A conversão de São Paulo

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quinta-feira, 21 de abril de 2016

Deus foi almoçar – Ferréz

Editora: Planeta
ISBN: 978-85-7665-889-4
Opinião: ***
Páginas: 240

     “Sentou junto à máquina de escrever, a mesa toda cheia de papéis, notas fiscais que deveriam ter sido preenchidas, ele pensa naquela estranha conversa, religião, de repente ele poderia ir a algum culto ou reza, pra ver se melhorava mesmo seu astral, na cidade do Valdomiro, ou numa das fazendas dos dissidentes, mas se eles tiram amargura, dor, solidão, o que restaria dentro dele?”


     “Quando passo em frente a uma casa de relaxamento, sou puto, quando ando em frente a uma igreja sou santo, faço o sinal da cruz, quando visito minha mãe deito no sofá, sou criança esperando o café com leite e o pão com manteiga esquentado de uma forma que só ela sabe fazer, quando vou na casa de algum amigo, se for do tempo da escola, até os apelidos da época são usados, se for à casa de vizinhos, as brincadeiras do bairro. (…)
     Se a felicidade é um ponto de vista, Calixto estava cego.”


     “Hoje as poucas revistas que sobraram têm fotos gigantes, ninguém quer ler, as pessoas querem é passar, virar página.”


     “O homem criou a cidade, modelou seus jardins, fez da sua forma o tudo de novo, e também foi criado de outra forma por essa cidade.
     Datas, dias, minutos e segundos, atrasos, interesses, ganhos e perdas, a vida era assim agora. Ele sorriu levemente, o homem é o único ser capaz de fazer uma armadilha para si mesmo.
     Carros, apartamentos, pequenos bares, shoppings, tudo congestionado, tudo limitado, emparedado, fechado. A sensação de sair dessas coisas era indescritível, se tivesse uma pena por assalto ou homicídio, tanto fazia. Prisão ou shopping center? Não precisava olhar tudo para saber o que existia realmente, mas por mais que olhasse não saberia dizer o que era a verdade.”


     “Parado às vezes olhando de soslaio para o poste, quase sempre para a rua, entendo pela primeira vez desde que fui tirado de dentro de outro ser, e que vou morrer sem entender quase nada desse novo tempo em que estou. (...) por que tudo esta se desmanchando a minha volta e parece que sou só um telespectador da minha própria vida, não sou o motivador, de uns anos para cá sou somente levado, levado de um lado para outro, de uma situação para outra, vou estar um dia no comando, de repente vou estar novamente no comando, mas e se nunca estive?”


     “É que nem as guerras, todas elas são uma merda, pode ser no Vietnã ou em Gorazde, todas as merdas de guerras são assim, e depois em algum escritório ou gabinete algum engravatado que não sabe o que é se afundar na merda, nem sequer pisou em alguma, vai estar falando em revolução, tirania e glória. E nós vamos ser resumidos a isso, uma porra de uma palavra, eles não sabem, meu filho, eles não sabem que o grau de dominação é tão alto, que a própria elite nem sente remorso mais pelo que faz, ela já esta num estado tão inconsciente de dominação, que é o mais avançado, quando ela nem sente mais que esta fazendo algo errado, quem nem essas coisas de jogar lixo no chão, discurso de filho da puta, meu filho, filhos da puta, não jogue o papel no chão, mas gastam mais com o gato do que doariam para um orfanato, não jogue o lixo na rua, mas pisam num mendigo se ele não sair da calçada, vamos reciclar, mas é por estudarem em faculdade pública mesmo sendo ricos que o homem com 70 anos hoje tem que vender bala no farol, porque não tem dinheiro pra todo mundo, e eles sabem disso e estão sempre no começo da fila, mas um dia isso muda, filho, o sucesso é solitário, essa raça de infeliz.”


     “Todo dom pode também ser uma maldição.”


     “Ao voltar do serviço, parou numa banca de jornal, as frases dos anúncios dos aplicativos podiam fazer ele rir e provocar alguns sentimentos estranhos: “Como se entupir de dinheiro”, “Você é rico e não sabe”, “Como explorar com consciência social”, “Gerenciando lucros e alimentando a pobreza”, “Empresa de segurança compra parte da frota da policia”, “Fazendo fluxo de caixa martirizando pessoas”, “Como obter visto para morar na cidade do Bispo Valdomiro”.
     Entrou no carro.
     Entrei no carro com ódio de tudo isso, dessa máquina maldita de moer gente. O pior de ser fantoche é quando olhamos pro alto e vemos as cordas.”


     “As mulheres querem sua alma. Não é só o seu dinheiro, nem mesmo o carro. Apenas a porra da sua alma, toda a sua essência, e se existe algo que você viveu sem ela, esqueça, anule da sua cabeça, elas percebem como você trata sua mãe, percebem como trata o amigo, como trata a garçonete, elas observam tudo ao redor, não querem você, você é só um ornamento, elas querem todo o universo que o cerca, defeitos já esquecidos, passado recente, trechos de sorriso, afetos antigos.”


     “A vida é um pesadelo do qual não se desperta.” (Almeida Garret)


     “Ah! Deixa pra lá, problema de família, quando você pensa que tá tudo bem, surge alguém lá do inferno e te aborrece, você sabe, ninguém sabe machucar mais do que família.”

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