A conversão de São Paulo

A conversão de São Paulo
A conversão de São Paulo

domingo, 30 de abril de 2017

Ensaio Acerca do Entendimento Humano (Os Pensadores) – John Locke

Editora: Nova Cultural
ISBN: 85-13-00906-7
Consultoria: Carlos Estevam Martins e João Paulo Monteiro
Tradução: Anoar Aiex
Opinião: ***
Páginas: 318

     “Certamente, o mundo estaria muito mais adiantado se o esforço de homens engenhosos e perspicazes não estivesse tão embaraçado pela erudição e pelo uso frívolo de termos desconhecidos, afetados e ininteligíveis, introduzido nas ciências, e fazendo disso uma arte a tal ponto de a filosofia, que nada mais é do que o verdadeiro conhecimento das coisas, tornar-se imprópria ou incapaz de ser apreciada pela sociedade mais refinada e nas conversas eruditas. Formas vagas e sem significado de falar, e abuso da linguagem, têm por muito tempo passado por mistérios da ciência; palavras difíceis e mal empregadas, com pouco ou nenhum sentido, têm, por prescrição, tal direito que são confundidas com o pensamento profundo e o cume da especulação, sendo difícil persuadir não os que falam como os que os ouvem que são apenas abrigos da ignorância e obstáculos ao verdadeiro conhecimento. Suponho que interromper o santuário da vaidade e da ignorância será de alguma utilidade para o entendimento humano, embora poucos estejam aptos a pensar que enganam ou são enganados pelo uso das palavras, ou que a linguagem da seita a que pertencem tem qualquer defeito que deva ser examinado e corrigido.”


     Como as regras morais necessitam de prova, elas não são inatas. Outra razão que me leva a duvidar de quaisquer princípios práticos inatos decorre do fato de pensar que nenhuma regra moral pode ser proposta sem que uma pessoa deva justamente indagar a sua razão: o que seria perfeitamente ridículo e absurdo se ela fosse inata, ou sequer evidente por si mesma, coisa que todo princípio inato deve necessariamente ser, sem precisar de qualquer prova para apurar sua verdade, nem necessitar de qualquer razão para obter sua aprovação.”


     Todas as ideias derivam da sensação ou reflexão. Suponhamos, pois, que a mente é, como dissemos, um papel em branco, desprovida de todos os caracteres, sem nenhuma ideia; como ela será suprida? De onde lhe provém este vasto estoque, que a ativa e ilimitada fantasia do homem pintou nela com uma variedade quase infinita? De onde apreende todos os materiais da razão e do conhecimento? A isso respondo, numa palavra: da experiência. Todo o nosso conhecimento está nela fundado, e dela deriva fundamentalmente o próprio conhecimento. Empregada tanto nos objetos sensíveis externos como nas operações internas de nossas mentes, que são por nós mesmos percebidas e refletidas, nossa observação supre nossos entendimentos com todos os materiais do pensamento. Dessas duas fontes de conhecimento jorram todas as nossas ideias, ou as que possivelmente teremos.”


     “Quem não quiser se equivocar, deve construir sua hipótese, derivada da experiência sensível, sobre um fato, e não supor um fato devido a essa hipótese.”


     A mente não pode formar nem destruir as ideias simples. Elas são os materiais de todo o nosso conhecimento, são sugeridas ou fornecidas à mente unicamente por duas vias: sensação e reflexão. Quando o entendimento já está abastecido de ideias simples, tem o poder para repetir, comparar e uni-las numa variedade quase infinita, formando à vontade novas ideias complexas. Mas não tem o poder, mesmo o espírito mais exaltado ou entendido, mediante nenhuma rapidez do pensamento, de inventar ou formar uma única nova ideia simples na mente, que não tenha sido recebida pelos meios antes mencionados; nem pode nenhuma força do entendimento destruir as ideias que lá estão, sendo o domínio do homem neste pequeno mundo de seu entendimento semelhante ao do grande mundo das coisas visíveis; donde seu poder, embora manejado com arte e perícia, não vai além de compor e dividir os materiais que estão ao alcance de sua mão; mas nada pode quanto à feitura da menor partícula de nova matéria, ou na destruição de um átomo do que já existe. Semelhante inabilidade será descoberta por quem tentar modelar em seu entendimento alguma ideia que não recebera através dos sentidos dos objetos externos, ou mediante a reflexão das operações de sua mente acerca deles. Gostaria que alguém tentasse imaginar um gosto que jamais impressionou seu paladar, ou tentasse formar a ideia de um aroma que nunca cheirou; quando puder fazer isso, concluirei também que um cego tem ideias das cores, e um surdo noções reais dos diversos sons.”


     As ideias simples são os materiais de todo o nosso conhecimento. Se estas não são todas, penso que, ao menos, constituem as mais notáveis das ideias simples pertencentes à mente, a partir das quais se formam todos os outros conhecimentos, sendo tudo isso fornecido unicamente pelas duas vias já mencionadas: sensação e reflexão.
     Que ninguém pense que estas duas fronteiras limitam a expansão da enorme capacidade da mente do homem, cujo voo vai além das estrelas e não pode ser confinado pelos limites deste mundo; que frequentemente estende seus pensamentos bem além da mais alta expansão da matéria e faz excursões pelo vazio incompreensível. Admito tudo isso; mas ninguém procure apontar qualquer ideia simples que não tenha recebido de uma daquelas entradas mencionadas, ou alguma ideia complexa que não tenha sido formada dessas simples. Nem será estranho pensar que estas poucas ideias simples serão suficientes para empregar o mais rápido pensamento ou a mais ampla capacidade, e para fornecer os materiais de toda esta variedade de conhecimentos e das variegadas fantasias e opiniões de todos os homens, se considerarmos quantas palavras são formadas em função das inúmeras composições das vinte e quatro letras, ou, indo um passo além, se refletirmos acerca da variedade de combinações que podem ser feitas com apenas uma das duas ideias acima mencionadas, por exemplo, a do número, cujo estoque é inesgotável e realmente infinito; e que campo amplo e imenso somente este algarismo oferece aos matemáticos.”


INFINIDADE
     Infinidade, em sua intenção original, atribuída ao espaço, duração e número. Para alguém entender que tipo de ideia se designa com o nome infinidade, nada melhor do que mostrar a que a mente atribui imediatamente à infinidade, destacando, a seguir, como a mente a forma.
     Parece-me que finito e infinito devem ser assinalados pela mente como modos de quantidade atribuídos primeiramente e em sua designação inicial apenas às coisas dotadas de partes, capazes de aumento ou diminuição mediante adição ou subtração de qualquer parte, por menor que seja, tais como as ideias de espaço, duração e número. Na verdade, não podemos, entretanto, estar seguros de que o poderoso Deus, de quem e para quem são todas as coisas, é incompreensivelmente infinito; apesar disso, quando mediante nossos limitados e fracos pensamentos aplicamos a ideia de infinito a este primeiro e supremo Ser, fazemo-lo, primeiramente, com respeito à sua continuidade e onipresença, e, penso, figurativamente, em relação ao seu poder, sabedoria, bondade e outros atributos, que são propriamente inesgotáveis e incompreensíveis, etc. Quando os denominamos infinitos, não possuímos nenhuma ideia desta infinidade, exceto a decorrente da reflexão e imitação da quantidade ou da extensão dos atos ou objetos derivados do poder de Deus, tais como a sabedoria e a bondade, que jamais pode ser suposto por tão grande, e cujos atributos nem sempre ultrapassamos ou excedemos, multiplicando-os em nossos pensamentos até onde quisermos, com toda a infinidade dos números ilimitados. Não pretendo dizer como esses atributos se encontram em Deus; situado, sem dúvida, infinitamente além do alcance de nossas estreitas capacidades e compreendendo em si toda per feição possível; apenas viso a afirmar em que consiste nosso meio de concebê-los e quais são nossas ideias de sua infinidade.
     A ideia de finito apreendida facilmente. Sendo, portanto, finito e infinito vistos pela mente como modificações da expansão e duração, devo considerar a seguir como a mente os apreende. Com respeito à ideia de finito, não há grande dificuldade. As óbvias porções da extensão que impressionam nossos sentidos transportam com elas para a mente a ideia de finito, e os períodos ordinários da sucessão – por meio dos quais medimos tempo e duração, como horas, dias e anos – são comprimentos limitados. A dificuldade consiste em saber como apreendemos essas ideias ilimitadas de eternidade e imensidade, desde que os objetos com os quais nos relacionamos aparecem muito reduzidos em relação a qualquer aproximação ou proporção desta grandeza.”
    

     Essência pode ser tomada como o ser de qualquer coisa, por isso ela é o que é. E, desse modo, embora geralmente desconhecida nas substâncias, a constituição interna real das coisas, às quais suas finalidades descobríveis estão subordinadas, pode ser chamada a essência das coisas. Este é o significado próprio e original da palavra, como é evidente de sua formação, essentia, em sua anotação primária, significando propriamente ser. E neste sentido ela continua sendo usada quando falamos da essência das coisas particulares, sem lhes dar um nome.”


     “O uso da linguagem consiste, em resumo, em sons para dar a entender com facilidade e rapidez conceitos gerais, em que não apenas a abundância de pormenores deve ser contida, mas também uma grande variedade de ideias independentes agrupadas em uma complexa.”


     “Mesmo a mais desenvolvida noção que temos de Deus consiste apenas em atribuir as mesmas ideias simples que adquirimos pela reflexão acerca do que descobrimos em nós mesmos, e que concebemos ter mais perfeição nelas do que seria em suas abstrações; atribuir, eu digo, essas ideias simples a ele num grau ilimitado. Deste modo, tendo adquirido, mediante a reflexão acerca de nós mesmos, a ideia da existência, do conhecimento, poder e prazer – cada uma das quais achamos melhor ter do que não ter; e quanto mais tivermos de cada é melhor –, reunindo todas, com a infinidade a cada uma delas, temos a ideia complexa de um ser eterno, onisciente, onipotente, infinitamente sábio e feliz.”


     “Conhecimento nada mais é que a percepção da conexão e acordo, ou desacordo e rejeição, de quaisquer de nossas ideias.”


     “Não questiono que este conhecimento humano, sob as circunstâncias atuais de nossos seres e constituições, possa ser levado bem além do que tem sido, se os homens sinceramente e com liberdade da mente empregassem toda diligência e esforço de pensamento no aperfeiçoamento dos meios para descobrir a verdade, em lugar de o fazerem superficialmente ou apoiando-se na falsidade, para manter um sistema, interesse ou facção com a qual estão comprometidos.”


     “Não há verdade mais evidente que esta: alguma coisa deve ser da eternidade. Eu jamais ouvi de alguém tão irracional, ou que poderia supor uma contradição tão manifesta, para afirmar que em certa época não havia perfeitamente nada. Este é de todos os absurdos o maior, pois imaginar o puro nada, a perfeita negação e ausência de todos os seres, jamais poderia produzir nenhuma existência real.”


     O ser não-cogitativo não pode produzir um cogitativo. Se, então, deve existir algo eterno, vejamos qual o tipo desse ser. E com respeito a isto é muito óbvio à razão que deve ser necessariamente um ser cogitativo. Pois é impossível conceber que jamais uma pura matéria não-cogitativa possa produzir um ser pensante e inteligente, como se o nada pudesse por si mesmo produzir a matéria. Suponhamos que qualquer porção da matéria eterna, grande ou pequena, fosse descoberta, por si mesma, capaz de nada produzir. Por exemplo, suponhamos a matéria da primeira pedra que encontramos com eternidade, bem unida, e as partes firmemente em repouso unidas; se não houvesse nenhum outro ser no mundo, não deveria conceber que pode adicionar movimento por si mesma, sendo puramente matéria, ou produzir alguma coisa? A matéria, pois, por sua própria força, não pode produzir em si mesma tanto quanto o movimento; o movimento que ela tem deve também ser da eternidade, ou então ser produzido e acrescido à matéria por algum outro ser mais poderoso do que a matéria; a matéria, como é evidente, não tem poder para produzir movimento em si mesma. Mas suponhamos o movimento eterno também: embora a matéria, matéria não-cogitativa e movimento, seja qual for a modificação que pode produzir da figura e grandeza, jamais possa produzir pensamento, o conhecimento ainda estará além do poder do movimento e matéria para produzir, tanto como a matéria está além do poder de nada ou da não-existência para produzir. E faço um apelo para o pensamento de cada um, se não pode facilmente conceber a matéria produzida pelo nada, como o pensamento poderia ser produzido pela matéria pura, quando, antes, não havia tal; coisa como o pensamento ou um ser inteligente existindo? É impossível conceber que esta matéria, com ou sem movimento, poderia ter, originalmente, em e por si mesma, sentido, percepção e conhecimento; como é evidente disto, o então sentido, percepção e conhecimento deve ser uma propriedade eternamente inseparável da matéria em cada partícula dela. Pois, portanto, tudo o que é o primeiro ser eterno deve necessariamente ser cogitativo; e, seja o que for que é inicial de todas as coisas, deve necessariamente contê-lo nele, e atualmente ter, ao menos todas as perfeições que podem existir depois e para sempre; nem pode jamais transmitir a outrem nenhuma perfeição que não tem, quer atualmente em si mesmo, quer, ao menos, em um grau mais alto; segue-se necessariamente que o ser inicial eterno não pode ser matéria.
     Portanto, existiu lá uma sabedoria eterna. Se, portanto, é evidente que algo deve necessariamente ter existido desde a eternidade, é também evidente que este algo deve ser necessariamente um ser cogitativo; pois é impossível que uma matéria não-cogitativa pudesse produzir um ser cogitativo, assim como o nada, ou a negação de todo ser, pudesse produzir um ser positivo ou matéria.
     Embora esta descoberta da existência necessária de uma mente eterna nos leve suficientemente ao conhecimento de Deus, desde que deriva disto que todos os outros seres cognitivos que têm começo devem depender dele, e não ter nenhum outro meio de conhecimento ou extensão do poder do que ele lhes deu; e, portanto, se ele os fez, fez igualmente as peças menos excelentes do universo, todos os seres inanimados, por meio dos quais sua consciência, poder e providência são estabelecidos, e todos os seus atributos decorrem necessariamente.”


     “A razão, como contradistinguida da , assumo que é a descoberta da certeza ou probabilidade de tais proposições ou verdades que a mente alcança por dedução feita de tais ideias, que adquiriu pelo uso de suas faculdades naturais, ou seja, pela sensação ou reflexão.
     A , por outro lado, é o assentimento de qualquer proposição, não estabelecida pelas deduções da razão, mas com base na confiança do proponente, como derivada de Deus, em algum meio extraordinário de comunicação. Este meio para desvendar a verdade aos homens denominamos revelação.”


     Se os limites não forem estabelecidos entre fé e razão, nenhum entusiasmo ou extravagância em religião pode ser contradito. Se as províncias da fé e da razão não forem distinguidas por estas fronteiras, não haverá em matéria de religião, em absoluto, lugar para a razão; e estas opiniões extravagantes e cerimônias que são descobertas em várias religiões do mundo não merecerão ser censuradas. Pois, para esta exaltação de fé em oposição à razão, podemos, penso, em certa medida assinalar estes absurdos que acumulam quase todas as religiões, os quais dominam e dividem os homens. Uma vez que os homens foram imbuídos com uma opinião, a de que não devem consultar a razão em coisa de religião, por mais aparentemente que sejam contraditórias ao senso comum e aos próprios princípios de todo o seu conhecimento, deixaram soltas suas fantasias e sua superstição natural. E foram por elas levados a opiniões tão estranhas, e extravagantes rituais em religião, que um homem ponderado não pode senão permanecer admirado de suas loucuras, e julgá-los longe de serem aceitos ao grande e sábio Deus, não podendo evitar pensá-los ridículos e ofensivos, em relação a um homem sóbrio e bom. Assim sendo, com efeito, a religião, que mais deveria nos distinguir das bestas, e deveria mais particularmente nos elevar, como criaturas racionais, acima dos brutos, consiste nisso, ou seja, os homens frequentemente, através dela, parecem mais irracionais e menos insensíveis que as próprias bestas. Credo, quia impossibile est: creio, porque é impossível, deve, num bom homem, passar por uma investida de zelo; mas provaria uma regra muito má para os homens basearem a escolha de suas opiniões ou religião.”


     “Sendo o conhecimento para ser tido apenas da verdade visível e evidente, o erro não é uma falta de nosso conhecimento, mas um equívoco de nosso julgamento assentindo a algo que não é verdadeiro.”


     Os homens não se encontram em tantos erros como se imagina. Mas não obstante, quanto ao grande barulho que é feito no mundo com respeito aos erros e opiniões, devo fazer justiça aos homens ao dizer: não há tantos homens no erro e com opiniões errôneas como é geralmente suposto. Não que eu pense que eles adotam a verdade, mas porque, no que diz respeito a estas doutrinas, eles se mantiveram em tal movimento que não têm pensado, não têm, em absoluto, opinião. Eles estão resolvidos a aferrar-se a um partido que a educação ou o interesse os tem engajado, e lá, como os soldados de um exército, mostram sua coragem e entusiasmo de acordo com a orientação de seus líderes, sem jamais examinar ou conhecer a causa pela qual combatem. Deste modo, os homens tornam-se professores e combatentes, destas opiniões de que nunca estiveram convencidos nem são prosélitos, nem jamais as tiveram em suas cabeças; e, apesar de não se poder dizer que há menos opiniões errôneas ou improváveis no mundo do que se pensa, ainda assim, isto é certo: há poucos que realmente aquiescem com elas, e as confundem com verdades, como se imagina.” 


     “Isto me parece tanto a primeira e mais geral, como natural, divisão dos objetos de nosso entendimento. Pois um homem pode empregar seus pensamentos acerca de nada, mas também na contemplação das próprias coisas, para a descoberta da verdade; ou acerca de coisas em seu próprio poder, que são suas próprias ações, para a obtenção de seus próprios objetivos, ou nos sinais de que a mente faz uso de ambos em um ou em outro, e na correta ordenação deles, para sua mais clara informação. Todas estas três, a saber, coisas, como elas são em si mesmas cognoscíveis; ações, como elas dependem de nós, com vistas à felicidade; e o uso correto de sinais com vistas ao conhecimento; sendo toto coelo diferentes, parecem-me ser as três grandes províncias do mundo intelectual, totalmente separadas e distintas entre si.”

Um comentário:

Doney Stinguel disse...

Não foi inserido todo aqui por questões de espaço, mas o capítulo XX, O Assentimento Errôneo ou o Erro, merece ser lido com especial atenção.