segunda-feira, 30 de maio de 2016

A violoncelista – Michael Krüger

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-3590-241-9
Tradução: Sergio Tellaroli
Opinião★★☆☆☆
Páginas: 216

“Começara a suar, pois era-me embaraçoso importunar homem tão importante, e tão completamente exausto da longa viagem, com meus farrapos de uma língua que apenas de longe, e somente pela melodia, lembrava o italiano, mas o escritor pareceu-me tão absorto no planejamento das horas restantes até o recital que não teve tempo de dedicar atenção àquele meu embaraço. Curiosa criatura. Ao contrário dos colegas alemães e do próprio Günter – de quem eu obtivera todos os detalhes sobre a vida do italiano –, ele parecia não se preocupar muito com sua obra. Odiava aparições, odiava recitais, jamais comparecia a homenagens se demandavam dele algum discurso, e recusava premiações. Tinha mais de sessenta anos e morava ainda com a mãe numa casa atrás do panteão. Ela cerzia suas meias, punha suas cartas no correio e atendia o telefone, lamentando que o filho – de pé e trêmulo ao seu lado – não estivesse em casa. Dormiam em quartos separados, mas sempre de porta aberta. Eu o considerava um grande humorista, um Gogol italiano; ele se via como um grande autor trágico, o que, afinal, prolongando as duas linhas o bastante, dava no mesmo.”


“Muitas vidas são consumidas para que uma dê certo, disse-me ele: aqui na Hungria, cem para uma.”


“Enquanto pensava numa boa razão para partir pela quarta vez à procura do edifício, um cão se juntou a mim, jovem e sarnento; as orelhas, apartadas de um modo singular, pareciam ter sido parafusadas dos dois lados da cabeça; um cão que evidentemente desejava tomar parte de meu destino. É certo que ele mantinha um olho na cestinha contendo o jantar, por entre cujas malhas largas entrevia-se o papel pardo de embrulho que envolvia não apenas o peixe e os legumes, mas também a linguiça que eu comprara para o ulterior café da manhã; mas seu outro olho, ou assim acreditei, apreendera meu problema: sua escura amizade dirigia-se apenas a mim, o soturno ascético. Como estivéssemos defronte à casa de Lukács, chamei-o György, o que pareceu tê-lo agradado, pois ele se pôs de imediato a abanar amistoso as orelhas estropiadas. Enquanto eu o alimentava com pedacinhos de linguiças que, apoiados nas patas traseiras e feito um aluno aplicado, ele deglutia sem fazer nenhum movimento reconhecível de mastigação, György contou-me sua terrível história, que, a despeito de todo o exagero de que somente um cão vadio é capaz, me agradou de tal maneira que não me restou alternativa senão lançar-lhe ainda goela abaixo a última pontinha de linguiça. Você está exagerando, György, disse eu, depois de ele haver afirmado conhecer cada gato-pingado daquele nobre bairro. Todo cachorro húngaro exagera, na hora decisiva da linguiça, mas seus exageros são desmedidos.”


“E, quando eu tentava me concentrar para, depois de todos os desaforos daquela noite, encontrar o sono, ali estava ela, sentada na beirada da cama, como que trazida pelo vento.
Você já está dormindo?, perguntou.
Não, respondi, estou pensando.
E no que pensa um homem à meia-noite?
Em nada.
Você é budista, para conseguir não pensar em nada?
Não, rebati, sou um cristão apaixonado pelo cansaço, perguntando-se que pecados cometeu para que a filha de vinte e dois anos de uma amiga húngara o atormente desta maneira.
Eu apenas disse a verdade, respondeu ela. E Maria concorda comigo. Disse que eu tenho de ficar de olho em você, do contrário você se arruína sozinho. Você precisa compor.
E como é que eu posso compor, Judit, se, de manhã até a tarde, tenho de ficar cavando jardim, pintando janelas, construindo poço e me deixando insultar?
Em Munique, você já não compunha. Ficava o dia inteiro sentado entre os livros, fazendo nada – essa é a verdade.
A verdade não existe, disse eu: pelo menos é o que dizem os inúteis dos livros!
Se seus livros dizem um absurdo desses, melhor não lê-los. É claro que existe a verdade da arte!
Muito bem, respondi cansado, mas ela se esconde atrás de muitas máscaras, e ninguém sabe quais.
Então, é seu dever atraí-la para fora. Com sua música.”


         “Não era desagradável estar sozinho de novo. Desaparecem os afazeres que surgem quando duas ou mais pessoas vivem juntas, silenciam os chamados em voz alta, o ruído de passos, as eternas perguntas e admoestações. Eu trabalhava, alimentava os animais, saía para passear. Quando alguém é obrigado a providenciar seus próprios passatempos, ocorre-lhe coisas que não vêm à tona em meio a um grupo de pessoas. Muitos preferem buscar companhia, outros suportam bem a vida de cônjuge, e outros, ainda, encontram prazer em sentar-se ao lado das demais pessoas em jogos de futebol ou apresentações teatrais. Há aqueles que acham perfeitamente natural exercer seu domínio sobre os outros. E há aqueles que precisam ajudar os outros o tempo todo. Somente poucos, porém, são capazes de ficar sozinhos de fato. E, sendo eles tão poucos, são alvos de suspeita.”

terça-feira, 24 de maio de 2016

Tudo que você não soube – Fernanda Young

Editora: Ediouro
ISBN: 978-85-00-0220-3
Opinião★★★☆☆
Páginas: 136

“Mas um livro é um livro. Precisa ser entendido como um todo, mas apreciado por partes.”


“Pois bem, pai, esse é um exemplo do quanto esse empreendimento é complicado. Refiro-me a contar minha vida para você. Se o faço, é porque me é uma necessidade; não de expurgar ou de esclarecer algo em mim mesma; não, não é com o pensamento voltado à ilusão “cabeça” da autoanálise que me esmero nessas páginas; mas porque você está morrendo e não me conhece. E eu faço questão de que vá para o inferno sabendo como foi paga sua passagem. Foi com isso que me tornei, por sua culpa, uma pessoa que se sente insuportavelmente sozinha o tempo todo. Posso me cercar por multidões, pulando carnaval, que morro de solidão ali no meio. Não há companhia, ou emoção coletiva, ou comoção nacional, que me livre de estar só. Festas acontecem ao meu redor, sem que eu nunca me estabeleça como integrante. Pelo contrário, odeio quietinha todas elas, as festas, porque não suporto qualquer manifestação de felicidade. Odeio férias, odeio os feriados, odeio mesas grandes em pizzarias. Detesto Natal, tenho raiva do verão, fujo de aniversários. Tudo isso, paizinho, eu devo a você.”


“Com certeza eu não me permitiria o vexame de tentar provar nada para os meus filhos.”


“Odeio sonhar por causa disso: nós vemos como estamos internamente. Não dá para disfarçar diante de um sonho. Através das mudanças dos delírios sem nexo, revelamos uma radiografia das nossas partes internas, implacável, em que cada mancha, mesmo após mil lavagens, pode ser detectada, gritante, no lençol que encobre as nossas verdades.”


“A mais cruel das rejeições é a de mãe e pai.”


“Um imbecil letrado é algo dantesco. Mil vezes os imbecis ignorantes, mil vezes os analfabetos.”


“Todo segredo requer mentiras.”


“– Eu acho que perdão precisa ser pronunciado: perdão – disse a mulher.
– Não concordo, acho até meio ridículo esse negócio do perdão em voz alta. O gesto do perdão é maior do que um papo-cabeça. Um perdão num diálogo pode ser mais falso do que um perdão insinuado. Há, nessas conversas, uma grande dose de teatro. A dramaturgia do leito de morte, principalmente, de um pai distante, tende a ser cínica e mentirosa.
– Eu te conheço e sei que você não gosta de conversas dessa ordem, que nós chamamos de debater relação.
– Nada a ver.
– Tudo a ver. Você evita conversas intensas, sempre evitou. Não creio que faça isto por frieza, mas por total constrangimento. Somos casados há anos e todas as nossas crises foram resolvidas no silêncio. Silêncio que pode até ser menos vexaminoso, mas nos deixa sempre à beira de um abismo. Que existe, mas que a gente contorna. Até que um dia tropeçamos nesta elegância do não-debate e caímos lá embaixo. Então eu pergunto: para que nos terá servido a intimidade? Para nada. Porque não fomos capazes de nos expor.
– O teatro tem o seu valor.
– Tem, os diálogos têm a sua verdade, mesmo que os termos desta psicanálise de revista feminina nos tornem, todos, personagens ridículos.
O marido olhou para mim, como quem diz: “pirou”. Notei que seu rosto estava mais vermelho do que deveria estar. Pensei em pegar a minha bolsa e deixá-los ali, com suas misérias, indo resolver as minhas. Devo confessar que concordo com ela, mas sou como ele: acho um saco certas sentimentalidades. Nesses debates, estilo sincerão, o que mais me irrita é que todo mundo tem razão. Então, resolvi dizer isso:
– Eu acho que todo mundo tem razão. Este é o ponto que torna a discussão infundada. Não a de vocês, todas. Acho até que nunca participei de uma conversa tão sensata quanto esta, mesmo porque me identifico com ambas as partes. O que comprova que nada disso faz sentido. Se eu conversasse com meu marido, ou melhor, ex-marido, nós dois estaríamos certos. Ele, em ir, eu, em odiá-lo por ir. É isto que me desanima.
– E se nós dois tivéssemos conversado, todas as vezes que estivemos à beira de algum abismo, é bem provável que um de nós já tivesse empurrado o outro lá embaixo.
– Discordo. Eu não sou uma maluca que quer ficar debatendo cada sensação conflitante. Mas nós passamos por coisas sérias, que se tornaram maiores, porque não foram excretadas da nossa mente. Não é, papai?
– Eu não quero me meter nisso.
– Não vai se meter em nada. Estou falando em teoria.
– Em teoria, os homens têm vergonha desse troço de conversa. Entendo que às vezes elas são necessárias. Mas existem certas deficiências que o tempo traz para as relações, que palavras apenas pioram. Certos assuntos que sabemos, mas se não falarmos sobre, podemos fingir que ninguém percebeu.
– Mas qual é a vantagem de fingir que não há o problema?
– Quando ele é insolúvel, a vantagem é que você não terá que resolver algo que não tem como ser resolvido.
– Tipo o quê?
– Tipo o fim do amor. Para os mais jovens, o fim do amor pode ser resolvido com o término do casamento. Inclusive, acho isso uma grosseria... Isso que não entendo nesse assunto de abismo... Desculpa, filha, mas abismo é viver. Não estamos à beira dele, estamos nele. E todo mundo age como se fosse um herói por contornar crises, por meio do debate, ou não. Todo mundo vai fazer análise, justamente para não olhar para a pessoa ao lado e dizer: eu tenho vontade de vomitar quando escuto os teus passos. E isso não se diz numa conversa. Você não pode virar para a mãe de seus filhos e falar: “Olha, eu não te odeio, te desejo tudo de melhor, mas eu não te amo mais”, sem que isso venha cheio de acusações. Quando, no fundo, no fundo, amor não dura. E nem venham me falar que o que não dura é paixão. A ideia do amor está lá, faz parte de nossa cultura, essa tal transformação do amor. Podemos dizer: eu não te amo como te amei, mas esse amor se transformou, e eu amo ver televisão com você, eu amo saber que, se eu tiver um treco e ficar todo cagado, você me limpará. Isso é que é indiscutível. O amor não se transforma, ele se esgota, e a gente vai levando, por vários motivos. E, saibam, muitos desses motivos não são nada nobres.”


“O que leva uma mãe a foder com a vida da filha? Inveja, será? É uma possibilidade. Mas que tipo de mãe sentiria inveja da própria filha? Que monstro seria esse? Respondo: qualquer mãe. Todas elas. Todas as mães sentem um pouco de inveja das suas filhas. É horrível dizer isso? É. Mas é melhor do que ser cínica.
Tente imaginar, pai, o susto que é ser uma garota. Na rua, somos cantadas, em casa, somos reprimidas. Querem-nos belas, mas nos agridem se tentamos. Somos violentadas sob a capa do afeto. Parece discurso feminista, eu sei. Mas não há como evitar: ser menina é um problema. Mais um. Principalmente, para as meninas que nascem aqui no Brasil, uma país onde a mulher, além da obrigação de ser bonita, tem a obrigação de ser a dona da alegria. Aqui, mulher tem que fazer comida e fazer charme. Tem que ter coragem e bunda. Tem que saber sambar e saber o seu lugar. Uma barbárie. Aposto que você nunca tinha pensado sobre isso, tinha? Nenhum homem pensa. Eu penso. Sobre como nos querem festivas e subjugadas. Efusivas e caladas. Dadas e reservadas. O Brasil é macho, muito macho. É o pau-brasil, o bumba-meu-boi, o saci-pererê, o berimbau, o futebol e o caralho a quatro. E as meninas brasileiras são criadas para seguirem em frente sem perceber o quanto são ridicularizadas. Aqui é pior que na China, na Índia, países onde as mulheres são oficialmente inferiorizadas. Aqui, se disfarça. Somos enganadas, levadas a crer que ser menina é isso mesmo: tomar na bunda sorrindo. Metáfora forte demais? Não, nem é metáfora.
E eu não tenho inveja da minha filha? Tenho! E eu tenho a chance de fazer uma diferença positiva, dentro do destino ingrato que a aguarda, ao admitir meus sentimentos mesquinhos. Estou com quase 40 e ela é adolescente – é óbvio que eu sinto inveja. E assumo que isto afeta a minha relação com ela. Acho importante que minha filha saiba disso. Ela vai logo ficar sabendo que o tempo, para uma mulher, é uma merda. Os homens envelhecem e ficam mais maduros, as mulheres envelhecem e ficam desesperadas. Temos essa fraqueza, e uma mãe deve ensinar a filha a lidar com isso. Hoje, enquanto ela floresce, eu murcho. E ela tem a sorte de eu pertencer a uma geração mais esclarecida, então posso dar tudo aquilo que não recebi. Sei reconhecer e elogiar suas habilidades, pois não fui reconhecida nem elogiada. Tenho plena consciência de que é necessário cumprir aquilo que prometemos – coisa recente entre as famílias brasileiras. Aprendi com a vida e sei que se deve ensinar o que se aprende, não o que nos ensinam. Sei que pintar o cabelo acaba com o brilho e que devemos adiar esse recurso ao máximo. Sei que não é bom raspar as pernas muito cedo, porque depois você vira um arame farpado ambulante. Sei que começar a fumar é um vacilo, pois se trata do vício mais difícil de se largar. Sei que, enquanto somos jovens, temos mais facilidade para aprender línguas. Sei que não vale a pena contar com homem nenhum em momento nenhum. Mas que ela pode contar comigo, mesmo sabendo que eu tenho inveja dela. Como não cobiçar a vida de uma menina que terá tudo o que eu não tive? A inveja talvez seja, ao lado do amor que sinto, um dos poucos sentimentos não-destrutivos em mim. Já que não a alimento, mas a reconheço e a torno útil. Não aguento essa hipocrisia da negação sistemática da inveja. Por que as pessoas são assim? Por que não admitem que mentem, que fingem e às vezes morrem de raiva da felicidade alheia? Eu fujo de gente que afirma não se irritar com nada. São, sem dúvida nenhuma, os mais perigosos. Porque não pensam naquilo que sentem e, sem pensar, agem. São como crianças, acreditam que um pensamento errado já é algo criminoso, então abafam suas mentes numa vaga letargia disfarçada de cuca fresca. Dizem-se calmos. Na verdade, estão atrapalhando o mundo e a natureza com seus comportamentos antinaturais. Não existe o bem-estar completo, e isto definiu o ser humano. Gente que não se incomoda com nada é o atraso da humanidade. Assim como gente que diz não sentir ciúmes é o viés do amor. Prefiro arder. Prefiro sentir a ser. Sinto inveja, mas não sou invejosa. Sei que as sensações antecedem as ações, e é a ação que vale. Sendo essa consciência a única forma de nos frear antes do abuso. É o desejo de dar uma surra num filho que impede a surra. Sente-se vontade de estrangular um bebê que chora a noite toda, e imaginar essa hipótese é que nos faz ver que um filho é a coisa mais importante da vida. Eu morro de inveja, quando vejo minha filha sair linda, para encontrar os amigos; mas não infernizarei a vida dela, como a minha mãe fez comigo. Irei, isto sim, melhorar, entendendo o que sinto, porque eu não sou o que sinto.”