A conversão de São Paulo

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domingo, 1 de dezembro de 2013

As palavras de Saramago – José Saramago

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 978-85-7616-434-0
Organização e seleção: Fernando Gómez Aguilera
Opinião: ***
Páginas: 480

     “A felicidade é apenas uma invenção para tornar a vida mais suportável.”


     “Primeiro sou português, segundo sou ibérico e só em terceiro lugar, e quando me dá vontade, sou europeu.”


     “A vida, que parece uma linha reta, não o é. Construímos somente uns cinco por cento da nossa vida, o resto fazem os outros, porque vivemos com os outros e às vezes contra os outros. Mas essa pequena porcentagem, esses cinco por cento, é o resultado da sinceridade consigo mesmo.”


     “Eu continuo dizendo, a esta idade de 75 anos, que continuo sendo neto dos meus avós.”


     “Quando eu morrer… se pusessem uma lápide no lugar onde ficarei, poderia ser algo assim: “Aqui jaz, indignado, fulano de tal”. Indignado, claro, por duas razões: a primeira, por já não estar vivo, o que é um motivo bastante forte para indignar-se; e a segunda, mais séria, indignado por ter entrado num mundo injusto e ter saído de um mundo injusto. Mas temos de continuar, de continuar andando, temos de continuar.”


     “Se não me interesso pelo mundo, este baterá na minha porta cobrando.”


     “Tentei não fazer nada na vida que pudesse envergonhar o menino que fui.”


     “A educação me preocupa muitíssimo, sim, sobretudo porque é um problema muito evidente, claro e transparente e ninguém faz nada a esse respeito. Confundiu-se a instrução com a educação durante muitos anos e agora estamos arcando com as consequências. Instruir é transmitir dados e conhecimentos. Educar é outra coisa, é inculcar valores […]. Faz décadas, o que havia era um Ministério da Instrução Pública, não da Educação. A educação era outra coisa. Se para ser educado fosse necessário ser instruído previamente, eu seria uma das criaturas mais ignorantes do mundo. Meus familiares eram analfabetos, como iam me instruir? Impossível. Mas me educaram, inculcaram em mim valores básicos, fundamentais. Eu morava numa casa paupérrima e saí dali educado. Milagre! Não, não há milagre nenhum. Aprendi a vida e a lição dos mais velhos, quando nem eles mesmos sabiam que estavam dando lições.”


     “Quando se ridiculariza a bondade, no fundo, a única conclusão é que se esta a justificar a delinquência. Não me refiro a uma delinquência explícita, ativa, mas a uma certa atitude delinquente que se justifica pela indiferença e também pela incapacidade de agir.”


     “É como se houvesse dentro de mim uma parte intocada. Ali não entra nada. E que se traduz numa certa serenidade, que se acentuou com a doença [sofrida em 2007-08]. Se alguma coisa pude aproveitar dela foi este sentimento de extrema serenidade. Passei pelos momentos maus e bons que todas as vidas têm, mas nunca perdi esta… não quero chamar-lhe segurança de mim mesmo… É um pouco como o olho do furacão: em redor é morte e destruição, mas ali o vento não sopra.”


     “A felicidade é só estar em paz consigo mesmo, olhar para nós mesmos e lembrar que não fizemos muito mal aos outros.”


     “Tenho ali uma foto dos meus avós maternos. Aquele homem alto e magro que esta na foto é meu avô Jerónimo, pai da minha mãe, e ela é a minha avó, que se chamava Josefa. Meu avô era pastor, não tinha nem mesmo uma vara de porcos, tinha umas oito ou dez porcas que depois pariam leitões que eles criavam e vendiam, e disso viviam ele e ela. As pocilgas ficavam ao lado da casa […]. No inverno, podia acontecer, e aconteceu vez ou outra, que alguns leitõezinhos, os mais fracos, porque as pocilgas ficavam do lado de fora, podiam morrer de frio. Então, os dois levavam esses leitõezinhos para a cama, e ali dormiam os dois velhos com dois ou três porquinhos, debaixo dos mesmos lençóis, para aquecê-los com seu calor humano. Este é um episódio autêntico.
Outro episódio. Levaram este meu avô, quando estava muito doente e muito mal, para Lisboa, para um hospital, onde depois veio a morrer. Antes de sabê-lo, em seus 72 anos, aquela figura que nunca esquecerei se dirigiu à horta, onde havia algumas árvores frutíferas e, abraçando-as uma a uma, se despediu delas chorando e agradecendo pelas frutas que tinham dado. Meu avô era um analfabeto total. Não estava se despedindo da única riqueza que tinha, porque aquilo não era riqueza, estava se despedindo da vida que elas eram e da qual ele não compartilharia mais. E chorava abraçado a elas porque intuía que não voltaria a vê-las. Essas duas histórias são mais do que suficientes para explicar tudo. A partir daí, as palavras sobram.”


     “Há na obra de Pessoa um retrato bastante claro e completo do homem português, com as suas contradições, o misticismo um tanto mórbido que é o nosso, esta capacidade de esperar, que não é mais do que um desejo de adiar. A esperança é uma atitude ativa, mas nos portugueses é uma forma cômoda de projetar para um futuro cada vez mais distante o que deveríamos fazer agora.”


     “Acho que a grande revolução, e o livro [Ensaio sobre a cegueira] fala disso, seria a revolução da bondade. Se nós, de um dia para o outro, nos descobríssemos bons, os problemas do mundo estavam resolvidos. Claro que isso nem é uma utopia, é um disparate. Mas a consciência de que isso não acontecerá não nos deve impedir, cada um consigo mesmo, de fazer tudo o que pode para reger-se por princípios éticos. Pelo menos a sua passagem por este mundo não terá sido inútil e, mesmo que não seja extremadamente útil, não terá sido perniciosa. Quando nós olhamos para o estado em que o mundo se encontra, damos-nos conta de que há milhares e milhares de seres humanos que fizeram de sua vida uma sistemática ação perniciosa contra o resto da humanidade. Nem é preciso dar-lhes nomes.”


     “Seria mais cômodo acreditar em Deus, mas escolhi o lugar da incomodidade.”


     “Se o homem fosse imortal, não precisaria de Deus.”


     “Deus é uma criação humana e, como muitas outras criações humanas, a certa altura toma o freio nos dentes e passa a condicionar os seres que criaram essa ideia.”


     “As religiões, como as revoluções, devoram os seus filhos. Há nas religiões um contínuo processo de devoramento em que Deus é como um Moloch que necessitasse do sacrifício humano. Imaginando que Deus existe – e não lhe concedo o beneficio da dúvida –, Deus não pode, por boa lógica, criar seres para os destruir.”


     “O Vaticano, como já não crê na existência da alma, se ocupa da repressão dos corpos.”


     “As religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos. As religiões serviram sempre para os dividir. A história de uma religião é sempre uma história do sofrimento que se inflige, que se autoinflige ou que se inflige aos seguidores de outra e qualquer religião. E isto parece-me de tal forma absurdo que creio mesmo que o lugar do absurdo por excelência é a religião.”


     “Há uma coisa clara a levar em conta: eu não posso dizer em consciência que sou ateu, ninguém pode dizer, porque o ateu autêntico seria alguém que viveria numa sociedade onde nunca teria existido uma ideia de Deus, uma ideia de transcendência e, portanto, nem mesmo a palavra “ateu” existiria nesse idioma. Sem Deus, não poderia existir a palavra “ateu” nem a palavra “ateísmo”. Por isso digo que, em consciência, não posso dizer tal coisa. Mas Deus esta aí, portanto falo dele, não como uma obsessão.”


     “Escrevi faz anos uma frase que deve ser entendida como eu a entendo, porque senão a conclusão seria exatamente o contrário do que é. Escrevi isto: “Deus é o silêncio do universo, e o homem é o grito que dá sentido a esse silêncio”. Se este planeta fosse habitado somente por animais, e poderia acontecer – quando os dinossauros existiam, o homem não estava aqui –, então não haveria ninguém para dizer: “Deus existe”. Chegou um momento em que alguém disse: “Existe Deus”, pelo fato de que temos de morrer, por essa esperança de que algo mais possa acontecer, de que algo que chamamos ou que passamos a chamar de espírito ou alma possa sobreviver. E, a partir daí, pode-se armar toda a construção teológica.”


     “Quem mata em nome de Deus converte este num assassino.”


     “Descobrir o outro é descobrir a si mesmo.”


     “O homem é cruel sobretudo em relação ao homem, porque somos os únicos capazes de humilhar, de torturar, e o fazemos com algo que deveria estar contra isso, que é a razão humana. (….) Não se percebeu ainda que o instinto serve melhor aos animais do que a razão serve ao homem. O animal, para se alimentar, tem que matar outro animal. Mas nós não, nós matamos por prazer, por gosto.”


     “O universo não tem notícia da nossa existência.”


     “Nós, os seres humanos, matamos mais que a morte.”


     “Muita gente me diz que sou pessimista; mas não é verdade, o mundo é que é péssimo.”


     “O homem quando descobriu que era inteligente não aguentou o choque e enlouqueceu.”


     “A morte é um grande negócio – nem sempre limpo.”


     “Sabe-se que da morte não se pode rir muito, porque ela é que acaba rindo de nós. É melhor pensar que a morte não é uma entidade nem uma dama que esta aí fora a nos esperar, mas que esta dentro de nós, que cada um traz dentro de si e, quando o corpo e ela se põem de acordo, acabou-se.”


     “A epígrafe do livro [A viagem do elefante], de um suposto Livro dos itinerários, diz: “Sempre chegamos aonde nos esperam”. E a pergunta é inevitável: a que isso se refere? E a resposta só pode ser uma: à morte. Sempre chegamos à morte, ali estão nos esperando.”


     “A literatura é o resultado de um diálogo de alguém consigo mesmo.”


     “As palavras trazem a sabedoria do vivido.”


     “Que foi para mim, como autor, o 25 de Abril (a Revolução dos Cravos)? Em palavras mínimas: a possibilidade de ser autor livre. Ainda que, é tempo de o dizer, condicionado por todo o aparelho social, econômico e cultural burguês, que continua a impedir, por formas grosseiras ou hábeis, o exercício pleno dessa mesma liberdade.”


     “Não faltam escritores que têm um exemplar empenhamento cívico e o transpõem para a sua obra, mas ao mesmo tempo parecem temer o novo. Por um lado desejam que a sociedade se transforme e, por outro, aceitam que os seus instrumentos de expressão e de trabalho se limitem a ser um prolongamento do passado.”


     “Escrever é uma transfusão de sangue para o lado de fora.”


     “Eu não acredito que se escreva por necessidade. Necessidade é comer e beber. Alguns levam tão longe o seu papel de escritores que dizem: se não escrever, morro. As pessoas têm a tentação de tornar as coisas mais interessantes, mais românticas. Criou-se a ideia do artista torturado, que finalmente não é um ser deste mundo. Um pouco raro, muito raro. Como se o artista e o escritor fossem uma espécie de deus condenado a criar.”


     “A inspiração é só o esqueleto de uma ideia. O trabalho e a disciplina são o que formam o corpo desse esqueleto.”


     “A imaginação nasce da relação dialética com os fatos que você esta vivendo e da capacidade que você tem de relacionar tudo isso com o seu próprio mundo interior. E, a partir de tudo isso, surge uma ideia. E é só isso. Porque o escritor não é um ser extraordinário que esta ali com a mão colocada na testa a esperar as fadas.”


     “O que esta nos romances não é a minha vida, mas a pessoa que eu sou, o que é algo muito diferente.”


     “Não escrevo por amor, mas por desassossego. Escrevo porque não gosto do mundo em que estou a viver”.


     “A imaginação pode nos surpreender, claro que sim. Todos os que escrevemos sabemos que isso acontece e é o melhor que pode nos ocorrer. É quando nos surpreendemos conosco mesmo, quando algo em que, parecia que quatro palavras antes, não estávamos pensando e que, quatro palavras depois, aparece. Penso que há um processo que leva alguns a dizer com exagero que o livro se escreve a si mesmo. É claro que não, necessita das mãos, da cabeça, mas há algo… é que no fundo as palavras procuram umas às outras. Nenhuma palavra é poética, o que faz que a palavra se transforme em palavra poética é a outra palavra, a que estava antes, a que vem depois.”


     “O que eu quero escrever liga-se aos fatos e aos homens passados, mas não em termos de arqueologia. O que eu quero é desenterrar homens vivos. A História soterrou milhões de homens vivos.”


     “A realidade chega à mulher por outras vias que não a da razão. Como a do sentido da maternidade, ela dá-lhe outra dimensão, que o homem não pode ter.
Nós usamos as palavras, mas não sabemos a que correspondem. Eu falo de maternidade, mas o que é que um homem sabe da maternidade? Essa palavra só pode ser entendida quando dita por uma mulher-mãe, se eu a disser, não é a mesma coisa.”


     “É a própria história que me leva, sem ter me preocupado antes com isso, a que sempre, em todos os meus romances, haja uma mulher forte. Por quê? Se calhar, é porque tenho a esperança de que, talvez um dia, a mulher assuma a sua responsabilidade total e não permita que continue a ser uma espécie de sombra do homem, presente apenas para cumprir o que o homem decidir; que ela mesma se afirme com a sua capacidade única, com a sua generosidade. A mulher sempre é mais generosa que o homem, e acontece que o mundo precisa de muita generosidade.”


     “Sou cada vez menos proselitista. Vá cada um aonde possa pelos seus próprios meios: guias e gurus são más companhias.”


     “O que quero dizer é que não vejo nenhum motivo para deixar de ser aquilo que sempre fui: alguém que esta convencido de que o mundo em que vivemos não vai bem; convencido de que a aspiração legítima e única que justifica a vida, ou seja, a felicidade do ser humano, esta sendo fraudada diariamente; e que a exploração do homem pelo homem continua a existir. Nós, seres humanos, não podemos aceitar as coisas tais como elas são, pois isso nos conduz diretamente ao suicídio. É preciso acreditar em algo e, sobretudo, é preciso ter um sentimento de responsabilidade coletiva, pelo qual cada um de nós é responsável por todos os outros. E isso eu não consigo ver no capitalismo.”


     “Se o escritor tem algum papel, é o de incomodar.”


     “A decadência, em todos os aspectos, da União Soviética se deveu à separação entre o partido e o povo.”


     “Desde muito novo orientei-me para a consciência de que o mundo esta errado. Não importa aqui qual foi o grau da minha militância todos esses anos. O que importa é que o mundo estava errado, e eu queria fazer coisas para modificá-lo. O espaço ideológico e político em que eu esperava encontrar alguma coisa que confirmasse essa ideia era, é claro, a esquerda comunista. Para aí fui e aí estou. Sou aquilo que se pode chamar de comunista hormonal.”


     “Quando digo que a democracia se suicida diariamente, perde espessura e se desgasta, diminuindo a sua densidade, estou a falar de um sentimento que nos afeta, a nós, cidadãos. Sentimos, e sofremos com isso, que não temos importância no modo como funciona a sociedade.”


     “Na falsa democracia mundial, o cidadão esta à deriva, sem a oportunidade de intervir politicamente e mudar o mundo. Atualmente, somos seres impotentes diante de instituições democráticas das quais não conseguimos nem chegar perto.”


     “O destino das revoluções é se transformarem no seu oposto. As revoluções acabam sendo sempre traídas, por uma razão muito simples: por causa da renúncia dos cidadãos a participarem […]. A doença mortal das democracias é a renúncia do cidadão à participação. Os principais responsáveis somos nós mesmos, quando delegamos o poder a outra pessoa, que, a partir desse momento, passa a controlá-lo e a usá-lo.”


     “Ao poder, a primeira coisa que se diz é “não”. Não por ser um “não”, mas porque o poder tem de ser permanentemente vigiado. O poder tem sempre tendência para abusar, para exorbitar.”


     “Nós, homens, não obtivemos a democracia, mas uma ilusão dela. É preciso dizer isso em voz alta, e seria bom que todos nós o disséssemos, em coro; não é possível continuar falando de democracia em um mundo onde o poder que realmente governa, o poder financeiro, não é democrático. Tudo o mais são miragens mais ou menos reais – os parlamentos, os governos –, mas o poder, em última instância, o poder que decide e determina os nossos destinos não é um poder democrático.”


     “O que temos chamado de “poder político” converteu-se em mero “comissário político” do poder econômico.”


     “Não estou me colocando contra a democracia em si, mas contra a democracia-armadilha, como instrumento do capitalismo, em que as próprias vítimas se transformam em cúmplices, seja pelo silêncio, seja pela renúncia à participação.”


     “Vivemos uma situação em que na democracia, que, segundo a velha definição, é o governo do povo, para o povo e pelo povo, esta ausente justamente o povo.”


     “O grande problema do nosso sistema democrático é que ele permite fazer coisas nada democráticas democraticamente.”


     “Aristóteles definiu que em um sistema democrático o Parlamento deveria ser composto por uma maioria de pobres e uma minoria de ricos. Hoje, penso que Aristóteles foi uma espécie de precursor do humor negro.”


     “[Os indígenas de Chiapas] sobrevivem alimentando-se de sua própria dignidade. Enfrentam a guerra com esse estoicismo que tanto me impressionou, um estoicismo quase sobre-humano que não aprenderam na universidade, que construíram durante séculos de humilhação. Sofreram como ninguém, e preservam aquela força interior, uma força que se expressa no olhar… O olhar daquele menino cuja vida foi destruída para sempre… é uma coisa que jamais desaparecerá de minha memória… Os olhares sérios, severos e retraídos das mulheres e dos homens… são algo que paira acima de tudo. Os indígenas não têm nada, mas são tudo. Como é possível que, depois de tanto sofrimento, esse mundo indígena ainda mantenha a esperança? Como consegue sorrir esse homem de Polhó que acaba de nos dizer: “Pode ser que amanhã nos matem a todos nós, mas, bem, ainda estamos aqui”?. É algo que não consigo entender.”


     “Se temos consciência mas não a utilizamos para nos aproximar do sofrimento, de que ela nos serve?”


     “Embora eu seja dotado de alguma imaginação, não consigo ver um aimará do Peru, um totzil do México, um mapuche do Chile ou um afrodescendente de Angola colocando um xis em uma cédula identificando-se como ibero-americano, negando, assim, o seu passado, seus mortos e as vergonhosas humilhações de todo tipo que ainda se produzem. Assim como as carnificinas que ocorrem seguidamente. Não se pode pedir isso a um ser humano.”


     “Sou um europeu cético que aprendeu todo seu ceticismo com uma professora chamada Europa”.


     “Não é só o pensamento correto. Agora tudo esta se transformando em correto. É preciso se comportar segundo normas que ninguém sabe quem definiu. Eu reivindico a diferença, mas estamos nos tornando cada vez mais iguais, no pior sentido, no sentido menos criativo e menos contestador, perdendo, assim, a capacidade de debater. Apesar de me sentir inserido na cultura europeia, não gosto do fato de a Europa estar se transformando em um império. Começo a desconfiar que tudo é igual, e me parece surpreendente que não nos demos conta de que, nessa Europa, dá na mesma que os governos sejam socialistas ou conservadores, ou, amanhã, até mesmo neofascistas. Enquanto isso acontece, as perguntas – por quê, como e para quê –, que deveriam estar todos os dias na boca dos cidadãos, não estão.”


     “Não são os políticos os que governam o mundo. Os lugares de poder, além de serem supranacionais, multinacionais, são invisíveis.”


     “Pedem os nossos votos apenas para homologar uma porção de coisas, de cujas definições não participamos. Pedem-nos apenas os votos, e não que participemos. E a cada quatro anos comparecemos para votar, felizes, acreditando que estamos fazendo algo muito importante, mas o que é realmente importante já aconteceu no intervalo desses quatro anos.”


     “O Holocausto é a grande e constante autojustificativa dos israelitas. Consideram que, por pior que possam fazer hoje a quem quer que seja, nada poderia ser comparado ao que eles sofreram. Em sua consciência patológica de povo escolhido, acreditam que o horror que sofreram os exime de culpa ao longo de séculos e séculos. Não dão a ninguém o direito de julgá-los, pois eles foram torturados, gaseados e incinerados.
     Além disso, querem, ao mesmo tempo, que todos nós nos sintamos corresponsáveis pelo Holocausto e que expiemos a nossa suposta culpa aceitando sem retrucar tudo o que eles fazem ou deixam de fazer. Tornaram-se os especuladores do Holocausto, mas a verdade é que nem nós temos nenhuma culpa por aquela barbárie nem eles podem falar em nome das vítimas daquele horror.”


     “Dois horrores impedem que os judeus se olhem no espelho: o de Auschwitz e o de sua própria consciência hoje.”


     “Os judeus saíram do gueto, felizmente. Sofreram durante séculos perseguições de todo tipo. E agora, em vez de respeitar o sofrimento de seus antepassados, não fazendo outros sofrerem o que eles sofreram, repetem os mesmos excessos, os mesmos crimes, os mesmos abusos de que foram vítimas.”


     “O juiz Antonio Di Pietro disse um ano atrás [2002] que na Itália a corrupção política chegara ao fim. Como assim?, perguntaram-lhe. E ele explicou de forma muito clara: o poder econômico precisava corromper os políticos para que estes fizessem o que ele queria. Mas isso agora acabou, porque o poder econômico ocupou o poder político. Portanto, já não tem necessidade de corromper ninguém. Ele é o poder.”


     “O poder tem destas coisas, vira os políticos como se eles fossem uma peúga. A primeira viragem chama-se pragmatismo, a segunda oportunismo, a Terceira conformismo. A partir daqui, o melhor é deixar de contar.”


     “Quando um político mente, ataca a base da democracia.”


     “No fundo, a globalização é um totalitarismo soft, quer dizer, promete de tudo, nos vende a sua felicidade e cria necessidades que não tínhamos antes. É uma forma de domínio político, mas os cidadãos não se dão conta disso ou não encontram uma forma de reagir.”


     “Espero o dia em que serão levados diante de um Tribunal Internacional os políticos e os militares de Israel responsáveis pelo genocídio do qual o povo palestino tem sido vítima nos últimos sessenta anos. Pois, como escrevi há alguns meses, “enquanto houver um palestino vivo, continuará o holocausto”.”


     “A direita nunca deixou de ser direita, mas a esquerda deixou de ser esquerda. A explicação pode parecer simplista, mas é a única que contempla todos os aspectos da questão. Para ser participantes mais ou menos tolerados nos jogos de poder, os partidos de esquerda correram todos para o centro, onde se encontraram inevitavelmente com uma direita política e econômica já instalada que não precisava se camuflar de centro. Entrou-se então na farsa carnavalesca de denominações caricaturais, como centro-esquerda ou centro-direita.”


     “Os Estados Unidos são realmente odiados por uma parte do mundo e objeto de desconfiança e receio de outra. Ganharam tudo à força com suas torpezas e arbitrariedades, com sua soberba e sua insolência, com suas mentiras e seus abusos, com o seu quero tudo e mando em tudo. E agora se queixam. É preciso ser muito hipócrita.”


     “O sindicalismo esta domesticado, e essa foi a grande operação do sistema capitalista: a domesticação. E ao mesmo tempo nos dizem que somos livres – isso é o mais cruel.”


     “O pior é que esta se formando um sistema no qual as pequenas coisas são as que ocupam mais espaços, a informação e a preocupação das pessoas. Os grandes temas aparecem diluídos, por trás, e nunca os vemos.”


     “Há um problema no mundo que é o problema da informação, que estão controlando a informação. Hoje as palavras mais construtivas, as mais limpas que se pode pronunciar às vezes não chegam a parte alguma, porque a mídia se encarrega de fazer com que isso aconteça.”


     “Há sempre uma relação perversa nesse trinômio Estado-empresa-jornal. Pode-se dizer que, a rigor, já não existem jornais: o que há são empresas jornalísticas.”


     “Não é raro que os meios de comunicação social alimentem o pior que a sociedade manifesta.”


     “O jornalismo contribui para formar a realidade que lhe convém, dar a imagem que lhe convém. Os dados que nos faltam aos cidadãos são tantos que as pessoas tendem a desinteressar-se do esforço para compreender o mundo em que vivem.”


     “Para mim, é muito claro que, entre os direitos humanos de que se fala tanto, existe um que não pode ser esquecido: o direito à heresia, a escolher outras coisas.”


     “A globalização econômica é compatível com os direitos humanos? Temos de nos colocar essa pergunta e verificar que a resposta é que ou existe globalização ou existem direitos humanos, por mais que os poderes tenham a hipocrisia de dizer que a globalização favorece os direitos humanos, quando o que ela faz é fabricar excluídos. A globalização é simplesmente uma nova forma de totalitarismo, que não precisa chegar sempre vestindo uma camisa azul, marrom ou preta e com o braço em riste; o totalitarismo tem muitas faces, e a globalização é uma delas. Para reverter a situação, seria preciso voltar a Marx e a Engels, embora seja quase politicamente incorreto se referir a esses cadáveres da história quando a ideologia parece que morreu.”


     “O intelectual não pode estar com o poder.”


     “Não me parece que o fato de eu ser como sou possa ser uma causa direta de um conflito com alguém que é outro. Se eu reconheço o outro como outro, tenho, por motivos éticos, de respeitá-lo, e então não haveria nenhum conflito. Porque quando aquilo que chamamos de identidade se transforma em agressividade, não é por culpa da diferença, mas sim da necessidade de poder. Se me torno agressivo em relação ao outro na afirmação da minha identidade, não é por sermos diferentes, mas sim porque quero exercer o meu poder sobre ele.”


     “Falar de democracia, neste contexto, é uma perda de tempo. Esta democracia é uma ilusão. A cidadania esta anestesiada, o consumismo é a nova ideologia.”


     “O que se pergunta é que tipo de vida nós queremos. O único lugar público seguro que existe é o centro comercial, como antes eram o parque, a rua, a praça. Não sou saudosista, mas para entender o presente é preciso falar do passado. O centro comercial é a nova catedral e a nova universidade: ocupa o espaço da formação da mentalidade humana. Os centros comerciais são um símbolo. Nada tenho contra eles. Sou contra, sim, uma forma de ser, um espírito quase autista de consumidores obcecados pela posse de coisas. É espantosa a quantidade de coisas inúteis que se fabricam e se vendem, e o Natal é uma ocasião maravilhosa para comprovar isso.”


     “Sempre achei que, além da antropofagia direta, existe uma outra forma de devorar o próximo: a exploração do homem pelo homem. Neste sentido, a história da humanidade é a história da antropofagia.”


     “Os governos ocidentais reservam a classificação de terrorista para os atos de violência indiscriminada realizados por ativistas que não agem enquadrados por uma organização estatal e se negam a reconhecer a existência do terrorismo de Estado. Aproveitam-se do fato de que o terrorismo puro não pretende se esconder – ao contrário, se esforça ao máximo para que a sociedade saiba de sua existência –, enquanto o terrorismo de Estado faz todo o possível para se tornar “invisível”, porque é tanto mais eficaz quanto mais despercebido passa.”


     “Começa a se forjar uma maneira de ver o mundo que é definida por três vetores muito claros: a neutralidade, o medo e a resignação.”


     “Não nos incomoda viver no meio do lixo quando saímos para a rua perfumados.”


     “O que as pessoas não conseguiram, e alguma razão têm, foi vencer o medo de perder o emprego. E o resultado é a neutralização do espírito de militância que durante gerações caracterizou a classe operária.”