A conversão de São Paulo

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terça-feira, 27 de setembro de 2016

Confissões / De Magistro (Parte I) – Santo Agostinho

Editora: Nova Cultural
ISBN: 85-13-00848-6
Tradução: J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina (Confissões) e Ângelo Ricci (De Magistro)
Consultor da Introdução: José Américo Motta Pessanha
Opinião: Confissões**** / De Magistro*
Páginas: 416

Confissões

     “Na verdade, os que O buscam, encontrá-Lo-ão, e aqueles que O encontram hão de louvá-Lo.”


     E como invocarei o meu Deus — meu Deus e meu Senhor —, se, ao invocá-Lo, O invoco sem dúvida dentro de mim? E que lugar há em mim, para onde venha o meu Deus, para onde possa descer o Deus que “fez o céu e a terra”?¹ Pois será possível, Senhor meu Deus, que se oculte em mim alguma coisa que Vos possa conter? É verdade que o céu e a terra que criastes e no meio dos quais me criastes Vos encerram?
     Será, talvez, pelo fato de nada do que existe poder existir sem Vós, que todas as coisas Vos contêm? E assim, se existo, que motivo pode haver para Vos pedir que venhais a mim, já que não existiria se em mim não habitásseis? Não estou no inferno, e, contudo, também Vós lá estais, pois “se descer ao inferno, aí estais presente”².
     Por conseguinte, não existiria, meu Deus, de modo nenhum existiria, se não estivésseis em mim. Ou antes, existiria eu se não estivesse em Vós, “de quem, por quem e em quem todas as coisas subsistem”? Assim é, Senhor, assim é. Para onde Vos hei de chamar, se existo em Vós? Ou donde podereis vir até mim? Para que lugar, fora do céu e da terra, me retirarei, a fim de que venha depois a mim o meu Deus, que disse: “Encho o céu e a terra”?”
1: Gên 1, 1. / 2:  Sl 138,8


     Ó Deus tão alto, tão excelente, tão poderoso, tão onipotente, tão misericordioso e tão justo, tão oculto e tão presente, tão formoso e tão forte, estável e incompreensível, imutável e tudo mudando, nunca novo e nunca antigo, inovando tudo e cavando a ruína dos soberbos, sem que eles o advirtam; sempre em ação e sempre em repouso; granjeando sem precisão; conduzindo, enchendo e protegendo, criando, nutrindo e aperfeiçoando, buscando, ainda que nada Vos falte.
     Amais sem paixão; ardeis em zelos sem desassossego; arrependeis-Vos sem ato doloroso; irais-Vos e estais calmo; mudais as obras, mas não mudais de resolução; recebeis o que encontrais, sem nunca o ter perdido.
     Nunca estais pobre e alegrais-Vos com os lucros; jamais avaro, e exigis com usura. Damo-Vos mais do que pedis, para que sejais nosso devedor; mas quem é que possui coisa alguma que não seja vossa? Pagais as dívidas, a ninguém devendo, e perdoais as dívidas, sem nada perder. Que dizemos nós, meu Deus, minha vida, minha santa delícia, ou que diz alguém quando fala de Vós?... Mas ai dos que se calam acerca de Vós, porque, embora falem muito, serão mudos!”


     A minha alma é estreita habitação para Vos receber; dilatai-a, Senhor. Ameaça ruína, restaurai-a. Tem manchas que ferem o vosso olhar. Eu o reconheço e o confesso. Quem há de purificá-la? A quem hei de clamar, senão a Vós? “Purificai-me, Senhor, dos pecados ocultos, e perdoai ao vosso servo os alheios¹!” Creio, e por isso falo. Vós o sabeis, Senhor. Não confessei contra mim os meus crimes, e não “me perdoastes, meu Deus, a impiedade do meu coração²”? “Não entro em razões convosco”, que sois a mesma Verdade. Não me quero iludir “para que a minha iniquidade não se minta a si mesma”³. Não quero entrar em razões convosco, porque, “se atendeis à iniquidade, Senhor, Senhor, quem permanecerá?”4.”
1: Sl 13, 14. / 2: Sl 31,5. / 3: Sl 26, 12. / 4: Sl 129,3.


     “Donde podia vir semelhante criatura, se não de Vós, Senhor? Alguém pode ser artífice de si mesmo? Ou pode derivar-se doutra parte algum manancial por onde corram até nós o ser e a vida, diferentes dos que nos dais, Senhor — Vós, em quem o ser e a vida se equivalem, porque sois o Ser supremo e a suprema Vida?”


     “Neste período da infância, cujo perigo temiam menos para mim do que o da adolescência, não gostava do estudo, e tinha horror de ser a ele obrigado. Por meio desta coação faziam-me um bem — embora eu procedesse mal —, pois não aprenderia se não fosse constrangido. Todavia, contra a vontade, ninguém procede bem, ainda que a ação em si mesma seja boa. (...)
     Para aprender, é mais eficaz uma curiosidade espontânea do que um constrangimento ameaçador.”


     “Não Vos amava. “Prevaricava longe de Vós¹” e em toda parte ressoavam aos meus ouvidos de luxurioso estas palavras: “Bravo! Coragem!” A amizade deste mundo é adultério contra Vós. Proferem-se as palavras “Bravo! Coragem!” para que o homem não se envergonhe de ser pecador. Não chorava essas faltas, mas pranteava “a morte de Dido, que se suicidara com uma espada²”. Segui atrás dos ínfimos objetos da vossa criação, abandonando-Vos; como era terra, tendia para a terra.”
1: Sl 72, 27 / 2: Eneida, VI, 457.


     “Como se, na realidade, se persuadisse haver um inimigo mais molesto que o próprio ódio com que se irrita contra si mesmo; ou como se alguém prejudicasse mais gravemente, a outrem, com perseguições, do que ao próprio coração, com essa inimizade!”


     “Foi então que os espinhos das paixões me sobrepujaram a cabeça, sem haver mão que os arrancasse. Bem pelo contrário: meu pai, durante o banho, vendo-me entrar já na puberdade e revestido da adolescência inquieta, contou-o todo alegre a minha mãe, como se tal verificação o fizesse saltar de prazer com a ideia de ter netos. Era uma alegria, aliás, proveniente da embriaguez produzida pelo vinho invisível da sua vontade perversa e inclinada às coisas baixas — embriaguez com que este mundo esquece o Criador, para, em vez de Vós, Senhor, amar as criaturas. Porém, já tínheis começado a edificar em minha mãe o vosso templo e os fundamentos da vossa santa habitação. Meu pai era simples catecúmeno, recente ainda. Por isso, minha mãe, com tal nova, agitou-se, levada de piedosa perturbação e temor. Apesar de eu ainda não ser batizado, receou que enveredasse por caminhos tortuosos, por onde andam “os que Vos voltam as costas e não o rosto¹”.
     Ai de mim! Como me atrevo a dizer que estáveis calado, quando continuamente me ia afastando de Vós! Guardáveis, porventura, silêncio diante de mim? De quem eram, senão de Vós, aquelas palavras que, por meio de minha mãe, vossa fiel serva, pronunciastes aos meus ouvidos? Nenhuma delas, porém, desceu ao meu coração, para cumprir o que ela me aconselhava. Lembro-me que, um dia, querendo que me abstivesse da luxúria e sobretudo não cometesse adultérios, avisou-me em particular e com grande solicitude.
     Envergonhava-me de seguir tais conselhos, por me parecerem só próprios de mulheres. Porém eram vossos, e eu sem o saber! Julgava que nada me dizíeis, que só ela me falava; mas Vós dirigíeis-Vos a mim, por sua boca. Éreis desprezado na sua pessoa por mim, sim, por mim, pelo filho da vossa escrava, pelo vosso servo. Mas eu não sabia! Ignorante, precipitava-me tão cegamente que, entre os companheiros da minha idade, me envergonhava de ser menos infame do que eles. Ouvia-os jactarem-se de suas ignomínias, e tanto mais se gloriavam quanto mais depravados eram. Assim, praticava o mal não só pelo deleite da ação, mas ainda para ser louvado.
     Que haverá mais digno de vitupério do que o vício? E eu, para não ser vituperado, fazia-me cada vez mais vicioso! Se não cometesse pecado com que igualasse os mais corrompidos, fingia ter cometido o que não praticara, para que não parecesse mais abjeto quanto mais inocente, e mais vil quanto mais casto.”
1: Jer 2, 27


     “O furto é punido pela vossa lei, ó Senhor, lei que, indelevelmente gravada nos corações dos homens, nem sequer a mesma iniquidade poderá apagar. Ora, que ladrão haverá que suporte com gosto outro ladrão, se até o rico não perdoa ao indigente que foi compelido ao roubo pela miséria? E eu quis roubar; roubei, não instigado pela necessidade, mas somente pela penúria, pelo fastio da justiça e pelo excesso da maldade. Tanto é assim que furtei o que tinha em abundância e em muito melhores condições. Não pretendia desfrutar do furto, mas do roubo em si e do pecado.
     Havia, próximo da nossa vinha, uma pereira, carregada de frutos nada sedutores, nem pela beleza nem pelo sabor. Alta noite, pois tínhamos o perverso costume de prolongar nas eiras os jogos até essas horas, eu com alguns jovens malvados fomos sacudi-la para lhe roubarmos os frutos. Tiramos grande quantidade, não para nos banquetearmos, se bem que provamos alguns, mas para os lançarmos aos porcos. Portanto, todo o nosso prazer consistia em praticarmos o que nos agradava, pelo fato de o roubo ser ilícito.
     Eis o meu coração, Senhor, eis o meu coração, que olhaste com misericórdia no fundo do abismo. Diga-Vos ele agora o que buscava nesse sorvedouro, sendo eu mau desinteressadamente e não havendo outro motivo para a minha malícia senão a própria malícia. Era asquerosa e amei-a. Amei a minha morte, amei o meu pecado. Amei, não aquilo a que era arrastado, senão a mesma queda. Que alma tão forte que se apartava do vosso firme apoio, para se lançar na morte, apetecendo não uma parcela da desvergonha, mas a própria desvergonha!
     Ó podridão, ó monstro da vida e abismo da morte! Como pode agradar-me o ilícito sem outro motivo que o de me ser proibido?”
     Que fruto nessa ocasião colhi eu, miserável, das ações que agora, ao recordá-las, me fazem corar de vergonha, nomeadamente daquele roubo, em que amei o próprio roubo e nada mais? Nenhum, pois o furto nada valia, e, com ele, me tornei mais miserável. Sozinho não o faria — lembro-me de que era esta a minha disposição, naquele momento; sim, absolutamente só, não era capaz de o fazer. Portanto, amei também no furto o consórcio daqueles com quem o cometi. Amei, por isso, mais alguma coisa do que o furto. Mas não: não amei mais nada, porque a cumplicidade nada vale.
     Que é esta, na realidade? Quem mo ensinará senão Aquele que ilumina o meu coração, rasgando-lhe as sombras? Por que ocorreu ao meu espírito estar aqui a inquirir, discutir e considerar tais particularidades? Se então amasse os pomos que furtei e com eles me apetecesse regalar, poderia tê-los roubado sozinho, se isso bastasse. Poderia ter cometido a iniquidade por onde cheguei ao meu deleite, sem acender, com a fricção de almas cúmplices, o prurido da minha cobiça. Mas porque não experimentava prazer naqueles furtos, este consistia na própria falta que praticavam os pecadores simultaneamente, em cumplicidade.
     Que sentimento era aquele da minha alma? Sem dúvida, um sentimento muitíssimo vergonhoso; e ai de mim que o mantinha! Mas, enfim, que era ele? “Quem conhece todos os delitos?¹” Era um riso, como que a fazer-nos cócegas no coração, provocado pelo gosto de enganar os que tinham como impossível o nosso feito e vivamente o detestavam.
     Qual o motivo por que me deleitava o não estar sozinho, quando cometia o furto? Seria porque ninguém facilmente se ri, quando esta só? É certo que, sozinho, ninguém se ri facilmente. Mas, se alguma coisa demasiado ridícula acode aos sentidos ou à imaginação, o riso vence por vezes o homem, mesmo quando sozinho e sem ter ninguém presente. Ah! sozinho não praticaria tal ação. Se estivesse absolutamente só, não a faria².
     Eis perante Vós, ó meu Deus, uma viva lembrança da minha alma. Sozinho, não cometeria aquele furto, em que me não aprazia o que roubava, mas o ato de roubar, porque, completamente só, não sentiria prazer em praticar o furto. Nem sequer o faria. Ó amizade tão inimiga, ó sedução impenetrável da mente, avidez de perpetrar o mal por brincadeira ou gracejo, ó apetite do dano alheio, sem lucro nenhum, sem paixão de vingança, mas só porque sentimos vergonha de não ser desavergonhados, quando nos dizem: “Vamos, façamos”.”
     Quem entra em Vós penetra “no gozo do seu Senhor³”, e não só não terá receio, mas também permanecerá soberanamente no bem perfeito. Na adolescência, afastei-me de Vós, andei errante, meu Deus, muito desviado do vosso apoio, tornando-me para mim mesmo uma região de fome.”
1: Sl 18, 13 / 2: Reconhece Santo Agostinho a influência do ambiente na perpetração de crimes. O homem no meio dum grupo ou da multidão deixa-se facilmente sugestionar. É todo receptividade psicológica. A carga efetiva da coletividade galvaniza-o. Não reage como ser independente, mas como parte dum todo. (N. do T.) / 3:  Mt 25, 21


     “O orgulho imita a altura, mas só Vós, meu Deus, sois excelso sobre todas as coisas. Que busca a ambição senão honras e glória, embora só Vós tenhais direito a ser honrado sobre tudo e glorificado eternamente? A sevícia dos poderosos aspira a fazer-se temer; mas quem deve ser temido senão Deus? Quando, onde, até onde e quem pode tirar ou subtrair alguma coisa ao vosso poder? As carícias dos voluptuosos desejam a reciprocidade do amor; mas nada há mais acariciante que a vossa caridade, nem se pode amar nada mais salutar que a vossa verdade, a mais formosa e resplandecente de todas. A curiosidade parece ambicionar o estudo da ciência, quando só Vós é que conheceis plenamente tudo!
     Até a própria ignorância e estultícia se encobrem sob o nome de simplicidade e de inocência. Mas nada se encontra mais simples do que Vós. Quem há mais inocente do que Vós, pois são as próprias obras que prejudicam os pecadores? À preguiça parece apetecer apenas o descanso; mas que repouso seguro há fora do Senhor? A luxúria deseja apelidar-se saciedade e abundância; Vós, porém, sois a plenitude e a abundância interminável da suavidade incorruptível. A prodigalidade cobre-se com a sombra da liberalidade; mas o mais magnânimo dispensador de todos os bens sois Vós. A avareza quer possuir muito; e Vós possuis tudo. A inveja litiga acerca da “excelência”; mas que ser há mais excelente que Vós? A ira procura a vingança; e quem se vinga mais justamente que Vós? O temor, enquanto vigia pela segurança das coisas que ama, detesta os acontecimentos insólitos e inesperados que lhes sejam adversos; porém, que há de insólito para Vós? Que há de inesperado? Quem separa de Vós o que amais? E onde encontrar a firme segurança senão em Vós? A tristeza definha-se com a perda dos bens em que a cobiça se deleita — porque desejaria que nada, como a Vós, se lhe pudesse tirar.”


     “Mas que ações pecaminosas Vos podem afligir, a Vós, a quem a corrupção não atinge? Ou que pecados se podem levantar contra Vós, a quem nada pode prejudicar? Punis o que os homens cometem contra si próprios, porque, ainda mesmo quando Vos ofendem, agem impiamente contra as suas almas. A própria iniquidade, se engana a si mesma, corrompendo-se e pervertendo-se na sua natureza, feita e ordenada por Vós, quer servindo-se imoderadamente das coisas que lhe são lícitas, quer ardendo na concupiscência do ilícito, “no uso daquilo que é contra a natureza¹”.
1: Rom 1, 26.


     “Oh! loucura que não sabe amar os homens humanamente! Oh! que louco o homem que sofre, sem conformidade, os reveses humanos! Assim era eu então. Por isso, inquietava-me, suspirava, chorava, perturbava-me sem descanso nem circunspecção.
     Trazia a alma despedaçada a escorrer sangue: repugnava-lhe ser por mim conduzida, e eu não encontrava lugar onde a depusesse. Não descansava nos bosques amenos, nem nos jogos e cânticos, nem em lugares suavemente perfumados, nem em banquetes faustosos, nem no prazer da alcova e do leito, nem finalmente nos livros e versos. Tudo me horrorizava, até a própria luz. Tudo o que não era o que ele era (seu amigo recém-falecido) tinha por mau e fastidioso, exceto os gemidos e lágrimas, pois só nestas encontrava algum repouso. Mas apenas de lá arrancava a minha alma, pesava sobre mim o grande fardo da desgraça.
     Sabia, ó Senhor, que a devia erguer para Vós a fim de ser curada, mas não queria nem tinha forças, tanto mais que, ao pensar em Vós, não me parecíeis solidamente firme.
     O meu Deus não éreis Vós, mas um fantasma irreal e o erro. Se ali tentava colocá-la, para descansar, deslizava pelo vácuo e ruía sobre mim, continuando eu a ser um lugar de infelicidade, onde não podia permanecer e donde não podia afastar-me.
     Para onde o meu coração fugiria do meu coração? Para onde fugiria de mim mesmo? Para onde me não seguiria? Por isso fugi da pátria. Os olhos procurariam menos esse amigo lá onde o não costumavam ver. Da cidade de Tagaste vim para Cartago.
     O tempo não descansa, nem rola ociosamente pelos sentidos: pois produz na alma efeitos admiráveis. O tempo vinha e passava, dia após dia. Vindo e passando, inspirava-me novas esperanças e novas recordações. Pouco a pouco, reconfortava-me nos antigos prazeres, a que ia cedendo a minha dor. Não se sucediam, é certo, novas dores, mas fontes de novas dores. Mas por que me penetrava tão facilmente e até ao íntimo aquela dor, senão porque derramei na areia a minha alma, amando um mortal como se ele não houvesse de morrer?
     Havia nos meus outros amigos prazeres que me seduziam ainda o coração: conversar e rir, prestar obséquios com amabilidade uns aos outros, ler em comum livros deleitosos, gracejar, honrar-se mutuamente, discordar de tempos a tempos, sem ódio, como cada um consigo mesmo, e, por meio desta discórdia raríssima, afirmar a contínua harmonia, ensinar ou aprender reciprocamente qualquer coisa, ter saudades dos ausentes e receber com alegria os recém-vindos. Estes e semelhantes sinais, procedendo do coração dos que se amam e dos que pagam amor com amor, manifestam-se no rosto, na língua, nos olhos e em mil gestos cheios de prazer, como se fossem acendalhas; inflamam-se os corações e de muitos destes se vem a formar um só.”


     “Entrega à Verdade tudo o que tens recebido da Verdade, e não só não perderás nada, mas ainda a tua podridão reflorescerá, as tuas fraquezas serão curadas, as tuas frouxidões serão reformadas, rejuvenescidas e estreitamente unidas a ti, sem te colocarem na ladeira por onde descem, mas ficando contigo e permanecendo junto do Deus sempre estável e eterno.
     Por que é que tu, perversa, segues a tua concupiscência? Que ela te siga a ti, quando retrocederes. O que por ela sentes constitui partes, e tu ignoras o todo formado por essas partes que ainda te deleitam. Mas se a sensibilidade do teu corpo fosse apta para receber o todo — e se na parte do todo não tivesses recebido, para teu castigo, a justa limitação —, quererias que passasse o que presentemente existe, para que o conjunto mais te deleitasse. Ora, tu ouves pelos mesmos sentidos carnais o que pronunciamos, e certamente não queres que as sílabas parem, mas desejas que voem para outras lhes sucederem, para assim ouvires o conjunto. Do mesmo modo acontece com as partes que formam um todo sem que haja simultaneidade nas partes de que consta o todo. Deleita mais o todo uno, quando pode ser percebido, do que cada uma das partes. Mas quanto melhor que estas coisas é Aquele que as fez todas, o nosso Deus, que não passa porque nada Lhe sucede!”


     “Se te agradam as almas, ama-as em Deus porque são também mudáveis, e só fixas n’Ele encontram estabilidade. Doutro modo passariam e morreriam. Ama-as portanto n’Ele, arrebata-Lhe contigo todas as que puderes e dize-lhes: “Amemo-Lo”. Ele, que não esta longe¹, foi o criador destas coisas. Não as fez para depois as deixar, mas d’Ele vêm e n’Ele estão. Ele esta onde se saboreia a Verdade. Esta no íntimo do coração, mas o coração errou longe d’Ele.
     “Voltai, ó pecadores, ao coração”², e ligai-vos Àquele que vos criou. Firmai-vos n’Ele e estareis firmes. Descansai n’Ele e descansareis. Para onde ides por caminhos escabrosos? Para onde ides? O bem que amais d’Ele procede. Mas só é bom e suave quando para Ele é dirigido. Pelo contrário, será justamente amargo, se se ama injustamente o que d’Ele provém, abandonando a Deus.
     Por que andar de contínuo por caminhos difíceis e trabalhosos? Não há descanso onde o procurais. Procurais a vida feliz na região da morte: não esta lá. Como encontrar vida feliz onde nem sequer vida existe?
     Ele, a nossa vida, desceu até nós. Suportou a nossa morte e matou-a pela abundância da nossa vida. Com voz de trovão clamou que voltássemos para Ele, para o lugar escondido donde veio a nós, descendo primeiro ao seio da Virgem onde se desposou com Ele a natureza humana, a carne mortal, para não ficar eternamente mortal. E de lá, “como um esposo que sai do tálamo, deu saltos como um gigante para percorrer o seu caminho”³. Não se deteve, mas correu clamando com palavras, com obras, com a própria morte, com a vida, com a descida (ao Limbo), com a Ascensão, clamando sempre que a Ele voltássemos.
     Fugiu dos nossos olhos para que entremos no coração e aí O encontremos. Sim, separou-se de nós, com relutância, mas ei-Lo aqui. Não quis estar conosco muito tempo, mas não nos abandonou.”
1: At 17,27. / 2: Is 46, 8. / 3: Sl 18, 6.


     “Vi claramente que todas as coisas que se corrompem são boas: não se poderiam corromper se fossem sumamente boas, nem se poderiam corromper se não fossem boas. Com efeito, se fossem absolutamente boas, seriam incorruptíveis, e se não tivessem nenhum bem, nada haveria nelas que se corrompesse.
     De fato, a corrupção é nociva, e, se não diminuísse o bem, não seria nociva. Portanto, ou a corrupção nada prejudica — o que não é aceitável — ou todas as coisas que se corrompem são privadas de algum bem. Isto não admite dúvida. Se, porém, fossem privadas de todo o bem, deixariam inteiramente de existir. Se existissem e já não pudessem ser alteradas, seriam melhores porque permaneciam incorruptíveis. Que maior monstruosidade do que afirmar que as coisas se tornariam melhores com perder todo o bem?
     Por isso, se são privadas de todo o bem, deixarão totalmente de existir. Logo, enquanto existem, são boas. Portanto, todas as coisas que existem são boas, e aquele mal que eu procurava não é uma substância, pois, se fosse substância, seria um bem. Na verdade, ou seria substância incorruptível, e então era certamente um grande bem, ou seria substância corruptível, e, nesse caso, se não fosse boa, não se poderia corromper.”


     “A luxúria provém da vontade perversa; enquanto se serve à luxúria, contrai-se o hábito; e, se não se resiste a um hábito, origina-se uma necessidade.”


     “Quem sou? Como sou eu? Que malícia não houve nos meus atos; ou, se não a houve nos meus atos, nas minhas palavras; ou, se não a houve nas minhas palavras, na minha vontade!
     Vós, porém, Senhor bom e misericordioso, olhastes para a profundeza da minha morte e, com a vossa direita, exauristes do fundo do meu coração o abismo de perversidade. E agora tudo era não querer aquilo que eu queria, e querer o que Vós queríeis.
     Mas onde esteve durante tantos anos o meu livre arbítrio? De que profundo e misterioso abismo foi ele chamado num momento a fim de inclinar a minha cerviz ao vosso suave jugo e os meus ombros ao vosso fardo tão leve, ó Cristo Jesus, “minha ajuda e redenção¹”? Quão suave se me tornou de repente carecer de delícias fúteis! Receava perdê-las, e agora já sentia prazer em abandoná-las! Vós, a verdadeira e suprema Suavidade, as afastáveis de mim. Vós as afastáveis, e em vez delas entráveis Vós, mais doce que todo prazer — mas não para a carne e o sangue —, mais resplandecente que toda a luz, mas mais oculto que todo segredo, mais sublime que toda honra, mas não para aqueles que se exaltam em si mesmos.
     Já o meu coração estava livre de torturantes cuidados, de ambição, de ganhos, e de se revolver e esfregar na sarna das paixões. Entretinha-me em conversa convosco, minha Claridade, minha Riqueza, minha Salvação, Senhor, meu Deus.”
1: Sl 18, 15.

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