segunda-feira, 10 de abril de 2017

Tratado do Primeiro Princípio – João Duns Escoto

Editora: Edições 70
ISBN: 978-97-2440-981-8
Opinião: *
Tradução: Mário Santiago de Carvalho
Páginas: 144

     “Num cão a sabedoria não é melhor do que a não sabedoria, porque nele não há bondade a contradizer.”


     “Há algum mal nos seres, logo, o primeiro eficiente causa contingentemente; e, por conseguinte, como antes (11). Prova da consequência: o que age por necessidade de natureza age com toda a sua potência, e, portanto, produz toda a perfeição possível de ser produzida por si mesmo. Logo, se o primeiro, e em consequência do que se deduziu, todo outro agente, age necessariamente, segue-se que toda a ordem de causas causará neste universo tudo aquilo que é possível que elas causam nele. Logo, não lhe faltará nenhuma perfeição que lhe possa ser dada por todas as causas agentes; logo, não lhe faltará nenhuma capaz de receber, e portanto não haveria nele nenhuma maldade. Estas consequências são evidentes: porque toda a perfeição receptível pelo universo é causável por alguma ou por todas as causas ordenadas. A última consequência é evidente pela noção de mal, e a prova conclui para o vício nos costumes da mesma maneira que para a falha na natureza.
     Dirás: “a matéria não obedece”. De nada serve; um agente poderoso venceria a desobediência. Esta conclusão, prova-se, de uma quinta maneira, porque ser vivo é melhor que tudo o que não vive, e entre os seres vivos o inteligente é melhor do que tudo o que não é.
     Porque eles supõem como evidente que o entender, o querer, a sabedoria e o amor são perfeições absolutas.
     Mas não se vê por que razão é que se pode concluir que se trata de perfeições absolutas, mais do que a natureza do primeiro anjo. Se de facto tomas “sabedoria” denominativamente, ela será melhor do que todo o denominativo incompossível com ela, mas não provaste que o primeiro é “sábio”. Digo que cais numa petição de princípio. Só podes concluir que o “sábio” é melhor do que o “não sábio”, excluindo o primeiro. Deste modo o primeiro anjo é melhor do que todo o ser tomado denominativamente, incompossível com ele, à exceção de Deus. E o que é mais, a essência do primeiro anjo, em abstrato, pode ser melhor do que a “sabedoria” em absoluto.
     Dirás: “a essência do primeiro anjo repugna a muitos; portanto não é melhor denominativamente para todos”. Respondo: nem sequer a sabedoria é melhor para todos denominativamente; repugna a muitos.
     Dirás: “seria melhor para todos se ela pudesse inerir em todos; seria melhor para um cão se ele fosse sábio”. Respondo: então, seria melhor para o primeiro anjo, se ele pudesse ser cão, e para o cão seria melhor se pudesse ser o primeiro anjo. Dirás: “pelo contrário, isso destruiria a natureza do cão, pelo que não seria bom para o cão”. Respondo: também “ser sábio” destruiria a sua natureza. Não há diferença, a não ser que “anjo” destrói como uma natureza do mesmo gênero e “sabedoria” como uma de um outro gênero, mas incompossível, todavia, porque “sábio” determina para si enquanto sujeito uma natureza do mesmo gênero que é incompossível; o que um sujeito repugna primariamente, um atributo do sujeito repugna-o por si, apesar de não primariamente. A maneira vulgar de falar sobre a perfeição absoluta vacila bastantes vezes.”


     “O primeiro eficiente é inteligente e dotado de vontade”. (Aristóteles – Metafísica)


     “Também se argumenta assim: o entendimento do primeiro tem um ato adequado a si e coeterno, porque o seu entender é idêntico a si. Logo, não pode ter outro. A consequência não vale: caso do argumento do bem-aventurado que vê Deus e ao mesmo tempo vê outra coisa; ainda que veja Deus no último grau da sua capacidade, tal como se pensa acerca da alma de Cristo, pode todavia ver outra coisa. Mais se argumenta: por identidade aquele entendimento tem em si a máxima perfeição de entender. Logo, tem também todas as demais. Respondo: não se segue; porque outra perfeição, que fosse menor, poderia ser causável e, portanto, distinguir-se da incausável; a máxima não o pode.”


     “Um efetivo absolutamente primeiro existe em ato e uma natureza atualmente existente é efetiva dessa maneira.” (S. Anselmo – Proslógio)


     “Pode matizar-se o argumento de Anselmo relativo ao sumamente pensável. Deve entender-se a sua descrição do modo seguinte: Deus é aquilo maior que o qual, pensado sem contradição, nada se pode pensar sem contradição.”


     “O visível é mais perfeitamente cognoscível que o não-visível, que é apenas abstratamente inteligível. Logo, o que é perfeitissimamente cognoscível existe.”


     “A brancura que dura um ano não é mais perfeita do que a que dura um dia.”


     “Senhor, nosso Deus! Muitas das tuas perfeições, conhecidas pelos filósofos, podem os católicos concluir do que ficou exposto. Tu és o primeiro eficiente. Tu és o último fim. Tu és supremo na perfeição, tudo transcendes sem exceção. És totalmente incausado e por isso não sujeito à geração e incorruptível, ou antes: é absolutamente impossível que não sejas, visto que, em ti mesmo, és necessário. És, por conseguinte, eterno, porque possuis simultaneamente a interminabilidade da duração sem qualquer potência para a sucessão. Pois não pode haver sucessão salvo naquilo que é continuamente causado ou que, pelo menos, depende de outro para ser, dependência esta estranha ao ser que é em si mesmo necessário.
     Tu vives uma vida nobilíssima, porque és inteligente e querente. Tu és feliz, ou antes, és essencialmente a felicidade, porque tu és a compreensão de ti próprio. És a clara visão de ti mesmo e amor deleitabilíssimo. E embora sejas feliz em ti só, e sumamente te bastes a ti mesmo, conheces todo o inteligível atual e simultaneamente. Tu podes querer simultânea, contingente e livremente, e querendo-o podes causar tudo o que é causável. O teu poder é assim verissimamente infinito.
     Tu és incompreensível, sim, pois nem um ser onisciente é finito e nenhum ser com potência infinita é finito, nem o supremo se dá nos seres, nem o fim último é finito, nem o que existe por si e é totalmente simples é finito.
     Tu és o ápice da simplicidade, pois não tens partes realmente distintas, e na tua essência não tens quaisquer realidades realmente não idênticas. Em ti não há qualquer quantidade nem nenhum acidente. E por isso não és acidentalmente mutável, tal como já mostrei que és imutável em essência.
     Só tu és simplesmente perfeito. Não és um anjo perfeito nem um corpo, mas és um ser perfeito ao qual não falta nenhuma entidade que possa pertencer a um ser. É impossível que todas as entidades se encontrem formalmente num ser; podem, contudo, encontrar-se formal ou eminentemente num ser, como se encontram em ti, Deus, que és o supremo dos seres, ou melhor, o único infinito entre os seres.”

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