segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Monstros e Monstrengos do Brasil – Afonso de Escragnolle Taunay

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-7164-792-3
Organização: Mary del Priore
Opinião: ****
Páginas: 270

     “A única extravagância na parte dos peixes em A Histoite de la mission des pères capucins em l’isle de Maragnan é a que diz respeito aos poraquês, peixes a que não fazem a menor mossa as mais violentas cutiladas, tanto lhe são moles e gelatinosos os tecidos. Impossível se torna trespassá-lo. Passando aos mamíferos, reedita frei Cláudio a velha história de que nos nossos suídeos têm uma espécie de válvula no centro da coluna vertebral “por onde exalam suavíssimo odor”. Ainda bem.”


     “É preciso lembrar, porém, quanto as narrativas mentirosas, exageradas ou crédulas dos viajantes contribuíram para entreter uma atmosfera de crendices, por vezes grosseiríssimas, em torno dos assuntos da história natural.
     Nem sempre seriam desleais os informantes dos tratadistas, frequentemente até conduzidos pela própria tendência da boa-fé universal em acreditar nos depoimentos de informantes boçais e selvagens, sugestionados pelas superstições.
     Daí essa enorme massa de escritores sobre as terras recentemente descobertas, onde formigam as mais extravagantes baboseiras.”


     “O desprezo é o mais próprio castigo para a soberba.” (Padre Antonio Vieira)


     “Na espécie humana as questões de simpatia se mostravam curiosíssimas.
     Por exemplo, em Bruxelas, havendo certo sujeito rico perdido, em uma rixa, o nariz, comprou-o de um pobre-diabo, a quem o cirurgião amputou o apêndice, transferindo-o ao rosto do desfigurado rixento. Pois bem, ia tudo às mil maravilhas quando, passados treze meses, começou o tal nariz comprado a apodrecer, caindo logo depois. Por quê? Porque o desnarigado que o vendera havia morrido!
     Coisa muitíssimo sabida: os picados da tarântula só ficavam curados quando os aracnídeos agressores morriam!
     Também coisa incontestável: os pós simpáticos deitados à urina de um enfermo e metidos em uma garrafa, bem tapada e coberta de cinza quente, faziam o doente transpirar apenas se aquecia o líquido. E o cirurgião-mor, dr. Torres, afiançava que “os efeitos de tais eflúvios eram tão poderosos que se faziam sentir até uma légua de distância”!
     Mas simplesmente pasmoso vem a ser o que o cavaleiro professo na Ordem de Cristo e fidalgo da Casa Real, Pedro de Norberto de Aucourt e Padilha relata do caso de uma criança castigada, de certa e pouco olorosa travessura, por meio de simpatia.
     Ouçamos-lhe as próprias e interessantes palavras neste relato em que pessoalmente figura: “Pouco tempo há que no jardim de minha quinta, achando-se entre as murtas um asqueroso depósito, mui oposto à fragrância das flores, lhe deitaram um pouco de brasido para castigar o autor dessa imunda travessura; e não passaram dois dias, que uma criança que confessou tê-la cometido não estivesse com a parte inferior tão queimada, que fazia lástima vê-la e foi necessário curá-la”. (...)
     Os mordidos das aranhas da Albânia morriam, uns rindo, inextinguivelmente e os outros chorando interminavelmente.
     Tal o caso relatado pelos doutores Ludovico Bartema e o Odoardo Barbosa. Certo rei de Cambaia, criado desde pequeno com veneno, era tão pestilento, em seus humores, que tudo quanto tocava deixava apestado. Bastava cuspir em uma pessoa para a matar! “Nenhuma de suas mulheres chegou a ter mais vida que a noite de seu noivado”.
     Assim Sua Majestade de Cambaia se mostrava mil vezes mais mortífero do que o Barba Azul, que praticava a infância da arte da poligamia com seu famoso gabinete de mulheres dessangradas.
      Aos fenômenos da simpatia se prendiam os casos intitulados de “vistas perniciosas”. Enquadrava-se aí aquele a que se referiam notáveis autores, como Plínio e Solino: a da cabra Catolesa, da fauna líbica, cujo bafo envenenava o ar e fazia morrer os viventes que a ela se chegavam. Não havia muito, toda a França se admirara do caso relatado pelo Journal de Verdun em novembro de 1735, verdadeiramente prodigioso. O do sujeito que pondo-se a fitar um sapo fazia com que o animal, dentro em pouco, caísse em convulsões e logo depois morresse. Mas de repente, um belo dia, se soubera que, repetindo experiência com certo sapo, pusera-se o batráquio a olhá-lo com tal arrogância, que o fizera cair, desmaiado a ponto de todos o imaginarem morto.
     Os romanos, segundo Plínio, sabiam da existência, na Cítia, de mulheres que tinham as meninas dos olhos dobradas, fazendo morrer todas as pessoas a quem fitavam.
     Ainda em 1710 a Academia das Ciências de França abraça a opinião de que dos ovos de galinha sem gemas gerava-se o basilisco, o pestífero lagarto de tão perigosos olhares.
     Em Nápolis queimara-se, em praça pública, um sujeito que prostrava morta qualquer pessoa, com a simples vista. Ao começar o suplício, confessara que destarte trucidara um bispo!
     Mas não faltava quem objetasse: por que então não matava os juízes que o haviam condenado?”


     “Doenças extravagantes relata-nos a Aucourt em barda, citando a de certo pastor francês, homem alto e rijo, a quem em tempo os ossos lhe amoleceram a ponto de poder dobrá-los! A sua estatura minguara acabando o pobre de ficar do tamanho de um menino de três anos.
     Continuando a sua resenha de fatos extraordinários, lembra Aucourt e Padilha, a propósito da relação entre a sobriedade e a duração da vida, o caso espantoso de certo frade trino, frei Luís Salazar, que pereceu no terremoto de Lisboa.
     Com cem anos de idade, comia e bebia por cem homens, toda a casta de manjares e diversidade de bebidas, “apesar da pasmosa raridade de que jamais descomia sem o intervalo de quinze ou vinte dias: a não ser empenhar toda a terra no golpe de sepultá-lo, parece que ele e o mundo veriam ao mesmo tempo o seu fim”.
     Nos capítulos sobre “pessoas decrépitas que tiveram sucessão e outras que tiveram grande número de filhos”, lemos coisas interessantíssimas. Assim, se narra o caso, averiguado, indesmentível, de Echtilde, condessa de Holanda que com um só parto aumentou o número dos batavos de 366 unidades, de ambos os sexos!
     Nas páginas sobre a antecipação do entendimento recolhe o fato espantoso do menino de Lübeck Cristiano Herecken, nascido em 1721. Aos treze meses sabia as Escrituras Sagradas de cor e salteado! Aos dois anos e meio estava senhor da geografia e da história e falava latim e francês perfeitamente. Aos três anos era insigne genealogista e aos quatro morrera na Dinamarca, aonde fora cumprimentar o rei deste país.
     Duvidassem os críticos de tal prodígio!, quando uma série de autores doutíssimos os abonavam. Ele, Aucourt e Padilha, lhes responderia esmagando-os com os conceitos do grande Feijó! “Nuestro grossero modo de discurrir la possibilitad al extrechisimo ambito de la experiencia. Aquello que nunca vemos imaginamos repugnante. Como si lo poco que Dios haze presente á nuestra vida fuesse el ultimo esfuerzo de la omnipotencia. Poner raya a lo possible es poner-se-la al todo poderoso”.
     Continuando a sua resenha, passa o mestre Padilha a tratar das crianças de extraordinária vida uterina. Assim, nos conta da duquesa de verdade, de quem falava o douto autor Alberto Gratz: “pejada durante dois anos, tivera um rapaz que não só andara logo depois de nascer, como falava perfeitamente tudo”.!”


     “Se havia gigantes (o que era incontestável!) por que não existiriam anões?
     Assim se sabia que o poeta grego Filitas fora tão pequeno que lhe punham chumbo aos pés para que o vento o não carregasse!
     E como poderia então mover-se o pobre vatezinho? É o que não pormenoriza o nosso douto autor.
     O imperador Augusto possuía um anão tendo de altura apenas dois palmos. Era perfeitamente proporcionado e dispunha de retumbante voz!
     Passando a tratar das anomalias, relata o nosso autor um rosário de fatos extraordinários, dos quais escolheremos alguns.
     Apoiado na lição e opinião dos sábios, lembrava Aucourt uma série de coisas fora do comum, como as gargalhadas que Zoroastro soltara no próprio instante em que nascera, as duas ordens de dentes de Drapatine, filha de Mitridates, a dentadura íntegra de Pirro, que só tinha em cada maxilar um dente a bem dizer, etc.
     Passando a tratar das doenças extravagantes, cita o nosso Padilha a terrível peste que despovoara Constantinopla e relatada pelo doutíssimo Cardam em seu tratado sobre as coisas sutis.
     Os enfermos se supunham cheios de estocadas e morriam das imaginárias feridas!
     Sabia-se, graças a Luciano, que os abderitas, no reinado de Lisímaco, haviam sido acometidos por singularíssima epidemia: febre maligna muito violenta que, no sétimo dia, provocava hemorragias e transpiração abundantíssima.
     Mas espantoso era o seguinte: todos os doentes punham-se a recitar a tragédia Andrômeda em ar grave e fúnebre tom.
     De sorte, comenta nosso autor, que toda a cidade estava cheia destes comediantes pálidos e desfigurados que continuamente gritavam: “Oh, tirano amor dos deuses e dos homens”, desfiando melancolicamente o resto da obra.
     Só passava esta singular doença com a entrada do inverno.
     Já não era sem tempo, no enorme manicômio-conservatório de arte dramática em que se convertera a cidade abderitana mercê daquela tragimania coletiva!
     Também, que ideia do nosso Padilha, ir procurar exemplos entre gente tida e havida por todos os helenos pela quintessência da estupidez, não só da sua raça como da humanidade. Nem aos beócios, classicamente beócios, podiam pedir meças. Pobres sandeus!, que haviam excluído de sua calinádica comunidade a um dos poucos concidadãos que, como o heroico Anaxarca e o sofista Protágoras, lhes desmentia a fama de pertencerem àquele reino que o nosso Franscisco de Melo Franco cantou em acre verso. E ainda tinha perseguido a Demócrito, o risonho filósofo eternamente granizador da loucura humana, tido por seus patrícios como louco.
     Nada mais natural, pois, que estes respeitáveis cretinos passarem os dias e as noites a urrar: “Oh, tirano amor dos deuses e dos homens”, segundo um depoimento aliás suspeito, o de Luciano, cuja verve e cujo ceticismo de tudo tirava o pretexto para cobrir de ridículo as vítimas escolhidas pelo espírito implacavelmente mordaz.
     Capítulo cheio de curiosidades é o que se consagra às pessoas “que não comem nem bebem” incluindo-se aí “as humanas e as irracionais”.
     Assim, começa pela história do boi que, na Sabóia, em 1693, viveu longos meses sem nada ingerir. Mas é que na sua vizinhança havia um montão de feno, cujas partículas exaladas e introduzidas pela respiração o sustentaram todo aquele tempo, perfeitamente, e ainda lhe causaram notável aumento de peso!
     Dos tempos da antiga Grécia, se conhecia o caso de Demócrates, ancião de 109 anos, que vivera dias a alimentar-se somente com o cheiro de pão quente.
     Faz grande peso afirmar, lembra o nosso Padilha, que o cheiro pode sustentar e nutrir, como afirmam Hipócrates e Galeno. Aliás, outro autor, Marcelo Donato, reforçava esta opinião lembrando a existência de raças humanas desprovidas de boca.
     Bayle, na República das Letras, citava o caso de um douto holandês, de Harlem, que vivera quarenta dias somente das emanações de seu cachimbo. No Poitou era arquiconhecido o caso de Joana Balam, jejuadora de três anos! E Catarina Kratzer, suíça de Berna, batera este recorde elevando-o a sete anos!
     Além destes notáveis casos de temperança, outros havia não menos notáveis, como os dos lugares em que ninguém morria!, fato abonado por autores da competência de Giraldo (??) e do cosmógrafo Abraão Ortelio, famoso cartógrafo. Na ilha Momônia, os que iam pagar o tributo da condição humana punham-se a agonizar, a estertorar, infindavelmente. Eram então transportados para outra ilha, onde logo expiravam!
     Comentário gravibundo do nosso fidalgo: “Cuidava eu que estes autores apontavam lugar em que a morte se esquecia dos viventes, porque seria mais visitado que os Santos Lugares; porém, padecer as angústias sem acabar é morrer duas vezes”.
     O capítulo seguinte consagra-se a um caso brasileiro realmente digno de todo o estudo, relatado a nosso autor pelo oratoriano padre Estácio de Almeida, “sujeito tão verdadeiro como erudito”.
     Haviam saído dois jesuítas a viajar pelos sertões do Brasil. Certo dia, depois do jantar, um rapaz de sua comitiva apanhara no chão um pauzinho e dele se servira como palito. Pois, imediatamente, lhe saltaram das gengivas vários dentes!
     Merencório, lá se fora o jovem desdentado relatar o fato aos dois inacianos, que haviam partido à frente. E estes, com o maior interesse, voltaram ao lugar onde se operara a maravilhosa extração, fazendo grande diligência por encontrar o lenho de “um arbusto tão especial e útil”. Não lhes fora possível, porém, achá-lo naqueles lugares desertos e tão pouco transitados.
     Aliás, é preciso dizer que o moço se reendentara logo. Como voltasse com os dentes caídos, um negro do séquito dos padres lhos colocara no maxilar espremendo-lhes, à volta, o sumo de certa erva. “E com isto lhe ficaram arraigados”.
     Passando a discorrer sobre “virtudes atrativas”, recordava o nosso autor a existência de ímãs minerais e vegetais. Em Benguela conhecia-se uma gramínea que atraía pedaços de madeira como o ímã ao ferro.
     Certos gaviões do Oriente no sábio dizer de Eliano, gozavam de tal propriedade nas patas, mas só em relação ao ouro. E quem ignorava que o melhor desimantador da pedra de cevar era o diamante? Bastava a vizinhança deste “carbonato” para acabar com a imantação de uma agulha.
     Em Jafanaputan, Ceilão, um jesuíta vira dois cingaleses, cada qual armado de certo pau, forcejando para se afastarem e inflexivelmente aproximados pela força do ímã vegetal.
     Na seção consagrada ao raciocínio dos brutos, várias historietas sobre a inteligência dos animais nos são narradas, em grande relevo, aliás. Há, porém, casos dignos de reporte: assim a afirmação do imenso Feijó de que “o aborrecido inseto que se chama a traça tem o primeiro lugar entre os brutos de maior raciocínio”.
     E isto porque sabia abrigar o corpo contra as injúrias do tempo, “fabricando o vestido que vestia como pudera fazer um alfaiate”.
     Aliás, era sabidíssimo que o homem aprendera muita medicina observando os animais. A sangria, ele conhecera do hipopótamo. “Sentindo-se repleto, serve-se de uma cana aguda para abrir uma veia da perna, que, depois de lhe correr bastante sangue, veda com limos”.
     O leão, sentindo-se indigesto, tratava-se de arranjar logo o único purgante que lhe convinha, procurando apanhar um desses “animais de trejeitos delirantes”, seguindo a definição do bom padre Bacelar: o bugio.
     A cegonha só ingeria animais venenosos quando tinha ao alcance do bico o contraveneno do oregão.
     Já Aristóteles percebera (e Alberto Magno o confirmava) que a tartaruga só comia cobras quando também dispunha do oregão. (...)
     Neste último, por exemplo, quer o nosso Aucourt inculcar que o homem também fabrica ímãs artificiais, assim como o unguento simpático curava as feridas posto no ferro que as causara!
     Apesar das grandes contradições que refutavam tal asserção, aliás confirmada pela autoridade elevada do inglês Digby, o caso parecia positivo. As pedras trochite e astrecte, postas em cima do vinagre, disparavam a correr. A tinta simpática não só atravessava uma resma de papel como uma grossa muralha.
     Mas o mais notável era o caso da lâmpada simpática, que, segundo o sábio Johnston, alimentava-se de sangue como combustível. Apagava-se instantaneamente quando morria o ex-proprietário do seu alimentador!
     Expondo os artifícios com que a natureza produz raridades afirma Padilha que, se alguém pintar ovos em um pano de diversas cores, verá nascerem pintos com os mesmos matizes “porque de ajudar a imaginação nos brutos se fazem raros prodígios”. Era assim que, segundo Santo Agostinho, conseguiam os egípcios fabricar os bois ápis.
     Dos “adultérios” das plantas provinham iguais assombros.
     E se Luís XIV formara os dilatados bosques de Versalhes transportando grandes árvores é que o seu coração excedia nas obras à natureza (sic!).
     Porque, se a arte imitava a natureza, parecia às vezes excedê-la. Vira-se em Lisboa um cavalo e um urso dançarem juntos! E ficara na corte de Portugal a tradição do cachorrinho da rainha d. Catarina, mulher de d. João III, que cantava ao som de um manicórdio. Não proferia palavras, mas era muito entoado.
     A imperatriz rainha, infanta portuguesa, ganhara um cão que emitia perfeitamente a palavra chocolate. Mas em 1715 vira-se em Paris coisa muito mais notável, o cão fenomenal de que se ocupara a Academia de Ciências de França. Repetia trinta palavras, entre elas chá, café e chocolate.”


     “Águas havia ótimas para reforçar a memória de seus ingestores e outras, desmemoriadoras terríveis. Uma fonte perto de Chevreu era perigosíssima. Os sujeitos que dela se servissem arriscavam-se a ficar desdentados, mas sem fluxão nem dor. Num rio da Ásia fazia a água arrebentar qualquer recipiente em que fosse deitada, exceto se o vaso fosse feito de casco de mulas.
     Na Irlanda existia um lago de tão esquisitas virtudes que, cravando-se-lhe uma estaca ao fundo, a parte enterrada se transformava em pedra e a banhada em ferro! A que se achava fora d’água continuava madeira. Provavelmente haveria ali uma cuba gigantesca de galvanoplastia... Feijó, que não discutia o caso mas lhe admitia a veracidade, afirmava que na Polônia fontes existiam capazes de transformar o ferro em cobre.
     Também havia árvores que destilavam chuva, como no caso de imenso madeiro da ilha do Ferro, que se achava sempre coberto de uma nuvem e em 24 horas fornecia dois grandes tanques d’água, coisa a respeito da qual o insigne Feijó se mostrava cético.
     Da existência de pessoas que se sustentavam de água, exclusivamente, ninguém podia duvidar, à vista de tantas testemunhas corroborantes. Quem também se atreveria a contestar uma legião de doutos quando todos concordes admitiam a existência de homens e mulheres marinhos?
     Que se desse de barato a autoridade de grandes vultos das ciências naturais, como Plínio, Eliano, Pausânias. Bastava a documentação moderna.
     Em 1671, a uma légua da Martinica, muitos franceses haviam visto um tritão legítimo, perfeita figura de homem da cintura para cima, de cabelos brancos e bem penteados, rosto cheio, barba preta, nariz chato, tez branca, cútis delicada. Da cintura para baixo era perfeito peixe, acabado por grossa cauda bífida.
     Em 1725, aparecera no porto de Brest outro tritão, que 32 pessoas haviam visto, inclusive o capitão Olivier Morin, perfeitamente proporcionado, mas de mãos e pés palmados.
     As Memórias de Trévoux relatavam que este monstro, vendo a figura feminina da proa de uma embarcação, fizera diligência para a abraçar.
     Correra o contramestre do navio a buscar uma espingarda para matar o bruto, mas desistira do intento a imaginar que ele poderia ser a reencarnação de um suicida oficial de bordo.
     A propósito deste abantesma, lembrava Feijó a seguinte circunstância: fazendo escárnio da gente do navio, “voltara-lhe o monstro as costas e levantando alguma coisa da água exonerara o ventre à vista de todos”.
     O padre Antonio de Faria, oratoriano, varão cheio de virtudes, e incapaz de mentir, achando-se sobre uma montanha, de onde se avistava o mar, vira um monstro marinho, semi-homem, de cabelos verdes, que ao avistá-lo mergulhara.
     E quem contestava o caso daqueles conselheiros do rei da Dinamarca, que, em 1619, haviam capturado, nos Skager Rack, um homem marinho? Posto a bordo do navio, em que Suas Excelências viajavam, pusera-se a barrar tão descompassadamente, e a proferir tais ameaças, se o não libertassem logo, que a maruja, gente supersticiosa, resolvera logo soltá-lo.
     “Este é o único exemplo de homem marinho que falasse”, comenta o nosso Aucourt e Padilha. Mas se ainda dos centauros – coisa abonada por doutos e santos – se duvidava de tal propriedade, como a podiam atribuir a este monstro? O único autor que dele tratara era, aliás, João Avelino no seu Tratado da Europa.
     Na Noruega sabia-se de muitos casos de homens marinhos. Em Portugal apanhara-se um no Algarve que um marquês de Niza mandara mostrar ao rei d. Pedro II. Este era perfeitamente homem, mas jamais falara.
     Em 1560 haviam uns pescadores do Ceilão mostrado a jesuítas portugueses o produto de uma de suas redadas, em que figuravam sete homens marinhos e nove mulheres. Nada menos! Em Paris conservava-se uma mão de sereia. Enfim! Não valia a pena discutir. (...)
     É verdade que se sabia de anomalias notáveis sucedidas a diversos homens. Monsieur Vinslow e monsieur Bruhier contavam de uma suíça que passara três dias de baixo d’água e no entanto não morrera! E quem duvidaria da palavra de sábios como monsieur Vinslow e monsieur Bruhier?
     Mas casos ainda mais extraordinários relatava outro cientista ilustre! Paulo Zaquias! Paulo Zaquias!!
     O sapientíssimo marquês de Saint Aubin achara a mais natural das explicações para estes fatos: alguns humanos tinham tal disposição preternatural que lhes era prolongada a faculdade da respiração fatal! Nada mais simples! E realmente nada mais simples!
     No capítulo dos peixes monstruosos vemos novas novidades de vulto: o caso do pescado de Peniche, em 1575, com quarenta côvados de comprido (26,40m) e não era baleia! Quem dizia que o fosse? Contaram-lhe dezesseis dentes com palmo e meio de diâmetro e cada qual separado dos seguintes de um palmo!
     Outro ainda em Peniche aparecera em 1616. Um médico do lugar o descrevera em sua Peixeologia, que infelizmente não se imprimira, com grave detrimento para o avanço das ciências.”


     “As raridades da natureza em matéria aérea deram azo a nosso autor para que largamente demonstrasse os belos conhecimentos da erudição.
     Em primeiro lugar, era sabido o que vinha a ser a influência dos meteoros gasosos sobre o temperamento, o gênio, as qualidades físicas, etc.
     Quem ignorava o que se dizia, desde muito, das fêmeas que concebiam do vento, como as éguas de certos lugares, as lebres de outros, etc.? Já, porém, Santo Agostinho repelira semelhante abusão e os naturalistas modernos, estes então eram categóricos em desmenti-la. Parecia incontestável, porém, que a variedade das cores de camaleão se devia à diversidade do ar.
     Quanto às figuras que os ares frequentemente apresentavam, eram elas tão numerosas, desde longínquos séculos, quanto, por vezes, extraordinárias. Ainda em 1514, todo o exército de Próspero Colona vira, durante nada menos de três horas, dois soldados armados esgrimirem nas nuvens um contra o outro.
     Já por diversas vezes tinham aparecido no horizonte três sóis simultâneos e três luas!, como em Roma, no tempo do imperador Cláudio. Um autor honesto, como Mezeray, não se atrevia a mentir e, no entanto, em sua história de França, se relata que, em certa ocasião, um exército francês vira na atmosfera companhias de soldados, vestidos de branco, caminhando no ar, junto à terra, em que se identificavam as figuras dos oficiais e dos tambores.
     Fato incontestável o seguinte: nas altas camadas atmosféricas, criavam-se animais.
     No império de Carlos IV desabara certa vez verdadeiro dilúvio de bichinhos, que devastara províncias inteiras. Nas regiões aquilonares nada raro era verificar-se uma chuva de ratões.
     Na Noruega, segundo Escalígero e o bispo upsalense, “mui frequentemente choviam animais ali chamados linmeres, mais prejudiciais que as lagartas e maiores do que ratos”.
     Explicando estes casos, dizia Bonamigo que estes bichos todos se formavam com a saraiva.
     E Nierenberg afirmava da ave menocodiato, vivente de ar e de orvalho, que o macho tinha às costas uma cova onde a fêmea fazia ninhos e incubava.
     Professavam os menocodiatos a mais extraordinária fidelidade ao seu rei. Se, acaso, a este matavam, preferiam todos morrer a desamparar o monarca.
     Chuvas prodigiosas também figuravam entre os mais célebres fenômenos aéreos: como as de cabelos nas cidades de Jacai e Uzaka, no Japão, em 1596; de leite, sangue, carne e ferro, e até de ladrilhos cozidos, como atestavam os mais célebres autores romanos!
     Em Portugal, a 8 de junho de 1757 em Gondemar, Tarouca e Lalim, comarca de Lamego, desabara forte saraiva de pedrinhas não de gelo, e sim de açúcar! Era pelo menos o que ao nosso autor informara o respeitável capitão-mor do Tabaco, pessoa, pelo seu nascimento e honra, incapaz de mentir.”


     “Apenas referiremos (segundo, sempre, meia dúzia de graves autores, como Pedro Hispano, Amaro Lusitano e Alexandre Napolitano) quanto era positivo que o melhor meio de salvar os picados da tarântula vinha a ser aplicar-lhes doses sucessivas de música, conforme afirmava o douto Metioro.
     A enumeração destas “graves autoridades”, identificadas pelos seus gentílicos, é coisa que realmente nos edifica.”


     “Fogos havia-os, e de muitas naturezas, uns errantes, outros nascendo em caniçais, e em corpos de animais, como em gados e cavalos, que andavam à noite, em tempo chuvoso, e até em entes humanos.
     Assim se dava com aquela mulher de Verona, em cuja testa havia sempre uma labareda pequena, como o atestava o douto Pedro de Castro, em seu tratado Ignis labens. Fogos havia que por si mesmos se acendiam e fogos de muito esquisita espécie. Assim, o fogo do vulcão islandês Hecla consumia a água, mas não a estopa! A pedra galatias não se deixava vencer do fogo no meio das chamas e conservava-se fria. O fogo do Etna não derretia as neves de seu pico! Na Lícia sabia-se de um fogo que não queimava as mãos!
     Em compensação, a pedra petites apertada na mão queimava como brasa ardente! E os dentes do javali, logo depois de morto o selvático suídeo, tinham tanto fogo que queimavam cabelos e outras substâncias facilmente inflamáveis. Coisa estranhíssima o que se dava no delfinado; ali havia certa fonte “que em se lhe chegando uma vela apagada acendia e estando acesa se apagava”.
     A própria Academia de Ciências de França, no ano de 1699, proclamara a novidade desta fonte, que representava a expressão hidrodinâmica do espírito de contradição, ao que parece.
     Quem seria capaz de negar a existência de pessoas cujos corpos exalavam fogo? Uma reunião de graves e doutos autores aí estava para lhe rebater tal pretensão. O padre Teodorico, de si próprio, afirmava tal prodígio, sempre que se friccionava. Dois personagens, Antonio Ciancio e Máximo Aquilano, estes, quando esfregados, pareciam fuzis batidos por pederneira!
     E o grande Feijó contava de uma dama Cassandra Buri, senhora italiana que era muito mais incendiável do que os seus patrícios acima citados. Quando se esfregava com um lenço não só lhe saíam faíscas, como labaredas!
     Outra italiana, a nobre condessa Cornélia Bandi, fora achada reduzida a cinzas no próprio leito. Extraordinário, porém, este caso: ficara-lhe a roupa da cama absolutamente intacta! O colossal Feijó explicava este sucesso estranhíssimo do modo mais plausível: é que a digna fidalga fora consumida pelas exalações que ela própria evaporava.
     Aliás, se sabia, desde a mais remota Antiguidade, que Alexandre Magno ganhara uma de suas grandes batalhas porque os inimigos, os indianos, fugiram espavoridos ao perceberem que o macedônio exalava faíscas!
     De indivíduos alcoólatras, que deitavam chamas, ninguém duvidava. O nosso Aucourt cita diversos destes casos. O mais pitoresco é o do sujeito que conseguira debelar um princípio de incêndio em si, mas, como este fosse na garganta, isto lhe valera a perda da voz! (...)
     Assim como o amianto era substância incombustível, também neste particular ocorriam prodígios na espécie humana. Aí estava Plutarco  nos relatar o caso da incombustibilidade do polegar de certo rei do Épiro quando lhe queimaram o cadáver, e Tácito o mesmo fato em relação ao coração de Germânico.
     Plutarco e Tácito! Quem destes grandes homens poderia descrer?
     E entre os judeus, ensinavam os rabinos, ninguém duvidava do seguinte: todos os entes humanos têm, no fim do espinhaço, um osso que não pode o fogo consumir, nem força alguma quebrar. Nele se conserva a base da ressurreição da carne
     Por que razão vivia a salamandra indene das chamas que a envolviam? Por causa de sua natureza não fria, mas frigidíssima! O Journal des Sçavans (seria bom não esquecê-lo: o Journal des Sçavans!), ainda em abril de 1667, espalhara com a sua grande autoridade a notícia das experiências do cavalheiro Corvini com salamandras indianas.
      Percebera a razão da indiferença ao fogo do fantástico batráquio: é que vomitava uma gosma lembrando a clara dos ovos de galinha, tão gélida que neutralizava as brasas! Durara a experiência duas horas completas e o bicho ainda vivera nove meses depois dela.
     Verdade é que o mesmo Journal des Sçavans, 63 anos mais tarde, relatara novas séries de experiências, do mesmo gênero, com salamandras e péssimos resultados. Haviam umas morrido logo e outras ficado pavorosamente queimadas! (...)
     Os grandes mestres das ciências naturais na Antiguidade, como Aristóteles, Plínio, Eliano, Agrícola, abonavam a existência das moscas de fogo, as pyraustas, que morriam instantaneamente, ao deixarem o elemento ígneo.
     Mas era preciso lembrar que o caso devia ser admitido com ceticismo, porque o fogo vinha a ser ambiente incompatível com a propagação das espécies de animais, não admitindo a geração.
     Se ninguém, contudo, podia duvidar da existência dos gêneros de insetos que viviam, exclusivamente, de roer pedra, como negar, por mero preconceito, a possibilidade de viverem salamandras no elemento ígneo? Tornava-se necessário recorrer às palavras de algum grande comentador dos fenômenos da natureza. E, nesta categoria, quem melhor se achava em condições de falar do que Feijó, o ilustre, o doutíssimo Feijó? Assim, ele, Aucourt e Padilha, discípulo respeitoso de tão grande mestre, repetia-lhe os conceitos: “Os homens, sem razão alguma, e contra toda a razão, estreitam a onipotência divina segundo o limitado das suas experimentais ideias. Não há repugnâncias em que Deus crie alguma espécie que se conserve no fogo”.
     Mas disto não se tratava, objetariam os céticos. O que se tornava preciso demonstrar era a existência de tais ignícolas. “Assim fala um homem como Feijó – termina o nosso Pedro Norberto, com este último argumento decisivo –, sem embargo que não abraça o que se diz da Salamandra e dos espelhos ustórios”.
     Singular aproximação! A salamandra e os espelhos ustórios! “Apesar da ardente impressão do fogo”, a arte a ela sabia resistir” com leves e fáceis remédios. De tal dera o grande Ambrósio Paré os mais notáveis exemplos, como em sua célebre experiência das cebolas. Untava as mãos com o sumo do bulbo querido da gente de Israel, saudosa da terra dos faraós, e depois, sobre elas, e sem dor alguma, derramava o toucinho derretido de uma pá afogueada”.
     “Artifícios de fogo” havia-os inúmeros, muitos deles maravilhosos até, como os que se obtinham com o fósforo da Alemanha, também chamado de “monsieur Kurcler”, que estava sempre pronto a arder, desde que o tirassem do vidro com água em que devia ficar bem guardado.
     Que mania incendiária! E interessante caso: esta substância, que parecia cera, provinha da destilação da urina, segundo descobrira certo alquímico alemão que, durante toda a vida, trabalhara na pesquisa da pedra filosofal.
     A química, ou antes, a alquimia do nosso Padilha andava, pelo que vemos por este pano de amostra, atrasadota. Mas a sua física nem de longe corria parelhas com a ciência que já era, aliás, a de Lavoisier e Cavendish, Priestley e Scheele: “Por um acaso achou um rústico que dois vidros de óculos atraíam os objetos distantes. E este foi o princípio que ensinou de fazer óculos de ver ao longe. E semelhante foi o do barômetro em 1643 (sic!)”.
     Acerca dos espelhos ustórios parecia Padilha mais informado. Se Descartes os fizera passar por imaginários, a Academia de Ciências de França lhes demonstrara a exequibilidade.
     E, advertindo os céticos lusitanos, severamente arguia o nosso autor: “Os senhores críticos modernos fazem zombaria desta notícia, ou, como eles dizem, desta patranha, porém, aquele cientíssimo congresso da Academia de Ciências de França, antes que aprove ou refute as coisas, sabe pesá-las maduramente ao juízo e examiná-las na experiência”.
     Depois de um capítulo sensaborão sobre a câmara clara, ou “olho artificial”, como lhe chama, e de outro, insignificante, sobre o invento da pólvora, termina Aucourt e Padilha o seu tratado por uma digressão sobre a máquina elétrica, onde um fenômeno novo, “abismo de maravilhas jamais visto nem imaginado, faz duvidar de tudo que antes estava como certo”.
     Nada mais certo do que a mofa da natureza e filosofia. Desde tempos imemoriais andavam os homens inquirindo as causas dos efeitos naturais e muitos séculos havia que a natureza se obstinava em lhes revelar os efeitos, apenas, escondendo-lhes as causas.
     Aos filósofos desenganava Bacon. Enquanto teimassem em encerrar-se no campo de ideias abstratas e metafísicas, nada conseguiriam. Era preciso “aplicarem-se ao exame do mecanismo”.
     Que demonstração mais evidente do que já forneciam as extraordinárias experiências de eletricidade? Quem dos antigos imaginaria que este fenômeno lançasse e tirasse fogo de todos os corpos? O grande Feijó atribuía à matéria elétrica positiva identidade com a do raio por serem ambas sulfúreo-nitrosas. Uma tirava faíscas barulhentas dos corpos e o nitro também crepitava estrepitosamente.
     Existiam raios benignos e malignos. Por exemplo, os dois que tinham atingido Mitridates, ambos haviam apenas chamuscado o famoso rei imunizado ao arsênico. Outras vezes, as mais das vezes, como tanto se sabia, os raios determinavam “ímpetos terríveis”. Que o dissessem os dois famosos físicos monsieur Muschenbroek, de Holanda, e monsieur Réaumur, de Paris! Quase vítimas de sua temeridade em pretender arrebatar os raios aos céus!, antecipando-se a Benjamim Franklim sem contudo se republicanizarem, como quer o célebre sceptrumque tyrannis.
     Receoso de se aventurar em terreno tão difícil, sob o ponto de vista científico, concluía modestamente o nosso autor: “Estes fenômenos, assim como produzem uma grande admiração em todos os espectadores, assim é justo que neles suspendamos as pernas, para que o assombro possa ser a melhor cláusula desta obra”.
     Aos seus oito tratados, tão científicos quanto profundos, como acabamos de ver, encerrou o fidalgo cavaleiro da Ordem de Cristo por um discurso sobre a magia natural e artificial, complemento muito natural dos assuntos ventilados nas 481 páginas das suas Raridades da natureza e da arte, dividias pelo quatro elementos, escritos e dedicados à majestade d’El-Rei Nosso Senhor d. Joseph.”


     “Guiada por dois índios da tribo da índia Rola, caminhou rapidamente a escolta até meio-dia. Era esta hora perigosíssima, não só por causa dos enormes carnívoros, pumas e jaquares (sic), como pela presença de numerosas cascavéis.
     Mas o perigo maior, o perigo terrível, era o do possível encontro com a “monstruosa e fatal ibibaboka”.
     Os bravos dragões (soldados), contudo, não se mostravam intimidados. Depois do descanso de uma hora para o almoço, penetrou a tropa no tremendo labirinto daquela “selva escuríssima”.
     Não haviam exagerado os índios de todo. Começaram a aparecer as cascavéis pelo trilho, mas fugiam, velocíssimas (!), apenas viam os homens. O mesmo se deu com “aquelas hediondas bestas feras pumas e jaquares”, que a cada passo surgiam, saltando atrás dos troncos das árvores.
     Caminhou a escolta até quase a hora do poente. Atingira o cume de uma montanha, onde deveria, a conselho dos guias, passar a noite, quando de repente ouviram-se os mais lancinantes brados de pedido de socorro.
     Guiados pela voz dos que clamavam, galopara Browne e os soldados. Qual não foi o horror e pasmo quando se lhes defrontou “a feroz e venenosíssima ibibaboka, enlaçada ao tronco de majestosíssima palmeira”.
     Três entes humanos, perseguidos atrozmente pelo minhocão, ali estavam refugiados, na copa da árvore. Avalia-se o estarrecimento de Browne, quando neles reconheceu o amigo, sua jovem esposa e a índia Rola!
     Acossados pela sucuri descomunal, haviam de ter revelado, naturalmente, qualidades até agora desconhecidas e insuspeitadas de inigualáveis ginastas. Não fora assim, como teriam podido subir às grimpas da palmeira? Com uma agilidade de caxinguelê ou de quati? Muito pode o amor ao pelo...
     Verdade é que o nosso narrador John Browne não explica como se haviam dado estes prodígios acrobáticos.
     Os cavalarianos, de espadas desembainhadas, achavam-se, contudo, atrapalhadíssimos para avançar. Os cavalos, espavoridos, empinavam e saltavam como se camurças fossem.
     E, enquanto isso, o tremendo bicharoco, coleando-se ao tronco da palmeira, lentamente alteava a monstruosa cabeça, escancarando as imensas fauces e os olhos, vulcanicamente chamejantes, para as desgraçadas presas.
     Foi então que Browne se decidiu! Impassível! Heroico! Sublime! Descavalgou, ergueu a carabina e apontou...
     Ante tão prodigiosa demonstração de ânimo, vários soldados o imitaram. Ainda não fixava bem o herói a pontaria, quando a situação se complicou ainda mais e atingiu a culminância daquela cena que na selva brasileira repetia o caso laocoôntico.
     Conseguira o monstro apreender a barra da saia de Olimpia (a que as brisas agitavam) e, soltando então pavoroso urro, tentava arrancar a pobre rapariga aos braços do terno e amado esposo! Aqui só faltava o horresco referens.
     Desorientados mostravam-se os soldados, que ao som terrível haviam escutado. Ao peito as carabinas apertavam, em vez de as apontar... Viu Brownie a mísera mocinha, vítima do seu amor, desaparecer na goela, necessariamente hiante, do sucuriju.
     Seu marido Parr, a ela atracado, puxava-a com todas as forças e sentia-se disposto a fazer de profeta Jonas. Nunca abandonaria quem por ele, por seu amor, ia morrer. Pediria a cena hoje o acompanhamento da música do último ato da Aída... “Morir si pura e bella...”.
     Uma nuvem perpassou pelos olhos de Brownie. Sentiu mesmo ligeiro desmaio. Mas qual!, veio logo a reação àquele homem de nervos de aço.
     Não havia um único segundo a perder. Firmou a pontaria e... fogo! Prodigiosa pontaria!, digna de patrício do inigualável arqueiro Robin Hood!
     Foi a bala, certeira, apanhar o bulbo do minhocão. E tal a felicidade dos dois amantes, que a cabeça do monstro, depois de oscilação gigantesca, pendeu para o lado oposto àquele em que estava! “Porque senão a pestífera influência de seu hálito lhes teria sido fatal à vida”.
     Desabou a monstruosa serpe de modo fragoroso e aí a soldadesca, criando ânimo, caiu-lhe de espada em cima. Dentro em breve expirava. Tinha 27 pés, mais de nove metros de comprimento.
     Bem diz o nosso velho adágio, que é bem mais fácil apanhar aos que faltam à verdade do que aos coxos...”