A conversão de São Paulo

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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O País do Carnaval – Jorge Amado

Editora: Record
ISBN: 85-01-05497-6
Opinião★★★★☆
Páginas: 194

“As gerações se sucedem vertiginosamente. E vêm árdegas, querendo realizar alguma coisa, manter acesa a lâmpada do espírito. Mas em pouco tempo o entusiasmo não está mais. Nenhum de nós dura tempo o suficiente para se realizar. E não deixamos nem sequer um traço da nossa passagem.”


      “Só o entendimento do desespero constrói.”


      “E o mundo o que é para nós senão a nossa visão dele?”


     “O país em que nascemos pesa sobre nós. É bastante olhar o Brasil de hoje, no seu aspecto político por exemplo, para termos uma ideia do drama que se está passando aos nossos olhos. O caos de todos os lados. E perdidas no caos algumas ameaças terríveis. O mais é apenas inexistência e sono. A mocidade não tem um sentido, não tem uma direção, não tem uma causa. A única aspiração da nossa mocidade é a velhice. Poucos apenas nela trabalham pela nossa libertação. Poucos apenas são os que resistem procurando pensar e criar, onde naturalmente não existe nem pensamento nem criação. Você, meu amigo, é um desses marcados para essa desgraça, para essa dilaceração contínua e cuja recompensa é saber que tudo que está diante de nós não apodrece porque alguns poucos abrem as janelas do espírito de quando em vez, e são sacrificados por esse gesto.”

Prefácio – Augusto Frederico Schmid

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      “Este livro narra a vida de homens céticos que, entretanto, procuram uma finalidade. Tentaram alcançá-la. Uns no amor, outros na religião. O fracasso das tentativas não é prova da sua inutilidade.”


      “Porque, procurando bem, até homens inteligentes se encontram no Brasil.”


      “No Brasil a questão de religião é uma questão de medo.”


      “A serenidade é uma falsificação da felicidade.”


     “– Se vocês fossem iguais a todos os outros, achariam a Felicidade em qualquer parte. Na religião, no amor, no trabalho, em qualquer coisa. Mas, como vocês são superiores, não a encontrarão nunca. A Felicidade pertence somente aos burros e aos cretinos. Felizmente, nós somos infelizes.”


     “– Toda prostituta tem uma tragédia, Jerónimo. Quer ver?
     E Pedro Ticiano chamou a mulher que passava.
     – Minha filha, conte aqui para nós, para mim e para este amigo que é o “último romântico”, como você veio para esta vida, esta vida terrível que as mulheres casadas chamam de fácil...
     Ela não se fez de rogada. E começou a contar, os olhos baixos amassando com os dedos a ponta do casaco, quase envergonhada. Bonitinha, aquela mulher! Dois grandes olhos espantados e uma boca pequena onde brincava um sorriso fácil de oferecimento. Nada de aristocrático. O tipo da camponesa bonita.
     Tudo igual à das outras... Vivia lá em Nazaré com os pais. Cosia. Ganhava até dinheiro. Um dia, um homem rico e elegante que fora passear na cidade prometera-lhe casamento, casa bonita, automóveis. Naquele tempo ela ainda acreditava nos homens. Depois, deixara-a perdida, odiada pela família. Viera então para a Bahia. E aí estava a sua história. Igual à das outras...
     – Vivendo a tragédia das prostitutas que nasceram para mães de família. Em todo caso, minha filha, você escapou de ter sofrido uma tragédia muito maior, a de ter morrido virgem...”


     “– Só o estômago não tem nada a ver com as nossas tragédias. Continua a exigir comida da mesma maneira.”


      “Quem não tem fome não conhece a infelicidade.”


      “Dizem que foi Deus quem criou os homens. Eu acho que foram os homens que criaram Deus. De qualquer modo, homens criados por Deus ou Deus criado pelos homens, uma e outra obra são indignas de uma pessoa inteligente.”


      “A experiência é feita das desilusões.”


      “Toda vitória na vida é um fracasso na arte.”

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