A conversão de São Paulo

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sexta-feira, 28 de abril de 2017

Pensamentos Metafísicos & Tratado da correção do intelecto (Os Pensadores) – Benedictus de Spinoza

Editora: Nova Cultura
Introdução e seleção de textos: Marilena de Souza Chauí
Tradução e notas: Marilena Chauí e Carlos Lopes de Mattos (respectivamente)
Opinião: Pensamentos metafísicos** / Tratado da correção do intelecto**
Páginas: 87
 

Pensamentos Metafísicos

     “A saber:
     As criaturas estão em Deus eminentemente.
     1°) Deus contém eminentemente aquilo que é encontrado formalmente nas criaturas, isto é, Deus tem tais atributos que todas as coisas criadas estão contidas nele da maneira mais eminente. Por exemplo: concebemos claramente a extensão sem nenhuma existência e assim como por si não tem nenhuma força para existir, demonstramos que foi criada por Deus. E porque deve haver na causa pelo menos tanta perfeição quanto no efeito, segue-se que todas as perfeições da extensão se encontram em Deus. Mas, porque em seguida vimos que a coisa extensa é divisível por sua natureza, isto é, contém uma imperfeição, não podemos por isso atribuir a extensão a Deus e temos que reconhecer que se encontra em Deus algum atributo que contenha as perfeições da matéria da maneira mais excelente e que possa preencher o lugar ocupado pela matéria;
     2°) Deus se conhece a si mesmo e a todas as coisas, isto é, também tem em si objetivamente todas elas;
     3°) Deus é a causa de todas as coisas e opera apenas pela liberdade absoluta de sua vontade.
     O que são o ser da essência, da existência, da ideia e da potência.”


     “Em Deus a essência não se distingue da existência, pois sem a existência a essência não pode ser concebida; nos outros seres a essência difere da existência, pois pode-se conceber aquela sem esta.”


     “Nenhuma coisa criada faz seja lá o que for por sua própria força, assim como nenhuma coisa criada começa a existir por sua própria força. Disso decorre que nada se faz a não ser pela força da causa criadora de todas as coisas, isto é, Deus, que por seu concurso prolonga em cada momento singular todas as coisas. Como nada se faz sem a exclusiva potência divina, é fácil ver que aquelas coisas que são feitas o são pela força do decreto de Deus e de sua vontade.”


     “A verdade não é adequação da ideia ao ideado, nem o falso é inadequação da ideia ao ideado. A verdade é o encadeamento necessário das ideias, encadeamento determinado pelo processo que as engendra. A verdade não pode ser acrescentada ou retirada às coisas, pois é uma qualidade das ideias e não das coisas. A ideia verdadeira é aquela que mostra sua própria gênese, por isso a verdade é intrínseca à ideia e não extrínseca, como na adequação.” (Marilena Chauí)


     “Bom e mau se dizem apenas num sentido relativo.
     Uma coisa considerada isoladamente não é dita ser boa nem , mas somente em sua relação com uma outra à qual ela é útil ou nociva para a obtenção daquilo que ama. E dessa maneira qualquer coisa pode ser dita ao mesmo tempo boa ou má sob diferentes relações. Assim, nas Santas Escrituras o conselho de Aquitofel a Absalão é chamado bom, embora fosse muito mau para Davi, pois preparava sua perda. Muitas outras coisas são ditas boas, embora não o sejam para todos. Assim, a salvação é boa para os homens, mas não é boa nem má para os animais e para as plantas, pois não tem relação alguma com eles. Deus, em verdade, é dito soberanamente bom porque é útil a todos. Com efeito, por seu concurso conserva o ser de cada um e é para cada um a coisa mais amada. E é evidente por si que nele não pode haver absolutamente nada mau.”


     “A existência de Deus é explicada de maneira muito diferente daquela que os homens admitem comumente, pois confundem a existência de Deus com a sua própria, e por isso imaginam Deus como se fosse uma espécie de homem, sem dar atenção à ideia verdadeira de Deus que está neles, ou ignoram totalmente que a possuem. Decorre daí sua impossibilidade para demonstrar a existência de Deus tanto a priori, isto é, pela verdadeira definição de sua essência, quanto a posteriori, isto é, enquanto têm uma ideia dele, e não podem, muito menos, conceber essa existência.”


     “Nenhuma duração pode ser atribuída a Deus, pois, visto que seu ser é eterno, isto é, que nele não pode haver nem antes nem depois, não lhe podemos atribuir a duração sem destruir o conceito verdadeiro que temos de Deus, pois ao atribuir-lhe a duração, com efeito, nós dividiríamos em partes aquilo que é infinito por sua natureza e que só pode ser concebido como infinito.*”
*: O infinito não é o ilimitado, não é o finito que cresce ao máximo ou diminui ao mínimo. Tomar o infinito como ilimitado é tomá-lo negativamente (o que não tem começo nem fim), mas os termos negativos são entes de Razão nascidos da fraqueza de nosso intelecto. O infinito é positividade absoluta: é a identidade da existência e da essência, a simultaneidade necessária de todas as leis do universo. (Marilena Chauí)


     “Deus não é mudado por um outro ente.
     As mudanças da primeira espécie, que dependem de causas externas, não ocorrem em Deus porque só ele é causa de todas as coisas e não é paciente diante de ninguém. Ademais, nenhuma coisa criada possui em si mesma qualquer força para existir e, consequentemente, possui ainda menos força para exercer uma ação fora de si mesma ou sobre sua própria causa. E se frequentemente lê-se nas Escrituras Sagradas que Deus teve cólera ou tristeza por causa dos pecados dos homens e outras coisas semelhantes, é que se tomaram os efeitos pela causa, como quando dizemos que o sol está mais forte e mais alto no verão do que no inverno, embora não tenha mudado de lugar nem adquirido forças novas. E as Sagradas Escrituras com frequência ensinam isto, como se pode ler em Isaías 59, 2 ao dirigir censuras ao povo: “Vossos crimes vos separam de vosso Deus”.
     Deus também não é mudado por si próprio.
     Continuemos, pois, e perguntemos se pode haver em Deus uma mudança que provenha dele próprio. Ora, não admitimos que isso possa ocorrer, mais: nós o negamos absolutamente. Pois toda mudança que depende da vontade do sujeito ocorre para tornar melhor seu estado, o que não pode ocorrer no ente supremamente perfeito. Além disso, toda mudança dessa espécie só ocorre para evitar algum dano ou para adquirir algum bem que falta; ora, tanto uma coisa como outra não podem suceder em Deus.”


     “O que é a vida e o que ela é em Deus.
     Entendemos, pois, por vida a força pela qual as coisas perseveram em seu ser, e, como essa força é distinta das próprias coisas, dizemos propriamente que as coisas têm vida. Mas como a força pela qual Deus persevera em seu ser nada mais é do que sua essência, falam bem aqueles que dizem que Deus é a vida. Não faltam teólogos que compreendam que é por essa razão que os judeus, ao jurar, dizem: “Por Deus vivo” e não “Pela vida de Deus”, como José, que, jurando pela vida do Faraó, dizia: “Pela vida de Faraó”.”


     “Voltemos, pois, ao nosso propósito, a saber, que não há fora de Deus nenhum objeto de sua ciência, mas que ele é o objeto de sua ciência e, mesmo, que ele é sua ciência. Aqueles que pensam que o mundo é o objeto da ciência de Deus são muito menos razoáveis do que aqueles que querem que um edifício construído por algum arquiteto renomado seja tido por objeto de sua ciência, pois o arquiteto é obrigado a procurar fora de si próprio uma matéria conveniente, mas Deus não procurou matéria alguma fora de si: quanto à sua essência e quanto à sua existência, as coisas foram fabricadas por um intelecto idêntico à sua vontade.
     Pergunta-se, então, se Deus conhece os males ou os pecados, os entes de Razão e outras coisas semelhantes. Respondemos que Deus deve conhecer necessariamente as coisas de que é causa, tanto mais que elas não podem existir, mesmo por um instante, sem a ajuda do concurso divino. Visto, pois, que os males e os pecados não estão nas coisas, mas existem apenas na mente humana que compara as coisas entre si, segue-se que Deus não os conhece fora da mente humana. Dissemos que os entes de Razão são modos de pensar, e é em sua relação com a mente que devem ser conhecidos por Deus, isto é, enquanto compreendemos que ele conserva, procria continuamente a mente humana tal como está constituída, não, certamente, que Deus tenha nele tais modos de pensar para reter mais facilmente aquilo que conhece. Basta que se leve em conta o pouco que dissemos, e não se poderá perguntar coisa alguma a respeito do intelecto de Deus que não possa ser facilmente resolvida.”


     “Se perguntares: por que Deus exorta os homens? Será fácil responder-te que Deus decretou desde toda eternidade exortar os homens em seu tempo a fim de que aqueles que ele deseja salvos se convertam. Se perguntares ainda: não poderia salvá-los sem qualquer exortação? Respondo: poderia. Talvez insistas: por que, então, não os salva? Responderei a isto quando me explicares por que Deus não fez o mar Vermelho transponível sem recorrer a um forte vento do leste e por que não realiza todos os movimentos singulares uns sem os outros, e uma infinidade de outras coisas que Deus produz pela mediação de causas. Perguntarás novamente: por que, então, os ímpios são punidos, visto que agem segundo sua natureza e segundo o decreto divino? Respondo que é também por um decreto divino que são punidos, e se forem punidos apenas aqueles que imaginamos pecar em virtude de sua liberdade, por que, então, os homens se esforçam para exterminar as serpentes venenosas, se estas pecam por causa de sua natureza própria e não podem fazer de outra maneira?”


     “Se, pois, um homem tem uma liberdade determinada para fazer algo, dever-se-á dizer que Deus o criou assim nesse momento mesmo. E isto não impede que a vontade humana seja frequentemente determinada por coisas exteriores a ela, e que todas as coisas que estão na Natureza sejam mutuamente determinadas umas pelas outras para alguma ação, pois essas coisas também são determinadas por Deus. Nenhuma coisa pode determinar uma vontade, e, inversamente, nenhuma vontade pode determinar-se senão pela potência de Deus. Como isto se concilia com a liberdade humana ou como Deus pode fazer tudo mantendo a liberdade humana, confessamos ignorá-lo.”


Tratado da Correção do Intelecto

     “Resumamos agora o nosso intento. Até aqui, tivemos em primeiro lugar o fim para o qual procuramos dirigir todos os nossos pensamentos. Conhecemos, em segundo lugar, qual é a melhor percepção, com cujo auxílio podemos atingir a nossa perfeição. Vimos, em terceiro lugar, o primeiro caminho no qual a mente deve insistir para começar bem, que vem a ser: continuar conforme a norma de alguma existente ideia verdadeira a investigar segundo leis certas. Para fazê-lo bem, o método deve fornecer o seguinte: primeiramente, distinguir a verdadeira ideia de todas as outras percepções, coibindo a mente para que não se ocupe com estas. Em segundo lugar, dar as regras para que percebamos segundo tal norma as coisas desconhecidas. Em terceiro lugar, estabelecer uma ordem a fim de não nos cansarmos com inutilidades. Depois que conhecemos esse método, vimos em quarto lugar que ele será perfeitíssimo quando tivermos a ideia do Ser perfeitíssimo. Portanto, desde o começo se observará principalmente que devemos chegar o mais cedo possível ao conhecimento desse Ser.”
  

     “Demonstramos que a ideia verdadeira é simples ou composta de simples e mostra como e por que algo é ou foi feito. Demonstramos também que seus efeitos objetivos na alma procedem conforme a razão da formalidade do próprio objeto; o que é o mesmo que os antigos disseram, a saber, que a verdadeira ciência procede da causa para os efeitos; a não ser que nunca, ao que eu saiba, conceberam, como nós aqui, a alma agindo segundo certas leis e como que um autômato espiritual. Por conseguinte, quanto era possível no começo, adquirimos o conhecimento de nosso intelecto e tal norma da ideia verdadeira que não tememos mais confundir as coisas verdadeiras com as falsas ou as fictícias. Nem tampouco nos admiraremos de inteligir algumas coisas que de modo algum caem sob a imaginação, de que outras, totalmente opostas ao intelecto, estejam na imaginação, ou de que, afinal, haja outras que convém com o intelecto. Com efeito, sabemos que as operações pelas quais são produzidas as imaginações se fazem conforme outras leis, inteiramente diversas das leis do intelecto, e que a alma se mantém, acerca da imaginação, apenas como paciente. Pelo que também se vê com que facilidade podem cair em grandes erros os que não distinguem cuidadosamente a imaginação e a intelecção.
     A seguir, como as palavras são parte da imaginação, isto é, fingimos muitos conceitos na medida em que, vagamente, por alguma disposição do corpo, são compostos na memória, não se deve duvidar de que também as palavras, como a imaginação, podem ser a causa de muitos e grandes erros, se com elas não tivermos muita precaução. Acrescente-se que são formadas de acordo com o arbítrio e a compreensão do vulgo, de modo que não são senão sinais das coisas como se acham na imaginação, mas não como estão no intelecto; o que claramente se vê pelo fato de que a todas as coisas que estão só no intelecto e não na imaginação puseram muitas vezes nomes negativos, como sejam, incorpóreo, infinito, etc., e também muitas coisas que são realmente afirmativas exprimem negativamente, e vice-versa, como são incriado, independente, infinito, imortal, etc., porque, sem dúvida, muito mais facilmente imaginamos o contrário disso, motivo pelo qual ocorreram antes aos primeiros homens e usaram nomes positivos. Muitas coisas afirmamos e negamos porque a natureza das palavras leva a afirmá-lo ou negá-lo, mas não a natureza das coisas; por isso, ignorando-a, facilmente tomaríamos algo falso por verdadeiro.
     Evitamos, além disso, outra grande causa de confusão e que faz com que o intelecto não reflita sobre si mesmo, a saber, quando, não fazendo distinção entre a imaginação e a intelecção, cremos que aquilo que imaginamos mais facilmente é também mais claro para nós, e julgamos inteligir o que imaginamos. Por isso, antepomos o que se deve pospor, e assim se desfaz a verdadeira ordem do progresso e não se conclui nada legitimamente.”


     “Uma definição, para que seja dita perfeita, deverá explicar a essência íntima da coisa, cuidando-se que não usemos em seu lugar algumas propriedades.”


     “As ideias falsas e fictícias nada têm de positivo (como mostramos à saciedade) pelo que sejam ditas falsas ou fictícias, mas somente são consideradas tais por um defeito do conhecimento.”

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