A conversão de São Paulo

A conversão de São Paulo
A conversão de São Paulo

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A caminho de Cabul e Bagdá: Relatos do conflito no mundo islâmico – Jason Burke

Editora: Zahar
ISBN: 978-85-378-0086-7
Tradução: Roberto Franco Valente
Opinião: ***
Páginas: 320

     “Quando regressei no outono de 2001 depois de fazer a cobertura da guerra no Afeganistão, fiquei chocado ao verificar como fora seriamente mal interpretada a natureza das causas daqueles ataques (contra as torres gêmeas). Por uma grande variedade de razões, que vão desde a mentira praticada por diversos governos até antigos preconceitos sociais e culturais sobre a natureza da ação violenta – tanto religiosa quanto política –, eles estavam sendo atribuídos a um sombrio grupo radical militante, rigorosamente estruturado, chamado Al-Qaeda, liderado por um mentor terrorista de nome Osama bin Laden. Declarava-se amplamente que esse grupo era responsável por violência no mundo inteiro. Dezenas de militâncias antigas, com raízes profundas em fatores econômicos, culturais e religiosas no mundo islâmico e além dele, estavam sendo simplesmente descartadas em favor da obra de um único dissidente saudita maluco e de alguns seguidores seus. Fiquei tão irritado diante da preguiça intelectual deste tipo de análise – e tão preocupado com as potenciais consequências disso – que comecei a escrever meu primeiro livro. Nele eu analisava a estrutura da militância islâmica contemporânea e ao mesmo tempo investigava algumas das suas raízes ideológicas e históricas. A Al-Qaeda, dizia eu, era uma ideia, não uma organização.”


     “Todas as religiões importantes têm recursos em seu interior que podem ser explorados para diferentes usos, sejam belos ou pacíficos, tolerantes ou intolerantes. Mas era só aquele elemento minoritário dentro de uma minoria cujo epítome era Osama bin Laden e seus correligionários extremistas – homens que minaram o Islã através de tudo que havia de mais inflexível, violento e amargo –, que representava aquela fé nos tenebrosos dias que se seguiram a atrocidade dos ataques a Nova Iorque e Washington. E não foram apenas os radicais de direita ou os religiosos conservadores dos Estados Unidos que sentiram o que estava acontecendo como uma batalha existencial entre o bem e o mal, o certo e o errado, o verdadeiro e o falso. Vários colegas e amigos meus pouco se esforçavam para disfarçar sua certeza de que o Islã era uma religião retrógrada, e que os “muçulmanos” constituíam um perigo claro e atual para quaisquer valores básicos da democracia liberal. Isso também me deixou aturdido, preocupado e irritado. E me entristeceu muito.
     Talvez a característica mais deprimente do argumento do choque de civilizações, que poderia ser ironicamente engraçado se não fosse tão perigoso, seja a coincidência entre os pontos de vista e as ideias dos seus proponentes, tanto no mundo islâmico quanto no Ocidente. Neste, colunistas de jornal costumam referir-se ao “mundo islâmico” como algo monolítico. Os conservadores muçulmanos fazem semelhantes afirmações sobre o “Ocidente de orientação norte-americana”. Fala-se sobre o modo de pensar “dos árabes”, ou “dos islâmicos”, de um lado, e da “mente” ocidental, cristã ou judaica, de outro. No Ocidente, senadores americanos falaram em bombardear Meca em represália aos ataques contra os Estados Unidos, enquanto na Arábia Saudita e em outros lugares os radicais exigiam o bombardeio dos Estados Unidos em represália aos ataques contra a Palestina, a Chechênia, a Caxemira, o Iraque e o Afeganistão. E os dois lados acreditavam fazer parte de um grupo religioso definido, que deveria combater violentamente, numa competição hobbesiana, pelos escassos recursos morais, intelectuais e físicos da Terra. Acreditavam também estar se engajando em uma batalha sem limites e sem trégua contra um inimigo fanático e irracional, agressivo, beligerante e decidido a se expandir até que todos os outros sistemas de cultura, de sociedades e de crenças fossem erradicados. Todos apresentavam um leque de referências históricas e culturais espúrias para justificar o que constituía fundamentalmente uma visão preconceituosa e ignorante, distorcendo a realidade para adequá-la às suas ideias.”


     “Estávamos sentados no refeitório da unidade de oficiais, uma grande barraca de lona armada junto à curva de um rio, afastada cerca de 1 km e meio da linha de frente. O jantar era galinha tikka seguida de pudim de claras, e foi servido na prataria do regimento por soldados usando luvas brancas. Durante o prato principal, as bombas indianas explodiam suficientemente perto para que os estilhaços batessem nas paredes. Eu não estava com tanto apetite assim. Herl, um homem forte e elegante de quarenta e poucos anos, dentes proeminentes, nariz grande, olhar alegre e bigode curto e espesso, mostrava-se muito expansivo. “A Índia e o Paquistão têm disputado a Caxemira por talvez mais de 50 anos, e ainda não conseguimos resolver a questão”, disse ele. “A guerra não pode prosseguir indefinidamente. Deve-se encontrar alguma outra forma de solucionar o caso”.
     Ele serviu-se de um pouco mais de pudim. “Comer bem é um dom de Deus”, disse sorrindo, e fez um sinal para o soldado com a calda.
     Dei um pulo quando uma bomba indiana explodiu perto dali. “E a guerra?”, perguntei.
     “Isso é obra dos homens”, respondeu ele, com uma piscadela.”


     “O fenômeno do Talibã começara bem perto de Khandahar, no verão de 1994, quando Omar, um veterano da guerra contra soviéticos, decidiu que o banditismo, o roubo e as violações, endêmicos na região naquela época tinham de acabar. Reuniu então um grupo de aldeões e atacou o acampamento do chefão local, que recentemente sequestrara e violentara uma jovem; o sujeito foi pendurado ao canhão de um tanque e enforcado. Rapidamente outros homens da região se juntaram ao grupo, e mais outros recrutas apareceram dentre os milhares de estudantes das escolas religiosas do Paquistão. Esses estudantes, muitas vezes refugiados afegãos ou filhos destes, receberam o nome de “talibãs”, que no idioma persa significa “os que procuram”. Passados dois anos do ataque surpresa de Omar em Khandahar, o Talibã já governava o país inteiro. Entretanto, esse sucesso impressionante não se devia apenas ao simples fato de o povo afegão já estar farto de guerras e banditismo. Omar e seu bando de vigilantes começaram sua campanha no momento em que os astros geopolíticos estavam perfeitamente alinhados a seu favor. Os generais paquistaneses consideraram os talibãs como seus legítimos representantes, e lhes enviaram especialistas e armas. Homens como Javed Parachar, da província da Fronteira noroeste, viram-nos como uma força contra o mal, e mandaram-lhes de suas escolas religiosas maciços reforços. Devotos comerciantes e príncipes da Arábia Saudita enviaram caixas de dinheiro, enquanto os Estados Unidos mantiveram-se quietos, distraídos pelos Bálcãs e receosos em relação aos assuntos internacionais de modo geral – e, de certa forma, felizes por ver o Afeganistão estabilizado, ainda que fosse por um bando de radicais linha-dura.”


     “Quanto a Bin Laden, os fatos mais básicos eram bem conhecidos e tinham sido amplamente divulgados após os bombardeios contra as embaixadas, em agosto de 1998. Nascido na Arábia Saudita em 1957, filho de um devoto iemenita magnata da construção, Bin Laden viajara para o Paquistão no início dos anos 1980 para ajudar os afegãos a combater os soviéticos, e usara seus contatos no Golfo para levantar grandes somas de dinheiro vivo, que ele encaminhara para diversas facções. Perto do fim da guerra, decidira criar o próprio grupo a fim de reunir o pequeno número de belicosos militantes estrangeiros que lutavam ao lado dos afegãos e levar a luta para além das fronteiras daquele país. Decidira que esse grupo agiria como “Al-Qaeda” ou “base” ou “vanguarda” na língua árabe – para futuras operações e expansão. Bin Laden retornara depois à Arábia Saudita, onde não fizera nada digno de nota até Saddam Hussein invadir o Kuwait em 1990. Como súdito leal que era, oferecera-se para organizar uma legião de militantes árabes com o propósito de proteger a Arábia Saudita do ditador iraquiano. Sua proposta fora rejeitada, o que não o surpreendera, e logo em seguida ele deixara a terra natal e fora para o Sudão, onde passara os cinco anos seguintes experimentando de tudo, desde o financiamento de militantes islâmicos nos Bálcãs e no extremo oriente até a arboricultura e construção de estradas de rodagem.”


     “Finalmente, começamos a compreender que a verdadeira força do círculo de Bin Laden – em termos intelectuais, é claro – era Ayman al-Zawahiri*, um pediatra egípcio que muito cedo se passara para a militância, e que fora preso e torturado em sua terra natal antes de partir para o Paquistão, no início dos anos 1980, para apoiar a guerra contra os soviéticos. Al-Zawahiri experimentara diretamente os rigores do ativismo militante, era um poderoso pensador e empregara de muitas maneiras o dinheiro e o indiscutível carisma de Bin Laden para desenvolver suas ambições pessoais e as fortunas do seu próprio grupo, a Jihad Islâmica egípcia. Embora Al-Zawahiri fosse frequentemente descrito como um simples representante de Bin Laden, logo ficou evidente para nós que seu papel era muito mais importante do que isso.
     Em seguida, concentramos nossa atenção nos acontecimentos posteriores ao retorno de Bin Laden ao Afeganistão, em 1996. Mais uma vez percebemos que a versão oficial da carreira de Bin Laden fora sutilmente distorcida, se bem que de forma significativa. Descobrimos também que a relação dele com o Talibã era muito mais complicada do que se pensava. Em 1996, por exemplo, ele fora expulso do Sudão e convidado a voltar para o Afeganistão – não pelo Talibã, como tanto se disse, mas por três chefes guerreiros. Quando seus protetores foram derrotados, Bin Laden, usando seu dinheiro e seu carisma, conseguira convencer parcialmente os novos governantes do país de que ele não representava um risco, mas uma vantagem. Pelo que soubemos, porém, o Talibã permaneceu sempre cauteloso. Eles eram afegãos, e Bin Laden, um árabe, um forasteiro. Eles estavam interessados em livrar seu país da corrupção, e ele, em uma campanha para reforçar todo o mundo islâmico. Todo esse mal-estar tinha sido demonstrado da forma mais evidente apenas alguns meses antes, em setembro de 1998, quando o mula Omar, o líder do Talibã, deixara claro que os bombardeios às embaixadas norte-americanas na África Oriental, sobre os quais ele não fora consultado, haviam usurpado a sua própria autoridade. O Talibã, preocupado com a rejeição internacional acarretada pela concessão de abrigo a Bin Laden, decidiu que seria melhor o saudita “desaparecer”. Começaram a declarar, de forma bastante implausível, que não tinham a menor ideia do destino que ele tomara.”
*: Depois da morte de Bin Landen (destaque-se que este livro, escrito anos antes da captura dele, apontava o Paquistão como seu provável refúgio), Ayman al-Zawahiri assumiu a liderança da Al-Qaeda.


     “Quando um repórter chega a uma cidade desconhecida, existem vários lugares aonde ele pode se dirigir para recolher histórias. Normalmente, não são os ministérios ou as embaixadas, mas os hospitais, os postos policiais e as escolas.”


     “Saddam podia ser visto por toda a parte no Iraque. Dei-me conta de que totalitarismo significa exatamente o que parece querer dizer. O poder de Saddam dependia do medo, e esse medo dependia da ideia de não haver ninguém no país que pudesse estar fora do seu alcance pessoal, ou do alcance de seus comandados. Assim, seu controle era total. A rede de informantes por todo o território significava que ninguém poderia ter certeza de que o presidente não estivesse pessoalmente escutando suas palavras. Sem dúvida, Saddam estava constantemente vigiando. Em qualquer muro, em qualquer estrada, via-se a sua imagem, umas vezes sorrindo, outras sombrio, mas sempre vigiando.”


     “Certamente, a história e a situação atual dos palestinos vivendo na Margem Ocidental e na Faixa de Gaza poderiam ter sido propositadamente designadas para criar os diversos elementos que levavam à frustração e à hostilidade. Pode não haver nenhuma conexão direta entre pobreza e militância, mas uma relação indireta existe: uma situação de pobreza gera o sentimento de injustiça, que torna muito mais provável o ativismo violento. Os palestinos dos territórios Ocupados estavam sujeitos a humilhações diárias, e tinham de conviver com a constante consciência de lhes ter sido negado muito do que consideravam legitimamente seu.  Sabiam que eram mal governados pelos próprios líderes e traídos seguidamente pela comunidade internacional, além de por outros árabes e muçulmanos. O padrão de vida muito mais elevado dos israelenses, bem ali ao lado – ou mesmo nas colônias, bem ali no meio –, era uma constante lembrança de como poderiam ter sido as coisas. E o que era pior, o processo de paz do início dos anos 1990 gerara expectativas que foram completamente frustradas. A vida, exceto para uma pequena elite, continuava sendo extremamente dura. E, para completar, não havia qualquer meio não-violento de protesto que fosse eficaz, quer contra os israelenses, quer contra os próprios líderes palestinos, ineficientes e venais.”


     “Quanto mais eu aprendia sobre a guerra na Argélia, mais me convencia de que ela tinha uma lição extremamente importante sobre a natureza da militância islâmica como um todo. Na Argélia eu pude ver muitas coisas que já testemunhara no Paquistão, no Afeganistão, no Iraque e na Palestina, ou seja: como a religião podia atrair as pessoas simplesmente por ser útil a elas, de forma positiva ou negativa; como os sistemas baseados na fé podiam fornecer uma alternativa atraente quando outras ideologias eram consideradas um fracasso ou uma ameaça, ou ambas as coisas; como a propaganda funcionava melhor quando conectava-se a desconfianças e ressentimentos latentes que aguardavam  uma linguagem e um canal para se expressarem, principalmente quando muitos já tinham um forte sentimento de humilhação e de injustiça, ou de aspirações frustradas. Mas a Argélia também me ensinou algo novo. Enquanto eu viajava pelo país, ou melhor, pela estreita faixa habitada ao longo da costa norte, comecei a perceber toda a importância do meio-termo, do conjunto da opinião moderada, do imenso peso daquela parte da população que só desejava uma vida decente para si, seus amigos e familiares. Pois foi o apoio inicial que ela deu aos islamitas que, de certa forma, acarretou a guerra. E foi seu desgosto final pelos militantes que pôs fim à mesma.”


     “Na Cabília, assim como no centro de Argel, os muros das moradias estavam cobertos de slogans políticos grafitados com spray. “Os que estão mortos não temem a morte”, dizia um.”


     “O problema era que ninguém estava muito certo de quem – ou o quê – era o inimigo. Pouco se discutira, em nível mais elevado, sobre a Al-Qaeda antes do 11 de setembro ou durante o outono de 2001, e pouco havia para dar conteúdo, de modo sensato e não partidário, à discussão que se seguiu ao fim da campanha no Afeganistão. O resultado foi um vazio preenchido por análises baseadas em fontes insuficientes e parciais, e definido por posições ideológicas prévias. Enquanto estive no Paquistão e no Afeganistão, eu ignorava muito do que se falava na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos sobre a militância islâmica. Quando retornei, surpreendi-me ao perceber que aquilo que eu julgava fortemente ser uma ideia completamente equivocada sobre a natureza da Al-Qaeda se estabelecera como senso comum. A Al-Qaeda era considerada uma organização monolítica, muito ao estilo dos grupos terroristas tradicionais dos anos 1960 e 1970, com uma hierarquia definida, membros, quadros de funcionários, células e agentes por todo o mundo. Pior ainda, toda uma série de grupos espalhados pelo mundo islâmico, sem a menor relação com Bin Laden e cuja existência era quase desconhecida do Ocidente antes do 11 de setembro, era agora designada como Al-Qaeda ou filiais desta. Bin Laden era agora universalmente representado como um vilão à James Bond, sentado em uma caverna, diante de uma mesa de computador, orquestrando uma campanha mundial em prol da violência. De um modo mais generalizado, o terrorismo – ou pelo menos sua variação “muçulmana” – era frequentemente descrito como um ato de raiva irracional ou de ódio visceral contra a riqueza e a liberdade, integrando um plano para conquistar o mundo. Claramente, concluía-se que o importante não era a busca pelas “causas originais” do problema, e que aqueles que o fizessem estariam sendo “indulgentes”. Dizia-se que os homens-bomba eram loucos ou motivados por alguma disfunção sexual, e os tomadores de decisão aparentemente precisavam ter em mente que apenas uma ação resoluta e decidida deteria os terroristas, enquanto uma demonstração de fraqueza os encorajaria.
     Esse pacote de ideias – o discurso “linha-dura” do antiterrorismo – dominou o debate, por uma grande variedade de razões. Em primeiro lugar, ele refletia as simpatias daqueles que formulavam as estratégias na Casa Branca e dos que os elegeram, repercutindo amplamente em uma cultura que enfatizava a ação e o esforço individuais, tanto na “sociedade” quanto no “ambiente”, como determinantes do comportamento, do sucesso, do fracasso e da história. Em segundo lugar, favoreciam-no a instituição da defesa e da indústria de segurança, que eram esmagadoramente conservadores nos Estados Unidos, na Europa e por todo o mundo. A natureza dos homens especializados em antiterrorismo e segurança, muitos dos quais são ex-soldados ou ex-policiais, leva coletivamente a um forte viés direitista em sua participação nas tomadas de decisão e nos debates públicos. Um terceiro motivo para o domínio do paradigma de direita foi a sua esmagadora popularidade entre governos desmoralizados de todo o mundo. Para sistemas de governo tais como o da Argélia, do Uzbequistão, das Filipinas e da Rússia, atribuir à Al-Qaeda – esse recém-descoberto grupo de bichos-papões internacionais – a responsabilidade por insurgências regionais há muito existentes era de extrema utilidade: desencadeava uma enxurrada de ajudas diplomáticas, militares e financeiras de Washington e ao mesmo tempo obscurecia o papel que a própria corrupção, nepotismo, repressão e administração incompetente haviam desempenhado no fomento à violência. Um quarto fator foi a ampla cumplicidade da mídia, tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos. Com poucas exceções, os jornalistas – fosse por ignorância, deferência ou preguiça – sentiam-se felizes em poderem acreditar em tudo que diziam os políticos e os “especialistas em segurança”. E estavam satisfeitos com o novo e brilhante rótulo para aquela ameaça que, muito pelo contrário, era extremamente obscura. Também estavam contentes por poderem atribuir à Al-Qaeda a culpa por qualquer ataque, em qualquer parte do mundo. Um derradeiro motivo para a prevalência do discurso direitista foi a fragilidade da resposta da esquerda, que ia desde um antiamericanismo fácil até o uso de teorias liberais amplas, carentes de rigor e clareza. Além disso, eram poucas as vozes na esquerda, ou mesmo no centro, que podiam falar com tanta autoridade e certeza quanto os seus adversários.
     O resultado daquele distorcido debate sobre a natureza da ameaça que, aparentemente, surgira de repente em setembro de 2001 foi imediatamente perceptível em termos de políticas. A principal investida da “Guerra Contra o Terrorismo” foi, naturalmente, determinada pela Casa Branca, e se baseava quase exclusivamente nas tradicionais táticas “duras” do antiterrorismo. Os Estados Unidos buscavam transformar-se em uma fortaleza, enquanto fora dali agentes e tropas da inteligência se organizavam, com todo magnífico hardware, para saírem à caça dos maus elementos e os eliminarem. Fizeram-se promessas hipócritas de se incentivar a democracia e o crescimento econômico no Oriente Médio, mas quase não foram discutidas as complexas raízes do terrorismo islâmico, a diversidade do mundo muçulmano, a importância de se chegar ao tão crucial meio-termo e de se contrapor à ideologia que alimentava o apoio aos militantes. As lições de décadas de guerra contra rebeliões, como também as dos recentes acontecimentos na Argélia, no Afeganistão, no conflito Israel-Palestina e em outros lugares, foram esquecidas, ou ignoradas. A força, de um modo geral, deveria ser combatida com força.
     Para lançar mais lenha na fogueira – ou, quase literalmente, acrescentando insulto à injúria –, a opinião pública no mundo islâmico foi seguidamente ofendida, e de uma forma que deve ter deliciado Bin Laden. Uma sequência de gafes do presidente Bush – suas insistentes referências à “cruzada” contra o terrorismo sendo apenas uma entre muitas – deixaram ultrajadas plateias já extremamente sensíveis. Regimes opressores foram cortejados e apoiados. A “limpidez moral” – o velho termo da Guerra Fria que significava não estar comprometido com “valores liberais superados” – foi seguida diretamente por uma série de horríveis abusos contra os direitos humanos nas novas prisões da Baía de Guantánamo e do Afeganistão. Isso manchou o nome dos Estados Unidos e deu credibilidade a uma velha acusação, tão difundida no mundo islâmico, do uso de dois pesos e duas medidas. Uma vez que o tema mais evidente, em anos de conversa que tive com militantes islâmicos, era a ideia de que eles estavam sendo atacados, o impacto cumulativo desses vários erros foi, como se pode imaginar, catastrófico. O vasto apoio que os Estados unidos desfrutaram no período posterior ao 11 de Setembro, até mesmo no mundo islâmico, rapidamente se transformou em – ou voltou a ser – hostilidade profunda. E o pior ainda estava por vir.
     As implicações subjacentes à estratégia antiterrorista adotada pela Casa Branca – e, portanto, por grande parte dos aliados dos Estados Unidos depois dos ataques de 11 de Setembro – foram muito influenciadas pelo legado da Guerra Fria. Naquela ocasião os conservadores americanos e europeus também haviam atribuído o terrorismo ou a violência rebelde por todo mundo a sombrias redes dirigidas por um comitê central. Além disso, ao negarem que as insatisfações socioeconômicas tais como a pobreza ou a repressão fossem relevantes para a acolhida das ideologias de esquerda, sugeriam que o apoio estatal ao terrorismo é que era, em vez disso, o elemento importante. Uma vez que a administração de Bush tinha tantos membros com histórico de envolvimento na disputa com os soviéticos – como o próprio Rumsfeld –, essa continuidade era previsível. Não eram apenas os soldados e os repórteres em Bagram que estavam reencenando antigas guerras em suas mentes.
     Em situação diversa, isso poderia não ter sido um grande problema. Na sobrecarregada atmosfera de 2002, porém, as consequências foram muito graves. A ênfase nos Estados que apoiavam o terrorismo, em vez de em suas causas originárias mais gerais, levou os tomadores de decisão norte-americanos a uma conclusão. Nas mentes de muitos estrategistas veteranos e influentes, a maior ameaça ao “mundo civilizado” não vinha de uma amorfa e confusa constelação de grupos radicais islâmicos independentes que articulavam antigas insatisfações sociais, culturais, políticas e econômicas em linguagem religiosa. Vinha, sim, de uma única nação: o Iraque.”


     “A pergunta que todos faziam era: Como se pôde chegar a isso? Quais foram as razões que levaram, tão depressa, à insurreição armada no Iraque (pós-ocupação americana) em toda parte? Não era fácil responder.
     Algumas razões para a violência eram óbvias. Foram cometidos erros cruciais pela Autoridade Provisória da Coalizão, e também por importantes figuras políticas de Washington, que transformaram um trabalho já difícil em algo muito, muito mais difícil. Imediatamente após a queda de Bagdá, a incapacidade das tropas americanas de deter a pilhagem na capital chocara muita gente. Depois, houvera uma série de decisões radicais – tais como a desmobilização total do Exército iraquiano e um esforço agressivo para excluir do Partido Baath todos os membros veteranos e muitos outros ocupando postos médios da administração civil – que criaram um vasto acúmulo de homens desempregados, humilhados e enraivecidos, grande parte dos quais pertenciam à minoria muçulmana sunita do país. Além disso, graças aos fracassos da inteligência, pelo menos tão graves quanto os que levaram à conclusão de que Saddam tinha armas de destruição em massa, não houvera quase nenhuma avaliação realista das maciças necessidades de infraestrutura do Iraque pós-Saddam, e por isso o ritmo da reconstrução se tornara espantosamente lento. E à medida que a situaçia se deteriorando, esse processo ficava ainda mais lento, provocando novas ondas de ressentimento. itos outros ocupando postos ão da segurança ia se deteriorando, esse processo ficava ainda mais lento, provocando novas ondas de ressentimento. Dessa forma, mais recrutas se apresentavam aos insurgentes. Tampouco a mídia local de língua árabe facilitou a tarefa da Autoridade da Coalizão, pois, embora muitas vezes contestasse a versão dos acontecimentos de forma útil, frequentemente permitia que sua profunda oposição à guerra colorisse as reportagens, muitas vezes sensacionalistas porém amplamente respeitadas.”


     “Um problema era a escassez de informação verdadeira. Era difícil, mesmo para os jornalistas morando em casas alugadas na cidade, descobrir o que estava se passando no outro lado de Bagdá. Era quase impossível para qualquer um na Zona Verde* obter informações confiáveis sobre o que estava acontecendo a apenas 200 quilômetros de distância. Comunicações insuficientes significavam que os administradores de Bagdá simplesmente não sabiam o que estava ocorrendo nas outras partes do Iraque. Os resultados ficaram mais evidentes nas apelidadas “Tolices das Cinco e Meia” – conferências de imprensa diárias em estilo Orwell realizadas na Zona Verde por veteranos porta-vozes da Coalizão. Em certa ocasião, apesar de um helicóptero ter sido abatido perto de Faluja, dos conflitos em Narjaf, Karbala e Cidade de Sadr, de um ataque com morteiros a Bagdá naquela manhã – que literalmente me fez pular da cama – e de todas as estradas do país aparentemente estarem perigosas demais para se trafegar, o chefe militar de imprensa se referiu a “um ligeiro aumento de hostilidades”. Ao lhe pressionarem sobre o fato de que as forças recrutadas recentemente pelo governo iraquiano tinham desertado em massa, tendo alguns homens se juntado aos rebeldes, ele admitiu muito contra a vontade que “o progresso que esperávamos fazer com a segurança não ocorreu como prevíamos”, caindo em seguida nos clichês de sempre: “As tropas americanas estão lutando e morrendo para trazer a democracia para as jovens mulheres e crianças iraquianas”. O ruído de helicópteros voando baixo era aparentemente “o som da liberdade”. Regularmente nos davam “volumosa informação” sobre os CACs (os combatentes anti-Coalizão) mortos em “vigorosas operações de combate”, enquanto o número de civis mortos era impossível de se obter.”
*: Área reservada de cerca de dez quilômetros quadrados onde as tropas (e o comando da Autoridade da Coalizão) se concentravam durante a ocupação; é a atual sede do governo iraquiano.


     “O que eu sabia era que, não importa por onde eu tenha viajado nos anos que se seguiram aos ataques do 11 de Setembro – desde a Indonésia até o Magreb, passando pela Malásia, a Tailândia, a Índia (cuja população de 140 milhões de muçulmanos permanecia decididamente moderada), o Paquistão, o Afeganistão, o Qatar, o Iraque, a Jordânia, a Síria, Israel-Palestina, Líbano e Turquia –, jamais me deparei com qualquer hostilidade direta, pessoal. Mesmo no Iraque, eu me sentira sempre confiante de que a grande maioria da população não me faria mal. A verdade era que, apesar dos terríveis abusos cometidos em Abu Ghraib e em Guantánamo, apesar dos constantes desapontamentos da vida cotidiana, apesar das mortes de 30 mil civis no Iraque, apesar da frustração de tantas aspirações e esperanças, apesar de todos os esforços de homens como Bin Laden, Al-Zawahiri e Al-Zarqawi, apesar dos governantes incompetentes, corruptos, dinásticos e esclerosados ainda agarrados ao poder por toda parte, apesar da retórica agressiva e beligerante partindo de todos os lados, apesar da maciça transmissão pela mídia de uma mensagem de ódio, preconceito e violência – apesar disso tudo, o povo comum do mundo islâmico, aqueles apanhados em meio ao fogo cruzado, aqueles cujas vozes foram tantas vezes sufocadas pelos gritos e os tiros, todos aqueles moderados não foram vencidos pelos radicais. O centro resistiu. Sim, alguns se enfureceram. Sim, outros ficaram ressentidos. Sim, alguns se passaram para a militância, e não há dúvida de que muitos mais o fariam nos anos seguintes. Mas quando Bin Laden disse “o despertar já começou”, ele acreditava que seus espetaculares atos de violência iriam desencadear uma ampla onda de apoio por todo mundo islâmico. E ele estava errado.”


     “O nascente otimismo que eu vinha sentido desapareceu no mesmo instante em que soube das explosões (em julho de 2005 três bombas explodiram no metrô de Londres e uma em um ônibus, matando 52 pessoas e deixando mais de 700 feridas). Senti também profunda tristeza. E, é claro, me senti com muita raiva. Fiquei furioso, diante da ridícula declaraçnto pelos políticos quanto por "elos pol  feridas).  mas  vozes foram tantas vezes sufocadasivis no Iraque, apesar da frustraçlão, seguidamente repetida tanto pelos políticos quanto por “líderes comunitários”, de que “o Islã é uma religião de paz”. De fato, como aprendi in loco, qualquer crença é aquilo que os fieis fazem dela, e o Islã dispunha de recursos que poderiam ser utilizados tanto para justificar a estarrecedora brutalidade quanto para encorajar a misericórdia e a tolerância. (...)
     Descobriu-se que os autores daqueles ataques eram quatro jovens, todos cidadãos britânicos – três nascidos no Reino Unido de pais paquistaneses e o quarto nascido na Jamaica e convertido ao Islã mais recentemente. Não parecia haver um mentor intelectual que os houvesse recrutado, dirigido sua célula e logo em seguida fugido do país, e tampouco existia evidência de qualquer conexão com Osama bin Laden ou alguém mais próximo a ele. Era um dos primeiros exemplos de um grupo de cidadãos nascidos em um país ocidental que, em nome do Islã, lançava um ataque à própria terra natal. Parece que a célula era inteiramente “de casa”, confirmando minha teoria de que a ideologia radical que se difundira desde fins dos anos 1990 não precisava de organizações, campos de treinamento ou líderes para levar as pessoas à ação, ela viria de dentro do país. Eu sabia, pela minha experiência no Iraque e em outros lugares, que a lógica do terrorismo significava que bastava uma leve alteração na radicalização geral para se criar um número suficiente de pessoas dispostas a cometer atos violentos o bastante para causar sérios danos. Essa alteração, como eu e outros tínhamos previstos, acontecera.”


     “Pensei mais uma vez em todos os militantes que conheci ou entrevistei: no Talibã, nas pessoas que conheci no Paquistão, em Didar – o homem-bomba de Suleimaniyah que gostava de futebol –, em Abu Mujahed em Bagdá, nos milicianos xiitas de Najaf, nos homens das prisões de Caxemira e de Kandahar, e em todos os outros. Não havia nenhuma regra determinando por que os diversos argumentos da ideologia radical “islâmica” funcionaram com eles. O caminho que cada um seguira era diferente. Uns tinham buscado uma solução para o que consideravam injustiças sociais e econômicas; outros queriam uma vingança contra uma humilhação ou uma ofensa real ou imaginária; outros simplesmente queriam amizade, ou respeito próprio, ou aventura. Outros queriam combater o que viam como a ocupação de sua terra natal. Alguns claramente tinham sido homens brutais, endurecidos pelo ódio e enfurecidos desde o início, pessoas que apenas gostavam do sentimento de poder proporcionado pelo prejuízo causado aos outros. Outros queriam apenas demonstrar sua fé da maneira mais extrema possível. Alguns compreendiam que os seus atos eram parte de um programa político cuidadosamente articulado. A maioria acreditava que seriam elogiados como heróis em suas comunidades. Poucos não se importavam com o que poderiam pensar seus semelhantes. Por um longo tempo tentei descobrir alguma espécie de teoria geral que desvendasse o segredo da “militância islâmica”, e subitamente me dei conta de que era impossível fazer isso. Não havia uma resposta única. Na verdade, o ponto era exatamente não haver uma resposta única.
     E me dei conta de que não só não havia nenhuma teoria geral que pudesse explicar o “mundo islâmico”, e que qualquer busca nesse sentido seria não apenas fútil, mas de fato contraproducente. Seria fazer contornos em volta das pessoas, designá-las como pertencendo a este ou aquele bloco, decidindo que em vez de alto, baixo, gordo, magro, velho, jovem, alfabetizado, analfabeto, homem, mulher, sem filhos, com filhos, empregado, desempregado, saudável, doente, todos eram muçulmanos ou não-muçulmanos, e que essa distinção, quase inteiramente arbitrária, era como as pessoas podiam ser divididas e subdivididas e de novo divididas, e as comunidades definidas.
     Por suas próprias naturezas, as únicas coisas que poderiam definir o “radicalismo muçulmano violento” eram o “Islã” e a “violência”. A definição era um argumento circular que inevitavelmente levaria à simples conclusão de que as duas coisas estão intimamente ligadas. De fato, a violência com a qual nos defrontávamos era um fenômeno contemporâneo muito complicado, com raízes em desenvolvimentos culturais, políticos, econômicos e na interação entre indivíduos, grupos, países e sociedades por todo o mundo há séculos. E, como estava projetada para fazer, a violência nos confrontava com uma escolha de extrema importância. No período seguinte aos bombardeios, como também na esteira das execuções e dos assassinatos pela honra ou mostrados em vídeo, poderíamos destacar a divisão ou o seu oposto. E se os bombardeios em Londres me ensinaram algo foi que reunir as pessoas – sejam centenas de milhões em imensas extensões do planeta ou apenas 50 delas em um vagão de metrô – e demarcá-las, rotulá-las e designá-las simplesmente como isto ou aquilo, como inimigos ou amigos, ocidentais ou orientais, muçulmanos ou não-muçulmanos, crentes ou descrentes é uma coisa que ninguém jamais deve fazer. E se as minhas viagens nos últimos anos me ensinaram algo foi que dar ênfase às diferenças quando há tanta coisa que une, enfatizar as divisões quando tantas coisas são as mesmas, enfatizar as distâncias quando há tanto que cada vez mais se aproxima não é apenas perigoso: é errado.”

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Casa-grande & senzala: Formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal (Parte III) – Gylberto Freire

Editora: Global
ISBN: 978-85-2600-869-4
Opinião: *****
Páginas: 736

     “Impossível negar-se que ao imperialismo econômico da Espanha e de Portugal ligou-se, da maneira mais íntima, o religioso, da Igreja. A conquista de mercados, de terras e de escravos – a conquista de almas. Pode-se dizer que o entusiasmo religioso foi o primeiro a inflamar-se no Brasil diante de possibilidades só depois entrevistas pelo interesse econômico. Colônia fundada quase sem vontade, com um sobejo apenas de homens, estilhaços do bloco de gente nobre que só faltou ir inteira do reino para as Índias, o Brasil foi por algum tempo a Nazaré das colônias portuguesas. Sem ouro nem prata. Somente pau-de-tinta e almas para Jesus Cristo.
     Para a escravidão, saliente-se mais uma vez que não necessitava o português de nenhum estímulo. Nenhum europeu mais predisposto ao regime de trabalho escravo do que ele. No caso brasileiro, porém, parece-nos injusto acusar o português de ter manchado, com instituição que hoje tanto nos repugna, sua obra grandiosa de colonização tropical. O meio e as circunstâncias exigiriam o escravo. A princípio o índio. Quando este, por incapaz e molengo, mostrou não corresponder às necessidades da agricultura colonial – o negro. Sentiu o português com o seu grande senso colonizador, que para completar-lhe o esforço de fundar agricultura nos trópicos – só o negro. O operário africano. Mas o operário africano disciplinado na sua energia intermitente pelos rigores da escravidão.
     Deixemo-nos de lirismo com relação ao índio. De opô-lo ao português como igual contra igual. Sua substituição pelo negro – mais uma vez acentuemos – não se deu pelos motivos de ordem moral que os indianófilos tanto se deliciam em alegar: sua altivez diante do colonizador luso em contraste com a passividade do negro. O índio, precisamente pela sua inferioridade de condições de cultura – a nômade, apenas tocada pelas primeiras e vagas tendências para a estabilização agrícola – é que falhou no trabalho sedentário. O africano executou-o com decidida vantagem sobre o índio principalmente por vir de condições de cultura superiores. Cultura já francamente agrícola. Não foi questão de altivez nem de passividade moral. (...)
     Aliás, os negros, no Brasil, não foram assim tão passivos. Ao contrário: mais eficientes – por mais adiantados em cultura – na sua resistência à exploração dos senhores brancos que os índios. “Os negros lutaram”, escreve Astrojildo Pereira a propósito da tese de Oliveira Viana de não ter havido luta de classes no Brasil. Para A. Pereira houve entre nós “autêntica luta de classes que encheu séculos de nossa história e teve o seu episódio culminante de heroísmo e grandeza na organização da República dos Palmares, tendo à sua frente a figura épica de Zumbi, o nosso Spartacus negro”.”


     “Todo brasileiro, mesmo o alvo de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo – há muita gente de jenipapo ou mancha mongólica pelo Brasil – a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena ou do negro. No litoral, do Maranhão ao Rio Grande do Sul, e em Minas Gerais, principalmente do negro. A influência direta, ou vaga e remota, do africano.
     Na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno, em tudo que é expressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influência negra. Da escrava ou sinhama que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer, ela própria amolengando na mão o bolão de comida. Da negra velha que nos contou as primeiras histórias de bicho e de mal-assombrado. Da mulata que nos tirou o primeiro bicho-de-pé de uma coceira tão boa. Da que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama-de-vento, a primeira sensação completa de homem. Do moleque que foi o nosso primeiro companheiro de brinquedo.”


     “Mas logo de início uma discriminação se impõe: entre a influência pura do negro (que nos é quase impossível isolar) e a do negro na condição de escravo. “Em primeiro lugar o mau elemento da população não foi a raça negra, mas essa raça reduzida ao cativeiro”, escreveu Joaquim Nabuco em 1881. Admiráveis palavras para terem sido escritas na mesma época em que Oliveira Martins sentenciava em páginas gravíssimas: “Há decerto, e abundam os documentos que nos mostram no negro um tipo antropologicamente inferior, não raro próximo do antropoide, e bem pouco digno do nome de homem”. (...)
     Se há hábito que faça o monge é o do escravo; e o africano foi muitas vezes obrigado a despir sua camisola de malê para vir de tanga, nos negreiros imundos, da África para o Brasil. Para de tanga ou calça de estopa tornar-se carregador de tigre. A escravidão desenraizou o negro do seu meio social e de família, soltando-o entre gente estranha e muitas vezes hostil. Dentro de tal ambiente, no contato de forças tão dissolventes, seria absurdo esperar do escravo outro comportamento senão o imoral, de que tanto o acusam.
     Passa por ser defeito da raça africana, comunicado ao brasileiro, o erotismo, a luxúria, a depravação sexual. Mas o que se tem apurado entre os povos negros da África, como entre os primitivos em geral é maior moderação do apetite sexual que entre os europeus. É uma sexualidade, a dos negros africanos, que para excitar-se necessita de estímulos picantes. Danças afrodisíacas. Culto fálico. Orgias. Enquanto no civilizado o apetite sexual de ordinário se excita sem grandes provocações. Sem esforço. A ideia vulgar de que a raça negra é chegada, mais do que as outras, a excessos sexuais, atribui-a Ernest Crawley ao fato do temperamento expansivo dos negros e do caráter orgiástico de suas festas criarem a ilusão de desbragado erotismo. Fato que “indica justamente o contrário”, demonstrando a necessidade, entre eles, de “excitação artificial”. (...)
     É absurdo responsabilizar-se o negro pelo que não foi obra sua nem do índio, mas do sistema social e econômico em que funcionaram passiva e mecanicamente. Não há escravidão sem depravação sexual. É da essência mesma do regime. Em primeiro lugar, o próprio interesse econômico favorece a depravação criando nos proprietários de homens imoderado desejo de possuir o maior número possível de crias. Joaquim Nabuco colheu em um manifesto escravocrata de fazendeiros as seguintes palavras, tão ricas de significação: “a parte mais produtiva da propriedade escrava é o ventre gerador”.
     Fora assim em Portugal, de onde a instituição se comunicou ao Brasil, já opulenta de vícios. “Os escravos mouros, e negros, além de outros trazidos de diversas regiões, aos quais se ministrava o batismo, não recebiam depois a mínima educação religiosa”, informa Alexandre Herculano. Entre esses escravos os senhores favoreciam a dissolução para “aumentarem o número de crias como quem promove o acréscimo de um rebanho.” Dentro de semelhante atmosfera moral, criada pelo interesse econômico dos senhores, como esperar que a escravidão – fosse o escravo mouro, negro, índio ou malaio – atuasse senão no sentido da dissolução, da libidinagem, da luxúria? O que se queria era que os ventres das mulheres gerassem. Que as negras produzissem moleques. (...)
     Essa animalidade nos negros, essa falta de freio aos instintos, essa desbragada prostituição dentro de casa, animavam-na os senhores brancos. No interesse da procriação à grande, uns; para satisfazerem caprichos sensuais, outros. Não era o negro, portanto, o libertino: mas o escravo a serviço do interesse econômico e da ociosidade voluptuosa dos senhores. Não era a “raça inferior” a fonte de corrupção, mas o abuso de uma raça por outra. Abuso que implicava conformar-se a servil com os apetites da todo-poderosa. E esses apetites estimulados pelo ócio – pela “riqueza adquirida sem trabalho”, diz o referido Dr. Bernardino; pela “ociosidade” ou pela “preguiça”, diria Vilhena; por conseguinte, pela própria estrutura econômica do regime escravocrata. (...)
     Nada nos autoriza a concluir ter sido o negro quem trouxe para o Brasil a pegajenta luxúria em que nos sentimos todos prender, mal atingida a adolescência. A precoce voluptuosidade, a fome de mulher que aos treze ou quatorze anos faz de todo brasileiro um don-juan não vem do contágio ou do sangue da “raça inferior” mas do sistema econômico e social da nossa formação; e um pouco, talvez, do clima; do ar mole, grosso, morno, que cedo nos parece predispor aos chamegos do amor e ao mesmo tempo nos afastar de todo esforço persistente. Impossível negar-se a ação do clima sobre a moral sexual das sociedades. Sem ser preponderante, dá entretanto para acentuar ou enfraquecer tendências; endurecer ou amolecer traços sociais. Tudo isso com repercussão sobre o seu comportamento social; sobre sua eficiência econômica; sobre sua moral sexual. Pode-se concluir, com Kelsey, que certos climas estimulam o homem a maiores esforços e consequentemente a maior produtividade; outros, o enlanguescem. Para admiti-lo não necessitamos de ir aos exageros de Huntington e dos outros fanáticos da “influência do clima”.
     O negro no Brasil, nas suas relações com a cultura e com o tipo de sociedade que aqui se vem desenvolvendo, deve ser considerado principalmente sob o critério da história social e econômica. Da antropologia cultural. Daí ser impossível – insistamos neste ponto – separá-lo da condição degradante de escravos, dentro da qual abafaram-se nele muitas das suas melhores tendências criadoras e normais para acentuarem-se outras, artificiais e até mórbidas. Tornou-se, assim, o africano um decidido agente patogênico no seio da sociedade brasileira. Por “inferioridade de raça”, gritam então os sociólogos arianistas. Mas contra seus gritos se levantam as evidências históricas – as circunstâncias de cultura e principalmente econômicas – dentro das quais se deu o contato do negro com o branco no Brasil. O negro foi patogênico, mas a serviço do branco; como parte irresponsável de um sistema articulado por outros.
     Nas condições econômicas e sociais favoráveis ao masoquismo e ao sadismo criadas pela colonização portuguesa – colonização, a princípio, de homens quase sem mulher – e no sistema escravocrata de organização agrária do Brasil; na divisão da sociedade em senhores todo-poderosos e em escravos passivos é que se devem procurar as causas principais do abuso de negros por brancos, através de formas sadistas de amor que tanto se acentuaram entre nós; e em geral atribuídas à luxúria africana.”


     “A sífilis fez sempre o que quis no Brasil patriarcal. Matou, cegou, deformou à vontade. Fez abortar mulheres. Levou anjinhos para o céu. Uma serpente criada dentro de casa sem ninguém fazer caso de seu veneno. O sangue envenenado rebentava em feridas. Coçavam-se então as perebas ou “cabidelas”, tomavam-se garrafadas, chupava-se caju. A sifilização do Brasil – admitida sua origem extra-americana – data dos princípios do século XVI. Mas no ambiente voluptuoso das casas-grandes, cheias de crias, negrinhas, molecas, mucamas, é que as doenças venéreas se propagaram mais à vontade, através da prostituição doméstica – sempre menos higiênica que a dos bordéis.
     Em princípios do século XVIII já o Brasil é assinalado em livros estrangeiros como terra da sífilis por excelência. Segundo John Barrow, viajante inglês que no século XVIII andou pelo Brasil, pela ilha de Java e pela Cochinchina, até nos mosteiros o mal-gálico causava devastações.


     “A linguagem infantil também aqui se amoleceu ao contato da criança com a ama negra. Algumas palavras, ainda hoje duras ou acres quando pronunciadas pelos portugueses, se amaciaram no Brasil por influência da boca africana. Da boca africana aliada ao clima – outro corruptor das línguas europeias, na fervura por que passaram na América tropical e subtropical.
     O processo de reduplicação da sílaba tônica, tão das línguas selvagens e da linguagem das crianças, atuou sobre várias palavras dando ao nosso vocabulário infantil um especial encanto. O “dó”" dos grandes tornou-se o “dodói” dos meninos. Palavra muito mais dengosa.
     A ama negra fez muitas vezes com as palavras o mesmo que com a comida: machucou-as, tirou-lhes as espinhas, os ossos, as durezas, só deixando para a boca do menino branco as sílabas moles. Daí esse português de menino que no norte do Brasil, principalmente, é uma das falas mais doces deste mundo. Sem rr nem ss; as sílabas finais moles; palavras que só faltam desmanchar-se na boca da gente. A linguagem infantil brasileira, e mesmo a portuguesa, tem um sabor quase africano: cacá, pipi, bumbum, tentem, neném, tatá, papá, papato, lili, mimi, au-au, bambanho, cocô, dindinho, bimbinha. Amolecimento que se deu em grande parte pela ação da ama negra junto à criança; do escravo preto junto ao filho do senhor branco. Os nomes próprios foram dos que mais se amaciaram, perdendo a solenidade, dissolvendo-se deliciosamente na boca dos escravos. As Antônias ficaram Dondons, Toninhas, Totonhas; as Teresas, Tetés; os Manuéis, Nezinhos, Mandus, Manés; os Franciscos, Chico, Chiquinho, Chico; os Pedros, Pepés; os Albertos, Bebetos, Betinhos. (...)
     Mesmo a língua falada conservou-se por algum tempo dividida em duas: uma, das casas-grandes; outra, das senzalas. Mas a aliança da ama negra com o menino branco, da mucama com a sinhá-moça, do sinhozinho com o moleque acabou com essa dualidade. Não foi possível separar a cacos de vidro de preconceitos puristas forças que tão frequente e intimamente confraternizavam. No ambiente relasso da escravidão brasileira, as línguas africanas, sem motivos para subsistirem à parte, em oposição à dos brancos, dissolveram-se nela, enriquecendo-a de expressivos modos de dizer; de toda uma série de palavras deliciosas de pitoresco; agrestes e novas no seu sabor; muitas vezes, substituindo com vantagem vocábulos portugueses, como que gastos e puídos pelo uso. João Ribeiro, mestre em assuntos de português e de história da língua nacional, que o diga com voz autorizada: “Número copioso de vocábulos africanos penetraram na língua portuguesa, especialmente no domínio do Brasil, por efeito das relações estabelecidas com as raças negras”. E não apenas vocábulos soltos, desconjuntados, se acrescentaram à língua do colonizador europeu: verificaram-se alterações “bastante profundas não só no que diz respeito ao vocabulário, mas até ao sistema gramatical do idioma”. É certo que as diferenças a separarem cada vez mais o português do Brasil do de Portugal não resultaram todas da influência africana; também da indígena; “dos ciganos”; “dos espanhóis”; e João Ribeiro acrescenta: “do clima, de novas necessidades, novas perspectivas, novas cousas e novas indústrias”. Mas nenhuma influência foi maior que a do negro. As palavras africanas hoje do nosso uso diário, palavras em que não sentimos o menor sabor arrevesado do exótico, são inúmeras. Os menos puristas, escrevendo ou falando em público, já não têm, como outrora, vergonha de empregá-las. É como se nos tivessem vindo de Portugal, dentro dos dicionários e dos clássicos; com genealogia latina, árabe ou grega; com pai ou mãe ilustre. São entretanto vocábulos órfãos, sem pai nem mãe definida, que adotamos de dialetos negros sem história nem literatura; que deixamos que subissem, com os moleques e as negras, das senzalas às casas-grandes. Que brasileiro – pelo menos do Norte – sente exotismo nenhum em palavras como caçamba, canga, dengo, cafuné, lubambo, mulambo, caçula, quitute, mandinga, moleque, camundongo, munganga, cafajeste, quibebe, quengo, batuque, banzo, mucambo, banguê, bozô, mocotó, bunda, zumbi, vatapá, caruru, banze, jiló, mucama, quindim, catinga, mugunzá, malungo, birimbau, tanga, cachimbo, candomblé? Ou acha mais jeito em dizer “mau cheiro” do que “catinga”? Ou “garoto” de preferência a “moleque”? Ou “trapo” em vez de “molambo”? São palavras que correspondem melhor que as portuguesas à nossa experiência, ao nosso paladar, aos nossos sentidos, às nossas emoções. (...)
     A força, ou antes, a potencialidade da cultura brasileira parece-nos residir toda na riqueza dos antagonismos equilibrados; o caso dos pronomes que sirva de exemplo. Seguirmos só o chamado “uso português”, considerando ilegítimo o “uso brasileiro”, seria absurdo. Seria sufocarmos, ou pelo menos abafarmos metade de nossa vida emotiva e das nossas necessidades sentimentais, e até de inteligência, que só encontram expressão justa no “me dê” e no “me diga”. Seria ficarmos com um lado morto; exprimindo só metade de nós mesmos. Não que no brasileiro subsistam, como no anglo-americano, duas metades inimigas: a branca e a preta; o ex-senhor e o ex-escravo. De modo nenhum. Somos duas metades confraternizantes que se vêm mutuamente enriquecendo de valores e experiências diversas; quando nos completarmos em um todo, não será com o sacrifício de um elemento ao outro. Lars Ringbom vê grandes possibilidades de desenvolvimento de cultura no mestiço: mas atingido o ponto em que uma metade de sua personalidade não procure suprimir a outra. O Brasil pode-se dizer que já atingiu esse ponto: o fato de já dizermos “me diga”, e não apenas “diga-me”, é dos mais significativos. Como é o de empregarmos palavras africanas com a naturalidade com que empregamos as portuguesas. Sem aspas nem grifo.
     A figura boa da ama negra que, nos tempos patriarcais, criava o menino lhe dando de mamar, que lhe embalava a rede ou o berço, que lhe ensinava as primeiras palavras de português errado, o primeiro “padre-nosso”, a primeira “ave-maria” a”, o primeiro “vôte!” ou “oxente”, que lhe dava na boca o primeiro pirão com carne e molho de ferrugem”, ela própria amolegando a comida – outros vultos de negros se sucediam na vida do brasileiro de outrora. O vulto do moleque companheiro de brinquedo. O do negro velho, contador de histórias. O da mucama. O da cozinheira. Toda uma série de contatos diversos importando em novas relações com o meio, com a vida, com o mundo. Importando em experiências que se realizavam através do escravo ou à sua sombra de guia, de cúmplice, de curandeiro ou de corruptor.”


     ““Logo que a criança deixa o berço”, escreve Koster, que soube observar com tanta argúcia a vida de família nas casas-grandes coloniais, “dão-lhe um escravo do seu sexo e de sua idade, pouco mais ou menos, por camarada, ou antes, para seus brinquedos. Crescem juntos e o escravo torna-se um objeto sobre o qual o menino exerce os seus caprichos; empregam-no em tudo e além disso incorre sempre em censura e em punição [...]. Enfim, a ridícula ternura dos pais anima o insuportável despotismo dos filhos. “Não havia casa onde não existisse um ou mais moleques, um ou mais curumins, vítimas consagradas aos caprichos de nhonhô”, escreve José Veríssimo, recordando os tempos da escravidão. “Eram-lhe o cavalo, o leva-pancadas, os amigos, os companheiros, os criados.” Lembra-nos Júlio Belo o melhor brinquedo dos meninos de engenho de outrora: montar a cavalo em carneiros; mas na falta de carneiros, moleques. Nas brincadeiras, muitas vezes brutas, dos filhos dos senhores de engenho, os moleques serviam para tudo: eram bois de carro, eram cavalos de montaria, eram bestas de almanjarras, eram burros de liteiras e de cargas as mais pesadas. Mas principalmente cavalos de carro. Ainda hoje, nas zonas rurais menos invadidas pelo automóvel, onde velhos cabriolés de engenho rodam pelo massapé mole, entre os canaviais, os meninos brancos brincam de carro de cavalo “com moleques e até molequinhas filhas das amas”, servindo de parelhas. Um barbante serve de rédea; um galho de goiabeira, de chicote.
     É de supor a repercussão psíquica sobre os adultos de semelhante tipo de relações infantis – favorável ao desenvolvimento de tendências sadistas e masoquistas. Sobre a criança do sexo feminino, principalmente, se aguçava o sadismo, pela maior fixidez e monotonia nas relações da senhora com a escrava, sendo até para admirar, escrevia-o mesmo Koster em princípios do século XIX, “encontrarem-se tantas senhoras excelentes, quando tão pouco seria de surpreender que o caráter de muitas se ressentisse da desgraçada direção que lhes dão na infância.” Sem contatos com o mundo que modificassem nelas, como nos rapazes, o senso pervertido de relações humanas; sem outra perspectiva que a da senzala vista da varanda da casa-grande, conservavam muitas vezes as senhoras o mesmo domínio malvado sobre as mucamas que na infância sobre as negrinhas suas companheiras de brinquedo. “Nascem, criam-se e continuam a viver rodeadas de escravos, sem experimentarem a mais ligeira contrariedade, concebendo exaltada opinião de sua superioridade sobre as outras criaturas humanas, e nunca imaginando que possam estar em erro”, escreveu Koster das senhoras brasileiras. Além disso, aborrecendo-se facilmente. Falando alto. Gritando de vez em quando. Fletcher e Kidder, que estiveram no Brasil no meado do século XIX, atribuem a fala estridente e desagradável das brasileiras ao hábito de falarem sempre aos gritos, dando ordens às escravas. O mesmo teriam observado no sul dos Estados Unidos, que sofreu influências sociais e econômicas tão semelhantes às que atuaram sobre o Brasil durante o regime de trabalho escravo. Ainda hoje, por contágio das gerações escravocratas, as moças das Carolinas, do Mississipi, de Alabama falam gritando do mesmo modo que no Brasil as nortistas, filhas e netas de senhor de engenho.
     Quanto à maior crueldade das senhoras que dos senhores no tratamento dos escravos é fato geralmente observado nas sociedades escravocratas. Confirmam-no os nossos cronistas. Os viajantes, o folclore, a tradição oral. Não são dois nem três, porém muitos os casos de crueldade de senhoras de engenho contra escravos inermes. Sinhá-moças que mandavam arrancar os olhos de mucamas bonitas e trazê-los à presença do marido, à hora da sobremesa, dentro da compoteira de doce e boiando em sangue ainda fresco. Baronesas já de idade que por ciúme ou despeito mandavam vender mulatinhas de quinze anos à velhos libertinos. Outras que espatifavam a salto de botina dentaduras de escravas; ou mandavam-lhes cortar os peitos, arrancar as unhas, queimar a cara ou as orelhas. Toda uma série de judiadas.
     O motivo, quase sempre, o ciúme do marido. O rancor sexual. A rivalidade de mulher com mulher. (...)
     O isolamento árabe em que viviam as antigas sinhás-donas, principalmente nas casas-grandes de engenho, tendo por companhia quase exclusivamente escravas passivas; sua submissão muçulmana diante dos maridos, a quem se dirigiam sempre com medo, tratando-os de “Senhor”, talvez constituíssem estímulos poderosos ao sadismo das sinhás, descarregado sobre as mucamas e as molecas em rompantes histéricos; “passado adiante”, como em certos jogos ou brinquedos brutos. Sadistas eram, em primeiro lugar, os senhores com relação às esposas.”


     “Em contraste com certas franquezas e até exibicionismos que caracterizam a vida sexual do brasileiro antigo, houve exageros verdadeiramente mórbidos de discrição ou pudor. Cônjuges, por exemplo, que nunca se viram despidos na intimidade das alcovas, processando-se entre eles o ato sexual vedado por uma colcha com orifício no meio: evitava-se assim não só o contato direto do corpo com corpo como a revelação da nudez. Uma dessas colchas é conservada por pessoa nossa amiga, entre outras relíquias da ordem patriarcal brasileira.”


     “No Brasil, país de formação social profundamente católica, sempre se fez mais questão do que nas Antilhas e no sul dos Estados Unidos da condição religiosa do escravo: “Os africanos importados de Angola”, informa Koster, “são batizados em massa antes de saírem de sua terra, e chegando ao Brasil ensinam-lhes os dogmas religiosos e os deveres do culto que vão seguir. Trazem no peito o sinal da Coroa Real a fim de indicar que foram batizados e por eles pagos os direitos. Os escravos que se importam das outras regiões da África chegam ao Brasil sem ter sido batizados e antes de proceder-se a cerimônia que os deve fazer cristãos é necessário ensinar-lhes certas orações, para o que concede-se aos mestres o prazo de um ano no fim do qual são obrigados a apresentar os discípulos à igreja paroquial.” Essa lei não acreditava Koster que fosse rigorosamente cumprida com relação ao tempo: era-o porém em essência, não havendo senhor brasileiro capaz de trair os preceitos da Igreja contra o paganismo. “Do seu lado o escravo deseja a qualidade de cristão porque os camaradas tendo com ele a menor questão temiam sempre o excesso dos injuriosos epítetos que lhe dirigem, com o de pagão.” Pagão ou mouro. Acrescenta Koster. “O negro sem batismo, vê-se com pesar considerado um ser inferior e embora ignorando o valor que os brancos ligam àquela cerimônia, sabe que deve lavar a mancha que lhe exprobram e mostra-se impaciente por tornar-se igual aos outros. Os africanos, chegados há muito tempo, estando já imbuídos de sentimentos católicos, parecem esquecer que outrora estiveram nas mesmas condições que os recém-chegados. Não se pergunta aos escravos se querem ou não ser batizados; a entrada deles no grêmio da Igreja Católica é considerada como questão de direito. Realmente eles são tidos menos por homens do que por animais ferozes até gozarem do privilégio de ir à missa e receber os sacramentos.”
     Não pretendemos aqui considerar o grau de cristianização atingido pela massa escrava –mas o certo é que, por contágio e pressão social, rapidamente se impregnou o escravo negro, no Brasil, da religião dominante. Aproximou-se por intermédio dela da cultura do senhor; dos seus padrões de imoralidade. Alguns se tornaram tão bons cristãos quanto os senhores; capazes de transmitir às crianças brancas um catolicismo tão puro quanto o que estas receberiam das próprias mães.
     Sílvio Romero, recordando o seu tempo de menino em um engenho do Norte, disse uma vez que nunca viu rezar tanto quanto a escrava Antônia, sua mãe negra. Ela é que o fizera religioso. “Devo isso [a religião] à mucama de estimação a que foram, em casa de meus avós, encarregados os desvelos de minha meninice. Ainda hoje existe, nonagenária, no Lagarto, ao lado de minha mãe, essa adorada Antônia, a quem me acostumei a chamar também de mãe... Nunca vi criatura tão meiga, e nunca vi rezar tanto. Dormia comigo no mesmo quarto e, quando, por alta noite, eu acordava, lá estava ela de joelhos... rezando... Bem cedo aprendi as orações e habituei-me tão intensamente a considerar a religião como coisa séria, que ainda agora a tenho na conta de uma criação fundamental e indestrutível da humanidade. Desgraçadamente, ai de mim! não rezo mais, mas sinto que a religiosidade jaz dentro do meu sentir inteiriça e irredutível.” Outros brasileiros, da geração de Sílvio, poderiam dizer o mesmo. O próprio Joaquim Nabuco terá porventura aprendido com a sua velha ama negra de Massangana o padre-nosso que, no fim da vida, voltou a rezar na igreja do Oratório em Londres. Quando morreu-lhe a madrinha – “cena de naufrágio” que evoca em uma das páginas mais comovidas de Minha formação – foi o seu grande consolo: a velha ama negra continuar a servi-lo como dantes. “O menino esta mais satisfeito”, escrevia a seu pai o amigo que o devia levar à Corte, “depois que eu lhe disse que a sua ama o acompanharia.”
     Mas o ponto que pretendemos destacar não é o dessas fundas afeições, quase de mãe e filho, que no tempo da escravidão se formaram entre escravas amas-de-leite e nhonhôs brancos; mas retificar a ideia de que através da ama-de-leite o menino da casa-grande só fizesse receber da senzala influências ruins; absorvendo com o primeiro alimento os germes de todas as doenças e superstições africanas. Os germes de doenças, recebeu-os muitas vezes; e outras os transmitiu; mas recebeu também nos afagos da mucama a revelação de uma bondade porventura maior que a dos brancos; de uma ternura como não a conhecem igual os europeus; o contágio de um misticismo quente, voluptuoso, de que se tem enriquecido a sensibilidade, a imaginação, a religiosidade dos brasileiros.
     Verificou-se entre nós uma profunda confraternização de valores e de sentimentos. Predominantemente coletivistas, os vindos das senzalas; puxando para o individualismo e para o privativismo, os das casas-grandes. Confraternização que dificilmente se teria realizado se outro tipo de cristianismo tivesse dominado a formação social do Brasil; um tipo mais clerical, mais ascético, mais ortodoxo; calvinista ou rigidamente católico; diverso da religião doce, doméstica, de relações quase de família entre os santos e os homens, que das capelas patriarcais das casas-grandes, das igrejas sempre em festas – batizados, casamentos, “festas de bandeiras” de santos, crismas, novenas – presidiu o desenvolvimento social brasileiro. Foi este cristianismo doméstico, lírico e festivo, de santos compadres, de santas comadres dos homens, de Nossas Senhoras madrinhas dos meninos, que criou nos negros as primeiras ligações espirituais, morais e estéticas com a família e com a cultura brasileira. “Os escravos tornados cristãos fazem mais progresso na civilização”, observou Koster. “Não se tem lançado mão de constrangimento para os fazer adotar os costumes dos senhores, mas insensivelmente lhes dirigem as ideias para este lado; os senhores ao mesmo tempo contraem alguns hábitos dos seus escravos e desta sorte o superior e o inferior se aproximam. Eu não duvido que o sistema de batizar negros importados tenha antes a sua origem na devoção dos portugueses do que em vistas políticas, mas tem produzido os melhores resultados”.”


     “De Portugal transmitira-se ao Brasil o costume das mães ricas não amamentarem os filhos, confiando-os ao peito de saloias ou escravas. Júlio Dantas, nos seus estudos sobre o século XVIII em Portugal, registra o fato: “o precioso leite materno era quase sempre substituído pelo leite mercenário das amas”. O que atribui à moda. Com relação ao Brasil, seria absurdo atribuir-se à moda a aparente falta de ternura materna da parte das grandes senhoras. O que houve, entre nós, foi impossibilidade física das mães de atenderem a esse primeiro dever de maternidade. Já vimos que se casavam todas antes do tempo; algumas fisicamente incapazes de ser mães em toda a plenitude. Casadas, sucediam-se nelas os partos. Um filho atrás do outro. Um doloroso e contínuo esforço de multiplicação. Filhos muitas vezes nascidos mortos – anjos que iam logo se enterrar em caixõezinhos azuis. Outros que se salvavam da morte por milagre. Mas todos deixando as mães uns mulambos de gente.
     Nossos avós e bisavós patriarcais, quase sempre grandes procriadores, às vezes terríveis sátiros de patuá de Nossa Senhora sobre o peito cabeludo, machos insaciáveis colhendo do casamento com meninas todo um estranho sabor sensual, raramente tiveram a felicidade de se fazerem acompanhar da mesma esposa até a velhice. Eram elas que, apesar de mais moças, iam morrendo; e eles casando com irmãs mais novas ou primas da primeira mulher. Quase uns barba-azuis. São numerosos os casos de antigos senhores de engenho, capitães-mores, fazendeiros, barões e viscondes do tempo do Império, casados três, quatro vezes; e pais de numerosa prole. Fatos que são indicados quase como glórias nos seus testamentos e os vários matrimônios, nos túmulos e catacumbas dos velhos cemitérios e das capelas de engenho. Pois essa multiplicação de gente se fazia à custa do sacrifício das mulheres, verdadeiras mártires em que o esforço de gerar, consumindo primeiro a mocidade, logo consumia a vida.”


     “A verdade é que perder um filho pequeno nunca foi para a família patriarcal a mesma dor profunda que para uma família de hoje. Viria outro. O anjo ia para o céu. Para junto de Nosso Senhor, insaciável em cercar-se de anjos. Ou então era mau-olhado. Coisa-feita. Bruxedo. Feitiço. Contra o que só as figas, os dentes de jacaré, as rezas, os tesconjuros.
     O Dr. Teixeira registra, na sua memória, ter frequentemente ouvido dos pais estas palavras: “é uma felicidade a morte das crianças”; e o fato é que se prolongaram pelo século XIX os enterros de anjos. Uns em caixões azuis ou encarnados, os cadáveres pintados a carmim como o do meninozinho que Ewbank viu morto no Rio de Janeiro; os mais pobres, em tabuleiros cheios de flores; alguns até em caixas de papelão, das grandes, de camisas de homem.”


     “Em outros vícios escorregava a meninice dos filhos do senhor de engenho; nos quais, um tanto por efeito do clima e muito em consequência das condições de vida criadas pelo sistema escravocrata, antecipou-se sempre a atividade sexual, através de práticas sadistas e bestiais. As primeiras vítimas eram os moleques e animais domésticos; mais tarde é que vinha o grande atoleiro de carne: a negra ou a mulata. Nele é que se perdeu, como em areia gulosa, muita adolescência insaciável.
     Daí fazer-se da negra ou mulata a responsável pela antecipação de vida erótica e pelo desbragamento sexual do rapaz brasileiro. Com a mesma lógica poderiam responsabilizar-se os animais domésticos; a bananeira; a melancia; a fruta do mandacaru com o seu visgo e a sua adstringência quase de carne. Que todos foram objetos em que se exerceu – e ainda se exerce – a precocidade sexual do menino brasileiro.”


     “Nos antigos colégios, se houve por um lado, em alguns casos, lassidão – fazendo-se vista grossa a excessos, turbulências e perversidades dos meninos – por outro lado abusou-se criminosamente da fraqueza infantil. Houve verdadeira volúpia em humilhar a criança; em dar bolo em menino. Reflexo da tendência geral para o sadismo criado no Brasil pela escravidão e pelo abuso do negro. O mestre era um senhor todo-poderoso. Do alto de sua cadeira, que depois da Independência tornou-se uma cadeira quase de rei, com a coroa imperial esculpida em relevo no espaldar, distribuía castigos com o ar terrível de um senhor de engenho castigando negros fujões. Ao vadio punha de braços abertos; ao que fosse surpreendido dando uma risada alta, humilhava com um chapéu de palhaço na cabeça para servir de mangação à escola inteira; a um terceiro, botava de joelhos sobre grãos de milho. Isto sem falarmos da palmatória e da vara – esta, muitas vezes com um espinho ou um alfinete na ponta, permitindo ao professor furar de longe a barriga da perna do aluno.
     O aluno que não soubesse a lição de português, que desse uma silabada em latim, que borrasse uma página do caderno – quase um missal – de caligrafia, arriscava-se a castigo tremendo da parte do padre-mestre, do mestre-régio, do diretor do colégio – de um desses terríveis Quibungos de sobrecasaca ou de batina. Da letra bonita fez-se sempre muita questão: o ensino da caligrafia teve alguma coisa de litúrgico nos antigos colégios do Brasil. Escrevia-se com pena de ganso. “O mestre gastava horas e horas em aperfeiçoar-lhes os bicos, tendo antes talhado o aparão com um canivete de molas”, diz-nos o padre Antunes de Sequeira. Preparados os bicos das penas de ganso, começava a tortura – o menino com a cabeça para o lado, a ponta da língua de fora, em uma atitude de quem se esforça para chegar à perfeição; o mestre, de lado, atento à primeira letra gótica que saísse troncha. Um errinho, qualquer – e eram bordoadas nos dedos, beliscões pelo corpo, puxavante de orelha, um horror. Os rapazes de letra bonita que o visconde de Cabo Frio sempre preferiu, para secretários de legações, aos de letra de médico, foram educados por esses mestres terríveis que fizeram do ensino da caligrafia um rito; alguma coisa de religioso e de sagrado. (...)
     Quem tiver a pachorra, em um dia de veneta, de passar a vista pelos compêndios, livros de leitura, aritméticas, por onde estudaram nossos avós coloniais e do tempo do Império, ficará com uma ideia de coisa terrivelmente melancólica que foi outrora aprender a ler. Imaginem-se esses horrorosos compêndios completados pelos mestres-régios, pelos professores de colégio do tempo do Império – todos eles fedendo a rapé, assoando-se de vez em quando em grandes lenços encarnados; todos de palmatória e de vara de marmelo na mão; no polegar ou no indicador da mão direita, uma unha enorme, de mandarim chinês.
     A outros tormentos esteve obrigada a criança branca – e até a preta ou mulata, quando criada pelas iaiás das casas-grandes. “A sociedade tem também sua grammatica”, escreveu em 1845 o autor de certo Código do bom-tom que alcançou grande voga entre os barões e viscondes do Império. Os quais, para tomarem ar de europeus, não só deram para forrar os tetos das casas-grandes – até então de telhava – como para adotar regras de bom-tom francesas e inglesas na criação dos filhos. E adotá-las com exageros e excessos.
     A vítima desse esnobismo dos barões foi o filho. Que judiasse com os moleques e as negrinhas, estava direito; mas na sociedade dos mais velhos o judiado era ele. Ele que nos dias de festa devia apresentar-se de roupa de homem, e duro, correto, sem machucar o terno preto em brinquedo de criança. Ele que em presença dos mais velhos devia conservar-se calado, um ar seráfico, tomando a bênção a toda pessoa de idade que entrasse em casa e lhe apresentasse a mão suja de rapé. Ele que ao pai devia chamar “senhor pai” e à mãe “senhora mãe”: a liberdade de chamar “papai” e “mamãe” era só na primeira infância. Esse duro costume modificou-se, porém, no século XIX. Como se modificou o de as mulheres só chamarem o marido de “senhor”; as mais afoitas foram chamando-o de “tu”, as outras de “você”, acabando-se com o rígido tratamento colonial de “senhor” da parte das esposas e dos filhos. Até então, esposas e filhos se achavam quase no mesmo nível dos escravos.
     É verdade que desde esses tempos remotos o “senhor” se adoçou em “sinhô”, em “nhonhô”, em “ioiô”; do mesmo modo que “negro” adquiriu na boca dos brancos um sentido de íntima e especial ternura: “meu nego”, “minha nega”; e nas cartas coloniais: “Saudoso primo e muito seu negro”, “negrinha humilde” etc.
     Só depois de casado arrisca-se o filho a fumar na presença do pai; e fazer a primeira barba era cerimônia para que o rapaz necessitava sempre de licença especial. Licença sempre difícil, e só obtida quando o buço e a penugem da barba não admitiam mais demora.
     À menina, a esta negou-se tudo que de leve parecesse independência. Até levantar a voz na presença dos mais velhos. Tinha-se horror e castigava-se a beliscão a menina respondona ou saliente; adoravam-se as acanhadas, de ar humilde. O ar humilde que as filhas de Maria ainda conservam nas procissões e nos exercícios devotos da Semana Santa, as meninas de outrora conservavam o ano inteiro. É verdade que as atrevidas namoravam nas festas de São Gonçalo; outras nos concertos de igreja. Mas isso nas cidades: no Rio, no Recife, na Bahia; e assim mesmo namoros a sinais de leque; quase sem conversa ou agarrado de mão.
     As meninas criadas em ambiente rigorosamente patriarcal, estas viveram sob a mais dura tirania dos pais – depois substituída pela tirania dos maridos. E se mucamas e moleques foram quase sempre aliados naturais dos filhos contra os “senhores pais”, das mulheres de quinze anos contra os “senhores maridos” de quarenta e cinquenta, de sessenta e setenta, houve casos de escravas enredeiras e fuxiquentas, umas delatoras, outras que por vingança inventavam histórias de namoro das sinhás-moças ou das sinhás-donas. De modo que estas deviam estar sempre prevenidas; e nunca se considerarem sozinhas, nem mesmo para inocentes namoros de leque, de lenço ou de recados trazidos pelas negras boceteiras. (...)
     Insurgindo-se contra o sadismo dos mestres-escolas e dos pais, Serpa condena severamente o uso de se açoitarem os meninos nas nádegas, “prática perniciosa”, própria para “fomentar costumes funestos: a irritação que se ocasionar sobre esta parte, communicar-se-ha ás partes da geração, logo que a impressão de dôr principiar a enfraquecer-se.” De modo que talvez fossem melhores os suplícios de que nos fala o padre Sequeira: o menino ajoelhado em caroço de milho durante duas, três, quatro horas; os bolos das várias palmatórias pedagógicas e domésticas – a pele de cação, a de jacarandá e a maior, para os valentões, de gramari. Em Minas dizem que certo padre do Caraça, padre Antunes, “amarrava o lenço no braço para ter mais força de puxar a palmatória”. A pedagogia como a disciplina patriarcal no Brasil apoiou-se sobre base distintamente sadista. Resultado, em grande parte, das condições do seu início: uma pedagogia e uma disciplina de vencedores sobre vencidos, de conquistadores sobre conquistados, de senhores sobre escravos. É um estudo a fazer-se, o das várias formas e instrumentos de suplícios a que esteve sujeito o menino no Brasil em casa e no colégio: as várias espécies de palmatórias, a vara de marmelo, às vezes com alfinete na ponta, o cipó, o galho de goibeira, o muxicão, o cachação, o puxavante de orelha, o beliscão simples, o beliscão de frade, o cascudo, o cocorote, a palmada. O menino foi vítima quase tanto quanto o escravo do sadismo patriarcal.”


     “É verdade que esses senhores de engenho, homens moles, de mãos de mulher, amigos exagerados da rede; voluptuosos do ócio; aristocratas com vergonha de ter pernas e pés para andar e pisar no chão como qualquer escravo ou plebeu – souberam ser duros e valentes em momentos de perigo. Souberam empunhar espadas e repelir estrangeiros afoitos; defender-se de bugres; expulsar da colônia capitães-generais de Sua Majestade. Foram os senhores de engenho pernambucanos que colonizaram a Paraíba e o Rio Grande do Norte, tendo de enfrentar índios dos mais brabos, e valentes; que livraram o Maranhão dos franceses; que expulsaram os holandeses do norte do Brasil.
     E não só os senhores: também as senhoras de engenho tiveram seus assomos de energia. Seus rompantes de estoicismo. “No mostraran por cierto menos valor en esta acción que nuestros soldados”, diz o marquês de Basto das senhoras pernambucanas que tomaram parte na retirada para Alagoas deixando os engenhos e as casas-grandes em ruínas.
     Mas excetuados esses rompantes guerreiros, a vida dos aristocratas do açúcar foi lânguida, morosa. Uma vez ou outra, as “canas” e as “argolinhas”; cavalhadas; danças. Mas raramente. Os dias se sucediam iguais; a mesma modorra; a mesma vida de rede, banzeira, sensual. E os homens e as mulheres, amarelos, de tanto viverem deitados dentro de casa e de tanto andarem de rede ou de palanquim. Nos Estados Unidos, onde a rede não chegou a dominar como aqui; onde a moleza dos senhores de escravos se contentou com o sofá e a cadeira de balanço, mais tarde adotada pelo patriarcalismo brasileiro, os homens criados sob a influência da escravidão africana impressionaram aos europeus pelas suas atitudes sempre comodistas; pelo seu andar desengoçado; pela nenhuma esbelteza do seu porte; pelo seu ar de indivíduos fracos do peito, os ombros curvos, as espáduas estreitas. Só a voz, grande e imperiosa. Francis Trollope dá-nos um retrato de americano dos tempos da escravidão que parece de brasileiro do Norte: “I never saw an American man walk or stand well [...]”. E raros os europeus que não se deixaram impressionar pela palidez doentia dos homens e das senhoras americanas de antes da Guerra Civil. O regime econômico de produção – o da escravidão e da monocultura – dominando a diversidade de clima, de raça, de moral religiosa, criou no sul dos Estados Unidos um tipo de aristocrata mórbido, franzino, quase igual ao do Brasil nas maneiras, nos vícios, nos gostos e no próprio físico. Os ingredientes diversos; mas a mesma forma. O clima quente pode ter contribuído para a maior lubricidade e a maior languidez do brasileiro; mas não as criou ou produziu.”


     “Atribuem alguns cronistas da escravidão grande importância à prostituição das negras; mas das negras e mulatas exploradas pelos brancos. La Barbinais afirma que até senhoras se aproveitavam de tão nefando comércio. Enfeitavam as molecas de correntes de ouro, pulseiras, anéis e rendas finas, participando depois dos proventos do dia. Os negros e as pretas chamados de ganho serviram para tudo no Brasil: vender azeite-de-carrapato, bolo, cuscuz, manga, banana, carregar fardos, transportar água do chafariz às casas dos pobres – trazendo de tarde os proventos para o senhor; e a acreditarmos em La Barbinais serviram até para isso... Mas, admitida uma exceção ou outra, não foram senhoras de família, mas brancas desclassificadas, que assim exploraram as escravas. As vezes negrinhas de dez, doze anos já estavam na rua se oferecendo a marinheiros enormes, grangazás ruivos que desembarcavam dos veleiros ingleses e franceses, com uma fome doida de mulher. E toda essa superexcitação dos gigantes louros, bestiais, descarregava-se sobre molequinhas; e além da superexcitação, a sífilis; as doenças do mundo – das quatro partes do mundo; as podridões internacionais do sangue.
     Em meados do século XIX, reinando sobre o Brasil Sua majestade o imperador D. Pedro II, um homem tão casto e puro – tipo do marido ideal para a rainha Vitória – em contraste com seu augusto pai que, muito brasileiramente, até negrinhas desvirginou e emprenhou – as ruas do Sabão – hoje, desaparecida, com a construção da avenida Presidente Vargas – e da Alfândega eram ainda piores do que o Mangue carioca: escravas de dez, doze, quinze anos mostrando-se às janelas, seminuas; escravas a quem seus senhores e suas senhoras (geralmente maitresses de maison) obrigavam – diz-nos um escrito da época – “a vender seus favores, tirando desse cínico comércio os meios de subsistência”. Nas ruas da Bahia, diz-nos Vilhena, referindo-se aos últimos anos de vida colonial, que era um horror: “Libidinozos, vadios e ociosos de hum e outro sexo que logo que anoitece entulhão as ruas, e por ellas vagão, e sem pejo nem respeito a ninguém, fazem gala de sua torpeza...” Refere-se ainda o professor de grego a “paes de famílias pobres” – os  nossos “brancos pobres” – que não deixando às filhas outra herança senão a da ociosidade e a dos preconceitos contra o trabalho manual, “depois de adultas se valem delias para poderem subsistir...” Mas o grosso da prostituição, formaram-no as negras, exploradas pelos brancos. Foram os corpos das negras – às vezes meninas de dez anos – que constituíram, na arquitetura moral do patriarcalismo brasileiro, o bloco formidável que defendeu dos ataques e afoitezas dos don-juans a virtude das senhoras brancas.
     Burton lembra a relação entre Agapemone e a pureza dos lares; tanto mais opulento Agapemone, mais livres os lares do don-juanismo. A teoria de Bernard de Mandeville. Aplicada ao Brasil patriarcal, dá realmente nisto: a virtude da senhora branca apoia-se em grande parte na prostituição da escrava negra. A mãe de família, a moça solteira, a mulher, não só em Minas, como no Brasil em geral, pareceu a Burton “excepcionalmente pura” (“exceptionally purê”). Que não se julgasse a mulher brasileira pelos costumes da Corte e das cidades, e sim pelos do interior. Nas províncias viviam as senhoras em um sistema de semi-reclusão oriental, é certo; mas dentro desse sistema, eram mulheres de uma pureza rara. Pureza que o viajante inglês não hesitou em contrastar com as “flirtations” das moças inglesas antes do casamento, com a relativa liberdade das canadenses e das norte-americanas antes e depois de casadas. Mas somos forçados a concluir, antes de nos regozijarmos com os elogios de Burton à pureza das senhoras brasileiras do tempo da escravidão, que muita dessa castidade e dessa pureza manteve-se à custa da prostituição da escrava negra; à custa da tão caluniada mulata; à custa da promiscuidade e da lassidão estimulada nas senzalas pelos próprios senhores brancos.”


     “Ao escravo negro se obrigou aos trabalhos mais imundos na higiene doméstica e pública dos tempos coloniais. Um deles, o de carregar à cabeça, das casas para as praias, os barris de excremento vulgarmente conhecidos por tigres. Barris que nas casas-grandes das cidades ficavam longos dias dentro de casa, debaixo da escada ou em outro recanto acumulando matéria. Quando o negro os levava é que já não comportavam mais nada. Iam estourando de cheios. De cheios e de podres. Às vezes largavam o fundo, emporcalhando-se então o carregador da cabeça aos pés. Foram funções, essas e várias outras, quase tão vis, desempenhadas pelo escravo africano com uma passividade animal.”


     “Foi o negro quem animou a vida doméstica do brasileiro de sua maior alegria. O português, já de si melancólico, deu no Brasil para sorumbático, tristonho; e do caboclo nem se fala: calado, desconfiado, quase um doente na sua tristeza. Seu contato só fez acentuar a melancolia portuguesa. A risada do negro é que quebrou toda essa “apagada e vil tristeza” em que se foi abafando a vida nas casas-grandes. Ele que deu alegria aos são-joões de engenho; que animou os bumbas-meu-boi, os cavalos-marinhos, os carnavais, as festas de Reis. Que à sombra da Igreja inundou das reminiscências alegres de seus cultos totêmicos e fálicos as festas populares do Brasil; na véspera de Reis e depois, pelo carnaval, coroando os seus reis e as suas rainhas; fazendo sair debaixo de umbelas e de estandartes místicos, entre luzes quase de procissão seus ranchos protegidos por animais – águias, pavões, elefantes, peixes, cachorros, carneiros, avestruzes, canários – cada rancho com o seu bicho feito de folha-de-flandres conduzido à cabeça, triunfalmente; os negros cantando e dançando, exuberantes, expansivos. (...)
     Mas não foi toda de alegria a vida dos negros, escravos dos ioiôs e das iaiás brancas. Houve os que se suicidaram comendo terra, enforcando-se, envenenando-se com ervas e potagens dos mandingueiros. O banzo deu cabo de muitos. O banzo – a saudade da África. Houve os que de tão banzeiros ficaram lesos, idiotas. Não morreram: mas ficaram penando. E sem achar gosto na vida normal – entregando-se a excessos, abusando da aguardente, da maconha, masturbando-se. Doenças africanas seguiram-nos até o Brasil, devastando-os nas senzalas. As boubas e talvez o pião, entre outras. E comunicando-se às vezes aos brancos das casas-grandes. A África também tomou vingança dos maus-tratos recebidos da Europa. Mas não foram poucas as doenças de brancos que os negros domésticos adquiriram; e as que se apoderaram deles em consequências da má higiene no transporte da África para a América ou das novas condições de habitação e de trabalho forçado. Trabalho forçado que nas cidades foi quase sempre “em desproporção com a nutrição”.”