A conversão de São Paulo

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terça-feira, 12 de novembro de 2013

Ecos da Marselhesa: dois séculos reveem a Revolução Francesa – Eric J. Hobsbawm

Editora: Companhia das Letras
ISBN: 85-7164-594-9
Tradução: Maria Celia Paoli
Opinião: **
Páginas: 160


    “A burguesia, uma nova nação, cujas maneiras e moral são constituídas pela igualdade civil e pelo trabalho independente, surgiu agora entre nobres e servos e, portanto, destruiu para sempre a dualidade social original do feudalismo anterior. Seu instinto para a inovação, sua atividade, o capital que acumulou formam uma força que reage de mil modos contra o poder daqueles que possuíam a terra.” (Augustin Thierry)


     “Qualquer que fosse a natureza da classe média ou burguesia do século XIX, ela era formada pela combinação de vários grupos situados entre a nobreza e o campesinato, e que antes não julgavam que tivessem, necessariamente, muito em comum entre si, como uma classe única, consciente de si e tratada pelos outros como tal; esse era o caso sobretudo daqueles cuja posição estava baseada na educação. A história do século XIX é incompreensível para qualquer um que suponha que apenas empresários eram realmente burgueses.”


     “Em alguns momentos entre o século XV e a metade do século XX, as histórias de quase todos os Estados “desenvolvidos” – com algumas raras exceções, como a Suécia – e de todos os grandes poderes do mundo moderno registraram uma ou mais descontinuidades repentinas, cataclismas ou rupturas históricas, classificadas como revolução ou moldadas na revolução. É um abuso atribuir tal fato, simplesmente, a uma combinação de coincidências, embora seja um tanto quanto ilegítimo e evidentemente errado inferir, do registro histórico, que é inevitável que a mudança venha por rupturas descontínuas em todos os casos.”


     “As “classes disponíveis” do Terceiro Estado, que assim se tomaram naturalmente modeladores da nova França, estavam no meio em outro sentido. Elas se encontravam política e socialmente opostas tanto à aristocracia acima quanto ao povo abaixo. O drama da Revolução Francesa para aqueles que podemos chamar, em retrospecto, de liberais moderados – a palavra em si mesma, como sua análise da Revolução, somente apareceu na França depois da queda de Napoleão – foi que o apoio do povo era essencial contra a aristocracia, o antigo regime e a contrarrevolução, enquanto esse povo e os estratos médios tinham interesses seriamente conflitantes. Tal como foi posto, um século depois, por A. V. Dicey, ele próprio o menos radical dos liberais: “A confiança no apoio da multidão parisiense significava conivência com o ultraje e com crimes que tornavam impossível estabelecer instituições livres na França. A repressão à multidão parisiense significava reação e, muito provavelmente, a restauração do despotismo”. Em outras palavras, sem a multidão não haveria a nova ordem; com ela, viria o risco da revolução social, o que pareceu tornar-se realidade por um breve período em 1793-1794. Os construtores do novo regime precisavam de proteção contra os velhos e os novos perigos. Não surpreende que aprendessem a se reconhecer, no curso dos acontecimentos e também retrospectivamente, como uma classe média, e a reconhecer a Revolução como uma luta de classes tanto contra a aristocracia quanto contra os pobres.” 


     “O medo de revolução é mais comum do que as perspectivas reais dela.”


     “A burguesia havia ganhado uma liberdade genuína através da revolução, mas a liberdade do povo era apenas nominal. Portanto, o povo precisava fazer sua revolução francesa. Observadores mais lúcidos e radicais iam adiante e viam uma luta de classes entre a classe dominante dos novos burgueses e o proletariado que ela explorava como o principal conteúdo da história capitalista – assim como aquela da burguesia contra o feudalismo nos tempos antigos.”


     “Uma vez mais, lembremo-nos do protótipo histórico derivado da Revolução Francesa. Ele consistia de seis fases: o rebentar da Revolução, ou seja, a perda de controle pela monarquia, do curso dos acontecimentos na primavera e no verão de 1789; o período da Assembleia Constituinte, que terminou com a Constituição Liberal de 1791; a quebra da nova fórmula em 1791-1792, devida a tensões internas e externas, que levaram à segunda revolução em 10 de agosto de 1792 e à instituição da República em 1792-1793, quando a direita e a esquerda revolucionárias – a Gironda e a Montanha – lutavam por ela na nova Convenção Nacional, e o regime lutava contra a revolta interna e a intervenção estrangeira. Isso culminou no golpe que conferiu poder à esquerda, em junho de 1793, o qual introduziu a nova fase: a República Jacobina, a fase mais radical da Revolução Francesa, aliás, associada ao terror (como o indica seu nome popular), uma sucessão de expurgos internos e uma extraordinariamente bem-sucedida mobilização para a guerra total da população. Quando isso salvou a França, o regime radical terminou no Nove Termidor. Para nossos objetivos, o período que vai de julho de 1794 até o golpe de Napoleão pode ser visto como uma fase única, a quinta, que tentou retroceder para um regime mais viável e moderado. Essa tentativa malogrou, e no Dezoito Brumário de 1799 o regime autoritário e armado de Bonaparte assumiu o poder.”


     “Além do Termidor e de Bonaparte, dos jacobinos e do Terror, a Revolução Francesa sugeria mais comparações com a Revolução Russa. Uma das primeiras coisas observadas sobre ela foi que parecia não tanto um conjunto de decisões planejadas e ações controladas por seres humanos, mas um fenômeno natural que não se submetia ao controle humano, escapando de seu âmbito. Em nosso século, acostumamo-nos a outros fenômenos que têm essa característica: as duas guerras mundiais, por exemplo. O que realmente acontece em tais casos, como eles se desenvolvem, qual é seu resultado, tudo isso não tem, praticamente, nada que ver com as intenções daqueles que tomaram as decisões iniciais. Esses acontecimentos têm sua própria dinâmica, sua própria lógica imprevisível. Na década de 1790, os contrarrevolucionários foram provavelmente os primeiros a chamar a atenção para essa incontrolabilidade do processo revolucionário, uma vez que isto lhes fornecia os argumentos contra aqueles que apoiavam a Revolução. No entanto, os próprios revolucionários também fizeram a mesma observação, comparando a Revolução a um cataclisma natural. “A lava da revolução corre majestaticamente, nada poupando”, escreveu o jacobino alemão Georg Forster em Paris, em outubro de 1793. A revolução, dizia, “quebrou todos os diques, venceu as barreiras erigidas por muitos dos melhores intelectuais, aqui e em outros lugares [...] cujos sistemas prescreviam seus limites”. A revolução era simplesmente “a Revolução, um fenômeno natural raro demais para conhecermos suas leis peculiares”. É claro que a metáfora de um fenômeno natural percorria ambos os caminhos. Se sugeria uma catástrofe aos conservadores, era uma catástrofe inevitável e que não se podia deter. Conforme os conservadores inteligentes logo entenderam, era algo que não podia ser simplesmente suprimido, mas sim canalizado e domesticado.”


     “A Revolução Francesa deu aos povos a noção de que a história pode ser mudada por sua ação. Deu-lhes também, a propósito, o que até hoje permanece como a mais poderosa divisa jamais formulada para a política da democracia e das pessoas comuns que ela inaugurou: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”. (...) A Revolução francesa demonstrou o poder das pessoas comuns de uma maneira que nenhum dos governos subsequentes jamais se permitiu esquecer – quando menos, na forma de exércitos destreinados, improvisados, recrutados, derrotando a coalizão das melhores e mais experimentadas tropas dos antigos regimes.
    De fato, o paradoxo do revisionismo é que procura diminuir a significação histórica e a capacidade de transformação de uma revolução cujo impacto extraordinário e duradouro é absolutamente óbvio, a tal ponto que só pode ser negligenciado por uma combinação de provincianismo intelectual e visão estreita; ou então pela miopia monográfica que é a doença ocupacional dos pesquisadores especializados nos arquivos históricos.
    O poder do povo, que não é a mesma coisa que a versão domesticada que se expressa em eleições periódicas pelo sufrágio universal, é visto raramente e mais raramente ainda exercido. Contudo, quando é visto, como em muitos continentes e ocasiões no próprio ano do bicentenário da Revolução francesa – quando transformou os países da Europa oriental –, é um espetáculo irresistível e impressionante. Nenhuma revolução anterior a 1789 foi tão decisiva, evidente e imediatamente eficaz. Foi o que transformou a Revolução francesa em uma revolução.
     (...) Foi isso que fez com que homens e mulheres pensassem na Revolução francesa como “a mais terrível e crucial sucessão de acontecimentos em toda a história”. Foi isso que fez Thomas Carlyle escrever: “A mim parece-me que, se houvesse a História correta (essa coisa impossível que chamo de História) da Revolução francesa, ela seria o grande poema de nosso tempo, como se os homens que pudessem escrever a sua verdade valessem tanto quanto todos os outros escritores e poetas”. E é isso que faz com que seja sem sentido para o historiador pinçar e escolher as partes desse grande levante que merecem louvor e as que devem ser rejeitadas. A revolução que se tornou “o verdadeiro ponto de partida da história do século XIX” não é este ou aquele episódio ocorrido entre 1789 e 1815, mas o seu todo.
    Felizmente, a Revolução Francesa ainda esta viva. Pois Liberdade, Igualdade e Fraternidade e os valores da razão e do Iluminismo – os valores que construíram a civilização moderna desde os tempos da Revolução Americana – são mais necessários do que nunca, na medida em que o irracionalismo, a religião fundamentalista, o obscurantismo e a barbárie estão, mais uma vez, avançando sobre nós. É, portanto, uma boa coisa que, no ano de seu bicentenário, tenhamos a ocasião de pensar novamente sobre os acontecimentos históricos extraordinários que há dois séculos transformaram o mundo. Para melhor.”

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