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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A Cidade de Deus (Livros IX-XV), de Santo Agostinho

Editora: Fundação Calouste Gulbenkian

ISBN: 978-9723105438

Tradução, prefácio, nota biográfica e transcrições: J. Dias Pereira

Opinião: ★★☆☆☆

Páginas: 630

Sinopse: Ver Parte I



“Efetivamente, o ser animado ou animal é composto de alma e corpo. Destes dois, o melhor é, sem dúvida, a alma, mesmo que viciosa e doente seja ela, e perfeitamente são e vigoroso o corpo. É que a sua natureza é de ordem mais elevada; a mácula dos vícios não a faz descer abaixo do corpo. E assim como o ouro, que, mesmo impuro, tem maior valor do que a prata e o chumbo mais puros.”

 

 

“Não devem ser ouvidos os que negam que Deus invisível possa fazer milagres visíveis. Nem mesmo esses podem negar que este mesmo Deus fez o mundo que, não há dúvida, é visível. Tudo o que de maravilhoso acontece neste mundo é, com certeza, menos do que o mundo no seu todo, isto é, do que o Céu e a Terra e tudo o que encerram — obras que, indubitavelmente, foi Deus quem as fez. Mas tal como Aquele que as fez, assim também o modo como as fez, se conserva oculto e incompreensível ao homem. Talvez os milagres das naturezas visíveis tenham perdido o seu valor devido a tantas vezes terem sido observados. Todavia, se encararmos com olhos de ver, veremos que são superiores aos mais extraordinários e mais raros. Realmente, o homem é um milagre maior do que qualquer milagre feito por um homem.

É por isso que Deus, que fez o Céu e a Terra visíveis, não desdenha fazer no Céu e na Terra milagres visíveis para estimular a alma, ainda presa às coisas visíveis, a adorá-lo a Ele invisível. Mas “onde” e “quando” os fará — é n’Ele o objeto dum desígnio imutável em cuja disposição se encontram já presentes os tempos futuros. É que Ele move as coisas temporais e não se move no tempo. Para Ele, conhecer o que se vai fazer e o que está feito é tudo o mesmo; nem atende os que o invocam de forma diferente dos que o hão-de invocar. Mesmo quando são os anjos que atendem, é Ele ainda quem neles atende como no seu verdadeiro templo que não é feito pelas mãos dos homens. O mesmo ocorre com os seus homens santos. E os preceitos realizam-se no tempo em conformidade com a lei eterna.”

 

 

“Por isso o verdadeiro Mediador, que, ao tomar a forma de escravo, se tornou mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus-Cristo, sob a forma de Deus, aceita o sacrifício com o Pai, com o qual é um só Deus; mas, sob a forma de escravo, preferiu ser sacrifício a aceitá-lo, para que ninguém aproveitasse esta oportunidade para sacrificar a qualquer criatura. É por isto que Ele é sacerdote: é Ele quem oferece, é Ele a oblação.”

 

 

“São, pois, vencidos (os demônios) em nome d’Aquele que assumiu a condição humana e levou uma vida sem pecado, para que a remissão dos pecados se operasse n’Ele, sacerdote e sacrifício, mediador entre Deus e os homens, o Homem Jesus Cristo por quem, purificados dos pecados, somos reconciliados com Deus. Efetivamente só os nossos pecados separam os homens de Deus. Nesta vida não é por virtude nossa mas por misericórdia de Deus, não é por poder nosso mas por indulgência d’Ele, que se opera em nós a purificação dos pecados. A própria virtude, seja ela qual for, que chamamos nossa, foi-nos concedida pela sua bondade. E muito atribuiríamos a esta carne se não vivêssemos por permissão d’Ele até a deixarmos. Também a graça nos é concedida pelo mediador para que, maculados pela carne do pecado, fiquemos limpos pela semelhança da Carne do pecado. Por esta graça de Deus, pela qual Ele nos mostra a sua grande misericórdia, somos governados, mediante a fé nesta vida; e, depois desta vida, seremos levados pela própria beleza da verdade imutável à plenitude da perfeição.”

 

 

“Não é sem motivo que nós hoje chamamos felizes àqueles que vemos viverem na justiça e na piedade com a esperança da imortalidade, sem qualquer crime a roer-lhes a consciência, obtendo facilmente a misericórdia divina para os seus pecados de fragilidade presente. Embora estejam seguros de que serão recompensados da sua perseverança, estão, porém, inseguros da própria perseverança. Que homem é que, efetivamente, sabe se perseverará até ao fim na prática e no progresso da justiça, a não ser que obtenha a garantia por uma revelação d’Aquele que, sem enganar ninguém, não revela a todos, acerca deste ponto, o seu justo e secreto juízo? Também a respeito do gozo de um bem presente, o primeiro homem era mais feliz no Paraíso do que qualquer justo na debilidade desta vida mortal. Mas quanto à esperança de um bem futuro, qualquer homem, seja ele quem for, por muitos sofrimentos corporais que tenha de suportar, se sabe, não como provável, mas como verdade certa, que gozará sem fim, ao abrigo de toda a prova, da sociedade dos anjos na íntima união com Deus Soberano, — qualquer homem é mais feliz do que o primeiro homem inseguro da sua sorte na grande felicidade do Paraíso.”

 

 

“Uma malícia que vicia supõe indubitavelmente uma natureza anterior não viciada. Mas o vício é de tal modo contra a natureza que só pode ser nocivo à natureza. Não seria, portanto, um vício separar-se de Deus se, para a natureza de que esta separação constitui um vício, não fosse melhor estar unido a Deus. É por isso que mesmo a vontade má presta poderoso testemunho a favor da natureza boa. Mas Deus, assim como é o criador excelente das naturezas boas, assim é também o ordenador justíssimo das vontades más. E quando estas abusam, para o mal, das naturezas boas, serve-se mesmo das naturezas más para o bem. Fez, portanto, com que o Diabo, bom pela sua criação, mau pela sua vontade, fosse atirado para o grupo dos seres inferiores para ser entregue às mofas dos seus anjos, no sentido de que os santos tirem proveito das próprias tentações pelas quais ele procurava ser-lhes nocivo.”

 

 

“Nós cremos, mantemos e pregamos com fidelidade que o Pai gerou o Verbo, isto é, a Sabedoria pela qual tudo foi feito, seu Filho único: que Ele, o Uno, gerou o Único, o Eterno, o Coeterno, o soberamente bom, o igualmente bom; e que o Espírito Santo é simultaneamente o Espírito do Pai e do Filho, Ele mesmo consubstancial e coeterno a ambos; que tudo isto é Trindade por causa da propriedade de pessoas e Deus único por causa da sua inseparável divindade, assim como é único Onipotente por causa da sua inseparável onipotência. De tal maneira, porém, que, se alguém se interrogar acerca de cada um, deve contentar-se em saber que cada um é Deus e onipotente; e se se interrogar acerca dos três conjuntamente, a resposta será que não há três deuses ou três onipotentes, mas um só Deus onipotente, tão grande é na sua Trindade a inseparável unidade que desta maneira se quis manifestar.

O que não tenho medo de dizer é que o Espírito Santo é a santidade das duas outras Pessoas, não como qualidade de uma e de outra, mas como sendo ele também substância e terceira Pessoa na Trindade. O que mais provavelmente me leva a esta opinião é o seguinte: o Pai é espírito e o Filho é espírito, o Pai é santo e o Filho é santo — todavia, o Espírito Santo é que é propriamente assim chamado como sendo a Santidade substancial e consubstancial de ambos.”

 

 

“A diferença parece consistir em que — “fruir” se diz de uma coisa que nos agrada por si mesma sem estar relacionada com outra, “utilizar” se diz de uma coisa que se procura para outra. (Por isso, mais que fruir, convém utilizar os bens temporais para se merecer o gozo dos bens eternos; não como os perversos que querem gozar do dinheiro e utilizar-se de Deus. Porque não é por causa de Deus que empregam o seu dinheiro — é antes por causa do dinheiro que prestam culto a Deus).”

 

 

“O vício só é justo objeto de censura porque desonra uma natureza digna de louvor. (...)

Na realidade, nenhum mal prejudica a Deus, mas todo o mal prejudica as naturezas mutáveis e corruptíveis que são, apesar disso, boas, como o demonstram os próprios vícios. Se não fossem boas, os vícios não as poderiam prejudicar. Que prejuízo, com efeito, lhes farão senão o de lhes tirarem a integridade, a beleza, a saúde, a virtude e todos os bens naturais que o vício costuma destruir ou diminuir? Se nada houvesse, o vício, nada de bom retirando, já não causaria prejuízo e, portanto, já não seria um vício, pois não pode ser vício sem prejudicar. Segue-se daí que, apesar da sua impotência para causar prejuízo ao bem imutável, o vício a nada pode causar prejuízo senão ao bem, porque não está senão onde causa prejuízo. Isto mesmo também pode ser assim formulado: tanto é impossível ao vício estar no Bem Supremo como não estar em algum outro bem. Os bens podem estar sós em qualquer parte; os males, não podem estar sós em parte alguma. É que, mesmo as próprias naturezas, que a sua má vontade viciou desde a origem, só são más enquanto viciadas, mas boas enquanto naturezas. E quando uma natureza viciosa é castigada, além de ser uma natureza, tem isto de bom: não é impune. Efetivamente, isto é justo e tudo o que é justo é, sem dúvida, um bem. Na verdade, ninguém é punido pelas suas faltas naturais, mas pelas suas faltas voluntárias. O próprio vício que o progresso de um longo hábito arreigou fortemente como uma natureza, teve a sua origem na vontade. Estamos agora a falar dos vícios duma natureza dotada de espírito que capta a luz inteligível, com que pode distinguir o justo do injusto.”

 

 

“Os que, embora criados bons, são agora maus, o são por sua má vontade própria, que não é devida à sua natureza boa, mas à sua falta espontânea relativamente ao bem: a causa do mal não é o bem, mas a falta de bem.”

 

 

“Nem os leões alguma vez desencadearam entre si guerras semelhantes às dos homens.”

 

 

“A vontade está em todos os movimentos, ou melhor, todos eles mais não são que vontades. Realmente, que é o desejo ou a alegria senão a vontade que consente no que queremos? Que é o temor ou a tristeza senão a vontade que nos desvia do que recusamos? Chama-se desejo quando no desejo estamos de acordo com o que queremos. Também quando a nossa recusa recai sobre o que não desejaríamos experimentar, esta forma de vontade chama-se medo; e, quando recai sobre o que experimentamos a nosso pesar, esta forma de vontade é a tristeza. Em suma: a vontade do homem é atraída ou repelida conforme a diversidade dos objetos que procura ou evita e assim se muda ou transforma nestes diferentes afetos. Por isso o homem que vive, não em conformidade com o homem, mas em conformidade com Deus, tem de amar a Deus. E como ninguém é mau por natureza, mas por vício, o que vive em conformidade com Deus deve ter para com os maus um perfeito ódio, sem, todavia, odiar o homem por causa do vício nem amar o vício por causa do homem: deve apenas odiar o vício e amar o homem. Assim, uma vez curado o vício, tudo o que ele deve amar permanecerá e nada permanecerá do que deve odiar.”

 

 

“A vontade não goza verdadeiramente de livre arbítrio senão quando não é escrava dos vícios e dos pecados.”

 

 

“A humildade que nos torna submissos a Deus exalta-nos.”

 

 

“Pois que não podes fazer o que queres, procura querer o que possas.” (Terêncio)

 

 

“Mas se se examinarem mais profundamente estas questões, elas geram múltiplas e multímodas discussões que teriam de constar de mais livros do que os que permitem esta obra e o tempo de que dispomos, muito curto para nos demorarmos em todas as questões que as pessoas ociosas e meticulosas, mais dispostas a interrogar do que capazes de compreender, podem pôr.”

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A interpretação da Bíblia na Igreja – Pontifícia Comissão Bíblica

Editora: Paulinas

ISBN: 978-85-3561-401-5

Opinião: ★★☆☆☆

Páginas: 162

Sinopse: A interpretação dos textos bíblicos continua a suscitar em nossos dias um vivo interesse e provoca importantes discussões; elas adquiriram dimensões novas nestes últimos anos; dada a importância fundamental da Bíblia para a fé cristã, para a vida da Igreja e para as relações dos cristãos com os fiéis das outras religiões, a Pontifícia Comissão Bíblica foi solicitada a se pronunciar a esse respeito.



“A Bíblia não é simplesmente enunciação de verdades. É uma mensagem dotada de uma função de comunicação em um certo contexto, uma mensagem que comporta um dinamismo de argumentação e uma estratégia retórica.”

 

 

“A Bíblia é a Palavra sobre o real, que Deus pronunciou em uma história e que ele nos dirige hoje por intermédio de autores humanos.”

 

 

“As tradições judaicas antigas permitem particularmente conhecer melhor a Bíblia judaica dos Setenta, que em seguida tornou-se a primeira parte da Bíblia cristã durante pelo menos os quatro primeiros séculos da Igreja, e no Oriente até nossos dias. A literatura judaica extra-canônica, chamada apócrifa ou intertestamentária, abundante e diversificada, é uma fonte importante para a interpretação do Novo Testamento. Os procedimentos variados de exegese praticados pelo judaísmo das diferentes tendências reencontram-se no próprio Antigo Testamento, por exemplo nas Crônicas em relação aos Livros dos Reis, e no Novo Testamento, por exemplo, em certos raciocínios escriturísticos de são Paulo. A diversidade das formas (parábolas, alegorias, antologia e florilégios, releituras, pesher, comparações entre textos distantes, salmos e hinos, visões, revelações e sonhos, composições sapienciais) é comum ao Antigo e ao Novo Testamento assim como à literatura de todos os ambientes judaicos antes e após o tempo de Jesus. Os Targumim e os Midrashim representam a homilética e a interpretação bíblica de grandes setores do judaísmo dos primeiros séculos.

Além disso, numerosos exegetas do Antigo Testamento pedem aos comentadores, gramáticos e lexicógrafos judeus medievais e mais recentes, luzes para a inteligência de passagens obscuras ou de palavras raras e únicas. Mais frequentes que antigamente, aparecem hoje referências a essas obras judaicas na discussão exegética.

A riqueza da erudição judaica colocada a serviço da Bíblia, desde suas origens na antiguidade até nossos dias, é uma ajuda muito valiosa para o exegeta dos dois Testamentos, à condição, no entanto, de empregá-la com conhecimento de causa. O judaísmo antigo era de uma grande diversidade. A forma farisaica, que prevaleceu em seguida no rabinismo, não era a única. Os textos judeus antigos se escalonam por vários séculos; é importante situá-los cronologicamente antes de fazer comparações. Sobretudo, o quadro geral das comunidades judaicas e cristãs é fundamentalmente diferente: do lado judeu, segundo formas muito variadas, trata-se de uma religião que define um povo e uma prática de vida a partir de um escrito revelado e de uma tradição oral, enquanto que do lado cristão é a fé ao Senhor Jesus, morto, ressuscitado e doravante vivo, Messias e Filho de Deus, que reúne uma comunidade. Esses dois pontos de partida criam, para a interpretação das Escrituras, dois contextos que, apesar de muitos contatos e semelhanças, são radicalmente diferentes.”

 

 

“O conhecimento dos dados sociológicos que contribuem a fazer compreender o funcionamento econômico, cultural e religioso do mundo bíblico é indispensável à crítica histórica. A tarefa da exegese, de bem compreender o testemunho de fé da Igreja apostólica, não pode ser levada a termo de maneira rigorosa sem uma pesquisa científica que estude os estreitos relacionamentos dos textos do Novo Testamento com a vivência social da Igreja primitiva.”

 

 

“A religião, sabe-se, é sempre em uma situação de debate com o inconsciente. Ela participa, em uma larga medida, à correta orientação das pulsões humanas.”

 

 

“O Deus da Bíblia não é projeção de uma mentalidade patriarcal. Ele é Pai, mas ele é também Deus de ternura e de amor maternais.”

 

 

“A leitura fundamentalista parte do princípio de que a Bíblia, sendo Palavra de Deus inspirada e isenta de erro, deve ser lida e interpretada literalmente em todos os seus detalhes. Mas por “interpretação literal” ela entende uma interpretação primária, literalista, isto é, excluindo todo esforço de compreensão da Bíblia que leve em conta seu crescimento histórico e seu desenvolvimento. Ela se opõe assim à utilização do método histórico-crítico, como de qualquer outro método científico, para a interpretação da Escritura.

Se bem que o fundamentalismo tenha razão em insistir sobre a inspiração divina da Bíblia, a inerrância da Palavra de Deus e as outras verdades bíblicas inclusas nos cinco pontos fundamentais (a inerrância verbal da Escritura, a divindade de Cristo, seu nascimento virginal, a doutrina da expiação vicária e a ressurreição corporal quando da segunda vinda de Cristo), sua maneira de apresentar essas verdades esta enraizada em uma ideologia que não é bíblica, apesar do que dizem seus representantes. Ela exige uma forte adesão a atitudes doutrinárias rígidas e impõe, como fonte única de ensinamento a respeito da vida cristã e da salvação, uma leitura da Bíblia que recusa todo questionamento e toda pesquisa crítica.

O problema de base dessa leitura fundamentalista é que recusando de levar em consideração o caráter histórico da revelação bíblica, ela se torna incapaz de aceitar plenamente a verdade da própria Encarnação. O fundamentalismo foge da estreita relação do divino e do humano no relacionamento com Deus. Ele se recusa em admitir que a Palavra de Deus inspirada foi expressa em linguagem humana e que ela foi redigida, sob a inspiração divina, por autores humanos cujas capacidades e recursos eram limitados. Por esta razão, ele tende a tratar o texto bíblico como se ele tivesse sido ditado palavra por palavra pelo Espírito e não chega a reconhecer que a Palavra de Deus foi formulada em uma linguagem e uma fraseologia condicionadas por uma ou outra época. Ele não dá nenhuma atenção às formas literárias e às maneiras humanas de pensar presentes nos textos bíblicos, muitos dos quais são fruto de uma elaboração que se estendeu por longos períodos de tempo e leva a marca de situações históricas muito diversas.

O fundamentalismo insiste também de uma maneira indevida sobre a inerrância dos detalhes nos textos bíblicos, especialmente em matéria de fatos históricos ou de pretensas verdades científicas. Muitas vezes ele torna histórico aquilo que não tinha a pretensão de historicidade, pois ele considera como histórico tudo aquilo que é reportado ou contado com os verbos em um tempo passado, sem a necessária atenção à possibilidade de um sentido simbólico ou figurativo.

O fundamentalismo tem muitas vezes tendência a ignorar ou a negar os problemas que o texto bíblico comporta na sua formulação hebraica, aramaica ou grega. Ele é muitas vezes estreitamente ligado a uma tradição determinada, antiga ou moderna. Ele se omite igualmente de considerar as “releituras” de certas passagens no interior da própria Bíblia.

No que concerne os Evangelhos, o fundamentalismo não leva em consideração o crescimento da tradição evangélica, mas confunde ingenuamente o estágio final desta tradição (o que os evangelistas escreveram) com o estágio inicial (as ações e as palavras do Jesus da história). Ele negligencia assim um dado importante: a maneira com a qual as próprias primeiras comunidades cristãs compreenderam o impacto produzido por Jesus de Nazaré e sua mensagem. Ora, aqui está um testemunho da origem apostólica da fé cristã e sua expressão direta. O fundamentalismo desnatura assim o apelo lançado pelo próprio Evangelho.

O fundamentalismo tem igualmente tendência a uma grande estreiteza de visão, pois ele considera conforme à realidade uma antiga cosmologia já ultrapassada, só porque encontra-se expressa na Bíblia; isso impede o diálogo com uma concepção mais ampla das relações entre a cultura e a fé. Ele se apoia sobre uma leitura não-crítica de certos textos da Bíblia para confirmar ideias políticas e atitudes sociais marcadas por preconceitos, racistas, por exemplo, simplesmente contrários ao Evangelho cristão.

Enfim, em sua adesão ao princípio do “sola Scriptura”, o fundamentalismo separa a interpretação da Bíblia da Tradição guiada pelo Espírito, que se desenvolve autenticamente em ligação com a Escritura no seio da comunidade de fé. Falta-lhe entender que o Novo Testamento tomou forma no interior da Igreja cristã e que ele é Escritura Santa desta Igreja, cuja existência precedeu a composição de seus textos. Assim, o fundamentalismo é muitas vezes anti-eclesial; ele considera negligenciáveis os credos, os dogmas e as práticas litúrgicas que se tornam parte da tradição eclesiástica, como também a função de ensinamento da própria Igreja. Ele se apresenta como uma forma de interpretação privada, que não reconhece que a Igreja é fundada sobre a Bíblia e tira sua vida e sua inspiração das Escrituras.

A abordagem fundamentalista é perigosa, pois ela é atraente para as pessoas que procuram respostas bíblicas para seus problemas da vida. Ela pode enganá-las oferecendo-lhes interpretações piedosas mas ilusórias, ao invés de lhes dizer que a Bíblia não contém necessariamente uma resposta imediata a cada um desses problemas. O fundamentalismo convida, sem dizê-lo, a uma forma de suicídio do pensamento. Ele coloca na vida uma falsa certeza, pois ele confunde inconscientemente as limitações humanas da mensagem bíblica com a substancia divina dessa mensagem.”

 

 

“Na tradição eclesial, os primeiros intérpretes da Escritura, os Padres da Igreja, consideravam que a exegese que faziam dos textos só era completa quando eles evidenciavam o sentido para os cristãos do tempo deles e na situação em que viviam. Só se é fiel à intencionalidade dos textos bíblicos na medida que se tenta reencontrar no coração de sua formulação a realidade de fé que eles exprimem, e se esta se liga à experiência dos fiéis do nosso mundo.”

 

 

“A contribuição moderna das hermenêuticas filosóficas e os desenvolvimentos recentes do estudo científico das literaturas, permitem à exegese bíblica de aprofundar a compreensão de sua tarefa, cuja complexidade tornou-se mais evidente. A exegese antiga, que evidentemente não podia levar em consideração as exigências científicas modernas, atribuía a todo texto da Escritura sentidos de vários níveis. A distinção mais corrente se fazia entre sentido literal e sentido espiritual. A exegese medieval distinguiu no sentido espiritual três aspectos diferentes que se relacionam, respectivamente, à verdade revelada, à conduta a ser mantida e à realização final. Daí o célebre dístico de Agostinho da Dinamarca (século XIII): “Littera gesta docet, quid credas allegoria, moralis quid agas, quid speres anagogia”.

Como reação a esta multiplicidade de sentidos, a exegese histórico-crítica adotou, mais ou menos abertamente, a tese da unicidade de sentidos, segundo a qual um texto não pode ter simultaneamente vários significados. Todo esforço da exegese histórico-crítica é de definir “o” sentido preciso de um ou outro texto bíblico nas circunstâncias de sua produção. Mas esta tese choca-se agora com as conclusões das ciências da linguagem e das hermenêuticas filosóficas, que afirmam a polissemia dos textos escritos. O problema não é simples e ele não se apresenta da mesma maneira para todos os gêneros de textos: relatos históricos, parábolas, oráculos, leis, provérbios, orações, hinos, etc. Pode-se, entretanto, dar alguns princípios gerais, levando-se em conta a diversidade das opiniões.”

 

 

“Não se deve concluir que se possa atribuir a um texto bíblico qualquer sentido, interpretando-o de maneira subjetiva. É preciso, ao contrário, rejeitar como inautêntica toda interpretação que seja heterogênea ao sentido expresso pelos autores humanos e no texto escrito por eles. Admitir sentidos heterogêneos equivaleria a cortar a mensagem bíblica de sua raiz, que é a Palavra de Deus comunicada historicamente, e a abrir a porta a um subjetivismo incontrolável.”

 

 

“Em definitivo, poder-se-ia considerar o “sentido pleno” como uma outra maneira de designar o sentido espiritual de um texto bíblico, no caso onde o sentido espiritual se distingue do sentido literal. Seu fundamento é o fato de que o Espírito Santo, autor principal da Bíblia, pode guiar o autor humano na escolha de suas expressões de tal forma que estas últimas expressem uma verdade da qual ele não percebe toda a profundidade. Esta é revelada mais completamente no decorrer do tempo, graças, de um lado, a realizações divinas ulteriores que manifestem melhor o alcance dos textos e graças também, de outro lado, à inserção dos textos no Cânon das Escrituras. Assim é constituído um novo contexto, que faz aparecer potencialidades de sentido que o contexto primitivo deixava na obscuridade.”

 

 

“A exegese católica não procura se diferenciar por um método científico particular. Ela reconhece que um dos aspectos dos textos bíblicos é o de ser a obra de autores humanos, que se serviram de suas próprias capacidades de expressão e meios que a época e o ambiente deles colocavam-lhes à disposição. Consequentemente, ela utiliza sem subentendidos todos os métodos e abordagens científicos que permitem melhor apreender o sentido dos textos no contexto linguístico, literário, sociocultural, religioso e histórico deles, iluminando-os também pelo estudo de suas fontes e levando em conta a personalidade de cada autor (cf Divino afflante Spiritu, E. B., 557). Ela contribui ativamente ao desenvolvimento dos métodos e ao progresso da pesquisa.

O que a caracteriza é que ela se situa conscientemente na tradição viva da Igreja, cuja primeira preocupação é a fidelidade à revelação atestada pela Bíblia. As hermenêuticas modernas colocaram em destaque, lembremo-nos, a impossibilidade de interpretar um texto sem partir de uma “pré-compreensão” de um gênero ou de um outro. A exegese católica aborda os escritos bíblicos com uma pré-compreensão que une estreitamente a cultura moderna científica e a tradição religiosa proveniente de Israel e da comunidade cristã primitiva. Sua interpretação encontra-se, assim, em continuidade com o dinamismo de interpretação que se manifesta no interior da própria Bíblia e que se prolonga em seguida na vida da Igreja. Ela corresponde à exigência de afinidade vital entre o intérprete e seu objeto, afinidade que constitui uma das condições de possibilidade do trabalho exegético.

Toda pré-compreensão comporta, entretanto, seus perigos. No caso da exegese católica o risco existe de atribuir a textos bíblicos um sentido que eles não exprimem, mas que é o fruto de um desenvolvimento ulterior da tradição. A exegese deve evitar este perigo.”

 

 

“Dado que os textos da Santa Escritura têm algumas vezes relações de tensão entre eles, a interpretação deve necessariamente ser múltipla. Nenhuma interpretação particular pode esgotar o sentido do conjunto, que é uma sinfonia a várias vozes. A interpretação de um texto particular deve assim evitar de ser exclusivista.”

 

 

“Os Padres praticam de maneira mais ou menos frequente o método alegórico afim de dissipar o escândalo que poderia ser provocado em certos cristãos e nos adversários pagãos do cristianismo diante de uma ou outra passagem da Bíblia. Mas a literalidade e a historicidade dos textos são muito raramente esvaziadas.

Em suas explicações da Bíblia, os Padres misturam e entrelaçam as interpretações tipológicas e alegóricas de uma maneira mais ou menos inextricável, sempre com finalidade pastoral e pedagógica. Tudo o que esta escrito o foi para nossa instrução (cf 1 Co 10,11).

Persuadidos de que se trata do livro de Deus, portanto inesgotável, os Padres creem poder interpretar uma passagem segundo um determinado esquema alegórico, mas eles estimam que cada um permanece livre para propor outra coisa, contanto que respeite a analogia da fé.”

 

 

“Os exegetas devem explicar também a relação que existe entre a Bíblia e a Igreja. A Bíblia veio à luz em comunidades de fiéis. Ela exprime a fé de Israel e aquela das comunidades cristãs primitivas. Unida à Tradição viva que a precedeu, a acompanha e da qual se alimenta (cf Dei Verbum, 21), ela é o meio privilegiado do qual Deus se serve para guiar, ainda hoje, a construção e o crescimento da Igreja enquanto Povo de Deus. Inseparável da dimensão eclesial esta a abertura ecumênica.

Pelo fato de que a Bíblia exprime uma oferta de salvação apresentada por Deus a todos os homens, a tarefa dos exegetas comporta uma dimensão universal, que requer uma atenção às outras religiões e aos anseios do mundo atual.”

 

 

“A exegese suscita particularmente uma consciência mais viva e mais precisa do caráter histórico da inspiração bíblica. Ela mostra que o processo da inspiração é histórico não apenas porque ele teve seu lugar no decorrer da história de Israel e da Igreja primitiva, mas também porque ele se realizou através da mediação de pessoas humanas marcadas cada uma pela sua época e que, sob a guia do Espírito, tiveram um papel ativo na vida do povo de Deus.

Aliás, a afirmação teológica da relação estreita entre Escritura inspirada e Tradição da Igreja viu-se confirmada e precisada graças ao desenvolvimento dos estudos exegéticos, que levou os exegetas a dar uma atenção maior à influência que teve sobre os textos o ambiente vital onde eles se formaram.”

 

 

“Os exegetas podem ajudar os dogmáticos a evitar dois extremos: de um lado o dualismo, que separa completamente uma verdade doutrinal de sua expressão linguística, considerada como sem importância; de outro lado o fundamentalismo que, confundindo o humano e o divino, considera como verdade revelada mesmo os aspectos contingentes das expressões humanas.

Para evitar esses dois extremos é preciso distinguir sem separar, e assim aceitar uma tensão persistente. A Palavra de Deus exprimiu-se na obra de autores humanos. Pensamento e palavras são ao mesmo tempo de Deus e do homem, de maneira que tudo na Bíblia vem ao mesmo tempo de Deus e do autor inspirado. Não se conclui, no entanto, que Deus tenha dado um valor absoluto ao condicionamento histórico de sua mensagem. Esta é suscetível de ser interpretada e atualizada, isto é, de ser separada, pelo menos parcialmente, de seu condicionamento histórico passado para ser transplantada no condicionamento histórico presente. O exegeta estabelece as bases desta operação que o dogmático continua, levando em consideração os outros loci theologici que contribuem ao desenvolvimento do dogma.”

 

 

“Muitas vezes os textos bíblicos não se preocupam em distinguir preceitos morais universais, prescrições de pureza ritual e ordens jurídicas particulares. Tudo é posto junto. De outro lado, a Bíblia reflete uma evolução moral considerável, que encontra sua perfeição no Novo Testamento. Não é suficiente que uma certa posição em matéria de moral seja atestada no Antigo Testamento (por exemplo, a prática da escravidão ou do divórcio, ou aquela das exterminações em caso de guerra), para que esta posição continue a ser válida. Um discernimento deve ser feito, levando em conta o necessário progresso da consciência moral. Os escritos do Antigo Testamento contêm elementos “imperfeitos e caducos” (Dei Verbum, 15), que a pedagogia divina não podia eliminar de uma só vez. O Novo Testamento mesmo não é fácil de interpretar no domínio da moral, pois muitas vezes ele se exprime através de imagem, ou de maneira paradoxal, ou mesmo provocadora, e a relação dos cristãos com a Lei judaica é objeto aqui de ásperas controvérsias.”

 

 

“Os pontos de vista, efetivamente, são diferentes e devem sê-lo. A primeira tarefa da exegese é discernir com precisão o sentido dos textos bíblicos no próprio contexto deles, isto é, primeiramente no contexto literário e histórico particular desses mesmos textos e em seguida no contexto do Cânon das Escrituras. Realizando esta tarefa, o exegeta coloca em evidência o sentido teológico dos textos, desde que eles tenham um alcance dessa natureza. Uma relação de continuidade é, assim, feita possível entre a exegese e a reflexão teológica ulterior. Mas o ponto de vista não é o mesmo, pois a tarefa da exegese é fundamentalmente histórica e descritiva e limita-se à interpretação da Bíblia.”

 

 

“Textos mais antigos foram relidos à luz de circunstâncias novas e aplicados à situação presente do Povo de Deus. Esta atualização é possível, pois a plenitude do sentido do texto bíblico dá-lhe valor para todas as épocas e todas as culturas (cf Is 40,8; 66,18-21; Mt 28,19-20). A mensagem bíblica pode ao mesmo tempo tornar relativos e fecundar os sistemas de valores e as normas de comportamento de cada geração.

A atualização é necessária, pois, se bem que a mensagem dos textos da Bíblia tenha um valor durável, estes foram redigidos em função de circunstâncias passadas e em uma linguagem condicionada por diversas épocas. Para manifestar o alcance que eles têm para os homens e as mulheres de hoje, é necessário aplicar a mensagem desses textos às circunstâncias presentes e exprimi-la em uma linguagem adaptada à época atual. Isso pressupõe um esforço hermenêutico que visa discernir através do condicionamento histórico os pontos essenciais da mensagem.

A atualização deve constantemente levar em consideração as relações complexas que existem na Bíblia cristã entre o Novo Testamento e o Antigo, pelo fato de que o Novo se apresenta ao mesmo tempo como realização e ultrapassagem do Antigo. A atualização efetua-se em conformidade com a unidade dinâmica assim constituída.

A atualização realiza-se graças ao dinamismo da tradição viva da comunidade de fé. Esta situa-se explicitamente no prolongamento das comunidades onde a Escritura nasceu e foi conservada e transmitida. Na atualização, a tradição tem um papel duplo: ela procura, de um lado uma proteção contra as interpretações aberrantes; ela assegura de outro lado a transmissão do dinamismo original.

Atualização não significa assim a manipulação dos textos. Não se trata de projetar sobre os escritos bíblicos opiniões ou ideologias novas, mas de procurar sinceramente a luz que eles contêm para o tempo presente. O texto da Bíblia tem autoridade em todos os tempos sobre a Igreja cristã e, se bem que passaram-se séculos desde os tempos de sua composição, ele conserva seu papel de guia privilegiado que não se pode manipular. O Magistério da Igreja “não esta acima da Palavra de Deus, mas ele a serve, ensinando somente aquilo que foi transmitido; por mandato de Deus, com a assistência do Espírito Santo, ele a escuta com amor, conserva-a santamente e explica-a com fidelidade” (Dei Verbum , 10). (...)

Graças à atualização, a Bíblia vem iluminar inúmeros problemas atuais, por exemplo: a questão dos ministérios, a dimensão comunitária da Igreja, a opção preferencial pelos pobres, a teologia da libertação, a condição da mulher. A atualização pode também estar atenta a valores cada vez mais reconhecidos pela consciência moderna como os direitos da pessoa, a proteção da vida humana, a preservação da natureza, a aspiração à paz universal.”

 

 

“Uma importante contribuição é trazida por associações e movimentos eclesiais, que colocam em primeiro plano a leitura da Bíblia em uma perspectiva de fé e de engajamento cristão. Numerosas “comunidades de base” centralizam suas reuniões sobre a Bíblia e se propõem um triplo objetivo: conhecer a Bíblia, construir a comunidade e servir o povo. Aqui também a ajuda de exegetas é útil para evitar atualizações mal fundadas. Mas deve-se alegrar em ver a Bíblia tomada por mãos de gente humilde, dos pobres, que podem trazer à sua interpretação e à sua atualização uma luz mais penetrante do ponto de vista espiritual e existencial do que aquela que vem de uma ciência segura dela mesma (cf Mt 11,25).”

 

 

“Se o ecumenismo, enquanto movimento específico e organizado, é relativamente recente, a idéia de unidade do povo de Deus, que esse movimento se propõe de restaurar, é profundamente enraizado na Escritura. Tal objetivo era a preocupação constante do Senhor (Jo 10,16; 17,11.20-23). Ele supõe a união dos cristãos na fé, na esperança e na caridade (Ef4,2-5), no respeito mútuo (Fil 2,1-5) e a solidariedade (1 Co 12,14-27; Rm 12,4-5) mas também e sobretudo a união orgânica ao Cristo, à maneira dos sarmentos e da vinha (Jo 15,4-5), dos membros e da cabeça (Ef 1,22-23; 4,12-16). Esta união deve ser perfeita, à imagem daquela do Pai e do Filho (Jo 17,11.22); a Escritura define seu fundamento teológico (Ef 4,4-6; Gal 3,27-28). A primeira comunidade apostólica é um modelo concreto e vivo dessa união (At 2,44; 4,32).

A maior parte dos problemas que enfrenta o diálogo ecumênico tem relação com a interpretação de textos bíblicos. Alguns desses problemas são de ordem teológica: a escatologia, a estrutura da Igreja, o primado e a colegialidade, o casamento e o divórcio, a atribuição do sacerdócio ministerial às mulheres, etc. Outros são de ordem canônica e jurisdicional; eles concernem à administração da Igreja universal e das Igrejas locais. Outros, enfim, são de ordem estritamente bíblica: a lista dos livros canônicos, algumas questões hermenêuticas, etc.

Se bem que ela não possa ter a pretensão de resolver sozinha todos esses problemas, a exegese bíblica é chamada a trazer ao ecumenismo uma importante contribuição. Progressos notáveis já foram realizados. Graças à adoção dos mesmos métodos e de metas hermenêuticas análogas, os exegetas de diversas confissões cristãs chegaram a uma grande convergência na interpretação das Escrituras, como o mostram o texto e as notas de diversas traduções ecumênicas da Bíblia, assim como em outras publicações.

Deve-se reconhecer, aliás, que em pontos particulares as divergências na interpretação das Escrituras são muitas vezes estimulantes e podem se revelar complementares e enriquecedoras. É o caso quando elas exprimem os valores das tradições particulares de diversas comunidades cristãs e traduzem assim os múltiplos aspectos do Mistério de Cristo.

Como a Bíblia é a base comum da regra de fé, o imperativo ecumênico comporta para todos os cristãos um apelo premente a reler os textos inspirados na docilidade ao Espírito Santo, na caridade, na sinceridade, na humildade, a meditar esses textos e a vivê-los de maneira a chegar à conversão do coração e à santidade de vida, as quais, unidas à oração para a unidade dos cristãos, são a alma de todo o movimento ecumênico (cf. Unitatis redintegratio, 8). Seria preciso para isso tornar acessível ao maior número possível de cristãos a aquisição da Bíblia, encorajar as traduções ecumênicas — pois um texto comum ajuda uma leitura e uma compreensão comuns — promover grupos de oração ecumênicos afim de contribuir com um testemunho autêntico e vivo à realização da unidade na diversidade (cf Rm 12,4-5).”

 

 

“A exegese bíblica preenche, na Igreja e no mundo, uma tarefa indispensável. Querer se dispensar dela para compreender a Bíblia seria ilusão e manifestaria urna falta de respeito para com a Escritura inspirada.

Pretendendo reduzir os exegetas ao papel de tradutores (ou ignorando que traduzir a Bíblia já é fazer obra de exegese) e recusando de segui-los em seus estudos, os fundamentalistas não se dão conta de que, por um louvável cuidado de inteira fidelidade à Palavra de Deus, em realidade eles entram em caminhos que os afastam do sentido exato dos textos bíblicos assim como da plena aceitação das consequências da Encarnação. A Palavra eterna encarnou-se em uma época precisa da história, em um ambiente social e cultural bem determinado. Quem deseja entendê-la deve humildemente procurá-la lá onde ela se tornou perceptível, aceitando a ajuda necessária do saber humano. Para falar aos homens e às mulheres, desde a época do Antigo Testamento, Deus explorou todas as possibilidades da linguagem humana, mas ao mesmo tempo ele teve também que submeter sua palavra a todos os condicionamentos dessa linguagem. O verdadeiro respeito pela Escritura inspirada exige que sejam realizados todos os esforços necessários para que se possa compreender bem seu sentido. Seguramente não é possível que cada cristão faça pessoalmente as pesquisas de todos os gêneros que permitam compreender melhor os textos bíblicos. Esta tarefa é confiada aos exegetas, responsáveis nesse setor pelo bem de todos. (...)

A natureza mesma dos textos bíblicos exige que para interpretá-los, continue-se o emprego do método histórico-crítico, ao menos em suas operações principais. A Bíblia, efetivamente, não se apresenta como uma revelação direta de verdades atemporais, mas como a atestação escrita de uma série de intervenções pelas quais Deus se revela na história humana. A diferença de doutrinas sagradas de outras religiões, a mensagem bíblica é solidamente enraizada na história. Conclui-se que os escritos bíblicos não podem ser corretamente compreendidos sem um exame de seu condicionamento histórico.”

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Grandes mulheres que eu não comi, entre elas Vera Fischer, as que sim, e o último salto do goleiro Castilho – Palmério Dória

Editora: Casa Amarela

ISBN: 978-85-868-2155-4

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 108

Sinopse: O jornalista e escritor Palmério Dória narra suas peripécias nesta autobiografia, desde a infância em Santarém, na Amazônia, até a chegada ao sudeste brasileiro, em que sua condição de jornalista o colocou diante de mulheres cintilantes como Vera Fischer, Gretchen, Narcisa Tamborindeguy, Glória Maria, Brigitte Bardot e muitas outras. Além delas, passeiam pelo livro figuras políticas como Jânio Quadros, Jader Barbalho, Heitor Aquino Ferreira e outros.

Filho de goleiro, sobrinho de goleiros, e ele mesmo um goleiro frustrado, Palmério sempre teve Castilho como ídolo no futebol. Adorava-o pela firmeza, pelas defesas impossíveis, pelas pontes e espalmadas. E entendeu-o perfeitamente quando o grande arqueiro, imortalizado no Fluminense, saltou pela última vez, jogando-se do apartamento da ex-mulher ao receber o mais duro não, o não do amor.



“Perfeição era o cinema. Os fundos do cine Olímpia davam para minha casa. A tela ficava praticamente colada na parede da sala em que eu dormia, geralmente ouvindo os sons dos filmes, os diálogos ininteligíveis, a trilha sonora, os tiroteios... Para encontrar Super-Homem, Rocky Lane, Tarzan e Hopalong Cassidy, bastava descer a minha rua e dobrar a esquina. Pagar eu não pagava, era xodó do seu Loureiro, dono do cinema, uma das figuras mais benignas do mundo. Ali, a cortina do espetáculo se abria com toque suave da orquestra de Glenn Miller. Se existia uma realidade era aquela. Tá certo que os chapéus dos mocinhos e bandidos não caíam nunca, mesmo na maior pancadaria, mas os óculos do pessoal do Matrix também não caem até hoje.”

 

 

“Quase matei o Cornélio. Não raras vezes almoçava com a família dele. Depois, os mais velhos iam direto para a sesta. De vez em quando, o Cornélio também desaparecia. Fiquei intrigado e resolvi segui-lo pelos meandros da casa. Dei com ele no galinheiro, dando uma na pobre galinha, quase a ponto de gozar ou coisa que o valha. Gritei:

– Cornélio, olha a tua mãe!

Cornélio estrebuchou ali na hora, quase teve uma congestão, mas não teve sequelas.”

 

 

“Mamãe saiu e ficamos na varanda ali numa boa com a Ismênia, que sumiu da nossa vista. Daí a pouco ouvimos um bafafá no quarto dos meus pais. Mamãe tinha voltado e encontrado papai e Ismênia na cama, na maior farra de cobertor. Eu não conseguia entender nada daquela confusão. Só ouvia os gritos da minha mãe. Papai saiu do quarto e mamãe continuou gritando com a Ismênia lá dentro. Aí, mamãe saiu atrás de papai, eu atrás dela. Ele estava no escritório, descalço, sem camisa, sentado numa cadeira. Parecia brincar com a Mauser, que ganhara de presente de seu Elias Hage, apontada na têmpora. Mamãe deu um berro, voou pra cima, bateu na mão dele, a arma disparou. Corri também, e ele continuava ali sentado, o olhar perdido, um filete de sangue na testa. A bala fez um buraco redondíssimo na porta de vidro de uma estante.

Não demorou um segundo, nossa porta estava coalhada de gente que ouviu o disparo. Logo, o padre Prudêncio, que fiscalizava a vida de Deus e do mundo, adentrou o escritório, de batina marrom-escura e alpercatas:

– Meu filho, por que isso?

Papai recobrou a cor, a dignidade e, com uma energia furibunda, botou o padre no olho da rua, trancou a porta e foi para o escritório conversar com a mamãe.

Achei muito bacana papai fazer isso, pois a gente se pelava de medo da Igreja e do padre Prudêncio. Meus pais, graças a Deus, não eram nada religiosos.”

 

 

“Uma cena de pugilato no pátio do recreio do Colégio do Carmo. De um lado, eu. Do outro, o padre-conselheiro. Eu sem a camisa de aluno salesiano. Ele com a batina bege arregaçada. O motivo: só nós dois é que sabíamos.

O rolo começou bem antes. O padre-conselheiro era confessor das irmãs do Colégio Dom Bosco, também salesianas, só para meninas, onde fiz minha primeira-comunhão, ainda de calças curtas. No confessionário contei todas as minhas estripulias sexuais. Mas, ajoelhado ali, notei que ele ficou especialmente incomodado com essas histórias, principalmente a da Ita. Pediu para eu repetir tudo, e me deu uma penitência absurda, perto dos míseros padres-nossos e ave-marias que deu para os outros.

Dali para frente não deixava de me fuzilar com os olhos toda vez que cruzava comigo em sua Vespa, a caminho do Dom Bosco, a uma quadra de casa. Enfim, eu sabia porque ele me olhava assim. Para ele, eu era a encarnação do demo. Eu pressentia que tinha um encontro marcado com ele nas profundas do inferno. E assim aconteceu.

Eu não usava mais calças curtas, já era rapazinho quando entrei no Colégio do Carmo, só para homens, no bairro da Cidade Velha, uma versão de Lisboa em Belém. Era ele quem fazia a chamada das turmas no pátio do recreio para a entrada nas salas de aula. Ficava num tablado, com a batina sebenta e os óculos de fundo de garrafa com aros de metal. Ostensivamente, meia dúzia de vezes olhou pra mim e disse:

– Tu não. Tu esperas.

Eu esperava pacientemente todo mundo entrar, ali isolado no pátio de areia. Quando não tinha mais ninguém, ele me liberava. Era uma situação absolutamente insustentável. Meus colegas perguntavam qual era a dele comigo, mas eu não podia dizer. Como Gary Cooper em Matar ou Morrer, cheguei naquele dia disposto a encerrar a questão. Em vez de entrar na sala, gritei:

– Desce dessa porra e vem cá, filho da puta!

Ele veio arregaçando a manga, eu tirei a blusa e o pau comeu, para delírio de toda a galera, que saía das salas para assistir ao espetáculo no pátio central, a gente rolando aos sopapos na areia. Não demorou muito para que os outros padres, esses de batina negra, apartassem. Lá estava eu de novo na sala de um padre-diretor por alguns crimes de amor. Claro que ele queria saber a razão da briga. O padre-conselheiro se fechou em copas. Mas eu sabia que, se ficasse calado, o meu destino era a expulsão. Abri:

– Ele tá me fazendo chantagem com uma coisa que eu contei na confissão.

O padre-diretor, um francês com sotaque carregado, arregalou os olhos, perguntou para o padre-conselheiro se era verdade, mas ele continuou calado. Então resolveu me dispensar.

Bem, esse padre-conselheiro não regulava mesmo. Alguns anos depois, ateou fogo na roupa e morreu numa cela do Hospício Juliano Moreira.”

 

 

“Na época, na globo, todos nós comíamos Vera Fischer... com os olhos. Em todas as ilhas de VT, alguém estava fazendo, em algum momento, uma cópia do vídeo que pirou a emissora:

Completamente fora do script, Vera Fischer livra-se da toalha. Marcos Paulo se retrai quando ela lhe dá um amasso au naturel. Perplexidade, pânico e deslumbramento. Com Marcos Paulo fora de combate, Vera Fischer começa a dançar no estúdio como se fosse uma bailarina do Momix. Gira, gira, gira. As câmaras ali ligadas, ela em plena vertigem. De repente, joga-se no sofá, os joelhos separados. E a câmara fecha ali, na prochaska. Nesse momento volta a si, fecha as pernas, os olhos arregalados.

A partir daquele momento, inaugura-se um novo comércio na Globo. O Projac ainda não existia. A produção e o jornalismo conviviam na Von Martius, no Jardim Botânico. E não havia sala em que não estivesse circulando uma cópia do VT. Era um ibope maior que o do Fantástico.

Play, roda VT, congela na prochaska. Alguns VTs já estavam amarelados de tanto uso, nas salas dos altos executivos da Vênus Platinada, nas ilhas de edição. Reuniões ou festas nas casas de funcionários da Globo eram interrompidas para uma exibição especial. O “Vale a Pena Ver de Novo” era de manhã, de tarde, de noite.

Nunca uma prochaska foi tão requisitada em toda a história da televisão. Desde a maconha da lata não pintava nada tão estimulante para os sentidos em todo o Rio. Mas, assim como a maconha da lata, também de repente, não mais que de repente, os vídeos de Vera Fischer, que se multiplicavam mais que os shimus das histórias de Ferdinando, sumiram de circulação.

Não foi o caso de Vera Fischer, uma atriz à prova de escândalo. Um episódio como esse, que poderia avacalhar a vida de qualquer estrela, nem chamuscou a nossa deusa pré-Madonna. Ao contrário. Mito é mito.

Muitos anos depois, Vera continuava aprontando. (...)

Resolvi não mais ir para uma festa no apartamento de Zico Rodrigues e da socialite Ruth Sabbá, em São Conrado, onde rolou a seguinte cena:

Vera Fischer sobe numa espécie de baú, levanta o vestido, baixa a calcinha e diz para o empresário da noite Zeca Priolli, sócio do Canecão:

– Você acha que vai comer a minha xoxota, velho babaca?

O número se repete pelo menos três vezes, durante o resto da noite e o começo da manhã, de frente para o Atlântico.

Detalhe: Zeca Priolli, tremendo boa-praça e – principalmente – marido de Fátima, uma das mais belas mulheres do Rio, não é velho nem tampouco babaca. Babaca sou eu, que perdi esse espetáculo.”