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quinta-feira, 28 de maio de 2026

É possível unir o Brasil? (Parte I), de Helder Maldonado

Editora: Planeta

ISBN: 978-85-422-4024-5

Opinião: ★★★☆☆

Páginas: 144

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Sinopse: Em É possível unir o Brasil?, Helder Maldonado mergulha nas fraturas históricas e culturais de um país que, há muito, deixou de acreditar no mito da “brasilidade cordial”. Com ironia e lucidez, o autor desmonta a fantasia de uma nação alegre e harmoniosa – uma herança ideológica que vai de Gilberto Freyre à Rede Globo – e revela o que sempre sustentou o Brasil real: um projeto de dominação interna, que transformou indígenas, negros, pobres e nordestinos nos próprios “inimigos nacionais”.

Do declínio do futebol como símbolo de unidade à fragmentação cultural da era digital, Maldonado mostra como a promessa de um “país de todos” se esfarela diante da desigualdade, do ressentimento e da nostalgia de um passado que nunca existiu. Mas, entre o deboche e o desalento, há também um gesto de afeto: o reconhecimento de que, mesmo entre ruínas, o Brasil ainda pulsa contraditório, vibrante e impossível de resumir.

Misturando ensaio, crônica e sátira política, o livro é uma reflexão contundente sobre o que significa, hoje, ser brasileiro – e se ainda há algo capaz de nos unir além da própria desilusão.



“É por isso que a resposta para a pergunta que dá nome a este livro é: depende. Para unir o Brasil, a direita que se diz democrática precisaria primeiro parar de fingir que há equivalência entre os dois lados. O fingimento foi adotado por algumas figuras públicas em 2018, como o multimilionário João Amoêdo, que demorou quatro anos para notar quão nocivo o bolsonarismo era para o Brasil. Ou pelo próprio Lula, ao criar um governo de coalizão em que coube uma figura como André Fufuca, do União Brasil, no Ministério do Esporte – no lugar que antes havia sido de Ana Moser.

Em resumo: para garantir a governabilidade e uma frente amplíssima, Lula topou tirar uma medalhista olímpica do Ministério do Esporte para nomear um sujeito que nunca praticou atividade física antes (pelo menos publicamente) e que, ainda por cima, é filiado a um partido coalhado de bolsonaristas.5

Esse foi o meio que Lula encontrou de sinalizar a tentativa de união até mesmo com aqueles que vão tentar derrubá-lo na primeira oportunidade. Se vai dar certo no longo prazo, é um debate ainda em aberto.”

5 FARFAN, Tainá; SOARES, Jussara; SILVA, Brenda. Após entrada de Fufuca no governo, PP se posiciona contra algumas bandeiras de Lula. CNN Brasil, 20 set. 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/apos-entrada-de-fufuca-no-governo-pp-se-posiciona-contra-algumas-bandeiras-de-lula/. Acesso em: 22 maio 2025.

 

 

Um País Que Sempre Se Odiou (Em Segredo)

Antonio Candido dizia que o mito do homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda é mal-compreendido, porque na realidade não pressupõe a bondade do cidadão brasileiro, e sim o predomínio de comportamentos de aparência afetiva.6

Para atualizar o conceito, poderíamos dizer que o cidadão de bem não é de fato alguém determinado a fazer o bem, mas alguém que sustenta um conjunto de valores em público que vende a ilusão de ser um sujeito trabalhador, religioso, conservador e correto. No sigilo, porém, esse indivíduo trai a mulher com garotas de programa e travestis, gabarita o Código Penal, participa de algum trambique, é caloteiro e só vai à igreja para mostrar que adquiriu uma nova SUV e exibir os dentes de porcelanato parcelados em doze vezes.

Aqueles que fingem espanto diante do país dividido ignoram que, em maior ou menor grau, as coisas não eram tão diferentes antes. E os requintes de crueldade representam mais o Brasil que o futebol e o samba. A história por aqui é marcada por violência, tortura e conflitos. Guerras civis permearam esses cinco séculos, mas ganharam nomes menos impactantes, como Revolta ou Inconfidência. Quando falamos nisso, aliás, é importante dizer que os embates entre povo, elites locais e governo sempre terminam com alguma cena que seria proibida para menores de dezoito anos em filmes da Netflix.

Ignoramos que um dos nossos feriados, o Dia de Tiradentes, em 21 de abril, celebra um acontecimento de extrema violência. Inconfidentes mineiros rebelados contra o aumento da carga tributária, que afetava principalmente a classe média, foram condenados à morte em praça pública a mando da Coroa portuguesa, em 1792. O dentista, militar e minerador Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes, foi enforcado por contestar o aumento dos impostos.

Outra data eivada de sangue é 20 de novembro, que celebra a Consciência Negra e que a partir de 2024 passou a ser feriado nacional. Esse foi o dia da morte de Zumbi, em 1695. Conhecido popularmente como Zumbi dos Palmares, esse líder quilombola pernambucano incomodou as autoridades locais ao lutar pela emancipação de seu povo. O resultado da subversão foi a eliminação do revolucionário, que teve a cabeça cortada pelo capitão Furtado de Mendonça. Sua cabeça foi salgada e entregue ao governador Melo e Castro, um troféu a ser ostentado como na comemoração de uma copa do mundo, uma medalha olímpica. O sertanista que caçou Zumbi recebeu de Dom Pedro II um prêmio de 50 mil réis pela façanha.

Se hoje em dia abrimos um portal de notícias e deparamos com a polícia rodoviária federal utilizando o porta-malas de uma viatura como câmara de gás improvisada para matar um homem que estava conduzindo sua moto sem habilitação,7 tendemos a perguntar: como foi que o Brasil ficou tão violento?

A resposta, infelizmente, é: não ficou, sempre foi. Nós é que esquecemos e normalizamos as violências cotidianas. Tomamos cerveja e assamos churrasco no dia em que uma figura histórica foi decapitada, teve a cabeça salgada e cujo assassino ainda recebeu um prêmio em dinheiro do imperador por ter metido a faca no pescoço de alguém que lutava para emancipar negros.

O Brasil sempre se odiou, mesmo que em segredo ou dissimuladamente. Fingimos muito bem que o problema começou agora, porque aderimos à tática de deixar embaixo de escombros históricos as tragédias que antecederam nossa geração, sempre anistiadas para não melindrar os verdadeiros culpados.”

6 MANZATTO, Rômulo. O Prefácio de Antonio Candido a Raízes do Brasil. Economia & História: difusão de ideias econômicas. Informações Fipe, nov. 2020, p. 105-107. Disponível em: https://downloads.fipe.org.br/publicacoes/bif/bif482-105-108.pdf. Acesso em: 22 maio 2020.

7 FÉLIX, Thiago. Relembre o caso de Genivaldo, morto asfixiado em carro da PRF. CNN Brasil, 26 nov. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/juri-do-caso-genivaldo-morto-asfixiado-em-carro-da-prf-ocorre-hoje-relembre/. Acesso em: 7 abr. 2025.

 

 

Ter um Porsche é uma das maneiras de se distinguir, porque o novo rico é um aspirante social, que quer mostrar para a ralé que venceu. Mesmo que muitas vezes só ocupe essa posição confortável temporariamente ou por mero acaso, depois de montar um negócio surpreendentemente bem-sucedido, por conseguir contatos que lhe facilitam o acesso a locais aos quais ele jamais penetraria, por ter aplicado golpes ainda não descobertos, por ter praticado crimes, por ter recebido uma herança ou simplesmente porque teve a sorte de ganhar um prêmio na loteria. (...)

Há os que se adaptam melhor e não deixam o progresso financeiro subir à cabeça, mas quem quer se encaixar em todos os estereótipos do novo rico puro-sangue será corroído por esses cacoetes. Que frequentemente são alvo de piada, como se viu com o Rei do Camarote em 2013.

Em uma sociedade dominada por influencers em ternos atochados e barba de minoxidil que vivem de vender cursos e querem te convencer de que são ricos posando ao lado de carrões alugados enquanto mostram Rolex falsos nos vídeos, ser uma caricatura ambulante é o novo normal para quem quer aparentar ser o que não é.

Se falei sobre a distinção da elite, não estava passando pano para ricaços. A questão é que o código de conduta deles é outro, e a discrição é a melhor linha de ação. A aristocracia se envolve em muitos crimes também, mas geralmente dá preferência à corrupção em conluio com governos e rombos financeiros.

Basta assistir ao documentário Democracia em vertigem para perceber que a diretora, Petra Costa, demonstra uma enorme culpa cristã pelo fato de sua família, dona da construtora Andrade Gutierrez, estar envolvida pelas falcatruas que tornaram Brasília o que é.33

Para nós, que andamos por aí com carros usados financiados, ter um Porsche parece ser indicativo de ter grana demais. Mas nenhum desses proprietários e assassinos em potencial chegará perto de saber o que é riqueza de verdade.

Sabe o que é realmente ter dinheiro até o fim da vida sem se preocupar em trabalhar? É ser como Narcisa Tamborindeguy, que estudou na Sorbonne quando o acesso era mais restrito do que é hoje. A família materna de Narcisa era tão, mas tão rica que suas fazendas acumulavam 30 quilômetros de praias, englobando todo o litoral das cidades de Campo dos Goytacazes, São João da Barra e Quissamã.34

Esses motoristas de Porsche são o que chamo de dublê de rico. Se fossem milionários de verdade, mesmo com mau gosto, morariam em alguma mansão neoclássica cheia de colunas jônicas e portas de 20 metros de altura, como a da casa do Gusttavo Lima, imóvel símbolo da arquitetura greco-goiana.

Os porscheiros são apenas mais um sintoma do capitalismo tardio, de dinheiro feito na internet, em esquemas ilícitos ou empresinhas mambembes que cresceram tão rápido quanto o ego frágil de quem ainda se ressente de um passado de fodidez severa e que aposta que para não voltar a esse lugar é preciso passar por cima de todos.35 Nem que seja com o próprio Porsche.”

33 A FAMÍLIA de Petra: herança da Andrade Gutierrez e pai deputado do PMDB. Veja, 17 jan. 2020. Disponível em: https://veja.abril.com.br/brasil/a-familia-de-petra-heranca-da-andrade-gutierrez-e-pai-deputado-do-pmdb/. Acesso em: 7 abr. 2025.

34 NARCISA. In: WIKIPÉDIA: a enciclopédia livre, [s. d.]. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Narcisa. Acesso em: 22 maio 2025.

35 BITTENCOURT, Julinho. Pai do playboy do Porsche é denunciado pela ex-mulher por tortura, agressão e ameaça. Fórum, 24 abr. 2024. Disponível em: https://revistaforum.com.br/brasil/2024/4/24/pai-do-playboy-do-porsche-denunciado-pela-ex-mulher-por-tortura-agresso-ameaa-157822.html. Acesso em: 7 abr. 2025.

 

 

Em matéria especial, a jornalista Juliana Gragnani, da BBC News Brasil, mostrou que o agronegócio e membros do governo Bolsonaro financiaram ou participaram de palestras que reforçavam o terraplanismo. Um dos queridinhos daquele momento era o meteorologista Ricardo Felício, professor de Geografia da USP, para quem o tema aquecimento global foi uma maneira que os países de primeiro mundo encontraram para congelar o desenvolvimento de nações como o Brasil. Decolonial ele, não é mesmo?

Quem dera. Era apenas um tiozão negacionista climático com diploma. Em palestras para fazendeiros de soja, cafeicultores, sindicatos rurais, faculdades ligadas à agronomia e empresas de fertilizantes, os negacionistas climáticos têm uma agenda bem clara e parecida: absolver ruralistas da interferência nas mudanças climáticas.41

Em resumo, tem ricaço pagando cientista para ouvir o que quer sobre o próprio negócio, depois de ficar ofendido por ter sido acusado de colaborar com o aquecimento global. E com isso é aberto um novo portal de estudo sobre masculinidade frágil e a dificuldade em ouvir críticas. Entre os contratantes dessas palestras estava a Aprosoja do Mato Grosso, braço da entidade que se aliou a Sérgio Reis para tentar dar um ultimato ao STF em 7 de setembro de 2021.42 Lembra? Felício se tornou mais conhecido após dar uma entrevista no programa do Jô Soares em 2012 na qual negava o efeito estufa.43 E, como não existem limites para o negacionismo, em seu canal no YouTube esse professor chamou a pandemia de “fraudemia” e declarou que as vacinas causam danos maiores que a covid-19. As falas revoltaram os alunos da USP, que também acusaram o professor de não comparecer às aulas,44 o que, pensando bem, era uma grande vantagem para os estudantes. Anos antes, em 2018, ele concorreu ao cargo de deputado federal pelo PSL, mas não conseguiu se eleger num pleito que deu espaço até mesmo para a Carla Zambelli.45

41 GRAGNANI, Juliana. Agronegócio banca palestras que espalham mito de que aquecimento global pelo homem é fraude. BBC News Brasil, 18 nov. 2021. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-59310009. Acesso em: 7 abr. 2025.

42 JUNQUEIRA, Caio. Presidente da Aprosoja é alvo de operação da PF. CNN Brasil, 20 ago. 2021. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/politica/presidente-da-aprosoja-e-alvo-de-operacao-da-pf/. Acesso em: 7 abr. 2021.

43 JÔ SOARES - Aquecimento global uma farsa - Ricardo Felicio. YouTube, 2012. 1 vídeo (16min39s). Publicado pelo canal J.A. Puente. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=bOV1gZsxERg. Acesso em: 7 abr. 2025.

44 SATIE, Anna. USP: alunos dizem que professor de vídeos negacionistas não aparece na aula. UOL, 26 ago. 2021. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2021/08/26/ricardo-augusto-felicio-usp-sindicancia.htm. Acesso em: 7 abr. 2021.

45 RESULTADOS eleições 2018: Prof. Ricardo Felicio - Deputado Federal - São Paulo. Gazeta do Povo, 7 out. 2018. Disponível em: https://especiais.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2018/resultados/municipios-sao-paulo/deputado-federal-candidato-prof-ricardo-felicio-1727/. Acesso em: 15 abr. 2025.

 

 

Você mesmo já deve ter deparado com essa arrogância por aí quando criticou o agro em alguma rede social. Se não, faça o teste. Não vai demorar muito para aparecer alguém da área dizendo que, se ele não plantar, você não come. Ou até pior: pode surgir um liberal criado em apartamento, que nunca pisou descalço nem na área social do condomínio, que advoga pro bono para milionários na internet.

O governo de Jair Bolsonaro se distinguiu das outras experiências de direita que tivemos no Brasil porque compreendeu melhor que o país se tornou uma mistura de narco e agroestado não oficial, principalmente nas regiões Norte e Centro-Oeste.

Essa nem tão recente configuração do nosso país teve seu pontapé inicial nos anos 1980, com agricultores, pecuaristas e traficantes do Sul e Sudeste que subiram o mapa para desbravar a Amazônia Legal e o Matopiba por meio de garimpo, grilagem, desmatamento49 e importação de pasta-base de cocaína, aproveitando a logística fronteiriça que facilita esse empreendimento altamente lucrativo.

Não é à toa, também, que os integrantes desses setores foram tão gratos ao governo do Jair, que ajudou a desburocratizar o Ibama e órgãos reguladores, o que iniciou um processo de “libera geral” para o garimpo, minou o sistema de multas para quem cometesse crimes ambientais e deu um empurrãozinho, mesmo que sem querer, para o desenvolvimento de uma nova e pujante área na economia nacional: o narcogarimpo.”

49 FAZENDEIROS jogam agrotóxico sobre Amazônia para acelerar desmatamento. Jornal do Brasil, 19 nov. 2021. Disponível em: https://www.jb.com.br/pais/2021/11/1034144-fazendeiros-jogam-agrotoxico-sobre-amazonia-para-acelerar-desmatamento.html. Acesso em: 7 abr. 2025.

 

 

Enquanto a Globo insiste em louvar o agro, a gente precisa ter uma atitude incisiva ao apontar que esse é um dos segmentos mais problemáticos para o país. Seus representantes são tão arrogantes que se consideram os responsáveis por alimentar o mundo. Você já deve ter ouvido o papo de que, se o agro não planta, a cidade não janta.

Sim, e, se a cidade não desenvolve tecnologia, vocês não têm colheitadeira, maquinário nem agrotóxico. Coloquem dois bois puxando uma carroça para arar suas terras então. Mas é aquilo: assumir que são dependentes de ciência e tecnologia, que não são e nunca foram desenvolvidas por eles, já seria pedir demais. É melhor aguardar atitudes mais simples, como meter o correntão em dois tratores e derrubar florestas para plantar soja e construir um Centro de Tradições Gaúchas (CTG).

A vitória de Lula, mais do que marcar o retorno de um projeto ideologicamente diferente daquilo que eles desejam, não é benquista pelo agro por um motivo muito simples: com o Jair era mais fácil destruir, explorar, assediar e ser uma ameaça permanente aos seus subordinados e ao meio ambiente.

Só que o Brasil não pode nem deve ser submisso a essa arrogância criminosa com pitadas de psicopatia que nos torna reféns de monocultura, extrativismo e chantagens que vão adiar eternamente a tomada de decisão sobre uma reforma agrária.”

 

 

“Perceba que nesses últimos quatro anos parte da imprensa passou por cima de valores, de convicções e da moralidade em busca de uma figura, qualquer que fosse, que pudesse encabeçar um projeto ultraliberal capaz de atender aos anseios desses grupos empresariais e de seus patrocinadores. O desespero é tão grande que até mesmo Bolsonaro serviu enquanto foi conveniente.

O problema é que, simultaneamente, os mesmos grupos fingem não saber como se deu a escalada da extrema direita no Brasil toda vez que as coisas saem do controle, como no fatídico 8 de janeiro.

Não sei se devo contar ou apontar dedos, mas, quando naturalizou figuras como Bolsonaro, Moro, Guedes e generais entreguistas, a imprensa colaborou para que a situação do Brasil se tornasse incontrolável.

As baratas não voltarão tão cedo ao bueiro de onde saíram.”

 

 

Assim como os X-Men são odiados pelo mundo que juraram proteger, os bolsonaristas odeiam o país que juraram proteger. Tropicália, Modernismo, Desenvolvimentismo, Cinema Novo, Carnaval, Amazônia, Samba, povos indígenas, religiões afro, Funk? Tudo lixo cultural da pior qualidade criado por comunistas e bandidos vagabundos.

Não importa o reconhecimento em nível internacional que cada um desses movimentos tenha: o patriotismo por aqui é sui generis, e o quarentão de bandana surdo funcional jamais reconhecerá que Villa-Lobos, João Gilberto e Os Mutantes são melhores que o Iron Maiden, mesmo que o Bruce Dickinson em pessoa emitisse esse tipo de opinião.

Mas não é tão difícil compreender por que o ideal de Brasil construído no modernismo, no varguismo, no lulismo e até mesmo na ditadura ficou pelo caminho, virou peça de museu ou só é celebrado por uma parcela ínfima da sociedade que frequenta sarau no Sesc.

Com o crescimento do fascismo e uma dominação evangélica da cultura brasileira, apela-se muitas vezes para um passado idealizado, no qual o carnaval era respeitoso e não havia putaria, a música era de qualidade, a TV não tinha lacração, o Brasil era cristão, o preto era honesto e não vivia pendurado em programas sociais e o indígena era um guerreiro, e não um encostado que espera cesta básica da Funai e passa o dia apostando no Tigrinho. Nada disso é verdade. São ecos de uma nostalgia que só aconteceu no desejo da pessoa.

Mas junte essa tendência de admirar um passado inexistente para reagir contra a modernidade com a influência norte-americana sobre os padrões de patriotismo e cultura e, então, teremos uma criatura disforme que toma as ruas em micaretas ostentando a bandeira do Brasil, mas sem se esquecer também das flâmulas dos Estados Unidos e de Israel.

O Brasil para o patriota que odeia tudo que é brasileiro não pode ser um Brasil influenciado pelas culturas ameríndia e africana, que são de segunda classe na visão deles. Há que ser uma cópia mimeografada dos Estados Unidos principalmente. O que só pode ser possível se atrelado a um apagamento sistêmico e histórico das culturas das minorias no país.131 (...)

Eles não amam o Brasil. Batem continência para a bandeira norte-americana, adorariam ser governados pelo Trump, andar em enormes caminhonetes e ter macarrão com queijo para o jantar. No fim, subvertem o aforismo de Samuel Johnson, que diz que o último refúgio do canalha é o patriotismo. Por aqui, é sempre o primeiro.”

131 GARIGHAN, Grégorie. Epistemicídio e o apagamento estrutural do conhecimento africano. UFRGS, Jornal da Universidade, 20 maio 2021. Disponível em: https://www.ufrgs.br/jornal/epistemicidio-e-o-apagamento-estrutural-do-conhecimento-africano/. Acesso em: 7 abr. 2025.

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