A conversão de São Paulo

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sábado, 18 de março de 2017

Ortodoxia (Parte II) – G. K. Chesterton

Editora: Mundo cristão
ISBN: 978-85-7325-505-8
Tradução: Almiro Pisetta
Opinião: ***
Páginas: 264 

     “As pessoas primeiro prestaram homenagem a um local e depois conquistaram a glória para ele. Roma não foi amada por ser grande. Ela foi grande por ter sido amada.”


     “O suicídio não só constitui um pecado, ele é o pecado. É o mal extremo e absoluto; a recusa de interessar-se pela existência; a recusa de fazer um juramento de lealdade à vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que se mata, mata todos os homens; no que lhe diz respeito, ele elimina o mundo. Seu ato é pior (considerado simbolicamente) do que qualquer estupro ou atentado a bomba, pois destrói todos os prédios; insulta a todas as mulheres. O ladrão se satisfaz com diamantes; mas o suicida não: esse é seu crime. Ele não pode ser subornado, nem com as cintilantes pedras da Cidade Celestial. O ladrão elogia os objetos que furta, quando não elogia o dono deles. Mas o suicida insulta a todos os objetos da terra ao não furtá-los. Ele conspurca cada flor ao recusar-se a viver por ela.
     Não existe nenhuma criatura no cosmos, por mínima que seja, para quem a sua morte não é um escárnio. Quando alguém se enforca numa árvore, as folhas poderiam cair de raiva e os pássaros fugir em fúria, pois cada um deles recebeu uma afronta direta. Obviamente pode haver patéticas desculpas emocionais para o ato. Geralmente as há para o estupro, e quase sempre para o atentado a bomba. Mas quando se trata de esclarecer ideias e o significado inteligente das coisas, então, na sepultura na encruzilhada1 e na estaca cravada no corpo, há muito mais verdade racional e filosófica do que nas máquinas de suicídio do sr. Archer. Há um significado no enterro à parte de um suicida. O crime desse homem é diferente de outros crimes — pois torna até os crimes impossíveis.
     Li uma solene bobagem de algum livre-pensador. Dizia ele que um suicida era simplesmente o mesmo que um mártir. A patente falácia desse texto ajudou-me a esclarecer a questão. Obviamente um suicida é o oposto de um mártir. Um mártir é um homem que se preocupa tanto com alguma coisa fora dele que se esquece de sua vida pessoal. Um suicida é um homem que se preocupa tão pouco com tudo o que está fora dele que ele quer ver o fim de tudo. Um quer que alguma coisa comece; o outro, que tudo acabe.
     Em outras palavras, o mártir é nobre, exatamente porque (embora renuncie ao mundo ou execre toda a humanidade) ele confessa esse supremo laço com a vida; coloca o coração fora de si mesmo: morre para que alguma coisa viva. O suicida é ignóbil porque não tem esse vínculo com a existência: ele é meramente um destruidor. Espiritualmente, ele destrói o universo. E depois me lembrei da estaca e da encruzilhada, e o estranho fato de que o cristianismo mostrara esse rigor incomum para com o suicida. Pois o cristianismo mostrara um ardente incentivo ao martírio. 
     O cristianismo histórico foi acusado, não inteiramente sem razão, de levar o martírio e o ascetismo a um ponto extremo, desolado e pessimista. Os primeiros mártires cristãos falavam de morte com uma alegria horrível. Blasfemavam as belas funções do corpo, sentiam o cheiro da sepultura à distância como se ela fosse um campo de flores. Tudo isso a muitos parecia a própria poesia do pessimismo. Todavia, existe a estaca na encruzilhada para mostrar o que o cristianismo pensava do pessimista.”
1: Segundo o costume cristão, o suicida não podia ser enterrado no cemitério.


     “Esse lado perverso do otimismo meramente externo também se mostrava no mundo antigo. Por volta da época em que o idealismo estoico começava a mostrar as fraquezas do pessimismo, a velha adoração da natureza pelos antigos começava a mostrar as enormes fraquezas do otimismo. A adoração da natureza é bastante natural enquanto a sociedade é jovem, ou, em outras palavras, não há nada de errado com o panteísmo desde que seja a adoração de Pã.
     Mas a natureza tem outro lado que a experiência e o pecado não demoram a descobrir, e não é leviandade dizer do deus Pã que ele logo mostrou seu casco fendido. A única objeção à religião natural é que, de certo modo, ela sempre se torna antinatural. Alguém ama a natureza de manhã pela sua inocência e amabilidade, e à noite, se ainda continuar a amá-la, será pela sua escuridão e crueldade. Ele se lava ao amanhecer em águas claras como faziam os Homens Sábios dos estoicos; no entanto, de algum modo no final sombrio do dia, ele se lavará no sangue quente de um boi, como fazia Juliano, o Apóstata. A mera busca da saúde sempre conduz a algo doentio.
     A natureza física não deve ser transformada no objeto direto de obediência; ela deve ser desfrutada, não adorada. As estrelas e as montanhas não devem ser levadas a sério. Se o forem, nós vamos acabar onde acabou a adoração pagã da natureza. Por ser a terra bondosa, nós podemos imitar todas as suas crueldades. Por ser a sexualidade sadia, nós podemos enlouquecer por ela. O mero otimismo atingia seu final insano e apropriado. A teoria de que tudo era bom tornara-se uma orgia geral de tudo o que era ruim.
     Em contrapartida, os nossos pessimistas idealistas foram representados pelos velhos remanescentes dos estoicos. Marco Aurélio e seus amigos haviam de fato abandonado a ideia de qualquer deus presente no universo e procuravam apenas o deus interior. Não depositavam nenhuma esperança na virtude da natureza, e quase nenhuma esperança na virtude da sociedade. Não alimentavam um interesse suficiente no mundo exterior para realmente destruí-lo ou revolucioná-lo. Não amavam suficientemente a cidade para atear-lhe fogo.
     Assim, o mundo antigo estava exatamente diante do nosso desolado dilema. As únicas pessoas que realmente desfrutavam desse mundo ocupavam-se em desintegrá-lo; e as pessoas virtuosas não atribuíam atenção suficiente a essa gente para derrubá-la. Diante desse dilema (o mesmo que nós enfrentamos) o cristianismo de repente entrou em cena e apresentou uma resposta singular, que o mundo no fim aceitou como A resposta. Foi a resposta naquela época, e eu penso que é a resposta agora.”


     “A expressão radical para todo o teísmo cristão era esta: que Deus era um criador, como um artista é um criador. Um poeta está tão separado de seu poema que ele mesmo refere-se a ele como uma coisinha que foi “jogada fora”. Até mesmo no ato de produzi-lo ele o jogou fora. Esse princípio segundo o qual toda criação, toda procriação é um desprender-se é no mínimo coerente através do cosmos como o princípio evolucionário de que todo crescimento é uma ramificação. Uma mulher perde o filho exatamente quando o está dando à luz. Toda criação é separação. O nascimento é uma despedida tão solene quanto a morte.
     O princípio filosófico básico do cristianismo era que esse divórcio no ato divino de criar (como o que separa o poeta do poema ou a mãe do filho recém-nascido) era a verdadeira descrição do ato com o qual a energia absoluta criou o mundo. Segundo a maioria dos filósofos, Deus ao criar o mundo o escravizou. Segundo o cristianismo, ao criá-lo Deus o libertou. Deus havia escrito não exatamente um poema, mas antes uma peça; uma peça que planejara à perfeição, mas que tinha necessariamente legado a atores e diretores humanos, que a partir daquele tempo a transformaram numa grande confusão.”


     “Não preciso lembrar ao leitor que a ideia dessa combinação é de fato central na teologia ortodoxa. Pois a teologia ortodoxa tem insistido especialmente que Cristo não foi um ser separado de Deus e do homem, como um elfo, nem tampouco um ser meio humano e meio não humano, como um centauro, mas as duas coisas ao mesmo tempo e as duas coisas de modo pleno, verdadeiro homem e verdadeiro Deus.”


     “A coragem é quase uma contradição em termos. Significa um forte desejo de viver que toma a forma de uma disposição para morrer. “Quem perder a sua vida, salvá-la-á,” não é um fragmento de misticismo para santos e heróis. É um fragmento de orientação para o dia a dia de navegantes e alpinistas. Poderia ser estampado no livro de orientações ou de exercícios para escaladores de montanhas. Nesse paradoxo está todo o princípio da coragem; mesmo da coragem totalmente terrena ou totalmente brutal. Um homem isolado pelo mar pode salvar a vida arriscando-a no precipício.
     Ele só pode escapar da morte se for continuamente pisando a um centímetro dela. Um soldado cercado por inimigos, se quiser achar uma saída, precisa combinar um forte desejo de viver com uma estranha despreocupação com a morte. Ele não deve simplesmente agarrar-se à vida, pois então será covarde — e não escapará. Ele não deve simplesmente aguardar a morte, pois então será suicida — e não escapará. Ele deve buscar a vida num espírito de furiosa indiferença diante dela; deve desejar a vida como água e, no entanto, beber a morte como vinho.
     Nenhum filósofo, imagino eu, jamais expressou esse enigma romântico com a necessária lucidez, e eu certamente não o fiz. Mas o cristianismo fez mais; ele demarcou seus limites nas terríveis sepulturas do suicida e do herói, mostrando a distância entre quem morre por amor à vida e quem morre por amor à morte. E depois disso sempre ostentou acima das lanças europeias o estandarte do mistério da cavalaria: a coragem cristã, que é um desdém da morte; não a coragem chinesa, que é um desdém da vida.”


     “Tomemos outro caso: a complicada questão da caridade, que alguns idealistas altamente descaridosos parecem julgar muito simples. A caridade é um paradoxo, como a modéstia e a coragem. Mal formulada, a caridade certamente significa uma de duas coisas: perdoar atos imperdoáveis ou amar pessoas não amáveis. Mas se nos perguntarmos (como fizemos no caso do orgulho) o que um pagão sensato sentiria a respeito desse assunto, vamos provavelmente começar da base da questão.
     Um pagão sensato diria que há algumas pessoas que se podem perdoar; e algumas que não se podem: um escravo que roubasse vinho poderia ser motivo de riso; um escravo que traísse seu benfeitor poderia ser morto e amaldiçoado mesmo depois de morto. Na medida em que o ato era perdoável, o homem era perdoável. Isso, mais uma vez, é racional, e até reconfortante; mas é uma diluição. Não deixa espaço para o puro horror perante uma injustiça, como aquele que é uma grande beleza no inocente. E não deixa espaço para a mera ternura pelos homens na qualidade de homens, como a que constitui todo o fascínio do caridoso.
     Como antes, o cristianismo entrou em cena. Entrou de maneira alarmante com uma espada e separou uma coisa da outra. Separou o crime do criminoso. Ao criminoso devíamos perdoar até setenta vezes sete. Ao crime não devíamos perdoar de modo algum. Não bastava que os escravos que roubassem vinho inspirassem em parte ira e em parte bondade. Nós devíamos nos irar muito mais com o furto do que antes, e, no entanto, devíamos ser muito mais bondosos com os ladrões do que antes. Havia espaço para a ira e para o amor sem limites. E quanto mais eu contemplava o cristianismo, tanto mais percebia que, embora ele houvesse estabelecido uma regra e uma ordem, o objetivo principal dessa ordem era permitir espaço para coisas boas sem limites.”


     “Lembre-se de que a Igreja abraçou especificamente ideias perigosas; ela foi uma domadora de leões. A ideia do nascimento por meio do Espírito Santo, da morte de um ser divino, do perdão dos pecados ou do cumprimento das profecias — qualquer um pode ver que são ideias que precisam apenas de um toque para transformar-se em algo blasfemo ou feroz. Aqui basta observar que se algum pequeno erro fosse cometido na doutrina, enormes disparates poderiam ser cometidos na felicidade humana.
     Uma frase formulada erroneamente acerca da natureza do simbolismo teria quebrado todas as melhores estátuas da Europa. Um deslize nas definições poderia parar todas as danças; poderia secar todas as árvores de Natal ou quebrar todos os ovos de Páscoa. As doutrinas tinham de ser definidas dentro de rigorosos limites, até mesmo para que o homem pudesse desfrutar de liberdades humanas gerais. A Igreja precisou ser cuidadosa, se não por outro motivo para que o mundo pudesse ficar despreocupado.
     Essa é a emocionante aventura da Ortodoxia. As pessoas adquiriram o tolo costume de falar de ortodoxia como algo pesado, enfadonho e seguro. Nunca houve nada tão perigoso ou tão estimulante como a ortodoxia. Ela foi a sensatez, e ser sensato é mais dramático que ser louco. Ela foi o equilíbrio de um homem por trás de cavalos em louca disparada, parecendo abaixar-se para este lado, depois para aquele, mas em cada atitude mantendo a graça de uma escultura e a precisão da aritmética.
     A Igreja em seus primeiros dias correu violenta e velozmente com qualquer cavalo de batalha; no entanto, é totalmente anti-histórico dizer que ela apenas cometeu loucuras apegando-se a uma única ideia, como um fanatismo vulgar. Ela curvou-se para a esquerda e para a direita, na medida exata a fim de evitar enormes obstáculos. Num dado momento ela abandonou o enorme vulto do arianismo, apoiado por todos os poderes deste mundo para fazer o cristianismo mundano demais. No instante seguinte ela estava se curvando para evitar o orientalismo, que o teria espiritualizado demais.
     A Igreja ortodoxa nunca tomou a rota fácil ou aceitou as convenções; a Igreja ortodoxa nunca foi respeitável. Teria sido mais fácil ter aceitado o poder terreno dos arianos. Teria sido mais fácil, durante o calvinista século 17, cair no abismo infinito da predestinação. É fácil ser louco; é fácil ser herege. É sempre fácil deixar que cada época tenha a sua cabeça; o difícil é não perder a própria cabeça. É sempre fácil ser um modernista; assim como é fácil ser um snob. Cair em qualquer uma das ciladas explícitas de erro e exagero que um modismo depois de outro e uma seita depois de outra espalharam ao longo da trilha histórica do cristianismo — isso teria sido de fato simples.
     É sempre simples cair; há um número infinito de ângulos para levar alguém à queda, e apenas um para mantê-lo de pé. Cair em qualquer um dos modismos, do agnosticismo à Ciência Cristã, teria de fato sido óbvio e sem graça. Mas evitá-los a todos tem sido uma estonteante aventura; e na minha visão a carruagem celestial voa esfuziante atravessando as épocas. Enquanto as monótonas heresias estão esparramadas e prostradas, a furiosa verdade cambaleia, mas segue de pé.”


     “Foram aqui enfatizadas as seguintes proposições: primeiro, que algum tipo de fé é necessário em nossa vida até mesmo para melhorá-la; segundo, que algum tipo de insatisfação com as coisas como elas se apresentam é necessária até mesmo para sentir-se satisfeito; terceiro, que para se ter esse contentamento e descontentamento, ambos necessários, não basta ter o equilíbrio óbvio do estoico. Pois a mera resignação não tem a gigantesca leveza do prazer, nem a orgulhosa intolerância da dor. Há uma objeção vital ao conselho de simplesmente sorrir e suportar. A objeção é que se você simplesmente suportar, você não sorri. Os heróis gregos não sorriem; mas as gárgulas sim — porque são cristãs. E quando um cristão está satisfeito, ele se sente (no sentido mais exato da palavra) assustadoramente satisfeito; a sua satisfação é assustadora.
     Cristo profetizou toda a arquitetura gótica naquela hora em que gente nervosa e respeitável (gente como os que hoje fazem objeções ao realejo) objetava contra a gritaria dos moleques de rua de Jerusalém. Disse ele: “Se eles se calarem, as pedras clamarão”. Sob o impulso do seu espírito surgiram como em clamoroso coro as fachadas das catedrais medievais, apinhadas de rostos gritando e bocas abertas. A profecia se cumpriu: as próprias pedras gritam.”


     “Podemos dizer, de modo geral, que o pensamento livre é a melhor de todas as salvaguardas contra a liberdade. Controlada num estilo moderno, a emancipação da mente do escravo é a melhor maneira de impedir a emancipação desse escravo. Ensine-o a preocupar-se com a questão de querer ou não ser livre, e ele não se libertará. De novo, pode-se dizer que este exemplo é remoto ou extremo. Mas, de novo, é exatamente verdade em relação ao homem da rua ao nosso redor.
     É verdade que o escravo negro, sendo um bárbaro aviltado, provavelmente terá um afeto humano de lealdade, ou um afeto humano pela liberdade. Mas o homem que vemos todos os dias — o trabalhador da fábrica do sr. Gradgrind, o pequeno funcionário do escritório do sr. Gradgrind — está mentalmente preocupado demais para preocupar-se com a liberdade. Ele é mantido sob controle com literatura revolucionária. É acalmado e mantido em seu lugar por meio de uma constante sucessão de filosofias insensatas. Ele é marxista num dia, nietzcheano no outro, super-homem (provavelmente) no dia seguinte e escravo todos os dias.
     A única coisa que permanece depois de todas as filosofias é a fábrica. O único homem que ganha com todas essas filosofias é Gradgrind. Para ele valeria a pena manter sua escravidão comercial abastecida de literatura cética. E pensando nisso agora, parece óbvio: o sr. Gradgrind é famoso por doar bibliotecas. Nisso ele mostra a sua inteligência. Todos os livros modernos estão do seu lado. Enquanto a visão do céu estiver sempre mudando, a visão da terra será exatamente a mesma. Nenhum ideal continuará por um tempo longo o suficiente para ser concretizado, mesmo que seja de modo parcial. O jovem moderno nunca mudará o ambiente; ele sempre mudará a mente.
     Essa, portanto, é a nossa primeira exigência envolvendo o ideal para o qual se direciona o progresso: ele deve ser fixo. Whistler costumava fazer muitos estudos rápidos de um modelo; não importava se tinha de rasgar vinte retratos. Mas teria importado se ele erguesse o olhar e visse, cada vez, uma nova pessoa placidamente posando para o retrato. Assim, não interessa (comparativamente falando) quantas vezes a humanidade fracassa na imitação do seu ideal; pois nesse caso os seus velhos fracassos são frutíferos. Mas interessa dramaticamente quantas vezes a humanidade muda o seu ideal; pois nesse caso todos os seus velhos fracassos são infrutíferos.”


     “A essência de todo panteísmo, evolucionismo e religião cósmica moderna está realmente nesta proposição: que a natureza é a nossa mãe. Infelizmente, se você considerar a natureza como mãe, vai descobrir que ela é madrasta. O ponto principal do cristianismo era este: que a natureza não é a nossa mãe, a natureza é nossa irmã. Podemos sentir orgulho de sua beleza, uma vez que temos o mesmo pai; mas ela não tem autoridade sobre nós; temos de admirá-la, não de imitá-la.
     Isso confere ao prazer tipicamente cristão neste mundo um estranho toque de leveza que é quase frivolidade. A natureza foi mãe solene para os adoradores de Ísis e Cibele. Foi mãe solene para Wordsworth ou para Emerson. Mas a natureza não é solene para Francisco de Assis ou para George Herbert. Para São Francisco de Assis ela é irmã, até mesmo uma irmã menor: uma irmãzinha que dança, de quem se ri e a quem se ama.”


     “A seriedade não é uma virtude. Seria uma heresia, mas uma heresia muito mais sensata, dizer que a seriedade é um vício. É na verdade um lapso ou tendência natural a levar-se muito a sério, porque é a coisa mais fácil de fazer. É muito mais fácil escrever um bom artigo de fundo para o Times do que escrever uma boa piada para a punch. Pois a solenidade flui dos homens naturalmente; mas o riso é um salto. É fácil ser pesado, é difícil ser leve. Satanás caiu devido à força da gravidade.”


     “Existe o costume de nos queixarmos da correria e do árduo trabalho da nossa época. Mas na verdade a marca principal da nossa época é uma profunda preguiça e fadiga. O fato é que a verdadeira preguiça é a causa da aparente correria. Tomemos um caso totalmente externo: as ruas são barulhentas, cheias de táxis e carros. Mas isso não se deve à atividade humana, mas sim ao repouso. Haveria menos correria se houvesse maior atividade, se as pessoas simplesmente andassem a pé. O mundo seria mais silencioso se houvesse mais trabalho.”


     “Um feriado, assim como o liberalismo, significa apenas a liberdade do homem. Um milagre significa apenas a liberdade de Deus.”


     “O que pessoas modernas dizem com a maior convicção dirigindo-se a plateias apinhadas geralmente vai contra os fatos: na verdade, são nossos truísmos que são falsos. Aqui está um exemplo. Há uma frase de liberalidade fácil que é proferida muitas e muitas vezes em sociedades éticas e em parlamentos da religião: “As religiões da terra diferem em ritos e formas, mas são a mesma coisa naquilo que ensinam”. Isso é falso; é o contrário dos fatos.
     As religiões da terra não diferem muito em ritos e formas; elas diferem muito naquilo que ensinam.
     Assim, a verdade é que a dificuldade de todos os credos do mundo não está, como se alega, nesta máxima barata: que eles concordam no significado, mas diferem no mecanismo. É exatamente o oposto. Eles concordam no mecanismo: quase todas as grandes religiões da terra funcionam com os mesmos métodos externos, com sacerdotes, escrituras, altares, irmandades com votos, festas especiais. Concordam no método de ensino; diferem é no que ensinam.”


     “Para que o homem possa amar a Deus é necessário não apenas que exista um Deus a ser amado, mas também um homem para amá-lo. Todas aquelas vagas mentes teosóficas para as quais o universo é um imenso crisol são exatamente as mesmas mentes que recuam por instinto diante daquela frase do evangelho que abala o mundo declarando que o Filho de Deus veio não com a paz, mas com a espada que separa. A frase soa inteiramente verdadeira mesmo quando considerada pelo que obviamente é: a afirmação de que qualquer homem que prega o verdadeiro amor está fadado a gerar o ódio. Ela é tão verdadeira referindo-se à fraternidade democrática como ao amor divino.
     O amor falso termina em acomodamento e filosofia comum; mas o amor real sempre terminou em sangue derramado.”


     “Se queremos reformas, devemos aderir à ortodoxia: especialmente nesta questão (tão discutida nos conselhos do sr. R. J. Campbell), a de insistir na divindade imanente ou na transcendente. Insistindo especialmente na imanência de Deus, temos introspecção, autoisolamento, quietismo, indiferença social — Tibete. Insistindo especialmente na transcendência de Deus, temos deslumbramento, curiosidade, aventura moral e política, indignação justa — cristianismo. Insistindo que Deus está no interior do homem, o homem está sempre no interior de si mesmo. Insistindo que Deus transcende ao homem, o homem tem de transcender a si mesmo.”


     “O Deus complexo do símbolo atanasiano talvez seja um enigma para o intelecto. Mas é muito menos provável que esse Deus acumule o mistério e a crueldade de um sultão do que o deus solitário de Omar ou Maomé. O deus que é uma simples terrível unidade não é apenas um rei, é um rei oriental.”


     “Para o budista ou para o fatalista oriental, a existência é uma ciência ou um plano, que deve acabar de uma determinada maneira. Mas para o cristão, a existência é uma história, que pode acabar de qualquer maneira. Num romance emocionante (esse produto puramente cristão) o herói não é devorado pelos canibais; mas é essencial para a existência da emoção que ele possa ser devorado por eles. O herói deve (por assim dizer) ser um herói palatável.
     Assim, a moral cristã sempre disse ao homem, não que ele perderia sua alma, mas que ele deveria cuidar para não perdê-la. Na moral cristã, em suma, é perverso chamar um homem de “condenado”; mas é estritamente religioso e filosófico chamá-lo de condenável. Todo o cristianismo se concentra no homem na encruzilhada. As vastas e rasas filosofias, as imensas sínteses da mentira, todas falam sobre épocas e evolução e desenvolvimentos definitivos. A verdadeira filosofia se preocupa com o instante. O homem tomará esta ou aquela estrada? — essa é a única coisa sobre a qual devemos pensar, se gostamos de fazê-lo.”


     “Naquela história terrível da Paixão há uma distinta sugestão emocional de que o autor de todas as coisas (de algum modo impensável) não apenas passou pela agonia, mas também pela dúvida. Está escrito: “Não tentarás o Senhor teu Deus”. Não, mas o Senhor teu Deus pode tentar-se a si mesmo; e tem-se a impressão de que foi isso o que aconteceu no Getsêmani.
     Num jardim Satanás tentou o homem; e num jardim Deus tentou Deus. De alguma forma sobre-humana ele passou pelo horror humano do pessimismo. O mundo foi abalado e o sol desapareceu do céu não no momento da crucificação, mas no momento do grito do alto da cruz: o grito que confessou que Deus foi abandonado por Deus.
     E agora deixemos que os revolucionários escolham um credo dentre todos os credos e um deus dentre todos os deuses do mundo, ponderando com cuidado todos os deuses de inevitável recorrência e poder inalterável. Eles não encontrarão um outro deus que tenha ele mesmo passado pela revolta. Não (a questão torna-se difícil demais para a fala humana), mas deixemos que os próprios ateus escolham um deus. Eles encontrarão apenas uma divindade que chegou a expressar a desolação deles; apenas uma religião em que Deus por um instante deixou a impressão de ser ateu.”


     “A abóbada acima de nós não é surda porque o universo é um idiota: seu silêncio não é o silêncio sem piedade de um mundo sem fim e sem destino. O silêncio que nos cerca é antes uma pequena e compassiva quietude como a súbita quietude no quarto de um enfermo. Talvez a tragédia nos seja permitida como uma espécie de comédia benigna: porque a frenética energia das coisas divinas nos derrubaria como uma farsa de bêbados. Podemos aceitar as próprias lágrimas mais facilmente do que poderíamos aceitar a tremenda leveza dos anjos. Assim ficamos sentados talvez num quarto estrelado e silencioso, enquanto a risada dos céus é forte demais para os nossos ouvidos.
     A alegria, que foi a pequena publicidade do pagão, é o gigantesco segredo do cristão.”

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