quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Curso de filosofia positiva / Discurso sobre o espírito positivo / Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo (Os Pensadores) – Auguste Comte

Editora: Abril cultural
Introdução, tradução e notas: José Arthur Giannotti
Opinião: ★★☆☆☆
Páginas: 116 

Curso de filosofia positiva
“A inteligência humana, reduzida a ocupar-se apenas de investigações suscetíveis duma utilidade prática imediata, encontrar-se-ia por isso, como justamente observou Condorcet, inteiramente impedida em seu progresso, mesmo a propósito dessas aplicações a que teria imprudentemente sacrificado os trabalhos puramente especulativos. Pois as aplicações mais importantes derivam constantemente de teorias formadas com simples intenção científica, e que muitas vezes foram cultivadas durante vários séculos sem produzir resultado prático algum. Pode-se disso citar um exemplo bem notável, tomando as belas especulações dos geômetras gregos sobre as seções cônicas que, depois duma longa série de gerações, serviram, determinando a renovação da astronomia, para conduzir finalmente a arte da navegação ao grau de aperfeiçoamento que atingiu nos últimos tempos, ao qual nunca teria chegado sem os trabalhos tão puramente teóricos de Arquimedes e de Apolonius. Por isso Condorcet pode dizer com razão: “O marinheiro, o qual uma exata observação da longitude preserva do naufrágio, deve a vida a uma teoria conhecida dois mil anos antes, por homens de gênio que tinham em vista simples especulações geométricas”.”


Discurso sobre o espírito positivo
“Tal é a participação especial do estado metafísico propriamente dito na evolução fundamental de nossa inteligência. Esta, antipática a toda mudança brusca, pode assim elevar-se, quase de maneira insensível, do estado puramente teológico ao estado francamente positivo, embora essa situação equívoca se aproxime, no fundo, muito mais do primeiro do que do último. As especulações dominantes nele conservaram o mesmo caráter essencial de tendência habitual aos conhecimentos absolutos. Só a solução sofreu uma transformação notável, capaz de melhor facilitar o crescimento das concepções positivas. Como a teologia, a metafísica tenta, antes de tudo, explicar a natureza íntima dos seres, a origem e o destino de todas as coisas, o modo essencial de produção de todos os fenômenos. Mas, em vez de empregar para isso agentes sobrenaturais propriamente ditos, ela os substitui progressivamente por essas entidades ou abstrações personificadas, cujo uso, verdadeiramente característico, permitiu muitas vezes designá-las sob o nome de ontologia. É muito fácil observar hoje tal maneira de filosofar que, embora preponderando sobre os fenômenos mais complicados, apresenta cotidianamente, até mesmo nas teorias mais simples e menos atrasadas, tantos traços apreciáveis de sua longa dominação. A eficácia histórica dessas entidades resulta diretamente de seu caráter equívoco, pois, em cada um desses seres metafísicos, inerente ao corpo correspondente, sem confundir-se com ele, o espírito pode à vontade, conforme esteja mais perto do estado teológico ou do estado positivo, ver ou uma verdadeira emanação da potência sobrenatural, ou uma simples denominação abstrata do fenômeno considerado. Não é mais a pura imaginação que domina, embora não seja ainda a verdadeira observação. Mas o raciocínio adquire muita extensão e se prepara confusamente para o exercício verdadeiramente científico. Deve-se, de resto, notar que sua parte especulativa se encontra primeiramente muito exagerada, em virtude dessa tendência obsessiva de argumentar em lugar de observar, que, em todos os gêneros, caracteriza habitualmente o espírito metafísico, mesmo entre os seus mais eminentes órgãos. Uma ordem de concepções tão flexível, que de modo algum comporta a consistência própria durante tanto tempo ao sistema teológico, deve chegar, aliás muito mais rapidamente, à unidade correspondente, graças à subordinação gradual das diversas entidades particulares a uma única entidade geral, a natureza, destinada a determinar o fraco equivalente metafísico da vaga ligação universal resultante do monoteísmo.
Para melhor compreender, sobretudo em nossos dias, a eficácia histórica de tal aparelho filosófico, importa reconhecer que, por sua natureza, só é espontaneamente suscetível duma simples atividade crítica ou dissolvente, até mesmo mental e com maior razão social, sem nunca poder organizar algo que lhe seja próprio. Radicalmente inconsequente, esse espírito equívoco conserva todos os princípios fundamentais do sistema teológico, retirando-lhe entretanto cada vez mais o vigor e a fixidez indispensáveis à sua autoridade efetiva. É numa alteração semelhante que consiste, com efeito, sob todos os aspectos, sua principal utilidade passageira, quando o regime antigo, por muito tempo progressivo para o conjunto da evolução humana, encontra-se inevitavelmente neste grau de prolongamento abusivo, em que tende a perpetuar indefinidamente o estado de infância que, no início, tinha dirigido de modo tão feliz. A metafísica não é, no fundo, mais do que uma espécie de teologia gradualmente inervada por simplificações dissolventes, que lhe tiram espontaneamente o poder direto de impedir o crescimento especial das concepções positivas, conservando-lhe, entretanto, a aptidão provisória de manter certo exercício indispensável para o espírito de generalização, até que ele possa enfim receber melhor alimento. Conforme seu caráter contraditório, o regime metafísico ou ontológico se encontra sempre nesta inevitável alternativa de tender a uma restauração vã do estado teológico, para satisfazer às condições da ordem, ou de conduzir a uma situação puramente negativa, a fim de escapar ao império opressivo da teologia. Essa oscilação necessária, que agora só é observada em relação às mais difíceis teorias, do mesmo modo existiu outrora a respeito das mais simples, enquanto durou a idade metafísica, em virtude da impotência orgânica sempre própria a uma tal maneira de filosofar. Se a razão pública não a tivesse desde há muito afastado no que respeita a certas noções fundamentais, não deveríamos temer assegurar que as dúvidas insensatas que suscitou, há vinte séculos, sobre a existência dos corpos exteriores, subsistiriam ainda essencialmente, porquanto nunca as dissipou por meio de qualquer argumentação decisiva. Podemos, pois, finalmente considerar o estado metafísico como uma espécie de doença crônica, naturalmente inerente à nossa evolução mental, individual ou coletiva, entre a infância e a virilidade.”


“Reconhece de agora em diante, como regra fundamental, que toda proposição que não seja estritamente redutível ao simples enunciado de um fato, particular ou geral, não pode oferecer nenhum sentido real e inteligível. Os princípios que emprega são apenas fatos verdadeiros, somente mais gerais e mais abstratos do que aqueles dos quais deve formar o elo. Seja qual for, porém, o modo, racional ou experimental, de proceder à sua descoberta, é sempre de sua conformidade, direta ou indireta, com os fenômenos observados que resulta exclusivamente sua eficácia científica. A pura imaginação perde assim irrevogavelmente sua antiga supremacia mental, e se subordina necessariamente à observação, de maneira a constituir um estado lógico plenamente normal, sem cessar, entretanto, de exercer, nas especulações positivas, ofício capital e inesgotável, para criar ou aperfeiçoar os meios de ligação definitiva ou provisória. Numa palavra, a revolução fundamental, que caracteriza a virilidade de nossa inteligência, consiste essencialmente em substituir em toda parte a inacessível determinação das causas propriamente ditas pela simples pesquisa das leis, isto é, relações constantes que existem entre os fenômenos observados. Quer se trate dos menores quer dos mais sublimes efeitos, do choque ou da gravidade, do pensamento ou da moralidade, deles só podemos conhecer as diversas ligações mútuas próprias à sua realização, sem nunca penetrar no mistério de sua produção. Nossas pesquisas positivas devem essencialmente reduzir-se, em todos os gêneros, à apreciação sistemática daquilo que é, renunciando a descobrir sua primeira origem e seu destino final; importa, ademais, sentir que esse estudo dos fenômenos, ao invés de poder de algum modo tornar-se absoluto, deve sempre permanecer relativo à nossa organização e à nossa situação.”


“Importa, pois, bem sentir que o verdadeiro espírito positivo não está menos afastado, no fundo, do empirismo do que do misticismo. É entre essas duas aberrações, igualmente funestas, que se deve sempre caminhar. A necessidade de tal atitude de reserva contínua, tão difícil como importante, bastaria aliás para verificar, conformemente a nossas explicações iniciais, quanto a verdadeira positividade deve ser maduramente preparada, de maneira a não poder de modo algum convir ao estado nascente da Humanidade. Nas leis dos fenômenos consiste realmente a ciência, à qual os fatos propriamente ditos, em que pese a sua exatidão e a seu número, não fornecem mais do que os materiais indispensáveis. Ora, considerando a destinação constante dessas leis, pode-se dizer, sem exagero algum, que a verdadeira ciência, longe de ser formada por simples observações, tende sempre a dispensar, quanto possível, a exploração direta, substituindo-a por essa previsão racional que constitui, sob todos os aspectos, o principal caráter do espírito positivo, como o conjunto dos estudos astronômicos nos fará sentir claramente. Tal previsão, consequência necessária das relações constantes descobertas entre os fenômenos, não permitirá nunca confundir a ciência real com essa vã erudição, que acumula maquinalmente fatos sem aspirar a deduzi-los uns dos outros. Esse grande atributo de todas as nossas especulações sadias não interessa menos à sua utilidade efetiva do que à sua própria dignidade; pois a exploração direta dos fenômenos acontecidos não bastará para nos permitir modificar-lhes o acontecimento, se não nos conduzisse a prevê-los convenientemente. Assim, o verdadeiro espírito positivo consiste sobretudo em ver para prever, em estudar o que é, a fim de concluir disso o que será, segundo o dogma geral da invariabilidade das leis naturais.”


“Apesar de as necessidades mentais serem sem dúvida as menos enérgicas de todas aquelas inerentes à nossa natureza, é incontestável sua existência direta e permanente em todas as inteligências. Constituem elas o primeiro estímulo indispensável a nossos diversos esforços filosóficos, atribuídos demasiadamente sobretudo aos impulsos práticos que, se na verdade os desenvolvem muito, não seriam capazes de fazê-los nascer. Essas exigências intelectuais, relativas, como todas as outras, ao exercício regular das funções correspondentes, reclamam sempre uma feliz combinação de estabilidade e de atividade, donde resultam as necessidades simultâneas de ordem e progresso, ou de ligação e extensão. Durante a longa infância da Humanidade somente as concepções teológico-metafísicas poderiam, segundo nossas explicações anteriores, satisfazer provisoriamente a essa dupla condição fundamental, embora duma maneira extremamente imperfeita. Mas quando a razão humana por fim amadureceu, renunciando francamente às pesquisas inacessíveis e circunscrevendo sabiamente sua atividade ao domínio verdadeiramente apreciável por nossas faculdades, a filosofia positiva lhe traz certamente uma satisfação muito mais completa, sob todos os aspectos, ao mesmo tempo que mais real, desses dois carecimentos elementares. Tal é evidentemente, com efeito, sob esse novo aspecto, a destinação direta das leis que descobre sobre os diversos fenômenos e da previsão racional, que lhe é inseparável. No que respeita a cada ordem de acontecimentos, essas leis devem ser distinguidas em duas espécies, conforme ligam por similitude aqueles que coexistem ou — por filiação — os que se sucedem. Essa indispensável distinção corresponde essencialmente, para o mundo exterior, àquela que este nos oferece espontaneamente entre os dois estados correlatos de existência e de movimento. Daí resulta, em toda ciência real, uma diferença fundamental entre apreciação estática e apreciação dinâmica de um assunto qualquer. Os dois gêneros de relações contribuem igualmente para explicar os fenômenos e, paralelamente, conduzem à sua previsão, apesar de as leis da harmonia parecerem sobretudo destinar-se à explicação, e as leis de sucessão à previsão. Quer se trate de explicar, quer de prever, tudo sempre se reduz a ligar. Toda ligação real, estática ou dinâmica, descoberta entre dois fenômenos quaisquer, permite ao mesmo tempo explicar e prevê-los um depois do outro, pois a previsão científica convém evidentemente ao presente, assim como ao passado e ao futuro. Esta consiste, sem cessar, em conhecer um fato independentemente de sua exploração direta, em virtude de suas relações com outros já dados. Assim, por exemplo, a assimilação demonstrada entre a gravitação celeste e a gravidade terrestre levou, a partir das variações acentuadas da primeira, a prever as fracas variações da segunda, que a observação imediata não podia desvendar suficientemente, embora as tenha logo em seguida confirmado. Do mesmo modo, em sentido inverso, a correspondência antigamente observada entre o período elementar das marés e o dia lunar foi explicada logo que se reconheceu a elevação das águas em cada ponto resultando da passagem da lua pelo meridiano local. Todas as nossas verdadeiras necessidades lógicas convergem, pois, essencialmente para essa destinação comum: consolidar, quanto possível, graças a nossas especulações sistemáticas, a unidade espontânea de nosso entendimento, constituindo a continuidade e a homogeneidade de nossas diversas concepções, de maneira a satisfazer igualmente às exigências simultâneas da ordem e do progresso, fazendo com que reencontremos a constância no meio da variedade.”


“Com efeito, a concepção racional da ação do homem sobre a natureza ficou essencialmente limitada ao mundo inorgânico, donde resultou uma excitação científica demasiadamente imperfeita. Quando essa imensa lacuna for suficientemente preenchida, como hoje começa a ser feito, poder-se-á perceber a importância fundamental dessa grande destinação prática para estimular habitualmente, e até mesmo muitas vezes para melhor dirigir, as mais eminentes especulações, sob a única condição normal duma constante positividade. Pois a arte não será mais então unicamente geométrica, mecânica ou química, etc., mas também e sobretudo política e moral. A principal ação exercida pela Humanidade deve, sob todos os aspectos, consistir no aprimoramento contínuo de sua própria natureza, individual ou coletiva, dentre os limites que indicam, do mesmo modo que em todos os outros casos, o conjunto das leis reais. Quando essa solidariedade espontânea da ciência com a arte puder ser convenientemente organizada, não podemos então duvidar de que, ao invés de tender a restringir as sadias especulações filosóficas, ela lhes designaria, ao contrário, um oficio muito superior a seu alcance efetivo. Isto se de antemão não tivermos reconhecido, como princípio geral, a impossibilidade de jamais tornar a arte puramente racional, a saber, de elevar nossas previsões teóricas ao verdadeiro nível de nossas necessidades práticas. Nas próprias artes mais simples e perfeitas, um desenvolvimento direto e espontâneo permanece constantemente indispensável, sem que as indicações científicas possam, em algum caso, suplementá-las completamente. Seja qual for o grau de satisfação, por exemplo, que tenham obtido nossas previsões astronômicas, sua precisão é ainda, e provavelmente sempre o será, inferior às nossas justas exigências práticas, como terei ocasião muitas vezes de indicar.
Essa tendência espontânea a constituir diretamente uma inteira harmonia entre a vida especulativa e a vida ativa deve ser finalmente olhada como o privilégio mais feliz do espírito positivo. Nenhuma outra sua propriedade pode tão bem manifestar o verdadeiro caráter e facilitar a ascendência real. Nosso ardor especulativo se encontra assim mantido, e mesmo dirigido, por uma potente estimulação contínua, sem a qual a inércia natural de nossa inteligência o predisporia a satisfazer muitas vezes a nossas necessidades teóricas com explicações fáceis, mas insuficientes, enquanto o pensamento da ação final lembra sempre a condição duma precisão conveniente.”


“Considerada de início em sua acepção mais antiga e comum, a palavra positivo designa real, em oposição a quimérico. Desta ótica, convém plenamente ao novo espírito filosófico, caracterizado segundo sua constante dedicação a pesquisas verdadeiramente acessíveis à nossa inteligência, com exclusão permanente dos impenetráveis mistérios de que se ocupava, sobretudo em sua infância. Num segundo sentido, muito vizinho do precedente, embora distinto, esse termo fundamental indica o contraste entre útil e ocioso. Lembra então, em filosofia, o destino necessário de todas as nossas especulações sadias para aperfeiçoamento contínuo de nossa verdadeira condição individual ou coletiva, em lugar da vã satisfação duma curiosidade estéril. Segundo uma terceira significação usual, essa feliz expressão é frequentemente empregada para qualificar a oposição entre a certeza e a indecisão. Indica assim a aptidão característica de tal filosofia para constituir espontaneamente a harmonia lógica no indivíduo, e a comunhão espiritual na espécie inteira, em lugar dessas dúvidas indefinidas e desses debates intermináveis que devia suscitar o antigo regime mental. Uma quarta acepção ordinária, muitas vezes confundida com a precedente, consiste em opor o preciso ao vago. Este sentido lembra a tendência constante do verdadeiro espírito filosófico a obter em toda parte o grau de precisão compatível com a natureza dos fenômenos e conforme às exigências de nossas verdadeiras necessidades; enquanto a antiga maneira de filosofar conduzia necessariamente a opiniões vagas, comportando apenas uma indispensável disciplina, baseada numa repressão permanente e apoiada numa autoridade sobrenatural.
É preciso, enfim, observar especialmente uma quinta aplicação, menos usada que as outras, embora igualmente universal, quando se emprega a palavra positivo como contrária a negativo. Sob esse aspecto, indica uma das mais eminentes propriedades da verdadeira filosofia moderna, mostrando-a destinada sobretudo, por sua própria natureza, não a destruir, mas a organizar. Os quatro caracteres gerais que acabamos de lembrar distinguem-na ao mesmo tempo de todos os modos possíveis, quer teológicos, quer metafísicos, próprios à filosofia inicial. (...)
O único caráter essencial do novo espírito filosófico, não ainda indicado diretamente pela palavra positivo, consiste em sua tendência necessária a substituir, em todos os lugares, absoluto por relativo. Mas esse grande atributo, ao mesmo tempo científico e lógico, é de tal modo inerente à natureza fundamental dos conhecimentos reais que sua consideração geral não tardará a ligar-se intimamente aos diversos aspectos já combinados por essa fórmula, quando o moderno regime intelectual, até aqui parcial e empírico, passar comumente ao estado sistemático. (...) Concebe-se, de fato, que a natureza absoluta das antigas doutrinas, teológicas ou metafísicas, determinasse necessariamente cada uma delas a tornar-se negativa em relação a todas as outras, sob pena de ela própria degenerar num absurdo ecletismo. É, ao contrário, em virtude de seu gênio relativo que a nova filosofia pode sempre apreciar o valor próprio das teorias que lhe são mais opostas, sem contudo chegar a uma vã concessão, suscetível de alterar a nitidez de suas vistas ou a firmeza de suas decisões. Cabe, portanto, presumir, conforme o conjunto de tal apreciação especial, que a fórmula empregada aqui para qualificar habitualmente essa filosofia definitiva lembrará, de agora em diante, a todos os bons espíritos a total combinação efetiva de suas diversas propriedades características.”


“Na verdade, os preconceitos inerentes ao estado transitório ou revolucionário tiveram que encontrar também algum acesso em nossos proletários alimentando, com efeito, inoportunas ilusões sobre o alcance indefinido das medidas políticas propriamente ditas. Impedem de apreciar quanto a justa satisfação dos grandes interesses populares depende hoje muito mais das opiniões e dos costumes do que das próprias instituições, cuja verdadeira regeneração, atualmente impossível, exige, antes de tudo, uma reorganização espiritual. No entanto, podemos assegurar que a escola positiva terá muito maior facilidade em fazer penetrar este salutar ensino nos espíritos populares que em qualquer outra parte, seja porque a metafísica negativa aí não pode enraizar-se tanto, seja, sobretudo, por causa do impulso constante das necessidades sociais inerentes à sua situação necessária. Essas necessidades se reportam essencialmente a duas condições fundamentais, uma espiritual, outra temporal de natureza profundamente conexa. Trata-se, com efeito, de assegurar convenientemente a todos, primeiro, uma educação normal, depois o trabalho regular. Tal é, no fundo, o verdadeiro programa social dos proletários. Não pode mais existir verdadeira popularidade a não ser para uma política que tenda necessariamente para esse duplo destino.”


Discurso preliminar sobre o conjunto do positivismo
“Enfastia-se de pensar e até de agir, mas nunca de amar.”


“A verdadeira filosofia se propõe a sistematizar, tanto quanto possível, toda a existência humana, individual e sobretudo coletiva, contemplada ao mesmo tempo nas três ordens de fenômenos que a caracterizam, pensamentos, sentimentos e atos. Sob todos esses aspectos, a evolução fundamental da humanidade é necessariamente espontânea, e a exata apreciação de sua marcha natural é a única a nos fornecer a base geral duma sábia intervenção. Mas as modificações sistemáticas, que aí podemos introduzir, possuem, entretanto, extrema importância para muito diminuir os desvios parciais, os atrasos funestos e as graves incoerências, próprias a um voo tão complexo, se permanecesse inteiramente abandonado a si próprio. A realização contínua dessa indispensável intervenção constitui o domínio essencial da política. No entanto, sua verdadeira concepção só pode provir da filosofia, que aperfeiçoa sem cessar sua determinação geral. Para essa comum destinação fundamental, o ofício próprio da filosofia consiste em coordenar entre elas todas as partes da existência humana, a fim de conduzir a noção teórica a uma completa unidade.
Tal síntese não poderia ser real a não ser que representasse exatamente o conjunto das relações naturais, cujo estudo judicioso vem a ser a condição prévia dessa construção. Se a filosofia tentasse influenciar diretamente a vida ativa, a não ser mediante essa sistematização, usurparia viciosamente a missão necessária da política, o único arbítrio legítimo de toda evolução prática. Entre essas duas funções principais do grande organismo, o elo contínuo e a separação normal residem, ao mesmo tempo, na moral sistemática, que constitui naturalmente a aplicação característica da filosofia e o guia geral da política.
Essa grande coordenação, que caracteriza o ofício social da filosofia, só poderia ser real e durável abarcando o conjunto de seu triplo domínio, especulativo, afetivo e ativo. Conforme as reações naturais que unem intimamente essas três ordens de fenômenos, toda sistematização parcial seria necessariamente quimérica e insuficiente.”


“Em virtude de sua própria realidade característica, a nova filosofia se encontra conduzida a vir a ser mais moral do que intelectual, colocando na vida afetiva o centro de sua própria sistematização, para representar exatamente os direitos respectivos do espírito e do coração na verdadeira economia da natureza humana, individual ou coletiva. A elaboração de questões sociais a leva hoje a dissipar radicalmente as orgulhosas ilusões inerentes à sua preparação científica, quanto à pretensa supremacia da inteligência. Sancionando a experiência universal, melhor do que o pôde fazer o catolicismo, o positivismo explica por que a felicidade privada e o bem público dependem mais do coração do que do espírito. Mas, além disso, o exame direto da questão de sistematização o conduz a proclamar que a unidade humana só pode resultar duma justa preponderância do sentimento sobre a razão e até mesmo sobre a atividade.
Caracterizando-se nossa natureza ao mesmo tempo pela inteligência e pela sociabilidade, sua unidade parece primeiramente poder estabelecer-se segundo dois modos diferentes, conforme a supremacia pertença a um ou a outro desses atributos. No entanto, existe apenas um só modo de sistematização, já que os dois atributos não possuem, sob quase todos os aspectos, a mesma capacidade de prevalecer. Que se considere a natureza própria de cada um deles ou que se compare suas energias respectivas, pode-se claramente reconhecer que a inteligência somente comporta de fato o destino durável de servir à sociabilidade. Quando, em vez de se constituir dignamente como seu principal ministro, aspira à dominação, nunca chega a realizar essas orgulhosas pretensões, o que só pode desembocar numa anarquia desastrosa.
Mesmo na vida privada, é possível reinar entre nossas diversas tendências uma harmonia contínua somente por causa da preponderância universal do sentimento, que nos inspira a vontade sincera e habitual de fazer o bem. Essa tendência, como todas as outras, é sem dúvida essencialmente cega, precisa do socorro da razão para conhecer os verdadeiros meios de satisfazer-se, do mesmo modo que a atividade se lhe torna indispensável para aplicá-los. Mas a experiência cotidiana prova, entretanto, que tal impulso constitui a principal condição do bem, posto que, conforme o grau ordinário de inteligência e de energia que nossa natureza apresenta, esta estimulação continuada basta para dirigir, com frutos, as investigações de uma e as empresas da outra. Privadas de tal móvel habitual, ambas se esgotam necessariamente em tentativas estéreis ou incoerentes, recaindo logo em seu torpor inicial. Nossa existência moral só comporta, pois, verdadeira unidade enquanto a afeição dominar concomitantemente a especulação e a ação.
A despeito desse princípio fundamental convir de muito à vida individual, é na vida pública que melhor manifesta sua irrecusável necessidade. Isto não é porque nela a dificuldade muda realmente de natureza, nem que exija novas soluções, mas atinge grau muito mais apreciável, que não permite qualquer incerteza sobre os meios. A independência mútua dos diversos seres que é preciso então ligar mostra claramente que a primeira condição de seu concurso habitual consiste em sua própria disposição ao amor universal. Não há cálculos pessoais que possam de ordinário substituir esse instinto social, nem em virtude da instantaneidade e extensão das aspirações, nem pela ousadia e persistência das resoluções. Na verdade, essas afeições benevolentes devem ser muitas vezes menos enérgicas nelas próprias do que as afeições egoístas. Mas possuem necessariamente essa admirável propriedade que a existência social permite e provoca seu florescimento quase ilimitado, enquanto comprime incessantemente seus adversários. É assim que, antes de tudo, conforme a tendência crescente das primeiras em prevalecer sobre as segundas, se deve medir o principal progresso da humanidade. Sua ascendência espontânea pode muito ser secundada pela inteligência, quando se aplica a consolidar a sociabilidade, apreciando melhor as verdadeiras relações naturais, e a desenvolvê-la, esclarecendo seu exercício, com o auxílio das indicações do passado sobre o futuro. Neste nobre serviço, a nova filosofia concentra o principal destino do espírito, a que fornece, assim, ao mesmo tempo, incomparável consagração e campo inesgotável, muito mais adequado a satisfazê-lo profundamente do que os vãos triunfos acadêmicos e suas pueris investigações atuais.
No fundo, as soberbas aspirações de inteligência em vista do domínio universal, desde que a grande unidade teológica se rompeu irrevogavelmente, nunca puderam comportar qualquer realização, sendo somente susceptíveis de uma eficácia insurrecional contra um regime que se tornara retrógrado. O espírito não se destina a reinar, mas a servir; quando crê dominar, entra a serviço da personalidade, em lugar de secundar a sociabilidade, sem que possa de modo algum dispensar-se de assistir a uma paixão qualquer. O comando real exige, com efeito, a força antes de tudo; a razão, não possuindo mais do que a luz, precisa de um impulso de fora. As utopias metafísicas, muito bem acolhidas pelos cientistas modernos, a respeito duma pretensa perfeição duma vida puramente contemplativa, não são mais do que ilusões orgulhosas, quando não cobrem artifícios culpáveis. A despeito de ser, sem dúvida, real a satisfação ligada somente à descoberta da verdade, nunca possuiu bastante intensidade para dirigir a conduta habitual. O impulso duma paixão qualquer é indispensável à nossa raquítica inteligência, para determinar e sustentar quase todos os seus esforços. Se essa inspiração emana duma afeição benévola, nós a tomamos como sendo ao mesmo tempo mais rara e mais estimável; sua vulgaridade impede, ao contrário, de distingui-la quando nasce de motivos pessoais de glória, ambição ou cupidez; tal é, no fundo, a única diferença ordinária. Ainda que o impulso mental resultasse duma espécie de paixão excepcional pela verdade pura, sem qualquer mistura de orgulho e de vaidade, esse exercício ideal, desprendido de todo destino social, não deixaria de ser profundamente egoísta. Terei logo ocasião de indicar como o positivismo, ainda mais severo do que o catolicismo, imprime necessariamente uma marca de ignomínia sobre tal tipo metafísico ou científico, no qual o verdadeiro ponto de vista filosófico leva a reconhecer um abuso culpável das facilidades que traz a civilização, com fito totalmente diferente, para a existência contemplativa.
 É assim que o princípio positivo, espontaneamente provindo da vida ativa, e sucessivamente estendido a todas as partes essenciais do domínio especulativo, encontra-se, em sua plena maturidade, inevitavelmente conduzido, em consequência natural de sua realidade característica, a abraçar também o conjunto da vida afetiva, onde logo coloca o único centro de sua sistematização final. De agora em diante, o positivismo erige, pois, em dogma fundamental, ao mesmo tempo filosófico e político, a preponderância contínua do coração sobre o espírito.”



“Se o coração deve sempre colocar questões, cabe sempre ao espírito resolvê-las. (...)
Conforme a interpretação positiva do grande princípio orgânico, o espírito só deve essencialmente tratar as questões propostas pelo coração para a justa satisfação final de nossas diversas necessidades. A experiência já mostrou demasiadamente que, sem esta regra indispensável, o espírito seguiria quase sempre sua inclinação involuntária para especulações ociosas ou quiméricas, que são ao mesmo tempo as mais numerosas e as mais fáceis. Mas em qualquer elaboração do assunto assim proposto, o espírito deve permanecer o único juiz, seja da conveniência dos meios, seja da realidade dos resultados. Cabe unicamente a ele apreciar o que há de ser previsto como acontecendo no futuro, e descobrir os processos de melhoramento. Numa palavra, o espírito deve sempre ser o ministro do coração, nunca seu escravo. Tais são as condições correlativas da harmonia final instituída pelo princípio positivo. Pouco se deve temer que sejam gravemente perturbadas, porque os dois elementos desse grande equilíbrio logo se encontrarão dispostos naturalmente a mantê-lo, como igualmente favoráveis a cada um deles.
Pois o verdadeiro amor demanda sempre ser esclarecido sobre os meios reais de atingir o fim que persegue. O reino do verdadeiro sentimento deve ser habitualmente favorável tanto à sã razão quanto à sábia atividade.”


“Tal é, pois, o fundamento exterior da grande síntese, tanto afetiva e ativa como puramente especulativa, constantemente relativa a essa ordem imutável. Sua apreciação real constitui o principal objeto de nossas contemplações; sua preponderância necessária regula o florescimento geral de nossos sentimentos; seu aperfeiçoamento gradual determina a finalidade contínua de nossas ações. Para melhor apreender sua influência, bastaria supor, por um momento, sua inexistência afetiva: então nossa inteligência se consumiria em divagações desenfreadas, logo seguidas dum torpor incurável; nossas melhores inclinações não mais conteriam a ascendência espontânea sobre os instintos menos nobres; e nossa atividade só chegaria a uma agitação incoerente. Embora essa ordem tenha sido ignorada por muito tempo, seu império inevitável nem por isso deixou de tender a regular, sem que quiséssemos, toda nossa existência, primeiro, ativa, e, em seguida, contemplativa ou mesmo afetiva. Na medida em que a conhecemos, nossas concepções se tornaram menos vagas, nossas inclinações menos caprichosas, nossa conduta menos arbitrária. Desde que apreendemos seu conjunto, tende a regularizar, em todos os gêneros, a sabedoria humana, apresentando sempre nossa economia artificial como um judicioso prolongamento dessa irresistível economia natural. Esta é preciso estudar e respeitar, para chegar a aperfeiçoá-la. Mesmo naquilo que nos oferece de verdadeiramente fatal, isto é, de não modificável, essa ordem exterior é indispensável para a direção de nossa existência, a despeito das recriminações artificiais de tantas inteligências orgulhosas.
         A irresolução e a inconsequência, inerentes à multiplicidade e à mediocridade de nossas inclinações, não nos permitem uma conduta contínua e unânime, a não ser por causa dessas exigências insuperáveis, sem as quais nossa razão raquítica, a despeito de seus vãos murmúrios, nunca chegaria a terminar suas confusas deliberações. Incapazes de criar, só sabemos modificar, em nosso proveito, uma ordem essencialmente superior à nossa influência. Supondo possível a independência absoluta, sonhada pelo orgulho metafísico, percebemos logo que, longe de melhorar nosso destino, ela impediria todo florescimento real de nossa existência, até mesmo privada. O principal artifício do aperfeiçoamento humano consiste, ao contrário, em diminuir a indecisão, a inconsequência e a divergência de quaisquer de nossos desígnios, vinculando-os a motivos exteriores, àqueles hábitos intelectuais, morais e práticos que emanam no início de fontes puramente interiores. Pois todos os vínculos mútuos de nossas diversas tendências são incapazes de assegurar sua fixidez, até que encontrem fora um ponto de apoio inacessível a nossas variações espontâneas.”


“O serviço geral da inteligência em relação à sociabilidade não se limita, pois, a fazer com que esta conheça a economia natural, de que deve aceitar o império inevitável. Para que essa determinação teórica possa guiar nossa atividade, é preciso a ela acrescentar a exata apreciação dos diversos limites de variação peculiares a essa ordem exterior e também os limites de suas principais imperfeições. Esses dois dados gerais são os únicos a permitir caracterizar e circunscrever nossa sábia intervenção. A crítica positiva da natureza sempre constituirá pois importante atributo da sã filosofia, embora a intenção antiteológica, que a inspirou no início, tenha deixado de oferecer um interesse maior, em consequência de sua irrevogável eficácia. Sem se ocupar de qualquer luta, conceber-se-á de agora em diante tal exame como destinado a melhor colocar o conjunto da questão humana. Liga-se diretamente à finalidade contínua de toda nossa existência no regime positivo, porquanto o aperfeiçoamento supõe primeiramente a imperfeição. Essa conexidade geral torna-se antes de tudo necessária em relação à nossa própria natureza, pois a verdadeira moralidade exige profundo sentimento habitual de nossos vícios espontâneos. Todas essas indicações bastam para caracterizar a condição fundamental, segundo a qual a grande sistematização humana, sem deixar de ser essencialmente afetiva por seu princípio subjetivo, deve finalmente depender duma operação especulativa, a única capaz de fornecer-lhe uma base objetiva, ligando-a ao conjunto da economia exterior, de que a humanidade sofre e modifica o império.”


“Essa grande lei, proclama, como se sabe, a passagem necessária de todas as nossas especulações por três estados sucessivos; primeiro, o teológico, em que dominam francamente as ficções espontâneas, desprovidas de qualquer prova; depois, o estado metafísico, caracterizado sobretudo pela preponderância habitual das abstrações personificadas ou entidades; por fim, o estado positivo, sempre fundado numa exata apreciação da realidade exterior. O primeiro regime, embora puramente provisório, constitui em toda parte nosso único ponto de partida; o terceiro, o único definitivo, representa nossa existência normal; quanto ao segundo, comporta apenas influência modificadora, ou melhor, dissolvente, que o destina somente a dirigir a transição duma a outra constituição. Tudo começa, com efeito, sob inspiração teológica, para desembocar na demonstração positiva, passando pela argumentação metafísica. Desse modo, uma mesma lei geral nos permite de agora em diante abarcar ao mesmo tempo o passado, o presente e o futuro da humanidade.
A esta lei de filiação meu Sistema de filosofia positiva sempre associou a lei de classificação, cuja aplicação dinâmica fornece o segundo elemento indispensável à minha teoria da evolução, determinando a ordem necessária, segundo a qual nossas diversas concepções participam de cada fase sucessiva. Sabe-se que essa ordem está regulada pela generalidade decrescente dos fenômenos correspondentes, ou, o que implica o mesmo, por sua complicação crescente. Daí resulta sua dependência espontânea em relação a todos aqueles que são mais simples e menos especiais. A hierarquia fundamental de nossas especulações reais consiste assim em sua classificação natural em seis categorias elementares: matemática, astronômica, física, química, biológica e, enfim, sociológica; cada uma sofrendo antes da seguinte os diferentes graus essenciais da evolução total, que só poderia oferecer um caráter vago e confuso, sem o uso contínuo de tal classificação.
Uma teoria formada pela íntima combinação dessa lei estática com a lei dinâmica parece primeiramente concernir apenas ao movimento intelectual da humanidade. Mas as explicações indicadas acima nos garantem previamente sua aptidão necessária a também abarcar o desenvolvimento social, cuja marcha geral necessitou sempre depender da marcha de nossas concepções elementares sobre o conjunto da economia natural. A parte histórica de minha grande obra demonstra a correspondência contínua entre a evolução ativa e a evolução especulativa, cujo concurso natural deveria regular a evolução afetiva. Essa extensão decisiva da teoria fundamental exige unicamente que se lhe acrescente um último complemento essencial, diretamente relativo ao crescimento temporal da humanidade. Consiste, como se sabe, na sucessão necessária dos diversos caracteres principais da atividade humana, primeiro, conquistadora, depois defensiva e, finalmente, industrial. Sua solidariedade natural com a preponderância respectiva do espírito teológico, do espírito metafísico e do espírito positivo, logo explica o conjunto do passado, sistematizando sem esforço a única concepção histórica que seja espontaneamente sancionada pela razão pública, isto é, a distinção geral entre a Antiguidade, a Idade Média e o Estado moderno.
Para fundar enfim a verdadeira ciência social bastava pois estabelecer irrevogavelmente essa teoria da evolução, combinando, com a lei dinâmica que a caracteriza, primeiro, o princípio estático que a consolida, depois, a extensão temporal que a completa. Essa fundação decisiva termina por constituir o conjunto da filosofia natural, afastando para sempre a distinção provisória que, desde Aristóteles e Platão, a separava profundamente da filosofia moral. O espírito positivo, por tanto tempo limitado aos mais simples fenômenos inorgânicos, finaliza então sua difícil iniciação, estendendo-se até as especulações mais complicadas e importantes, de agora em diante liberadas de todo regime teológico ou metafísico. Tornando-se assim homogêneas todas as nossas concepções reais, a unidade especulativa tende logo a estabelecer-se espontaneamente, de maneira a fornecer uma sólida base objetiva para a sistematização total, que constitui a finalidade característica da verdadeira filosofia, que permaneceu até agora impossível, por falta de elementos suficientes.
Perceber-se-á como a principal dificuldade desta síntese definitiva consistia, ouso dizer, na descoberta de minha teoria fundamental da evolução humana, se considerarmos que tal teoria, ao mesmo tempo que completa e coordena essa base objetiva, subordina-a espontaneamente ao princípio subjetivo, que sempre deve dirigir o conjunto da construção filosófica. Apreciando assim a ordem universal, a inteligência, orgulhosa dum ofício indispensável que somente ela pode cumprir, está muitas vezes disposta a desconhecer sua destinação necessária ao serviço contínuo da sociabilidade. Tende a seguir livremente sua inclinação natural para divulgações especulativas, de tal modo fortalecidas hoje por hábitos empíricos peculiares ao florescimento preliminar das especialidades positivas. É preciso pois que a inspiração subjetiva a reconduza incessantemente à sua verdadeira vocação, impedindo suas contemplações de tomar um caráter absoluto e uma expansão ilimitada, que reproduzissem, sob a forma científica, os principais inconvenientes do regime teológico-metafísico. O universo deve ser estudado não por si mesmo, mas para o homem, ou melhor, para a humanidade. Qualquer outro desígnio seria no fundo tão pouco racional quanto moral. Pois é somente como subjetivas, nunca como puramente objetivas, que nossas especulações reais podem ser verdadeiramente satisfatórias, quando se limitam a descobrir na economia natural as leis que, duma maneira mais ou menos direta, influenciam com efeito nossos destinos. Fora desse domínio, determinado pela sociabilidade, nossos conhecimentos sempre permanecerão imperfeitos e ociosos, mesmo em relação aos mais simples fenômenos, como testemunha a astronomia. Sem essa constante preponderância do sentimento, o espírito positivo logo retornaria às predileções, espontâneas de sua longa infância, para as contemplações mais afastadas do homem, que também são as mais fáceis. Enquanto sua iniciação permaneceu incompleta, essa tendência natural de dar prosseguimento indistintamente a todas as investigações verdadeiramente acessíveis só se pôde justificar pela eficácia lógica que a maior parte daquelas desprovidas de toda utilidade científica comportava. Mas desde que o método positivo se desenvolveu suficientemente para, diretamente, dirigir-se à sua verdadeira destinação, esses exercícios ociosos prolongaram viciosamente o regime preliminar. Essa vaga anarquia especulativa toma ainda um caráter cada vez mais retrógrado, tendendo a destruir os principais resultados obtidos pelo espírito de pormenor, enquanto permaneceu verdadeiramente positivo. A construção de base objetiva indispensável à grande síntese humana suscita, pois, uma dificuldade muito grave em conciliar a liberdade habitual, sem o qual a inteligência não poderia proceder convenientemente, com a disciplina contínua que exige sua tendência espontânea às divulgações indefinidas. Essa conciliação seria essencialmente impossível, enquanto o estudo da ordem natural não se estender até as leis sociológicas. Mas logo que o espírito positivo abrace realmente esta atribuição final, a supremacia necessária de tais especulações o submete, sem esforço, ao jugo legítimo do sentimento. Em sua marcha geral do exterior para o interior, a apreciação objetiva vem então vincular-se espontaneamente ao impulso subjetivo, de que havia por muito tempo entravado o império fundamental. Nenhum verdadeiro pensador pode mais recusar admitir as demonstrações decisivas que, ainda sob o simples aspecto especulativo, estabelecem, de agora em diante, a preponderância lógica e científica do ponto de vista social, como único elo possível de todas nossas contemplações reais. Sua ascendência necessária nunca poderia tornar-se opressiva em relação aos diversos estudos positivos que constituirão sempre, quer para o método, quer para a doutrina, o preâmbulo indispensável dessa ciência final. Este regime definitivo imprime, ao contrário, a cada ciência preparatória, ao mesmo tempo uma consagração preciosa e uma fecunda estimulação, ligando-a diretamente ao conjunto da humanidade.
Tal é o modo natural por meio de que, como anunciava no início deste curso, o espírito positivo, graças à fundação da sociologia, vem se colocar para sempre sob a justa dominação do coração, de maneira a permitir, enfim, a total sistematização, conforme à subordinação contínua da base objetiva em relação ao princípio subjetivo. Dissipando definitivamente o antagonismo excepcional que, desde o fim da Idade Média, necessitou desenvolver-se entre a razão e o sentimento, essa operação filosófica chama de imediato a humanidade para penetrar no regime, individual ou coletivo, que convém plenamente à sua natureza. Enquanto permaneceram contrárias entre si essas duas nobres influências, a sociabilidade não podia chegar a modificar profundamente o império prático da personalidade. No entanto, a despeito de sua fraca energia espontânea em nossa imperfeita organização, seu concurso íntimo e contínuo, susceptível de imensa expansão, poderá, de agora em diante, sem alterar o caráter essencialmente egoísta da vida ativa, imprimir-lhe um grau habitual de moralidade, de cujo passado não poderia formar ideia alguma, tendo em vista a harmonia insuficiente que estes dois moderadores necessários de todos os nossos instintos preponderantes comportavam até agora.”

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