A conversão de São Paulo

A conversão de São Paulo
A conversão de São Paulo

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A invenção de Morel – Adolfo Bioy Casares

Editora: Rocco
Tradução: Vera Neves Pedroso
Opinião: ***
Páginas: 124


     “O mundo, com o aperfeiçoamento das polícias, dos documentos, do jornalismo, da radiotelefonia, das alfândegas, torna irreparável qualquer erro da justiça, é um perfeito inferno para os perseguidos.”


      “Já não estou morto: estou apaixonado.”


      “Julguei ter feito a seguinte descoberta: nas nossas atitudes, tem de haver inesperadas, constantes repetições. A ocasião favorável permitiu-me observá-lo. Ser testemunha clandestina de várias entrevistas das mesmas pessoas não é comum. Como no teatro, as cenas se repetem.”


      “(fica enunciada a possibilidade de vários céus; se houvesse apenas um e todos fossem para lá e nos aguardasse um casal encantador e todas as suas quartas-feiras literárias, muitos já teríamos deixado de morrer). Entendia agora por que razão os novelistas falam em fantasmas queixosos. Os mortos continuam entre os vivos. Custa-lhes mudar de costumes, renunciar ao fumo, ao prestígio de violadores de mulheres.”


      “Quando queremos desconfiar, a ocasião nunca falta.”

domingo, 7 de dezembro de 2014

Pré-socráticos: fragmentos, doxografia e comentários

Editora: Nova Cultural
Seleção de textos e supervisão: José Cavalcante de Souza
ISBN: 85-3510-694-4
Tradução: José C. de Souza, Arma L. A. A. Prado, Ísis L. Borges, Maria C. M. Cavalcante, Remberto F. Kuhnen, Rubens R. Torres, Carlos R. de Moura, Ernildo Stein, Arnildo Devegili, Paulo F. Flor, Wilson Regis
Opinião: **
Páginas: 320

     Os filósofos analisados são respectivamente: Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto, Pitágoras de Samos, Xenófanes de Colofão, Heráclito de Éfeso, Parmênides de Eleia, Zenão de Eleia, Melisso de Samos, Empédocles de Agrigento, Filolau de Crotona, Arquitas de Tarento, Anaxágoras de Clazômenas, Leucipo de Mileto e Demócrito de Abdera.
(Quando o caso, os comentaristas e as obras onde eles são identificados são correspondentemente citadas.)

     “Os deuses homéricos são fundamentalmente deuses da luz (de díos provém tanto “deus” quanto “dia”) e seu antropomorfismo não diz respeito apenas à forma exterior, semelhante à dos mortais: os deuses são também animados por sentimentos e paixões humanas. A humanização do divino aproxima-o da compreensão dos homens, mas, por outro lado, deixa o universo – em cujo desenvolvimento os deuses podem intervir – suspenso a comportamentos passionais e a arbítrios capazes de alterar seu curso normal. Isso limita o índice de racionalização contido nas epopeias homéricas: uma formulação teórica, filosófica ou científica exigirá, mais tarde, o pressuposto de uma legalidade universal, exercida impessoal e logicamente. Então, abolindo-se a atuação de vontades divinas divergentes, chegar-se-á a um divino neutro imparcial: a divina arché das cosmogonias dos primeiros filósofos. É bem verdade, porém, que já na visão mitológica expressa pelas epopeias, a suserania de Zeus introduz na família divina um princípio de ordem, que tende a unificar e a neutralizar as preferências discordantes dos vários deuses. Do ponto de vista ético, essa suserania estabelece uma diferença marcante entre a Ilíada (obra mais antiga) e a Odisseia: nesta, a fidelidade de Penélope e os esforços de Ulisses acabam premiados, a revelar, como pressuposto, um universo de valores morais já hierarquizados, sob o controle e a garantia, em última instância, de Zeus soberano. Desse modo, à imagem da sociedade patriarcal, Zeus fundamenta na força sua preeminência e organiza finalmente o Olimpo como pai poderoso. O politeísmo homérico não exclui, portanto, a ideia de uma ação ordenada por parte dos deuses, chegando afinal a admitir certa unidade na ação divina.”


     “O mito das idades ilustra a ideia de justiça: nenhum homem pode furtar-se à lei do trabalho, assim como nenhuma raça pode evitar a justiça. Na verdade, esses dois temas são complementares, segundo Hesíodo: o homem da idade de ferro esta movido pelo instinto de luta (eris); se a luta se transforma em trabalho, torna-se emulsão fecunda e feliz; se, ao contrário, manifesta-se por meio de violência, acaba sendo a perdição do próprio homem. (...) Com Hesíodo surge a noção de que a virtude (areie) é filha do esforço e a de que o trabalho é o fundamento e a salvaguarda da justiça.”


     “Proclama Heráclito de Éfeso: “É sábio escutar não a mim, mas a meu discurso (logos), e confessar que todas as coisas são Um”. O Logos seria a unidade nas mudanças e nas tensões a reger todos os planos da realidade: o físico, o biológico, o psicológico, o político, o moral. E a unidade nas transformações: “Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz, superabundância-fome; mas ele assume formas variadas, do mesmo modo que o fogo, quando misturado a arômatas, é denominado segundo os perfumes de cada um deles”. Por isso Homero errara em pedir que cessasse a discórdia entre os deuses e os homens: “O que varia esta de acordo consigo mesmo”. A harmonia não é aquela que Pitágoras propunha, de supremacia do Um, nem a verdadeira justiça é a que Anaximandro havia concebido, ou seja, a extinção dos conflitos e das tensões através da compensação dos excessos de cada qualidade-substância em relação a seu oposto. A justiça não significa apaziguamento: pelo contrário, “o conflito é o pai de todas as coisas: de alguns faz homens; de alguns, escravos; de alguns, homens livres”. Mas ver a realidade como fundamentalmente uma tensão de opostos não significa necessariamente optar pela guerra, no plano político, “guerra”, neste último sentido, é apenas um dos polos de uma tensão permanente (“Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz...”). É essa tensão, que constitui a verdadeira harmonia, necessita, para perdurar, de ambos os opostos.”


     “A consciência da fugacidade das coisas gera uma nota de pessimismo que atravessa o pensamento de Heráclito: “O homem é acendido e apagado como uma luz no meio da noite” (D 26). Mas o pessimismo advém, sobretudo, de reconhecer o torpor em que vive a maioria dos homens, ignorantes da lei universal que tudo rege. Por isso, o discurso (logos) do filósofo, embora pretendendo ser a manifestação da Razão universal (Logos), exprime-se como um solitário monólogos, acima dos homens comuns, “esses loucos que quando ouvem são como surdos”.


     “Para Empédocles de Agrigento a evidência procurada não é a do intelecto puro: é a exigência de clareza racional, porém aplicada aos dados fornecidos pelos sentidos. Desaparece a monarquia da razão, o conhecimento se democratiza: todos os recursos de apreensão da realidade são igualmente legítimos e devem ter sua parte na constituição da verdade. Aconselha Empédocles: “Examina de todos os modos possíveis de que maneira cada coisa se torna evidente. Não atribua mais crença a tua vista do que a teu ouvido, a teu ouvido que ressoa mais do que às claras indicações de tua língua. Não recuses a teus outros membros a tua confiança, na medida em que eles apresentam ainda um meio de conhecer; mas toma conhecimento de cada coisa da maneira que a torna clara”. (...)
     “Nem há mudança substancial: as raízes permanecem idênticas a si mesmas. A diversidade das coisas delas resultantes advém de sua mistura em diferentes proporções. Proclama Empédocles: “Não há nascimento para nenhuma das coisas mortais; não há fim pela morte funesta; há somente mistura e dissociação dos componentes da mistura. Nascimento é apenas um nome dado a esse fato pelos homens”.”


     “Anaxágoras de Clazômenas introduz a noção do infinitamente pequeno: “Todas as coisas estavam juntas, infinitas ao mesmo tempo em número e em pequenez, porque o pequeno era também infinito”. Essa ideia, contrária à concepção da extensão no pitagorismo primitivo (que admitia a extensão como composta de unidades indivisíveis), torna-se fundamental na cosmogonia e na cosmologia de Anaxágoras. A tese de que “em cada coisa existe uma porção de cada coisa” sustenta-se na divisibilidade infinita. O universo atual constitui-se, segundo Anaxágoras, a partir de um todo originário no qual todas as coisas estavam juntas e “nenhuma delas podia ser distinguida por causa de sua pequenez”.”


     “O homem é a medida de todas as coisas (das coisas que são, enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são).” (Protágoras)


Tales de Mileto (cerca de 625/4-558 A.C.)

     “Alguns dos que afirmam um só princípio de movimento – Aristóteles, propriamente, chama-os de físicos – consideram que ele é limitado; assim Tales de Mileto, filho de Examias, e Hipão, que parece ter sido ateu, afirmavam que água é o princípio, tendo sido levados a isto pelas (coisas) que lhes apareciam segundo a sensação; pois o quente vive com o úmido, as coisas mortas ressecam-se, as sementes de todas as coisas são úmidas e todo alimento é suculento. Donde é cada coisa, disto se alimenta naturalmente: água é o princípio da natureza úmida e é continente de todas as coisas; por isso supuseram que a água é princípio de tudo e afirmaram que a terra esta deitada sobre ela. Os que supõem um só elemento afirmam-no ilimitado em extensão, como Tales diz da água.”
(Simplício – Física)

     “E afirmam alguns que ela (a alma) esta misturada com o todo. É por isso que, talvez, também Tales pensou que todas as coisas estão cheias de deuses.”
(Aristóteles – Da Alma)


Anaximandro de Mileto (cerca de 610-547 A.C.)

     Dentre os que afirmam que há um só princípio, móvel e ilimitado, Anaximandro, filho de Praxíades, de Mileto, sucessor e discípulo de Tales, disse que o ápeiron (ilimitado) era o princípio e o elemento das coisas existentes. Foi o primeiro a introduzir o termo princípio. Diz que este não é a água nem algum dos chamados elementos, mas alguma natureza diferente, ilimitada, e dela nascem os céus e os mundos neles contidos: “Donde a geração... do tempo”. Assim ele diz em termos acentuadamente poéticos. É manifesto que, observando a transformação recíproca dos quatro elementos, não achou apropriado fixar um destes como substrato, mas algo diferente, fora estes. Não atribui então a geração ao elemento em mudança, mas à separação dos contrários por causa do eterno movimento. É por isso que Aristóteles o associou aos da escola de Anaxágoras. (“Contrários são quente e frio, seco e úmido e outros” Cf. – Aristóteles – Física). Segundo uns, da unidade que os contém, procedem, por divisão, os contrários, como diz Anaximandro. Outros afirmam existir a unidade e multiplicidade dos seres, como Empédocles e Anaxágoras. Estes fazem proceder tudo da mistura por divisão.”
(Simplício – Física)

     “Tales de Mileto mostra a necessidade de simplificar o reino da pluralidade e reduzi-lo a um mero desdobramento ou disfarce da única qualidade existente, a água. Anaximandro o ultrapassa em dois passos. Pergunta-se, da primeira vez: “Mas, se há em geral uma unidade eterna, como é possível aquela pluralidade?”, e deduz a resposta do caráter contraditório dessa pluralidade, que consome e nega a si mesmo. Sua existência se torna para ele um fenômeno moral, que não se legitima, mas se penitencia, perpetuamente, pelo sucumbir. Mas, em seguida, ocorre-lhe a pergunta: “Por que, então, tudo o que veio a ser já não foi ao fundo há muito tempo, uma vez que já transcorreu toda uma eternidade de tempo? De onde vem o fluxo sempre renovado do vir-a-ser?” Ele só sabe salvar-se dessa pergunta por possibilidades místicas: o vir-a-ser eterno só pode ter sua origem no ser eterno, as condições para o declínio daquele ser em um vir-a-ser na injustiça são sempre as mesmas, a constelação das coisas tem desde sempre uma índole tal que não se pode prever nenhum término para aquele sair dos seres isolados do seio do “indeterminado”. Aqui ficou Anaximandro: isto é, ficou nas sombras profundas que, como gigantescos fantasmas, deitam-se sobre a montanha de uma tal contemplação do mundo. Quanto mais se procurava aproximar-se do problema – como, em geral, pode nascer, por declínio, do indeterminado o determinado, do eterno o temporal, do justo a injustiça –, maior se tornava a noite.”
(Friedrich Nietzsche – Crítica moderna – A Filosofia na Época Trágica dos Gregos)


Anaxímenes de Mileto (cerca de 585-528/5 A.C)

     Anaxímenes de Mileto, filho de Eurístrates, companheiro de Anaximandro, afirma também que uma só é a natureza subjacente, e diz, como aquele, que é ilimitada, não, porém, indefinida, como aquele (diz), mas definida, dizendo que ela é ar. Diferencia-se nas substâncias, por rarefação e condensação. Rarefazendo-se, torna-se fogo; condesando-se, vento, depois nuvem, e ainda mais, água, depois terra, depois pedras, e as demais coisas (provêm) destas. Também ele faz eterno o movimento pelo qual se dá a transformação. É preciso saber que uma coisa é o ilimitado e limitado em quantidade, o que era próprio dos que afirmavam serem muitos os princípios, e outra coisa é o ilimitado e limitado em grandeza, o que precisamente... se adapta ao caso de Anaximandro e Anaxímenes, que supõem o elemento único e ilimitado em grandeza.”
(Simplício – Física)


Pitágoras de Samos (cerca de 580/78-497/6 A.C.)

     “Sua ideia fundamental é esta: a matéria, que é representada inteiramente destituída de qualidade, somente por relações numéricas adquire tal ou tal qualidade determinada.


     Tal é a resposta dada ao problema de Anaximandro. O vir-a-ser é um cálculo. (...)
     Os pitagóricos teriam podido dizer o mesmo do universo, mas sem poder dizer quem faz o cálculo.”
(Friedrich Nietzsche – Crítica moderna O Nascimento da Filosofia na Época da Tragédia Grega)


Xenófanes de Colofão (cerca de 570-528 A.C.)

“Mas se alguém obtivesse a vitória,
ou pela rapidez dos pés, ou no pentatlo,
lá onde esta o recinto de Zeus perto das correntes do Pisa em Olímpia,
ou na luta, ou mesmo no penoso embate do pugilato,
ou na rude disputa a que chamam pancrácio,
os cidadãos o veriam mais ilustre,
obteria nos jogos lugar de honra visível a todos,
receberia alimento vindo das reservas públicas
dado pela cidade e também dons que seriam seu tesouro.
Ainda que fosse com cavalos, tudo isso lhe caberia,
embora não fosse digno como eu, pois mais que a força física
de homens e de cavalos vale minha sabedoria.
Ora, muito sem razão é esse costume, nem justo
é preferir a força física à boa sabedoria.
Pois nem havendo entre o povo um bom pugilista,
nem havendo um bom no pentatlo, nem na luta
ou pela rapidez dos pés, que mais que a força física
merece honra entre as ações dos homens nos jogos,
não é por isso que a cidade viveria em maior ordem.
Pequeno motivo de gozo teria a cidade,
se alguém, competindo, vencesse às margens do Pisa,
pois isso não enche os celeiros da cidade.”
(Ateneu – X)

     “Tudo aos deuses atribuíram Homero e Hesíodo, tudo quanto entre os homens merece repulsa e censura, roubo, adultério e fraude mútua.”
(Sexto Empírico – Contra os Matemáticos)

     “Mas os mortais acreditam que os deuses são gerados, que como eles se vestem e têm voz e corpo. (...) Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões e pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens, os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois, desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam tais quais eles próprios têm.”
(Clemente de Alexandria – Tapeçarias)

     “Pois tudo vem da terra e na terra tudo termina.”
(Aécio – IV)

     “E o que é claro, portanto, nenhum homem viu, nem haverá alguém que conheça sobre os deuses e acerca de tudo que digo; pois, ainda que no máximo acontecesse dizer o que é perfeito, ele próprio não saberia; a respeito de tudo existe uma opinião.”
(Sexto Empírico – Contra os Matemáticos)

     “No que se refere à sua filosofia, Xenófanes determinou primeiro o ser absoluto como o um: “O todo é um”. Designou isto também Deus; afirmou que Deus esta implantado em todas as coisas, que ele é supra-sensível, imutável, sem começo, meio e fim, imóvel. Em alguns de seus versos diz Xenófanes; “Um Deus é o maior entre os deuses e os homens, e não é comparável aos mortais, nem quanto à figura nem quanto ao espírito”, e: “Ele vê em toda parte, pensa em toda parte e ouve em qualquer lugar”, palavras a que Diógenes de Laércio ainda acrescenta: “Tudo é pensamento e razão”. (...)
     Então, o verdadeiro somente é que Deus é o um – não no sentido de que haja um Deus (isto é, outra determinação), mas de que ele é apenas este igual a si mesmo; nisto, pois, não esta contida outra determinação que na afirmação da Escola Eleática. A reflexão moderna percorreu, sem dúvida, um caminho mais longo, não só através de representações filosóficas e predicados de Deus – até esta abstração que a tudo destrói; mas o conteúdo, o resultado é o mesmo. A isto se vincula, da maneira mais precisa, o raciocínio dos eleatas. Pois foram eles que demonstraram mais detidamente que nada surge e nada desaparece. (Esta explicação pertence precipuamente a Zenão.) Que a mudança não é ou se contradiz mostraram-no de um modo que é atribuído a Xenófanes.”
(Georg W. F. Hegel – Crítica moderna – A Escola Eleática)

     “Eterno é uma expressão canhestra, pois ao ouvir o termo logo pensamos no tempo, nele misturamos passado e futuro, como um tempo infinitamente longo; enquanto na realidade aqui se trata do eterno (aídion) como o igual a si mesmo, o puramente presente, sem que interviessem representações de tempo. E surgir e devir estão excluídos; se algo surgisse, originar-se-ia ou do nada ou do ser. (Afirma Xenófanes:) “É impossível que algo venha do nada. Mas quer tudo tenha surgido, quer apenas nem tudo seja eterno, em ambos os casos viria do nada. Pois, se tudo tivesse surgido, antes nada poderia ter sido. E se apenas algumas coisas fossem e delas todo o resto se originasse, então este um, do qual todo o resto (que aparece) surgiria’, tomar-se-ia mais e maior. Mas o mais e o maior se originariam, desta maneira, do nada de si mesmo; pois no menos não esta contido seu mais, nem no menor seu maior.” – “Tampouco pode algo surgir do ente; pois o ente já é, e não surge desde o ente” – já pressuponho o ente; não existe passagem para o desigual. “Enquanto eterno, o ente também é ilimitado, pois não possui começo a partir do qual pudesse ser, nem fim, onde desapareça.”  Tennemann diz (vol. I, pág. 156): “Porque achou o surgir incompreensível”; não tem verdade, não é. “O infinito todo é um; pois, se fossem dois ou mais, limitar-se-iam um ao outro”, teriam, portanto, princípio e fim; um seria o nada do outro, adviria deste nada. “Este um é igual a si mesmo; pois, se fosse desigual, não mais seria o um, mas seriam postos muitos. Este um é também imóvel, pois não se move, já que não passa para outra coisa; passando, porém, teria que movimentar-se para o pleno ou o vazio: não para o pleno, pois este é impossível – não para o vazio tampouco, pois este é o nada. O um é, por isso, tanto indolor quanto sadio (ánoson), não é localizado nem muda de figura, nem se mistura com outra coisa. Pois todas estas determinações implicariam o fato de o não-ente surgir e o ente desaparecer, o que é impossível.” Aponta-se, portanto, uma contradição, quando se fala de surgir e desaparecer.
     A este elemento verdadeiro, a esta verdade opõe Xenófanes agora a opinião. A mudança eliminada da essência e a multiplicidade passam para o outro lado, para a consciência, para alguém que opina. É necessário dizer isto que Xenófanes diz – se apenas é retido o lado negativo, a supressão destes momentos, o absoluto sem predicados: “Na intuição sensível esta presente o oposto, a saber, a multidão de coisas, sua mudança, seu surgir e desaparecer e sua mistura. Com isto, aquele primeiro saber passa para o lado deste segundo aspecto, o qual possui tanta certeza para a consciência comum como o primeiro”. Xenófanes não parece ter-se decidido por um ou por outro, mas – suspenso entre ambos – parece ter limitado o conhecimento da verdade, isto é, que entre dois tipos de saber opostos dever-se-ia preferir a opinião mais  provável, mas que este preferido mesmo só era a opinião mais forte, que não deveria ser vista como a verdade. Assim se expressa Aristóteles sobre ele. Céticos viram nisto o ponto de vista da incerteza de todas as coisas. E Sexto cita algumas vezes versos com este sentido.

“Ninguém jamais soube algo claro, nem jamais o saberá
Do que eu digo, tanto dos deuses como do universo,
Pois, mesmo que fosse bem sucedido e dissesse o mais perfeito
Ele mesmo não o saberia, contudo; pois a tudo se cola a opinião.”

     Generalizando, Sexto explica isto assim: “Como se nos representássemos que numa casa, onde se encontram muitas coisas preciosas, vários procurassem, às escuras, o ouro; cada um pensaria ter encontrado o ouro, mas, contudo, não o saberia com certeza, mesmo que o tivesse realmente encontrado. Da mesma maneira, os filósofos entram neste mundo, como numa grande casa, para procurar a verdade; mesmo que eles a encontrassem, contudo, não poderiam saber se realmente a encontraram”.”
(Georg W. F. Hegel – Crítica moderna – Preleções sobre a História da Filosofia)


Heráclito de Éfeso (cerca de 540-470 A.C.)

     “Heráclito, retirado no templo de Ártemis, divertia-se em jogar com as crianças e, acercando-se dele os efésios, perguntou- lhes: “De que vos admirais, perversos? Que é melhor: fazer isso ou administrar a República convosco?”.”
(Diógenes Laércio – IX)

     “Heráclito diz em alguma passagem que todas as coisas se movem e nada permanece imóvel. E, ao comparar os seres com a corrente de um rio, afirma que não poderia entrar duas vezes num mesmo rio.”
(Platão – Crátilo)

     “Heráclito disse que se felicidade estivesse nos prazeres do corpo, diríamos felizes os bois, quando encontram ervilha para comer.”
(Alberto Magno – De Vegetatione, VI)

     “(Nas libações) Purificam-se manchando-se com outro sangue, como se alguém, entrando na lama, em lama se lavasse.”
(Aristócrito – Teosofia; Orígenes – Contra Celso)

     “Pois é preciso que de muitas coisas sejam inquiridores os homens amantes da sabedoria.”
(Clemente de Alexandria – Exortação)

     “Não conjeturemos à toa sobre as coisas supremas.”
(Diógenes Laércio – IX)

     “Lutar contra o coração é difícil; pois o que ele quer compra-se a preço de alma.”
(Plutarco – Coriolano)

     “Um homem tolo gosta de se empolgar a cada palavra.”
(Plutarco – Coriolano)

     “Heráclito diz ainda: “Tudo fazemos e dizemos segundo a participação do entendimento divino (logos). Por isso devemos seguir apenas a este entendimento universal. Muitos, porém, vivem como se tivessem um entendimento próprio; o entendimento, porém, não é outra coisa que a interpretação (o tomar-consciência, a exposição, a convicção) dos modos de ordenação (organização) do todo. Por isso, na medida em que tomamos parte no saber dele, estamos na verdade; mas, na medida em que temos coisas particulares (próprias), estamos na ilusão”. Palavras muito grandes e importantes! Não é possível expressar-se de modo mais verdadeiro e mais espontâneo sobre a verdade. Somente a consciência como consciência do universal é consciência da verdade; mas consciência da particularidade e ação como individual, uma originalidade, que se torna característica do conteúdo e da forma, é o não-verdadeiro e o mau. O engano, portanto, consiste na particularização do pensamento – o mal e o engano residem no fato da separação do universal. Os homens acham em geral que, quando devem pensar algo, isto teria que ser alguma coisa singular; isto é a ilusão.
     Por mais que Heráclito afirme que no saber sensível não há verdade, porque tudo o que é flui, o ser da certeza sensível não é, enquanto é, com a mesma força afirma ele que, no saber, é necessário o modo objetivo. O racional, o verdadeiro que eu sei é certamente um retroceder e sair do objetivo, enquanto sensível, individual, determinado, existente. Mas o que a razão em si sabe é também a necessidade ou a universalidade do ser; é a essência do pensamento, do mesmo modo como é a essência do mundo. É a mesma consideração da verdade que Espinosa denomina “uma consideração das coisas sob a forma de Eternidade”. O ser para si da razão não é uma consciência sem objeto, um sonhar, mas um saber que é para si – mas de maneira tal que este ser para si seja desperto ou que seja objetivo e universal, sendo para todos o mesmo. O sonhar é um saber de algo de que somente eu sei. O imaginar e coisas semelhantes são também um tal sonhar. Do mesmo modo a sensação é a maneira de algo ser apenas para mim, de eu ter algo em mim, enquanto neste sujeito; por mais sublimes sentimentos que se tenham, é essencial que aquilo que sinto seja para mim, enquanto este sujeito – não como objeto, algo livre de mim. Na verdade, porém, o objeto é para mim, enquanto é livre em si, e eu sou para mim livre da subjetividade de mim; e, do mesmo modo, é este objeto de maneira alguma imaginado, transformado por mim em objeto, mas em si universal.”
(Georg W. F. Hegel – Crítica moderna – Preleções sobre a História da Filosofia)


Parmênides de Eléia (cerca de 530-460 A.C.)

     “Do fato de nada poder provir, quer do igual quer do desigual, Aristóteles conclui que, ou nada existe fora de Deus, ou tudo é eterno.”
(Friedrich Nietzsche – Crítica moderna – A Filosofia na Época Trágica dos Gregos)


Melisso de Samos (floresceu – auge da forma – cerca de 444/1 A.C.)

     “Melisso também demonstra, partindo desses argumentos, que o todo é imóvel; pois – diz ele –, se ele se movesse, forçosamente haveria vazio, e o vazio é um não-ser.”
(Aristóteles – Física, IV)

     “Nada que tem princípio e termo é eterno ou infinito.”
(Simplício – Física)


Empédocles de Agrigento (cerca de 490-435 A.C)

     “... mesmo duas vezes o devido é belo dizer.”
(Escólio aos Górgias de Platão)

      “Os homens estão numa prisão, são guardados pelos deuses e constituem um de seus bens.”
(Platão – Fédon)

      “Anaxágoras afirma que a sensação nasce dos contrários, pois o semelhante não é afetado pelo semelhante.
(Teofrasto – Da Sensação)

      “É preciso ou ser bom ou imitar quem o é.”
(Sentenças de Demócrates – estas e as demais infracitadas)

      “Coisa grande é, mesmo no infortúnio, pensar naquilo que é preciso.”

      “Arrependimento de atos vergonhosos é salvação da vida.”

      “À censura dos maus o homem bom não dá atenção.”

      “É duro ser governado por um inferior.”

      “Quem adverte aquele que pensa ser inteligente, trabalha em vão.”

      “Muitos, sem ter aprendido a razão, vivem segundo a razão.”

      “Muitos, praticando os atos mais vergonhosos, elaboram os mais excelentes discursos.”

      “Os tolos, quando infelizes, são sábios.”

      “É melhor acusar as próprias faltas que as alheias.”

      “Um homem é digno de fé ou não o é, não somente pelo que faz, mas também é pelo que quer.”

      “É próprio da criança, não do homem, desejar desmedidamente.”

      “Desejar algo violentamente cega a alma para o restante.”

      “É agradável recusar algo que não é útil.”

     “Para os tolos é melhor ser governado que governar.”

      “Fama e riqueza sem inteligência não são aquisição segura.”

      “É vergonhoso ocupar-se muito das coisas alheias e ignorar as próprias.”

     “O sempre adiar torna sem fim as ações.”

      “Causa de erro é a ignorância do melhor.”

      “É cupidez falar sobre tudo e não querer ouvir nada.”

      “É preciso guardar-se do mau, para que ele não aproveite uma ocasião propícia.”

      “Inimigo não é quem comete injustiça, mas o que quer cometê-la.”

      “O ódio dos parentes é muito mais penoso que o dos estranhos.”

      “Deve-se receber favores com a intenção de corresponder com outros maiores.”

      “Ao prestar um favor, examina quem o recebe; não venha ele, por ser falso, pagar um bem com o mal.”

      “Não merece viver quem não tem um só amigo.”

      “Parece-me que nem por uma só pessoa é amado quem não ama ninguém.”

      “Não se exercite a mulher na palavra; pois isso é coisa perigosa.”

      “Na realidade nada sabemos, pois a verdade jaz num abismo.”

      “Os homens plasmaram uma imagem da sorte como desculpa para sua falta de julgamento; pois raramente a sorte conflita com a inteligência e, no mais das vezes, na vida o olhar penetrante e inteligente mostra o caminho reto.”

      “Não desejes saber tudo, para que não te tornes desconhecedor de tudo.”

      “Deves, portanto, voltar o pensamento ao que é possível e satisfazer-te com o que esta à mão, lembrando pouco dos que são invejados e admirados e sem ficar pensando neles, continuamente. Deves, porém, olhar para a vida dos que pensam, refletindo sobre o que os faz sofrer muito, para que aquilo que tens à mão e aquilo que possuis te pareçam grandes e invejáveis e não mais sobrevenham, por desejares mais do que tens, sofrimentos para tua alma. (...)
      Tendo isso em mente, viverás com melhor ânimo e afastarás durante a vida não poucas maldições: malevolência, inveja e animosidade.”

      “É mostra de sabedoria guardar-se da injustiça iminente, mas de insensibilidade não vingar-se da sofrida.”

      “O animal, quando precisa de algo, sabe de quanto precisa, mas o homem, quando precisa, não tem consciência disso.”

      “Insensatos, odiando a vida, por temer o Hades querem viver.”

      “Insensatos desejam longevidade sem tirar prazer da longevidade.”

     “Insensatos desejam as coisas ausentes, mas desperdiçam as presentes ainda que mais valiosas que as passadas.”

      “Os homens, ao fugir da morte, perseguem-na.”

      “O desejo de riquezas, que não é delimitado pela saciedade, é muito mais penoso que a miséria extrema, pois os desejos maiores fazem maiores as carências.”

      “É preciso falar a verdade; não, falar muito.”

      “Os avaros têm o destino da abelha: trabalham como se fossem viver sempre.”

      “Nada de vil, mesmo que esteja sozinho, fales ou faças. Aprende a respeitar mais a ti que aos outros.”

      “O temor produz lisonja, mas não obtém benevolência.”

      “Quem teve sorte com o genro, encontrou um filho; quem não a teve, perdeu também uma filha.”

      “A educação dos filhos é coisa escorregadia: o sucesso que tem é cheio de luta e preocupação, e ao insucesso nenhuma outra dor supera.”

      “A falta de recursos da comunidade é mais dura do que a de cada um, pois não lhe resta a esperança de ajuda.”

sábado, 22 de novembro de 2014

A Era dos Impérios (1875 – 1914) – Eric J. Hobsbawm

Editora: Paz & Terra
ISBN: 978-85-775-3101-1
Tradução: Sieni Maria Campos e Yolanda Steidel de Toledo
Opinião: ****
Páginas: 584
     “A invasão do Egito por Napoleão em 1798, opôs os exércitos francês e maiêutico com equipamento comparável. As conquistas coloniais das forças europeias haviam sido realizadas não por causa de armas milagrosas, mas devido a uma maior agressividade, crueldade e, acima de tudo, organização disciplinada.”


     “Os invasores da última leva, que criaram o grande Império Otomano, foram gradualmente expulsos das enormes áreas da Europa por eles controladas entre os séculos XVI e XVIII; era óbvio que seus dias na Europa estavam contados, embora em 1880 ainda controlassem uma faixa considerável, que atravessava a península balcânica (partes das atuais Grécia, Iugoslávia e Bulgária, além de toda a Albânia), bem como algumas ilhas. Grande parte dos territórios reconquistados ou liberados só podiam ser considerados como “europeus” por cortesia: na verdade, a península balcânica ainda era comumente chamada de “Oriente Próximo”: por isso, o sudoeste da Ásia veio a ser conhecido como “Oriente Médio”.


     “Entretanto, apesar do título programático do grande trabalho de Adam Smith, A Riqueza das Nações (1776), o lugar da “nação” como unidade não era claro na teoria pura do capitalismo liberal, cujas peças básicas eram os átomos irredutíveis da empresa, do indivíduo e da “firma” (sobre a qual não se dizia muito), movidos pelo imperativo de maximizar os ganhos ou minimizar as perdas. Eles operavam “no mercado”, que tinha a escala mundial por limite. O liberalismo foi a anarquia da burguesia e, como o anarquismo revolucionário, não deixava espaço para o Estado. Ou antes, o Estado como fator econômico só existia como algo que interferia nas operações autônomas e automáticas do mercado.
     De certa maneira, essa ótica tinha algum sentido. Por um lado, parecia razoável supor – sobretudo após a liberalização das economias em meados do século – que o que fazia essa economia funcionar e crescer eram as decisões econômicas de suas partículas básicas. Por outro lado, a economia capitalista era, e só podia ser mundial. Esta feição global acentuou-se continuamente no decorrer do século XIX, à medida que estendia suas operações a partes cada vez mais remotas do planeta e transformava todas as regiões cada vez mais profundamente. Ademais, essa economia não reconhecia fronteiras, pois funcionava melhor quando nada interferia no livre movimento dos fatores de produção. Assim, o capitalismo, além de internacional na prática, era internacionalista na teoria. O ideal de seus teóricos era uma divisão internacional do trabalho que garantisse o crescimento máximo da economia, seus critérios eram globais: não tinha sentido tentar produzir bananas na Noruega, pois elas podiam ser produzidas muito mais barato em Honduras. Eles desdenhavam os argumentos locais ou regionais em contrário. A teoria pura do liberalismo econômico era obrigada a aceitar as consequências mais extremas, ou mesmo absurdas, de seus pressupostos, desde que se pudesse demonstrar que destes decorria a otimização dos resultados globais. Se fosse possível demonstrar que toda a produção industrial do mundo devia ser concentrada em Madagascar (como 80% de sua produção de relógios estava concentrada numa pequena região da Suíça), ou que toda a população da França devia se mudar para a Sibéria (como uma grande proporção de noruegueses foi, de fato, trasladada pela migração para os EUA), não havia argumentos econômicos contra tais procedimentos.
     Que erro econômico podia ser demonstrado no quase monopólio britânico da indústria mundial de meados do século, ou o desenvolvimento demográfico da Irlanda, que perdeu quase a metade de sua população entre 1841 e 1911? O único equilíbrio que a teoria econômica liberal admitia era o mundial. Mas, na prática, esse modelo era inadequado. A economia capitalista mundial em expansão era formada por um conjunto de blocos sólidos, mas também fluidos. Independente das origens das “economias nacionais” que constituíam esses blocos – isto é, de economias definidas por fronteiras de Estados – e das limitações teóricas de uma teoria econômica baseada nelas – elaborada principalmente por teóricos alemães – as economias nacionais existiam porque as nações-Estado existiam. Pode ser verdade que ninguém pensaria na Bélgica como primeira economia industrializada do continente europeu se seu território tivesse continuado a fazer parte da França (como antes de 1815) ou a ser uma região dos Países Baixos Unidos (como entre 1815 e 1830). Entretanto, já que a Bélgica era um Estado, tanto sua política econômica como a dimensão política das atividades econômicas de seus habitantes eram plasmadas por esse fato. Sem dúvida, é verdade que havia e há atividades econômicas, como as finanças internacionais, que são essencialmente cosmopolitas, escapando assim às restrições nacionais, na medida em que estas eram eficazes. Mesmo assim, essas empresas transnacionais tiveram o cuidado de se vincular a uma economia nacional convenientemente importante.”


     “A questão importante não é quem, no contexto da economia mundial em expansão, cresceu mais e mais rápido, mas o conjunto do crescimento desta.
     Quanto ao ritmo de Kondratiev (o contraste entre a Grande Depressão e o boom secular posterior motivou as primeiras especulações sobre aquelas “ondas longas” no desenvolvimento do capitalismo mundial, mais tarde associadas ao nome do economista russo Nikolai Kondratiev) – chamá-lo de “ciclo”, no sentido estrito da palavra, seria uma petição de princípio – ele certamente coloca questões analíticas fundamentais acerca da natureza do crescimento econômico no período capitalista ou, como podem argumentar alguns estudantes, acerca do crescimento de qualquer economia mundial. Lamentavelmente, não há nenhuma teoria que mereça aceitação ampla sobre essa curiosa alternância de fases de confiança e apreensão, que juntas formam uma “onda” de cerca de meio século. A teoria mais conhecida e elegante a esse respeito, a de Josef Alois Schumpeter (1883-1950), associa cada etapa “descendente” ao esgotamento do lucro potencial de uma série de “inovações” econômicas e o novo movimento ascendente a um novo conjunto de inovações, percebidas basicamente – mas não só – como tecnológicas, cujo potencial será, por sua vez, exaurido. Assim, as novas indústrias, agindo como “setores líderes” do crescimento econômico – por exemplo, o algodão na primeira revolução industrial, as ferrovias durante e após os anos 1840 –, se tornam, por assim dizer, os motores que arrancam a economia mundial do marasmo em que estava temporariamente imersa. Essa teoria é bastante plausível, pois cada um dos períodos seculares de movimento ascendente desde os anos 1780 esteve, de fato, associado ao surgimento de setores tecnologicamente revolucionários: sem esquecer o mais excepcional de todos esses booms econômicos, o das duas décadas e meia anteriores aos anos 1970.”


     “De uma forma ou de outra, após 1875, houve um ceticismo crescente quanto à eficácia da economia de mercado autônoma e autorregulada, a famosa “mão oculta” de Adam Smith, sem alguma ajuda do Estado e da autoridade pública, A mão estava se tornando visível das mais variadas maneiras. Por um lado, a democratização da política forçou governos muitas vezes relutantes e inquietos a enveredarem pelo caminho de políticas de reforma e bem-estar sociais, bem como de ação política na defesa dos interesses econômicos de certos grupos de eleitores, como o protecionismo e – de certa forma com menos eficácia – medidas contra a concentração econômica, como nos EUA e na Alemanha. Por outro lado, ocorreu a fusão da rivalidade política entre os Estados com a concorrência econômica entre grupos nacionais de empresários, o que contribuiu – como veremos – tanto para o fenômeno do imperialismo como para a gênese da Primeira Guerra Mundial.”


     “O protecionismo de qualquer tipo é a economia operando com a ajuda da política.”


     “A democracia, no entanto, seria tanto mais fácil de domar quanto menos agudos fossem seus descontentamentos. A nova estratégia dos governantes envolvia, portanto, uma disposição no sentido de empreender programas de reforma e bem-estar social, que minaram os clássicos acordos liberais de meados do século, com governos que eram mantidos à distância do campo reservado à iniciativa e à empresa privada. O jurista inglês A. V. Dicey (1835-1922) viu o rolo compressor do coletivismo, em marcha desde 1870, achatando a paisagem da liberdade individual na tirania centralizada e niveladora das refeições escolares, seguros de saúde e aposentadorias. Em certo sentido, ele tinha razão. Bismarck, lógico como sempre, já na década de 1880 decidira cortar as raízes da agitação socialista por meio de um ambicioso esquema de previdência social; foi seguido, nesta orientação, pela Áustria e pelos governos liberais ingleses de 1906-1914 (aposentadorias, bolsas de trabalho, seguros de saúde e desemprego) e mesmo pela França, após algumas hesitações (aposentadorias em 1911). É interessante que os países escandinavos, hoje “Estados do bem-estar social” par excelençe, fossem então alheios ao assunto; e diversos países fizeram apenas gestos simbólicos nessa direção, e os EUA do tempo de Carnegie, Rockefeller e Morgan, nem isso. Nesse paraíso da iniciativa privada, mesmo o trabalho de menores permanecia fora da alçada da lei federal, embora por volta de 1914 existissem leis que o proibiam, teoricamente, até na Itália, na Grécia e na Bulgária. Por volta de 1905, leis geralmente disponíveis estipulavam indenizações a operários em caso de acidente, mas não interessaram o Congresso e foram condenadas pelos tribunais como inconstitucionais. Exceto na Alemanha, tais esquemas de bem-estar social eram modestos até os últimos anos que precederam 1914, e mesmo na Alemanha malograram visivelmente na tentativa de sustar o crescimento do partido socialista. Não obstante, ficou estabelecida uma tendência nesse sentido, notavelmente mais acelerada nos países protestantes da Europa e da Australásia.
     Dicey também tinha razão ao sublinhar o inevitável crescimento no peso e no papel desempenhado pelo aparato estatal, uma vez abandonado o ideal da não intervenção. Pelos padrões modernos, a burocracia continuava modesta, embora aumentasse em ritmo acelerado – e em nenhuma parte mais que na Inglaterra, onde os empregos governamentais triplicaram entre 1891 e 1911. Na Europa, por volta de 1914, esses empregos iam de 3% da força de trabalho na França – seu ponto mais baixo, fato, aliás, surpreendente – e, em seu ponto mais alto, a 5,5-6% na Alemanha e – fato igualmente surpreendente – na Suíça. A título de comparação, nos países da Comunidade Econômica Europeia, na década de 1970, os empregos governamentais formavam entre 10 e 13% da população ativa. Não seria possível, no entanto, conquistar a lealdade das massas sem políticas sociais dispendiosas, que talvez onerassem o lucro dos empresários, de quem dependia a economia? Como vimos, acreditava-se que o imperialismo não só teria condições de pagar reformas sociais como era também popular.”


     “‘Aquele que se decidir a basear seu pensamento político num reexame de como opera a natureza humana, deve começar por uma tentativa de vencer a própria tendência para exagerar a intelectualidade da humanidade’, assim escrevia um cientista político inglês, Graham Wallas, em 1908, consciente de que escrevia também o epitáfio do liberalismo do século XIX.”


     “A democracia burguesa renasceu das próprias cinzas em 1945, permanecendo, desde então, o sistema favorito das sociedades capitalistas, quando suficientemente fortes, economicamente prósperas e socialmente não polarizadas ou divididas para permitir-se a adoção de um sistema tão vantajoso. Esse sistema, porém, opera com eficácia apenas em muito poucos dos 150 Estados que formam as Nações Unidas no final do século XX. O progresso da política democrática, entre 1880 e 1914, não prefigurava sua permanência nem seu triunfo universal.”


     “Devem ser mencionados quatro aspectos dessas mutações que compunham uma identificação nacional que tornava-se força política, formando uma espécie de substrato geral da política.
     O primeiro, conforme já vimos, é o surgimento do nacionalismo e do patriotismo, como ideologia encampada pela direita política, isto encontraria sua expressão extrema entre as duas guerras, no fascismo, cujos ancestrais ideológicos aí são encontrados. O segundo é a pressuposição, absolutamente alheia à fase liberal dos movimentos nacionais, de que a autodeterminação nacional, até inclusive a formação de Estados soberanos independentes, aplicava-se não apenas a algumas nações que pudessem demonstrar sua viabilidade econômica, política e cultural, mas a todo e qualquer grupo que reivindicasse o título de “nação”. A diferença entre a antiga pressuposição e a nova é ilustrada pela diferença entre as doze entidades bastante grandes consideradas como as que constituíam a “Europa das nações” por Giuseppe Mazzini, o grande profeta do nacionalismo do século XIX, em 1857, e os 26 Estados – 27 se incluirmos a Irlanda – que emergiram do princípio da autodeterminação nacional, do presidente Wilson, no fim da Primeira Guerra Mundial. O terceiro era a tendência progressiva para admitir que a “autodeterminação nacional” não podia ser satisfeita por qualquer forma de autonomia inferior à plena independência do Estado. Durante a maior parte do século XIX a maioria das reivindicações de autonomia não havia previsto isso. Finalmente, havia a nova tendência para definir uma nação em termos étnicos e especialmente em termos de linguagem.”


     “O extraordinário impacto internacional das revoluções russas de 1917 só é compreensível se tivermos em mente que aqueles que foram para a guerra de boa vontade, e mesmo com entusiasmo, em 1914, eram movidos pela ideia do patriotismo, que não podia ser confinada a slogans nacionalistas: incluía o senso do que era devido ao cidadão. Esses exércitos não iam para a guerra por gostarem da luta, da violência ou do heroísmo, ou para implementar o incondicional egoísmo e expansionismo do nacionalismo de direita. E menos ainda por hostilidade ao liberalismo e à democracia. Ao contrário. A propaganda doméstica de todos os beligerantes, com respeito à política de massas, demonstra em 1914 que o assunto a ser sublinhado não era a glória nem a conquista, mas o de “nós” sermos vítimas de agressão, ou de política agressiva, o de “eles” representarem uma ameaça mortal aos valores da liberdade e da civilização que “nós” representamos. Mais importante: homens e mulheres não seriam mobilizados com êxito para a guerra, a não ser que sentissem sua luta como algo mais que um simples combate armado: que, em algum sentido, o mundo melhoraria com a “nossa vitória”, e que “nosso” país seria – para repetir uma frase de Lloyd George – “terra digna de heróis”. Os governos inglês e francês, portanto, reivindicavam a defesa da democracia e da liberdade, contra o poder monárquico, o militarismo e o barbarismo (“os hunos”), enquanto o governo alemão reivindicava a defesa dos valores da ordem, da lei e da cultura, contra a autocracia e o barbarismo russos. As perspectivas de conquista e engrandecimento imperial poderiam ser anunciadas nas guerras coloniais; não, porém, nos conflitos mais importantes – mesmo que delas se ocupassem os ministros do Exterior, nos bastidores.
     As massas alemãs, francesas e inglesas, ao marcharem para a guerra em 1914, o fizeram não como guerreiros e aventureiros, mas como cidadãos e civis. É este mesmo fato que, para governos que operam em sociedades democráticas, demonstra a necessidade do patriotismo e igualmente a sua força. Apenas o sentimento de que a causa do Estado era genuinamente a sua, poderia mobilizar com eficácia as massas; e em 1914 os ingleses, franceses e alemães sentiam isso. As massas permaneceram mobilizadas até que três anos de massacres sem paralelos e o exemplo da revolução na Rússia lhes ensinaram que haviam estado enganadas.”


     “E a indústria cinematográfica começara a se instalar no que já estava se tornando sua capital mundial: uma colina de Los Angeles. Essa realização extraordinária se devia, em primeiro lugar, à total falta de interesse dos pioneiros do cinema por qualquer outra coisa além de produzir diversão lucrativa para um público de massa. Eles entraram para o ramo como artistas, às vezes obscuros artistas de circo, como o primeiro magnata do cinema, Charles Pathé (1863-1957) da França – embora ele não fosse um empresário europeu típico. Eles eram, com mais frequência, como nos EUA, pobres mas dinâmicos mascates judeus imigrantes, que teriam vendido com o mesmo entusiasmo roupas, luvas, peles, ferramentas ou carne se estes artigos tivessem parecido igualmente lucrativos. Passaram à produção para ter o que exibir. Seu público alvo era, sem a menor hesitação, os menos instruídos, os menos reflexivos, os menos sofisticados, os menos ambiciosos intelectualmente, que lotavam os cinematógrafos onde Carl Laemmle (Universal Films), Louis B. Mayer (Metro-Goldwyn-Mayer), os irmãos Warner (Warner Brothers) e William Fox (Fox Films) começaram em torno de 1905. Em The Nation (1913), a democracia populista norte-americana recebeu de braços abertos esse triunfo dos estratos mais baixos, obtido por meio de entradas a cinco centavos, enquanto a democracia social europeia, preocupada em levar aos trabalhadores as coisas mais elevadas da vida, desqualificou os filmes como diversão do homem proletariado escapista. O cinema desenvolveu-se, portanto, segundo as fórmulas que conseguiam aplausos garantidos, tentadas e testadas desde a Roma antiga.
     Ainda mais, o cinema desfrutou de uma vantagem não prevista, mas absolutamente crucial. Dado que até a década de 20 ele era apenas capaz de reproduzir imagens, mas não palavras, era forçado ao silêncio interrompido apenas pelos sons do acompanhamento musical; isto multiplicou as oportunidades de emprego para músicos de segunda categoria. Livre das restrições da Torre de Babel, o cinema desenvolveu, portanto, uma linguagem universal que, de fato, lhe permitiu explorar o mercado mundial, independente do idioma.
     Não há dúvida de que as inovações revolucionárias do cinema como arte, todas elas já praticamente desenvolvidas nos EUA em 1914, se deveram à necessidade de se dirigir a um público potencialmente universal exclusivamente através da visão – tecnicamente manipulável –, mas também não há dúvida de que essas inovações, que deixaram a avant-garde da cultura erudita muito atrás em termos de ousadia, foram prontamente aceitas pelas massas porque essa era uma arte que tudo transformava, salvo o conteúdo. O que o público viu e adorou no cinema foi precisamente o que surpreendeu, animou, divertiu e movimentou todas as plateias desde que existe entretenimento profissional. (...)
     Hollywood se baseava na articulação do populismo do cinematógrafo com a mentalidade e o drama cultural e moralmente gratificantes, esperados pela massa igualmente grande de americanos médios. Sua força e sua fraqueza residiam precisamente no seu interesse único pela bilheteria de um mercado de massas. A força era, em primeira instância, econômica. O cinema europeu optou, não sem alguma resistência da parte de artistas populistas, pelo público culto, às custas do popular. (...)
     Enquanto isso, a indústria americana podia explorar ao máximo o mercado de massas de uma população que teoricamente era apenas um terço maior que o proporcionado pela população da Alemanha. Isto lhe permitiu cobrir os custos e obter altos lucros dentro do país e, assim, conquistar o resto do mundo, reduzindo os preços. A Primeira Guerra Mundial acentuaria essa nítida vantagem e tornaria a posição americana inabalável.”


     “Assim, a arte “moderna”, a verdadeira arte “contemporânea” deste século se desenvolveu de modo imprevisto, não notada pelos defensores dos valores culturais, e com a velocidade que se pode esperar de uma genuína revolução cultural. Mas já não era e já não podia ser a arte do mundo burguês e do século burguês, salvo num aspecto crucial: era profundamente capitalista. Seria o cinema “cultura”, no sentido burguês? Em 1914, a maioria das pessoas instruídas teria, quase com certeza, pensado que não. E, no entanto, esse veículo novo e revolucionário era muitíssimo mais forte que a cultura da elite, cuja procura de uma nova maneira de exprimir o mundo preenche a maioria das histórias das artes do século XX. Poucos vultos representam de maneira mais óbvia a antiga tradição, em suas versões convencional e revolucionária, que dois compositores da Viena de pré-1914: Erich Wolfgang Konvoid, uma criança prodígio do meio musical médio, já se lançando às sinfonias, óperas e tudo mais; e Arnold Schoenberg. O primeiro chegou ao fim da vida como compositor de muito sucesso de trilhas musicais para os filmes hollywoodianos e diretor musical da Warner Brothers. O segundo, depois de revolucionar a música clássica do século XIX, passou seus últimos dias na mesma cidade, sempre sem público, mas admirado e subsidiado por músicos mais adaptáveis e muito mais prósperos, que ganhavam dinheiro na indústria cinematográfica não aplicando as lições aprendidas com ele.
     As artes do século XX foram portanto revolucionadas, mas não por aqueles que assumiram o encargo de fazê-lo.”


     “Para os recrutas comuns, mais familiarizados com a servidão do que com as glórias da vida militar, entrar para o exército se tornou um rito de passagem que marcava a chegada de um garoto à idade adulta, seguido por dois ou três anos de treinamento e trabalho duro, que se tornavam mais toleráveis devido à notória atração que a farda exercia sobre as moças. Para os suboficiais profissionais o exército era um emprego. Para os oficiais, um jogo infantil onde quem brincava eram os adultos, símbolo de sua superioridade em relação aos civis, de esplendor viril e de status social. Para os generais era como sempre, o terreno propício às intrigas políticas e ciúmes relativos à carreira, tão amplamente documentada nas memórias dos chefes militares.
     Para os governos e as classes dirigentes, os exércitos eram não só forças para enfrentar inimigos internos e externos, mas também um modo de garantir a lealdade, ou mesmo o entusiasmo ativo, de cidadãos com simpatias inquietantes por movimentos de massas que solapavam a ordem política e social. Junto com a escola primária, o serviço militar era talvez o mecanismo mais poderoso à disposição do Estado com vistas à inculcação do comportamento cívico apropriado e, não menos importante, à transformação do habitante de um povoado no cidadão (patriota) de uma nação. A escola e o serviço militar ensinaram os italianos a compreender, se não a falar, a língua “nacional” oficial.”


     “O desenvolvimento do capitalismo empurrou o mundo inevitavelmente em direção a uma rivalidade entre os Estados, a expansão imperialista, ao conflito e a guerra. Após 1870, como os historiadores mostraram, a passagem do monopólio à concorrência talvez tenha sido o fator isolado mais importante na preparação da mentalidade propícia ao empreendimento industrial e comercial europeu. Crescimento econômico também era luta econômica – luta que servia para separar os fortes dos fracos, para desencorajar alguns e endurecer outros, para favorecer as nações novas e famintas às custas das antigas. O otimismo em relação a um futuro de progresso indefinido cedeu o lugar à incerteza e a um sentimento de agonia, no sentido clássico do termo. Tudo isso, por sua vez, reforçando e sendo reforçado pelo acirramento das rivalidades políticas, as duas formas de concorrência que surgiam.”


     “Mas a novidade da situação residia em que, dada a fusão entre economia e política, nem a divisão pacífica das áreas disputadas em “zonas de influência” podia manter a rivalidade internacional sob controle. A única coisa que poderia controlá-la – como sabia Bismarck, que a administrou com incomparável habilidade entre 1871 e 1889 –, era a limitação deliberada de objetivos. Se os Estados pudessem definir seus objetivos diplomáticos com precisão – uma determinada mudança nas fronteiras, um casamento dinástico, uma “compensação” definível pelos avanços de outros Estados – tanto o cálculo como o acordo seriam possíveis. Mas nenhuma das duas excluía – como o próprio Bismarck comprovara entre 1862 e 1871 – o conflito militar controlado. Mas o traço característico da acumulação capitalista era justamente não ter limite.
     As “fronteiras naturais” da Standard Oil, do Deutsche Bank, da De Beers Diamond Corporation estavam situadas nos confins do universo, ou antes, nos limites de sua capacidade de expansão. Foi este aspecto dos novos padrões da política mundial que desestabilizou as estruturas da política mundial tradicional. Enquanto o equilíbrio e a estabilidade permaneciam a condição fundamental das nações europeias em suas relações recíprocas, em outros lugares nem as mais pacíficas hesitavam em recorrer à guerra contra os fracos. Tinham sem dúvida o cuidado de manter seus conflitos coloniais sob controle. Estes nunca pareceram constituir causas bélicas para uma guerra de grandes proporções, mas com certeza precipitaram a formação de blocos internacionais e finalmente beligerantes: o que se tornou o bloco anglo-franco-russo começou com o “entendimento cordial” anglo-francês de 1904, essencialmente uma negociação imperialista através da qual os franceses desistiram de reivindicar o Egito, e, em troca, a Grã-Bretanha apoiaria suas reivindicações relativas ao Marrocos – uma vítima na qual a Alemanha também estava de olho. Entretanto, todas as nações, sem exceção, estavam com ânimo expansionista e conquistador. Até a Grã-Bretanha – cuja postura era fundamentalmente defensiva, dado que seu problema era como proteger seu domínio global, até então incontestado, contra os novos intrusos – atacou as repúblicas sul-africanas; ela também não hesitou em pensar em dividir as colônias de outro Estado europeu, Portugal, com a Alemanha. No oceano do planeta, todos os Estados eram tubarões e todos os estadistas sabiam disso.
     Mas o que tornou o mundo um lugar ainda mais perigoso foi a equação tácita de crescimento econômico ilimitado e poder político, que veio a ser aceita inconscientemente. Assim, o imperador alemão pediu, nos anos 1890, “um lugar ao sol” para seu Estado. Bismarck poderia ter reivindicado o mesmo – e, de fato, conquistara um lugar muitíssimo mais poderoso no mundo para a nova Alemanha do que a Prússia jamais desfrutara. Contudo, Bismarck podia definir as dimensões de suas ambições, evitando cuidadosamente entrar no terreno das zonas sem controle, ao passo que para Guilherme II a frase se tornou um mero slogan sem conteúdo concreto. Formulava simplesmente um princípio de proporcionalidade: quanto mais poderosa for a economia de um país, maior será sua população, maior o lugar internacional de sua nação-Estado. Assim, não havia limites teóricos ao lugar que ele podia sentir que lhe cabia. Como dizia a frase nacionalista: “Heute Deutschland, margen die ganze Welt” (Hoje a Alemanha, amanhã o mundo inteiro). Tal dinamismo ilimitado pode ser expresso na retórica política, cultural ou nacionalista-racista: mas o real denominador comum dos três níveis era a necessidade imperiosa de expandir uma economia capitalista maciça, observando suas curvas estatísticas dispararem para cima.”

(Por questões de espaço não convém inseri-lo, mas o capítulo 13, “Da paz à guerra” – da qual este último trecho supracitado é um pequeno excerto –, no qual o autor formula sobre as causas da primeira guerra mundial, é imprescindível.)


     “Após a catástrofe maciça de 1914 e cada vez mais, os métodos da barbárie se tornaram parte integrante e esperada do mundo civilizado, tanto que encobriram os avanços contínuos e notáveis da tecnologia e da capacidade humana de produzir, e inclusive as inegáveis melhorias na organização social humana em muitos lugares do mundo, até que se tornasse impossível ignorá-los, no decorrer do grande salto para a frente da economia mundial, no terceiro quartel do século XX. Em termos de melhoria material da humanidade como um todo, para não mencionar sua compreensão e seu controle da natureza, os argumentos a favor de uma visão da história do século XX como progresso são, na verdade, mais convincentes do que no caso do século XIX. Pois mesmo se europeus morreram e fugiram aos milhões, os sobreviventes estavam se tornando mais numerosos, mais altos, mais sadios e viviam mais tempo. A maioria vivia melhor. Mas os motivos por que perdemos o hábito de pensar em nossa história como progresso são óbvios. Embora o progresso do século XX seja inegável, as previsões não sugerem um ascenso contínuo, mas a possibilidade, talvez até a iminência, de alguma catástrofe; outra e mais letal guerra mundial, um desastre ecológico, uma tecnologia cujo triunfo torne o mundo inabitável para a espécie humana, ou qualquer outra forma atual que o pesadelo possa revestir. A experiência nos ensinou, em nosso século, a viver na expectativa do apocalipse.”


     “Há lugar para a esperança, pois os seres humanos são animais que esperam.”