segunda-feira, 4 de julho de 2016

Os Caminhos da Liberdade: Sursis – Jean-Paul Sartre

Editora: Nova Fronteira
ISBN: 978-85-2091-727-5
Tradução: Sérgio Milliet
Opinião: ****
Páginas: 440 

     “Ela era séria e decidida no trabalho, mas tinha o que têm as mulheres: necessidade, sempre, de confiar em alguém.”


     “Digam o que disserem, a pobreza deixa as pessoas vulgares.”


     “– Sou capitão – disse Weiss.
     Belo capitão..., pensou Birnenschatz. Weiss tinha um ar feliz, suas grandes orelhas estavam roxas. Belo capitão... e é isso a guerra, a hierarquia militar.
     – Que grande besteira, hem? – disse.
     – Hum!
     – Não é uma besteira?
     – Sem dúvida – disse Weiss. – Mas eu queria dizer: para nós, não é tão idiota assim.
     – Para nós? – atalhou Birnenschatz espantado. – Para nós quem? De quem você esta falando?
     Weiss baixou os olhos:
     – Para nós, judeus. Depois do que eles fizeram contra os judeus na Alemanha, nós temos motivos para lutar.
     Birnenschatz deu alguns passos, excitado:
     – Que história é essa de nós, judeus? Não sei o que é isso. Eu sou francês. E você? Sente-se judeu?
     – Meu primo, de Gratz, esta em minha casa desde terça‑feira – disse Weiss. – Mostrou-me os braços. Queimaram‑nos com charutos desde os cotovelos até as axilas.
     Birnenschatz parou subitamente, agarrou no encosto da cadeira com as suas mãos fortes e um ódio subiu‑lhe aos olhos:
     – Os que fizeram isso – disse ele –, os que fizeram isso...
     Weiss sorria. Birnenschatz acalmou‑se:
     – Não é porque seu primo é judeu, Weiss. É porque é um homem. Não suporto que se maltrate um homem. Mas o que é um judeu? É um homem que os outros homens consideram judeu.”


     “A vida no exílio não passa de uma espera.”


     “Gomes compara na véspera uma panóplia para o menino.
     – Ele tem de aprender a lutar – disse Gomez acariciando a cabeça do menino. – Senão, vai ficar covarde como os franceses.
    Sarah ergueu os olhos para ele e ele viu que a tinha ferido profundamente.
     – Não compreendo que se possa chamar covarde a quem não quer fazer a guerra.
     – Há momentos em que é preciso querer – disse Gomez.
     – Nunca! Em nenhum caso. Não há nada que valha a pena a visão de mim, um dia numa estrada, com minha casa destruída a meu lado e um filho morto nos braços.
     Gomez não respondeu. Não havia o que responder. Sarah tinha razão. Do seu ponto de vista ela tinha razão. Mas o ponto de vista de Sarah era daqueles que cumpria desprezar por princípio, sem o que não se chegaria nunca a nada. Sarah esboçou um sorriso amargo:
     – Quando o conheci, você era pacifista, Gomez.
     – É porque naquele momento era preciso ser pacifista. O objetivo não mudou, mas os meios para atingi‑lo são diferentes.”


     “É preciso mesmo muito tempo para conhecer um homem.”


     “Não sou nada, não tenho nada. Tão inseparável do mundo quanto a luz e, no entanto, exilado, como a luz, deslizando à superfície das pedras e da água, sem que nada, jamais, me prenda ou me faça encalhar. Fora. Fora. Fora do mundo, fora do passado, fora de mim mesmo: a liberdade é o exílio e estou condenado a ser livre.”


     “– A gente é infeliz quando tem frio ou esta doente ou não tem  o que comer. O resto são denguices.”


     “Afinal, nem mesmo eu sei porque me dirijo a ti: é de se supor que, assim como o do crime, o caminho das confidências é uma ladeira escorregadia.”

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Sugestão de Livros disse...

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“Ela era séria e decidida no trabalho, mas tinha o que têm as mulheres: necessidade, sempre, de confiar em alguém.”

“– A gente é infeliz quando tem frio ou esta doente ou não tem o que comer. O resto são denguices.”