A conversão de São Paulo

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domingo, 11 de outubro de 2015

Bukharin: uma biografia política (1888-1938) (Parte II) – Stephen Cohen

Editora: Paz & Terra
ISBN978-85-2190-551-6
Tradução: Maria Inês Rolim
Opinião: ****
Páginas: 572
     “Em 1921 Bukharin dissera irreverentemente: “A história da humanidade se divide em três períodos – o matriarcado, o patriarcado e o secretariado”.”


     “Percebendo que a luta pessoal derivava da luta de tendências políticas, Bukharin dedicou-se ao que considerava a questão principal e não levou em conta as queixas legítimas da oposição quanto a burocracia e burocratização da vida partidária. Talvez não tivesse opções, dada sua concepção da NEP e as propostas econômicas da esquerda. Cinco anos mais tarde, porém, quando se tornou ele próprio vítima do aparelho stalinista, repetiria as acusações feitas por Trotsky em 1923 – como anteriormente de Zinoviev e Kamenev. Parte da tragédia dos velhos bolcheviques reside aí: durante sete anos brigaram entre si por causa de princípios, enquanto um intrigante ia se fortalecendo cada vez mais, até ter força suficiente para destruir a todos.”


     “Era uma antiga tradição do Marxismo original e do bolchevismo não inserir valores morais em avaliações sociais.
     A tradição vinha do próprio Marx. Embora grande parte de sua obra esteja imbuído de indisfarçável moralismo, Marx sempre fez questão de afirmar que o estudo da sociedade e da história em geral deveria evitar qualquer forma de abordagem ética. Recusava-se a raciocinar em quaisquer termos a não ser leis de determinada época, como se evidencia em sua famosa frase: “O direito jamais pode estar acima da estrutura econômica da sociedade e de seu desenvolvimento cultural assim condicionado”. Esta era, a seu ver, a distinção entre seu socialismo científico e as fantasias dos socialistas utópicos. Marx desprezava e achava ridículo o programa de Gotha de 1875 – cujas reivindicações de “direitos iguais” e “distribuição equitativa” considerava “baboseira” e “contrassenso ideológico em torno de direitos e outros disparates tão comuns entre os democratas e os socialistas franceses”. Este preconceito contra julgamentos éticos influenciou muito os primeiros marxistas, que o conheciam bastante bem. Mais tarde, o revisionismo de Bernstein tentou a conciliação do socialismo marxista depurado de certezas “científicas” com a ética kantiana, patenteando a estreita conexão das hipóteses antiéticas e científicas do marxismo original e avançando ainda mais naquela direção duplamente suspeita.
      Sob este aspecto, a posição de Bukharin antes de Outubro era absolutamente ortodoxa. Em 1914 ele escrevera: “Nada mais ridículo (...) que tentar fazer da teoria de Marx uma teoria ‘ética’. A teoria de Marx é regida por uma única lei natural, a lei de causa e efeito; e é inadmissível que possa ser regida por qualquer outra lei”. “A retórica ética”, prosseguia Bukharin, é algo “que não precisamos levar a sério”. Após 1917, a tradição antiética mesclou-se ao processo bolchevique de tomada de decisões, revelando-se muitas vezes sob a forma de desdém para com interdições morais acaso opostas a “condições objetivas”. Este tipo de raciocínio foi muito comum durante a guerra civil, quando os excessos cometidos pelo partido foram classificados de necessidade histórica, ou vistos como meios que os fins socialistas justificavam (racionalização, aliás, para qual Bukharin muito contribuiu na obra A Economia Mundial e o Imperialismo). O término da guerra civil, contudo, não alterou esta perspectiva. Em 1922, atuando como defensor no julgamento dos socialistas-revolucionários, Bukharin negou-se a basear sua tese de defesa em premissas “morais”. Preferiu apoiar-se no único critério admissível, o da “conveniência política”. E em 1924, redarguindo a declarações antibolcheviques de Ivan Pavlov, Bukharin afirmaria mais uma vez que não era fiel “ao imperativo categórico de Kant nem ao mandamento moral cristão, mas à “conveniência revolucionária”. Um ano mais tarde, lamentaria que “se substituíssem com demasiada frequência os arrazoados sensatos por arrazoados morais, absolutamente alheios à política”.
      Ainda nos anos 20, Bukharin também seria vítima de igual tipo de queixa, uma vez que assumiu uma posição na política interna em que o padrão ético se destacava, contrariando a antiga tradição e até algumas de suas próprias assertivas anteriores. Na oposição de Bukharin à política anticampesinato, a “retórica ética” esteve sempre presente – desde dezembro de 1924, quando chamou pela primeira vez a lei de Preobrajenski de “analogia monstruosa” e de “sonho assustador”, até 1929 quando acusou o programa stalinista de ser uma “exploração feudo-militar do campesinato”. Com base nisto, Preobrajenski imputou a Bukharin “explosões de indignação moral”. Referindo-se à classe operária, Marx dissera certa vez: “Ela não tem ideais a realizar...”. Para Bukharin, a necessidade de realizar um ideal estava no centro da missão histórica do bolchevismo.”


     “O que Bukharin concebia como exemplo de capitalismo atroz fora exposto por Marx. Ocorrera no período da “acumulação capitalista primitiva” e da expropriação impiedosa dos produtores não-capitalistas, quando “campeavam a conquista, a escravização, o roubo, o assassinato, em suma, a força”. Tudo isto, que no capitalismo equivalia ao “pecado original”, constituía “o processo histórico de separar o produtor dos meios de produção”, a “transformação da exploração feudal em exploração capitalista”, que segundo Marx “fazia o capitalismo pingar sangue e sujeira por todos os poros, da cabeça aos pés”.”


     “Os combates intrapartidárias de 1923-29 foram tentativas prolongadas de recompor o poder e a autoridade antes exercidos por Lênin, embora fosse inimaginável a ideia de um sucessor de Lênin – um “Lênin de hoje”. Lênin exercera na liderança e no partido uma autoridade ímpar, que provinha, entre outras coisas, da sua condição de criador e impulsionador do partido, da propriedade de tantos de seus juízos políticos (mesmo diante de fortes oposições) e da força de sua personalidade, capaz de unir e convencer os companheiros rebeldes. Sua autoridade não provinha de cargos oficiais. Como fez ver Sokolnikov: “Lênin não era presidente do Politburo, nem secretário-geral; mesmo assim (...) cabia ao camarada Lênin a palavra política decisiva no partido”. Lênin possuía, como se disse recentemente, uma espécie de autoridade carismática inseparável de sua pessoa e independente de respaldos constitucionais ou institucionais. (...)”
      Assim, o chefe morto deveria ser substituído por um grupo de herdeiros. A princípio, o conceito de liderança coletiva era excludente, e dele não constavam necessariamente todos os bolcheviques mais destacados, nem sequer todos os membros do Politburo. Incluía-se apenas o “núcleo básico de leninistas”, cinco dos seis nomes citados no “testamento” de Lênin: Trotsky, Stalin, Zinoviev, Kamenev e Bukharin. Embora quase não se fizessem referências abertas ao fato, era de conhecimento geral que cada um destes nomes representava parte do legado de Lênin, e que seu conjunto personificava a autoridade legítima do partido; deveriam portanto governar coletivamente, todos ou alguns deles. Rykov e Kalinin, para dar dois exemplos de peso, não eram essenciais no caso, mesmo sendo figuras do alto escalão. Não encarnavam a gestalt bolchevique ou a autoridade do partido. Ficava implícito, embora não se declarasse, que poucos membros do Politburo eram primio inter pares. Estes, como diziam às vezes os observadores, constituíam o “Olimpo bolchevique”. Stalin, que percebia tais distinções com rudeza, mas bastante bem, usou em 1928 uma metáfora semelhante para aludir ao fato. Conversando com Bukharin sobre os nove componentes do Politburo, entre os quais já não se contavam Trotsky, Zinoviev e Kamenev, disse: “Você e eu somos os Himalaias; os outros são nada”.
      Mas em 1925 havia cinco “Himalaias” que poderiam ser vistos como herdeiros autorizados de Lênin. Cada um deles apresentava certa combinação dos elementos que conferiam legitimidade, a saber: 1) ter sido membro do círculo íntimo de Lênin, antes e depois de 1917; 2) ter um histórico heroico-revolucionário, cuja prova de fogo fosse 1917; 3) ter envergadura de internacionalista revolucionário; e 4) ser reconhecido como “marxista destacado”, ou seja, como teórico. Nenhum oligarca apresentava suas credenciais em perfeita ordem. A posição de Zinoviev e Kamenev (considerados uma só entidade) era confortável no primeiro item, porém menos firme no segundo, pois ambos se haviam oposto à insurreição em 1917; Trotsky, por sua vez, não tinha rivais nos itens dois e três, perdia apenas para Bukharin no item quatro, mas era muito vulnerável no item um, pois demorara a ingressar no partido. Nenhuma das credenciais de Bukharin era insuficiente: ele superava a todos no campo da teoria, tinha grande prestígio como participante de 1917 e como internacionalista, mas não podia alegar, como Zinoviev, ter integrado o grupo de Lênin antes de 1917 ou ter mantido a mesma fidelidade depois. Em pior situação encontrava-se Stalin: nada tinha a apresentar em relação aos itens três e quatro; no item dois, classificava-se atrás de Trotsky e Bukharin.
     Tais considerações, ainda que cada vez mais quiméricas (pois quem detinha maior poder era quem menos o merecia) foram levadas muito a sério, como demonstram não só a grande quantidade de biografias políticas e histórias do partido lançadas durante os anos 20, como também as tentativas de vários oligarcas para enriquecerem suas credenciais. Zinoviev e Kamenev queriam desesperadamente redimir seu opróbrio de 1917; os adversários não permitiam. Em 1925, Zinoviev procurou assumir uma posição de teórico; só conseguiu ser humilhado por Bukharin. Trotsky tentou compensar seu passado menchevique; seus adversários usaram esse passado contra eles e contestaram a ortodoxia de suas ideias anteriores a 1917. Aos poucos, Stalin ganhava algum reconhecimento no Comintern, porque superava seus rivais; como teórico, porém, era inteiramente desconhecido. Tinha uma atormentada consciência do fato, como Bukharin descobriu em 1928: “Consome-o o desejo de ser reconhecido como um teórico. Ele pensa que isto é a única coisa que lhe falta”.”


     “Ao contrário do que ocorreria mais tarde, quando Stalin destituiu de sentido todas as credenciais deste tipo, atribuindo-as exclusivamente a si próprio (fenômeno depois chamado de “culto da personalidade”), a teoria do partido era muito importante. Os rivais que reivindicavam a ortodoxia bolchevique viam-na como a orientação mais segura para a política apropriada e como o indicador mais válido da correção revolucionária. Na opinião de todos, política e teoria eram a mesma coisa. Ou como disse em 1929 o stalinista Lazar Kaganovitch: “A traição na política começa com a revisão da teoria”.”


     “O foco das desavenças de política internacional foram as avaliações conflitantes acerca do vigor do capitalismo ocidental e da provável iminência de situações revolucionárias. Daí nasceram controvérsias sobre a natureza do “terceiro período”, cujo advento fora oficialmente anunciado e definido de várias maneiras em 1927. Segundo os stalinistas, eram eminentes profundas crises internas e levantes revolucionários nas sociedades capitalistas avançadas, desde a Alemanha até os Estados Unidos. Por isso, impunham-se três exigências táticas. Primeiro, os partidos comunistas dos outros países tinham de se preparar para tempos tempestuosos, e para tanto traçar rumos absolutamente independentes, recusar toda colaboração de socialdemocratas e – sobretudo – criar seus próprios sindicatos rivais – em suma, cindir o movimento operário europeu. Segundo, os partidos comunistas deveriam anular neste processo a influência reformista sobre a classe operária, atacando os partidos socialdemocratas. Na opinião dos stalinistas, estes últimos estavam abandonando o pretenso reformismo em prol do “social-fascismo” e tornavam-se o inimigo principal do movimento operário. E por fim, todos os partidos comunistas deviam preparar-se para a luta revolucionária, expulsando de suas fileiras qualquer dissidente, em especial os “desviacionistas de direita” que as novas circunstâncias haviam transformado no maior perigo interno. (...)
      Deste modo começou a malfadada trajetória do Comintern para o extremismo. Ela terminaria em desastre cinco anos depois, tendo contribuído para a destruição do antes poderoso movimento operário alemão, tanto do Partido Comunista quanto do Partido Socialista, e assim propiciando a ascensão de Hitler ao poder.
     Tudo isto representava um violento repúdio à política de Bukharin para o Comintern. Como vimos, a concepção bukharinista dos sistemas capitalistas avançados – atualizada e reafirmada em 1926-27 e novamente no VI congresso do Comintern – vinha de sua teoria do “capitalismo de Estado”, anterior à guerra. Segundo Bukharin, no “terceiro período” do capitalismo não haveria colapsos internos, e sim uma estabilização maior, em nível tecnológico e organizacional mais elevado. Seriam inevitáveis levantes revolucionários; mas no Ocidente tais levantes nasceriam de “contradições externas” trazidas pela guerra imperialista, e não de crises internas isoladas. Logo, para Bukharin e seus seguidores, a assertiva de que o capitalismo ocidental estaria à beira do colapso revolucionário era “radicalmente errada, taticamente nociva e cruelmente equivocada do ponto de vista teórico”; aceitar tal assertiva seria “perder contato com as relações reais”. O constante desenvolvimento dos sistemas de capitalismo de Estado pedia a união da classe operária, e não aventuras sectárias quixotescas, que só poderiam levar ao “isolamento” dos partidos comunistas e à “tragédia” da classe operária.”


     “Bukharin também cita uma carta inédita escrita por Lênin a ele e a Zinoviev no início dos anos 20: “Se descartarmos todas as pessoas inteligentes, ainda que não muito obedientes, e mantivermos apenas os tolos que sempre obedecem, com absoluta certeza destruiremos o partido.”


     “Falando a um congresso de ateus, em junho de 1930, Bukharin protestou sutilmente contra o clima de crescente intolerância e contra a exigência do stalinista de se obedecer ao partido sem formular qualquer crítica. O Marxismo, como argumentou Bukharin, era pensamento crítico, não dogma ou fórmula sem vida; e a divisa preferida de Marx, como reafirmou, era “Duvidar de tudo”.”


     “Para entender os últimos oito anos de vida de Bukharin, é preciso entender a natureza da “revolução pelo alto”, promovida por Stalin, e todo o seu impacto. Considerada em termos globais, a revolução durou dez anos – de 1929, início da coletivização forçada, a 1939, quando o sangrento expurgo stalinista começou a atenuar-se. Segundo todos os critérios de mudança social, a revolução foi um processo importantíssimo, que alterou radicalmente não apenas as bases econômicas e sociais da sociedade soviética, mas também a natureza de seu sistema político. Nos anos 30, ao longo desse processo, delineia-se a União Soviética atual, com seu grande poderio militar-industrial, e se estabelece o stalinismo, novo fenômeno político.
     Entre 1929 e 1936, período de implantação do primeiro e do segundo plano quinquenais, a “grande mudança” stalinista foi basicamente uma revolução econômica, misto de coação brutal, heroísmo notável, catastrófica loucura e fatos memoráveis. Poucas metas do primeiro plano foram cumpridas no prazo previsto. Mas suas conquistas efetivas, consolidadas e expandidas a uma taxa anual de 13-14% durante o segundo plano, mais modesto e pragmático, lançaram os fundamentos de uma sociedade industrial e urbana. Em 1937, a indústria pesada produzia de três a seis vezes mais que em 1928, dependendo dos índices de avaliação utilizados; a produção siderúrgica quadruplicara, a produção de carvão e cimento aumentara mais de 300%, a produção de petróleo mais de 100%; a produção elétrica crescera 700%, a produção de implementos mecânicos era 20 vezes maior. Velhas fábricas foram ampliadas e reaparelhadas, surgiram novas cidades, novas indústrias e centrais elétricas, muitas delas em áreas até então atrasadas. Duplicaram a mão-de-obra industrial e a população urbana. O número de estudantes passou de 12 milhões para mais de 31 milhões em 1939, fora ter-se erradicado o analfabetismo entre a população com menos de cinquenta anos.
     Igualmente espetaculares foram os custos deste salto para a modernidade econômica. Para uma minoria dedicada – quase toda formada por membros do partido, mas onde se incluíam também pessoas do povo – este foi um período de entusiasmo genuíno, atividade febril e sacrifício voluntário. Para a maioria da população, inclusive os milhões de indivíduos deportados, confinados em campos de trabalho ou pura e simplesmente eliminados, foi um período de repressão e miséria. Durante muito tempo se fez sentir na vida soviética o impacto devastador da concentração de recursos na indústria pesada, da extinção da atividade manufatureira e do comércio privados, do virtual colapso da agricultura nos anos de coletivização, dos desperdícios decorrentes da má administração, fracassos crônicos, mau uso de equipamentos danificados e não habilitação da mão-de-obra. Nas cidades, menos afetadas, declinou acentuadamente o espaço habitacional, e em 1932 o consumo per capita de carne, gordura e aves era apenas um terço do que fora em 1928. Os operários das fábricas já não tinham direito de mudar de emprego sem permissão oficial, e sofriam pesadas penalidades por faltarem ao trabalho; por outro lado, os salários reais caíram cerca de 50% no início dos anos 30. Filas e racionamento se tornaram rotina; bens de consumo e serviços praticamente desapareceram.
     A natureza do conflito ficou clara em janeiro-fevereiro de 1930. Segundo as ameaçadoras diretrizes de Stalin e procedendo ao expurgo dos “direitistas”, as autoridades locais desencadearam um império de terror contra os kulaks recalcitrantes e contra os camponeses pobres e médios. Em março, estavam coletivizados mais de dez milhões de famílias, o que representava 50% das propriedades familiares. No entanto, o holocausto obrigou Stalin a interromper por algum tempo o processo, fato anunciado num singular artigo que atribuía aos funcionários locais a culpa pelos “excessos”, por terem “enlouquecido com o êxito”. Houve então um êxodo maciço das fazendas coletivas, e o percentual de propriedades familiares coletivizadas caiu de 57,6% em março para 23,6% em junho. Mas o recuo chegara tarde demais para evitar a catástrofe. Segundo cifras anunciadas em 1934, já haviam morrido mais da metade dos cavalos das áreas rurais, 70 milhões de reses, 26 milhões de porcos e dois terços do rebanho ovino e caprino, de 146 milhões de cabeças. E isto ocorreu principalmente em janeiro-fevereiro de 1930, período que a história oficial chama pejorativamente de “a marcha da cavalaria”. Dificilmente catástrofe maior poderia se abater sobre uma sociedade agrária. Vinte e cinco anos mais tarde, os rebanhos ainda não tinham voltado aos níveis de 1928.
     O Estado retomou a ofensiva ainda em 1930, de modo mais deliberado, porém em nível quase igual de coação. Em 1933, as áreas rurais ainda sofriam repressões “em escala extraordinária”. Em 1931, haviam sido recoletivizadas 50% das propriedades familiares, percentual que em 1934 já se elevara para 70%; o restante seria coletivizado em pouco tempo. O fim da resistência camponesa, que encerrou uma guerra desigual, foi determinado pela fome criada deliberadamente em 1932-33, uma das piores da história russa. O Estado apoderou-se da pequena safra de 1932 e não distribuiu os cereais nas áreas rurais. Relatos da época dão conta de aldeias abandonadas, casas queimadas, deportados conduzidos para o norte em carroças de transporte de gado, hordas errantes de mendigos, camponeses famintos, casos de canibalismo, cadáveres insepultos de homens, mulheres e crianças; em suma, as áreas rurais foram devastadas, inteiramente vencidas. Em consequência direta da coletivização, morreram pelo menos dez milhões de camponeses – talvez bem mais –, metade deles durante a fome de 1932-33.
     Quando tudo acabou, 25 milhões de empresas privadas haviam sido substituídas por 250 mil fazendas coletivas, controladas pelo Estado e obrigadas a entregar percentagens de suas reduzidíssimas safras a preços muito baixos. A coletivização forçada, instrumento básico da revolução econômica stalinista, foi também sua singular inovação. Jamais qualquer bolchevique propusera algo remotamente semelhante ao que ocorreu em 1929-33. A coletivização sempre fora encarada como uma forma de agricultura mecanizada e muito produtiva, a ser atingida num estágio superior de industrialização; jamais fora concebida como meio de requisição ou instrumento primitivo de uma exasperada industrialização. (Só na tradição czarista seria possível encontrar algum precedente semelhante, como chega a sugerir o próprio Stalin, que sabidamente admirava Pedro, o Grande.) Qualquer outro programa agrícola provavelmente teria sido mais produtivo e bem menos destrutivo. Contudo, não se pode negar que Stalin conseguiu um feito: o controle do Estado sobre o campesinato, parcela majoritária da população, anteriormente autônoma; este controle possibilitou uma espécie de “exploração feudal-militar”. As estatísticas de 1933 dizem tudo: a safra de grãos foi inferior à de 1928 em cinco milhões de toneladas, mas as requisições estatais duplicaram.
     Em 1934, os piores extremismos da industrialização e da coletivização já tinham passado, e seguiram-se dois anos de relativo abrandamento e de progresso econômico. Além disso, no início dos anos 30 houve mudanças políticas significativas, que recordam o aforismo de Kliuchevski acerca da história czarista: “O Estado avolumou-se; o povo empobreceu”. Num contexto de violência social e militarização, proliferavam as burocracias centralizadas cuja função era administrar a economia estatal em expansão, policiar a população cada vez maior dos campos de trabalho, controlar as atividades e os movimentos dos cidadãos (nessa época voltaram a ser adotados os passaportes internos) e regulamentar a vida cultural e intelectual. Começara também a metamorfose da ideologia e das políticas sociais do partido-Estado. Em fins dos anos 30, uma vez concluída essa metamorfose, foram oficialmente repudiados o experimentalismo revolucionário, a legislação progressista e o igualitarismo na educação, no direito, na vida familiar, nas rendas e no comportamento social em geral – ou seja, tudo quanto prevalecera no período 1917-29. Adotaram-se normas tradicionais, autoritárias, que prefiguravam o resultado paradoxal da revolução stalinista: o advento de uma sociedade rigidamente conservadora e muito estratificada. Surgiam ainda outros aspectos do stalinismo maduro, como o culto a Stalin e a falsificação da história do partido, o renascer oficial do nacionalismo russo, a reabilitação da história czarista e a rejeição de algumas importantes perspectivas marxistas.
     Mas, apesar de tudo, ainda não houvera qualquer mudança política comparável à revolução econômica de 1929-33. O centro do sistema continuava sendo o Partido Bolchevique, seus principais órgãos e tradições; permaneciam atuantes suas figuras de maior destaque (várias delas rebaixadas, mas ainda exercendo cargos de responsabilidade), suas elites e seus quadros basicamente pré-stalinistas. Sob este aspecto, o sangrento expurgo realizado por Stalin em 1936-39 representou o segundo estágio – aquele propriamente político – da revolução pelo alto. A sociedade soviética foi tiranizada por três anos de terror, de prisões e execuções em massa orientados por Stalin e seus assessores mais próximos, que agiam através da polícia secreta, a NKVD. De sete a oito milhões de pessoas, no mínimo, foram presas; cerca de três milhões foram executadas ou morreram em consequências de maus-tratos. Em fins de 1939, havia nove milhões de prisioneiros nos cárceres e nos remotos campos de concentração (em 1928, este número era de trinta mil, e no período de 1933-35, de cinco milhões). Uma em cada duas famílias perdeu algum de seus membros. Foram dizimadas todas as elites dominantes – políticas, econômicas, militares, intelectuais e culturais.
     O próprio partido foi o mais atingido. Em 1934, contava com 2 milhões e 800 mil membros efetivos ou aspirantes; destes, pelos menos um milhão – stalinistas e anti-stalinistas – foram presos, e depois foram executados. A liderança mais antiga foi destruída, da base à cúpula: desapareceram comitês locais, regionais e republicanos; dos 1.966 delegados presentes ao XVII Congresso do Partido, em 1934, 1.108 foram presos, e em sua maioria fuzilados; foram executados ou levados ao suicídio 110 dos 139 membros efetivos ou suplentes do Comitê Central em 1934. Depois de Trotsky ter sido assassinado no México, em 1940, Stalin passou a ser o único membro ainda vivo do grupo dirigente leniniano. O terror apresentava uma explicação oficial: visava aos “inimigos do povo” que participavam de uma vasta conspiração de sabotagem, traição e assassinatos contra o Estado soviético. Todas as acusações criminais eram falsas, embora apresentadas com abundância de detalhes nos três julgamentos exemplares de velhos bolcheviques, realizados em 1936, 1937 e 1938 – dos quais o mais importante foi o último, o de Bukharin.
     O sangrento expurgo stalinista foi uma revolução – embora menos aparente – “tão absoluta quanto qualquer outra transformação anteriormente ocorrida na Rússia”. O Partido Bolchevique estava destruído e criara-se um novo partido, com membros e ethos diferentes. Só 3% dos delegados presentes ao congresso de 1934 – o último antes do expurgo – compareceram ao congresso de 1939, 70% dos membros haviam ingressado no partido após 1929, ou seja, já no período stalinista; apenas 3% dos membros estavam no partido desde antes de 1917. Em fins dos anos 30, o sistema político soviético já não representava, sob aspecto algum, uma ditadura ou governo de partido. Mantinha-se a fachada de continuidade institucional e a ficção oficial, mas Stalin se tornara autocrático e fizera do partido um dos vários instrumentos de sua ditadura pessoal. Após 1939, foram raras as reuniões dos órgãos deliberativos partidários, do Congresso, do Comitê Central e até mesmo do Politburo. Na verdade, até a morte do ditador, em 1953, o partido teve menos poder que a polícia, e mereceu menos consideração oficial que o Estado.”


     “Numa óbvia alusão a si mesmo, Bukharin citou as palavras de Engels acerca do dilema enfrentado por Goethe: “ter de existir num contexto que não podia deixar de desprezar, e estar acorrentado a este contexto, uma vez que era o único onde poderia atuar...”.”


     “Já durante a guerra civil Bukharin chamara a atenção para um aspecto básico e muito importante da personalidade de Stalin: “Stalin só consegue viver se tiver o que os outros têm. É algo que não consegue perdoar”; “sente um ciúme insuperável de quem quer que saiba mais que ele, ou seja melhor que ele”. Os demais oponentes do secretário-geral cometeram, quase todos, o erro de considerá-lo “um mero político provinciano”, ou “a mediocridade mais notável do partido”. Bukharin parece ter concluído que um demônio interior alimentava a ambição pessoal de Stalin. (...)
     Tal como em 1928, Bukharin percebia que estava em processo uma compulsão insaciável, tanto psicológica quanto política. Conforme a explicativa, Stalin “esta desesperado porque não consegue convencer a todos, nem mesmo a si próprio, de que é superior a todo mundo. (...) Seu desespero leva-o a vingar-se nas pessoas, em todas as pessoas, sobretudo naquelas que são de alguma forma superiores a ele ou melhores que ele...”.”


     “Sabendo que sua prisão era iminente, ao voltar para casa após a sessão do Comitê Central, Bukharin escreveu à futura geração de líderes do partido uma última carta, que pediu à esposa que decorasse.
     “Percebo meu desamparo”, começava, “ante uma máquina infernal que (...) passou a deter um poder gigantesco, fabrica difamações organizadas, age com ousadia e confiança (...).” A polícia de Stalin, continuava Bukharin, era
      “uma organização degenerada de burocratas sem ideias, corruptos, bem pagos, que utilizam a antiga autoridade da Tcheka para satisfazer a desconfiança mórbida de Stalin. (...) Qualquer membro do Comitê Central, qualquer membro do partido pode ser aniquilado, transformado em traidor, em terrorista, em desviacionista, em espião, por esses ‘órgãos que operam prodígios’”.
        Declarando-se inocente de qualquer crime, Bukharin escreve que acusá-lo de ser inimigo da revolução e agente capitalista era o mesmo que descobrir que o último czar “dedicara sua vida inteira à luta contra o capitalismo e a monarquia, à luta em favor (...) da revolução proletária”. Dirige-se aos futuros líderes do partido,
     “que terão a missão histórica de dissipar a monstruosa nuvem de crimes que se torna cada vez mais imensa nestes tempos assustadores, incendiando-se como uma chama e sufocando o partido. (...) Agora, nestes dias que serão provavelmente os últimos de minha vida, tenho confiança de que mais cedo ou mais tarde o filtro da história inevitavelmente retirará a vileza que pesa sobre minha cabeça. (...) Peço que uma geração jovem e honesta de líderes do partido leia minha carta ante um pleno do partido, a fim de me absolver. (...) Saibam, camaradas, que nesse estandarte que vocês conduzirão na marcha vitoriosa para o comunismo, há também uma gota do meu sangue”.
     Quando o Comitê Central volta a reunir-se, Bukharin lê uma declaração irada e emocionada onde defendia a si mesmo e a Rykov. Segundo um relato que circulou em Moscou, basicamente confirmado por outras fontes, reconhece estar em marcha “uma conspiração monstruosa” – liderada por Stalin e Yejov, que pretendiam estabelecer uma ditadura pessoal baseada no poder da polícia “sobre o partido e o país. (...) Por isto precisamos ser eliminados”. Depois, voltando-se para Stalin, faz a seguinte acusação:
     “Recorrendo ao terrorismo político e a atos de tortura em escala até agora inaudita, você forçou velhos membros do Partido a apresentarem ‘depoimentos’. (...) Você tem à disposição uma multidão de informantes pagos. (...) Pode usar o sangue de Bukharin e Rykov para levar avante o coup d’état que vem preparando há muito tempo...”.
     Ressaltando mais uma vez que não estava em jogo seu próprio destino, mas o destino do país, Bukharin implora ao Comitê Central “que retorne às tradições de Lênin e chame à ordem os conspiradores policiais que se escondem sob a autoridade do Partido. Hoje, quem governa o país é a NKVD, e não o Partido. Quem esta preparando um coup d’état é a NKVD, não os partidários de Bukharin”.

     Quando Bukharin pediu que fossem investigadas as práticas da polícia, Stalin interrompeu-o dizendo: “Muito bem, vou mandá-lo até lá e você mesmo poderá ver”.
     Depois de a opção ter ficado bem clara, um membro suplente do Politburo, Postyshev, falou em nome dos que se opunham ao expurgo: “Pessoalmente, não creio que (...) um membro honesto do partido, que percorreu o longo caminho da luta incansável contra os inimigos, pelo partido e pelo socialismo, esteja agora em campo inimigo. Não acredito nisto...”. Diz-se que neste momento uma intervenção ameaçadora de Stalin abalou a determinação de Postyshev. Ele e outros oradores que pensavam da mesma forma começaram a recuar e a calar suas dúvidas, embora evidentemente não todas. Vendo que levava vantagem, Stalin recorre a uma tática bem conhecida. Fingindo neutralidade, deixa os ataques a Bukharin e Rykov a cargo de seus prepostos do terror, e designa uma comissão – onde predominavam estes mesmos prepostos – para decidir os destinos de ambos.
     No dia 27 de fevereiro, a comissão apresenta seu veredito: “Prisão, julgamento, execução”. Recebe o endosso da maioria do Comitê Central, de cujos membros 70% morreriam nos meses seguintes. Bukharin e Rykov foram presos nos próprios lugares que ocupavam e transferidos para Lubianka, a maior prisão política do país. Treze meses depois, voltariam a ser vistos, já como réus do último e mais importante dos julgamentos do expurgo de Moscou.”


     “É impossível considerar o stalinismo como o marxismo-leninismo ou o comunismo de três décadas. O stalinismo são as perversões que Stalin introduziu na teoria e na prática do movimento comunista. Trata-se de um fenômeno absolutamente estranho ao marxismo-leninismo, trata-se de pseudocomunismo e de pseudosocialismo...
     O processo de purificação do movimento comunista, de eliminação de todos os resquícios da imundície stalinista, ainda não terminou. É preciso levá-lo até o fim.” (Roy A. Medvedev)

2 comentários:

Doney Stinguel disse...

Além de ser um livro muito bem escrito, uma coisa a se destacar sobre a obra é a amplitude da pesquisa feita pelo autor.
Apenas para que se tenha ideia, são mais de mil e quinhentas citações ao longo da biografia.
Um feito notável.

Sugestão de Livros disse...

Livro interessante.