A conversão de São Paulo

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A conversão de São Paulo

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Bíblia Sagrada – Pentateuco (Gênesis / Êxodo / Levítico / Números / Deuteronômio)

Editora: Paulus
ISBN: Bíblia do Peregrino (BPe) – 978-85-349-2005-6 / Bíblia de Jerusalém (BJ) – 978-85-349-4282-9 / Bíblia Pastoral (BPa) 978-85-349-0228-1
Tradução, introdução e notas (BPa): Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin
Tradução (BPe): Ivo Storniolo e José Bortolini
Notas (BPe): Luís Alonso Schökel
Opinião: N/A
Páginas: BPe – 360 / BJ – 305 / BPa – 227

      “Iahweh Deus plantou um jardim em Éden, no oriente, e aí colocou o homem que modelara. Iahweh Deus fez crescer do solo toda espécie de árvores formosas de ver e boas de comer, e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conhecimento do bem e do mal1. (...) Iahweh Deus tomou o homem e o colocou no jardim de Éden para o cultivar e o guardar. Iahweh Deus deu ao homem este mandamento: “Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer”. (...)
     A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Iahweh Deus tinha feito. Ela disse à mulher: "Então Deus disse: Vós não podeis comer de todas as árvores do jardim?” A mulher respondeu à serpente: “Nós podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Dele não comereis, nele não tocareis, sob pena de morte.” A serpente disse então à mulher: “Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal.” A mulher viu que a árvore era boa ao apetite e formosa à vista, e que essa árvore era desejável para adquirir discernimento. Tomou-lhe do fruto e comeu. Deu-o também a seu marido, que com ela estava e ele comeu. Então abriram-se os olhos dos dois e perceberam que estavam nus; entrelaçaram folhas de figueira e se cingiram.
     Eles ouviram o passo de Iahweh Deus que passeava no jardim à brisa do dia e o homem e sua mulher se esconderam da presença de Iahweh Deus, entre as árvores do jardim. Iahweh Deus chamou o homem: “Onde estás?”, disse ele. “Ouvi teu passo no jardim,” respondeu o homem; “tive medo porque estou nu, e me escondi.” Ele retomou: “E quem te fez saber que estavas nu? Comeste, então, da árvore que te proibi de comer!” O homem respondeu: “A mulher que puseste junto de mim me deu da árvore, e eu comi!” Iahweh Deus disse à mulher: “Que fizeste?” E a mulher respondeu: “A serpente me seduziu e eu comi.”
     Então Iahweh Deus disse à serpente:

 “Porque fizeste isso
és maldita entre todos os animais domésticos
e todas as feras selvagens.
Caminharás sobre teu ventre
e comerás poeira
todos os dias de tua vida.
Porei hostilidade entre ti e a mulher,
entre tua linhagem e a linhagem dela.
Ela te esmagará a cabeça
e tu lhe ferirás o calcanhar.”
     À mulher ele disse:
“Multiplicarei as dores de tuas gravidezes,
na dor darás à luz filhos.
Teu desejo te impelirá ao teu marido
e ele te dominará.”
     Ao homem, ele disse:
“Porque escutaste a voz de tua mulher
e comeste da árvore que eu te proibira, comer,
maldito é o solo por causa de ti!
Com sofrimentos dele te nutrirás
todos os dias de tua vida.
Ele produzirá para ti espinhos e cardos,
e comerás a erva dos campos.
Com o suor de teu rosto
comerás teu pão
até que retornes ao solo,
pois dele foste tirado.
Pois tu és pó
e ao pó tornarás.”

     O homem chamou sua mulher “Eva”, por ser a mãe de todos os viventes. Iahweh Deus fez para o homem e sua mulher túnicas de pele, e os vestiu. Depois disse Iahweh Deus: “Se o homem já é como um de nós, versado no bem e no mal, que agora ele não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma e viva para sempre!” E Iahweh Deus o expulsou do jardim de Éden para cultivar o solo de onde fora tirado2. Ele baniu o homem e colocou, diante do jardim de Éden, os querubins e a chama da espada fulgurante para guardar o caminho da árvore da vida3.”
(Gn 2,8-9.15-17; 3,1-24 – BJ)
1) Esse conhecimento é um privilégio que Deus se reserva e que o homem usurpará pelo pecado (Gn 3,5.22). Não se trata, pois, nem da onisciência, que o homem decaído não possui, nem do discernimento moral, que o homem inocente já tinha e que Deus não pode recusar à sua criatura racional. É a faculdade de decidir por si mesmo o que é bem e o que é mal e de agir consequentemente: reivindicação de autonomia moral pela qual o homem nega seu estado de criatura (cf. Is 5,19-20). O primeiro pecado foi um atentado à soberania de Deus, um pecado de orgulho. Esta revolta imprimiu-se concretamente pela transgressão de um preceito estabelecido e representado sob a imagem do fruto proibido. (BJ)
2) A sentença de morte é comutada em desterro perpétuo do paraíso; poderia haver uma projeção da experiência do exílio. No trabalho árduo, o homem começa a voltar a seu lugar de origem (“terra”), não mais como simples dominador. (BPe)
3) Gn 3,1-24: O texto procura explicar a origem do mal. O centro dessa questão é a pretensão de ser como Deus (v. 5), usurpando o lugar do Deus verdadeiro para tornar-se autossuficiente, isto é, um falso deus. A autossuficiência é a mãe de todos os males, que são apenas consequência dela. Deus é o Senhor absoluto, e seu projeto é vida e liberdade para todos, no clima de fraternidade e partilha. Quando o homem se torna autossuficiente, se rebela contra o projeto de Deus e faz o seu próprio projeto: liberdade e vida só para si mesmo. O homem sonha possuir liberdade e vida plenas; porém, na sua autossuficiência, ele produz o contrário: escravidão e morte. As relações de fraternidade transformam-se em relações de poder e opressão; a relação de partilha transforma-se em exploração, e esta produz a riqueza de poucos e a pobreza de muitos. Desse modo, as relações ficam distorcidas e quebradas, tanto dos homens entre si como dos homens com a natureza. Nesse clima gerado pelo mal, que tende a se multiplicar, o caminho já não leva para a vida, mas para a morte (vv. 22-24). Tudo perdido? Não. Diante do mal gerado pelo homem, Deus promete uma descendência que estará comprometida com o projeto de Deus, projeto este que triunfará sobre todo o mal. O Novo Testamento vê nessa descendência o povo comprometido com Jesus Cristo, que é o supremo revelador e realizador do projeto de Deus. (BPa)


     “Mas se não procedes bem, o pecado espreita à porta. E embora ele te deseje, tu podes dominá-lo.”
(Gn 4, 7 – BPe)


     “Noé construiu um altar ao Senhor, pegou animais e aves de toda espécie pura, e os ofereceu em holocausto sobre o altar.
     O Senhor respirou o perfume que aplaca e disse:
     – Não voltarei a amaldiçoar a terra por causa do homem. Sim, o coração do homem se perverte desde a juventude; mas não voltarei a matar os viventes como acabei de fazer.”
(Gn 8, 20-21 – BPe)


    “Moisés disse a Deus:
     “Quando eu for aos filhos de Israel e disser: ‘O Deus de vossos pais me enviou até vós’; e me perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’, que direi?” Disse Deus a Moisés: “Eu sou aquele que é.” Disse mais: “Assim dirás aos filhos de Israel: ‘EU SOU me enviou até vós.’” Disse Deus ainda a Moisés: “Assim dirás aos filhos de Israel: ‘Iahweh, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó me enviou até vós. Este é o meu nome para sempre, e esta será a minha lembrança de geração em geração.’”
(Ex. 3, 13-15 – BJ)


      A teofania— Ao amanhecer do terceiro dia, houve trovões, relâmpagos e uma espessa nuvem sobre a montanha, e um clamor muito forte de trombeta; e o povo que estava no acampamento pôs-se a tremer. Moisés fez o povo sair do acampamento ao encontro de Deus, e puseram-se ao pé da montanha. Toda a montanha do Sinai fumegava, porque Iahweh descera sobre ela no fogo; a sua fumaça subiu como a fumaça de uma fornalha, e toda a montanha tremia violentamente. O som da trombeta ia aumentando pouco a pouco; Moisés falava e Deus lhe respondia no trovão. Iahweh desceu sobre a montanha do Sinai, no cimo da montanha, Iahweh chamou Moisés para o cimo da montanha, e Moisés subiu. Iahweh disse a Moisés: “Desce e adverte o povo que não ultrapasse os limites para vir ver Iahweh, para muitos deles não perecerem. Mesmo os sacerdotes que se aproximarem de Iahweh devem se santificar, para que Iahweh não os fira.” Moisés disse a Iahweh: “O povo não poderá subir à montanha do Sinai, porque tu nos advertiste, dizendo: Delimita a montanha e declara-a sagrada.” Iahweh respondeu: “Vai, e desce; depois subirás tu e Aarão contigo. Os sacerdotes, porém, e o povo não ultrapassem os limites para subir a Iahweh, para que não os fira.” Desceu, pois, Moisés até o povo, e lhes disse...
     O Decálogo — Deus pronunciou todas estas palavras, dizendo: ”Eu sou Iahweh teu Deus, que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida de nada que se assemelhe ao que existe lá em cima, nos céus, ou embaixo na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra. Não te prostrarás diante desses deuses e não os servirás, porque eu, Iahweh teu Deus, sou um Deus ciumento, que puno a iniquidade dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam, mas que também ajo com amor até a milésima geração para aqueles que me amam e guardam os meus mandamentos. Não pronunciarás em vão o nome de Iahweh teu Deus, porque Iahweh não deixará impune aquele que pronunciar em vão o seu nome. Lembra-te do dia do sábado para santificá-lo. Trabalharás durante seis dias, e farás toda a tua obra. O sétimo dia, porém, é o sábado de Iahweh teu Deus. Não farás nenhum trabalho, nem tu, nem teu filho, nem lua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem teu animal, nem o estrangeiro que está em tuas portas. Porque em seis dias Iahweh fez o céu, a leira, o mar e tudo o que eles contêm, mas repousou no sétimo dia; por isso Iahweh abençoou o dia do sábado e o santificou. Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na teria que Iahweh teu Deus, te dá. Não matarás. Não cometerás adultério. Não roubarás. Não apresentarás um falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a sua mulher, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença a teu próximo.”Todo o povo, vendo os trovões e os relâmpagos, o som da trombeta e a montanha fumegante, teve medo e ficou longe. Disseram a Moisés: “Fala-nos tu, e nós ouviremos; não nos fale Iahweh, para que não morramos.” Moisés disse ao povo: “Não temais, Deus veio para vos provar e para que o seu temor esteja diante de vós, e não pequeis.” O povo ficou longe; e Moisés aproximou-se da nuvem escura, onde Deus estava.”
(Ex 19,16-21 – BJ)
1) Mesmo que nossas afirmações permaneçam conjecturais, as tradições javista (19,18), sacerdotal (24,15b-17) e deuteronomista (Dt 4,11b-12a; 5,23-24; 9,15) descrevem a teofania do Sinai no quadro de uma erupção vulcânica. A tradição eloísta a descreve como uma tempestade (Ex 19,16, cf. v. 19). São duas apresentações inspiradas nos mais impressionantes espetáculos da natureza: uma erupção vulcânica como os israelitas ouviram os visitantes da Arábia do Norte contar, ou como puderam observar de longe, desde o tempo de Salomão (expedição de Ofir); uma tempestade na montanha, como podiam ver na Galileia ou no Hermon. Compreende-se que a primeira tradição seja do Javista, originária do sul, e que a segunda seja do Eloísta, originária do norte. Essas imagens exprimem a majestade e a glória de Iaweh (cf. 24,16), sua transcendência e o temor religioso que ele inspira (cf. Jz 5,4s; Sl 29; 68,8; 77,18-19; 97,3-5; Hab 3,3-15). (BJ)

     “Um povo santo como o seu Deus – Javé falou a Moisés:
     Quando vocês fizerem a colheita da lavoura nos seus terrenos, não colham até o limite do campo; não voltem para colher o trigo que ficou para trás, nem as uvas que ficaram no pé; também não recolham as uvas caídas no chão: deixem tudo isso para o pobre e o imigrante. Eu sou Javé, o Deus de vocês.
     Ninguém de vocês roube, nem use de falsidade, e não engane ninguém do seu povo. Não jurem falsamente pelo meu nome, porque vocês estariam profanando o nome do seu Deus. Eu sou Javé. Não oprima o seu próximo, nem o explore, e que o salário do operário não fique com você até o dia seguinte. Não amaldiçoe o mudo, nem coloque obstáculos diante do cego: tema o seu Deus. Eu sou Javé.
     Não cometam injustiças no julgamento. Não seja parcial para favorecer o pobre ou para agradar ao rico: julgue com justiça os seus concidadãos. Não espalhe boatos, nem levante falso testemunho contra a vida do seu próximo. Eu sou Javé. Não guarde ódio contra o seu irmão. Repreenda abertamente o seu concidadão, e assim você não carregará o pecado dele. Não seja vingativo, nem guarde rancor contra seus concidadãos. Ame o seu próximo como a si mesmo. Eu sou Javé. Observem meus estatutos.”1 
(Lev 19,1.9-18 – BPa)
1) 19,1-37: Javé, o Deus que fez Aliança com o povo, exige, nessa união, que o povo seja santo, assim como ele próprio é santo. Tal santidade se caracteriza pela prática da justiça libertadora, para produzir um relacionamento comunitário que concretize o projeto de Deus. A norma fundamental é o amor ao próximo (vv. 17-19), incluindo o imigrante (vv. 33-34). As outras normas repetem e comentam os princípios básicos da nova sociedade, já expostos no Decálogo: não ter outros deuses, não manipular Deus, honrar pai e mãe, guardar o descanso semanal, não roubar, não levantar falso testemunho (cf. Ex 20,1-17 e notas). Note-se, ainda, a insistência em defender o pobre e o fraco (vv. 9-10.14). Podemos notar que este capítulo é um verdadeiro tratado de espiritualidade, que ensina o povo a trilhar o caminho da santidade. (BPa)


     “Todo homem que amaldiçoar o seu Deus levará o peso do seu pecado. Aquele que blasfemar o nome de Iahweh deverá morrer, e toda a comunidade o apedrejará. Quer seja estrangeiro ou natural, morrerá, caso blasfeme o Nome. Se um homem golpear um ser humano, quem quer que seja, deverá morrer. Quem ferir mortalmente um animal deve dar a compensação por ele: vida por vida. Se um homem ferir um compatriota, desfigurando-o, como ele fez assim se lhe fará: fratura por fratura, olho por olho, dente por dente. O dano que se causa a alguém, assim também se sofrerá: quem matar um animal deverá dar compensação por ele, e quem matar um homem deve morrer. A sentença será entre vós a mesma, quer se trate de um natural ou de estrangeiro, pois eu sou Iahweh vosso Deus.” 
(Lv 24,15b-22)


     “Não trair o projeto inicial1 – Maria e Aarão falaram contra Moisés, por causa da mulher cuchita que ele havia tomado como esposa. Eles disseram a Moisés: “Será que Javé falou somente a Moisés? Não falou também a nós?” E Javé os ouviu. Moisés era o homem mais humilde entre todos os homens da terra.
     De repente, Javé disse a Moisés, a Aarão e Maria: “Vão os três para a tenda da reunião”. Os três foram e Javé desceu numa coluna de nuvem, colocou-se à entrada da tenda e chamou Aarão e Maria. Eles se aproximaram, e Javé disse: “Ouçam o que eu vou lhes dizer: Quando entre vocês há um profeta, eu me apresento a ele em visão e falo com ele em sonhos. Não acontece assim com o meu servo Moisés2, que é homem de confiança em toda a minha casa: com ele eu falo face a face, às claras e sem enigmas3; e ele vê a figura de Javé. Por que vocês se atreveram a falar contra o meu servo Moisés?” A ira de Javé se inflamou contra eles, e Javé se retirou. A nuvem se afastou da tenda, e a pele de Maria ficou toda esbranquiçada, como a neve4. Ao voltar-se para ela, Aarão viu-a com a pele esbranquiçada.5
     Aarão disse a Moisés: “Por favor, meu senhor!6 Não peça contas da culpa pelos pecados que tivemos a loucura de cometer e da qual somos culpados. Não deixe que Maria permaneça como um aborto que já sai do ventre da mãe com a carne meio carcomida”. Moisés suplicou a Javé: “Por favor, concede-lhe a cura!” Então Javé disse a Moisés7: “Se o pai dela lhe tivesse cuspido na cara, ela ficaria difamada por sete dias. Pois então, que ela fique isolada por sete dias, fora do acampamento, e só depois seja admitida novamente”. Isolaram Maria durante sete dias fora do acampamento, e o povo não partiu antes que ela voltasse. Depois partiram de Currais e foram acampar no deserto de Farã.”
(Nm 12,1-16 – BPa)
1) 12,1-16: Deus revela seu projeto aos profetas, que são homens capazes de ler nos acontecimentos a ação de Deus, e que dirigem o povo para a liberdade e a vida. Moisés foi o profeta por excelência que discerniu e manifestou, pela palavra e ação, esse projeto divino. Por isso, ele se tornou o modelo de toda atividade profética. Nenhum profeta poderá contradizer a proposta de Deus, manifestada através de Moisés, sob pena de retardar a caminhada do povo para a vida. (BPa)
2) Isto responde à queixa de Aarão e de Maria (v.2) ao modo comum do profetismo (v. 6: Maria é profetisa, Ex 15,20) Deus opõe a intimidade que tem com Moisés (cf. Ex 33,11+ e 33,20+). Outros receberam, por exceção, uma parte do seu espírito (11,25). Sem dúvida, depois da morte de Moisés, Deus suscitará uma linhagem de profetas (Dt 18,15.18+), porém Moisés permanecerá o maior (Dt 34,10), até João Batista, o Precursor da Nova Aliança (Mt 11,9-11p). (BJ)
3) O requisitório esta em verso. É duvidosa a tradução “em presença”; alguns vocalizaram e leram “num espelho”, outros o consideram afetados pela negação “não em visão ou enigma” (como recolhe Paulo em 1Cor 13,12). A “figura pode equivaler ao rosto (Sl 17,15; cf. Ex 33,11.20) (BPe)
4) A enfermidade é uma espécie de vitiligo. (BPe)
5) Somente Maria é punida, embora Aarão se reconheça também culpado tanto quanto ela (v. 11). Pode ser que também Aarão tenha sido punido, na forma primitiva da narrativa, que teria sido modificada pela tradição sacerdotal. (BJ)
6) A culpa de Maria esta patente na pena sofrida. Aarão se junta a ela na confissão do pecado, pedindo perdão a Moisés. Não se pedem milagres, mas uma reconciliação familiar como pressuposto para que Moisés interceda: ele não pode curar contra a pena imposta pelo Senhor, só pode interceder. (BPe)
7) A pena se reduz a uma semana. E todo o acampamento espera que essa mulher se incorpore de novo à comunidade. A crise de autoridade se resolveu satisfatoriamente. Não pela repreensão, não apelando ao valor formal da autoridade, não exacerbando a polêmica, mas pela confissão e reconciliação. (BPe)


     “Iahweh então pôs em sua boca uma palavra e disse: “Volta para junto de Balac e assim lhe falarás.” Balaão voltou, portanto, para junto dele; e o encontrou ainda de pé junto do seu holocausto, com todos os príncipes de Moab. E pronunciou o seu poema:”
“Balac me fez vir de Aram,
o rei de Moab, dos montes de Quedem:
‘Vem, amaldiçoa por mim Jacó,
vem, fulmina contra Israel.’
Como amaldiçoaria eu, quando Deus não amaldiçoa?
Como fulminaria eu, quando Deus não fulmina?
Sim, do cume do rochedo eu o vejo,
do alto das colinas eu o contemplo.
Eis um povo que habita à parte,
e não é classificado entre as nações.
Quem poderia contar o pó de Jacó?
Quem poderia enumerar a nuvem de Israel?
Que morra eu a morte dos justos!
Que seja o meu fim como o deles!”
     Balac disse a Balão: “Que me fizeste! Eu te chamei para amaldiçoar os meus inimigos e tu pronuncias bênçãos sobre eles!” Balaão respondeu: “Não devo eu tomar cuidado de dizer apenas aquilo que Iahweh me põe na boca?” (...)
     (Balaão) Voltou então para junto de Balac; encontrou-o ainda de pé junto dos seus holocaustos, com todos os príncipes de Moab. “Que disse Iahweh?”, perguntou-lhe Balac. E Balaão pronunciou o seu poema:
“Levanta-te, Balac, e escuta,
inclina o teu ouvido, filho de Sefor.
Deus não é homem, para que minta,
nem filho de Adão, para que se retrate.
Por acaso ele diz e não o faz,
fala e não realiza?
Recebi a ordem de abençoar,
abençoarei e não o revogarei.
Eu não encontrei iniquidade em Jacó,
nem vi tribulação em Israel.
Iahweh, seu Deus, está com ele;
no meio dele ressoa a aclamação real.
Deus1 o fez sair do Egito,
e é para ele como os chifres do búfalo.2
Pois não há presságio contra Jacó
nem augúrio contra Israel.
Então, agora que se diz a Jacó
e a Israel: ‘Que faz, pois, Deus?’
eis que um povo se levanta como uma leoa,
e se levanta como um leão:
não se deita até que tenha devorado sua presa
e bebido o sangue daqueles que matou.”
     Balac disse a Balaão: “Não o amaldiçoas, que assim seja! Pelo menos não o abençoes!” Balaão respondeu a Balac: “Não te havia eu dito: Tudo o que Iahweh disser, eu o farei?”
(Nm 23,5-12;17-26 – BJ)
1: Em lugar de Elohim, o hebr. tem “El”, que significa “Deus”, mas que é também o nome próprio do grande deus cananeu El. Este já fora identificado com o Deus dos pais, e o foi com Iaweh. Dá-se o mesmo em 24,8.16. (BJ)
2: Usa imagens de oráculos tribais: o búfalo, José (Dt 33,17); o leão, Judá (Gn 49,9); a leoa, Gad (Dt 33,20).


      “O único Deus vivo– Pergunte aos tempos passados, que vieram antes de você, desde o dia em que Deus criou o homem sobre a terra. De uma ponta do céu até a outra já existiu por acaso coisa tão grande como essa? Ouviu-se algo semelhante? Existe, por acaso, um povo que tenha ouvido a voz do Deus vivo, falando do meio do fogo, como você ouviu, e ainda permaneceu vivo? Ou existe algum Deus que tenha vindo para escolher uma nação do meio de outra nação, com provas, sinais, prodígios e combates, com mão forte e braço estendido, por meio de grandes terrores, como tudo o que Javé seu Deus fez no Egito diante dos olhos de vocês?
     Foi a você que ele mostrou tudo isso, para você ficar sabendo que Javé é o único Deus e que não existe outro além dele2. Do céu, ele fez você ouvir a sua voz para o instruir; ele fez você ver o seu grande fogo sobre a terra. E você ouviu suas palavras vindas do meio do fogo. E porque ele amava os antepassados de você, e escolheu seus descendentes depois deles, ele próprio com sua presença e sua grande força tirou você do Egito. Ele desalojou nações maiores e mais poderosas do que você, para o introduzir na terra delas e dá-la a você em herança, como hoje se vê.
     Portanto, reconheça hoje e medite em seu coração: Javé é o único Deus, tanto no alto do céu, como aqui em baixo, na terra. Não existe outro. Observe os estatutos e os mandamentos dele, que hoje ordeno a você. Assim tudo correrá bem para você e para os filhos que vierem depois de você, e para que seus dias se prolonguem na terra que Javé seu Deus lhe dará para todo o sempre.”
(Dt 4,32-40 – BPa)
1) A grande maravilha é Javé, o único Deus vivo que age na história. Sua ação nasce da fidelidade à Aliança, liberta o povo, lhe revela seu caminho e lhe dá a terra. Não existe outro Deus que faça isso: todos os outros são falsos absolutos. (BPa)
2) Afirmação explícita da inexistência de outros deuses (cf. Is 43,10-11; 44,6; 45,5, etc.). O Decálogo proibia simplesmente o culto a deuses estrangeiros. Durante muito tempo foram considerados como inferiores a Iahweh, ineficazes, desprezíveis. Abre-se agora nova etapa: esses deuses não existem. (BJ)


 “O amor é a tarefa da vida– Ouça, Israel! Javé nosso Deus é o único Javé. Portanto, ame a Javé seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma e com toda a sua força. Que estas palavras, que hoje eu lhe ordeno, estejam em seu coração. Você as inculcará em seus filhos, e delas falará sentado em sua casa e andando em seu caminho, estando deitado e de pé. Você também as amarrará em sua mão como sinal, e elas serão como faixa entre seus olhos. Você as escreverá nos batentes de sua casa e nas portas da cidade.”
(Dt 6,4-9 – BPa)
1: Estes versículos são o núcleo fundamental da teologia do Deuteronômio. Javé é o único Deus. Portanto, a vida do homem também deve ser única, expressando uma resposta de adoração ao único Deus. Tal resposta é um amor total, que penetra e informa a consciência (coração), o ser (alma) e a ação (força). Esse amor total deve ser interiorizado, tornando-se a base da consciência (coração). Deve constituir o objeto primeiro e contínuo de toda a educação (inculcar nos filhos), em todas as situações (sentado, andando, deitado, de pé). O amor é que dirige a ação (mãos) e as intenções (faixa entre os olhos). Deve ser vivido na família (batentes da casa) e na sociedade (portas da cidade). Mais do que leis, o Deuteronômio procura mostrar como deve ser a vida: uma resposta de amor a Deus, que se expressa em todas as relações humanas. (BPa)


     “Contudo, preste atenção a si mesmo, para não se esquecer de Javé seu Deus e não deixar de cumprir seus mandamentos, normas e estatutos, que hoje eu ordeno a você. Não aconteça que, tendo comido e estando satisfeito, havendo construído casas boas e habitando nelas, tendo se multiplicado seus bois e aumentado suas ovelhas, e multiplicando-se também sua prata e seu ouro e tudo o que você possui, não aconteça que seu coração fique cheio de orgulho, e você se esqueça de Javé seu Deus, que o tirou do Egito, da casa da escravidão; que conduziu você através daquele grande e terrível deserto, cheio de serpentes venenosas, escorpiões e sede; que fez jorrar para você água da mais dura pedra, onde não havia água; que sustentava você no deserto com o maná, que seus antepassados não conheceram: tudo isso para humilhar e provar você, a fim de lhe fazer o bem no futuro.
     Portanto, não vá pensar: ‘Foi a minha força e o poder de minhas mãos que me conquistaram essas riquezas’. Lembre-se de Javé seu Deus, pois é ele quem lhe dá força para se enriquecer, mantendo a aliança que jurou a seus antepassados, como hoje se vê.1
(Dt 8,11-18 – BPa)
1) O temor de Javé (v. 6) é o conceito básico de todo o livro. Insistindo em não esquecer Javé (vv. 11.14.19) e lembrar-se de Javé (v. 18), o texto critica a autossuficiência de quem se esquece que Javé é o Senhor da liberdade e da vida e de que é ele quem concede os dons da vida. Quem se esquece disso, acaba transformando a liberdade em poder que gera a opressão, e os bens da vida em posse que, pela exploração e acumulação, gera a riqueza. Temer a Javé é lembrar-se sempre de que o homem não é Deus e nem pode usurpar o lugar de Deus. É estar sempre consciente de que é Javé quem concede a liberdade e os dons da vida a todos, para uma relação livre na partilha e na fraternidade. Esquecê-lo é perverter a consciência (v. 14), tornando-se autossuficiente e absoluto, isto é, fechado em si mesmo. Isso acaba gerando a soberba e o orgulho, que transformam a relação social em ganância pelo poder e cobiça pela posse. (BPa)


     “Pois Iahweh vosso Deus é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, o valente, o terrível, que não faz acepção de pessoas e não aceita suborno1; o que faz justiça ao órfão e à viúva, e ama o estrangeiro, dando-lhe pão e roupa. (Portanto, amareis o estrangeiro, porque fostes estrangeiros na terra do Egito.) A Iahweh teu Deus temerás e servirás, a ele te apegarás e por seu nome jurarás. A ele deves louvar: ele é o teu Deus. Ele realizou em teu favor essas coisas grandes e terríveis que os teus olhos viram. Ao descerem para o Egito teus pais eram apenas setenta pessoas. Agora, contudo, Iahweh teu Deus tornou-te numeroso como as estrelas do céu!
(Dt 10,17-22 – BJ)
1) Viver em Aliança com Javé implica reconhecer que Javé é Deus e o homem não é Deus (temor), e que relacionar-se exclusivamente com Javé exige uma nova relação com todas as criaturas (amor). Viver esse amor-temor significa reconhecer Javé como único Deus (servir) e obedecer à sua vontade (mandamentos do Código Deuteronômico - cf. Dt 12-26). Não se trata de obediência formal: é necessária uma radical transformação da consciência, a fim de realizar a justiça de Javé, ou seja, comprometer-se com os pobres e marginalizados (imparcialidade, não aceitação de suborno, justiça para com o órfão, a viúva e o imigrante). A grandeza da Aliança consiste em ser aliado do Senhor do universo e da história, que quis unir-se aos pobres e oprimidos, para construir a história da liberdade e da vida. (BPa)


     O pobre é o juiz1 – Quando você fizer algum empréstimo a seu próximo, não entre na casa dele para pegar alguma coisa como penhor2. Fique do lado de fora, e o homem a quem você fez o empréstimo, ele é que sairá para lhe trazer o penhor. Se ele for pobre, você não irá dormir conservando o penhor tirado dele; ao pôr-do-sol você deverá devolver sem falta o penhor, para que ele durma com seu manto e abençoe você. Quanto a você, isso será um ato de justiça diante de Javé seu Deus.
     Justiça no trabalho3 – Não explore um assalariado pobre e necessitado, seja ele um de seus irmãos ou imigrante que vive em sua terra, em sua cidade. Pague-lhe o salário a cada dia, antes que o sol se ponha, porque ele é pobre e sua vida depende disso. Assim, ele não clamará a Javé contra você, e em você não haverá pecado.
     Responsabilidade pessoal – Os pais não serão mortos pela culpa dos filhos, nem os filhos pela culpa dos pais. Cada um será executado por causa de seu próprio crime.
     Justiça para com os oprimidos4 – Não distorça o direito do estrangeiro e do órfão, nem tome como penhor a roupa da viúva. Lembre-se: você foi escravo no Egito e daí Javé seu Deus o resgatou. É por isso que eu lhe ordeno agir desse modo.
     Os pobres recebem em nome de Javé5 – Quando você estiver ceifando a colheita em seu campo e esquecer atrás um feixe, não volte para pegá-lo: deixe-o para o imigrante, o órfão e a viúva. Desse modo, Javé seu Deus abençoará você em todo o seu trabalho. Quando você sacudir as azeitonas da sua oliveira, não volte para catar o que tiver sobrado: o resto será para o imigrante, o órfão e a viúva. Quando você colher as uvas da sua vinha, não volte para catar o que tiver sobrado: o resto será para o imigrante, o órfão e a viúva. Lembre-se: você foi escravo no Egito. É por isso que eu lhe ordeno agir desse modo.”
(Dt 24, 10-22 – BPa)
1) O direito de cada um termina onde começa a necessidade do outro. No caso de penhora, o credor não tem o direito de violar a intimidade do devedor, nem de humilhá-lo: o devedor é que escolherá o que poderá dar como penhor. Sobre o manto do pobre, cf. nota em 24,6. Note-se bem: a bênção é dada pelo pobre; em outras palavras, só há justiça quando o pobre abençoa. (BPa)
2) O ponto de partida pode ser Ex 22,25-26, sobre o tomar em penhor o manto. Esse caso particular esta introduzindo aqui uma fórmula geral. O pobre dispõe de um só manto, que lhe serve como roupa de cama: retê-lo seria uma crueldade inaceitável. O pobre tem direito de comer e também de dormir decentemente. A motivação é típica do Dt: o pobre expressa seu agradecimento bendizendo, quer dizer, pedindo que Deus o abençoe (cf. 31,19-20); entende-se que o senhor escuta a súplica. O caso oposto se lê na lei seguinte, e em 15,9 com o antônimo de “mérito”, isto é, “pecado”. (BPe)
3) O salário é uma forma de remuneração injusta porque, através da exploração da força de trabalho, o patrão tem sempre maiores lucros e o assalariado fica sempre mais empobrecido. Dentro desse conflito, a lei do Deuteronômio procura conter a exploração do assalariado feita através da retenção do salário. Tal retenção significa o não pagamento do salário, ou também o pagamento de um salário que não possibilita ao trabalhador uma vida digna; e isto só se obtém quando ele participa de uma distribuição equitativa da renda (salário real). Mais uma vez o trabalhador pobre se torna juiz: é ele quem acusa o pecado. (BPa)
4) O direito deve proteger e fazer justiça aos pobres e fracos, que não têm dinheiro nem poder para defender seus próprios direitos. A justiça para com os oprimidos é o sinal da aliança com o Deus libertador. (BPa)
5) No ambiente agrário, o povo costumava deixar para trás alguma coisa como oferta para a divindade. O Deuteronômio transforma esse costume em gesto religioso-social: a oferta a Javé fica para os pobres. (BPa)


Cântico de Moisés1: a lição da história
Deus é Justiça2 – Escute, ó céu, que eu falarei.
Ouça, ó terra, as palavras da minha boca.

Desça como chuva meu ensinamento
e minha palavra se espalhe como orvalho;
como chuvisco sobre relva macia
e aguaceiro em grama verdejante.

Vou proclamar o nome de Javé,
e vocês engrandeçam o nosso Deus.

Ele é a Rocha, e sua obra é perfeita,
porque toda a sua conduta é o Direito.
É Deus fiel e sem injustiça:
Ele é a Justiça e a Retidão.

Israel se corrompeu3 – Os filhos
degenerados pecaram contra ele,
são uma geração depravada e pervertida.

É isso que vocês devolvem a Javé,
povo idiota e sem sabedoria?
Ele não é o pai e criador de vocês?
Ele próprio fez você e o sustentou.

Deus beneficiou Israel– Recorde
os dias que se foram,
repasse gerações e gerações.
Pergunte a seu pai e ele contará,
interrogue os anciãos e eles lhe dirão.

Quando o Altíssimo repartia as nações
e quando espalhava os filhos de Adão,
ele marcou fronteiras para os povos,
conforme o número dos filhos de Deus.

Mas a parte de Javé foi o seu povo,
o lote da sua herança foi Jacó.

Ele o encontrou numa terra árida,
num deserto solitário e cheio de uivos.
Cercou-o, cuidou dele e o guardou com carinho,
como se fosse a menina de seus olhos.

Como águia que cuida do seu ninho
e revoa por cima dos filhotes,
ele o tomou, estendendo suas asas,
e o carregou em cima de suas penas.

O único a conduzi-lo foi Javé.
Nenhum deus estrangeiro o acompanhou.

Ele o colocou sobre os montes
e o alimentou com produtos do campo.
Ele o criou com mel silvestre,
e com óleo de uma dura pedreira;

com coalhada de vaca e leite de ovelha,
gordura de carneiros e cordeiros;
com manadas de Basã e cabritos,
com a flor da farinha de trigo
e o sangue da uva, que bebe fermentado.

Israel abandonou a Deus5 – Jacó comeu
e ficou satisfeito,
Jesurun engordou e deu coices
– ficou gordo, robusto e corpulento –
rejeitou o Deus que o fizera,
desprezou sua Rocha salvadora.

Eles lhe provocaram o ciúme com deuses estranhos
e o irritaram com suas abominações.

Sacrificaram a demônios, falsos deuses,
a deuses que não haviam conhecido,
deuses novos, recentemente chegados,
que seus antepassados não temiam.

Você desprezou a Rocha que o gerou
e esqueceu o Deus que lhe deu a vida.

Deus corrige Israel6 – Javé viu tudo,
ficou enfurecido,
e rejeitou seus filhos e suas filhas.

Ele disse: “Vou esconder deles o meu rosto
e ver qual será o seu futuro”,
porque são uma geração pervertida,
são filhos que não têm fidelidade.

Eles provocaram meu ciúme com um deus falso,
e me irritaram com seus ídolos vazios.
Por isso vou provocar o ciúme deles com um povo falso,
vou irritá-los com uma nação idiota.

O fogo da minha ira está ardendo
e vai queimar até a mansão dos mortos;
vai devorar a terra e seus produtos,
e abrasar o alicerce das montanhas.

Vou acumular males sobre eles
e contra eles vou esgotar as minhas flechas.

Ficarão enfraquecidos pela fome,
consumidos por febres e pestes violentas.
Mandarei contra eles os dentes das feras
com o veneno de serpentes do deserto.

Fora, a espada levará seus filhos
e, dentro o terror se instalará.
Todos perecerão: o jovem e a donzela,
a criança de peito e o velho de cabelos brancos.

Javé acusa as nações7 – Então pensei:
“Vou reduzi-los a pó,
e apagar sua memória do meio dos homens”.

Mas eu temi a arrogância dos inimigos,
a má interpretação dos adversários.
Eles diriam: “Nossa mão venceu,
não foi Javé quem fez isso”.

Porque é uma nação sem juízo
e que não tem inteligência.

Se fossem sábios, entenderiam tudo isso
e saberiam discernir o seu futuro.

Como pode um homem sozinho perseguir mil,
e dois pôr em fuga dez mil?
Não é porque sua Rocha os vendeu
e porque Javé os entregou?

Sim, a rocha deles não é
como a nossa Rocha
e nossos inimigos podem atestar.

Pois a vinha deles é vinha de Sodoma
e vem das plantações de Gomorra;
suas uvas são uvas venenosas
e seus cachos são amargos.

O vinho deles é veneno de serpente,
violenta peçonha de cobras.

Javé corrige as nações8 – Isso não está guardado junto a mim
e lacrado em meus tesouros?

A mim pertencem a vingança e a represália
no dia em que o pé deles escorregar,
porque o dia da ruína deles já vem chegando,
e o seu destino futuro se aproxima.

Sim, Javé fará justiça a seu povo
e terá piedade de seus servos.
Ao ver que a mão deles vai fraquejando,
e não há mais nem livre nem escravo,

Javé dirá: “Onde estarão os deuses deles,
a rocha onde buscavam seu refúgio?

Vocês não comiam a gordura dos sacrifícios deles?
Não bebiam o vinho de suas libações?
Que esses deuses se ponham em pé e os socorram
e sejam eles a proteção de vocês!

E agora, vejam bem: Eu sou eu
e fora de mim não existe outro Deus.
Eu faço morrer e faço viver,
sou eu que firo e torno a curar,
e ninguém se livra da minha mão.

Sim, eu levanto a mão para o céu e juro:
Tão verdade como eu vivo eternamente,

quando eu afiar minha espada fulgurante
e minha mão agarrar o Direito,
eu tomarei vingança do meu adversário
e retribuirei àqueles que me odeiam.

Embriagarei minhas flechas com sangue
e minha espada devorará a carne,
sangue dos mortos e cativos,
da cabeça dos chefes inimigos”.

Nações, aclamem todas a Javé com seu povo,
porque ele vinga o sangue de seus servos,
tomando vingança de seus adversários.
Ele purifica a sua terra e o seu povo.

     Moisés foi com Josué, filho de Nun, e recitou esse cântico inteiro na presença do povo.”

     A fonte da vida – Moisés terminou de falar essas palavras a todo o Israel, e acrescentou: “Fiquem atentos a todas as palavras que hoje tomo como testemunho contra vocês. E vocês mandarão que seus filhos as observem, colocando em prática todas as palavras desta Lei.  Não é uma palavra inútil, porque ela é a vida de vocês, e é por meio dessa palavra que vocês prolongarão a vida na terra, da qual vão tomar posse, depois de atravessar o rio Jordão”.
(Dt 32, 1-47 – BPa)
1) Este cântico é um trecho de alto valor poético que exalta o poder do Deus de Israel, o único Deus verdadeiro. Após uma introdução de estilo sapiencial (vv. 1 e 2), proclama a perfeição das obras de Deus (vv. 3-7), sua providência em favor de Israel (vv. 8-14), a ela opondo a rebelião do povo (vv. 15-19), seguida do julgamento (vv. 19-25); Deus, contudo, não abandona Israel a seus inimigos (vv. 26-35) e intervirá em favor de seu povo (vv. 36-42). O v. 43 é doxologia. Este cântico existiu de modo independente, antes de ser integrado no Dt. Sua datação é dificílima; alguns traços de estilo arcaico frequentemente levaram a atribuir-lhe data antiga; os opressores de Israel a que alude seriam então os filisteus (séc. XI a.C.). Contudo, as relações com os salmos e os profetas, especialmente com o Dêutero-Isaías e Jeremias, sugerem antes uma data mais baixa: os opressores, neste caso, seriam os babilônios (séc. VI a.C.). (BJ)
2) Diante de toda a criação, começa o julgamento. A primeira parte apresenta quem é Javé: o único Deus digno de confiança (“Rocha”). Ele é a Justiça e o Direito, porque intervém na história para construir uma sociedade nova, a partir da libertação do pobre e do oprimido. (BPa)
3) Israel é filho degenerado, porque abandonou Javé para seguir o caminho da injustiça. Através do êxodo e da aliança, Javé se tornou o pai e criador do povo, libertando-o da escravidão. (BPa)
4) A história de Israel é uma longa série de benefícios que Javé fez por esse povo. De um grupo marginalizado entre as nações, Javé formou o seu povo próprio, libertando-o da escravidão (“terra deserta”) e levando-o para a terra da vida (“terra fértil”). Israel deve sua história a Javé, e não aos ídolos (v. 12). (BPa)
5) Aos benefícios concedidos por Javé, Israel respondeu com infidelidade, abandonando a Javé para servir os falsos deuses. Quem abandona o Deus da justiça, doador de liberdade e vida, inevitavelmente começa a servir os deuses falsos da riqueza e do poder, que se alimentam de exploração e opressão. (BPa)
6) Abandonado por Israel, Javé também o abandonará, e se servirá de outro povo para puni-lo. Deixando o Deus da Justiça, Israel torna-se vítima das nações que servem os ídolos da injustiça (“povo falso”). (BPa)
7) Deus havia chamado uma nação estrangeira para julgar Israel. Mas a nação estrangeira não entendeu que devia ser apenas um instrumento da justiça de Javé, e acabou cometendo outra injustiça. (BPa)
8) Deus intervém novamente para salvar o seu povo da opressão e, ao mesmo tempo, punir as nações. Estas, ao invés de se limitarem a ser instrumentos de Deus, tornam-se opressoras. A injustiça paralisa o processo histórico num vaivém de contradições que impedem a realização da liberdade e vida. E Deus intervém nesse processo para libertar e dar vida ao pobre e oprimido, abrindo a história para o futuro da justiça. (BPa)

Um comentário:

Doney Stinguel disse...

Na Introdução ao Pentateuco da Bíblia de Jerusalém:
“O cristão não está mais sob o pedagogo, é libertado das observâncias da Lei, mas não de seu ensinamento moral e religioso. Pois Cristo não veio ab-rogar a Lei, e sim levá-la à perfeição (Mt 5,17); o Novo Testamento não se opõe ao Antigo, prolonga-o. Não só a Igreja reconheceu nos grandes eventos da época patriarcal e mosaica, nas festas e ritos do deserto (sacrifício de Isaac, passagem do mar Vermelho, Páscoa etc.), as realidades da Nova Lei (sacrifício de Cristo, batismo, Páscoa cristã), como também a fé cristã exige a mesma atitude fundamental que os relatos e os preceitos do Pentateuco prescreviam aos israelitas. Mais ainda: em seu itinerário para Deus, toda alma atravessa as mesmas etapas de desapego, provação e purificação pelas quais passou o povo eleito, e encontra sua instrução nas lições que foram dadas a este.” (31)