A conversão de São Paulo

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

As aventuras de Pi – Yann Martel

Editora: Nova Fronteira
ISBN: 978-85-209-331-07
Tradução: Maria Helena Rouanet
Opinião★★★☆☆
Páginas: 424

“A primeira vez que fui a um restaurante indiano no Canadá, comi com as mãos. O garçom me olhou com um ar de crítica e disse: “Acabou de desembarcar, não é mesmo?” Fiquei lívido. Os meus dedos, que, um segundo antes, eram papilas gustativas, saboreando a comida ainda meio longe da boca, ficaram sujos diante daquele olhar. Estancaram como bandidos apanhados em flagrante. Não ousei lambê-los. Culpadíssimo, usei o guardanapo para limpá-los. Aquele garçom não podia imaginar o quanto as suas palavras me magoaram. Elas foram como pregos penetrando na minha carne. Peguei o garfo e a faca. Praticamente nunca tinha usado esses utensílios. As minhas mãos tremiam. O meu sambar ficou completamente sem gosto.”


         “Não vou insistir mais. Não tenho a intenção de defender os zoológicos. Podem fechar todos eles, se quiserem (e esperemos que o que resta dos animais selvagens possa sobreviver no que resta da natureza). Sei que os zoológicos não gozam mais das boas graças das pessoas. A religião enfrenta o mesmo problema. Certas ilusões acerca da liberdade os contaminaram a ambos.”


“Os ateus são meus irmãos de uma outra fé, e cada palavra que eles dizem expressa fé. Como eu, vão até onde as pernas da razão podem levá-los, e, então, pulam.
Vou ser sincero. Não são os ateus que me irritam, são os agnósticos. A dúvida pode ser útil por um instante. Todos devemos atravessar o jardim do Getsêmani. Se Cristo lidava com a dúvida, devemos fazer isso também. Se Ele passou uma noite angustiado, rezando, se, lá na Cruz, exclamou: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”, com certeza também podemos duvidar. Mas precisamos ultrapassá-la. Escolher a dúvida como filosofia de vida equivale a escolher a imobilidade como meio de transporte.”


“A presença de Deus é a melhor das recompensas.”


“Palavras de uma consciência divina: exaltação moral; sentimentos duradouros de elevação, de elação, de alegria; uma aceleração do sentido moral, que nos causa impacto, parecendo mais importante que um entendimento intelectual das coisas; um alinhamento do Universo e das linhas morais, não das intelectuais; uma percepção de que o princípio básico da existência é aquilo que chamamos de amor, que às vezes se realiza de uma forma nada clara, nada simples, nem imediata e, no entanto, é inelutável.”


“Ravi fez a festa quando ficou sabendo que eu era hindu, cristão e muçulmano.
– E então, swami Jesus, vai fazer o hajj, a sua peregrinação desse ano? – perguntou ele, juntando as mãos diante do rosto, num reverente namaskar. – Meca está chamando por você? – acrescentou, fazendo o sinal da cruz. – Ou será que vamos a Roma para a sua coroação como o próximo Papa Pi...o? – Com a mão, traçou no ar uma letra grega para deixar bem clara a sua gracinha. – Já arranjou tempo para mandar cortarem a ponta do seu pau e virar judeu? Desse jeito, se for ao templo na terça, à mesquita na sexta, à sinagoga no sábado e à igreja no domingo, só precisa se converter a mais três religiões para ficar de folga para o resto da vida.”


“Existem sempre aqueles que se acham na obrigação de defender Deus, como se a Realidade Última ou a estrutura de sustentação da existência fossem algo fraco e desamparado. Essa gente passa por uma viúva deformada pela lepra, mendigando umas poucas paisas; passa por crianças esmolambadas, morando na rua, e pensa: “A vida é assim mesmo.” Se percebem, porém, uma coisinha de nada contra Deus, tudo muda de figura. Ficam com o rosto vermelho, o peito inflado, esbravejam palavras furiosas. O seu grau de indignação é espantoso. A sua transformação, assustadora.
         O que essas pessoas não entendem é que é só internamente que Deus precisa ser defendido, não externamente. Deviam dirigir a sua fúria contra si mesmas. Pois o mal exterior nada mais é que o mal interior que conseguiu escapar. O principal campo de batalha para o bem não está no espaço aberto da arena pública, mas na pequena clareira de cada coração. Nesse meio-tempo, aquele monte de viúvas e crianças sem-teto são um problema sério e é em sua defesa, e não na de Deus, que essa gente moralista devia correr.
         Para mim, religião é uma questão de dignidade, não de degradação.”


“Não sou do tipo que tem preconceito contra qualquer animal, mas ninguém ignora que a hiena-malhada não é muito bem-dotada em termos de aparência. Ela é feia de doer... Tem o pescoço grosso e os ombros altos que caem na direção do lombo dando a impressão de que saíram de um protótipo de girafa descartado, e a sua pelagem grossa e eriçada parece ter sido feita com remendos de sobras da criação. A sua cor é uma mistura estranha de caramelo, preto, amarelo e cinza, e as manchas não têm nada da ostentação classuda das pintas do leopardo; elas mais parecem sintomas de alguma doença de pele, uma forma virulenta de sarna. A cabeça é grande e excessivamente maciça, com uma testa alta, como a dos ursos, mas com umas entradas bem acentuadas, e aquelas orelhas, ridiculamente semelhantes às de um camundongo, grandes e redondas, quando não foram arrancadas numa briga qualquer. A boca vive aberta e ofegante. As narinas são grandes demais. O rabo é mirrado, sempre imóvel. O andar é arrastado. Juntando tudo, ela acaba ficando parecida com um cachorro, só que um cachorro que ninguém ia querer como bicho de estimação.
Mas eu não tinha esquecido as palavras do meu pai. Aqueles animais não eram uns covardes comedores de carniça. Se o National Geographic os retratava assim era porque as suas equipes filmavam durante o dia. É quando a lua aparece no céu que o dia das hienas começa, e elas demonstram ser caçadoras implacáveis. Atacam em bando qualquer bicho que possa ser capturado, e abrem-lhe o flanco ainda em pleno movimento. Atacam zebras, gnus e búfalos-d’água, e não só os velhos ou os doentes do rebanho, mas também os adultos em pleno vigor. São ousadas em seus ataques, levantando-se imediatamente quando lhes acertam chifradas e coices, nunca desistindo simplesmente por lhes faltar disposição. E são espertas; qualquer coisa que possa ser atraída para longe da mãe serve. O gnu com dez minutos de vida é um dos seus pratos favoritos, mas as hienas também podem perfeitamente comer filhotes de leões e rinocerontes. São diligentes quando os seus esforços são recompensados. Em quinze minutos contados no relógio, tudo o que resta de uma zebra é o crânio, que pode ser arrastado para a toca e mordiscado pelos filhotes como brincadeira. Nada se perde; até o mato respingado de sangue é comido. O estômago das hienas incha visivelmente quando elas engolem grandes nacos de caça. Em dias de sorte, ficam com a barriga tão cheia que mal conseguem andar. Depois de digerirem a presa, cospem umas bolas de pelo bem densas; catam ali dentro tudo o que for comestível e, depois, ficam se rolando em cima delas. Canibalismo acidental é coisa comum durante a empolgação com a comida; tentando alcançar uma zebra, uma hiena pode, sem segundas intenções, acertar a orelha ou uma narina de um dos membros do clã. Mas não vai ficar enojada com esse engano. São tantos os prazeres que não dá para admitir sentir nojo do que quer que seja.
Na verdade, a variedade do paladar da hiena é tão indiscriminada que chega quase a ser admirável. Ela bebe água mesmo que esteja urinando ali dentro. Aliás, esse animal tem outra utilidade bem original para a urina: quando o tempo está quente e seco, eles se refrescam aliviando a bexiga no chão, revolvendo aquela terra molhada com as patas e se deliciando com um refrescante banho de lama. Comem excremento de herbívoros lambendo os lábios de prazer. O difícil é dizer o que as hienas não comem. Devoram a própria espécie (o resto daqueles animais cujas orelhas ou focinhos arrancaram como aperitivo), desde que o bicho esteja morto, e isso depois de um período de luto que dura cerca de um dia. Chegam até a atacar veículos motorizados – faróis, cano de escapamento, espelhos laterais. Não é o suco gástrico das hienas que estabelece o limite da sua alimentação; é o poder das suas mandíbulas, que é formidável.”


“Há uma coisa mais perigosa que um animal saudável: um animal ferido.”


“– Para levar adiante a nossa investigação, gostaríamos de saber o que aconteceu efetivamente?
– O que aconteceu efetivamente?
– É.
– Então, querem que eu conte outra história?
–Hum... Não. Gostaríamos de saber o que aconteceu efetivamente.
– Contar alguma coisa não cria sempre uma história?
– Hum... Em inglês, talvez. Em japonês, uma história teria sempre um elemento de invenção. Não é o que queremos. Queremos que o senhor “se atenha aos fatos”, como se diz.
– Mas contar alguma coisa, usando as palavras, seja em inglês ou em japonês, já não é de certa forma uma invenção? O simples fato de olhar para esse mundo já não é de certa forma uma invenção?
– Hum...
– O mundo não é apenas do jeito que ele é. É também como nós o compreendemos, não é mesmo? E, ao compreender alguma coisa, trazemos alguma contribuição nossa, não é mesmo? Isso não faz da vida uma história?”

Um comentário:

Jalmir disse...

Doney, excelente !!!

Vi Pi duas vezes nesses vôos da Emirates, aqui para a Malásia, domar um tigre, mesmo em condições insanas no mar é algo fantástico.

Quanto a Hiena acho um animal espetacular mas covarde, tudo bem que temos um predador pior que ela, que somos nós, homens, somos capazes de matar qualquer animal apenas por prazer, isto é ser pior que uma hiena ou qualquer outro.

Gostei muito!!!