quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A Gaia Ciência – Friedrich Nietzsche

Editora: Martin Claret
ISBN: 978-85-7232-559-2
Tradução: Jean Melville
Opinião★★☆☆☆
Páginas: 264

“Continua verdadeiro o velho ditado: o espírito orgulhoso, o pavão e o cavalo são os três animais mais orgulhosos da terra.”


Conselho
É à glória que aspiras?
Nesse caso considere esta lição:
Renuncia a tempo e espontaneamente
À honra!


“O novo, em todas as circunstâncias, é o mal, pois é aquilo que deseja conquistar, derrubar os marcos fronteiriços, abater as antigas crenças; somente o antigo é o bem! Os homens de bem em todas as épocas, são aqueles que implantam profundamente as velhas ideias para lhes dar fruto, são os cultivadores do espírito. Mas todo o terreno acaba por se esgotar, é preciso que o arado do mal volte.”


“O nosso amor pelo próximo não será o desejo imperioso de uma nova propriedade? E não sucede o mesmo com o nosso amor pela ciência, pela verdade? E igualmente com todos os desejos de novidade? Cansamo-nos pouco a pouco do antigo, do que possuímos com certeza, temos ainda necessidade de estender as mãos; mesmo a mais bela paisagem, quando vivemos diante dela mais de três meses, deixa de nos poder agradar, qualquer margem distante nos atrai mais: geralmente uma posse reduz-se com o uso. O prazer que tiramos a nós próprios procura manter-se, transformando sempre qualquer nova coisa em nós próprios; é precisamente a isso que se chama possuir. Cansar-se de uma posse é cansar-se de si próprio (pode-se também sofrer com o excesso; à necessidade de jogar fora, de dar, pode assim atribuir-se o nome lisonjeiro de “amor”). Quando vemos sofrer uma pessoa, aproveitamos com gosto essa ocasião que se oferece de nos apoderarmos dela; é o que faz o homem caridoso, o indivíduo complacente; chama também de “amor” a este desejo de uma nova posse que despertou na sua alma e tem prazer nisso como diante do apelo de uma conquista iminente. Mas é o amor sexual que se revela mais nitidamente como um desejo de posse: aquele que ama quer ser possuidor exclusivo da pessoa que deseja, quer ter um poder absoluto tanto sobre a sua alma como sobre o seu corpo, quer ser amado unicamente, habitar e reinar na outra alma como o mais alto e o mais desejável. Se considerarmos que isso não significa outra coisa senão excluir o mundo inteiro do gozo de um bem, de uma felicidade preciosa; se pensarmos que aquele que ama visa empobrecer e privar todos os demais competidores, e tornar-se o dragão do seu tesouro, sendo o mais implacável “conquistador”, o explorador mais egoísta; se imaginarmos, por fim, que todo o resto do mundo lhe parece indiferente, desbotado, sem valor, e que se encontra disposto a efetuar qualquer sacrifício, a perturbar qualquer ordem estabelecida, a relegar para o segundo plano qualquer interesse: então espantamo-nos que esta cupidez bárbara, esta furiosa injustiça do amor sexual tenha sido a tal ponto glorificada, divinizada, em todos os períodos da história, que se tenha extraído deste amor a ideia de amor concebida como contrária do egoísmo, quando representa talvez a sua expressão mais direta.”


O mal - Examinai a vida dos mais fecundos homens e povos e perguntai se uma árvore que deve elevar-se altivamente nos ares pode dispensar o mau tempo e as tempestades; se a hostilidade do exterior e as resistências externas, se todas as espécies de inveja, de ódio, de teimosia, de desconfiança, de dureza, de avareza e de violência não fazem parte das circunstâncias favoráveis, sem as quais nada, nem sequer a virtude, poderia ter um grande crescimento? O veneno que mata as naturezas fracas é um fortificante para as fortes... e por isso nem lhe chama de veneno.”


“Quando possuímos em nós suficiente tragédia e suficiente comédia para satisfazer as nossas necessidades pessoais, preferimos abster-nos de ir ao teatro; ou então, excepcionalmente, é o conjunto de tudo – cenário, público, autor incluído – que se tornam para todos o verdadeiro espetáculo, a autêntica comédia e tragédia, ao lado do qual a peça representada não vale nada.”


“A morte, no fundo, é a finalidade da vida.” (Schopenhauer)


“Defeitos e vícios são sempre, com efeito, aquilo que mais facilmente se imita e aquilo que não exige o menor treino.”


As condições para Deus – “O próprio Deus não poderia existir sem os homens sábios” – disse Lutero com boa razão; mas “Deus ainda menos poderia existir sem os insensatos” – isso o que o bom Lutero não disse.”


“Se Deus intencionava tornar-se objeto de amor, deveria inicialmente renunciar o fato de julgar e de fazer justiça; um juiz, mesmo sendo clemente, nunca é objeto de amor.”


Demasiado oriental – Como? Um Deus que ama a humanidade na condição de que acreditem nele, que lança olhares terríveis, ameaças contra quem não acredita nesse amor? Como? Um amor sob condições é o sentimento de um Deus todo-poderoso? Um amor que não conseguiu vencer o senso de honra, nem a sede de vingança? Como tudo isso é oriental! “Se te amo, que te importa?” É o que basta para criticar todo o Cristianismo.”


Ser profundo e parecer profundo – Aquele que se sabe profundo esforça-se por buscar a clareza; aquele que gostaria de parecer profundo à multidão, esforça-se por ser obscuro. Uma vez que a multidão acredita ser profundo tudo aquilo de que não pode ver o fundo. Tem tanto medo! Hesita em se meter na água!”


Pensamentos – Os nossos pensamentos, na verdade, são sempre as sombras dos nossos sentimentos; são sempre mais obscuros, mais vazios e muito mais simples do que estes.”


“Entre os cegos considera-se rei quem tem o ouvido maior.”


Gênese do “bom” e do “mau” – Só inventa a melhoria aquele que tem capacidade para sentir que “tal coisa não é boa”.”


“Julgas então que as ciências teriam nascido e progredido se não tivesse havido antes esses mágicos, alquimistas, astrólogos e feiticeiros que foram primeiro obrigados, por meio da isca de miragens e de promessas, a criar a fome, a sede, o gosto pelas forças escondidas e proibidas?”


“Pregadores de moral e teólogos são dotados de uma falta de civilidade assaz comum: procuram todos persuadir o homem de que ele se sente muito mal, que tem necessidade de uma cura enérgica, radical e definitiva. E o homem, de tanto ouvir com demasiado zelo e durante séculos esse gênero de professores, acabou por sentir, verdadeiramente, uma parte dos males que essa superstição lhe impõe.”


“Quantas pessoas sabem observar? E dentro deste número reduzido dos que sabem, quantos observam a si próprios? “Cada um é o mais distante de si próprio”... é o que não ignora, para seu grande desprazer, nenhum perscrutador da alma humana. A máxima “conhece-te a ti mesmo” ganha, na boca de um deus e dirigida aos homens, o acento de gracejo feroz.”


“Olhar a natureza como uma prova da bondade e da providência de um deus, interpretar a história em honra de uma razão divina, como o testemunho constante de uma ordem e de um finalismo moral do universo, explicar tudo o que vos acontece, à maneira das pessoas piedosas, por uma intervenção divina, um sinal, uma premeditação, uma mensagem da Providência tendo em vista a salvação da nossa alma, tudo isso é passado, a consciência opõe-se a isso; não há consciência um pouco sutil que não veja aí inconveniência, deslealdade, mentira, feminilidade, fraqueza, covardia; é esta severidade, mais do que qualquer coisa, que faz de nós bons europeus, herdeiros da mais longa e da mais corajosa vitória que a Europa obteve sobre si. Porém, na medida que rejeitamos esta interpretação cristã, logo que a rejeitamos como uma moeda falsa, vemos desenhar-se diante de nós, terrivelmente, a pergunta de Schopenhauer: “Tem a existência, então, um sentido”? Esta pergunta exigirá séculos antes de poder ser simplesmente compreendida de maneira exaustiva nas pregas das suas profundezas.”



A vingança sobre o espírito e outros subentendidos da moral – A moral – onde acreditais que possa ter os seus mais pérfidos advogados?... Eis aqui um homem que não teve bom êxito, que não tem espírito o bastante para dele se alegrar e que recebeu a cultura exata apenas para dar-se conta disso; aborrece-se, enjoa-se, despreza-se; privado, por uma pequena herança que recebeu, da última consolação, a “benção do trabalho”, do esquecimento de si na “tarefa cotidiana”; é um ser que, no fundo, tem vergonha da sua existência – talvez, ainda por cima, mantenha alguns pequenos vícios no fundo da alma; por outro lado, não pode impedir-se de se corromper cada vez mais, de se tornar cada vez mais irritável e vaidoso em virtude de leituras a que não tem direito, ou a frequências demasiado intelectuais para as suas capacidades digestivas: envenenado até à medula – pois para um malogrado desta natureza o espírito torna-se veneno, e veneno a cultura, a solidão, e a higiene – prostra-se finalmente em um estado de rancor, em uma vontade crônica de se vingar... O que pensais que tenha necessidade, que tenha absolutamente necessidade para conservar diante dele mesmo uma aparência de superioridade sobre espíritos mais fortes do que o seu, para se dar, pelo menos em imaginação, a volúpia da vingança satisfeita? A moralidade – sempre ela – pode pôr-se a mão no fogo, precisa das grandes frases da moral, do grande tambor da justiça, da sabedoria, da santidade, da virtude; tem necessidade do estoicismo, da atitude (oh, estoicismo, como escondes bem o que não tem!...), precisa da capa do silêncio superior, da afabilidade, da suavidade, e outros envoltórios idealistas sob os quais vemos caminhar os contempladores incuráveis deles próprios, que são também os incuráveis vaidosos. Não me entendam mal: acontece, às vezes, que estes inimigos natos do espírito dão nascença às extraordinárias amostras humanas que o povo honra com o nome de santos e de sábios; são eles que produzem os monstros da moral que fazem barulho, que fazem história: um Santo Agostinho, por exemplo. O temor diante do espírito, vingar-se sobre ele, quantas vezes este dinamismo vicioso foi a fonte de grandes virtudes; depois, foi virtude! E entre nós, a pretensão dos filósofos à sabedoria, esta pretensão, a mais louca, a mais impertinente de todas, que apareceu, de tempos em tempos sobre a terra, não foi sempre, tanto na Índia como na Grécia, não foi em primeiro lugar uma necessidade de esconder? Por vezes, talvez, por um cuidado de educador – um ponto de vista que santifica tantas mentiras! –, por uma terna solicitude pelos seres em formação, em devir, por discípulos que é necessário defender contra eles próprios, pela fé em uma pessoa (mediante um erro)... Porém, mais frequentemente ainda, necessidade do filósofo de abrigar atrás dessa cortina o seu cansaço, a sua idade, a sua frieza, o seu endurecimento e esfriamento por sentir o fim próximo, sagacidade do instinto que têm os animais antes da morte: afastam-se, calam-se, elegem a solidão, refugiam-se em cavernas e tornam-se sábios... O quê? Será a sabedoria o esconderijo do filósofo para este se defender... do espírito?”

2 comentários:

Doney Stinguel disse...

É de se destacar o péssimo tratamento dado pela editora a obra. A quantidade de erros gramaticais supera - em muito - o razoável.

Sugestão de Livros disse...

Os trechos como um todo tem um caráter um pouco pessimista. Por exemplo, o trecho: "mesmo a mais bela paisagem, quando vivemos diante dela mais de três meses, deixa de nos poder agradar, qualquer margem distante nos atrai mais" é muito negativo. Pode-se olhar um céu bonito todos os dias sem enjoar da vista.