terça-feira, 11 de agosto de 2015

Da Natureza (Os Pensadores) – Tito Lucrécio Caro

Editora: Nova Cultura
Tradução e notas: Agostinho da Silva
Opinião: ***
Páginas: 116 

     “Deste tom sério e enérgico eleva-se o poeta ao sublime quando, depois de ter provado cientificamente que a morte nenhum mal traz ao homem, dá a palavra à própria natureza para castigar a presunção e a loucura daquele que se prende à vida: “Por que é que tu não sais da vida como um conviva saciado? Nada tenho que te oferecer; isto é sempre a mesma coisa. Mas tu desejas sempre o que te falta (diz ela a um velho), tu desdenhas o que tens à mão; e foi por isso que a tua vida decorreu imperfeita e sem encanto. É tempo de deixar lugar aos filhos, porque assim o quer a lei da natureza: ninguém recebe a vida como propriedade plena; dela apenas temos o usufruto”.”
(Citação de G. Ribbeck)


     ““E tu queres te revoltar, tu cuja vida esta quase extinta ainda com teu corpo vivo, tu que dormes a maior parte do tempo e que sonhas quando estas acordado?”
     Com o temor da morte, os homens serão libertados ao mesmo tempo das angústias que lhes inspiram as torturas infernais, a não ser que o Inferno esteja no seu próprio coração.”
(Citação de G. Ribbeck)


     “Que pode haver para nós de mais seguro que os sentidos para distinguir o verdadeiro e o falso?”


     “É indubitável que a matéria não forma um todo compacto, visto vermos que tudo se gasta e por assim dizer se desfaz ao longo dos tempos e se oculta na velhice aos nossos olhos; o conjunto, no entanto, parece permanecer intato, pois o que se retira de qualquer corpo, e por aí o diminui, vai aumentar aquele a que se junta: obrigam uns a envelhecer, outros a prosperar; e não param nesse ponto. Assim continuamente se renova o Universo e vivem os mortais de trocas mútuas. Aumentam umas espécies, diminuem outras, e em breve espaço se substituem as gerações de seres vivos e, como os corredores, passam uns aos outros o facho da vida.
     Se julgas que podem parar os princípios das coisas e parando gerar seus novos movimentos, andas desviado e muito longe de um verdadeiro raciocínio.”


     “Mas parece, quando pensam que tudo fizeram os deuses por causa dos mortais, que andam muito longe da verdade. Efetivamente, embora eu ignorasse quais são os princípios das coisas, ousaria afirmar, pelas próprias leis do céu e por outros fatos numerosos, que de modo algum o mundo foi criado para nós por um ato divino: tanto é o mal que o macula.”


     “É fora de dúvida que os deuses, por sua própria natureza, gozam da eternidade com paz suprema e estão afastados e remotos de tudo o que se passa conosco. Sem dor nenhuma e sem nenhuns perigos, apoiados em seus próprios recursos, nada precisando de nós, não os impressionam os benefícios nem os atinge a ira.”


    “A constância das leis naturais é, segundo a opinião de Lucrécio, o argumento mais forte a favor da tese de que os deuses não intervém no governo do mundo e passam o tempo na paz inalterável de uma contemplação bem-aventurada. E, assim como nada fizeram para que ele surgisse, também nada poderão fazer para lhe sustar a velhice e impedir a morte. Para Lucrécio, o mundo não é eterno, embora o seja o conjunto dos átomos que formam o Universo; o mundo — mar, terra, céus — é um corpo que nasceu como os outros, existe como os outros, e como os outros se há de dispersar, de modo a que os seus átomos possam entrar em novas formações. Segundo o que pensa, o mundo, por já dele se desprenderem mais elementos do que aqueles que a ele vêm, esta numa fase de decadência, de fraqueza, como o prova o fato de criar com dificuldade animais pequenos quando já os criou de imenso corpo e o de a terra não produzir as opulentas searas de outros tempos. É uma ideia a que voltará no Livro V e que de certo modo se liga com a da Idade de Ouro e do presente envilecimento do homem.” (Agostinho da Silva)


     “É conveniente observar os homens nos perigos e nas provas, e conhecer na adversidade aquilo que são; é nesses momentos que se lançam do íntimo do peito as palavras verdadeiras: arranca-se a máscara e surge a realidade.”


     ““Já agora não te receberá uma casa alegre, nem uma esposa excelente, nem  os filhos queridos correrão a roubar-te beijos e a acariciar-te o peito com silenciosa ternura. Já não poderás ter negócios florescentes, já não poderás ser a guarda dos teus. Ó infeliz de ti, ó infeliz”, dirão ainda, “um dia nefasto te roubou todas as vantagens da vida.” Mas não acrescentam a seguir: “Também já não te seguirá a saudade de tudo isto”. Porque se o vissem claramente em seu espírito e se cumprissem estas palavras, já libertariam a mente da grande angústia, do grande medo.
     “E tu, adormecido como estas na morte, assim ficarás por todo o tempo, isento de todas as cruéis dores. Mas nós, perto da horrível pira, te choramos incessantemente, a ti já feito em cinzas, e dia algum nos arrancará do peito essa dor eterna.” Tem, por conseguinte, de se perguntar a quem assim fala para que é necessária uma tal amargura; se tudo vem a dar em dormir e estar em sossego, quem há de consumir-se num eterno luto?
     Outros homens, ainda, quando se sentam à mesa e seguram os copos e sombreiam o rosto de grinaldas, dizem convictos: “Breve é o gozo para os pobres homens; depressa passará e depois nunca mais poderemos ressuscitar”. Como se o primeiro mal na morte fosse esse de a sede abrasar os miseráveis e de cálida os queimar ou de haver com eles a saudade de qualquer outra coisa. Ninguém, realmente, se lamenta a si e à vida quando repousam por igual o espírito e o corpo.
     Pode haver, pelo que nos respeita, um sono eterno e nenhuma saudade de nós nos vem afligir. Todavia, os elementos espalhados pelos nossos membros não vagueiam de modo algum longe dos movimentos sensíveis quando o homem se levanta do sono e se recobra. Tem, portanto, de se crer que a morte é ainda menos para nós, se alguma coisa pode ser menos do que aquilo que vemos nada ser: segue- se à morte uma dispersão maior da quantidade de matéria e ninguém torna a acordar depois que a gelada suspensão da vida o tocou uma vez.”


     “Finalmente, se de súbito a natureza proferisse palavras e viesse ela própria increpar algum de nós: “Que tens tu, ó mortal, que te abandonar de tal modo a dores tão excessivas e amargas? Por que choras e te lamentas sobre a morte? Efetivamente, se a vida anterior te foi agradável e se todos os prazeres não foram como acumulados num vaso furado e não correram e se perderam inutilmente, por que razão não hás de, tolo, retirar-te da vida como um conviva farto e aceitar com equanimidade um repouso seguro? Mas se tudo aquilo de que gozaste se perdeu em vão e a vida te pesa, por que buscas aumentá-la mais, para que tudo de novo tenha um mau fim e desapareça sem proveito? Não seria melhor pôr fim à vida e ao tormento? Não posso imaginar e inventar agora coisa alguma que te agrade: tudo é sempre o mesmo. Se o teu corpo já não esta decrépito com os anos, se os membros não estão lânguidos de cansaço, tudo fica, no entanto, igual, mesmo que persistas em viver, vencendo todos os tempos, e, ainda mais, mesmo que nunca viesses a morrer”. Que haveríamos de responder senão que a natureza nos intenta um processo justo e defende uma causa verdadeira?
     Se é já um homem mais velho, adiantado em anos, que se queixa e lamenta a morte, fazendo-se mais infeliz do que seria justo, não tem ela razão em clamar ainda mais e em o increpar com acre voz? “Limpa daí as lágrimas, meu pateta, e cala-me essas queixas. Envelheces depois de ter gozado de todos os bens da vida. Mas, como sempre desejas o que esta longe e desprezas o presente, passou-te a vida incompleta e sem gosto, e chegou-te a morte à cabeceira, sem tu a esperares, antes de poderes retirar-te saciado, cheio das coisas. Mas abandona agora tudo o que não vai com a tua idade e retira-te, vamos, diante dos outros: eis o que é necessário.”
     É justo, creio eu, que assim proceda, justo que censure e increpe. Sempre a velhice se retira expulsa pela novidade, e é necessário que umas coisas se renovem à custa de outras: ninguém é entregue ao báratro e aos tenebrosos infernos. É preciso que haja material de que se desenvolvam as gerações futuras; e estas também te seguirão depois de terem gozado da vida; cairão como caíram as que vieram antes de ti.
     Nunca deixará de haver alguma coisa que de outra nasça e a vida não é dada como propriedade a ninguém: a todos vem como usufruto. Vê, olhando para trás, como nada significou para nós toda a velha porção de eternidade que se passou antes que nascêssemos. Eis o espelho que a natureza nos apresenta do tempo futuro, do que virá depois da nossa morte. Surge nisto algum horror, alguma tristeza? Não é tudo muito mais seguro do que o sono?
     E é fora de dúvida que tudo o que se diz existir no profundo Aqueronte nos acontece realmente na vida. Não há nenhum infeliz Tântalo que receie, como é fama, o enorme rochedo suspenso nos ares, e esteja paralisado por um medo sem objeto real; é antes na vida que o vão pavor dos deuses atormenta os mortais: é nela que se temem os acasos que a sorte traz a cada qual. Nenhumas aves atacam um Títio prostrado no Aqueronte e é certo que não lhe poderiam encontrar no vasto peito nada que perscrutassem durante toda a eternidade; embora fosse enorme a extensão do corpo derrubado e não cobrisse apenas nove jeiras com seus membros despedaçados, mas todo o orbe terrestre, não poderia, mesmo assim, suportar uma dor eterna, nem dar sempre alimento com seu próprio corpo.
     Mas, para nós, Títio existe aqui: prostrado de amor, dilaceram-no aves, devora-o a ansiosa angústia ou despedaçam-no os cuidados de qualquer outra paixão. Também na vida e diante dos olhos temos nós um Sísifo: é aquele que se esforça por conseguir do povo os feixes e os temíveis machados e sempre se retira vencido e abatido. Efetivamente, procurar o poder, que é sempre vão e jamais nos é dado, e nisto sofrer sempre um duro trabalho, é o mesmo que fazer subir com esforço, por um monte acima, um rochedo que, mal no alto, logo rola e rapidamente busca os plainos de um campo aberto.
     Depois, apascentar sempre um espírito de ingrata natureza e enchê-lo de bens sem nunca o saciar — exatamente como sucede com as estações do ano que voltam de novo trazendo os vários frutos e as várias alegrias, sem que, no entanto, jamais nos enchamos dos gozos da vida —, eis o que, segundo me parece, significa o que dizem das meninas na flor da idade que lançam água num vaso sem fundo, o qual de modo algum se poderia encher. E o mesmo acontece com o Cérbero e as Fúrias, a falta de luz (Lacuna) e o Tártaro que vomita das fauces chamas horríveis. Não existem em parte alguma nem poderão certamente existir.
     É na vida, porém, que existe o grande medo de castigo por causa de grandes malefícios e que há expiação para o crime; há prisão e o horrível lançamento do alto do rochedo e a flagelação, os verdugos, o tronco, o pez, as lâminas e as tochas; mesmo que tudo isto esteja ausente, há o espírito consciente do que fez e que, temeroso, se aplica o aguilhão e se abrasa às chicotadas, sem ver entretanto que termo possa haver para os seus males ou qual seja o fim dos castigos, antes temendo que ainda mais se agravem com a morte. É aqui, na realidade, que a vida dos tolos se torna um Aqueronte.
     Também poderias alguma vez dizer-te a ti próprio: “Também o bom Anco os olhos à luz do dia, ele que era, meu patife, muito melhor do que tu”. Depois morreram muitos outros reis e poderosos do mundo que governaram grandes povos. E aquele que outrora lançou estrada sobre o grande mar, abriu caminho às legiões por entre as vagas e as ensinou a ir a pé pelos abismos salgados, e insultante desprezou com os cavalos os rugidos das águas, também ele, privado de luz, exalou a alma do corpo moribundo.
     Cipião, o raio da guerra, o terror de Cartago, deu os ossos à terra como se fosse um escravo ínfimo. Junta-lhe os descobridores das doutrinas e das artes, junta-lhe os da comitiva das Heliconíades; destes, Homero, o único, depois de ter empunhado o cetro repousou com os outros. Finalmente, Demócrito, depois que a madura velhice lhe mostrou que se retardavam no espírito os movimentos da memória, de livre vontade foi ao encontro da morte e lhe apresentou a cabeça.
     O próprio Epicuro morreu, extinta a luz da vida, ele que superou pelo engenho a condição humana, e a todos mergulhou na sombra como o sol etéreo, ao nascer, faz às estrelas. E tu ainda hás de duvidar e ainda te hás de indignar porque vais morrer? Estas ainda vivo e vendo e, no entanto, a tua vida é morta porque estragas, dormindo, a maior parte do tempo e acordado ressonas, não deixas de ver sonhos, trazes a alma atormentada por vãos receios e não podes encontrar nunca a origem do mal quando, pobre de ti, te perseguem inúmeros cuidados e vagueias, como flutuando, ao sabor dos erros do teu espírito.
     Se os homens pudessem, assim como parecem sentir no fundo do espírito uma carga que os fatiga com seu peso, conhecer quais são as causas que a geram e por que razão tão grande fardo de desgraça se lhes mantém no peito, não levariam a vida que levam agora, na maior parte, sem saber o que querem e procurando sempre mudar de lugar como se pudessem, assim, ver-se livres da carga.
     Muitas vezes, aquele que sai de grandes paços, porque se aborreceu de estar em casa, a eles volta de súbito, por nada haver fora que sinta ser melhor; corre precipitado para a sua casa de campo, incitando os garranos, como se fosse levar socorro a um incêndio em casa; mas, logo que passa o limiar, boceja, ou, pesado, se deita a dormir e procura o esquecimento; ou então, a toda pressa, dirige-se à cidade para a tornar a ver.
     Deste modo, cada um foge a si próprio, mas como se vê não lhe é possível escapar-se, e fica preso à força e odeia, porque, estando doente, não compreende a causa da enfermidade. Mas, se bem a vissem, todos, abandonando as outras coisas, procurariam conhecer primeiro a natureza, porque a origem de tudo vem da eternidade, não de uma só hora: e é na eternidade que os mortais terão de passar todo o tempo que lhes resta após a morte.
     E, então, por que tremer tanto em perigos e dúvidas? Que enorme e maléfico desejo de viver nos subjuga? Há para os mortais um fim de vida certo e próximo; ninguém pode evitar aparecer diante da morte. Depois, sempre estamos e insistimos no mesmo, e não é por vivermos que nos surge qualquer novo prazer. Só enquanto esta longe o que desejamos nos parece exceder o resto; depois, logo que o alcançamos, desejamos outra coisa; a mesma sede de vida nos mantém sempre anelantes.
     Também ficamos em dúvida quanto à sorte que nos trará o futuro, que nos dará o acaso ou quanto ao fim que se aproxima. Não é por prolongarmos a vida que diminuímos num mínimo que seja o tempo da morte; não podemos tirar nada que nos faça escapar do aniquilamento. Podes, portanto, durante o tempo da vida, enterrar quantas gerações queiras; nem por isso a morte ficará menos eterna: não existe menos aquele que hoje vê o termo da vida do que outro que já morreu há muitos meses, há muitos anos.”


     “Nada é mais difícil do que distinguir as coisas verdadeiras das duvidosas que o nosso espírito por si mesmo junta.
     Finalmente, se há aí alguém que julgue nada saber, isto mesmo ele ignora, se pode saber, visto que diz nada saber. Portanto, não me darei ao trabalho de discutir com ele, visto que resolveu trocar a cabeça pelos pés. Todavia, concederei que sabem alguma coisa, com a condição de lhes perguntar, visto nada terem encontrado de verdadeiro nas coisas, donde lhes vem o saber que sabe que sabe ou que não sabe, que fato deu sinal do verdadeiro e do falso, que fato prova distinguir-se o duvidoso do seguro?
     Descobrir-se-á que é pelos sentidos que primeiro se revela a nós o sinal da verdade e que os sentidos não se podem refutar. Efetivamente, deve-se aceitar com mais fé aquilo que espontaneamente pode fazer que o verdadeiro triunfe sobre o falso. Ora, que pode merecer maior fé do que os sentidos? Por acaso poderá a razão depor contra eles, quando é falsa a sensação, ela que inteiramente nasceu dos sentidos? Se eles não são verdadeiros, também a razão se torna inteiramente falsa. Ou poderão os ouvidos retificar os olhos ou o tato ou os ouvidos? Acaso o gosto convencerá de erro o tato, acaso o nariz refutará, acaso vencerão os olhos? Claro que não, segundo o que penso.
     Efetivamente, o poder esta dividido entre todos e tem cada um a sua força; torna-se, portanto, necessário que haja um sentido próprio para o que é mole, outro para o que é gélido e fervente, e que outros sintam as várias cores dos corpos e vejam tudo aquilo que se relaciona com as cores. Do mesmo modo, tem o sabor a sua própria força e por si mesmo nascem os odores, por si próprios os sons. É, portanto, de concluir que não podem os sentidos corrigir-se uns aos outros; não poderão também ter mais verdade um que outro, visto que os devemos considerar dignos de fé a todos por igual. Por conseguinte, é verdadeira toda sensação que eles têm em qualquer momento.”


     “Há sempre uma esperança de que o corpo, que é origem do furor, possa ele próprio extinguir a chama. No entanto, a natureza é inteiramente contra isto; é o amor o único objeto que, quanto mais possuímos, tanto mais incendeia o nosso peito com terríveis desejos.”


     “De fato, é mais fácil evitar o sermos lançados aos males do amor do que depois de presos sair daquelas redes e quebrar os fortes nós de Vênus.
     E contudo, mesmo estando-se preso e enlaçado, ainda se poderia fugir ao inimigo se a própria pessoa se não pusesse obstáculos passando em claro todos os defeitos do espírito e do corpo daquela que se deseja e quer. É isto o que fazem na maior parte os homens cegos de desejo, atribuindo qualidades àquelas que realmente as não têm. Por isso vemos que muitas que são más e feias vivem em delícias e prosperam no meio de supremas honras. No entanto, eles riem-se uns dos outros e aconselham a que aplaquem Vênus, porque os sentem afligidos por um amor vergonhoso, sem que, pobres deles, vejam os seus males, muito maiores.
     Uma negra tem a cor do mel; a imunda e fedorenta é apenas maltratada; a de olhos verdes, uma Palas; a nervosa e lenhosa, uma gazela; a baixinha, a anãzinha, uma das graças, um puro grão de sal; a grande, a colossal, uma maravilha plena e majestosa. A tartamuda que não sabe falar chilreia; a muda é pudica; a incendiária, a odiosa, a tagarela, torna-se uma chama; aquela que nem pode viver de magreza é um delicado amorzinho e a que morre de tosse é realmente um mimo. A avantajada, de grandes seios, é a própria Ceres, depois de nascido Baco; a de nariz achatado é uma silena, é uma sátira; a de grandes lábios, um puro beijo. E seria muito longo se eu tentasse enumerar as outras coisas da mesma espécie.
     Mas, suponhamos que ela tem na face toda a beleza que se queira e que em todos os membros surge a força de Vênus; há outras iguais e sem ela vivemos até hoje; faz todas as coisas, bem o sabemos, que fazem as feias: sufoca-se a pobre de cheiros terríveis quando as criadas a evitam de longe e a furto se riem. Mas o namorado, posto fora e chorando, cobre muitas vezes de flores e de grinaldas o limiar da porta e unge o soberbo portão de perfume da manjerona e cobre, o mísero, a entrada com seus beijos. Ora, se o tivessem deixado entrar, o cheiro o atacaria logo de início, de tal modo que procuraria motivos excelentes de se ir embora e lhe cairia das mãos a queixa meditada e preparada há muito tempo; ele próprio condenaria a sua estupidez por lhe ter atribuído mais qualidades do que aquelas que pode ter um ser mortal.
     Nem isto engana as nossas Vênus; põem todos os seus cuidados em ocultar estes bastidores da vida, quando os querem reter e prender a si por meio do amor; e tudo inútil porque se pode, pela força do espírito, trazer tudo à luz e averiguar o que causa riso; depois, se ela tem bom espírito e não é odiosa, pode-se perdoar alguma coisa e fazer concessões aos defeitos humanos.”


     “E se acaso julgamos mais importantes os feitos de Hércules, muito longe andamos de um raciocínio exato. Em que nos seria hoje um obstáculo aquela grande fauce do leão da Neméia e o horrendo javali da Arcádia? Que poderiam o touro de Creta, o flagelo de Lerna, a hidra defendida por cobras venenosas? Que nos ofenderiam os três peitos vigorosos do tríplice Gerião (Lacuna) e os habitantes do Estinfalo e os cavalos de Diomedes soprando fogo pelas ventas, na Trácia, junto das praias da Bistônia, perto do Ismar?
     Em que seria contra nós a serpente que guardava os fulgentes frutos das Hespérides, furiosa, de cruel olhar, e cujo corpo enorme enlaçava o tronco da árvore, lá perto do litoral do Atlas e das cóleras do oceano, lá onde nenhum dos nossos e nenhum dos bárbaros ousa chegar? E todos os outros monstros desta espécie, que foram aniquilados, em que nos prejudicariam, vivos, se não tivessem sido aniquilados? Em nada, creio eu: efetivamente, a terra inteira agora esta cheia de monstros e estremece de horror, pelos bosques e pelos altos montes e pelas profundas florestas; mas estes lugares, todos nós os podemos evitar sem nenhum custo.”


     “Talvez tu, refreado pela religião, penses que as terras e o Sol e o céu e o mar e as estrelas e a Lua devem, por seu corpo divino, permanecer eternos, e julgues que é justo punir, como sucedeu com os gigantes, com todas as penas dignas de um imenso crime, aqueles que pelo seu raciocínio perturbam os fundamentos do mundo e quereriam extinguir o claríssimo sol do céu, marcando os imortais com palavras mortais; no entanto, todas estas coisas se acham tão distantes do poder divino, e são tão indignas de serem levadas à conta dos deuses, que mais se poderia julgar terem sido apresentadas para mostrar o que é um corpo completamente privado de movimento e sensibilidade vitais. (...)
     Do mesmo modo, é impossível acreditar estejam as sagradas mansões dos deuses colocadas em qualquer parte do mundo. Efetivamente é sutil a natureza dos deuses e muito afastada dos nossos sentidos: até difícil de perceber com o espírito; ora, como foge ao contato e ao toque das mãos, também não pode tocar nada daquilo que para nós é tátil. De fato, aquilo que em si próprio não pode ser tocado também não pode tocar. Por isso as mansões deles devem ser diferentes das nossas casas e delicadas como seu corpo: o que mais adiante provarei com largo discurso.
     Dizer ainda que foi por causa dos homens que eles quiseram preparar a maravilhosa natureza do mundo e que, por conseguinte, convém louvar a louvável obra dos deuses e julgá-la eterna e imortal; dizer que não é lícito abalar jamais nos seus fundamentos, seja qual for a razão, ou atacá-la com palavras ou derrubá-la inteiramente, apenas porque foi fundada para a raça humana e por toda a eternidade pela antiga sabedoria dos deuses; imaginar outras coisas deste gênero e vir apresentá-las é, ó Mêmio, perfeita loucura.
     Em que importaria realmente o nosso agradecimento a seres imortais e felizes para que por nossa causa empreendessem fosse o que fosse? Que novidade pôde levá-los, depois de estarem tanto tempo sossegados, ao desejo de mudarem a sua vida anterior?
    Com efeito, parece que a novidade deve agradar a quem encontra obstáculos nos tempos antigos; mas aquele a quem nada aconteceu de desagradável no tempo já passado, aquele que ia levando uma bela vida, como o pôde inflamar de tal modo o amor da novidade? Que mal haveria para nós em não termos sido criados? Ou é que por acaso a vida jazia nas trevas e na dor até a ter iluminado a origem genésica das coisas? Realmente, todo aquele que nasceu deve querer conservar-se na vida enquanto o retiver o doce prazer. Mas, para quem jamais provou o amor da vida nem esteve no número dos vivos, que importa não ter sido criado?
     Depois, para gerar as coisas tem de haver um modelo; donde tiraram os deuses a primeira ideia de homens, para saberem o que desejavam fazer e o verem claramente no espírito? De que modo reconhecerem eles a força dos princípios e a possibilidade de lhes trocarem a disposição, se a própria natureza lhes não tivesse dado o modelo que haviam de criar?
     Os elementos dos corpos em número e feitios inumeráveis e batidos pelos choques desde tempos infinitos foram sempre arrastados, levados pelos seus pesos, a juntar-se de todas as maneiras e a tudo experimentar, tudo o que podia criar-se pela sua junção; não é, pois, de admirar que tivessem chegado a tais disposições, que tivessem vindo a movimentos como aqueles pelos quais o Universo, deslocando-se, eternamente se renova.
     Mesmo que eu ignorasse quais são os elementos das coisas, ousaria, no entanto, e só pelo estudo das leis celestes, afirmar e mostrar, até por outras coisas ainda, que de nenhum modo a natureza foi preparada para nós por vontade dos deuses: tão grandes são os seus defeitos!
     Primeiro, de toda a terra coberta pelo imenso ímpeto do céu possuem os montes e os bosques da terra uma ávida parte; ocupam outra as rochas e os brejos desertos e outra ainda o mar que largamente separa os litorais, e as terras. Depois, perto de duas partes, roubam-nas aos mortais o fervente ardor e a incessante queda da neve.
     Quanto ao que sobra de terra cultivada, a natureza por sua própria força a esconderia sob as silvas, se a energia humana não resistisse e se por causa da vida a não tivesse habituado a gemer sob o forte enxadão e não tivesse rasgado a terra pesando sobre o arado. Se nós não revolvêssemos com a relha as fecundas glebas, se não preparássemos o solo para o que tem de nascer, nada poderia por si mesmo subir no límpido ar; e todavia muitas vezes o que foi obtido com grande trabalho, quando já tudo se cobre de folhas e floresce pela terra, ou o abrasa o sol etéreo com o calor demasiado ou o destroem as súbitas chuvas e a fria geada, e o arrebatam os flagelos do vento em violento turbilhão.
     Por que razão, além disso, alimenta e multiplica a natureza, em mar e terra, a raça terrível das feras inimigas do gênero humano? Por que razão trazem doenças as estações do ano? Por que razão vagueia a morte prematura?
     Depois, a criança, que, tal o marinheiro arremessado pelas ondas terríveis, jaz nu sobre o solo, sem falar, sem nenhum auxílio para a vida, logo que a natureza o lança num esforço, do ventre da mãe às praias da luz, enche o lugar de queixosos vagidos, como é natural para quem tem ainda de passar tantos males durante a vida.
     Mas crescem os variados animais, os de rebanho e as feras, sem que sejam necessários guizos nem as palavras balbuciadas e suaves da ama criadora; não têm de procurar vestuários diferentes segundo a época do céu, nem necessidade de armas e de altas muralhas para proteger as suas coisas: a terra e a natureza criadora a todos dão de tudo, e largamente.
     Visto que a substância da terra, e a água, e os leves sopros do vento e os cálidos vapores de que parece compor-se todo o Universo, tudo isso consiste em matéria sujeita a nascimento e morte, deve considerar-se que dessa mesma matéria é formada a natureza de todo o mundo. De fato, tudo o que nos aparece com partes e membros constituídos por elementos sujeitos a nascimento e morte é também, segundo vemos, de natureza sujeita a nascimento e morte. Por isso, quando vejo os enormes membros e as partes do mundo serem consumidos e renascerem, é lícito concluir que também o céu e a Terra tiveram algum tempo em que principiaram e que serão destruídos no futuro.”


     “O tempo modifica a natureza de todo o mundo, um estádio se sucede a outro, segundo uma ordem determinada, e nada fica semelhante a si próprio: tudo passa, a tudo a natureza muda e obriga a transformar-se. Apodrece um corpo e se enfraquece de velhice e logo outro cresce e sai daquilo que se desprezava. Assim, pois, modifica o tempo a natureza de todo o mundo e passa a terra de um estádio a outro: acaba por não poder o que já pôde e por ser capaz do que lhe era impossível.”


     “Não é piedade alguma mostrar-se muitas vezes aproximando-se velado duma pedra e a correr a todos os altares e deitar-se prostrado no solo e abrir as mãos diante dos templos dos deuses ou espargir os altares com muito sangue de quadrúpedes ou atar votos aos votos: o que vale é poder olhar tudo com um espírito pacífico.”


     “Sem dúvida, existe escondida qualquer força que destrói as coisas humanas e que parece ter gosto em calcar os belos feixes e as machadas cruéis. E quando toda a terra vacila debaixo dos pés e caem abaladas as cidades, ou estremecem e ameaçam ruína, que há de estranhável em que as gerações mortais se humilhem e deixem às forças dos deuses o poder grande e admirável capaz de governar tudo no mundo?”


     “Efetivamente aquilo que temos à mão antes de conhecermos alguma coisa de mais agradável é o que nos dá mais prazer e o que parece ser mais forte; depois, uma coisa melhor faz perder as descobertas antigas e modifica o que sentimos a seu respeito. Assim começou a aborrecer a bolota, assim se abandonaram as camas feitas de ervas e guarnecidas de ramagens. Também do mesmo modo caiu no desprezo o vestuário feito da pele das feras; e, no entanto, creio que despertou ao aparecer uma tal inveja que o primeiro que o usou deve ter sido vítima duma cilada; mas naturalmente se perdeu entre eles, despedaçado e coberto de sangue, e não veio a servir para ninguém.
     Naquele tempo eram as peles, agora é o ouro e a púrpura que fazem que os homens passem a vida em cuidados e a esgotem com as guerras; mas creio que a culpa nos cabe sobretudo a nós próprios. Com efeito, o frio apanhando-os nus, sem peles, torturava os filhos da terra; mas a nós nada nos prejudica carecer duma veste purpúrea e dourada enfeitada de grandes bordados, contanto que tenhamos um vestuário da plebe com que possamos defender-nos.
     Portanto, trabalha a raça dos homens em vão e inutilmente, e sempre em vãos cuidados consome a sua idade; nada há nisto de admirar, porque não sabe que fim se tem de pôr às posses e até onde vai o prazer verdadeiro. E foi isto que a pouco e pouco levou a nossa vida para o mar alto e fez mover profundamente as grandes tempestades da guerra.”


     “Tem de se supor que o raio se origina a partir de nuvens espessas acumuladas a uma grande altura; com efeito, não há nenhum que seja lançado de um céu sereno e de nuvens pouco densas. Disto nos dá a realidade uma prova manifesta, porque é nessa altura que as nuvens se acumulam por todo o ar, como para crermos que as trevas deixaram todas o Aqueronte e vieram encher as grandes abóbadas do céu. Quando a tempestade começa a agitar os seus raios, uma noite temerosa sai das nuvens e lá de cima nos ameaça a face do terror. (...)
     Se, realmente, é Júpiter e os outros deuses que abalam com o terrível som os resplandecentes espaços do céu, e lançam o fogo para toda parte que lhes apeteceu, por que razão não fazem que aqueles que cometeram um crime abominável, sem temor algum, não exalem do peito trespassado as chamas do raio que os fulminou, servindo assim de terrível ensinamento para os mortais, e por que razão aquele que não tem crime algum na consciência se vê envolvido inocente nas chamas e é levado e arrebatado subitamente pelo turbilhão daquele fogo celeste? Por que razão atacam lugares desertos e trabalham inutilmente? Acaso estão dando exercício aos braços e fortificando os músculos? Por que razão permitem que o ardor de seu pai venha embotar-se na Terra? Por que razão o consente ele próprio e não o poupa para os inimigos? Finalmente, por que é que Júpiter não lança dum céu inteiramente limpo e não espalha pelas terras o raio e seu trovão? Então, é quando lhe passam as nuvens por debaixo que ele desce para elas e daí determina o lançamento do dardo? Nesse caso, por que os atira para o mar? Que censura ele às ondas e à massa líquida e às flutuantes planícies?
     Além disso, se ele quer que nos acautelemos com o choque do raio, por que razão hesita em fazer que possamos dar pelo seu lançamento? Se quer, no entanto, que venha o fogo cair sobre aqueles que o não esperam, por que razão troveja nesse ponto, para que possamos evitá-lo, por que razão concita anteriormente as trevas, os frêmitos, os rugidos? Acaso se poderia acreditar que ele os lança para vários pontos? Ousar-se-ia sustentar que jamais ao mesmo tempo tivessem caído vários raios? Mas se é o que já tem acontecido inúmeras vezes: assim como chove e cai a água em vários pontos, assim também chegam, ao mesmo tempo, vários raios.
     Finalmente, por que motivo destrói ele os sagrados templos dos deuses e, com raio inimigo, as suas preclaras moradias, por que razão quebra as excelentes estátuas dos deuses e, com a violenta ferida, diminui o prestígio das suas imagens? E por que motivo ataca ele os lugares elevados e encontramos nós nos altos montes a maior parte dos sinais dos seus fogos?”

2 comentários:

Doney Stinguel disse...

O livro possui cinco autores distintos – que não só possuem mais de 500 anos de distância entre o mais antigo e o mais recente, como também perpassam variadas posições sociais – filósofos, senador e até mesmo um imperador romano.
Desta maneira não haveria como inseri-lo na lista como um único livro, já que na estrutura do blog o elemento classificatório é o autor. Então, para não confundir e desestruturar a lista, as postagens serão divididas consoante os autores, com suas respectivas obras e número de páginas que efetivamente ocupam neste livro.

Sugestão de Livros disse...

Gostei da citação inicial de G. Ribbeck no primeiro parágrafo. É interessante também a referência aos deuses, parece uma coisa tão distante. Interessante também saber que: “A constância das leis naturais é, segundo a opinião de Lucrécio, o argumento mais forte a favor da tese de que os deuses não intervém no governo do mundo e passam o tempo na paz inalterável de uma contemplação bem-aventurada."

Essa parte é filosófica demais: "donde lhes vem o saber que sabe que sabe ou que não sabe, que fato deu sinal do verdadeiro e do falso, que fato prova distinguir-se o duvidoso do seguro?"

Interessante a parte: "Naquele tempo eram as peles, agora é o ouro e a púrpura que fazem que os homens passem a vida em cuidados e a esgotem com as guerras; mas creio que a culpa nos cabe sobretudo a nós próprios." Atualmente, a motivação é o petróleo.