quinta-feira, 28 de maio de 2015

Guerra e Paz (Volume IV) – Leon Tolstói

Editora: L&PM
ISBN: 978-85-2541-674-2
Tradutor: Isabel da Nóbrega e João Gaspar Simões
Opinião: ****
Páginas: 408

     “O amor? Que é o amor?”, pensava ele. “O amor é o inimigo da morte. O amor é a vida. Tudo, absolutamente tudo que me é dado compreender, graças ao amor eu o compreendo. Tudo que é, tudo que existe, pelo amor existe. O amor é Deus; morrer é regressar, eu, parcela desse amor, à fonte geral e eterna”.”


     “A razão humana não pode compreender a correlação das causas e dos acontecimentos, mas a necessidade de em tudo achar uma causa é inerente ao espírito humano. Eis porque a inteligência, incapaz de penetrar as razões infinitas e infinitamente complicadas dos acontecimentos, as quais, cada uma de per si, podem fazer figura de causa, lança mão da primeira que lhe aparece, seja a mais acessível das coincidências, e proclama: Esta é a causa! Nos fatos históricos que têm por objeto de estudo as ações humanas, a mais vulgar coincidência costuma ser a vontade dos deuses, e depois a dos homens colocados em situação de destaque, os chamados “heróis da história”. Basta, no entanto, aprofundar um pouco qualquer fato histórico, isto é, ver agir as massas de homens que tomaram parte nele, para nos persuadirmos de que não é a vontade deste ou daquele herói que conduz as massas, mas, muito pelo contrário, é essa mesma massa que a todo o momento é conduzida. Dir-se-á ser indiferente que os acontecimentos se expliquem desta ou daquela maneira.”


     “É bem verdade o que se costuma dizer: sem ter com quê, nem a pulga um homem pode matar.”


“- Os velhos têm razão. Mão suada é dadivosa, mão enxuta é avara.”


     “André pensava e dizia que a felicidade apenas tinha caráter negativo, e isto não sem que o dissesse e pensasse com um misto de amargura e ironia. Pensando assim, parecia querer dizer que todas as aspirações do homem à felicidade positiva lhe não tinham sido dadas senão para o atormentar, insatisfeitas que sempre eram. Sem qualquer pensamento reservado, Pedro adotara esta maneira de pensar. A ausência da dor, a satisfação de todas as necessidades, e, como consequência, a liberdade da escolha das suas próprias ocupações, isto é, do gênero de vida que mais lhe quadrava, afiguravam-se-lhe, a Pedro, incontestavelmente, o ideal da felicidade humana. Mas agora compreendera pela primeira vez o prazer de comer quando se tem fome, de beber quando se tem sede, de dormir quando se tem sono, de se aquecer quando se tem frio, de falar quando apetece ouvir uma voz humana. A satisfação das necessidades, uma boa alimentação, o asseio, a liberdade, agora, que estava privado de tudo isso, apareciam-lhe como o suprassumo da felicidade, e a liberdade da escolha das suas ocupações, isto é, a própria vida, agora, que tão limitada lhe estava essa escolha, parecia-lhe coisa tão fácil que esquecia que o próprio excesso das comodidades da existência destrói toda a felicidade que resulta da satisfação das necessidades e que uma perfeita liberdade de ação, essa liberdade que lhe proporcionara a instrução, a fortuna, a posição na sociedade, torna a escolha das ocupações excessivamente difícil e por isso mesmo destrói a necessidade e o desejo de ação.”


     “Kutuzov sabia que quando se deseja muito qualquer coisa, pode uma pessoa acabar por preparar as notícias de sorte a que elas confirmem o que se deseja, tendo o cuidado de guardar silêncio sobre tudo que contradiga o que se pretende.”

  
     “Pedro, como sempre costuma acontecer, só sentiu o peso das privações a que estivera sujeito durante o cativeiro no dia em que as desventuras acabaram. Assim que foi posto em liberdade, dirigiu-se a Orel e no dia seguinte, na altura de se meter a caminho para Kiev, adoeceu. Três meses ficou de cama em Orel. Segundo os médicos, sofria de uma febre biliosa. Apesar de todos os cuidados que lhe dispensaram, não obstante as sangrias e os remédios, conseguiu recuperar a saúde.”


     “Pretender-se que a vida dos homens seja sempre dirigida pela razão é destruir toda a possibilidade de vida.”


     Os criados são os juízes mais fiéis dos seus amos, pois os julgam não por conversas ou manifestações exteriores, mas pelos seus atos e conduta.”

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Guerra e Paz (Volume III) – Leon Tolstói

Editora: L&PM
ISBN: 978-85-2541-673-5
Tradutor: Isabel da Nóbrega e João Gaspar Simões
Opinião: *****
Páginas: 408 

     “Em fins de 1811 principiaram os armamentos intensivos e a concentração das forças da Europa ocidental e, em 1812, estas forças, ou seja, milhões de homens, no número das quais se contava transportes e abastecimentos, puseram-se em marcha do ocidente para o oriente, em direção às fronteiras da Rússia, para onde se encaminhavam, igualmente, a partir de 1811, os exércitos russos. No dia 12 de Junho, os exércitos da Europa ocidental atravessaram a fronteira e a guerra principiou, isto é, produziu-se então um acontecimento em desacordo completo com a razão e a própria natureza do homem. Estes milhões de homens praticaram, em relação uns aos outros, tão grande número de abominações, de fraudes, de traições, de roubos, de falsificações de moeda, de pilhagens, de incêndios e de morticínios como não há exemplo nos arquivos dos tribunais do mundo inteiro, funcionando há séculos, e sem que, no entanto, durante todo este período, aqueles que cometeram tais crimes fossem considerados, realmente, criminosos.”


     “O homem vive para si mesmo, goza de liberdade para alcançar os seus objetivos particulares; todo o seu ser lhe diz que pode realizar ou não imediatamente este ou aquele ato; mas assim que age, realizado que seja o seu ato em tal ou qual momento da continuidade temporal, ei-lo que passa a ser irrevogável e a pertencer daí para o futuro à história, perdendo o seu caráter de ato livre para ocupar um lugar que lhe é previamente designado.
     A vida do homem tem duas faces. Há, em primeiro lugar, a vida individual, tanto mais livre quanto mais gerais os seus interesses, quanto mais abstratos; e depois a vida como um elemento social, a vida do cortiço humano, em que o homem tem inevitavelmente de se submeter às leis que lhe são prescritas.
     O homem vive conscientemente a sua vida individual, servindo de instrumento inconsciente à realização dos fins históricos da humanidade inteira. O ato realizado torna-se irrevogável, e, graças à sua concordância com os milhões de outros atos realizados ao mesmo tempo, assume valor histórico. Quanto mais alto o homem esta colocado na escala da humanidade, quanto mais importantes as personagens com quem entra em contato, tanto maior, igualmente, o seu poder sobre os outros homens e mais evidente o caráter de predestinação e de fatalidade de cada um dos seus atos.
     “O coração dos reis esta na mão de Deus.” “O rei é escravo da história.”
     A história, quer dizer, a vida inconsciente, geral, elementar, da humanidade serve-se de todos os minutos da vida dos reis para alcançar os seus objetivos.
     Embora então, em 1812, Bonaparte estivesse mais do que nunca convencido de que não dependia senão dele “fazer ou não verter o sangue dos povos”, como dizia Alexandre na última carta que lhe escreveu, a verdade era mais do que nunca encontrar-se sujeito a essas leis fatais que, enquanto lhe davam a ilusão de agir por si, segundo o seu próprio capricho, o compeliam a colaborar na obra comum, a história, realizando o que necessariamente tinha de realizar-se.
     Os homens do Ocidente puseram-se a caminho do Oriente para se chacinarem uns aos outros. E, segundo a coincidência das causas, colaboraram neste acontecimento e encontraram-se em correlação com ele milhares de pequenas causas desse movimento e dessa guerra, entre as quais a violação do bloqueio continental, a ofensa ao duque de Oldemburgo, os deslocamentos de tropas na Prússia, realizados, segundo pensava Napoleão, com o único fim de se conseguir uma paz armada; o amor da guerra do imperador dos Franceses e o hábito em que estava de a fazer, de acordo com as disposições particulares do seu povo; o entusiasmo a que levavam os preparativos grandiosos; as despesas que estes preparativos determinaram; a necessidade de conseguir vantagens que compensassem tais despesas; as honrarias inebriantes que recebera em Dresden; as conversações diplomáticas que, de acordo com a opinião dos contemporâneos, haviam sido realizadas com o sincero desejo de alcançar a paz e que no fim de contas só serviram para irritar o amor-próprio de parte a parte; milhões de milhões de outras causas, enfim, que concorreram para a realização do acontecimento ou que coincidiram com ele.
     Uma maçã cai quando esta madura. Por quê? É o peso que a faz cair? Ou porque se lhe seca o pé, porque o sol a queima, porque se tornou pesada de mais, porque o vento a sacudiu ou, muito simplesmente, porque um garoto junto da árvore morria por comê-la?
     Nenhuma destas causas é a válida. Não há mais que uma concordância de condições favoráveis na realização de qualquer dos acontecimentos elementares da vida orgânica. O botânico que descobre que a maçã cai como consequência da decomposição do tecido celular ou qualquer coisa semelhante não tem mais razão que o garoto dizendo que a maçã caiu porque ele a desejava comer e nesse intuito rezou a Deus. Igual razão ou sem-razão terá aquele que vier dizer que Napoleão entrou em Moscou por ser esse o seu desejo e que aí se perdeu por ser essa a decisão de Alexandre. Igualmente estará em erro e terá razão aquele que disser que uma montanha de milhões de puds que acabou por se desmoronar minada na base caiu graças ao último golpe de picareta do último dos sapadores. Nos fatos históricos, esses a quem se dá o nome de grandes homens não passam, no fundo, de etiquetas para designar o acontecimento. Aqueles têm tão pouca relação com tais fatos como as próprias etiquetas que lhes põem.
     Nenhum dos seus atos que a eles se lhes afigurem produto do livre arbítrio podem considerar-se em verdade voluntários no sentido histórico da palavra, pois estão relacionados com a marcha geral da história, onde o seu lugar se encontra assinalado para toda a eternidade.”


     “Pfuhl era criatura de uma só peça e de uma teimosia tal que seria capaz de afrontar o martírio em defesa das suas ideias; era como só os Alemães sabem ser, pois só eles são capazes de uma cega confiança nas noções abstratas, na ciência, isto é, no conhecimento pressuposto da verdade absoluta.
     O Francês é um homem seguro de si, persuadido de que, pessoalmente, quer pelo espírito, quer pelo físico, exerce uma irresistível sedução tanto nos homens como nas mulheres. O Inglês também goza da mesma segurança, por estar persuadido de que é cidadão do Estado mais bem organizado do mundo, e daí saber sempre, na sua qualidade de inglês, que o que deve fazer e faz é indiscutivelmente perfeito. Pelo seu lado, o Italiano tem confiança em si próprio porque facilmente se emociona, esquecendo-se ainda mais depressa de si e dos outros. Ao Russo também não falta confiança, visto que tudo ignora e nada quer saber e estar convencido de que ninguém pode saber seja o que for. No que diz respeito ao Alemão, porém, esse é o pior de todos, mais obstinado que ninguém e mais desagradável para todo o mundo, convencido de que conhece a verdade, ou seja a ciência que ele próprio fabrica, para ele, a verdade absoluta.”


     “Em vez de gênios, os melhores generais que eu conheci eram estúpidos ou pouco sérios. (...)
     Um bom militar nem precisa de ser gênio nem de ter qualidades especiais. Pelo contrário, deve ser desprovido do que há de melhor e de mais elevado no homem: o amor, a poesia, a ternura, a dúvida filosófica, filha da experiência. Deve ser limitado, estar persuadido de que é de alta importância tudo quanto faz. De outro modo faltar-lhe-á a persistência; só assim será um valoroso capitão. Que Deus o defenda de amar alguém, de se afeiçoar seja a quem for, de ser compadecido, de pensar no que é justo e no que o não é. Compreende-se que desde tempos imemoriais se tenha inventado para galardão seu a teoria do gênio, pois, em verdade, representa o poder. O êxito ou o desaire de uma ação militar não podem ser-lhe atribuídos, mas ao soldado que nas fileiras grita: ‟Estamos perdidos!‟ ou então exclama ‟Hurra! Somente nas fileiras um homem pode servir convencido de que é útil!”

    
     “Rostov escutava o relato não só sem uma palavra que encorajasse o narrador, mas inclusivamente com uma cara que dir-se-ia envergonhada pelo que ouvia, embora nada tivesse que objetar. Depois de Austerlitz e da campanha de 1807, sabia, por experiência própria, que quem conta um episódio militar nunca fala inteiramente verdade, como com ele próprio acontecera então. Além disso, já era bastante experimentado na guerra para saber que nada se passa no campo de batalha como as pessoas o imaginam ou como é costume virem a contá-lo mais tarde.”


     “- Sei de fonte limpa que Kutuzov impôs como condição sine qua non que o grão-duque herdeiro não continue no exército. Sabem o que disse ao imperador? E o príncipe Vassili repetiu as palavras que este teria dito ao soberano: “Não posso castigá-lo se se portar mal nem recompensá-lo se se portar bem.”


     “Quando se parte lenha, é certo e sabido que as lascas vão pelo ar.”


     “Acredita no que te digo, meu caro: nada há que valha estes dois soldados: a paciência, e o tempo! Eles farão tudo.”


     “A aproximação do inimigo não levara os Moscovitas a acreditar que a situação se, tivesse tornado mais séria; examinavam-na, pelo contrário, com mais leviandade, como costuma acontecer quando uma catástrofe se aproxima. Na hora do perigo duas vozes, igualmente fortes, se ouvem na alma do homem: uma aconselha sempre, prudentemente, que cada um de nós se dê conta exata do perigo que o ameaça e trate de procurar maneira de o evitar; a outra, ainda com maior prudência, diz-nos ser muito penoso e dolorosíssimo pensar no perigo, visto não estar nas possibilidades do homem prever e furtar-se à marcha dos acontecimentos, e o melhor é não nos preocuparmos com as coisas tristes antes do fato consumado e só pensarmos nas coisas agradáveis. O homem isolado obedece, regra geral, à primeira destas vozes; em sociedade, pelo contrário, submete-se à segunda. Era o que de fato estava a acontecer com os habitantes de Moscou. Nunca as pessoas ali se haviam divertido tanto como naquele ano.”


     “Quem muito se justifica, alguma culpa tem.”


     “Naquele momento o problema que preocupava Pedro desde a encosta de Mojaisk afigurou-se-lhe claro e fácil de resolver. Agora compreendia inteiramente o sentido e a importância da guerra que se travava e da batalha que ia dar-se. Tudo o que vira durante aquele dia, aquela expressão grave dos rostos que observara ao passar pelos homens, se iluminou para ele de um novo esplendor. Compreendeu esse calor oculto, latente, como se diz em física, o calor do patriotismo que emanava de toda essa gente e isso explicava-lhe porque todos, serena e por assim dizer despreocupadamente, se preparavam para morrer.
- Não fazer prisioneiros – prosseguiu o príncipe André – seria transformar a guerra e torná-la menos cruel. Em vez disso, não fizemos outra coisa senão brincar às guerras. E esse foi o erro: mostramo-nos magnânimos, etc. Esta magnanimidade, este sentimentalismo, fazem-me lembrar a senhora que desmaia quando vê matar uma vitela. É tão boazinha que não pode ver correr sangue, embora seja capaz de comer com apetite essa mesma vitela servida com um molho saboroso. Falam-nos nos direitos da guerra, de cavalheirismo, de parlamentários, de humanidade para com os desgraçados e de outras coisas no mesmo gênero. Tudo isso são tolices. Eu bem vi em 1805 todas essas lindas coisas, esse cavalheirismo, esse respeito pelos parlamentários... Enganaram-nos, e nós, pela nossa parte, fizemos o mesmo. Saqueiam casas que lhes não pertencem, espalham dinheiro falso, e, coisa pior ainda, matam-nos filhos, pais, e depois vêm-nos falar das leis da guerra e da generosidade para com o inimigo. Não fazer prisioneiros, mas matá-los a todos e morrermos também! Aquele que chegou, como eu, a esta convicção, depois de ter passado pelos mesmos sofrimentos...
      O príncipe André ia dizer ser-lhe indiferente que Moscou viesse a ser ou não tomada, como o fora Smolensk, mas calou-se de chofre: um espasmo imprevisto lhe apertava a garganta. Deu alguns passos calado, mas nos seus olhos havia um brilho febril e os seus lábios tremiam quando retomou a palavra:
     - ...Se não existisse esta falsa magnanimidade na guerra, não caminharíamos para a morte senão quando a morte fosse certa, como acontece hoje. Não haveria guerras com o pretexto de que Pavel Ivanitch ofendeu Mikail Ivanitch. Mas em compensação quando houvesse uma guerra como a de hoje então seria uma guerra a valer. E não haveria também grandes massas de tropas em ação, como agora. Todos esses westfalianos e todos esses hessianos que Napoleão traz consigo não o teriam seguido até à Rússia, e nós, pela nossa parte, não nos teríamos ido bater na Áustria e na Prússia, sem mesmo saber por que razão. A guerra não é um divertimento, mas a coisa mais repugnante deste mundo. É preciso compreendê-la e não nos servirmos dela como uma brincadeira. É preciso aceitar seriamente, com austeridade, esta terrível necessidade. E daqui não há que sair, é preciso acabar com a mentira: a guerra, sim, a guerra é a guerra e não um divertimento. De outro modo a guerra será um entretenimento próprio de ociosos e de espíritos superficiais. A classe militar é das mais dignas. Mas que é a guerra? Que é preciso para se ter êxito nas operações militares? Quais são os costumes da sociedade militar? A finalidade da guerra é o homicídio; as suas armas são a espionagem, a traição, a ruína dos habitantes, o saque e o roubo organizados para manutenção do exército, a fraude e a mentira mascaradas como astúcias de guerra. Quais os costumes da classe militar? A supressão da liberdade sob o pretexto da disciplina, a ociosidade, a grosseria, a crueldade, a devassidão, a embriaguez, E, apesar de tudo, é uma classe superior, respeitada por todos. Todos os reis, à exceção do imperador da China, envergam o uniforme militar e as mais altas recompensas reservam-se para aquele que mais gente matou. Reúnem-se os soldados, como vai acontecer amanhã, para se chacinarem uns aos outros. Matar-se-ão e ficarão mutilados dezenas de milhares de homens e depois haverá cerimônias religiosas de ação de graças por se terem morto tantos homens, sem que, no entanto, se deixe de exagerar o número dos que se mataram, proclamando-se a vitória, dizendo que quanto maior o número de mortos mais retumbante esta será. Como é possível que Deus os ouça e os escute lá de cima?  clamou o príncipe André na sua voz colérica. – Oh, querido amigo, durante os últimos tempos muito penoso me tem sido viver! Vejo que principiei a compreender coisas de mais. Não é bom conhecer o homem os frutos da árvore do bem e do mal... Mas não será por muito tempo – acrescentou.”


     “Pois a verdade é que numa batalha ninguém pensa senão no que tem de mais precioso, ou seja, na própria vida, e o que pode acontecer é que umas vezes a salvação esteja na fuga para a retaguarda e outras na marcha avante.”


     “A sua larga experiência da guerra, a sua prudência de velho, diziam-lhe não ser possível a um só homem dirigir centenas de milhares de outros homens que lutam com a morte. Kutuzov sabia que o que decide do destino das batalhas não eram nem as medidas tomadas pelo general-chefe, nem as posições ocupadas pelos soldados, nem o número dos canhões e dos mortos, mas essa força inapreensível que se chama “o moral das tropas” e que ele procurava descobrir e dirigir na medida do possível.”


“- Alteza, nos assuntos indecisos é sempre o mais tenaz que sai vitorioso.”


     “Por que será que me custa tanto deixar esta vida? Há de fato nela qualquer coisa que eu não compreendia e que continuo sem compreender.”


     “Destinado pela Providência para desempenhar o papel lamentável e servil de carrasco das nações, Napoleão queria convencer-se de que o seu objetivo era o bem dos povos e que podia orientar o destino de milhões de seres fazendo a sua felicidade.”


“- Boa ou má, a minha cabeça só comigo pode contar.”


     ““A guerra”, dizia-lhe uma voz, “é a sujeição mais penosa que pode conceber-se da liberdade humana às leis de Deus. A simplicidade é a obediência a Deus; tudo depende d’Ele. E ‘eles’ são simples. Eles não dizem o que fazem. A palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro. O homem nada pode possuir enquanto temer a morte. Só quem não teme a morte é senhor de tudo. Se a dor não existisse, o homem não conheceria os seus limites, não se conheceria a si mesmo. Nada mais difícil”, pensava ele, continuando a sonhar, “que cada um saber reunir na sua própria alma o significado de todas as coisas. Reunir tudo? Não, não é essa a palavra. Não é possível unir todas as ideias, mas, sim, pô-las de acordo!”, repetia, com uma espécie de entusiasmo interior, como se sentisse que essas palavras, e só elas, exprimiam perfeitamente o que ele queria dizer, resolvendo a questão que o atormentava.”


     “- Paris!... Um homem que nunca foi a Paris é um selvagem.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Guerra e Paz (Volume II) – Leon Tolstói

Editora: L&PM
ISBN: 978-85-2541-672-8 
Tradução: Isabel da Nóbrega e João Gaspar Simões
Opinião: ****
Páginas: 392

“- Consideram-me má pessoa – dizia. – Esta bem, suponhamos que sou assim. Não quero conhecer senão as pessoas a quem estime e por essas sou capaz de dar a própria vida. Quanto aos demais a esses era capaz de os esmagar a todos se os viesse a encontrar no meu caminho. Tenho uma mãe a quem idolatro, de quem não sou digno, dois ou três amigos, no número dos quais conto, e, quanto aos outros, esses apenas os considero na medida em que me podem ser úteis ou nefastos. E quase todos eles são prejudiciais, especialmente as mulheres. Sim, meu velho – prosseguia ele –, tenho encontrado homens dignos, de sentidos nobres e elevados. Mas entre as mulheres, até hoje, só encontrei criaturas que se vendem, e, quer sejam condessas ou cozinheiras, é o mesmo. Ainda não encontrei essa pureza celeste, essa dedicação que procuro na mulher. Se um dia encontrasse uma mulher assim, era capaz de dar a vida por ela. Quanto às que eu conheço... – Teve um gesto de desprezo. – E, acredita, se me interessa viver, é apenas na esperança de ainda vir a encontrar essa criatura celeste, que me regenerará, me purificará, me resgatará. Mas tu não me podes compreender.”


     “Eu disparei contra Dolokov porque me considerava ofendido, e Luís XVI foi guilhotinado porque o consideravam um criminoso, e se um ano mais tarde mandaram matar aqueles que o tinham guilhotinado, é porque também havia razões para isso. O que é o mal? O que é o bem? Que devemos nós amar? Que devemos odiar? O que é a vida? O que é a morte? Que forças dirigem tudo isto?
     E não havia resposta a qualquer destas perguntas, salvo uma resposta ilógica, que não explicava coisa alguma. Esta resposta era: “Um dia hás-de morrer e tudo acabará. Tu morrerás e saberás tudo ou deixarás de formular estas perguntas.” Mas morrer era uma coisa horrível.”


     “No dia 4 chega o primeiro correio de Petersburgo. Transportam as malas para o gabinete do marechal, que gosta de fazer tudo pelas suas próprias mãos. Chamam-me para ajudar à distribuição das cartas e tomar conta das que nos são destinadas.
     O marechal segue o nosso trabalho e aguarda os despachos que lhe são dirigidos. Procuramos; nem um. O marechal impacienta-se, ele próprio decide procurar e encontra cartas do imperador para o conde T., para o príncipe V, e quejandos. Então, aí o temos num dos seus ataques de fúria negra. Despede raios e coriscos contra toda a gente, apodera-se das cartas, abre-as, e lê as que o imperador endereça a outros.
     “Ah! É assim que se comporta para comigo? Não tem confiança em mim! Ah! Dá instruções para me espiarem. Fora daqui!” E ei-lo que redige a famosa ordem do dia para o general Bennigsen:
     “Estou ferido, não posso montar a cavalo e, portanto, comandar o exército. O senhor levou o seu corpo de exército derrotado para Pultusk, onde este se encontra sem lenha e sem forragens e desprovido do necessário, por isso, como ainda ontem o disse ao conde Boekshevden, é preciso retirar para a nossa fronteira, o que tem de fazer-se hoje mesmo.”
     “As minhas expedições a cavalo”, escreveu ao imperador, “provocaram-me uma ferida proveniente do abuso da sela, o que, além de outros inconvenientes, me impede por completo de montar e comandar um exército da importância deste; eis porque confiei o comando ao general mais antigo, o conde Boeksheden, transmitindo-lhe todos os serviços, e aconselhei-o a que, no caso de lhe faltarem mantimentos, se retirasse para mais perto de nós, para o interior da Prússia, visto que não há pão para mais de vinte e quatro horas e nalguns regimentos já acabou de todo; foi isso, pelo menos, o que declararam os comandantes de divisão Ostermann e Siedmorietski, e nos lares dos camponeses tudo foi devorado. Quanto a mim, aguardando o meu restabelecimento, fico no hospital de Ostrolenko. Ao transmitir, com data de hoje, o presente relatório a Vossa Majestade, tenho a honra de lhe participar que, se o exército permanecer ainda quinze dias no seu atual acampamento, quando chegar a Primavera não restará um só soldado válido.
     Permita Vossa Majestade que um velho se retire para o campo, levando consigo a vergonha de não ter podido cumprir o grande e glorioso destino para que fora escolhido. Aguardarei aqui, no hospital, a vossa muito augusta autorização, para que não venha a desempenhar no exército o papel de ‘escriba’ em vez do de chefe. A minha retirada do exército não produzirá a mais ligeira sensação – é um cego que se retira do exército, nada mais. Homens como eu encontram-se na Rússia aos pontapés.”
     O marechal zangou-se com o imperador e castigou-nos a todos; não é lógico?
     E aqui tem o primeiro ato. No ato seguinte, o interesse e o absurdo crescem, como é natural. Depois da partida do marechal, chegou-se à conclusão de que nós estávamos à vista do inimigo e era preciso travar batalha. Boekshevden é general-chefe por antiguidade, mas o general Bennigsen não é dessa opinião, tanto mais que, estando com o seu corpo de exército diante do inimigo, quer aproveitar a ocasião para uma batalha “aus eigener Hand” (por suas próprias mãos), como dizem os Alemães. E teve-a. Foi a batalha de Pultusk, que tem sido considerada uma grande vitória, mas que, na minha opinião, de vitória nada tem. Nós, civis, temos, como sabe, o mau hábito de decidir quando uma batalha é uma vitória ou uma derrota. O que se retira depois do combate é, em nossa opinião, aquele que a perdeu, e foi por isso que nós perdemos a batalha de Pultusk. Em resumo, nos retiramos no fim da batalha, mas enviamos um correio a Petersburgo com a notícia de uma vitória, e o general não cede o comando em chefe a Boekshevden na esperança de receber de Petersburgo, em reconhecimento da sua vitória, o título de general-chefe. Durante este interregno iniciamos um plano de manobras extremamente interessante e original. A nossa finalidade não consiste, como seria de esperar, em evitar o inimigo ou atacá-lo, mas unicamente em evitar o general Boekshevden, o qual, por direito de antiguidade, seria o nosso chefe. Visamos este objetivo com tanta energia que até mesmo quando atravessamos um rio não vadeável queimamos as pontes para cortarmos a ligação com o nosso inimigo, o qual, de momento, não é Bonaparte, mas Bockshevden. Este livrou-se de ser atacado e aprisionado por forças inimigas superiores graças a uma das nossas belas manobras, que nos livrava dele. Boekshevden persegue-nos, fugimos. Assim que ele atravessa para a margem do rio onde nós estamos, nós passamos para a margem contrária. Finalmente, o nosso inimigo Boekshevden apanha-nos e ataca-nos. Os dois generais zangam-se. Chega mesmo a haver um desafio para duelo da parte de Boekshevden e um ataque de epilepsia da parte de Bennigsen. Mas, no momento crítico, o correio que leva a notícia da nossa vitória de Pultusk traz-nos de Petersburgo a nomeação do general-chefe, e o primeiro inimigo. Boekshevden, esta liquidado: podemos pensar agora no segundo. Bonaparte. Mas então acontece que nesse momento se ergue diante de nós um terceiro inimigo, o exército ortodoxo, que pede, clamando, pão, carne, suchari, feno, que sei eu! Os armazéns estão vazios, os caminhos impraticáveis. O exército ortodoxo lança-se na pilhagem e de maneira tal que o que viu na última campanha lhe não pode dar a mais pequena ideia do que se esta a passar. Metade dos regimentos forma tropas livres, as quais percorrem o país levando tudo a ferro e fogo. Os habitantes estão completamente arruinados, os hospitais transbordam de doentes e a fome grassa por toda a parte. O quartel-general já por duas vezes foi atacado por bandos de salteadores e o próprio general-chefe viu-se obrigado a pedir o auxílio de um batalhão para correr com eles. Aquando um desses ataques levaram-me a minha mala vazia e o meu roupão. O imperador quer conceder a todos os comandantes de divisão autorização para fuzilar os salteadores, mas tenho o meu receio de que esta medida venha a obrigar metade do exército a fuzilar a outra metade.”


“- Mas então não sabe como isso acabou? Ouviu falar do duelo?
- E tiveste de chegar a esse ponto!
- A única coisa em que estou agradecido a Deus é de não ter matado esse homem – murmurou Pedro.
- E por quê? Não fica mal a ninguém matar um cão danado.
- Sim, mas matar um homem não esta bem, não é justo...
- Não é justo por quê? – insistiu André. – Ao homem não compete decidir do que é justo ou do que o não é. O homem sempre errou e sempre há-de errar, e principalmente naquilo que ele considera justo ou injusto.
- É injusto o que prejudica o próximo – observou Pedro, que sentia prazer em verificar, pela primeira vez desde que chegara, que o amigo começava a animar-se e a tornar calor pela conversa, e pretendia, deste modo, dar a conhecer tudo que o levara ao estado em que atualmente se encontrava.
- E como sabes distinguir o que prejudica o próximo? – perguntou André.
- O mal! O mal! – exclamou Pedro. – Todos nós sabemos muito bem o que é mau para nós próprios.
- Sim, é verdade, sabemos, mas o que me faz mal pode não fazer mal a outro – redarguiu André, cada vez mais animado e desejoso de expor a Pedro o seu novo ponto de vista. E acrescentou em francês: “Na vida só conheço dois males bem reais: o remorso e a doença. Só a ausência destes dois males é que é o bem.” Viver para mim próprio e limitar-me a evitar estes dois males, eis, atualmente, em que consiste toda a minha sabedoria.
 - E o amor do próximo, e a dedicação? – atalhou Pedro. – Não, não posso concordar consigo. Viver apenas para não fazer mal, para evitar o remorso, é pouco, muito pouco. Vivi assim, vivi só para mim e malogrei a minha vida. E só agora é que estou a viver, ou, pelo menos, a esforçar-me por viver – retificou por modéstia – para os outros. Só agora é que compreendi a felicidade da existência. Não, não posso estar de acordo consigo, e estou convencido de que não pensa o que diz. (...)
- É possível que tenhas razão no que te diz respeito – acrescentou após alguns momentos de silêncio. – Cada um vive como melhor entende. Tu, tu viveste para ti e entendes que vivendo assim ias malogrando a tua vida e que não soubeste o que era felicidade senão no dia em que começaste a viver para os outros. Eu, por mim, fiz a experiência contrária. Vivi para a glória. E que é a glória? É também o amor do próximo, o anseio de fazer alguma coisa por ele, o desejo de merecer os seus louvores. Quer dizer que eu vivi para os outros e que não só estive em risco de comprometer a minha existência, como a malogrei, de fato, completamente. Eis porque, de então para cá, desde que não vivo senão para mim, passei a ter uma vida mais serena.
- Mas como é possível viver-se só para si? – interrogou Pedro, cada vez mais exaltado. – E seu filho, sua irmã, seu pai?
- Continuam a ser eu, não são os outros – replicou André. – Os outros, o próximo, como dizem, tu e a Maria, são a causa principal do erro e do mal. O próximo são esses camponeses de Kiev a quem tu queres fazer bem. Olhou para Pedro com um olhar irônico e provocador. Era evidente que procurava desafiá-lo. (...)
- Não só ninguém me dissuadirá de que não foi um bem o que eu pratiquei, como ninguém me convencerá de que o André não pensa da mesma maneira. E o mais importante – concluiu – e é isso que eu sei, e disso estou convencido, é que a única verdadeira felicidade da vida é a satisfação que se tira do bem que se faz.
- Sim, se se puser assim o problema, é outra coisa – disse o príncipe André. – Eu construo uma casa, planto um parque, tu fundas hospitais. Tanto o meu ato como o teu podem ser considerados mero passatempo. Mas, quanto ao que é justo, ao que é o bem, deixa Aquele que tudo sabe, e não a nós, o cuidado de decidi-lo. Contudo, se queres continuar a discussão, esta bem, seja feita a tua vontade! (...) Tu dizes-me: entre na nossa confraria e nós lhe mostraremos o fim da vida, o destino do homem e as leis que governam o mundo. Mas quem somos nós? Homens! Como é que vocês sabem tudo isso? Porque será que só eu não vejo o que vocês veem? Vocês veem na terra o domínio do bem e da verdade, mas eu não o vejo.
     Pedro interrompeu-o.
- Acredita numa vida futura? – perguntou.
- Numa vida futura? – Mas Pedro não o deixou prosseguir, e, tomando esta interrogação como uma negativa, tanto mais que de longa data sabia do ateísmo do seu amigo, de novo o interrompeu.
- Acha que lhe é impossível ver o reino do bem e da verdade sobre a terra. Também eu não acreditava em tal coisa e não é possível admiti-lo se se considerar a nossa vida como o fim de tudo. Sobre a terra, principalmente sobre a terra – dizia ele, apontando para os campos –, não há verdade: tudo é mentira e maldade. Mas no universo, no conjunto do universo é a verdade que reina. Nós somos por um momento filhos da terra, mas eternamente somos filhos do universo. Não sentirei eu, no fundo da minha alma, que sou uma parte deste todo, enorme e harmonioso? Não sentirei eu que nesta imensa e infinita quantidade de seres, através da qual se manifesta a divindade ou a suprema força, o que vem a dar no mesmo, eu sou um fuzil, um degrau da escada dos seres que vai do mais ínfimo ao mais elevado? Se eu vejo, se vejo claramente esta escada que vai da planta até ao homem, porque é que eu hei-de partir do princípio de que ela se detém precisamente em mim em vez de alcançar sempre mais longe, cada vez mais longe? Eu sinto em mim que, pela mesma razão de que nada se perde no universo, também eu não posso desaparecer e que continuarei a ser para todo o sempre como sempre tenho sido. Sinto que além de mim e para além de mim há espíritos vivos e que é nesse universo que reside a verdade.
- Sim, é a doutrina de Herder – interveio André. – Mas, meu caro, não é essa doutrina que me convence: a vida e a morte, sim. O que me convence é ver uma criatura a quem queremos muito, a quem muito estamos presos, para com quem nos sentimos culpados e de que esperamos remir o mal que lhe fizemos – e ao dizer estas palavras a sua voz tremia e desviava a vista – e que de um momento para o outro começa a sofrer, a padecer tremendas dores e deixa de existir... Por quê? É impossível que não haja uma resposta para isto! E eu estou convencido de que há... Eis o que me convence, eis o que me convenceu – concluiu ele.
 - Claro, claro – repetiu Pedro. – Mas não é isso precisamente que eu estive a dizer?
- Não. O que eu quero dizer é que não são os raciocínios que me convencem da necessidade duma vida futura, mas este fato apenas: o de irmos pela vida fora de mão dada com um ser humano, e este ser, de repente, desaparecer além, no nada, e então determo-nos diante desse abismo e ficarmos a olhar. E eu, eu olhei...
- E então? Sabe que há um além, que há alguém. Além é a vida futura. Esse alguém é Deus. (....) - Se Deus existe, se há uma vida futura, a verdade existe, existe a virtude, e a suprema felicidade do homem consiste no esforço para as alcançar. É preciso viver, é preciso amar, é preciso crer – dizia Pedro –, pois não vivemos apenas nesta hora, sobre este pedaço de terra, mas sempre vivemos e eternamente havemos de viver, além, no Todo. – E apontava para o céu.”


     “André, de regresso ao gabinete do pai, encontrou os dois em calorosa discussão. Pedro queria provar que ainda chegaríamos a um tempo em que acabariam as guerras.
     O príncipe, escarnecendo dele, mas sem se zangar, sustentava o ponto de vista contrário.
- A única maneira, de acabarem as guerras e sangrar os homens é porem-lhe água no lugar do sangue. Patetices de mulher, patetices de mulher – dizia ele, batendo amigavelmente no ombro de Pedro.”


     “Maria dizia de si para consigo que a reflexão faz dos homens criaturas secas.”


     “Berg sorriu com a consciência da sua superioridade sobre uma fraca mulher e calou- se, dizendo de si para consigo que, afinal de contas, aquela encantadora pessoa a quem chamava esposa era fraca como todas as mulheres e não podia aspirar ao que constitui a dignidade do homem, a dignidade de “se ser um homem”.
     Entretanto, Vera sorria também, consciente da sua superioridade sobre o virtuoso e excelente marido, o qual, no entanto, em sua opinião, compreendia mal a vida, como, aliás, todos os homens. Berg, que julgava as outras mulheres através da sua própria, considerava-as todas seres fracos e estúpidos. Vera, julgando os homens através do marido e generalizando as suas observações, supunha que todos eles não faziam outra coisa senão considerar-se cheios de razão, embora na realidade nada compreendessem e não passassem de criaturas orgulhosas e egoístas.”


     “Pedro gozava deste triste privilégio, frequente em muitos homens, mas especialmente nos Russos, graças ao qual, embora acreditem na verdade e no bem, com tanta clareza veem o mal e a mentira dos humanos que lhes faltam forças para combatê-los a fundo. A seus olhos, todos os domínios da atividade humana estavam imbuídos do mal e da mentira. Fizesse o que fizesse, tentasse o que tentasse, sempre se sentia repelido por esta mentira perpétua: todas as vias da atividade humana se lhe fechavam. E, no entanto, era preciso viver, algo tinha de fazer, apesar de tudo. Deixar-se esmagar sob o peso destes problemas insolúveis, eis o que se lhe afigurava horrível, e por isso mesmo, quanto mais não fosse para esquecê-los, entregava-se ao que quer que houvesse a fazer.”


      “Às vezes lembrava-se de ter ouvido contar que os soldados na guerra, nas linhas avançadas, sob o fogo do inimigo, quando ociosos, procuravam uma ocupação qualquer para mais facilmente esquecerem o perigo. A seus olhos os homens sempre procediam como esses soldados, na esperança de se esquecerem da vida, e davam-se à ambição, ao jogo, elaboravam leis, entretinham-se com mulheres, divertiam-se, criavam cavalos, dedicavam-se à política, ou à caça, ou ao vinho, ou aos negócios públicos. “Em conclusão, nada há desprezível, nada há importante, tudo é indiferente”, pensava Pedro, “desde que uma pessoa saiba subtrair-se a essa, realidade da vida, desde que uma pessoa se não veja frente a frente com a vida, esta terrível vida!”.”

segunda-feira, 11 de maio de 2015

O Quarteto de Alexandria: Justine – Lawrence Durrell

Editora: Ediouro
ISBN: 978-85-0001-756-2
Tradução: Daniel Pellizzari
Opinião: ****
Páginas: 240

     “Georges-Gaston Pombal, um funcionário subalterno do consulado, divide comigo um pequeno apartamento na rue Nebi Daniel. É uma figura rara entre diplomatas, pois parece dotado de coluna vertebral. (...) Seu assunto predileto são as mulheres, e a julgar pelo séquito infinito que visita o pequeno apartamento, no qual raramente algum rosto se repete, deve falar de cátedra. “Para um francês, é interessante o amor em Alexandria. Elas agem antes de pensar. Quando chega o momento de ter dúvidas, de sentir remorso, já esta quente demais e ninguém tem energia suficiente. Tamanha animalidade carece de finesse, mas me convém. O amor desgastou meu coração e minha cabeça, quero distância disso – especialmente, mon cher, desta mania judeu-copta da dissection, da análise. Quero voltar à minha fazenda na Normandia com o coração intacto”.”


     ““Há apenas três coisas que podem ser feitas com uma mulher”, afirmou Clea certa vez. “Você pode amá-la, sofrer por ela ou transformá-la em literatura”. Eu fracassava em todas essas categorias de sentimento.”


     “Capodistria passa o dia inteiro no terraço do Clube do Comércio, observando as mulheres que passam com o olhar agitado de alguém que embaralha sem cessar um baralho velho e gasto. De quando em quando faz um leve sinal, brusco como o ataque da língua de um camaleão – quase invisível aos pouco atentos. Uma silhueta deixa o terraço para seguir a mulher que ele indicou. Algumas vezes, seus agentes chegam a deter e assediar as mulheres na rua, abertamente e em seu nome, mencionando somas de dinheiro. Ninguém se ofende à menção de dinheiro em nossa cidade. Algumas das garotas apenas riem. Outras aceitam a proposta de imediato. Nunca se enxerga constrangimento algum em seus rostos. Entre nós, não se finge a virtude. Nem o vício. Ambos são naturais.”


     “Todo excesso converte-se em pecado.”


     “Eu estava certo em reconhecê-la como uma filha de Alexandria, a cidade que impõe às suas filhas uma volúpia pelo sofrimento, em vez do prazer, condenando-as a perseguir aquilo que menos desejam encontrar!”


     ““É tolice”, Justine escreveu, “imaginar que a paixão nasce de uma harmonia mental, de ideias semelhantes; ela é o disparo simultâneo de dois espíritos empenhados em crescer e conquistar sua harmonia. É como se uma explosão silenciosa tivesse ocorrido no interior de cada um. Confuso e inquieto, o amante examina sua própria experiência; sentindo gratidão pelo amante, imagina estar em comunhão com ele, mas essa impressão é falsa. O objeto amado é simplesmente alguém que compartilhou uma experiência de forma simultânea e narcisística; e, ao menos de início, o desejo de estar próximo desse objeto não tem relação com a ideia de posse, mas apenas com a intenção de comparar as duas experiências, como reflexos em espelhos diferentes. Tudo isso pode preceder o primeiro olhar, o primeiro beijo, o primeiro toque; preceder qualquer ambição, orgulho ou cobiça; preceder as primeiras declarações que marcam o instante da virada – pois daí em diante, o amor degenera-se em hábito, sentimento de posse e retorno à solidão”.”


     “Todo homem é feito de barro e daimon, e não existe mulher capaz de nutrir a ambos.”


     “Não preciso de remédios – é só um resfriado. Doenças não se interessam por quem deseja morrer.”


     “Oh! Nessim, eu sempre fui tão forte! Será que isso me impediu de ser realmente amada?”


     “É um assombro a capacidade que nós, escritores, temos de ser infelizes.”


     “Todos estamos buscando motivos racionais para acreditarmos no absurdo.”


     “Ah! Minha cara, depois de todo o trabalho dos filósofos em sua alma e dos médicos em seu corpo, o que podemos afirmar que realmente sabemos a respeito do homem? Que, no fim das contas, ele não é mais que uma passagem para líquidos e sólidos, um cano feito de carne.”


     “Quem inventou o coração humano? Responda-me, e depois mostre-me o lugar onde foi enforcado.”


     “Todas as grandes religiões são excludentes, prescrevem uma série de proibições que engendram o desejo que pretendem curar.”


     “Lutar contra os desejos do coração é difícil; tudo que ele deseja, obtém mesmo ao custo da alma.” (Heráclito)


     “Espera-se que todos os artistas cultivem certa infelicidade; é elegante.”


     ““Permita-me”, disse, com um tom de lamento, “revelar o segredo do meu ofício de romancista. Sou um sucesso, você é um fracasso. A resposta, meu velho, é sexo, e em boa quantidade.”


     “O mundo é como um pepino – hoje esta em sua mão, amanhã pode estar em seu rabo.”


     “Por anos a fio precisamos aguentar a sensação de que as pessoas realmente não se importam conosco; até que um dia, cada vez mais alarmados, percebemos que é Deus que não se importa. Não que meramente não se importe, mas para ele tanto faz.”


     “É preciso sofrer de uma ignorância tremenda para aproximar-se de Deus. Acho que eu sempre soube demais.”


     “Para mim, o sorriso famoso de Mona Lisa sempre pareceu o sorriso de uma mulher que acabou de devorar o marido no jantar.”


     “Não há dor comparável a dor de amar uma mulher que torna seu corpo disponível mas é incapaz de entregar seu eu verdadeiro – por não saber onde encontrá-lo.”


     “A culpa sempre corre ao encontro de seu complemento, o castigo: só assim considera-se satisfeita.”


     “Mais do que tudo, a pobreza exclui; e mais do que tudo, a riqueza isola.”


     “Riqueza compra riqueza, mas a pobreza mal é suficiente para comprar o beijo de um leproso.” (Provérbio árabe)


“- O que esta acontecendo com Nessim?
- Não sei. Quando alguém tem algo a esconder, torna-se um ator, e força todos que o cercam a também atuar.”


     “Estas anotações, como quer que sejam lidas, não passam de um comentário afetuoso e cheio de minúcias sobre um mundo no qual nasci para compartilhar meus momentos mais solitários – os momentos do coito – com Justine. É impossível chegar mais perto da verdade.”


     “Dentre os inúmeros tipos de fracassos, escolhemos aqueles que menos comprometem nosso orgulho: aqueles com menor capacidade de frustrar-nos. Escolhi fracassar na arte, na religião e com as pessoas. Na arte, fracassei (percebi isso de repente, agora mesmo) por não acreditar que a personalidade humana é descontínua. (“Seriam as pessoas”, escreveu Pursewarden, “contínuas em si, ou será que somem, desaparecem e ressurgem novamente de forma tão veloz que temos a ilusão de características contínuas, como nas imagens trêmulas dos velhos filmes mudos?”) Como não acreditava na autenticidade das pessoas, não era capaz de obter sucesso ao representá-las. Meu fracasso religioso? Bem, nunca achei validade alguma em religiões cuja doutrina contenha o menor indício de uma chance de reparação – e qual delas poderia escapar desta acusação? Pace Balthazar, a mim parecia que todas as igrejas, todas as seitas, eram no máximo meras academias para aprender a combater o medo. Mas o derradeiro, o pior de todos os meus fracassos (enterrei os lábios no cabelo escuro e vivo de Justine) era meu fracasso com as pessoas: fora propiciado por um crescente alheamento espiritual, que ao mesmo tempo que me libertava para sentir empatia, proibia-me de qualquer posse. De forma gradual e inexplicável, tornava-me cada vez mais deficiente no amor e ao mesmo tempo melhor em minha capacidade de doação – a melhor parte do amor. Nisso, percebi horrorizado, consistia a base de meu domínio sobre Justine. Enquanto mulher, possessiva por natureza, estava condenada a tentar apreender uma parte de mim que estava para sempre fora de qualquer alcance, o último e doloroso refúgio que para mim significavam o riso e a amizade. Esse tipo de amor, de certa forma, desesperava-a, pois eu não dependia dela; e se não for alimentado, o desejo de possuir pode apoderar-se inteiramente do espírito. Como é difícil analisar esses relacionamentos ocultos soba  superfície, sob a pele de nossas ações; pois o amor não passa de uma forma de linguagem da pele, o sexo é meramente uma terminologia.”


     “A dor é o único alimento da memória: pois o prazer encerra-se em si mesmo.”


     “É muito mais fácil fazer a um amante as perguntas que se deseja ver respondidas pelo marido.”


     “O amor é bem mais verdadeiro quando surge da simpatia em vez do desejo, pois deste modo não deixa feridas.”


     “Inventando o casamento, legitimamos o desespero.”

sábado, 2 de maio de 2015

Folhas Políticas (1976-1998) - José Saramago

Editora: Caminho
ISBN: 978-97-2211-303-8
Opinião: ***
Páginas: 224
  
     “Tenhamos em vista que o objetivo é o Socialismo. A Esquerda não é um fim em si, um modo vitimizante ou triunfalizante de estar no mundo: é uma estrutura, um instrumento, uma organização. Que, como todas as coisas, serão julgados pelos resultados. E nós de caminho.”


     “Curioso é que, perseverantes na imemorial tradição que sempre viu o poder das armas ao lado de quem detinha as armas do poder, repressão e ameaça sejam dirigidas apenas e sempre contra um sector da população: as classes trabalhadoras. Quanto a capitalistas, latifundiários, exploradores diversos, gente pelo contrário benquista e conviva de banquetes, benesses, comendas e geral concórdia, esses estão e sempre estiveram a salvo de coronhadas e mais agressões.”


     “Isto de liberdade de expressão tem muito que se lhe diga. No antigamente fascista, quando não veneráveis mas graduados anciãos nos liam a prosa, e de lápis azul e carimbo esfacelavam as ideias, a nossa grande satisfação acontecia se, por distração do veterano de serviço ou sua menor inteligência, o recado passava, meio nas entrelinhas, meio no intervalo das letras, quantas vezes acordando depois fúrias na hierarquia. Então tínhamos a inocência de acreditar que, chegando o dia em que a mordaça caísse, a reencontrada força da verdade bastaria para tirar aos futuros senhores a tentação do abuso de poder, e, melhor ainda, os acautelaria no simples uso dele. Hoje já sabemos muito. Aprendemos, por exemplo, que a democracia burguesa é a mais hábil forma de esvaziar, na prática, a liberdade de imprensa: conserva-lhe a aparência e anula-lhe os efeitos. Veja-se como o regime absorve, digere e neutraliza impavidamente quantas acusações lhe façam, quantas denúncias de conciliação, quantas desistências, quantas servidões. Veja-se como, sendo possível dizer que o rei vai nu, dizê-lo não chega para que o rei se tape ou tenha a simples decência de pedir desculpa. Veja-se, enfim, como não faltando em Portugal os Watergates, o poder os vai ocultando aos nossos olhos, não por obra da censura que não há, mas do impudor que prolifera.
     A política portuguesa é realmente original. Uma cadeira no poder é quanto basta para irresponsabilizar quem lá se senta, um serviço prestado é logo retribuído com padrinhos e proteções. A imprensa protesta (aquela que não perdeu a vergonha, aquela que, pelo contrário, a declara), e de que serve? O poder, se esta de boa maré, encolhe os ombros; caso não, dispara a nota oficiosa, o inquérito, o impropério, e põe os seus serventuários da comunicação social em linha de trombones para abafar a pequena guitarra que se atreveu a perturbar o grande silêncio do jogo de dados que é hoje o exercício do poder em Portugal. Jogo em que são os portugueses a massa do negócio, o rebanho a esfolar.”


     “E esta perplexidade mostra-me a força coerciva que o poder tem, mesmo quando não exerce, mesmo quando se limita a estar aí, na solenidade da função, na distância que nunca se anula, mesmo, ou sobretudo, quando condescende: a realeza não se extinguiu com as monarquias.”


     “Imagino que andam contentes, que dormem bem, que não perderam o apetite, adivinho que cada um deles, na hora do espelho, sorri complacente para a imagem fardada ou paisana que lhe sorri, e que, na mesma e noutras horas, julga mais do que merecido o seu destino ou a parte dele que por agora o lisonjeia. Os homens políticos (e isto vai dito sem malícia ou presunção) costumam ser duma fatuidade sem limites: tomam por justiça imanente o que é acidente fortuito ou fruto de intriga de gabinete, creem sólido o que esta em vésperas de cair, e, sobretudo, aprendem depressa o mau hábito de ter razão sempre, se é que não se limitam a herdá-lo como atributo corriqueiro do poder. São animais interessantes, de catálogo: dizem, escrevem, proclamam, variando pouquíssimo, cheios de medo de que os não tomem a sério, que é o sinal mais certo da mediocridade. Com perdão de quem do teatro fez amor e profissão, o político corrente é como um ator mascarado de ator, com todos os remendos à vista, salta-pocinhas de ministério e rábula cômica. Como não haveria de ser deprimente esta paisagem, esta comédia, este desgosto?”


     “Significa isto que o ganhar ou o perder nacional haveriam de ser obra de pessoal político e ninguém mais? Não significa tal. Mas significa que muitas vezes os povos perdem nos corredores do poder aquilo que ganharam à luz do dia em revoluções e trabalho.”


     “Este “país real” esta, por seu pé, a transformar-se num “real país” que aprende, na experiência, como se fazem, para que servem e a quem servem os políticos da hora. E quando deixam de servir.”


     “Chegou provavelmente a hora do grande protesto coletivo. Já aqui escrevi que este povo foi, todo ele, durante algum tempo, um povo de políticos. É urgente que o volte a ser. Primeiro, porque a política é mesmo pertença de todos; e porque se lhe há de agora juntar o fermento moral, contrário da apatia, da resignação, da renúncia. Os políticos que nos governam ou ambicionam governar, é bom que se saiba, não têm maior mérito do que qualquer comum cidadão honesto e patriota, e é imperioso que cada um de nós os interrogue: “Que fizeste do voto que te dei? A quem serves com ele?” Não para ingenuamente acreditarmos na resposta, mas para a confrontarmos com os fatos, que esses sim, são mestres.
     Protesto nacional, digo. Exigência popular, antes que se faça tarde. Antes que a direita, pela mesma via do protesto e da exigência, orientados segundo os comprovados métodos de reação e do fascismo, se apresente como porta-voz de um povo em gravíssimo risco de ver ser-lhe negada a palavra por forças políticas que da esquerda se dizem. Ou será a cave o nosso definitivo destino?”


     “No fundo, estas coisas são fáceis de entender. Quando em 1789 a França fez a sua revolução burguesa, para único benefício de uma burguesia que não podia desenvolver-se no quadro do sistema econômico e político de então, o povo acreditou que aquilo também lhe dizia respeito e derrubou a Bastilha. Passados cerca de duzentos anos (e não obstante 1830, 1848, 1871, 1936, 1968), quem governa a França é a oligarquia financeira que a revolução de 1789 preparou: ao povo francês mandou-se que fosse matar e morrer por toda a Europa para aumentar a liberdade dos poderosos, instalados sobre a igualdade derradeira dos mortos e sobre a fraternidade difícil dos explorados.”


     “Distraísse-me eu hoje da íntima consciência da minha fragilidade cultural e não tardaria o analfabetismo a filar-me pela canela do cérebro, quiçá para me largar nunca mais, porque a ignorância é tão confortável como um casaco velho, e coitados de nós se lhe não resistirmos todos os dias: adormeceríamos na santa paz do bafio.”


     “Com os nossos governantes não contemos: os olhos não lhes servem para ver, os ouvidos não lhes servem para ouvir, a boca para alguma coisa lhes servirá, mas, dez anos passados a ouvi-los eu, ainda não sei para que lhes serve.”


     “A democratização verdadeira da cultura talvez não seja o que por ela geralmente entendemos, e que uma cultura democratizada não é uma cultura ao alcance de todos, mas uma cultura com a intervenção de todos.”


     “Almeida Garrett escreveu, um dia, esta breve e terrível frase, como uma condenação sem apelo: ‘A terra é pequena, e a gente que nela vive também não é grande’.”


     “As coisas são o que são, serem-no é a sua irrefragável força, e a nós cabe-nos tentar compreendê-las, ajeitá-las, se possível, à oportunidade e ao interesse da ocasião, mas respeitando-as sempre, evitando, sobretudo cair na tentação do avestruz, o que, na circunstância, seria fingir que as coisas, afinal, são outra coisa.”


     “Se é certo que aborreci o futebol, que me saturei de grandes penalidades, lançamentos laterais, dribles, pontapés de canto e mãos de Deus antigas e modernas, terei também de confessar que foi vendo o campeonato do mundo de futebol que descobri a razão profunda por que desde imemoriais tempos se vem dizendo que o homem é um animal gregário. Desde a infância que os melhores autores me ensinavam que o gregarismo foi e continuava a ser condição da própria sobrevivência da espécie humana, que o homem só, ao contrário do que ousara afirmar um outro autor animado de perverso espírito de contradição, não é o homem forte, e que, enfim, é participando plenamente numa vida em comunidade, partilhando tudo, e em primeiro lugar a si mesmo, que o pequeno bicho humano poderá passar além dos seus limites, resolver as suas carências espirituais e ascender à felicidade dos justos, desta maneira tornada prato comum e iguaria de todos. O homem, inventor da desconfiança, inventou também a boa-fé, e por isso contínua a acreditar em coisas como estas.
     Chega, porém, o momento em que as escamas caem dos olhos e a deslumbrante luz da verdade assoma ao limiar do entendimento. Foi o que aconteceu comigo. Na perspectiva vasta dos estádios, as gregaríssimas multidões que rodeavam o campo, gritando, vaiando, aplaudindo, de cara pintada em muitos casos, agitando insígnias e pendões, trocando socos e insultos, vaiando os hinos nacionais dos adversários – mostraram-me, de uma vez para sempre, que o homem, tornado em ser gregário por necessidade de sobrevivência, continua a sê-lo por razão de uma outra necessidade não menos imperiosa, porém de sinal inverso: o poder, a violência, a destruição, a morte. Um homem sozinho é um homem pacífico, havendo dois será senhor um deles e servo o outro, se são três farão dois deles aliança contra o terceiro. E passar das unidades às dezenas, ou às centenas, ou aos milhares, ou aos milhões, não modifica a essência da questão, apenas complica as suas consequências. O futebol, caros senhores, e, já agora, o desporto em geral, com ou sem a presença de chefes de Estado e de primeiros-ministros, é um sucedâneo da guerra. Suspeito mesmo que todas as atividades humanas, mesmo as de mais inocente aparência, são modos de guerra, brutais ou subtis, óbvios ou disfarçados.”


     “Os índios de Chiapas não são os únicos humilhados e ofendidos deste mundo: em todas as partes e épocas, com independência de raça, de cor, de costumes, de cultura, de crença religiosa, o ser humano que nos gabamos de ser soube sempre humilhar e ofender aqueles a quem, com triste ironia, continua a chamar seus semelhantes. Inventamos o que não existe na natureza, a crueldade, a tortura, o desprezo. Por um uso perverso da razão viemos dividindo a humanidade em categorias irredutíveis entre si, os ricos e os pobres, os senhores e os escravos, os poderosos e os débeis, os sábios e os ignorantes, e em cada uma dessas divisões fizemos divisões novas, de modo a podermos variar e multiplicar à vontade, incessantemente, os motivos para o desprezo, para a humilhação, para a ofensa.”