sábado, 6 de agosto de 2016

Fidel Castro: História e imagem do líder máximo – Valéria Manferto de Fabianis (org.)

Editora: Escrituras
ISBN: 978-85-7531-254-4
Tradução: Maurício Santana Dias
Texto: Luciano Garibaldi
Opinião★★★☆☆
Páginas: 274

“Nascidos em uma família marcadamente católica, os jovens Castro receberam educação católica dos jesuítas, primeiramente no colégio La Salle e Dolores em Santiago, e depois no célebre Colégio de Belén, escola administrada pelos jesuítas de Havana. Impossível reconstituir onde, quando e como se formaram na mente do garoto Fidel as ideias contestadoras e revolucionárias que mais tarde germinariam e perdurariam durante toda sua vida. Talvez com a ajuda de algum instrutor de túnica, decididamente inclinado às classes favorecidas – não são casos incomuns. O fato é que, já aos treze anos de idade, no início de 1940, Fidel tentou organizar uma greve de plantadores de cana-de-açúcar contra o próprio pai*. O motivo? Recebiam muito pouco – coisa que, na imaginação do adolescente Fidel, devia-se menos ao pai infeliz do que aos exploradores americanos da United Fruit Company, a sociedade comercial norte-americana a quem Angel Castro vendia o produto de suas terras.
No garoto Fidel já havia, em embrião, aquela personalidade que muitos anos mais tarde Gabriel García Márquez retrataria com as seguintes palavras: “O Fidel Castro que acredito conhecer é um homem de costumes austeros e de ilusões insaciáveis, com uma educação formal ao estilo antigo, de palavras ponderadas e modos delicados, incapaz de conceber uma ideia que não seja extraordinária. (...) Tem a convicção quase mística de que a maior conquista do ser humano é a boa formação de sua consciência, e que os estímulos morais, mais que os materiais, são capazes de mudar o mundo e impulsionar a História. Creio que ele é um dos grandes idealistas do nosso tempo e que talvez esta seja sua maior virtude, ainda que para ele tenha sido o maior perigo”.”
*: Angel Castro tornara-se um homem rico: possuía 1.800 hectares de plantações de cana-de-açúcar e de frutas em Birán, criava gado, ovelhas, porcos e patos, construía casas que depois alugava e dava emprego a 600 trabalhadores e camponeses.



“Aos 19 anos Fidel inscreveu-se na Faculdade de Direito da Universidade de Havana (viria a se formar em 1950). Ele realmente queria ser advogado? A propósito de sua escolha, dirá em entrevista: “Pergunto-me por que escolhi estudar Direito. Não sei. Em parte, atribuo a opção ao hábito de discutir e polemizar. Foi assim que me convenci pela advocacia”. De fato, a palavra nunca lhe faltou e ele sempre foi um extraordinário orador.”


“Fulgêncio Batista retornou a Cuba e derrotou o governo legítimo, instaurando na prática uma nova ditadura militar. Fidel reagiu com força, denunciando Batista à magistratura por violação da Constituição, mas sua denúncia foi rejeitada.
Uma decisão fatal. O jovem revolucionário não digeriu a derrota e reagiu à mão armada, organizando com seus companheiros o ataque ao quartel de Moncada, em Santiago, buscando apropriar-se do arsenal e dar uma demonstração de força ao ditador que voltara ao poder. O dia 26 de julho de 1953 foi a data fatídica. Fidel e seus companheiros partiram ao alvorecer. Do interior do quartel, no entanto, partiu peremptoriamente um fogo cerrado contra os invasores. Talvez algum infiltrado tivesse denunciado a operação. Foi uma carnificina. Os sobreviventes, setenta rapazes, na maioria estudantes, foram feitos prisioneiros, torturados e quase todos fuzilados no local. Mas Fidel foi poupado. Ferido e também torturado, foi encarcerado na penitenciária da ilha dos Pinheiros e lá permaneceu à espera do processo que, segundo as previsões mais razoáveis, deveria culminar com a pena capital. Mas as coisas não tomaram este rumo.
As audiências começaram em dezembro. Fidel teve o direito de autodefesa e pronunciou um discurso que se tornaria célebre. Talvez intuísse que não o condenariam à morte. Talvez tivesse sido avisado de que o arcebispo de Havana estaria articulando para salvar da forca um ex-aluno dos jesuítas, filho de pais muito ligados à Igreja. Ao término de um duríssimo ataque – que durou horas – contra o capitalismo, a exploração do trabalho, as tendências bélicas do Ocidente, concluiu com as seguintes palavras: “Sei bem que a prisão para mim será dura como sempre o foi para qualquer outro, cheia de ameaças vis e de horríveis torturas. Mas eu não temo a prisão, assim como não temo a fúria do miserável tirano que tirou a vida de setenta irmãos meus. Condenem-me, não me importa. A História me absolverá”. Seus companheiros de cárcere olhavam-no perplexos e arrasados. Foi condenado a 15 anos de reclusão e libertado em maio de 1955, após uma anistia geral, depois exilou-se no México.”


“Dois meses depois de os revolucionários terem tomado o poder em Cuba, Fidel fez uma visita a Nova York, onde foi acolhido com triunfo. A multidão o aplaudiu como sempre se aplaude a um herói. Um grupo de italianos, acreditando que lhe prestava uma homenagem, fez a saudação romana. Fidel respondeu de pronto: “Meu modelo é Garibaldi, não Mussolini”.”


“Foi nas aulas universitárias em Havana que o jovem Fidel começou a respirar o perfume da rebelião. Ali ocorriam frequentes assembleias estudantis, e aquela jovem e intrépida turma de Direito logo pôs à prova sua excepcional habilidade oratória. Ele sabia entusiasmar quem o escutava, utilizava a modulação e as palavras certas para inflamar a plateia. É, sem dúvida, um orador nato. O espírito de solidariedade cristã com os mais pobres, que ele respirou nos muitos anos passados com os jesuítas, deixou uma marca. Fidel quer igualdade, odeia os privilégios, despreza os capitalistas que – em seu juízo – são capazes apenas de explorar o trabalho dos humildes. Rapidamente, chegará à condenação da propriedade privada em nome da coletivização.”

     Comentário
Destaco desta biografia fotográfica as fotos das páginas 6, 40, 69, 71, 72, 73, 74, 75, 79, 80, 90-91, 92, 94, 98, 100, 114-115, 125, 147, 152, 154-155, 163, 178, 180, 191, 212, 262.