A conversão de São Paulo

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segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Orixás – Pierre Fatumbi Verger

Editora: Corrupio
ISBN: 978-85-8655-102-4
Tradução: Maria Aparecida da Nóbrega
Opinião: ***
Páginas: 296
     “A religião dos orixás esta ligada à noção de família. A família numerosa, originária de um mesmo antepassado, que engloba os vivos e os mortos. O orixá seria em princípio um ancestral divinizado, que, em vida, estabelecera vínculos que lhe garantiam um controle sobre certas forças da natureza, como o trovão, o vento, as águas doces ou salgadas, ou, então, assegurando-lhe a possibilidade de exercer certas atividades como a caça, o trabalho com metais ou, ainda, adquirindo o conhecimento das propriedades das plantas e de sua utilização. O poder, axé, do ancestral-orixá teria, após a sua morte, a faculdade de encarnar-se momentaneamente em um de seus descendentes durante um fenômeno de possessão por ele provocada.
     O orixá é uma força pura, axé imaterial que só se torna perceptível aos seres humanos incorporando-se em um deles. Esse ser escolhido pelo orixá, um de seus descendentes, é chamado seu elégùn, aquele que tem o privilégio de ser “montado” (gùn), por ele. Torna-se o veículo que permite ao orixá voltar a terra para saudar e receber as provas de respeito de seus descendentes que o evocaram.
     Voltando assim, momentaneamente, a terra, entre seus descentes, durante as cerimônias de evocação, os orixás dançam diante deles e com eles, recebem seus cumprimentos, “ouvem as suas queixas, aconselham, concedem graças, resolvem as suas desavenças e dão remédios para as suas dores e consolo para os seus infortúnios. O mundo celeste não esta distante, nem superior, e o crente pode conversar diretamente com os deuses e aproveitar da sua benevolência”.
     O tipo de relacionamento é de caráter familiar e informal.”


     “Os santos católicos, ao se aproximarem dos deuses africanos, tornavam-se mais compreensíveis e familiares aos recém-convertidos. É difícil saber se essa tentativa contribuiu efetivamente para converter os africanos, ou se ela os encorajou na utilização dos santos para dissimular as sua verdadeiras crenças. (...)
     Nina Rodrigues constatava que, em fins do último século, a conversão religiosa não fez mais que justapor as exterioridades muito mal compreendidas do culto católico às suas crenças e práticas fetichistas que em nada se modificaram. Concebem os seus santos ou orixás e os santos católicos como de categoria igual, embora perfeitamente distintos.
     Os africanos escravizados se declaravam e aparentavam convertidos ao catolicismo; as práticas fetichistas puderam manter-se entre eles até hoje quase tão estremes de mescla como na África.
     Depois, as viagens constantes para a África com navegação e relações comerciais diretas... Facilitaram a reimportação de crenças e práticas, porventura um momento esquecido ou adulterado.
     Com o passar do tempo, com a participação de descendentes de africanos e de mulatos cada vez mais numerosa, educada num igual respeito pelas duas religiões, tornaram-se eles tão sinceramente católicos quando vão à igreja, como ligados às tradições africanas, quando participam, zelosamente, das cerimônias de candomblé.”


     “Gisele Cossard observa que se examinarem os iniciados, agrupando-os por orixás, nota-se que eles possuem, geralmente, traços comuns, tanto no biótipo como em características psicológicas. Os corpos parecem trazer, mais ou menos profundamente, segundo os indivíduos, a marca das forças mentais e psicológicas que os anima.
      Podemos chamar essas tendências de arquétipos da personalidade escondidas nas pessoas. Dizemos escondida porque não há nenhuma dúvida, certas tendências inatas não podem desenvolver–se livremente dentro de cada um, no decorrer de sua existência, se elas entrarem em conflito coma as regras de conduta, admitidas nos meios em que vivem. A educação recebida e as experiências vividas, muitas vezes alienantes, são as fontes seguras de sentimentos de frustração e de complexos, e consequentes bloqueios e dificuldades.
      Se uma pessoa, vítima de problemas não solucionados, é escolhida como filho ou filha de santo pelo orixá, cujo arquétipo corresponde a essas tendências escondidas, isso será para ela a experiência mais aliviadora e reconfortante pela qual possa passar. No momento do transe, ela comporta-se, inconscientemente, como o orixá, seu arquétipo, e é exatamente a isso que aspiram as suas tendências secretas e reprimidas.”


     “No novo mundo, como na África, todas as pessoas que procuram a proteção dos orixás não entram, obrigatoriamente, em transe de possessão, da mesma maneira que nem todos os católicos ou protestantes tornam-se padres ou pastores. O transe de possessão é uma forma de comunhão entre o crente e o seu deus, não sendo dada a todo mundo a faculdade de experimentá-la.
     Os que são chamados a tornar-se Filhos ou Filhas de santo devem passar por um período denominado impropriamente “iniciação”. Dizemos impropriamente, pois não lhes são revelados segredos. Fazem-lhes reencontrar um certo comportamento, aquele atribuído a seu deus. A iniciação não se faz no plano do conhecimento intelectual, consciente e aprendido, mas em nível mais escondido, que vem da hereditariedade adormecida, do inconsciente, do informulado.
     Todos os seres humanos possuem, em potencial, numerosas tendências e faculdades que ficam em estado de vigília. As experiências vividas por um indivíduo, o exemplo dos mais velhos, os princípios inculcados pela educação, a censura do meio social, fazem com que apenas algumas dessas tendências e faculdades possam expandir-se, resultando daí a criação de uma personalidade aparente, diferente daquela que ele poderia ter tido, se o acaso o tivesse colocado num meio onde os valores morais e os princípios admitidos tivessem sido diferentes.
     A iniciação consiste em suscitar, ou melhor, em ressuscitar no noviço, em certas circunstâncias, aspectos dessa personalidade escondida; aqueles correspondentes à personalidade do ancestral divinizado, presente nele em estado latente (mesmo sendo só em razão dos genes herdados), inibidos e alienados pelas circunstâncias da existência levada por ele até essa data. A menos que se trate de um arquétipo de comportamento, reprimido até então, que possa se exprimir num transe de libertação.
     Durante o período de iniciação é mergulhado num estado de entorpecimento e de dócil sugestibilidade, causado, em parte, por abluções e beberagens de infusões preparadas com certas folhas. Sua memória parece momentaneamente lavada das lembranças de sua vida anterior. Nesse estado de vacuidade e de disponibilidade, a identidade e o comportamento do orixá podem se instalar livremente, sem obstáculos, e tornar-se-lhe familiar.
     Mais tarde, depois de realizada a iniciação, a pessoa reencontrará a sua antiga personalidade e esquecerá, no estado normal, tudo o que se passou durante o período de iniciação, continuando, porém, sensibilizada no seu inconsciente aos ritmos dos atabaques particulares a seu orixá. Estes agirão como os estímulos de um reflexo condicionados e tenderão a fazê-la cair em transe, sucumbindo ao apelo de seu deus. Em outros termos, tais apelos incitam-na a exteriorizar um arquétipo de comportamento conforme as suas aspirações reprimidas.”

2 comentários:

Sugestão de Livros disse...

Interessante o livro, mostra algumas características da religião do orixás que eu não conhecia. Destaco os trechos a seguir:

“Os santos católicos, ao se aproximarem dos deuses africanos, tornavam-se mais compreensíveis e familiares aos recém-convertidos. É difícil saber se essa tentativa contribuiu efetivamente para converter os africanos, ou se ela os encorajou na utilização dos santos para dissimular as sua verdadeiras crenças."

“No novo mundo, como na África, todas as pessoas que procuram a proteção dos orixás não entram, obrigatoriamente, em transe de possessão, da mesma maneira que nem todos os católicos ou
protestantes tornam-se padres ou pastores. O transe de possessão é uma forma de comunhão entre o crente e o seu deus, não sendo dada a todo mundo a faculdade de experimentá-la."

Maria Helena C Mello disse...

Alguém sabe onde posso encontrar esse livro??? estou procurando faz um tempo e não acho.