domingo, 30 de junho de 2013

1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil – Laurentino Gomes

Editora: Planeta
ISBN: 978-85-7665-320-2
Opinião: ★★☆☆☆
Páginas: 368

“Em 1807, o imperador francês era o senhor absoluto da Europa. Seus exércitos haviam colocado de joelhos todos os reis e rainhas do continente, numa sucessão de vitórias surpreendentes e brilhantes. Só não haviam conseguido subjugar a Inglaterra. Protegidos pelo Canal da Mancha, os ingleses tinham evitado o confronto direto em terra com as forças de Napoleão. (...) Fazia três anos que tinha se autodeclarado imperador dos franceses. “Eu não sou herdeiro de Luís XIV”, escreveu ao seu ministro das Relações Exteriores, Charles Maurice de Talleyrand, em maio de 1806. “Sou herdeiro de Carlos Magno.” A comparação é reveladora de suas pretensões. Luís XIV foi um dos mais poderosos reis da França. Carlos Magno, o fundador do Sacro Império Romano, cujos domínios abrangiam a maior parte do continente europeu. Ou seja, para Napoleão não bastava governar a França. Seu plano era ser o imperador de toda a Europa. Na prática, esse título já lhe pertencia. Um ano mais tarde, em 1808, com a virtual anexação da Espanha e de Portugal, ele praticamente dobrou o tamanho do território original da França. Seus domínios agora incluíam a Bélgica, a Holanda, a Alemanha e a Itália.
Ao longo de uma década, Napoleão travou inúmeras batalhas contra os mais poderosos exércitos da Europa sem conhecer nenhuma derrota. Uma dinastia de reis até então considerada imbatível, a dos Habsburgos do Império Austro-Húngaro, fora batida repetidas vezes nos campos de batalha. Russos e alemães tinham sido subjugados em Austerlitz e Jena, duas das mais memoráveis batalhas das chamadas guerras napoleônicas. Reis, rainhas, príncipes, duques e nobres foram expulsos de seus tronos e substituídos por membros da própria família Bonaparte.
“Se lançarmos os olhos para a Europa de 1807, veremos um extraordinário espetáculo”, escreveu o historiador pernambucano Manoel de Oliveira Lima. “O rei da Espanha mendigando em solo francês a proteção de Napoleão; o rei da Prússia foragido de sua capital ocupada pelos soldados franceses; o [...] quase rei da Holanda, refugiado em Londres; o rei das Duas Sicílias exilado de sua linda Nápoles; as dinastias da Toscana e Parma, errantes; [...] o czar em Petersburgo; a Escandinávia prestes a implorar um herdeiro dentro dos marechais de Bonaparte; o imperador do Sacro Império e o próprio Pontífice Romano obrigados de quando em vez a desamparar seus tronos que se diziam eternos e intangíveis”.
Nos últimos duzentos anos, mais livros foram escritos sobre Napoleão do que sobre qualquer outra pessoa na História, com exceção apenas de Jesus Cristo. Mais de 600 obras fazem referência direta ou indireta a ele. Homem de ambição e vaidade desmedidas, inversamente proporcionais a sua baixa estatura, de 1,67 metro, Napoleão gostava de chamar a si mesmo de “Filho da Revolução”. Era um gênio militar por natureza, mas foi a Revolução que lhe deu a oportunidade de demonstrar seus talentos nos campos de batalha. Era, portanto, o homem certo, no lugar certo e na hora certa. Nascera em 1769, filho de uma família da pequena nobreza da Córsega. Aos dezesseis anos, ainda na adolescência, já era tenente do exército francês. Na escola militar ganhou reputação como republicano e estabeleceu ligações com as futuras lideranças revolucionárias.
Foram essas conexões que o puseram à frente da artilharia na Batalha de Toulon, cidade rebelde defendida pelos ingleses, em 1793. Sua participação foi tão decisiva que nas oito semanas seguintes seria promovido de capitão a general. Tinha só 24 anos. Três anos mais tarde, era comandante do exército na Itália, onde se destacou pela bravura e pela ousadia das manobras militares. Mais três anos, era o primeiro cônsul da França, cargo que lhe dava poderes irrestritos. Em 1804, se autoproclamou imperador, aos 35 anos de idade.
Napoleão promoveu uma transformação na arte da guerra. Seus exércitos se moviam com mais rapidez e agilidade do que qualquer outro. Sempre tomavam a ofensiva e assumiam as posições mais vantajosas no campo de batalha, surpreendendo o inimigo que, muitas vezes, se retirava ou se rendia sem trocar um só tiro. Em dezembro de 1805, na véspera da Batalha de Austerlitz, a mais memorável de suas vitórias, parte das tropas que comandou percorreu mais de cem quilômetros em apenas dois dias – isso numa época em que não havia caminhões, tanques motorizados, aviões ou helicópteros para transportar homens e equipamentos. A grande mobilidade de homens, cavalos e canhões permitia que seus exércitos surpreendessem o inimigo com manobras inesperadas em batalhas que, às vezes, já pareciam perdidas. Essas táticas inesperadas foram devastadoras para os inimigos, habituados a manobras lentas e convencionais.” (...)
Napoleão gabava-se de conseguir repor as perdas nos campos de batalha ao ritmo de 30.000 soldados por mês. Em 1794, a França contava com 750.000 homens treinados, equipados e altamente motivados para a defesa das ideias difundidas pela Revolução. Isso lhe deu um exército em escala nunca vista desde o Império Romano. O imperador era um general prático, frio e metódico. O que importava para ele era o resultado do conjunto de suas forças e não o destino individual do soldados que tombavam pelo caminho. Suas batalhas eram planejadas de forma meticulosa. Não dividia o comando com ninguém. “Na guerra, um general ruim é melhor do que dois bons”, dizia. Era carismático e capaz de inflar rapidamente o ânimo de seus oficiais e soldados. “O moral e a opinião do exército são meia batalha ganha”, afirmava. (...)
No auge do seu poder, Napoleão despertava medo e admiração tanto nos seus inimigos quanto nos seus admiradores. Lord Wellington, que em 1815 o derrotou definitivamente em Waterloo, dizia que, no campo de batalha, Napoleão sozinho valia por 50.000 soldados. O escritor François René de Chateaubriand, que era seu adversário, o definiu como “o mais poderoso sopro de vida humana que já tinha passado pela face da Terra”.
Foi esse homem que o indeciso e medroso D. João, príncipe regente de Portugal, teve de enfrentar em 1807.”


“‘Na guerra entre a França e a Inglaterra, Portugal fazia o papel do marisco na luta entre o rochedo e o mar’ assinalou o historiador brasileiro Tobias Monteiro.”


“No dia 6 de novembro, a esquadra inglesa apareceu na foz do Rio Tejo, em território português, com uma força de 7000 homens. Seu comandante, o almirante Sir Sidney Smith (o mesmo oficial que havia bombardeado Copenhague dois meses antes), tinha duas ordens, aparentemente contraditórias. A primeira, e prioritária, era proteger o embarque da família real portuguesa e escoltá-la até o Brasil. A segunda, caso a primeira não acontecesse, era bombardear Lisboa.”


“A riqueza de Portugal era resultado do dinheiro fácil, como os ganhos de herança, cassinos e loterias, que não exigem sacrifício, esforço de criatividade e inovação, nem investimento de longo prazo em educação e criação de leis e instituições duradouras. Numa época em que a Revolução Industrial britânica começava a redefinir as relações econômicas e o futuro das nações, os portugueses ainda estavam presos ao sistema extrativista e mercantilista, sobre o qual tinham construído sua efêmera prosperidade três séculos antes. Baseava-se na exploração pura e simples das colônias, sem que nelas fosse necessário investir em infraestrutura, educação ou melhoria de qualquer espécie. “Era uma riqueza que não gerava riqueza”, escreveu a historiadora Lilia Schwarcz. “Portugal se contentava em sugar suas colônias de maneira bastante parasitária.” Sérgio Buarque de Holanda, autor do clássico Raízes do Brasil, mostrou que no Brasil colônia se tinha aversão ao trabalho. Segundo ele, o objetivo da aventura extrativista era explorar rapidamente toda a riqueza disponível com o menor esforço e sem nenhum compromisso com o futuro: “O que o português vinha buscar era, sem dúvida, a riqueza, mas riqueza que custa ousadia, não riqueza que custa trabalho”.
A dependência da economia extrativista fez com que a manufatura nunca se desenvolvesse em Portugal. Tudo era comprado de fora. “A tendência de a abundância de riquezas naturais enfraquecer as instituições e solapar o desenvolvimento sustentado das nações é quase uma maldição”, apontou a economista Eliana Cardoso, Ph.D. pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e professora visitante da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo. “Os países cuja economia se assenta principalmente sobre o comércio de produtos naturais são levados [...] a cometer uma série de erros e desmazelos que impedem a modernização da sociedade.”


“(No meio da fuga desesperada da corte de Portugal), apareceu a rainha Maria I, de 73 anos. Para o povo português aglomerado no cais para assistir à partida, a presença da rainha era uma grande novidade. Devido aos seus acessos de loucura, fazia dezesseis anos que D. Maria I vivia reclusa no Palácio de Queluz e não era vista nas ruas de Lisboa. Enquanto seu coche se aproximava do porto em disparada, ela teria gritado ao cocheiro: “Mais devagar. Vão pensar que estamos fugindo!”.”


“A população da colônia era analfabeta, pobre e carente de tudo. Na cidade de São Paulo de 1818, já no governo de D. João VI, apenas 2,5% dos homens livres em idade escolar eram alfabetizados. A saúde era absurdamente precária. “Mesmo nos centros mais importantes da costa era impossível encontrar um médico que tivesse feito um curso regular”, conta Oliveira Lima, baseando-se nos relatos do comerciante inglês John Luccock, que a partir de 1808 viveu dez anos no Rio de Janeiro. “As operações mais fáceis costumavam ser praticadas pelos barbeiros sangradores e para as mais difíceis recorria-se a indivíduos mais presunçosos, porém no geral igualmente ignorantes de anatomia e patologia.” A autorização para fazer cirurgia e clinicar era dada mediante um exame perante o juiz comissário, ele próprio um ignorante da ciência da Medicina. Os candidatos eram admitidos nessa prova se comprovassem um mínimo de quatro anos de prática numa farmácia ou hospital. Ou seja, primeiro se praticava a Medicina e depois se obtinha a autorização para exercê-la.(...)
O pesquisador carioca Nireu Cavalcanti encontrou no Arquivo Nacional documentos que ajudam a dar uma noção do que era a saúde e a medicina no Rio de Janeiro na época de D. João VI. São inventários post-mortem de dois médicos, que relacionam os bens deixados pelos falecidos. Um deles, do cirurgião-mor Antônio José Pinto, falecido em 1798, inclui esta assustadora relação de “instrumentos cirúrgicos”: um serrote grande, um serrote pequeno, uma chave de dentes, duas facas retas, duas tenazes, uma unha de águia, dois torniquetes uma chave inglesa e uma tesoura grande. O outro inventário do boticário Antônio Pereira Ferreira, morto também em 1798, serve para dar uma ideia de como era o sortimento de uma farmácia da época. A lista inclui cascas, emplastos, fungos, minerais, óleos, raízes, sementes e um item chamado “animais e suas partes”, com ”óleo humano”, “lixa de lagarto”, “olhos de caranguejos brutos”, “raspas de ponta de veado” e “dentes de javali”.”



“Observada do mar, enquanto os navios se aproximavam do porto, o Rio de Janeiro era uma cidadezinha tranquila, de aparência bucólica, perfeitamente integrada ao esplendor da natureza que a cercava. De perto, a impressão mudava rapidamente. Os problemas eram a umidade, a sujeira e a falta de bons modos dos moradores. “Vistas de fora, as casas têm a mesma aparência de limpeza que observamos nas residências dos melhores vilarejos da Inglaterra”, relatou em 1803 o oficial da Marinha britânica James Tuckey. “A boa impressão, contudo, desvanece à medida que nos aproximamos. Logo que se metem os pés para dentro, constata-se que a limpeza não passa de um efeito da cal que reveste as paredes exteriores e que, nos interiores, habitam a sujeira e a preguiça. As ruas, apesar de retas e regulares, são sujas e estreitas, ao ponto de o balcão de uma casa quase se encontrar com o da casa em frente.
“A limpeza da cidade estava toda confiada aos urubus”, escreveu o historiador Oliveira Lima. Alexander Caldcleugh, um estrangeiro que viajou pelo Brasil entre 1819 e 1821, ficou impressionado com o número de ratos que infestavam a cidade e seus arredores. “Muitas das melhores casas estão de tal forma repletas deles que durante um jantar não é incomum vê-los passeando pela sala”, afirmou. Devido à pouca profundidade do lençol freático, a construção de fossas sanitárias era proibida. A urina e as fezes dos moradores, recolhidas durante a noite, eram transportadas de manhã para serem despejadas no mar por escravos que carregavam grandes tonéis de esgoto nas costas. Durante o percurso, parte do conteúdo desses tonéis, repleto de amônia e ureia, caía sobre a pele e, com o passar do tempo, deixava listras brancas sobre suas costas negras. Por isso, esses escravos eram conhecidos como “tigres”. Devido à falta de um sistema de coleta de esgotos, os “tigres” continuaram em atividade no Rio de Janeiro até 1860 e no Recife até 1882. O sociólogo Gilberto Freyre diz que a facilidade de dispor de ”tigres” e seu baixo custo retardou a criação das redes de saneamento nas cidades litorâneas brasileiras.” (...)
Convidado para um desses jantares na casa de uma família rica, Luccock surpreendeu-se ao descobrir que cada pessoa deveria comparecer com a própria faca, “em geral larga, pontiaguda e com cabo de prata”. À mesa, observou que “os dedos são usados com tanta frequência quanto o próprio garfo”. Mais do que isso, era comum uma pessoa se servir do prato do vizinho com as mãos. “Considera-se como prova incontestável de amizade alguém servir-se do prato de seu vizinho; e, assim, não é raro que os dedos de ambos se vejam simultaneamente mergulhados num só prato”, anotou. A refeição era acompanhada “de uma espécie de vinho fraco”, que era bebido em copos, em vez de taças. Devido ao efeito do álcool, ao final todos os convivas se tornavam barulhentos. “Exagera-se a gesticulação [...] e desfecham punhadas no ar, de faca ou garfo, de tal maneira que um estrangeiro pasma que olhos, narizes e faces escapem ilesos”, observou o inglês. “Quando facas e garfos se acham em repouso, ficam em cada uma das mãos, em posição vertical e descansando sobre a extremidade do cabo. Quando dela não se tem mais necessidade, limpa-se ostensivamente a faca na toalha de mesa e devolve-se à bainha por detrás das costas”.”


“Príncipe regente e, depois de 1816, rei do Brasil e de Portugal, D. João tinha medo de siris, caranguejos e trovoadas. Durante as frequentes tempestades tropicais do Rio de Janeiro, refugiava-se em seus aposentos na companhia do roupeiro predileto, Matias Antônio Lobato. Ali, com uma vela acesa, ambos faziam orações a santa Bárbara e são Jerônimo até que cessassem os trovões. Certa vez, foi picado por um carrapato na fazenda de Santa Cruz, onde passava o verão. O ferimento inflamou e causou febre. Os médicos recomendaram-lhe banho de mar. Como temia ser atacado por crustáceos, mandou construir uma caixa de madeira, dentro da qual era mergulhado nas águas da Praia do Caju, nas proximidades do Palácio de São Cristóvão. A caixa era uma banheira portátil com dois varões transversais e furos laterais por onde a água do mar podia entrar. O rei permanecia ali dentro por alguns minutos, com a caixa imersa e sustentada por escravos, para que o iodo marinho ajudasse a cicatrizar a ferida.
Esses mergulhos improvisados na Praia do Caju, a conselho médico, são a única notícia que se tem de um banho de D. João nos treze anos em que permaneceu no Brasil. Quase todos os historiadores o descrevem como um homem desleixado com a higiene pessoal e avesso ao banho. “Era muito sujo, vício de resto comum a toda a família, a toda a nação”, afirmou Oliveira Martins. “Nem ele, nem D. Carlota, apesar de se odiarem, discrepavam na regra de não se lavarem.” A relutância da corte portuguesa em tomar banho contrastava com os costumes da colônia brasileira, onde o cuidado com o asseio pessoal chamava a atenção de quase todos os viajantes que por aqui passaram nessa época. “Apesar de certos hábitos que aproximam da vida selvagem os brasileiros da classe baixa, qualquer que seja a sua raça, é para notar que todos eles são notavelmente cuidadosos com a limpeza do corpo”, escreveu o inglês Henry Koster, que morou no Recife entre 1809 e 1820.”


“Os dois mundos que se encontraram no Rio de Janeiro em 1808 tinham vantagens e carências que se complementavam. De um lado, havia uma corte que se julgava no direito divino de mandar, governar, distribuir favores e privilégios, com a desvantagem de não ter dinheiro. De outro, uma colônia que já era mais rica do que a metrópole, mas ainda não tinha educação, refinamento ou qualquer traço de nobreza. (...)
D. João precisava do apoio financeiro e político dessa elite rica em dinheiro porém destituída de prestígio e refinamento. Para cativá-la, iniciou uma pródiga distribuição de honrarias e títulos de nobreza que se prolongaria até seu retorno a Portugal, em 1821. Apenas nos seus oito primeiros anos no Brasil, D. João outorgou mais títulos de nobreza do que em todos os trezentos anos anteriores da história da monarquia portuguesa. Desde sua independência, no século XII, até o final do século XVIII, Portugal tinha computado dezesseis marqueses, 26 condes, oito viscondes e quatro barões. Ao chegar ao Brasil, D. João criou 28 marqueses, oito condes, dezesseis viscondes e quatro barões. Segundo Sérgio Buarque de Holanda, além desses títulos de nobreza, D. João distribuiu 4048 insígnias de cavaleiros, comendadores e grã-cruzes da Ordem de Cristo, 1422 comendas da Ordem de São Bento de Avis e 590 comendas da Ordem de São Tiago. “Em Portugal, para fazer-se um conde se pediam quinhentos anos; no Brasil, quinhentos contos”, escreveu Pedro Calmon. “Indivíduos que nunca usaram esporas foram crismados cavaleiros, enquanto outros que ignoravam as doutrinas mais triviais do Evangelho foram transformados em comendadores da Ordem de Cristo”, acrescentou John Armitage.”


“Numa outra decisão pitoresca, D. João VI declarou guerra contra os índios botocudos que infernizavam a vida de fazendeiros e colonos na Província do Espírito Santo. Segundo o relato do inglês John Mawe, “o príncipe regente publicou uma proclamação na qual convida os índios a habitar nas aldeias, a se fazerem cristãos, prometendo-lhes, se viverem em boa inteligência com os portugueses, que seus direitos serão reconhecidos e, como os outros vassalos, gozarão da proteção do Estado; mas, se persistirem em sua vida bárbara e feroz, os soldados do príncipe terão ordem de lhes fazer guerra de extermínio”. De Londres, Hipólito da Costa ironizou a medida num editorial do Correio Braziliense: “Há muito tempo não leio um documento tão célebre; e o publicarei quando receber a resposta de Sua Excelência o Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra da Nação dos Botocudos”.”


“Quando a corte portuguesa chegou ao Brasil, navios negreiros vindos da costa da África despejavam no Mercado do Valongo entre 18.000 e 22.000 homens, mulheres e crianças por ano. Permaneciam em quarentena, para serem engordados e tratados das doenças. Quando adquiriam uma aparência mais saudável, eram comercializados da mesma maneira como hoje boiadeiros e pecuaristas negociam animais de corte no interior do Brasil. A diferença é que, em 1808, a “mercadoria” destinava-se a alimentar as minas de ouro e diamante, os engenhos de cana-de-açúcar e as lavouras de algodão, café, tabaco e outras culturas que sustentavam a economia brasileira.
O desembarque, a compra e a venda de escravos faziam parte da rotina da colônia brasileira havia quase três séculos. Para os estrangeiros que, pela primeira vez, foram autorizados a visitar o Brasil depois da chegada da corte, era sempre uma visão constrangedora.
O cônsul inglês James Henderson, descreveu assim o desembarque dos escravos no porto do Rio de Janeiro:
Os navios negreiros que chegam ao Brasil apresentam um retrato terrível das misérias humanas. O convés é abarrotado por criaturas, apertadas umas às outras tanto quanto possível. Suas faces melancólicas e seus corpos nus e esquálidos são o suficiente para encher de horror qualquer pessoa não habituada a esse tipo de cena. Muitos deles, enquanto caminham dos navios até os depósitos onde ficarão expostos para venda, mais se parecem com esqueleto ambulantes, em especial as crianças. A pele, que de tão frágil parece ser incapaz de manter os ossos juntos, é coberta por uma doença repulsiva, que os portugueses chamam de sarna.

Um terceiro relato é o do diplomata inglês Henr Chamberlain. Ele conta como era a compra de um escravo no Valongo:
Quando uma pessoa quer comprar um escravo, ela visita os diferentes depósitos, indo de uma casa a outra, até encontrar aquele que lhe agrada. Ao ser chamado, o escravo é apalpado em várias partes do corpo, exatamente como se faz quando se compra um boi no mercado. Ele é obrigado a andar, a correr, a esticar seus braços e pernas bruscamente, a falar, a mostrar a língua e os dentes. Esta é a forma considerada correta para avaliar a idade e julgar o estado de saúde do escravo.”


“Na África, cerca de 40% dos negros escravizados morriam no percurso entre as zonas de captura e o litoral. Outros 15% morreriam na travessia do Atlântico, devido às péssimas condições sanitárias nos porões dos navios negreiros. As perdas eram maiores nas cargas que vinham de Moçambique e outras regiões da África oriental. Da costa atlântica, uma viagem até o Brasil durava entre 33 e 43 dias. De Moçambique, no Oceano Índico, até 76 dias. Por fim, ao chegar ao Rio de Janeiro, entre 10% e 12% dos desembarcados pereciam em depósitos, como os do Mercado do Valongo, antes de serem vendidos. Em resumo, de cada cem negros capturados na África, só 45 chegavam ao destino final. Significa que, de dez milhões de escravos vendidos nas Américas, quase outro tanto teria morrido no percurso, num dos maiores genocídios da história da humanidade.”


“Os escravos a bordo dos navios negreiros eram considerados uma carga como outra qualquer. Um exemplo. No dia 6 de setembro de 1781, o navio inglês Zong, de Liverpool, saiu da África rumo à Jamaica com excesso de escravos a bordo. Em 29 de novembro, no meio do Atlântico, sessenta negros já haviam morrido por doenças, falta de água e comida. “Acorrentados aos pares, perna direita com perna esquerda e mão direita com mão esquerda, cada escravo tinha menos espaço do que um homem dentro de um caixão”, escreveu F. O. Shyllon, autor de Black slaves in Britain. Temendo perder toda a carga antes de chegar ao destino, o capitão Luke Collingwood decidiu jogar ao mar todos os escravos doentes ou desnutridos. Ao longo de três dias, 133 negros foram atirados da amurada, vivos. Só um conseguiu escapar e subir novamente a bordo. O dono do navio, James Gregson, pediu indenização à seguradora pela carga perdida. A empresa de seguros, em Londres, recorreu à Justiça. Pelas leis inglesas, se o negro morresse a bordo, por maus-tratos, fome ou sede, a responsabilidade seria do capitão do navio. Se caísse no mar o seguro cobriria. Nesse caso, a Justiça decidiu que a seguradora tinha razão. O capitão era culpado pelas mortes. O caso abriu os olhos dos britânicos para a crueldade do tráfico negreiro e se tornou um ícone do movimento abolicionista no mundo todo.”


“Escravos eram um patrimônio contabilizável, um ativo a ser explorado ao máximo em busca de retorno. No Rio de Janeiro, toda pessoa com alguma projeção social tinha negros cativos. Relato de 1782 do viajante espanhol Juan Francisco de Aguirre registra que os trinta monges do Convento de São Bento, então o mais rico do Brasil, viviam dos rendimentos proporcionados por “quatro engenhos de açúcar, que empregam 1200 escravos, e de algumas casas de aluguel espalhada pela cidade”. Segundo Aguirre, também os monges beneditinos e os padres jesuítas possuíam escravos nessa época.
Alguns proprietários tinham mais escravos do que o necessário para suas atividades. Os cativos excedentes eram alugados a terceiros. Dessa forma, seus donos conseguiam um ganho extra. Havia até corretores especializados em intermediar esse tipo de negócio – num sistema parecido com o funcionamento atual das imobiliárias e locadoras de máquinas e automóveis. O valor do aluguel era inteiramente repassado ao dono do escravo, sem que o cativo participasse do ganho. “Todos os que conseguem adquirir uma meia dúzia de escravos passam a viver na mais completa ociosidade – explorando os rendimentos do trabalho dos seus negros – e a caminhar pela rua solenemente, com grande empáfia”, descreveu o inglês James Tuckey, em 1803. “Assim, qualquer pessoa com fumaças de nobreza podia alcançar proveitos dos trabalhos mais humildes sem degradar-se e sem calejar as mãos”, observou o historiador Sérgio Buarque de Holanda.”


“Os museus coloniais estão repletos de instrumentos pavorosos de punição e suplício dos escravos. Havia três categorias de castigo no Brasil, segundo a classificação feita em 1938 pelo historiador Artur Ramos. A primeira era o dos instrumentos de captura e contenção. Incluíam correntes e colares de ferro, algemas, machos e peias (para pés e mãos), além do tronco – um pedaço de madeira dividido em duas metades com buracos para imobilizar a cabeça, os pés e as mãos – e o viramundo, espécie de tronco menor, de ferro. A máscara de folha de flandres era usada para impedir o escravo de comer cana, rapadura ou engolir pepitas e pedras preciosas. Os anjinhos – anéis de ferro que comprimiam os polegares – eram usados para obter confissões. Nas surras, usava-se a palmatória ou o bacalhau, chicote de cabo curto, de ouro ou madeira com cinco pontas de couro retorcido. Ferros quentes com as iniciais do proprietário ou com a letra F – de fugitivo – também eram utilizados, além do libambo, argola de ferro presa ao pescoço da qual saía uma haste longa, também de ferro, voltada para cima, até o topo da cabeça do escravo, com ou sem chocalhos nas pontas.
Na prática, três instrumentos eram usados com regularidade: o chicote, o tronco e os grilhões. A punição mais comum era o açoite do escravo, nas costas ou nas nádegas, quando fugia, cometia algum crime ou alguma falta grave no trabalho. No começo do século XVII, o frei italiano Jorge Benci recomendava que as chibatadas não ultrapassassem o número de quarenta por dia, para não mutilar o escravo. Mas há relatos de viajantes e cronistas com referência a duzentos, trezentos ou até seiscentos açoites. Quantidade tão absurda de chibatadas deixava as costas ou as nádegas do escravo em carne viva. Numa época em que não havia antibióticos, o risco de morte por gangrena ou infecção generalizada era grande. Por isso, banhava-se o escravo com uma mistura de sal, vinagre ou pimenta malagueta – numa tentativa de evitar a infecção das feridas.
O pintor Jean Baptiste Debret conta que, no Rio de Janeiro, escravos acusados de faltas graves, como fuga ou roubo, eram punidos com cinquenta a duzentas chibatadas. Seu dono tinha de comparecer ao calabouço munido de autorização do intendente de polícia na qual deveriam constar “o nome do delinquente e o número de chibatadas que deverá receber”. O carrasco, encarregado de executar o castigo, recebia uma pataca por cem chibatadas aplicadas. Pataca era uma antiga moeda de prata no valor de 320 réis. “Todos os dias, entre 9 e 10 horas da manhã, pode-se ver a fila de negros que devem ser punidos”, escreveu Debret. “Eles vão presos pelo braço, dois em dois, e conduzidos sob escolta da polícia até o local designado para o castigo. Para esse fim existem, em todas as praças mais frequentadas da cidade, pelourinhos erguido com o intuito de exibir os castigados. [...] Depois de desamarrado (do pelourinho), o negro é deitado no chão, de cabeça para baixo, a fim de evitar-se a perda de sangue. A chaga escondida sob a fralda da camisa escapa assim à picada do enxame de moscas que logo procura esse horrível repasto. Finalmente, terminada a execução, os condenados ajustam a suas calças, e todos, dois por dois, voltam para a prisão com a mesma escolta que os trouxe. [...] De volta à prisão, a vítima é submetida a uma segunda prova, não menos dolorosa: a lavagem das chagas com vinagre e pimenta, operação sanitária destinada a evitar a infecção do ferimento.”
Uma diferença entre a escravidão urbana e a do campo era o regime de castigos. Nas fazendas e minas de ouro e diamante, os escravos eram punidos pelo feitor ou diretamente pelas mãos dos seus proprietários. Nas cidades, essa tarefa era delegada à polícia. O proprietário que não quisesse castigar seu escravo podia recorrer aos serviços da polícia, mediante pagamento. Os negros eram punidos em prisões ou nos diversos pelourinhos espalhados pelas cidades. O cônsul inglês James Henderson testemunhou uma dessas punições no Rio de Janeiro. O seu relato:
O cavalheiro obteve autorização para que um de seus escravos fugitivos fosse punido com duzentas chibatadas. Depois que seu nome foi chamado várias vezes, o escravo apareceu na porta da prisão, onde os negros ficam confinados de forma promíscua. Uma corda foi colocada ao redor do seu pescoço, enquanto ele era levado para junto de um grande poste erguido no meio da praça, ao redor do qual seus braços e pernas foram atados. Uma corda imobilizava seu corpo de tal maneira que tornava qualquer movimento impossível. O carrasco, um negro degredado, começou a trabalhar de forma quase mecânica e a cada golpe, que parecia arrancar um pedaço da carne do escravo, ele assoviava de uma forma particular. As chibatadas foram repetidas sempre no mesmo lugar e o negro suportou as primeiras cem de forma determinada. Ao receber a primeira e a segunda chibatada, ele gritou “Jesus”, mas em seguida pendeu sua cabeça contra um dos lados do poste, sem dizer mais uma única sílaba ou pedir clemência.”


“Outra contribuição fundamental para o entendimento do Brasil no período foi dada por Henry Koster. Nascido em Portugal, numa família inglesa, Koster chegou no final de 1809 e durante onze anos percorreu as cidades e sertões do Nordeste. Morreu em 1820, no Recife, onde foi sepultado. Seu livro, Travels in Brazil, publicado em Londres em 1816, foi traduzido para o português pelo mais famoso folclorista brasileiro, o potiguar Luís da Câmara Cascudo. “O depoimento de Koster é o primeiro, cronologicamente, sobre a psicologia, a etnografia tradicional do povo nordestino, o sertanejo no seu cenário”, escreveu Câmara Cascudo. “Antes dele, nenhum estrangeiro atravessara o sertão do Nordeste, do Recife a Fortaleza, em época de seca, viajando em comboio, bebendo água de borracha, comendo carne assada, dormindo debaixo das árvores, tão integralmente adaptado ao mundo que escolhera para viver.”
Koster adorava conviver com o povo nordestino e participar de suas festas e celebrações religiosas: “Não perdi festa alguma”, orgulhou-se nos seus diários. (..)Ao viajar pelo interior do Rio Grande do Norte, ficou impressionado com o isolamento dos sertanejos. Ali, o único contato com a civilização eram os padres, que percorriam a região celebrando missas, casamentos e batizados em troca de oferendas e contribuições dos moradores.
“Certos padres obtêm licença do bispo de Pernambuco e viajam nestes lugares com um altar portátil, construído para esse fim, conduzido por um cavalo, assim como todos os objetos para as missas”, escreveu Koster. “Esses padres, no decurso de um ano, ganham de 150 a 200 libras esterlinas, renda considerável para o Brasil, mas dificilmente conseguida se pensarmos nos sofrimentos e privações que foram obrigados a suportar. Eles param e erguem o altar onde existe um certo número de pessoas que podem pagar para ouvir a missa. O ofício é dito as mais das vezes por três ou quatro xelins, mas quando há um homem rico que tem o orgulho de possuir um sacerdote, ou é muito devoto, dá oito ou dez mil réis, duas ou três libras esterlinas, e há quem chegue a pagar cem mil réis, o que é raro. Também presenteiam às vezes o sacerdote com um boi, ou um ou dois cavalos.”
Koster deixou ainda uma descrição detalhada do modo de vida no interior nordestino. “Os sertanejos são muito ciumentos e há dez vezes mais mortes por este motivo do que por qualquer outro”, relatou. “Essa gente é vingativa. As ofensas muito dificilmente são perdoadas e, na falta de lei, cada um exerce a justiça pelas suas próprias mãos. [...] O roubo é pouco conhecido. A terra, nos bons anos, é toda fértil, impossibilitando a necessidade que justificaria a tentação criminosa, e nas más colheitas todos sofrem igualmente a penúria. [...] São extremamente ignorantes e poucos possuem os mais modestos rudimentos de instrução. [...] Os sertanejos são corajosos, sinceros, generosos e hospitaleiros. Quando se lhes pede um favor, não o sabem negar. Entrando em negócios de gado, ou qualquer outro, o caráter muda. Procurarão enganar-vos, olhando o sucesso como prova de habilidade, digna de elogio.”
Existem algumas imagens recorrentes nos relatos dos inúmeros estrangeiros que visitaram o Brasil no começo do século XIX. A primeira é a de uma colônia preguiçosa e descuidada, sem vocação para o trabalho, viciada por mais de três séculos de produção extrativista. O inglês Thomas Lindley, que percorreu o litoral próximo a Porto Seguro, na Bahia, ficou surpreso ao constatar que a abundância de recursos naturais do Brasil não resultava em riqueza, desenvolvimento ou conforto material para os brasileiros. “Num país que, com o cultivo e a indústria, chegaria à fartura com as benções excessivas da natureza, a maior parte do povo sobrevive em necessidade e pobreza, enquanto mesmo a minoria restante não conhece os desfrutes que fazem a vida desejável”, escreveu.” (...)
Outra imagem muito frequente nesses relatos dos viajantes é a do analfabetismo, da falta de cultura e instrução. “O Brasil não é lugar de literatura”, afirmou James Henderson “Na verdade, a sua total ausência é marcada pela proibição geral de livros e a falta dos mais elementares meios pelos quais seus habitantes possam tomar conhecimento do mundo e do que se passa nele. Os habitantes estão mergulhados em grande ignorância e sua consequência natural: o orgulho.” James Henderson, que saiu de Londres em 11 de março de 1819 a bordo do navio Echo, é um dos viajantes tardios do período de D. João VI no Brasil. Seus diários de viagem incluem um mapa do país e oito gravuras feitas em pedra, retratando paisagens e tipos brasileiros. “Neste país de analfabetismo, não se encontra ninguém que tenha intimidade com a noção de ciência”, observou o botânico inglês William John Burchell, que percorreu o Brasil alguns anos mais tarde, entre 1825 e 1830, quando a corte já tinha voltado para Portugal. “Aqui, a natureza tem feito muita coisa – o homem, nada. Aqui, a natureza oferece inumeráveis temas de estudo e admiração, enquanto os homens continuam a vegetar na escuridão da ignorância e na extrema pobreza, consequência apenas da preguiça.”


“Todos os dias no final da tarde, D. João VI saía para passear, às vezes dirigindo ele próprio uma pequena carruagem puxada por mulas. O historiador Tobias Monteiro acrescenta um detalhe pitoresco nesses passeios: o ritual que envolvia as necessidades fisiológicas do rei. Segundo ele, à frente da comitiva ia um moço de cavalariça, a que o povo chamava de “toma largas” – talvez porque abria espaço à passagem do rei ou por usar vestimentas de abas enormes. Esse vassalo montava uma besta, de cuja sela pendiam dois alforjes. Num ia a merenda de D. João VI. No outro, um penico e uma armação composta de três peças que funcionava como um vaso sanitário portátil, para ser usado em campo aberto. A certa altura do passeio, o rei murmurava alguma ordem, o moço descia da mula e montava o equipamento. “Então”, acrescenta o historiador, “o rei descia da carruagem e dele aproximava-se o camarista, que lhe desabotoava e arriava os calções. Diante dos oficiais e outras pessoas da comitiva, até da princesa Maria Teresa, sua filha predileta, quando esta o acompanhava, sentava-se beatamente, como se ninguém lhe estivesse em torno. Satisfeito o seu desejo, vinha um criado particular limpá-lo e de novo chegava o camarista, para ajudá-lo a se vestir.”


“Entre 1807 e 1814 (período da ocupação francesa), Portugal perdeu meio milhão de habitantes. Um sexto da população pereceu de fome ou nos campos de batalha ou simplesmente fugiu do país. Nunca, em toda sua história, o país havia perdido um número tão grande de habitantes em tão pouco tempo. Em maio de 1808, o embaixador de Portugal em Londres, D. Domingos de Sousa Coutinho, escrevia a D. João no Rio de Janeiro dizendo que o número de refugiados portugueses na Inglaterra era enorme. “Tem vindo toda a qualidade de gente, em número tal que eu não sei como lhe acudir”, contou o diplomata. “A maior parte vem carente de tudo, quase nus.” Como a corte portuguesa estava falida, D. Domingos era obrigado a pedir ajuda financeira ao governo inglês para socorrer todos esses refugiados. Enquanto isso, em Portugal, os mais ricos pagavam propinas ao próprio Junot em troca da autorização para embarcar nos navios que partiam de Lisboa.
“Portugal ficou num estado lamentável de penúria” escreveu o historiador inglês Sir Charles Oman.
Com seus portos bloqueados, era impossível vender vinhos para seus antigos compradores ingleses ou manufaturas para os colonos brasileiros. O desemprego tomou conta de Lisboa. Famintos, os moradores migraram em bando para o interior do país, em busca do que comer. A capital ficou deserta. Nas ruas não se via nenhum veículo ou pedestre, com exceção de 20 000 pessoas reduzidas à condição de mendigas, tentando viver de esmolas.”


“As semanas que antecederam o retorno do rei a Portugal foram tensas e repletas de aflição. Os ecos da Revolução do Porto haviam chegado ao Brasil em meados de outubro do ano anterior e bastaram algumas semanas para inflamar os ânimos dos brasileiros e portugueses que cercavam a corte. Na manhã de 26 de fevereiro, uma multidão aglomerada no Largo do Rocio, atual Praça Tiradentes, exigia a presença do rei no centro do Rio de Janeiro e a assinatura da Constituição liberal. Ao ouvir as notícias, a alguns quilômetros dali, D. João ficou muito assustado e mandou fechar todas as janelas no Palácio São Cristóvão, como fazia em noites de trovoadas. “Como devo tratar os revoltosos?”, perguntou ao conde de Palmeia, ministro dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. “Infelizmente, senhor, não há que deliberar; é preciso fazer tudo quanto vos pedirem”, respondeu o conde.
Pouco depois chegou o príncipe D. Pedro, que passara a madrugada em conversas com os rebeldes. Vinha buscar o rei, como exigia a multidão. D. João ficou apavorado com a lembrança de uma cena da ainda recente Revolução Francesa. Foi a noite em que milhares de pessoas cercaram o Palácio de Versailles, capturaram o rei Luís XVI e a rainha Maria Antonieta e os levaram até Paris, onde, tempos mais tarde e após uma fracassada tentativa de fuga, seriam decapitados na guilhotina. Apesar do medo que o episódio lhe inspirava, D. João embarcou na carruagem que o aguardava e seguiu para o centro da cidade. A caminho, no entanto, percebeu que, em lugar de ofensas e gritos de protestos, a multidão aclamava seu nome. Ao contrário do odiado Luís XVI, o rei do Brasil era amado e querido pelo povo carioca. Depois de uma viagem de meia hora, apareceu trêmulo na sacada do Paço Real. Mal conseguiu balbuciar as palavras que lhe ditaram e que tiveram de ser repetidas por D. Pedro em alta voz, para delírio da multidão. D. João VI, o último rei absoluto de Portugal e do Brasil, aceitava, sim, jurar e assinar a Constituição, que lhe tirava parte de seus poderes.
A euforia de 26 de fevereiro, porém, logo deu lugar a novas agitações. Os líderes mais radicais achavam as reformas constitucionais insuficientes. Queriam que o rei cedesse mais. Por isso, uma segunda manifestação popular foi marcada para o dia 21 de abril, aniversário do enforcamento de Tiradentes. Aos gritos de “aqui quem manda é o povo” e “haja revolução”, a multidão reunida na então Praça do Comércio exigia que D. João jurasse a Constituição espanhola, documento mais radical do que o primeiro, adotado na cidade de Cadiz em 1812, durante os levantes da Guerra Peninsular, e que havia se tornado uma inspiração para os revolucionários portugueses em 1820. Queria também que o rei permanecesse no Brasil, contrariando a decisão das Cortes portuguesas. Desta vez, a manifestação terminou em tragédia, violentamente reprimida pelas tropas comandadas pelo príncipe D. Pedro. Trinta pessoas morreram e outras dezenas ficaram feridas. No dia seguinte, a fachada do elegante prédio desenhado pelo francês Grandjean de Montigny na Praça do Comércio amanheceu pichada com os dizeres “Açougue dos Bragança”, numa referência à dinastia portuguesa.
D. João partiu do Rio de Janeiro em 26 de abril, cinco dias depois do massacre da Praça do Comércio. Sua comitiva incluía cerca de 4000 portugueses – um terço do total que o havia acompanhado na fuga para o Rio de Janeiro, treze anos antes. Conta-se que o rei embarcou chorando de emoção. Se dependesse apenas de sua vontade, ficaria no Brasil para sempre. Porém, uma vez mais, aquele rei gordo, bonachão, sossegado, solitário, indeciso e, muitas vezes, medroso, curvava-se ao peso das responsabilidades que a História lhe impunha.”


“No caso de D. João VI, seu legado ainda é motivo de controvérsia. Alguns atribuem ao seu caráter tímido e medroso a derrocada final da monarquia e do próprio império colonial português. Outros, no entanto, o consideram um estrategista político que, sem recorrer às armas, enfrentou com sucesso os exércitos de Napoleão e conseguiu não só preservar os interesses de Portugal como deixar um Brasil maior e melhor do que havia encontrado ao chegar ao Rio de Janeiro, em 1808.”


“A preservação da integridade territorial brasileira foi, portanto, uma grande conquista de D. João VI. Sem a mudança da corte portuguesa, os conflitos regionais teriam se aprofundado, a tal ponto que a separação entre as províncias seria quase inevitável. “Essas colônias estariam de fato perdidas para a metrópole se D. João não migrasse para o Brasil”, afirmou em suas memórias o almirante Sir Sidney Smith, comandante da esquadra que trouxe a corte para o Rio de Janeiro. “Os ingleses iriam ocupá-las sob pretexto de as defender e, se isto não acontecesse, a independência da América portuguesa se teria efetuado ao mesmo tempo e com muito menos resistência do que a da América espanhola.”
Graças a D. João VI, o Brasil se manteve como um país de dimensões continentais, que hoje é o maior herdeiro da língua e da cultura portuguesas. “D. João VI veio criar e realmente fundou na América um império, pois merece bem assim ser classificado o ter dado foros de nacionalidade a uma imensa colônia amorfa”, escreveu Oliveira Lima. Ironicamente, esse legado não seria desfrutado por D. João ou pela metrópole portuguesa. “Ele próprio regressava menos rei do que chegou”, acrescentou Oliveira Lima. “Deixava contudo o Brasil maior do que o encontrara.” Em outras palavras, ao mudar o Brasil, D. João VI o perdeu para sempre. O resultado foi a Independência, em 1822. “As portas fechadas durante trezentos anos estavam abertas de repente, e a colônia ficou fora do controle da metrópole”, assinalou o historiador Alan K. Manchester. “O contato com o mundo exterior despertou a colônia entorpecida: introduziram-se nova gente, novo capital e novas ideias. Como consequência, os brasileiros acharam que seu destino era maior e mais importante”.
Ao contrário do que se imagina, porém, a independência brasileira resultou menos do desejo de separação dos brasileiros do que das divergências entre os próprios portugueses. O historiador Sérgio Buarque de Holanda a definiu como “uma guerra civil entre portugueses”, desencadeada pela Revolução do Porto, e não por um processo de mobilização da colônia na defesa de interesses comuns contra a dominação da metrópole. “A Revolução de 1820 foi um movimento anti-brasileiro, uma explosão de ressentimento, de orgulho ferido”, escreveu o também historiador José Honório Rodrigues. O resultado, segundo ele, foi oposto ao esperado pelas Cortes porque “fortificaram o Brasil, sua consciência, seu sentimento nacional, sua unidade, sua indivisibilidade”.”


“A solução proposta (para conquistar a independência) – que, afinal, triunfou – era manter a monarquia centralizada e com poderes fortes, capaz de impedir insurreições populares e movimentos separatistas. “O Brasil, contando de muitas províncias grandes, mui distantes e despovoadas, precisa para se aumentar, visto estar ainda na infância, de um centro de poder, de onde as providências se façam com energia e a força com prontidão”, argumentava um panfleto anônimo publicado em Lisboa em 1822. “Ora, não há governo mais enérgico que o monárquico. [...] O caráter geral da Nação exclui claramente a forma republicana.”
Sentimentos dessa natureza fizeram com que o medo funcionasse como uma força política catalisadora, mantendo o país unido sob a Coroa no momento em que os regionalistas e interesses divergentes poderiam ter dividido a antiga colônia portuguesa. “Consumada a separação política”, observou historiadora Maria Odila Leite da Silva Dias, “não pareciam brilhantes para os homens da geração da independência as perspectivas da colônia para transformar-se em nação. [...] Eram bem conscientes da insegurança das tensões internas, sociais e raciais, da fragmentação, dos regionalismos, da falta de unidade que não dera margem ao aparecimento de uma consciência nacional capaz de dar força a um movimento revolucionário disposto a reconstruir a sociedade”.
O que se viu em 1822 foi, portanto, uma ruptura sob controle, ameaçada pelas divergências internas e pelo oceano de pobreza e marginalização criado por três séculos de escravidão e exploração colonial. Ao contrário dos Estados Unidos, onde a independência teve como motor a república e a luta pelos direitos civis e pela participação popular, no Brasil o sonho republicano estava restrito a algumas parcelas minoritárias da população. Quando apareceu nas rebeliões regionais, foi imediatamente reprimido pela Coroa. Por isso, o caminho escolhido em 1822 não era republicano nem genuinamente revolucionário. Era apenas conciliatório. Em vez de enfrentadas e resolvidas, as antigas tensões sociais foram todas adiadas e amortecidas.”

domingo, 23 de junho de 2013

Clockers: no mundo dos pequenos traficantes – Richard Price

Editora: Rocco
ISBN: 978-85-3250-596-5
Tradutor: Haroldo Netto
Opinião★★★★☆
Páginas: 586


“A garota de carinha de bebê começou a falar com O Verbo, dizendo qualquer coisa que Strike não era capaz de ouvir mas sabia que era destinada a seduzi-lo, porque O Verbo começou a dançar e a sorrir como um idiota. A garota estava tentando descolar a coca de graça e O Verbo teria cedido em um minuto se Strike não estivesse ali. Sempre tinha que estar ali, sempre. Pensou em dizer a Futon para ir até lá e dizer à garota que ia contar à sua mãe, mas decidiu que não era Jesus Cristo para querer salvar os outros. A garota quer se drogar, este é um país livre. Desde que tenha dez dólares.”


         “Não se pode confiar em ninguém: todo mundo era sério numa hora, trapaceiro no minuto seguinte, sempre falando sobre serem irmãos, sobre não deixar que fossem atacados pelas costas, mas quando chegava a hora da verdade, Strike preferia os inimigos aos amigos. Pelo menos os inimigos a gente sabe o que estão a fim de fazer.”


         “A cada dois blocos um avião qualquer da JFK acenava, reconhecendo Strike, ou gritava seu nome, ou alguma garota viciada dos conjuntos ficava toda alegrinha em vê-lo, se metia por entre os carros e tentava engambelá-lo para conseguir o pó antes que o sinal abrisse. A despeito de sua cautela, havia uma parte nele que adorava a carga de emoção que gerava nos outros: o olhar brilhante dos viciados, a saudação dos viciados, os “clockers” do pedaço. Um dia aquilo seria o seu fim, aquele reconhecimento, aquele poder, mas, a não ser pelo cabo-de-guerra que disputara a vida inteira com a mãe, aquilo era a coisa mais próxima do amor que já experimentara.”


         “Strike suspirou enojado; todo mundo estava mais do que sujo naquele jogo. Os tiras sacaneavam uns aos outros, os traficantes idem, os tiras enganavam os traficantes e vice-versa, os tiras aceitavam suborno e os traficantes deduravam uns aos outros. Ninguém sabia ao certo de que lado os demais estavam; ninguém sabia realmente a quantidade de dinheiro, muita ou pouca, que qualquer outro estava ganhando. Tudo fumaça. Tudo eram telefones públicos no meio da noite. Estar naquele negócio era como caminhar de olhos vendados por um campo minado. Era difícil saber o que fazer ou o que não fazer, mas, para sobreviver, Strike seguia três regras inquebrantáveis: não confiar em ninguém, não ser ganancioso e nunca usar o produto.”


         “Enquanto você não for um pai, não será nada a não ser um filho.”


         “Às vezes, Strike ficava mal-humorado pensando que talvez Crystal gostasse dele mais pelo que não era do que pelo que era: não era viciado em drogas, não estava a fim de bater nela, não tirava o seu dinheiro e não ia lhe transmitir o vírus. Perguntava-se às vezes se a razão por que ela saía com ele não seria o fato de ele preencher um vazio sem causar-lhe dor.”


         “Era estranho andar com um revólver por aí logo depois de ter falado em realmente atirar em alguém. A pequena pistola .25 sempre lhe parecera irreal, alguma coisa entre um brinquedo e um símbolo, mas naquele instante, ao passar por toda aquela gente, a arma dava a impressão de estar respirando encostada na sua barriga, os dentes crescendo. Strike viu-se imaginando pela primeira vez, desde que deixara a casa de Rodney, se teria mesmo dentro de si ou a frieza ou o calor de apontar uma arma para a cabeça de alguém e puxar o gatilho.”


         “Rocco (que junto com outro policial, Mazilli, conversava com o ator Sean Touhey) virou-se para ele e sorriu. – E então, Sean, qual é a história do filme, você sabe, o enredo?
– Hum? Estamos trabalhando nele.
         – Então o que é que vocês têm, algo tipo um conceito? – Conceito: Rocco sentiu-se como se estivesse às voltas com uma garota com quem saía pela primeira vez, tentando conversar para melhorar o clima.
Touhey não se deu ao trabalho de responder. Virou-se para Mazilli.
– Vou lhe dar um conceito, você me dá uma resposta, OK?
Mazilli deu de ombros e acendeu um cigarro.
– Reabilitação? – disse Touhey.
– O que é isso? O jogo da palavra? – Mazilli jogou o fósforo em cima da toalha. – Você quer saber em que acredito? Eu acredito em punição, eu acredito em medo e eu acredito em vingança.
Os lábios movendo-se silenciosamente, Touhey inclinou a cabeça e olhou para Mazilli como se quisesse memorizá-lo.
Rocco suspirou, anunciando-se para si mesmo, minha vez.
– Sim, bem. Você diz reabilitação. Você sabe, nós somos humanos, quer dizer, a maioria de nós, e ninguém começa durão. Vim trabalhar há vinte anos. Queria ser tira. Para quê, para espancar as minorias? Não, eu queria ajudar as pessoas. Alguém grita: “Polícia”, sou eu. Saio correndo: branco, preto, amarelo, seja o que for.
Rocco arriscou uma olhada em Mazilli e espantou-se ao ver que ele não estava rolando os olhos para cima.
– Ok? Mas reabilitação... – Rocco fez uma pausa, ganhando fôlego para a História.
– É como quando eu usava uniforme. Na minha primeira semana eu tinha um parceiro, Sapo Phelan. Maz, você se lembra do Sapo?
Mazilli encolheu os ombros.
– Sapo Phelan começou a trabalhar quando Truman era Presidente. Eu tinha vinte e um, vinte e dois anos, e recebemos um chamado. Conjunto habitacional Lafayette, há um garoto gritando dentro de um apartamento, a porta está trancada. O elevador está quebrado, de modo que o Sapo me manda subir sozinho, ele não está a fim de subir seis andares com as suas pernas, de qualquer modo está de porre. Vou até lá em cima, o pessoal do conjunto tinha acabado de pipocar a fechadura. Entramos, lá está um garoto de três anos algemado a um radiador superquente, não tem mais ninguém em casa. A algema é de metal, certo? O metal conduz o calor? Não sei há quanto tempo estava preso daquele jeito, mas o fato é que tinha um anel de carne assada em torno do pulso, OK?
Touhey parecia vidrado.
– Chamamos a ambulância, cortamos a algema, eles levam o garoto para o hospital. O pessoal do conjunto se manda, mas eu fico ali ao lado do radiador. Sentado ali no peitoril da janela. Fico sentado ali quarenta minutos, e finalmente chega a mãe. Seriam mais quarenta minutos em que a criança teria ficado cozinhando se a gente não entra, OK? Ela entra, posso ver nos seus olhos que está chapada de heroína, certo? Ela entra, nada de criança. Olha para mim. Eu olho para ela. O momento passa, e de repente ela se arranca, caço a filha da puta descendo seis lances de escada. Ela consegue chegar no saguão, bate de frente com Pelan, ele a agarra mas ali estou eu, bancando o anjo vingador, a cento e vinte por hora. O Sapo se atira na minha direção. Bum, vou bater nas caixas de correspondência. Minha cara é tipo: “Que merda é essa?”. Ele a leva para fora, a entrega para o outro carro de polícia, eles a levam. Ele volta, me pega. Estamos sentados no carro, ele diz para mim: “Rocco, essa mulher que você ia quebrar a cabeça, vinte anos atrás, quando era uma garotinha, prendi o pai dela por ter espancado o seu irmão menor até a morte. O cara era realmente um merda. Agora que ela é uma mulher adulta, ela é realmente uma merda. O garoto que você salvou hoje, se viver bastante, se chegar a ser um homem adulto, vai ser um outro merda.” “Rocco”, o Sapo me diz “é o ciclo da merda e você não pode fazer nada a respeito. De modo que a solução é ir com calma e fazer o seu trabalho.”
Touhey, pasmo com a história de Rocco, sacudiu a cabeça.
– Uau... uau.
– Você tem o mesmo tipo de experiência vezes sem conta neste trabalho. De modo que quando você diz reabilitação, Sean, o que descobre no correr de todos esses anos é que é preciso toda sua força só para manter o estado de coisas.
– O ciclo da merda – anunciou Mazilli, mas Rocco não conseguiu interpretar o seu tom de voz.
Rocco não tinha a menor ideia do que acontecera com o garoto e estava na dúvida se devia inventar algo quando Mazilli entrou na conversa:
– Hoje ele é prefeito de Dempsy e na semana passada instituiu corte nos salários de todos os detetives da cidade.”


         “Rocco saltou do Chevy e espreguiçou-se. O ar tresandava a matéria em combustão. A fumaça oleosa, as carcaças de metal calcinadas, os montes de cinzas de antigas fogueiras de pneus e o jeito de andar de zumbis daqueles catadores de lixo, tudo aquilo fazia com que se sentisse como se estivesse visitando um importante campo de batalha três dias depois de os soldados terem enterrado seus mortos e debandado.
Ele não sabia muita coisa mais sobre a vida alheia, mas sabia com certeza que aquela gente estava situada no elo mais baixo da cadeia de drogados, fracos demais para reagirem com violência ou reflexos rápidos e doentes demais para sobreviver à prisão. A maioria tinha o vírus, embora Rocco imaginasse que nem um só tivesse se submetido a exame. Ninguém queria saber da doença com certeza, mas todos andavam por ali como se já estivessem mortos, como se nada mais restasse para temer, como se aquela novidade em seus ossos finalmente os tivesse libertado, permitindo que abraçassem sem desculpas ou fingimentos a única coisa que já lhes havia confortado, muito embora fosse a mesma que os matara: as drogas intravenosas.”


         “Strike não teria posto uma tranca se não desconfiasse da amiga de Herman, uma oriental de cinquenta anos que fazia a limpeza e preparava as refeições do velho. Tudo o que Strike sabia sobre orientais é que trabalhavam duro e não riam, mas imaginava que fossem ambiciosos e traiçoeiros como todo mundo.”


         “Já ouviu dizer que quando Deus detesta um cara lhe concede o seu mais profundo desejo?”


         “O apartamento parecia silencioso. Strike examinou os pés da cama, estraçalhados, e lembrou do Doberman que comprara seis meses atrás para guardar a casa. Nunca se dera ao trabalho de treiná-lo e o cão roera toda a mobília do quarto, reduzindo todos os postes de bambu e laterais a gigantescos palitos esfrangalhados. O cachorro, como a maioria das coisas, parecia ser melhor do que era realmente.”


“A distância mais curta entre dois pontos é a verdade.”



“Quando o pau levanta a cabeça não pensa mais.”