sexta-feira, 7 de julho de 2017

A Sociedade do Espetáculo (Parte II) – Guy Debord

Editora: Contraponto
ISBN: 978-85-8591-017-4
Tradução: Estela dos Santos Abreu
Opinião★★★★★
Páginas: 240

     “O raciocínio sobre a história é inseparavelmente raciocínio sobre o poder.”


     “Assim, a burguesia fez conhecer e impôs à sociedade um tempo histórico irreversível, mas recusa-lhe a utilização. “Houve história, mas já não há mais”, porque a classe dos possuidores da economia, que não deve romper com a história econômica, deve recalcar assim como uma ameaça imediata qualquer outro emprego irreversível do tempo. A classe dominante, feita de especialistas da possessão das coisas, que por isso são eles próprios uma possessão das coisas, deve ligar a sua sorte à manutenção desta história reificada, à permanência de uma nova imobilidade na história. Pela primeira vez o trabalhador, na base da sociedade, não é materialmente estranho à história, porque é agora pela sua base que a sociedade se move irreversivelmente. Na reivindicação de viver o tempo histórico que ele faz, o proletariado encontra o simples centro inesquecível do seu projeto revolucionário; e cada uma das tentativas, até aqui geradas, de execução deste projeto marca um ponto de partida possível da nova vida histórica.”


     “O tempo pseudocíclico consumível é o tempo espetacular, ao mesmo tempo como tempo de consumo das imagens, no sentido restrito, e como imagem do consumo do tempo em toda a sua extensão. O tempo do consumo das imagens, média de todas as mercadorias, é inseparavelmente o campo onde plenamente atuam os instrumentos do espetáculo e a finalidade que estes apresentam globalmente, como lugar e como figura central de todos os consumos particulares: sabe-se que os ganhos de tempo constantemente procurados pela sociedade moderna – quer se trate da velocidade dos transportes ou da utilização de sopas em pacotes – se traduzem positivamente para a população dos Estados Unidos neste fato: de que só a contemplação da televisão a ocupa em média três a seis horas por dia. A imagem social do consumo do tempo, por seu lado, é exclusivamente dominada pelos momentos de ócio e de férias, momentos representados à distância e desejáveis, por postulado, como toda a mercadoria espetacular. Esta mercadoria é aqui explicitamente dada como o momento da vida real de que se trata esperar o regresso cíclico. Mas mesmo nestes momentos destinados à vida, é ainda o espetáculo que se dá a ver e a reproduzir, atingindo um grau mais intenso. O que foi representado como vida real, revela-se simplesmente como a vida mais realmente espetacular.
     Esta época, que mostra a si própria o seu tempo como sendo essencialmente o regresso precipitado de múltiplas festividades, é igualmente uma época sem festa. O que era, no tempo cíclico, o momento da participação de uma comunidade no dispêndio luxuoso da vida, é impossível para a sociedade sem comunidade e sem luxo. Quando as suas pseudo-festas vulgarizadas, paródias do diálogo e do dom, excitam a um excedente de dispêndio econômico, elas não trazem senão a decepção sempre compensada pela promessa de uma nova decepção. O tempo da sobrevivência moderna deve, no espetáculo, gabar-se tanto mais alto quanto mais o seu valor de uso se reduziu. A realidade do tempo foi substituída pela publicidade do tempo.”


     “Imobilizada no centro falsificado do movimento do seu mundo, a consciência espectadora já não conhece na sua vida uma passagem para a sua realização e para a sua morte. A publicidade dos seguros de vida insinua somente que é repreensível morrer sem ter assegurado a regulação do sistema depois desta perda econômica; e a do american way of death insiste sobre a sua capacidade de manter neste encontro a maior parte das aparências da vida. Sobre todo o resto da frente do bombardeamento publicitário é terminantemente proibido envelhecer. Tratar-se-ia de poupar, em cada qual, um “capital-juventude” que por não ter sido senão mediocremente empregado não pode, todavia, pretender adquirir a realidade durável e cumulativa do capital financeiro. Esta ausência social da morte é idêntica a ausência social da vida.”


     “Subproduto da circulação das mercadorias, a circulação humana considerada como um consumo, o turismo, reduz-se fundamentalmente à distração de ir ver o que se tornou banal. A ordenação econômica da frequentação de lugares diferentes é já por si mesma a garantia da sua equivalência. A mesma modernização que retirou da viagem o tempo, retirou-lhe também a realidade do espaço.”


     “O urbanismo é a concretização moderna da tarefa ininterrupta que salvaguarda o poder de classe: a manutenção da atomização dos trabalhadores que as condições urbanas de produção tinham perigosamente reunido. A luta constante que teve de ser levada a cabo contra todos os aspectos desta possibilidade de encontro descobre no urbanismo o seu campo privilegiado. O esforço de todos os poderes estabelecidos desde as experiências da Revolução Francesa, para aumentar os meios de manter a ordem na rua, culmina finalmente na supressão da rua. “Com os meios de comunicação de massa a grande distância, o isolamento da população verificou-se ser um meio de controle muito mais eficaz”, constata Lewis Mumford em Através da História, ao descrever um “mundo doravante único”. Mas o movimento geral do isolamento, que é a realidade do urbanismo, deve também conter uma reintegração controlada dos trabalhadores, segundo as necessidades planificáveis da produção e do consumo. A integração no sistema deve apoderar-se dos indivíduos isolados em conjunto: as fábricas como as casas da cultura, as aldeias de férias como os “grandes conjuntos habitacionais”, são especialmente organizados para os fins desta pseudo-coletividade que acompanha também o indivíduo isolado na célula familiar: o emprego generalizado dos receptores da mensagem espetacular faz com que o seu isolamento se encontre povoado pelas imagens dominantes, imagens que somente através deste isolamento adquirem o seu pleno poderio.”


     “A cultura é a esfera geral do conhecimento e das representações do vivido na sociedade histórica, dividida em classes; o que se resume em dizer que ela é esse poder de generalização existindo à parte, como divisão do trabalho intelectual e trabalho intelectual da divisão. A cultura desligou-se da unidade da sociedade do mito, “quando o poder de unificação desaparece da vida do homem, e os contrários perdem a sua relação e a sua interação vivas e adquirem autonomia.” (Diferença entre os sistemas de Fichte e de Schelling). Ao ganhar a sua independência, a cultura começa um movimento imperialista de enriquecimento, que é, ao mesmo tempo, o declínio da sua independência. A história, que cria a autonomia relativa da cultura e as ilusões ideológicas quanto a esta autonomia, exprime-se também como história da cultura. E toda a história conquistadora da cultura pode ser compreendida como a história da revelação da sua insuficiência, como uma marcha para a sua auto-supressão. A cultura é o lugar da procura da unidade perdida. Nesta procura da unidade, a cultura como esfera separada é, ela própria, obrigada a negar-se.”


     “O dadaísmo e o surrealismo são as duas correntes que marcaram o fim da arte moderna. Elas são, ainda que só de um modo relativamente consciente, contemporâneas do último grande assalto do movimento revolucionário proletário; e o revés deste movimento, que as deixava encerradas no próprio campo artístico de que elas tinham proclamado a caducidade, é a razão fundamental da sua imobilização. O dadaísmo e o surrealismo estão, ao mesmo tempo, historicamente ligados e em oposição. Nesta oposição, que constitui também para cada um a parte mais consequente e radical da sua contribuição, aparece a insuficiência interna da sua crítica, desenvolvida unilateralmente tanto por uma como por outra. O dadaísmo quis suprimir a arte sem a realizar; e o surrealismo quis realizar a arte sem a suprimir. A posição crítica elaborada posteriormente pelos situacionistas mostrou que a supressão e a realização da arte são os aspectos inseparáveis de uma mesma superação da arte.”


     “O conjunto dos conhecimentos, que continua a desenvolver-se atualmente como pensamento do espetáculo, deve justificar uma sociedade sem justificações, e constituir-se em ciência geral da falsa-consciência. Ela é inteiramente condicionada pelo fato de não poder nem querer pensar na sua própria base material no sistema espetacular.”


     “O espetáculo é a ideologia por excelência, porque expõe e manifesta na sua plenitude a essência de qualquer sistema ideológico: o empobrecimento, a submissão e a negação da vida real. O espetáculo é, materialmente, “a expressão da separação e do afastamento entre o homem e o homem”. O “novo poderio do embuste” que se concentrou aí tem a sua base nesta produção pela qual “com a massa dos objetos cresce (...) o novo domínio dos seres estranhos aos quais o homem está submetido”. É o estádio supremo duma expansão que virou a necessidade contra a vida. “A necessidade de dinheiro é portanto a verdadeira necessidade produzida pela economia política, e a única necessidade que ela produz” (Manuscritos econômico-filosóficos). O espetáculo alarga a toda a vida social o princípio que Hegel, na Realphilosophie de Iena, concebe como o do dinheiro; é “a vida do que está morto movendo-se em si própria”.”


     “O paralelismo entre a ideologia e a esquizofrenia estabelecido por Gabel (A Falsa Consciência) deve ser inserido neste processo econômico de materialização da ideologia. O que a ideologia já era, a sociedade acabou por ser. A desinserção da práxis e a falsa consciência antidialética que a acompanha, eis o que é imposto a cada hora da vida quotidiana submetida ao espetáculo; que é necessário compreender como uma organização sistemática do “desfalecimento da faculdade de encontro” e como sua substituição por um fato alucinatório social: a falsa consciência do encontro, a “ilusão do encontro”. Numa sociedade em que ninguém pode já ser reconhecido pelos outros, cada indivíduo torna-se incapaz de reconhecer a sua própria realidade. A ideologia está em sua casa; a separação construiu o seu mundo.
     “Nos quadros clínicos da esquizofrenia”, diz Gabel, “decadência da dialética da totalidade (tendo como forma extrema a dissociação) e decadência da dialética do devir (tendo como forma extrema a catatonia) parecem bem solidárias”. A consciência espectadora, prisioneira dum universo estreitado, limitada pelo ecrã do espetáculo, para trás do qual a sua vida foi deportada, não conhece mais do que os interlocutores fictícios que lhe falam unilateralmente da sua mercadoria e da política da sua mercadoria. O espetáculo, em toda a sua extensão, é o seu “sinal do espelho”. Aqui se põe em cena a falsa saída dum autismo generalizado.”


     “Emancipar-se das bases materiais da verdade invertida, eis no que consiste a auto-emancipacão da nossa época. Esta “missão histórica de instaurar a verdade no mundo”, nem o indivíduo isolado, nem a multidão atomizada, submetida às manipulações, a podem realizar, mas ainda e sempre a classe que é capaz de ser a dissolução de todas as classes, ao reduzir todo o poder à forma desalienante da democracia realizada, o Conselho, no qual a teoria prática se controla a si própria e vê a sua ação. Lá, somente, onde os indivíduos estão “diretamente ligados à história universal”; lá, somente, onde o diálogo se estabeleceu para fazer vencer as suas próprias condições.”


     “Por críticas que possam ser as situações e as circunstâncias em que te encontres, não desesperes; é nas ocasiões em que tudo é temível, que nada há que temer; é quando se está rodeado de todos os perigos, que não há que temer nenhum; é quando se está sem nenhum recurso, que há que contar com todos; é quando se está surpreendido, que é preciso surpreender o inimigo.” (Sun-Tzu, A Arte da Guerra)


     “A sociedade modernizada até ao estágio do espetacular integrado caracteriza-se pelo efeito combinado de cinco traços principais, que são: a renovação tecnológica incessante; a fusão econômico-estatal; o segredo generalizado; o falso sem réplica; um presente perpétuo.
     O movimento de inovação tecnológica dura já há muito tempo e é constitutivo da sociedade capitalista, dita por vezes industrial ou pós-industrial. Mas desde que tomou a sua mais recente aceleração, (no dia seguinte à Segunda Guerra Mundial), reforça ainda mais a autoridade espetacular, já que através dele cada um encontra-se inteiramente entregue ao conjunto de especialistas, aos seus cálculos e aos seus julgamentos sempre satisfeitos com estes cálculos. A fusão econômico-estatal é a tendência mais manifesta deste século; e aí está ela tornada, no mínimo, o motor do desenvolvimento econômico mais recente. A aliança defensiva e ofensiva concluída entre estes dois poderes, a Economia e o Estado, assegurou-lhes os maiores benefícios comuns em todos os domínios: pode dizer-se que cada um possui o outro; é absurdo opô-los, ou distinguir as suas razões ou as suas desinteligências. Esta união mostrou-se também extremamente favorável ao desenvolvimento da dominação espetacular, que, desde a sua formação, não era senão precisamente isso. Os três últimos traços são os efeitos diretos dominação, no seu estado integrado.
     O segredo generalizado mantém-se por detrás do espetáculo, como o complemento decisivo daquilo que ele mostra e, se aprofundamos mais as coisas, como a sua mais importante operação.
     O simples fato de estar a partir de agora sem réplica deu ao falso uma qualidade completamente nova. É ao mesmo tempo o verdadeiro que deixou de existir quase por todo o lado ou, no melhor caso, viu-se reduzido ao estado de uma hipótese que nunca pode ser demonstrada. O falso sem réplica acabou por fazer desaparecer a opinião pública, que de início se encontrava incapaz de se fazer ouvir; depois, rapidamente em seguida, de somente se formar. Isto acarreta evidentemente importantes consequências na política, nas ciências aplicadas, na justiça, no conhecimento artístico.
     A construção de um presente onde mesmo a moda, do vestuário aos cantores, se imobilizou, que quer esquecer o passado e que já não dá a impressão de acreditar num futuro, é obtida pela incessante passagem circular da informação girando continuamente sobre uma lista muito sucinta das mesmas banalidades, anunciadas apaixonadamente como importantes descobertas; enquanto só muito raramente, e por sacudidelas, passam as notícias verdadeiramente importantes sobre aquilo que efetivamente muda.
     Dizem sempre respeito à condenação que este mundo parece ter pronunciado contra a sua existência, as etapas da sua autodestruição programada.”


     “A primeira intenção da dominação espetacular era fazer desaparecer o conhecimento histórico em geral; e em primeiro lugar quase todas as informações e todos os comentários razoáveis sobre o mais recente passado. Uma evidência tão flagrante não necessita ser explicada. O espetáculo organiza com mestria a ignorância do que acontece e, logo em seguida, o esquecimento daquilo que pôde apesar de tudo tornar-se conhecido. O mais importante é o mais escondido. Vinte anos depois, nada foi mais recoberto de tantas mentiras comandadas como a história de Maio de 1968. Contudo, lições úteis foram tiradas de alguns estudos desmitificados sobre essas jornadas e as suas origens, mas são segredo de Estado.
     Na Franca, há já uma dezena de anos, um Presidente da República, esquecido em seguida, mas flutuando, então, à superfície do espetáculo, exprimia inocentemente a alegria que ressentia, “sabendo que viveremos a partir de agora num mundo sem memória, onde, como na superfície da água, a imagem afasta indefinidamente a imagem”. É efetivamente cômodo para quem está nos negócios; e sabe manter-se neles. O fim da história é um agradável repouso para todo o poder presente. Garante-lhe absolutamente o êxito do conjunto das suas iniciativas, ou pelo menos o ruído do êxito.
     Um poder absoluto suprime tanto mais radicalmente a história, quanto tem de ocupar-se dos interesses ou das obrigações mais imperiosas, e principalmente conforme encontrou mais ou menos grandes facilidades práticas de execução. Ts’in Che Hoang Ti mandou queimar os livros, mas não conseguiu fazê-los desaparecer todos. Stalin levava mais longe a realização de um projeto semelhante no nosso século, mas, apesar das cumplicidades de toda a espécie que encontrou fora das fronteiras do seu império, ficava uma vasta zona do mundo inacessível à sua polícia, onde se riam das suas imposturas. O espetacular integrado fez melhor, com novíssimos métodos, e operando desta vez mundialmente. A inépcia faz-se respeitar por todo o lado, já não é permitido rir dela; em todo o caso, tornou-se impossível fazer saber que se riem dela.
     O domínio da história era o memorável, a totalidade dos acontecimentos cujas consequências se manifestariam durante muito tempo. Era inseparavelmente o conhecimento que deveria durar e ajudaria a compreender, pelo menos parcialmente, aquilo que aconteceria de novo: “uma aquisição para sempre”, diz Tucídides. Por isso, a história era a medida duma novidade verdadeira; e quem vende a novidade tem todo o interesse em fazer desaparecer o meio de a medir. Quando o importante se faz socialmente reconhecer como aquilo que é instantâneo, e vai sê-lo no instante seguinte, e no outro e noutro ainda, e que substituirá sempre uma outra importância instantânea, pode também dizer-se que o meio utilizado garante uma espécie de eternidade desta não-importância, que fala tão alto.
     A preciosa vantagem que o espetáculo retirou deste pôr fora-da-lei da história, de ter já condenado toda a história recente a passar à clandestinidade, e de ter conseguido fazer esquecer muito frequentemente o espírito histórico na sociedade, é antes de tudo cobrir a sua própria história: o próprio movimento da sua recente conquista do mundo. O seu poder aparece já familiar, como se tivesse estado lá desde sempre. Todos os usurpadores quiseram fazer esquecer que acabam de chegar.”


     “Com a destruição da história é o próprio acontecimento contemporâneo que se afasta imediatamente a uma distância fabulosa, entre os seus relatos inverificáveis, as suas estatísticas incontroláveis, as suas explicações inacreditáveis e os seus raciocínios insustentáveis. A todas as idiotices que são avançadas espetacularmente, não há senão os midiáticos que poderiam responder através de algumas respeitosas retificações ou repreensões, mas mesmo nisso são parcos, porque para além da sua extrema ignorância, a sua solidariedade de ofício e de coração, com a autoridade generalizada do espetáculo, e com a sociedade que ele exprime, gera-lhes um dever e também um prazer de jamais se desviarem desta autoridade, cuja majestade não deve ser lesada. É preciso não esquecer que todo o midiático, por salário e por outras recompensas ou gorjetas, tem sempre um senhor, às vezes vários, e que todo o midiático se sabe substituível.
     Todos os experts são midiático-estatais, e apenas por isso são reconhecidos. Todo o expert serve o seu senhor, porque cada uma das antigas possibilidades de independência foi pouco mais ou menos reduzida a nada, pelas condições de organização da sociedade presente. O expert que serve melhor é, seguramente, o expert que mente. Aqueles que têm necessidade do expert são, por motivos diferentes, o falsificador e o ignorante. Lá onde o indivíduo não reconhece mais nada por si mesmo, será formalmente tranquilizado pelo expert. Antes era normal que houvesse experts na arte dos Etruscos; e eram sempre competentes, porque a arte etrusca não estava no mercado. Mas, por exemplo, uma época que acha rentável falsificar quimicamente a maioria dos vinhos célebres, não poderá vendê-los, a não ser que tenha formado experts em vinhos que levarão os otários a gostar dos seus novos aromas, mais reconhecíveis. Cervantes observa que “debaixo de uma má capa, encontra-se muitas vezes um bom bebedor”. Aquele que conhece o vinho ignora a maioria das vezes as regras da indústria nuclear; mas a dominação espetacular estima que, já que um expert se riu dele a propósito da indústria nuclear, um outro expert poderá gozá-lo melhor a propósito do vinho. Sabe-se, por exemplo, quanto o expert em meteorologia midiática, que anuncia as temperaturas ou as chuvas previstas para as próximas quarenta e oito horas, é obrigado a muitas reservas pela obrigação de manter os equilíbrios econômicos, turísticos e regionais, quando tanta gente circula tão frequentemente por tantas estradas, entre lugares igualmente desolados; de modo que ele será melhor sucedido como animador.
     Um aspecto do desaparecimento de todo o conhecimento histórico objetivo manifesta-se a propósito de qualquer reputação pessoal, que se tornou maleável e retificável à vontade pelos que controlam toda a informação, aquela que recolhem e também aquela, bem diferente, que difundem; eles têm portanto toda a permissão para falsificar. Porque uma evidência histórica da qual nada se quer saber no espetáculo, já não é uma evidência. Lá onde ninguém tem senão a celebridade que lhe foi atribuída como um favor pela benevolência de uma Corte espetacular, a desgraça pode acontecer instantaneamente. Uma notoriedade anti-espetacular tornou-se qualquer coisa de extremamente rara. Eu próprio sou um dos últimos vivos a possuir uma; a nunca ter tido outra. Mas esta também se tornou extraordinariamente suspeita. A sociedade proclamou-se oficialmente espetacular. Ser conhecido à margem das relações espetaculares equivale já a ser conhecido como inimigo da sociedade.
     É permitido mudar completamente o passado de qualquer um, de o modificar radicalmente, de o recriar no estilo dos processos de Moscou; e sem que seja mesmo necessário recorrer às fadigas de um processo. Pode matar-se com menos custos. Os falsos testemunhos, talvez desajeitados – mas que capacidade de sentir esta inabilidade poderá ainda restar aos espectadores que serão testemunhas das façanhas destes falsos testemunhos? – e os falsos documentos, sempre excelentes, não podem faltar àqueles que governam o espetacular integrado, ou aos seus amigos. Portanto, já não é possível acreditar, sobre ninguém, em nada daquilo que não tenha sido conhecido por si mesmo e diretamente. Mas, de fato, já não há muitas vezes a necessidade de acusar falsamente alguém. Desde que se detém o mecanismo de comando da única verificação social que se faz plenamente e universalmente reconhecer, diz-se o que se quer. O movimento da demonstração espetacular prova-se simplesmente andando à roda: voltando, repetindo-se, afirmando continuamente sobre o único terreno onde reside doravante aquilo que pode afirmar-se publicamente, e fazer-se acreditar, pois que é disso somente que todo o mundo será testemunha. A autoridade espetacular pode igualmente negar seja o que for, uma vez, três vezes, e dizer que não falará mais disso, e falar de outra coisa, sabendo bem que já não arrisca mais nenhuma outra réplica no seu próprio terreno, nem em nenhum outro. Porque já não existe ágora de comunidade geral, nem mesmo de comunidades restritas aos corpos intermédios ou às instituições autônomas, aos salões ou cafés, aos trabalhadores de uma só empresa; nenhum lugar onde o debate, sobre as verdades que dizem respeito àqueles que lá estão, possa libertar-se de forma duradoura da esmagadora presença do discurso midiático, e das diferentes forças organizadas para o substituir. Atualmente já não existe julgamento com a garantia de relativa independência, daqueles que constituíam o mundo erudito; daqueles que, por exemplo, antigamente, manifestavam o seu orgulho numa capacidade de verificação, permitindo a aproximação àquilo a que se chamava a história imparcial dos fatos, de acreditar pelo menos que ela merecia ser conhecida. Já nem existe mesmo verdade bibliográfica incontestável, e os resumos informatizados dos ficheiros das bibliotecas nacionais poderão suprimir ainda melhor os traços. Perder-nos-íamos pensando naquilo que foram noutros tempos os magistrados, os médicos, os historiadores, e nas obrigações imperativas em que eles se reconheciam, na maior parte das vezes, nos limites das suas competências: os homens parecem-se mais com o seu tempo do que com o seu pai.
     Aquilo de que o espetáculo pode deixar de falar durante três dias é como se não existisse. Pois ele fala, então, de outra coisa qualquer e é isso que, portanto, a partir daí, em suma, existe. As consequências práticas, como se vê, são imensas. Acreditava-se saber que a história tinha aparecido, na Grécia, com a democracia. Pode verificar-se que ela desaparece do mundo com ela.
     É preciso porém acrescentar a esta lista de triunfos do poder, um resultado para ele negativo: um Estado, em cuja gestão se instala duravelmente um grande déficit de conhecimentos históricos, já não pode ser conduzido estrategicamente.”

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