmo admitindo que, no fim das contas, esse pacto pudesse ser assinado, surgia, antes de tudo, uma pergunta: Quanto tempo seria ainda preciso para conseguir esse resultado? Não chegaria tarde demais para deter a mão, já levantada, dos agressores? Porque a terra da Europa já ardia debaixo dos pés! Vinha também outra pergunta, mais importante ainda: como cumpririam a Inglaterra e a França o pacto assinado? Acabavam de desfilar à nossa vista os dolorosos exemplos da Áustria, Tchecoslováquia e Espanha. Os três países haviam sido simplesmente traídos pela Inglaterra e pela França. Onde estava a garantia de que essas duas grandes potências se portariam melhor, no cumprimento dos seus compromissos com a URSS? Seria muito mais provável que Chamberlain e Daladier, com um ou outro pretexto, nos voltassem as costas no momento crítico? Todo o fundamento dessas dúvidas se viu confirmado três semanas mais tarde, quando a Alemanha atacou a Polônia.

Não, em agosto de 1939, não se podia confiar na assinatura de um pacto tripartido! Valia a pena, nesse caso, continuar as negociações tripartidas? Valia a pena fomentar nas massas a ilusão de que era possível uma aliança defensiva da Inglaterra, França e URSS ante os agressores fascistas? Não, não valia a pena.

Tinha que se pensar em outra coisa. E a genial manobra de Lenin nos dias de paz de Brest-Litovsk dava resposta a indagação do que se devia fazer.

No caso de cessarem as negociações com a Inglaterra e a França, ao governo soviético se delineavam duas possíveis perspectivas: a política de isolamento ou o acordo com a Alemanha. Entretanto, a política de isolamento naquela situação, quando os canhões já disparavam nas fronteiras da URSS, no Extremo Oriente (Hasan e Halhin-Gol!), quando Chamberlain e Daladier faziam esforços inauditos para empurrar a Alemanha contra a URSS, quando na própria Alemanha havia vacilações acerca da direção em que se devia assestar o primeiro golpe; em situação assim, a política de isolamento era extremamente perigosa, e o governo soviético repeliu-a com toda razão. Restava uma só saída: o acordo com a Alemanha.”

65 As reflexões do general alemão Max Hoffmann, que participou da representação alemã nas negociações de Brest-Litovsk, nos oferecem curiosa confirmação do acerto da manobra de Lenin; confirmação — e estranho dizê-lo! — procedente dos nossos inimigos. No seu livro, A guerra das possibilidades perdidas, Hoffmann diz, em particular: “Tenho pensado muitas vezes se não teria sido melhor que o Governo Imperial e o Alto Comando Militar tivessem refugado toda espécie de negociações com as autoridades bolchevistas. Dando-lhes a possibilidade de concluir a paz e, deste modo, satisfazer o apaixonante desejo das massas populares, nós as ajudamos a tomar, firmemente, o poder e nele manter-se”. Hoffmann, la guerra de las possibilidades perdidas, ed. em russo, Edit. do Estado, 1925, pag. 160.

 

 

“Nenhuma das conversações dos representantes soviéticos em Berlim com os diplomatas alemães continha, absolutamente, nada que excedesse os limites da natural preocupação cotidiana em melhorar as relações entre dois países que as têm muito tensas. Nem com microscópio se pode nelas descobrir sintoma de pérfida conjuração contra a Inglaterra e a França.

À 20 de maio, registrou-se um acontecimento muitíssimo importante: nesse dia, o embaixador alemão em Moscou, Schulenburg, visitou o Comissário do Povo dos Negócios Estrangeiros da URSS e procurou reatar as negociações comerciais germano-soviéticas, interrompidas em fevereiro. Era uma evidente manifestação de agrado que a Alemanha fazia à URSS. Que recebeu como resposta? O Comissário do Povo soviético, longe de manifestar o menor entusiasmo por isso, declarou com bastante rispidez que toda a história das precedentes negociações comerciais entre ambos os países produziam no governo soviético impressão de falta de seriedade por parte da Alemanha, cujo jogo visava, evidentemente, a fins políticos. Daí o Comissário do Povo tirava a conclusão lógica de que, antes de reatar as negociações, devia-se criar a necessária “base política”, isto é, melhorar as relações políticas entre ambos os países.73

O informe de Schulenberg acerca dessa conversa causou grande desalento em Berlim. A 21 de maio, o secretário de Estado, Weizsaecker, telegrafou ao embaixador alemão em Moscou:

“Os resultados da sua discussão com Molotov nos levam à seguinte conclusão: devemos esperar em silêncio para ver se os russos exprimem o desejo de falar com maior clareza”.74

Este é o verdadeiro quadro das relações germano-soviéticas em maio de 1939, conforme patenteiam até os documentos do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha, tendenciosamente selecionados por incumbência dos nossos adversários nos Estados Unidos. E Daladier atreveu-se, depois disso, a afirmar gratuitamente que “desde o mês de maio, a URSS havia mantido duas negociações: uma com a França e outra com a Alemanha”!

Entretanto, as negociações tripartidas inquietaram enormemente a Alemanha hitlerista, e a “espera em silêncio” não durou muito. Weizsaecker escreveu a Schulenburg, a 27 de maio: “Aqui (isto é, em Berlim, — I. M.) sustentamos a opinião de que não será fácil prevenir a combinação anglo-russa”.75 E a 30 de maio, por indicação especial de Hitler, chamou Astajov e, depois de dizer-lhe que o estatuto da representação comercial soviética em Praga afetava grandes problemas de princípio, formulou-lhe, em toda a sua importância, a questão das relações políticas entre a Alemanha e a URSS. Isso fazendo, Weizsaecker desenvolveu a seguinte concepção: em Berlim, não se quer o comunismo e se acabou com ele dentro do país: em Berlim, não se espera que em Moscou se queira o nacional-socialismo; mas as diferenças ideológicas não devem ser obstáculo a que se mantenha entre ambos os países relações práticas normais.

Era nova manifestação alemã a URSS, mas Astajov reagiu a ela com muita cautela. As notas de Weizsaecker mostram que Astajov lembrou ao seu interlocutor a desconfiança arraigada em Moscou, relativamente a Alemanha hitlerista; todavia, como é lógico, declarou-se de acordo com a opinião de Weizsaecker de que, apesar das diferenças ideológicas, os dois países podiam normalizar completamente as suas relações; porque essa era e é, justamente, um dos princípios fundamentais da política externa soviética, em geral.

Mais importante ainda era que Moscou não reagia de maneira alguma ao novo ato da ofensiva diplomática alemã. Durante o mês de junho, mantiveram-se animadas negociações comerciais entre a Alemanha e a URSS, cessando, porém, no fim do mês, por ser impossível superar as discrepâncias existentes entre as duas partes. A URSS declarou que a posição alemã não lhe era bastante favorável.

Apesar dessa falência, apesar de o governo soviético continuar cauteloso em relação à conversa de 30 de maio de Weizsaecker com Astajov, Schulenburg visitou, em 28 de junho, o Comissário do Povo dos Negócios Estrangeiros da URSS e voltou a repetir, oficialmente, em nome de seu governo, que a Alemanha desejava normalizar as relações entre os dois países. Schulenburg assinalou uma série de fatos que, no seu modo de pensar, provavam a disposição de Berlim de ir ao encontro da União Soviética: assinatura de pactos de não-agressão, entre a Alemanha e os países bálticos, mudança de tom da imprensa alemã relativamente a URSS, etc.

Isso coincidia com os desejos soviéticos e significava progresso, favorável para nós, na política alemã; entretanto, o Comissário do Povo soviético não manifestou, também nesse caso, nenhum entusiasmo especial, mas, a julgar pelas próprias notas de Schulenburg, respondeu, serenamente, que recebia as suas palavras com satisfação e considerava necessário sublinhar que a política externa do governo soviético, em consonância com as declarações dos seus dirigentes, tendia a cultivar as boas relações com todos os países, o que dizia respeito também a Alemanha, com a condição, é claro, de que houvesse reciprocidade.76

Passou, depois, um mês inteiro, o aziago mês de julho, durante o qual os ingleses e franceses sabotaram, obstinadamente, a unidade do pacto e do convênio militar. Contudo, a compilação citada não contém um só documento que testemunhe a aproximação progressiva entre a URSS e a Alemanha no terreno político. Apesar dessa sabotagem, apesar das crescentes dúvidas do governo soviético acerca da possibilidade de assinar o pacto tripartido, a URSS continuou firme nas negociações com a Inglaterra e a França, abstendo-se de fazer a menor demonstração de simpatia à Alemanha.

Completamente diverso foi o comportamento de Berlim. As negociações tripartidas e, em particular, o acordo quanto a enviar a Moscou as missões militares inglesa e francesa, despertaram alarma, cada dia maior, nos meios do governo hitlerista. Este examinou febrilmente e procurou aplicar diversas medidas que deviam, no seu modo de pensar, frustrar ou, pelo menos, retardar a assinatura do pacto tripartido. Na segunda quinzena de julho, reatamos as negociações comerciais com a Alemanha, interrompidas três semanas antes; dessa vez, o lado alemão acedeu com agrado aos desejos soviéticos.

A 26 de julho, Schnurre, por indicação direta das altas esferas, deu em Berlim um banquete em honra de Astajov e do representante comercial soviético na Alemanha, Babarin. Nele, Schnurre fez tudo para demonstrar que eram perfeitamente possíveis as boas relações entre a Alemanha e a URSS e até chegou a apontar, de maneira concreta, as etapas consecutivas da respectiva melhoria. Afirmou, mais adiante, que a Alemanha estava disposta a fazer com a URSS um acordo de longo alcance sobre todos os problemas “desde o Báltico ao Mar Negro”.

Que responderam a isso os hóspedes soviéticos de Schnurre? O próprio Schnurre diz, nas suas notas:

“Astajov, apoiado integralmente por Babarin, considerou que o caminho traçado (por Schnurre. — I. M.) para a aproximação com a Alemanha corresponde aos interesses vitais dos dois países. Não obstante, fez finca-pé para que o ritmo do desenvolvimento venha a ser, provavelmente, muito lento e gradual. A política externa nacional-socialista ameaça a União Soviética... Astajov recordou o Pacto Anticomintern, “as nossas relações com o Japão, Munique e a liberdade de ação que tivemos na Europa Oriental. As consequências políticas de tudo isso se voltam, inevitavelmente, contra a URSS... A Moscou não é fácil crer que a política da Alemanha, no que diz respeito a União Soviética, tome outro rumo. A diferença de estado de espírito só se pode produzir aos poucos”.77

Como vemos, os representantes soviéticos em Berlim acolheram com grande reserva os cantos de sereia nazistas e, em todo caso, não excederam em suas manifestações os limites de uma aspiração absolutamente legítima: contribuir para melhorar as relações entre os dois países.

Está aqui, agora, a curiosa apreciação da atitude do governo soviético com relação às manifestações alemãs que encontramos em telegrama de Weizsaecker a Schulenburg, datado de 29 de julho:

“Teria importância esclarecer se encontram eco em Moscou as declarações feitas a Astajov e Babarin (durante o banquete de 28 de julho. — I. M.). Se o senhor tiver oportunidade de falar novamente com Molotov, peco-lhe que o sonde nesse sentido... E se acontecer que Molotov abandone a reserva que tem mantido até agora, pode dar o seguinte passo adiante (grifado por mim. — I. M.).78

Assim, pois, na apreciação feita pelo lado alemão, o governo soviético não fez eco, de abril a julho, a ofensiva diplomática alemã.

Uma semana depois, a Alemanha deu novo passo, e muito importante, em direção à URSS. A 3 de agosto, nos mesmos dias em que as missões militares inglesa e francesa se preparavam sem pressa para partir rumo a Moscou, Ribbentrop convidou Astajov para visitá-lo e lhe fez uma declaração da maior importância. Na prática diplomática, o fato de que o “próprio’’ Ministro das Relações Exteriores receba em seu escritório um “encarregado de negócios” significa que a gestão é de urgência e importância extremas. Ribbentrop declarou que era possível transformar, radicalmente, as relações germano-soviéticas à base de duas condições fundamentais: a) não ingerência recíproca nos negócios internos, e b) renúncia (por parte da URSS — I.M.) à política orientada contra os interesses alemães. Ribbentrop assegurou a Astajov que o governo alemão estava predisposto a favor de “Moscou” e acrescentou que se “Moscou” fosse ao encontro do governo alemão, “não haveria problemas do Báltico ao Mar Negro que não pudessem ser resolvidos entre nós”.

Astajov, segundo as notas de Ribbentrop, foi muito comedido nas suas respostas; não se comprometeu em absoluto e se limitou a declarar que “a seu ver, o governo soviético desejava seguir política de compreensão mútua com a Alemanha”. Isso, naturalmente, não contradizia em nada com a possibilidade de assinar o pacto tripartido.

Depois de transmitir a Schulenburg o conteúdo de sua conversa com Astajov, Ribbentrop acrescentou, para conhecimento do próprio embaixador:

“O encarregado de negócios, que parecia interessado, procurou, várias vezes, fazer recair a conversa sobre questões mais concretas. Contudo, dei-lhe a entender que só estou disposto a ser mais concreto no caso de o governo soviético declarar oficialmente que reconhece, em princípio, a conveniência de dar um novo caráter as relações. Se Astajov receber instruções nesse sentido, nós, de nosso lado, estaremos interessados em concluir o quanto antes um acordo definitivo”.79

No dia seguinte, 4 de agosto, Schulenburg, cumprindo as indicações de Ribbentrop, transmitiu ao Comissário do Povo dos Negócios Estrangeiros da URSS tudo que Ribbentrop havia dito, na véspera, a Astajov. Como reagiu o Comissário do Povo soviético às palavras do embaixador alemão? Schulenburg informou a Berlim que o Comissário do Povo lhe havia comunicado a opinião do governo soviético, favorável a assinatura de acordo econômico entre os dois países; havia exprimido o critério de que a imprensa das duas partes devia abster-se de manifestações que pudessem azedar as relações entre eles, e reconhecido ser desejável o restabelecimento gradual dos contatos no terreno cultural. Schulenburg escrevia, mais adiante:

“Passando, depois, à questão das relações políticas, o Comissário do Povo declarou que o governo soviético desejava também a normalização e a melhoria das relações mútuas. Não é culpa sua que as relações tenham piorado. Ele (o Comissário do Povo. — I. M.) vê a causa da piora, sobretudo, na assinatura do Pacto Anticomintern e em tudo o que se tem dito e feito em relação a ele”.

Schulenburg tocou na questão da Polônia. Disse que a Alemanha procurava resolver as suas divergências com a Polônia por via pacífica. Entretanto, se a obrigassem a proceder de outra forma, levaria em conta os interesses soviéticos. O Comissário do Povo respondeu que o ajuste pacífico entre a Polônia e a Alemanha dependia, sobretudo, da Alemanha. Como se vê pelas notas posteriores de Schulenburg, esta resposta aborreceu-o muito.

O embaixador alemão não deixou de se referir às negociações tripartidas, ao que o Comissário do Povo soviético respondeu que visavam a fim puramente defensivo.

Comentando essa conversa, Schulenburg escreveu a Berlim que, a julgar por todos os sintomas, “o governo soviético se sente agora mais inclinado a melhoria das relações germano-soviéticas; entretanto, a velha desconfiança em relação a Alemanha continua muito forte”.80

Vemos, pois, que durante a primavera e o verão de 1939, o governo soviético revelou plena lealdade nas relações com as potências que participavam das negociações tripartidas. Não houve confabulação secreta alguma com a Alemanha dirigida contra elas. Não houve, do lado soviético, intenção alguma de formar bloco com Berlim por trás da Inglaterra e da França e “trair” a Londres e Paris. Não houve nada que recordasse, sequer remotamente, as conversações de Horace Wilson com Wohlthat. Até o mês de agosto, as relações germano-soviéticas tiveram o caráter de relações diplomáticas corriqueiras, com tintas, certamente, não muito “amistosas”. E as conversações entre os representantes de ambos os governos foram também conversações corriqueiras, daquelas que mantêm, todos os dias, em todos os pontos da Terra, os ministros e os embaixadores sobre diversos problemas da atualidade. Assim o provam, de maneira indubitável, os próprios documentos compilados pelos nossos adversários nos Estados Unidos para denegrir ao máximo o governo soviético.81

Só em agosto, quando as negociações tripartidas definitivamente desmoronaram em consequência da sabotagem anglo-francesa; quando se desvaneceu por completo a esperança de ser assinado um pacto eficaz de assistência mútua entre a URSS, Inglaterra e França, o governo soviético viu-se obrigado a fazer uma alteração geral de sua política, coisa plenamente natural e legítima, se um governo considera que circunstâncias alheias à sua vontade o obrigam a fazê-lo. Eis porque, na primavera e no verão de 1939, não existia o jogo com pau de dois bicos de que acusam o governo soviético os seus adversários estrangeiros, mas um afã claro, firme e absolutamente leal para com a Inglaterra e a França de concluir com elas um pacto tripartido contra os agressores. E se, em definitivo, a ele não se conseguiu chegar, não é, em todo caso, sobre a URSS que recai a culpa.

Porém, nem nessa situação, o governo soviético quis queimar, de imediato, as pontes. A 3 de agosto, a Alemanha (justamente a Alemanha, e não a União Soviética) fez, oficialmente, ao governo soviético, propostas de longo alcance acerca da transformação radical das relações entre os dois países. Isso devia levar primeiramente, à sua normalização e, depois, de modo gradual, ao que, em linguagem diplomática, se chama “amizade”. Semelhante perspectiva correspondia inteiramente às aspirações pacíficas do governo soviético e sua realização podia fortalecer, em alto grau, a segurança do povo soviético. Contudo, “Moscou”, também nesse caso, não se deixou seduzir pelas tentações de Berlim. “Moscou” continuou pensando no pacto tripartido e quis fazer mais um esforço, o último, para levar à prática a melhor variante da luta contra a agressão. Apesar de todas as dúvidas engendradas pela história precedente das negociações tripartidas, “Moscou” não perdeu a esperança de que os governos da Inglaterra e França soubessem, talvez, refletir profundamente e enveredar pelo caminho certo, embora fosse só cinco minutos antes da catástrofe.

Por isso, “Moscou” esperou dez dias mais. Berlim, impaciente, queria acelerar, de qualquer modo, os acontecimentos. Uma semana após a conversa de Ribbentrop com Astajov, em 10 de agosto, Schnurre insistiu, conversando com Astajov, em que se fixasse com a maior rapidez a atitude da URSS ante as propostas que lhe havia feito a Alemanha.

“Moscou”, porém, continuou a se abster, como vinha fazendo desde a conversa de Ribbentrop com Astajov a 3 de agosto, de adotar decisão definitiva. “Moscou” esperou, enquanto as missões militares inglesa e francesa faziam a travessia de Londres a Leningrado em navio misto. “Moscou” esperou, enquanto se realizavam, na capital soviética, as primeiras reuniões com as missões militares. Mas, quando no decorrer dessas reuniões, se formulou o problema da passagem das tropas soviéticas pelos territórios da Polônia e da Romênia (questão central de todo o acordo militar); quando se viu claramente que nem as missões militares inglesa e francesa, nem os governos inglês e francês davam resposta a esta questão; quando Londres e Paris só reagiram com longo silêncio aos telegramas que lhe foram enviados, por esse motivo, a longa paciência soviética acabou-se. Ficou absolutamente claro que Chamberlain e Daladier eram incorrigíveis e que não se podia criar com eles nenhuma segurança coletiva das potências pacíficas.

O melhor método de luta contra a agressão fascista falhou por culpa exclusiva de Chamberlain e Daladier. Chegou o momento de passar à única saída que ainda restava.

A situação do governo soviético, no decorrer das negociações tripartidas, podia comparar-se a de um homem acossado cada vez mais pela maré alta: a água lhe chega aos joelhos, depois à cintura, depois ao peito, à garganta... Um momento mais, e a água lhe cobrirá a cabeça, se o homem não der um salto rápido e decidido, capaz de fazê-lo alcançar uma rocha inacessível à maré.

Com efeito, o perigo da Segunda Guerra Mundial se aproximava mais e mais; em março e abril, apenas se vislumbrava; em maio e junho, começou a adquirir contornos mais definidos; em julho, o seu terrível alento começou a empeçonhar toda a atmosfera da Europa; e, em meados de agosto, já ninguém duvidava de que faltavam poucos dias para que troassem os canhões e caíssem as bombas dos aviões.

Não se podia esperar mais. Só então, em meados de agosto, o governo soviético viu-se obrigado a resolver, definitivamente, o que devia fazer. O dilema que tinha formulado antes se converteu em amarga necessidade de entrar em acordo com a Alemanha. Os cinco meses de sabotagem dos governos da Inglaterra e França, apoiados pelos Estados Unidos, às negociações tripartidas não deixaram outra saída à URSS.”

72 NSR, pág. 5.

73 Ibid., pág. 6.

74 Ibid., pág. 7.

75 NSR, pág. 9.

76 NSR, págs. 26-27.

77 NSR, págs. 33-36.

78 NSR, pág. 36.

79 NSR, págs. 33-36.

80 NSR, págs. 40-41.

81 Aqui está um curioso testemunho, procedente de fontes pouco amistosas, de que o governo soviético não cometeu nenhum ato desleal. O embaixador norte-americano em Paris, William Bullit, disse, entre outras coisas, em seu informe de 28 de junho de 1939, acerca da conversa mantida com o Primeiro-Ministro Francês, Daladier: “Daladier disse que não acreditava, naturalmente, nas declarações russas (acerca da lealdade das relações com os ingleses e os franceses. — I. M.); mas nem as embaixadas, nem os serviços secretos franceses e ingleses puderam receber, até agora, informação alguma indicadora de que os russos mantenham negociações com a Alemanha (Foreign Relations of the United States, 1939, vol. I. Wash., 1956, pag. 278).

A coisa é bem simples: essas negociações não existiram. Como ajustar essas declarações de Daladier às suas afirmações, citadas anteriormente (veja-se a pag. 169 do presente volume), de que a URSS mantinha negociações com a Alemanha “desde maio de 1939” por trás da França?