segunda-feira, 25 de abril de 2016

Os Caminhos da Liberdade: A Idade da Razão – Jean-Paul Sartre

Editora: Nova Fronteira / Saraiva de bolso
ISBN: 978-85-2093-083-0
Tradução: Sérgio Milliet
Opinião: *****
Páginas: 372 

     “Quando a gente esta bêbado, dá-se ao luxo do patético.”


     “E se as lágrimas lhe subiam aos olhos, como em Lola naquele momento, a gente não sabia onde se enfiar. Lágrimas de adulto eram uma catástrofe mística, algo como o choro de Deus sobre a maldade dos homens.”


     “Estou velho. Eis-me arriado em cima de uma cadeira, comprometido até ao pescoço na vida e não acreditando em nada. E, no entanto, eu também quis partir para a Espanha. Mas não deu certo. Haverá realmente uma Espanha? Estou aqui, saboreio-me, sinto um gosto velho de sangue e água ferruginosa, meu gosto, eu sou meu próprio gosto, eu existo. Existir é isso: beber‑se a si próprio sem sede. Trinta e quatro anos. Há trinta e quatro anos que eu me saboreio, e estou velho. Trabalhei, esperei, tive o que queria: Marcelle, Paris, independência. Esta tudo acabado. Não quero mais nada.”


     ““Assim é o homem”. Era rígido, inflexível e no fundo havia uma pobre vítima a clamar misericórdia. “Estranho que a gente possa odiar-se como se fosse outra pessoa!” Mas não era verdade, aliás; por mais que fizesse, só havia um Daniel. Quando se desprezava tinha a impressão de se destacar de si mesmo, de pairar como um juiz abstrato acima de um fervilhamento impuro, e bruscamente aquilo o retomava, o aspirava por baixo e ele se atolava em si próprio.”


     ““É sinistro ver com clareza”, pensou Daniel. Assim é que imaginava o inferno: um olhar penetrante que atravessaria tudo, iria até o fim do mundo – até o fim de si próprio.”


     “Quando a gente não tem coragem de matar-se de uma vez, deve fazê-lo aos poucos.”


     “Não se é homem enquanto não se encontra alguma coisa pela qual se esta disposto a morrer.”


     “Entre trinta e quarenta anos a gente joga a última cartada.”


     “A música parou, a dançarina imobilizou-se, voltando o rosto para o público. Por cima do sorriso brilharam lindos olhos acuados. Ninguém aplaudia e houve algumas risadas ofensivas.
    – Safados! – disse Boris.
     Bateu palmas com força. Rostos espantados viraram-se para ele.
    – Fica quieto – disse Ivich, furiosa. – Aplaudir isso?
    – Ela fez o que pôde – disse Boris, aplaudindo.
    – Mais um motivo para não aplaudir.”


     “O barman, por exemplo. Pouco antes fumava um cigarro, vago e poético como um jasmineiro; agora acordara, era demasiado barman, sacudia o shaker, abria‑o, escorria uma espuma amarela nos copos, com gestos de uma precisão supérflua. Representava o papel de barman. Mathieu pensou em Brunet: “Talvez não possa ser de outro modo; talvez seja preciso escolher: não ser nada ou representar o que é. Isso seria terrível, essa trapaça com a nossa própria  natureza”.”


     “Essa tagarelice na minha cabeça, eu daria tudo para conseguir me calar.”


     “Baixou a cabeça. Pensava na própria vida. O futuro penetrara‑a até à medula. Tudo nela estava em suspenso, em sursis*. Os dias mais recuados de sua infância, o dia em que dissera “Serei livre”, o dia em que dissera “Serei grande”, apareciam‑lhe, ainda agora, com seu futuro particular, como um pequenino céu pessoal e bem redondo em cima deles, e esse futuro era ele, ele tal e qual era agora, cansado e amadurecido. Tinham direitos sobre ele e através de todo aquele tempo decorrido mantinham suas exigências, e ele tinha amiúde remorsos esmagadores, porque o seu presente negligente e cético era o velho futuro dos dias do passado. Era ele que eles tinham esperado vinte anos, era dele, desse homem cansado, que uma criança dura exigira a realização de suas esperanças; dependia dele que os juramentos infantis permanecessem infantis para sempre, ou se tornassem os primeiros sinais de um destino. Seu passado sofria sem cessar os retoques do presente; cada dia vivido destruía um pouco mais os velhos sonhos de grandeza, e cada novo dia tinha novo futuro; de espera em espera, de futuro em futuro, a vida de Mathieu deslizava docemente... em direção a quê?
     Em direção a nada. Pensou em Lola. Estava morta, e a vida dela, como a de Mathieu, não fora senão uma espera.”

*: Prorrogação, espera.


     ““Eles têm medo da morte. Por mais limpinhos e fresquinhos que sejam, têm almas sinistras, porque têm medo. Medo da morte, da doença, da velhice. Agarram‑se à juventude como um moribundo à vida. Quantas vezes vi Ivich apalpar o rosto inquieto em frente de um espelho. Já treme diante da possibilidade de ter rugas. Vivem a ruminar a sua juventude, só fazem projetos a curto prazo, como se só tivessem diante de si cinco ou seis anos. Depois... Depois, Ivich fala em suicidar‑se, mas estou tranquilo, não ousará jamais; não morrerão tão cedo. Afinal, eu tenho rugas, uma pele de crocodilo, músculos retorcidos, mas ainda tenho muitos anos para viver... Começo a crer que nós é que somos jovens. Queríamos bancar homens feitos, éramos ridículos, mas eu me pergunto se o único meio de salvar a juventude não será esquecê‑la.”


     “Ela olhou o Leão de Balfort e disse, extasiada:
    – Gosto deste leão. Parece um feiticeiro.
    – Hum.
     Respeitava os gostos da irmã, embora não os partilhasse. Aliás, Mathieu já dissera, uma ocasião: “Sua irmã tem mau gosto, mas é melhor do que o melhor gosto. É um mau gosto profundo”.”


     “Será isto a liberdade? Ele agiu, agora não pode mais voltar atrás; deve parecer‑lhe estranho sentir atrás de si um ato desconhecido, que ele já quase não compreende e que vai transformar-lhe a vida. Eu, tudo o que faço, faço‑o por nada; dir‑se‑ia que me roubam as consequências dos meus atos, tudo se passa como se eu pudesse sempre voltar atrás. Não sei o que não daria para cometer um ato irremediável.”


     “Ninguém entrava minha liberdade, foi a minha vida que a bebeu.”

Nenhum comentário: