terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A invenção de Morel – Adolfo Bioy Casares

Editora: Rocco
Tradução: Vera Neves Pedroso
Opinião★★★☆☆
Páginas: 124


“O mundo, com o aperfeiçoamento das polícias, dos documentos, do jornalismo, da radiotelefonia, das alfândegas, torna irreparável qualquer erro da justiça, é um perfeito inferno para os perseguidos.”


“Já não estou morto: estou apaixonado.”


“Julguei ter feito a seguinte descoberta: nas nossas atitudes, tem de haver inesperadas, constantes repetições. A ocasião favorável permitiu-me observá-lo. Ser testemunha clandestina de várias entrevistas das mesmas pessoas não é comum. Como no teatro, as cenas se repetem.”


“(fica enunciada a possibilidade de vários céus; se houvesse apenas um e todos fossem para lá e nos aguardasse um casal encantador e todas as suas quartas-feiras literárias, muitos já teríamos deixado de morrer). Entendia agora por que razão os novelistas falam em fantasmas queixosos. Os mortos continuam entre os vivos. Custa-lhes mudar de costumes, renunciar ao fumo, ao prestígio de violadores de mulheres.”


“Quando queremos desconfiar, a ocasião nunca falta.”

domingo, 7 de dezembro de 2014

Pré-socráticos: fragmentos, doxografia e comentários

Editora: Nova Cultural
Seleção de textos e supervisão: José Cavalcante de Souza
ISBN: 978-85-1300-901-7
Tradução: José C. de Souza, Arma L. A. A. Prado, Ísis L. Borges, Maria C. M. Cavalcante, Remberto F. Kuhnen, Rubens R. Torres, Carlos R. de Moura, Ernildo Stein, Arnildo Devegili, Paulo F. Flor, Wilson Regis
Opinião★★☆☆☆
Páginas: 320


Os filósofos analisados são respectivamente: Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto, Pitágoras de Samos, Xenófanes de Colofão, Heráclito de Éfeso, Parmênides de Eleia, Zenão de Eleia, Melisso de Samos, Empédocles de Agrigento, Filolau de Crotona, Arquitas de Tarento, Anaxágoras de Clazômenas, Leucipo de Mileto e Demócrito de Abdera.
(Quando o caso, os comentaristas e as obras onde eles são identificados são correspondentemente citadas.)

“Os deuses homéricos são fundamentalmente deuses da luz (de díos provém tanto “deus” quanto “dia”) e seu antropomorfismo não diz respeito apenas à forma exterior, semelhante à dos mortais: os deuses são também animados por sentimentos e paixões humanas. A humanização do divino aproxima-o da compreensão dos homens, mas, por outro lado, deixa o universo – em cujo desenvolvimento os deuses podem intervir – suspenso a comportamentos passionais e a arbítrios capazes de alterar seu curso normal. Isso limita o índice de racionalização contido nas epopeias homéricas: uma formulação teórica, filosófica ou científica exigirá, mais tarde, o pressuposto de uma legalidade universal, exercida impessoal e logicamente. Então, abolindo-se a atuação de vontades divinas divergentes, chegar-se-á a um divino neutro imparcial: a divinaarché das cosmogonias dos primeiros filósofos. É bem verdade, porém, que já na visão mitológica expressa pelas epopeias, a suserania de Zeus introduz na família divina um princípio de ordem, que tende a unificar e a neutralizar as preferências discordantes dos vários deuses. Do ponto de vista ético, essa suserania estabelece uma diferença marcante entre a Ilíada (obra mais antiga) e a Odisseia: nesta, a fidelidade de Penélope e os esforços de Ulisses acabam premiados, a revelar, como pressuposto, um universo de valores morais já hierarquizados, sob o controle e a garantia, em última instância, de Zeus soberano. Desse modo, à imagem da sociedade patriarcal, Zeus fundamenta na força sua preeminência e organiza finalmente o Olimpo como pai poderoso. O politeísmo homérico não exclui, portanto, a ideia de uma ação ordenada por parte dos deuses, chegando afinal a admitir certa unidade na ação divina.”


“O mito das idades ilustra a ideia de justiça: nenhum homem pode furtar-se à lei do trabalho, assim como nenhuma raça pode evitar a justiça. Na verdade, esses dois temas são complementares, segundo Hesíodo: o homem da idade de ferro está movido pelo instinto de luta (eris); se a luta se transforma em trabalho, torna-se emulsão fecunda e feliz; se, ao contrário, manifesta-se por meio de violência, acaba sendo a perdição do próprio homem. (...) Com Hesíodo surge a noção de que a virtude (areie) é filha do esforço e a de que o trabalho é o fundamento e a salvaguarda da justiça.”


“Proclama Heráclito de Éfeso: “É sábio escutar não a mim, mas a meu discurso (logos), e confessar que todas as coisas são Um”. O Logos seria a unidade nas mudanças e nas tensões a reger todos os planos da realidade: o físico, o biológico, o psicológico, o político, o moral. E a unidade nas transformações: “Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz, superabundância-fome; mas ele assume formas variadas, do mesmo modo que o fogo, quando misturado a arômatas, é denominado segundo os perfumes de cada um deles”. Por isso Homero errara em pedir que cessasse a discórdia entre os deuses e os homens: “O que varia está de acordo consigo mesmo”. A harmonia não é aquela que Pitágoras propunha, de supremacia do Um, nem a verdadeira justiça é a que Anaximandro havia concebido, ou seja, a extinção dos conflitos e das tensões através da compensação dos excessos de cada qualidade-substância em relação a seu oposto. A justiça não significa apaziguamento: pelo contrário, “o conflito é o pai de todas as coisas: de alguns faz homens; de alguns, escravos; de alguns, homens livres”. Mas ver a realidade como fundamentalmente uma tensão de opostos não significa necessariamente optar pela guerra, no plano político, “guerra”, neste último sentido, é apenas um dos polos de uma tensão permanente (“Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz...”). É essa tensão, que constitui a verdadeira harmonia, necessita, para perdurar, de ambos os opostos.”


“A consciência da fugacidade das coisas gera uma nota de pessimismo que atravessa o pensamento de Heráclito: “O homem é acendido e apagado como uma luz no meio da noite” (D 26). Mas o pessimismo advém, sobretudo, de reconhecer o torpor em que vive a maioria dos homens, ignorantes da lei universal que tudo rege. Por isso, o discurso (logos) do filósofo, embora pretendendo ser a manifestação da Razão universal (Logos), exprime-se como um solitário monólogos, acima dos homens comuns, “esses loucos que quando ouvem são como surdos”.


“Para Empédocles de Agrigento a evidência procurada não é a do intelecto puro: é a exigência de clareza racional, porém aplicada aos dados fornecidos pelos sentidos. Desaparece a monarquia da razão, o conhecimento se democratiza: todos os recursos de apreensão da realidade são igualmente legítimos e devem ter sua parte na constituição da verdade. Aconselha Empédocles: “Examina de todos os modos possíveis de que maneira cada coisa se torna evidente. Não atribua mais crença a tua vista do que a teu ouvido, a teu ouvido que ressoa mais do que às claras indicações de tua língua. Não recuses a teus outros membros a tua confiança, na medida em que eles apresentam ainda um meio de conhecer; mas toma conhecimento de cada coisa da maneira que a torna clara”. (...)
“Nem há mudança substancial: as raízes permanecem idênticas a si mesmas. A diversidade das coisas delas resultantes advém de sua mistura em diferentes proporções. Proclama Empédocles: “Não há nascimento para nenhuma das coisas mortais; não há fim pela morte funesta; há somente mistura e dissociação dos componentes da mistura. Nascimento é apenas um nome dado a esse fato pelos homens”.”


“Anaxágoras de Clazômenas introduz a noção do infinitamente pequeno: “Todas as coisas estavam juntas, infinitas ao mesmo tempo em número e em pequenez, porque o pequeno era também infinito”. Essa ideia, contrária à concepção da extensão no pitagorismo primitivo (que admitia a extensão como composta de unidades indivisíveis), torna-se fundamental na cosmogonia e na cosmologia de Anaxágoras. A tese de que “em cada coisa existe uma porção de cada coisa” sustenta-se na divisibilidade infinita. O universo atual constitui-se, segundo Anaxágoras, a partir de um todo originário no qual todas as coisas estavam juntas e “nenhuma delas podia ser distinguida por causa de sua pequenez”.”


“O homem é a medida de todas as coisas (das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são).” (Protágoras)


Tales de Mileto (cerca de 625/4-558 A.C.)
“Alguns dos que afirmam um só princípio de movimento – Aristóteles, propriamente, chama-os de físicos – consideram que ele é limitado; assim Tales de Mileto, filho de Examias, e Hipão, que parece ter sido ateu, afirmavam que água é o princípio, tendo sido levados a isto pelas (coisas) que lhes apareciam segundo a sensação; pois o quente vive com o úmido, as coisas mortas ressecam-se, as sementes de todas as coisas são úmidas e todo alimento é suculento. Donde é cada coisa, disto se alimenta naturalmente: água é o princípio da natureza úmida e é continente de todas as coisas; por isso supuseram que a água é princípio de tudo e afirmaram que a terra está deitada sobre ela. Os que supõem um só elemento afirmam-no ilimitado em extensão, como Tales diz da água.”
(Simplício – Física)


“E afirmam alguns que ela (a alma) está misturada com o todo. É por isso que, talvez, também Tales pensou que todas as coisas estão cheias de deuses.”
(Aristóteles – Da Alma)


Anaximandro de Mileto (cerca de 610-547 A.C.)
“Dentre os que afirmam que há um só princípio, móvel e ilimitado, Anaximandro, filho de Praxíades, de Mileto, sucessor e discípulo de Tales, disse que o ápeiron (ilimitado) era o princípio e o elemento das coisas existentes. Foi o primeiro a introduzir o termo princípio. Diz que este não é a água nem algum dos chamados elementos, mas alguma natureza diferente, ilimitada, e dela nascem os céus e os mundos neles contidos: “Donde a geração... do tempo”. Assim ele diz em termos acentuadamente poéticos. É manifesto que, observando a transformação recíproca dos quatro elementos, não achou apropriado fixar um destes como substrato, mas algo diferente, fora estes. Não atribui então a geração ao elemento em mudança, mas à separação dos contrários por causa do eterno movimento. É por isso que Aristóteles o associou aos da escola de Anaxágoras. (“Contrários são quente e frio, seco e úmido e outros” Cf. – Aristóteles – Física). Segundo uns, da unidade que os contém, procedem, por divisão, os contrários, como diz Anaximandro. Outros afirmam existir a unidade e multiplicidade dos seres, como Empédocles e Anaxágoras. Estes fazem proceder tudo da mistura por divisão.”
(Simplício – Física)

“Tales de Mileto mostra a necessidade de simplificar o reino da pluralidade e reduzi-lo a um mero desdobramento ou disfarce da única qualidade existente, a água. Anaximandro o ultrapassa em dois passos. Pergunta-se, da primeira vez: “Mas, se há em geral uma unidade eterna, como é possível aquela pluralidade?”, e deduz a resposta do caráter contraditório dessa pluralidade, que consome e nega a si mesmo. Sua existência se torna para ele um fenômeno moral, que não se legitima, mas se penitencia, perpetuamente, pelo sucumbir. Mas, em seguida, ocorre-lhe a pergunta: “Por que, então, tudo o que veio a ser já não foi ao fundo há muito tempo, uma vez que já transcorreu toda uma eternidade de tempo? De onde vem o fluxo sempre renovado do vir-a-ser?” Ele só sabe salvar-se dessa pergunta por possibilidades místicas: o vir-a-ser eterno só pode ter sua origem no ser eterno, as condições para o declínio daquele ser em um vir-a-ser na injustiça são sempre as mesmas, a constelação das coisas tem desde sempre uma índole tal que não se pode prever nenhum término para aquele sair dos seres isolados do seio do “indeterminado”. Aqui ficou Anaximandro: isto é, ficou nas sombras profundas que, como gigantescos fantasmas, deitam-se sobre a montanha de uma tal contemplação do mundo. Quanto mais se procurava aproximar-se do problema – como, em geral, pode nascer, por declínio, do indeterminado o determinado, do eterno o temporal, do justo a injustiça –, maior se tornava a noite.”
(Friedrich Nietzsche – Crítica moderna – A Filosofia na Época Trágica dos Gregos)


Anaxímenes de Mileto (cerca de 585-528/5 A.C)
Anaxímenes de Mileto, filho de Eurístrates, companheiro de Anaximandro, afirma também que uma só é a natureza subjacente, e diz, como aquele, que é ilimitada, não, porém, indefinida, como aquele (diz), mas definida, dizendo que ela é ar. Diferencia-se nas substâncias, por rarefação e condensação. Rarefazendo-se, torna-se fogo; condesando-se, vento, depois nuvem, e ainda mais, água, depois terra, depois pedras, e as demais coisas (provêm) destas. Também ele faz eterno o movimento pelo qual se dá a transformação. É preciso saber que uma coisa é o ilimitado e limitado em quantidade, o que era próprio dos que afirmavam serem muitos os princípios, e outra coisa é o ilimitado e limitado em grandeza, o que precisamente... se adapta ao caso de Anaximandro e Anaxímenes, que supõem o elemento único e ilimitado em grandeza.”
(Simplício – Física)


Pitágoras de Samos (cerca de 580/78-497/6 A.C.)
“Sua ideia fundamental é esta: a matéria, que é representada inteiramente destituída de qualidade, somente por relações numéricas adquire tal ou tal qualidade determinada.”


“Tal é a resposta dada ao problema de Anaximandro. O vir-a-ser é um cálculo. (...)
Os pitagóricos teriam podido dizer o mesmo do universo, mas sem poder dizer quem faz o cálculo.”
(Friedrich Nietzsche – Crítica moderna  O Nascimento da Filosofia na Época da Tragédia Grega)


Xenófanes de Colofão (cerca de 570-528 A.C.)
“Mas se alguém obtivesse a vitória,
ou pela rapidez dos pés, ou no pentatlo,
lá onde está o recinto de Zeus perto das correntes do Pisa em Olímpia,
ou na luta, ou mesmo no penoso embate do pugilato,
ou na rude disputa a que chamam pancrácio,
os cidadãos o veriam mais ilustre,
obteria nos jogos lugar de honra visível a todos,
receberia alimento vindo das reservas públicas
dado pela cidade e também dons que seriam seu tesouro.
Ainda que fosse com cavalos, tudo isso lhe caberia,
embora não fosse digno como eu, pois mais que a força física
de homens e de cavalos vale minha sabedoria.
Ora, muito sem razão é esse costume, nem justo
é preferir a força física à boa sabedoria.
Pois nem havendo entre o povo um bom pugilista,
nem havendo um bom no pentatlo, nem na luta
ou pela rapidez dos pés, que mais que a força física
merece honra entre as ações dos homens nos jogos,
não é por isso que a cidade viveria em maior ordem.
Pequeno motivo de gozo teria a cidade,
se alguém, competindo, vencesse às margens do Pisa,
pois isso não enche os celeiros da cidade.”
(Ateneu – X)

“Tudo aos deuses atribuíram Homero e Hesíodo, tudo quanto entre os homens merece repulsa e censura, roubo, adultério e fraude mútua.”
(Sexto Empírico – Contra os Matemáticos)

“Mas os mortais acreditam que os deuses são gerados, que como eles se vestem e têm voz e corpo. (...) Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões e pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens, os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois, desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam tais quais eles próprios têm.”
(Clemente de Alexandria – Tapeçarias)

“Pois tudo vem da terra e na terra tudo termina.”
(Aécio – IV)

“E o que é claro, portanto, nenhum homem viu, nem haverá alguém que conheça sobre os deuses e acerca de tudo que digo; pois, ainda que no máximo acontecesse dizer o que é perfeito, ele próprio não saberia; a respeito de tudo existe uma opinião.”
(Sexto Empírico – Contra os Matemáticos)

“No que se refere à sua filosofia, Xenófanes determinou primeiro o ser absoluto como o um: “O todo é um”. Designou isto também Deus; afirmou que Deus está implantado em todas as coisas, que ele é supra-sensível, imutável, sem começo, meio e fim, imóvel. Em alguns de seus versos diz Xenófanes; “Um Deusé o maior entre os deuses e os homens, e não é comparável aos mortais, nem quanto à figura nem quanto ao espírito”, e: “Ele vê em toda parte, pensa em toda parte e ouve em qualquer lugar”, palavras a que Diógenes de Laércio ainda acrescenta: “Tudo é pensamento e razão”. (...)
Então, o verdadeiro somente é que Deus é o um – não no sentido de que haja um Deus (isto é, outra determinação), mas de que ele é apenas este igual a si mesmo; nisto, pois, não está contida outra determinação que na afirmação da Escola Eleática. A reflexão moderna percorreu, sem dúvida, um caminho mais longo, não só através de representações filosóficas e predicados de Deus – até esta abstração que a tudo destrói; mas o conteúdo, o resultado é o mesmo. A isto se vincula, da maneira mais precisa, o raciocínio dos eleatas. Pois foram eles que demonstraram mais detidamente que nada surge e nada desaparece. (Esta explicação pertence precipuamente a Zenão.) Que a mudança não é ou se contradiz mostraram-no de um modo que é atribuído a Xenófanes.”
(Georg W. F. Hegel – Crítica moderna – A Escola Eleática)

“Eterno é uma expressão canhestra, pois ao ouvir o termo logo pensamos no tempo, nele misturamos passado e futuro, como um tempo infinitamente longo; enquanto na realidade aqui se trata do eterno (aídion) como o igual a si mesmo, o puramente presente, sem que interviessem representações de tempo. E surgir e devir estão excluídos; se algo surgisse, originar-se-ia ou do nada ou do ser. (Afirma Xenófanes:) “É impossível que algo venha do nada. Mas quer tudo tenha surgido, quer apenas nem tudo seja eterno, em ambos os casos viria do nada. Pois, se tudo tivesse surgido, antes nada poderia ter sido. E se apenas algumas coisas fossem e delas todo o resto se originasse, então este um, do qual todo o resto (que aparece) surgiria’, tomar-se-ia mais e maior. Mas o mais e o maior se originariam, desta maneira, do nada de si mesmo; pois no menos não está contido seu mais, nem no menor seu maior.” – “Tampouco pode algo surgir do ente; pois o ente já é, e não surge desde o ente” – já pressuponho o ente; não existe passagem para o desigual. “Enquanto eterno, o ente também é ilimitado, pois não possui começo a partir do qual pudesse ser, nem fim, onde desapareça.” Tennemann diz (vol. I, pág. 156): “Porque achou o surgir incompreensível”; não tem verdade, não é. “O infinito todo é um; pois, se fossem dois ou mais, limitar-se-iam um ao outro”, teriam, portanto, princípio e fim; um seria o nada do outro, adviria deste nada. “Este um é igual a si mesmo; pois, se fosse desigual, não mais seria o um, mas seriam postos muitos. Este um é também imóvel, pois não se move, já que não passa para outra coisa; passando, porém, teria que movimentar-se para o pleno ou o vazio: não para o pleno, pois este é impossível – não para o vazio tampouco, pois este é o nada. O um é, por isso, tanto indolor quanto sadio (ánoson), não é localizado nem muda de figura, nem se mistura com outra coisa. Pois todas estas determinações implicariam o fato de o não-ente surgir e o ente desaparecer, o que é impossível.” Aponta-se, portanto, uma contradição, quando se fala de surgir e desaparecer.
A este elemento verdadeiro, a esta verdade opõe Xenófanes agora a opinião. A mudança eliminada da essência e a multiplicidade passam para o outro lado, para a consciência, para alguém que opina. É necessário dizer isto que Xenófanes diz – se apenas é retido o lado negativo, a supressão destes momentos, o absoluto sem predicados: “Na intuição sensível está presente o oposto, a saber, a multidão de coisas, sua mudança, seu surgir e desaparecer e sua mistura. Com isto, aquele primeiro saber passa para o lado deste segundo aspecto, o qual possui tanta certeza para a consciência comum como o primeiro”. Xenófanes não parece ter-se decidido por um ou por outro, mas – suspenso entre ambos – parece ter limitado o conhecimento da verdade, isto é, que entre dois tipos de saber opostos dever-se-ia preferir a opinião mais  provável, mas que este preferido mesmo só era a opinião mais forte, que não deveria ser vista como a verdade. Assim se expressa Aristóteles sobre ele. Céticos viram nisto o ponto de vista da incerteza de todas as coisas. E Sexto cita algumas vezes versos com este sentido.
“Ninguém jamais soube algo claro, nem jamais o saberá
Do que eu digo, tanto dos deuses como do universo,
Pois, mesmo que fosse bem sucedido e dissesse o mais perfeito
Ele mesmo não o saberia, contudo; pois a tudo se cola a opinião.”
Generalizando, Sexto explica isto assim: “Como se nos representássemos que numa casa, onde se encontram muitas coisas preciosas, vários procurassem, às escuras, o ouro; cada um pensaria ter encontrado o ouro, mas, contudo, não o saberia com certeza, mesmo que o tivesse realmente encontrado. Da mesma maneira, os filósofos entram neste mundo, como numa grande casa, para procurar a verdade; mesmo que eles a encontrassem, contudo, não poderiam saber se realmente a encontraram”.”
(Georg W. F. Hegel – Crítica moderna – Preleções sobre a História da Filosofia)


Heráclito de Éfeso (cerca de 540-470 A.C.)
“Heráclito, retirado no templo de Ártemis, divertia-se em jogar com as crianças e, acercando-se dele os efésios, perguntou- lhes: “De que vos admirais, perversos? Que é melhor: fazer isso ou administrar a República convosco?”.”
(Diógenes Laércio – IX)


“Heráclito diz em alguma passagem que todas as coisas se movem e nada permanece imóvel. E, ao comparar os seres com a corrente de um rio, afirma que não poderia entrar duas vezes num mesmo rio.”
(Platão – Crátilo)


“Heráclito disse que se felicidade estivesse nos prazeres do corpo, diríamos felizes os bois, quando encontram ervilha para comer.”
(Alberto Magno – De Vegetatione, VI)


“(Nas libações) Purificam-se manchando-se com outro sangue, como se alguém, entrando na lama, em lama se lavasse.”
(Aristócrito – Teosofia; Orígenes – Contra Celso)


“Pois é preciso que de muitas coisas sejam inquiridores os homens amantes da sabedoria.”
(Clemente de Alexandria – Exortação)


“Não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas.”
(Diógenes Laércio – IX)


“Lutar contra o coração é difícil; pois o que ele quer compra-se a preço de alma.”
(Plutarco – Coriolano)


“Um homem tolo gosta de se empolgar a cada palavra.”
(Plutarco – Coriolano)


“Heráclito diz ainda: “Tudo fazemos e dizemos segundo a participação do entendimento divino (logos). Por isso devemos seguir apenas a este entendimento universal. Muitos, porém, vivem como se tivessem um entendimento próprio; o entendimento, porém, não é outra coisa que a interpretação (o tomar-consciência, a exposição, a convicção) dos modos de ordenação (organização) do todo. Por isso, na medida em que tomamos parte no saber dele, estamos na verdade; mas, na medida em que temos coisas particulares (próprias), estamos na ilusão”. Palavras muito grandes e importantes! Não é possível expressar-se de modo mais verdadeiro e mais espontâneo sobre a verdade. Somente a consciência como consciência do universal é consciência da verdade; mas consciência da particularidade e ação como individual, uma originalidade, que se torna característica do conteúdo e da forma, é o não-verdadeiro e o mau. O engano, portanto, consiste na particularização do pensamento – o mal e o engano residem no fato da separação do universal. Os homens acham em geral que, quando devem pensar algo, isto teria que ser alguma coisa singular; isto é a ilusão.
Por mais que Heráclito afirme que no saber sensível não há verdade, porque tudo o que é flui, o ser da certeza sensível não é, enquanto é, com a mesma força afirma ele que, no saber, é necessário o modo objetivo. O racional, o verdadeiro que eu sei é certamente um retroceder e sair do objetivo, enquanto sensível, individual, determinado, existente. Mas o que a razão em si sabe é também a necessidade ou a universalidade do ser; é a essência do pensamento, do mesmo modo como é a essência do mundo. É a mesma consideração da verdade que Espinosa denomina “uma consideração das coisas sob a forma de Eternidade”. O ser para si da razão não é uma consciência sem objeto, um sonhar, mas um saber que é para si – mas de maneira tal que este ser para si seja desperto ou que seja objetivo e universal, sendo para todos o mesmo. O sonhar é um saber de algo de que somente eu sei. O imaginar e coisas semelhantes são também um tal sonhar. Do mesmo modo a sensação é a maneira de algo ser apenas para mim, de eu ter algo em mim, enquanto neste sujeito; por mais sublimes sentimentos que se tenham, é essencial que aquilo que sinto seja para mim, enquanto este sujeito – não como objeto, algo livre de mim. Na verdade, porém, o objeto é para mim, enquanto é livre em si, e eu sou para mim livre da subjetividade de mim; e, do mesmo modo, é este objeto de maneira alguma imaginado, transformado por mim em objeto, mas em si universal.”
(Georg W. F. Hegel – Crítica moderna – Preleções sobre a História da Filosofia)


Parmênides de Eléia (cerca de 530-460 A.C.)
“Do fato de nada poder provir, quer do igual quer do desigual, Aristóteles conclui que, ou nada existe fora de Deus, ou tudo é eterno.”
(Friedrich Nietzsche – Crítica moderna – A Filosofia na Época Trágica dos Gregos)


Melisso de Samos (floresceu – auge da forma – cerca de 444/1 A.C.)
“Melisso também demonstra, partindo desses argumentos, que o todo é imóvel; pois – diz ele –, se ele se movesse, forçosamente haveria vazio, e o vazio é um não-ser.”
(Aristóteles – Física, IV)


“Nada que tem princípio e termo é eterno ou infinito.”
(Simplício – Física)


Empédocles de Agrigento (cerca de 490-435 A.C)
“... mesmo duas vezes o devido é belo dizer.”
(Escólio aos Górgias de Platão)


“Os homens estão numa prisão, são guardados pelos deuses e constituem um de seus bens.”
(Platão – Fédon)


      “Anaxágoras afirma que a sensação nasce dos contrários, pois o semelhante não é afetado pelo semelhante.
(Teofrasto – Da Sensação)


      “É preciso ou ser bom ou imitar quem o é.”
(Sentenças de Demócrates – estas e as demais infracitadas)

      “Coisa grande é, mesmo no infortúnio, pensar naquilo que é preciso.”


      “Arrependimento de atos vergonhosos é salvação da vida.”


      “À censura dos maus o homem bom não dá atenção.”


      “É duro ser governado por um inferior.”


      “Quem adverte aquele que pensa ser inteligente, trabalha em vão.”


      “Muitos, sem ter aprendido a razão, vivem segundo a razão.”


      “Muitos, praticando os atos mais vergonhosos, elaboram os mais excelentes discursos.”


      “Os tolos, quando infelizes, são sábios.”


      “É melhor acusar as próprias faltas que as alheias.”


      “Um homem é digno de fé ou não o é, não somente pelo que faz, mas também é pelo que quer.”


      “É próprio da criança, não do homem, desejar desmedidamente.”


      “Desejar algo violentamente cega a alma para o restante.”


      “É agradável recusar algo que não é útil.”


     “Para os tolos é melhor ser governado que governar.”


      “Fama e riqueza sem inteligência não são aquisição segura.”


      “É vergonhoso ocupar-se muito das coisas alheias e ignorar as próprias.”


     “O sempre adiar torna sem fim as ações.”


      “Causa de erro é a ignorância do melhor.”


      “É cupidez falar sobre tudo e não querer ouvir nada.”


      “É preciso guardar-se do mau, para que ele não aproveite uma ocasião propícia.”


      “Inimigo não é quem comete injustiça, mas o que quer cometê-la.”


      “O ódio dos parentes é muito mais penoso que o dos estranhos.”


      “Deve-se receber favores com a intenção de corresponder com outros maiores.”


      “Ao prestar um favor, examina quem o recebe; não venha ele, por ser falso, pagar um bem com o mal.”


      “Não merece viver quem não tem um só amigo.”


      “Parece-me que nem por uma só pessoa é amado quem não ama ninguém.”


      “Não se exercite a mulher na palavra; pois isso é coisa perigosa.”


      “Na realidade nada sabemos, pois a verdade jaz num abismo.”


      “Os homens plasmaram uma imagem da sorte como desculpa para sua falta de julgamento; pois raramente a sorte conflita com a inteligência e, no mais das vezes, na vida o olhar penetrante e inteligente mostra o caminho reto.”


      “Não desejes saber tudo, para que não te tornes desconhecedor de tudo.”


      “Deves, portanto, voltar o pensamento ao que é possível e satisfazer-te com o que está à mão, lembrando pouco dos que são invejados e admirados e sem ficar pensando neles, continuamente. Deves, porém, olhar para a vida dos que pensam, refletindo sobre o que os faz sofrer muito, para que aquilo que tens à mão e aquilo que possuis te pareçam grandes e invejáveis e não mais sobrevenham, por desejares mais do que tens, sofrimentos para tua alma. (...)
      Tendo isso em mente, viverás com melhor ânimo e afastarás durante a vida não poucas maldições: malevolência, inveja e animosidade.”


      “É mostra de sabedoria guardar-se da injustiça iminente, mas de insensibilidade não vingar-se da sofrida.”


      “O animal, quando precisa de algo, sabe de quanto precisa, mas o homem, quando precisa, não tem consciência disso.”


      “Insensatos, odiando a vida, por temer o Hades querem viver.”


      “Insensatos desejam longevidade sem tirar prazer da longevidade.”


     “Insensatos desejam as coisas ausentes, mas desperdiçam as presentes ainda que mais valiosas que as passadas.”


      “Os homens, ao fugir da morte, perseguem-na.”


      “O desejo de riquezas, que não é delimitado pela saciedade, é muito mais penoso que a miséria extrema, pois os desejos maiores fazem maiores as carências.”


      “É preciso falar a verdade; não, falar muito.”


      “Os avaros têm o destino da abelha: trabalham como se fossem viver sempre.”


      “Nada de vil, mesmo que esteja sozinho, fales ou faças. Aprende a respeitar mais a ti que aos outros.”


      “O temor produz lisonja, mas não obtém benevolência.”


      “Quem teve sorte com o genro, encontrou um filho; quem não a teve, perdeu também uma filha.”


      “A educação dos filhos é coisa escorregadia: o sucesso que tem é cheio de luta e preocupação, e ao insucesso nenhuma outra dor supera.”


      “A falta de recursos da comunidade é mais dura do que a de cada um, pois não lhe resta a esperança de ajuda.”