domingo, 16 de agosto de 2015

O Quarteto de Alexandria: Mountolive – Lawrence Durrell

Editora: Ediouro
ISBN: 978-85-0001-758-2
Tradução: Daniel Pellizzari
Opinião★★★★☆
Páginas: 272

“A juventude é a era dos desesperos.”


“Enfermidades inspiram desprezo. Um homem doente bem o sabe.”


“– Oh, o que vamos fazer quando você for embora? – Mountolive ficou terrivelmente satisfeito consigo mesmo. Seria possível imaginar um tempo em que eles não mais se abraçariam ou ficariam sentados de mãos dadas, sentindo o coração do outro marcando o tempo em meio ao silêncio? Por quanto tempo duraria a memória das experiências passadas? Desviou a mente desse pensamento, resistindo como podia à aguda verdade. Então Leila disse: – Não tema. Já planejei os próximos anos de nossa relação; não ria, pode ficar ainda melhor quando deixarmos de fazer amor e começarmos a... o quê? Ainda não sei, talvez a pensar no outro de forma neutra; digo, como amantes forçados a separar-se; que talvez nunca deveriam ter se tornado amantes; escreverei a você com frequência. Um novo tipo de relacionamento terá início.
– Pare, por favor – pediu Mountolive, sentindo o abraço da desesperança.
– Por quê? – ela quis saber, sorrindo e beijando sua têmporas. – Sou mais experiente que você. Veremos.
Por sob aquela tranquilidade, Mountolive reconheceu a presença de algo forte, resistente e durável – o caráter de uma experiência que lhe faltava. Leila era uma criatura nobre e somente os nobres conseguem ficar serenos diante da adversidade. Na noite anterior à partida de Mountolive, porém, Leila não cumpriu as promessas de ir ao seu quarto. Era mulher o bastante para render-se ao desejo de aguçar as dores da separação, torná-las mais duradouras. E no desjejum, ao ver os olhos cansados e o ar esgotado de Mountolive e constatar a obviedade de seu sofrimento, foi tomada por um prazer inenarrável.
Foi com ele até a balsa, mas a presença de Naruz e Nessim impossibilitava qualquer conversa particular. Isso quase chegou a alegrá-la. Na verdade, não havia mais nada a ser dito. Inconscientemente, Leila desejava evitar as repetições tão características do amor, que por fim acabam por arruiná-lo. Queria manter nítida e impecável sua imagem de Mountolive. Reconhecia aquela partida como o padrão, de certa forma um modelo, de uma partida mais definitiva e final; uma partida que, caso sua comunicação realmente fosse limitada a palavras sobre o papel, poderia significar a perda de seu Mountolive. É impossível escrever mais de uma dezena de cartas de amor sem ficar ansioso por mudar de assunto; a mais rica das experiências humanas é também a mais limitada em sua expressão. Palavras matam o amor, assim como matam todo o resto. Leila já havia planejado transferir suas relações para um plano mais rico, porém Mountolive ainda era jovem demais para tirar proveito do que ela tinha para oferecer – os tesouros da imaginação. Seria preciso ter paciência até que ele crescesse. Leila tinha consciência de que, ao mesmo tempo em que o amava sinceramente, era capaz de resignar-se a nunca mais vê-lo. Seu amor já havia contemplado e superado o ocaso de seu objeto – sua própria morte! Essa ideia, tão clara em sua mente, dava a Leila uma imensa vantagem sobre Mountolive. Enquanto ele ainda chafurdava no mar agitado da confusão e da falta de lógica de suas emoções, seu desejo e seu amor-próprio – todas as dificuldades infantis características de um amor imaturo –, ela retirava forças e segurança da própria irremediabilidade daquela situação. Seu orgulho e sua inteligência concediam-lhe uma força nova, insuspeita. E ainda que parte de si lamentasse vê-lo ir embora tão cedo, outra estava contente em vê-lo sofrer, pronta a nunca mais revê-lo. Por saber-se possuidora dele, paradoxalmente, despedir-se era quase simples.”


“É verdade que cheguei a pensar em casar-me com ela. Estava apaixonado, sem dúvida. Mas ela curou-me a tempo.”


“A obra do artista constitui a única relação satisfatória que lhe é possível estabelecer com seus semelhantes, já que busca seus verdadeiros amigos entre os mortos e os que ainda estão por nascer. É por isso que ele não pode se envolver com política, não é essa a sua função. Precisa concentrar-se em valores, não em política.” 


“– Ah, Mountolive! Olhe para tudo isso! Terra dos excêntricos e dos sexualmente incapazes. Londres! Vossa comida, tão apetitosa quanto um mingau de bário, vossos desconfortos saborosos, vossas causas não apenas perdidas, mas ultrapassadas. Ela é nossa, e é maior do que a soma de seus defeitos. Ah, Inglaterra! Inglaterra, onde os membros da Real Sociedade de Prevenção à Crueldade Animal comem carne duas vezes por dia e os nudistas devoram frutas importadas em meio à neve. O único país que se envergonha da pobreza.”


“O homem será feliz quando seus deuses se aperfeiçoarem.”


“– Na Inglaterra, quase todas as coisas deliciosas que podem ser feitas a uma mulher são crimes, motivos de divórcio.”


“Que pretende o céu com todas estas leis?”




“Assim como a emoção, a pressa é sempre deplorável, pois sugere que os impulsos ou os sentimentos estão dominando quando somente a razão poderia estar no comando. (...) Felizmente as batidas de nosso próprio coração não podem ser ouvidas por outras pessoas.”

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