sexta-feira, 26 de junho de 2015

Geografia dos Mitos Brasileiros – Luís da Câmara Cascudo

Editora: Global
ISBN: 978-85-2600-709-3
Opinião: ***
Páginas: 400 

     “Naturalmente o Negro, susceptível, crédulo, impressionável, é a melhor e mais ativa caixa de ressonância que pode existir para os mitos assombrosos, os pavores noturnos, os animais da fábula. A todos descreve com as tintas sensíveis de um medo sem fim. É um retocador magnífico, magistral, insubstituível. Demais, pela voz sonolenta das “Mães pretas”, recebemos o condão de ver e saber da existência terrível de todos os monstros, fadas, príncipes e encantos.
     A influência negra é, em parte, devida a sua inevitável solidariedade com os pavores que evoca. Ele narra com a “escapação aberta”, em pleno rumor, enchendo de barulho misterioso, de explicações sinistras, de justificações maravilhosas, os episódios mais simples, claros e naturais.
     Um fato dirá da profundeza dessa crença vertical, inamolgável, maciça. Um chofer de praça, em Recife, dizia-me, anos passados, que o bandido Virgolino Ferreira, o “Lampião”, era invulnerável por ter recebido um “patuá” da mão de um feiticeiro baiano. “Não há bala que não derreta como manteiga e faca se dobra como arame ao chegar em sua pele”, afirmava o negro motorista, sisudo e convencido. Quando Lampião morreu, casualmente encontrei meu informante e inquiri das virtudes miríficas do “patuá”. Não se perturbou.
     Lampião morreu porque deixara o “patuá” (oração-forte, amuleto, etc.) na barraca, quando fora tomar banho pela manhã. Não tivera tempo de recolocá-lo ao pescoço. Por isso morreu...
     Como obteve essas informações precisas? Ninguém lhe dissera. Ele sabia. E a fé continuava límpida, sem uma nódoa que empanasse o prestígio dos “patuás”. Esse chofer é, entretanto, um conhecedor habilíssimo dos motores de explosão, sabendo seu ofício como raros. A cultura profissional não lhe alterou em coisa alguma a mentalidade. E como ele, vivem milhares.”


     “No cadinho das florestas e das águas tropicais, o Olharapos se tornava Mapinguari. O Bicho-Homem era o Capelobo. As cobras encantadas convergiam para o reino das mboiaçú e das boiunas. Angústias noturnas amalgamavam-se em chibambas, negras velhas, mãos-de-cabelo, de palha e de fogo. Koboldes caprípedes apostavam velocidade com os Curupiras de cabeleira rubra, olhos verdes e pés ao avesso como seus irmãos clássicos, citados em Aulo Gelo. As lendas ornitomórficas floriam. Não mais em Filomelas românticas, mas na revoada dos Sacis de carapuça vermelha, unípedes e travessos como lutinos. Todas as águas-vivas, ardentes e eternas do Medo, do Pavor sem contorno e da Imaginação, desceram, por três boqueirões raciais, para a vertente de onde sairia o brasileiro...
     O português, batendo todo o Brasil com seus sapatões de bandeirante, carregava, em maior percentagem, seus mitos, herança inarredável e perpétua. Os mitos verdadeiramente “gerais”, que se mantêm com as linhas mestras, são de origem peninsular. Nenhum Saci-pererê, ignorado no norte e nordeste, nenhum Caapora, pouco definido em São Paulo e Minas Gerais, pode aceitar o desafio de medir-se com o Lobisomem que trota, cada sexta-feira, por todos os Estados do Brasil. O Mboi-tatá, verdade seja, acende seu clarão pelas cidades, vilas e caminhos, mas aceito normas europeias dos feux-follets, do Sant’Elmo, tendo estórias desencontradas, não se desenha, não se fixa, não se materializa. Os mitos portugueses, ou por eles trazidos, têm direito às prerrogativas do domínio.
     Seguem-se as de origem indígena. Os Tupi-guaranis deram a parte preponderante. Estavam em situação social e geográfica capaz de lutar, aliar-se, combater e fundir-se com o português. Subindo do sul para o norte, empurrando os Gês para leste, batizando quase dois terços da terra brasileira, foram os primeiros homens para o contato. Assistiram à primeira missa, testemunhas inconscientes do auto de posse, tropas auxiliares que ajudaram a destruição de si mesmos. Bateram, arrolados nas “bandeiras”, sul e norte, matando e morrendo. O idioma tupi era a língua de entendimento, o nhengatu, a língua-boa, plástica e musical, codificada nas gramáticas, gabada nos púlpitos, recitada nos autos festivos, nas orações milagrosas, nos bailes tradicionais. Foram até o labirinto amazônico, escorregando pelas margens, deixando as pegadas nas madeiras que dariam nome ao rio, em quase todas as orlas, rumando as cabeceiras, num impulso constante e cego, procurando uma terra onde não se morria e que era perto do céu. Ensina Teodoro Sampaio:
     Até o começo do século XVIII, a proporção entre as duas línguas faladas na colônia, era mais ou menos de três para um, do tupi para o português.
     O padre Antônio Vieira notava, no século XVII, que se falava o tupi comumente, naturalmente. O português estudava-se como elemento cultura, necessário, indispensável, mas secundário ao nhengatu, sonoro e dúctil. Aires do Casal informa que a língua portuguesa “começou a ser geral ou, para melhor dizer, a ter uso em 1755”. E disto se dava no Maranhão, lugar privilegiado.”


      “Nos mitos indígenas, Tupis, melhormente estudados, a influência portuguesa não consegue deformar por inteiro, mas os populariza velozmente. Os portugueses aceitaram os duendes das florestas tupis como seres normais e capazes de façanhas idênticas às dos seus trasgos e olhapins. A teogonia tupi alargou o âmbito de seus adeptos. Nas noites escuras o pavor passava das malocas indígenas para as casas-grandes, onde os colonos abriam os olhos espavoridos para a treva cheia de Curupiras e Lobisomens.
     O negro escravo veio com sua humilhação e seu amor infinito. A força dos seus mitos era religiosa, pedindo cerimonial, ritos, danças, comidas protocolares, indumentária. Um culto que seria clandestino, incompleto pela impossibilidade duma exata observância aos processos religiosos. Ainda hoje quando se estuda o negro brasileiro depara-se com a festa religiosa, com seus orixás e bailados, seus dias de preceitos, a crônica aventureira e valente dos deuses africanos, vencedores dos raios e das mulheres.
     Os mitos, na acepção folclórica do vocábulo, independendo de ritual, de religiosidade inata, são raros. Ninguém os vence no domínio do cerimonial, da religião hierática, severa, com dogmas, roupas, cores, passos, tradições. Frobenius ensinava que o africano só podia ser compreendido através da sua crença. A religião para ele não era um caminho, um liame, como o vocábulo significa, mas a razão, o “estado” do espírito, a própria duração da vida material. E como todas as coisas derredor participavam desse pathos, não é possível isolar do clima religioso negro um mito como os vemos saídos de europeus e indígenas.
     No Folclore brasileiro a influência negra se positiva nas danças, nas diversões de conjunto, em certos autos populares, numa parte musical, em determinadas danças de roda para homens, especialmente as de parelhas soltas ou coletivas, nas estórias e na parte infantil. Nesse mundo dos meninos, o Negro é todo-poderoso. Contou estórias, ressuscitou animais monstruosos, explicou tesouros, mostrou as estrelas, casamento de astros, pavores noturnos, recalques que ficam vivendo na recordação da meninice.
     Bem rara será a figura do ciclo da angústia infantil que não tenha muito dos negros. Nenhum mito geral, porém, resistiu aos anos nem foi registado, partindo dos velhos escravos. O próprio Quibungo é o negro-velho preador de crianças, gênero universal. Nas estórias em que o Quibungo não assombra crianças e aparece como um antropófago, creio já ter sido sua ação modificada por um outro mito, o de um gigante ou homem devorador de carne humana, cujo nome se perdeu. Mesmo assim não há originalidade nessa inusitada ação faminta. Todo o ciclo dos monstros é antropófago.
     Se o Negro é onipotente nas almas infantis, não o é nos espíritos maduros, afora a sedução dos ritos religiosos. Devemos sempre recordar que o Quibungo foi “justificado” pelos estudiosos brasileiros. Peça por peça, armaram-no no Brasil, com deduções, pesquisas, rastejando documentos, interpretando vocabulários. Em livro que nos tenha vindo da África, através de ingleses, portugueses, norte-americanos ou franceses, não se avista o vulto do Quibungo... Nenhuma aparição negra tem a extensão prestigiosa do Lobisomem, do Caipora, do Saci, da Mula-sem-cabeça, sabidos em todos os lábios brasileiros. O Quibungo surge na Bahia, centro de densidade africana, mas não emigra. As regiões vizinhas não conhecem. A faixa da sua influência é limitada e para que a transponha é preciso mudar aspecto e técnicas, ingressando no ciclo de outros pavores.”


     “Uma característica dos mitos e das tradições fabulosas no Brasil é o fáceis ambulatório, infixo, irregular. Nenhum mito-de-presença, sedentário, com atribuições determinadas, inamovíveis. Se esta peculiaridade aparece nos mitos secundários, e os chamo “regionais”, dando-lhes assim um foro jurídico para demandá-los em matéria de Folclore, analise-se que nenhum mito regional guarda traços que o vinculem ao local de sua atuação. O sinal distintivo é apenas a exigência de meios físicos, águas, árvores, terras ou ares. Nunca solicitam a um determinado lugar a razão de sua existência miraculosa. Os nossos são mitos de movimentos, de ambulação, porque recordam os velhos períodos dos caminhos, dos rios, das bandeiras, de todos os processos humanos de penetração e vitória sobre a distância. Quase sempre são mitos cuja atividade é apavorar “quando passam” ou “correm”. Curupiras, Caiporas, Mapinguaris, Sacis, Lobisomens seriam ineficazes em atitude hirta, como uma parada de monstros. Mesmo nos rios, lagoas e mar, os seres assombrosos não têm pouso fixo. Nadam para aqui e para além. A Loreley não deixa seu rochedo no Reno. A nossa Iara é campeã de distância a nado livre...”


     “No Brasil, pelo que sabemos, o culto indígena mais espalhado e seguido, o verdadeiro culto nacional, era o de Jurupari. A catequese religiosa foi obrigada a transformá-lo em Demônio. Não era possível converter-se Jurupari porque os pajés seriam alistados na classe sacerdotal. Achado o Princípio do Mal, havia a necessidade do Princípio do Bem, o Deus-bondade e Criador, uma égide indígena onde a concepção do Iavé hebreu e do Deus-Pai católico pudesse caber e ser entendida. O indígena assimilaria a religião nova se esta viesse por intermédio de formas suas conhecidas. Em todos os processos divulgatórios a adaptação é o primeiro e maior fator de vitória. Quando o missionário enfrentou o africano, explicou que Olurum (o céu), forma dúbia e vaga que não possuía liturgia, era Deus que ele vinha anunciar. Elegbá, o nume carnal, protetor da junção amorosa, anteriormente tido como uma força, um deus invisível, depois manifestado pelas festas fálicas, foi identificado, sendo devasso e lascivo, no próprio Diabo.
     Muito mais vago que o Olurum dos negros nagôs, era o Tupã dos ameríndios brasileiros.
     Era como o Sita dos árias, o Ma dos egípcios, o Tau dos chineses, o Morai dos gregos, entidade acima das contingências humanas, inacessível às súplicas, indiferente aos destinos terrenos. Não tinha a manifestação inicial dos cultos primitivos, que é a lenda explicativa, o conto etiológico. Não fazia milagres nem tinha forma.
     Era Tupã o que os folcloristas ingleses chamam Nature God, personificação abstrata de forças cósmicas, com atuação meteórica, sem interferência na vida sublunar. Pertencia à fase inicial das religiões. Era um elemento que Durkheim dizia préanimiste. Lévy-Bruhl escreve que, nas sociedades primitivas, todas as funções de relação são funções de presença de seres sobrenaturais. E como toda participação tende a ser representada nos fenômenos meteorológicos, que deviam impressionar maiormente aos indígenas, era natural que certos seres fossem apontados como dirigindo o trovão, o raio, o relâmpago e a chuva. Antes, esses fenômenos seriam deificados intrinsecamente. Na fase atual é que a diversificação se completa.”


     “Quem tenha estudado detalhadamente os mitos indígenas do Brasil, ouvido o silvícola, deduzidas as tradições de sua história complexa, terá a conclusão de que eles foram quase sempre observados através da lua europeia, da alma europeia e da mentalidade branca. Nós, inconscientemente, fazemos da nossa moral e costumes, dos nossos dogmas religiosos e padrões estéticos, outros tantos pontos de referência para ajuizarmos o nosso irmão da mata. O resultado é conseguirmos um ser deturpado, misto de malícia e pavor, de bestialidade feroz e de ingenuidade encantadora. Creio que é erro. O índio não é problema desde que o olhamos com os olhos indígenas.
     Um desvio inicial que retarda tanto a compreensão da psiquê ameríndia é sua teogonia que julgamos complexa e pueril.
     Nós começamos a orar, venerar, temer e amar, a sabermos a origem da espécie e do mundo, dirigindo-nos continuamente a um Pai, Deus-Pai. O primeiro Ser, o Supremo Ser, o Que-sempre-foi-e-será, é um Homem.
     Com os índios é isso mesmo às avessas. É um ser feminino, a Mãe, Ci. Acreditavam os índios que tudo no mundo, vegetal, animal, mineral, possui sua criadora, protetora e guiadora eterna. Têm a Mãe do vento, das pedras, dos frutos, de cada tipo de peixe, de insetos, de aves, árvores, estrelas, vermes, cobras, fantasmas. Há a mãe da mandioca como há a mãe da coceira. Tudo tem Mãe e esta gerou seus filhos sem a necessidade do elemento viril. Todos os indígenas sabem de cor a Mãe disto e daquilo, mas ninguém sabe o nome do Pai. O Pai é um detalhe inútil. Ci sempre desconheceu o segredo da reprodução sexuada.
     Eis por que na teogonia tupi todos os grandes deuses são femininos. O Sol é Goaraci, Mãe deste Dia, mãe dos viventes. A Lua é Mãe-nossa, mãe dos vegetais. A tradição das virgens-mães é contínua na América como na África e Ásia. O fecundador desses Ci é um ser que ainda não preocupou a inteligência selvagem. Indicar o aéreo Tupã para esse mister é apenas uma hipótese sem a mais longínqua documentação lendária ou erudita.
     Devia haver, abstrata e vaga, a noção de um Ser Supremo. Mas, como Olurum vive através dos seus “orixás”, bem podia esse Criador atuar por um de seus atributos, o sol, o trovão, a luz, a chuva. Infelizmente nenhum Pajé acedeu em conceder uma entrevista detalhada. Tido como ministro de Satanás, aderiu, fugiu ou morreu, levando seu segredo para o silêncio perpétuo. Devia haver o Ser Supremo, mas este pertenceria a uma classe minoritária, restrita, de eleitos, capazes do entendimento, velhos iniciados nos meandros do suprarreal. Tupã, deus longínquo e sem a indispensável moldura do sacerdócio, só teve as honras das oblatas quando os abaúnas desceram das naus e plantaram, no solo vermelho da Pindorama, a cruz de Cristo.
     Tupã era primitivamente o trovão e depois o ente que o governava. Na teogonia brasileira não era citado e quando aparecia era em lugar secundário. Não encontraram mais sua história nem suas aventuras, além das burlescas e trágicas de Brandão de Amorim. Não tinha Pajé, nem dança, nem festa, nem cerimônia, nem crentes, nem tradições. Foi aproveitado pela inteligência catequista, como noutros países o fizeram, para antepor-se à religião local e dominante. Os elementos colonizadores e posteriormente o curiboca, além da população aborígine cristianizada, aceitaram e propagaram o mito artificial de Tupã e ele foi o único a ser tolerado e prestigiado. Popularizado nas orações feitas pelos jesuítas, passou para a literatura como o Deus dos Índios Brasileiros.
     O Sr. Gabriel Gravier, Presidente da Sociedade Normanda de Geografia, publicou um Étude ser le Sauvage du Brésil (Paris, 1881). À p. 47 escreve:
     Tupã é um Deus grande, poderoso e terrível, Ele se manifesta como o Senhor de Israel, por trovões e relâmpagos. Ele esta em toda parte, ele fez tudo. Seu nome significa quem é. Este é o Deus latino desconhecido*.
     Essa foi a mentalidade que divulgou Tupã para os eruditos da Europa. Findo o impulso cristianizador o movimento não se deteve e Tupã continuou, deformado e canhestro, no seu trono inexpressivo. Nunca merecera do indígena um gesto espontâneo de pavor ou respeito. Isto basta. Não há Deus sem liturgia.”
*: tradução livre


     “O Diabo estava em toda a parte. Aconselhava, dirigia, trabalhava como servo, ajudava. Sabiam até fazer um demoniozinho e alimentá-lo de sangue humano, sugado pelo dedo mínimo, ou sustentá-lo com azeite doce. As judias e ciganas tinham o monopólio desse fabrico assombroso. As bruxas podiam tanto quanto os bispos e os ricos mercadores. Com as trevas da noite as cidades coloniais eram sacudidas pelos uivos dos bichos assombrosos, nascidos pela vontade dos feitiços, no fundo do mistério.
     Para ter-se uma visão da mentalidade, basta a leitura das atas e depoimentos de Visitação do Santo Ofício na cidade do Salvador e Pernambuco. Paulo Prado publicou dois tomos e a Sociedade Capistrano de Abreu um outro. São “instantâneos” sem retoque da época e dos meandros por onde escorria uma fé detalhista, sinuosa, pragmática e hirta. Fernão Cardim, ex-provincial, jesuíta culto, inteligente, cronista delicioso e claro, reitor do Colégio da Companhia de Jesus, denunciou Jorge Martins pelo crime de ter dito que Deus tinha mão direita. O vigário de Tassuapina, padre João Fernandes, denunciou a João Batista por este ter dito que justo só Deus, esquecido que a Virgem Maria, São João Evangelista foram justos e o são assim como o velho Simeão é tido pela Igreja como vir justus et timoratus. A feiticeira Maria Gonçalves, conhecida por “Arde-lhe o rabo”, estava convencidíssima de conversar todas as noites com os diabos. Toda a Europa tremia com medo do Senhor das Trevas. Ainda na primeira metade do século XVIII, dom João V de Portugal e o cardeal da Mota, secretário de Estado, mandavam as negras da Guiné fazer amuletos contra o mau-olhado.”


     “Na luta da catequese os jesuítas se convenceram de que a argúcia dos Pajés e seus conhecimentos médicos, meteorológicos e topográficos, deviam vir do Demônio, padroeiro dos irreligiosos. O indígena não tinha oração nem tributo pessoal para a divindade. Tudo se fazia coletivamente e sob a direção do Pajé decrépito. A campanha catequizadora orientou-se contra o Pajé como para uma vertente lógica por onde todas as águas malsãs escoavam envenenando os ares limpos. Não conheciam Deus. Era o depoimento unânime dos cronistas. Nem uma fé têm, nem adoram a deus algum (frei Vicente do Salvador). Esta gentilidade nenhuma coisa adora, nem conhecem Deus (padre Manuel da Nóbrega). Além de não revelarem conhecimento nenhum do verdadeiro Deus, não adoram nem confessam deuses falsos, celestiais ou terrestres (Jean de Léry). Nenhuma criatura adoram por Deus (padre Anchieta). Este gentio não tem conhecimento algum de seu Criador, nem de coisa do céu (padre Fernão Cardim). Não adoram coisa alguma (Pero de Magalhães Gandavo). Não tinham espécie alguma de religião (Cláudio d’Abbeville). Sem fé, sem lei, sem religião (André Thevet).”


     “Retina de civilizado deforma ao mirar as histórias incompreensíveis.”


     “Os deuses da teogonia tupi são andróginos. Têm em si os órgãos de fecundação e da reprodução. Independem da divisão dos sexos. Goaraci, o Sol, e Jaci, a Lua, deuses superiores, são ambos femininos e criaram tudo que existe na terra. Todos os indígenas falam na Mãe-do-rio, mãe das aves, dos peixes, das pedras, das rãs, das flores, das moléstias etc. Mas não falam no progenitor. Parece mesmo que houve um período longo de matriarcado porque Jurupari, o reformador, retirou o governo das mãos das mulheres e entregou-o aos homens. Não seria coisa invulgar a concepção sem a pesquisa da paternidade subsequente. Depois é que não se pôde admitir o fruto sem o semeador.
     Existia no Brasil o Ipupiara, informe e mau. Mães-d’Água, Iaras, botos dom-juan são somas de estórias da Europa e África convergidas para objetos que despertaram a curiosidade pela anormalidade dos costumes. O Ipupiara passou a Mãe-d’Água. O Boto recebeu a herança erudita do golfinho páfio, egresso dos cultos dos portos gregos, onde abrolhou Vênus, citérea ou páfia. A Iara é europeia. O índio não a conheceu outrora. Hoje é natural que a diga velhíssima, uma vez que, há três séculos, a lenda escorre pela sua memória. Impossível aceitar na íntegra toda documentação dos estudiosos. Hartt registra um episódio em que uma Uiara toma a forma de uma veada para seduzir um caçador na serra do Ererê. Evidentemente essa veada é um despautério para um mito fluvial. Trata-se de Anhanga... mas isto é outra estória, but that is another story, como diria Kiplin.”


     “Onde vai o Homem, com ele viajam seus pavores.”

Um comentário:

Sugestão de Livros disse...

Bem legal, parece um livro interessante.