quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Novelas nada exemplares – Dalton Trevisan

Editora: Record / Altaya
ISBN: 978-85-011-5909-0
Opinião: **
Páginas: 178
     
     “Mais fácil morrer do que se livrar do cadáver.”


     “Tardes alucinadas de febre, Chico se lembrava do pai. Severo, não admitia riso. Quando fugiu de casa imaginou que nem lhe desse pela falta. Nunca escreveu, informando o endereço, na ronda das pensões. Tarde demais soube que o velho não deixou retirar seu guardanapo da mesa. A mãe colocava mais um prato, como se Chico viesse, todos aqueles anos, almoçar e jantar em casa. De noite, o pai subia ao quarto do rapaz: Chico, Chico, você voltou?” Morreu antes que o filho visitasse a família. Agora sonhava com o velho, ao lado da cama: “Chico, veio pra casa, meu filho?”


     “O destino da mulher é esperar pelo marido e, depois do marido, pelos filhos.”


     “Às mães não foi dado entender os filhos, apenas amá-los.”


     “Os pardais o acordam de manhã. “Malditos!” gemendo, enterra a cabeça no travesseiro. Malditos pardais – o dia: mais um dia. Quietinho, morde o lençol, abafa os gritos: “Não acordei, estou dormindo. Não são os pardais, mas os grilos...” Quem dera esganar todos os pardais da cidade.
     Cabeça nas mãos, repete sempre – “São os grilos, eis que são os grilos.” Em vez de abrir a janela, acende a luz.
     Onde a coragem de enfrentar o espelho? Sobreviveu ao pior: já fez a barba. Não mais ver aquela cara e, coçando o queixo, interrogar-se: “Para quê?”.
     O espelho nunca deu a resposta. Resiste aos dias, com ódio dos pardais. Ah, não piassem com tanta alegria, quem sabe o sol deixasse de nascer.
     O queixo ensaboado, xinga-se em voz baixa: “Por que não morre?”. Ao frio da navalha, os dedos tremem. Alcança a garrafa, bebe no gargalo. Dos olhos escorrem gotas de amargura, nem sequer lágrimas.
     No canto do espelho o retratinho da filha, única maneira de aceitar o próprio rosto.”


     “Olho vermelho de dorminhoco, o filho saiu do quarto e atravessou a cozinha. O homem batia as pálpebras, embevecido com os vapores capitosos.
- Aonde é que vai?
     O filho abriu a torneira do banheiro:
- Fazer a barba.
- Hora da janta. Vem comer.
     Demorava-se o rapaz, torneira fechada. Com a toalha no pescoço, não olhou o pai.
- Não quero jantar. Sem fome.
     O homem suspendeu a colher:
- Não quer jantar, mas vem para a mesa.
     O homem sugava ruidosamente e, a cada chupão, o filho revolvia a ponta do garfo no coração das margaridas.
- Saiu agora do quarto, filho de barão! Mas eu... Quando me deitar de dia na cama é para morrer!”


     “Ele tinha princípios – o mais importante, barbear-se todos os dias.”

Um comentário:

Doney disse...

Recomendo do livro os contos: "O Noivo", "João Nicolau", "Quarto de hotel", "As maçãs", "A sopa", "Olho de peixe" e "Últimos dias".