A conversão de São Paulo

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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Anarquismo - Roteiro da Libertação Social – Edgard Leuenroth

Editora: Mundo livre
Opinião: ****
Páginas: 238


     “É fato comum de cada dia encontrar-se em discursos de políticos, como na imprensa e em livros a palavra anarquia como qualificativo de uma situação de desordem, o que demonstra a ignorância em matéria de etimologia e filosofia desses oradores, jornalistas e escritores. Nunca se diz que anarquia significa liberdade e justiça para todos.
     Em rigorosa análise, o ideal de uma verdadeira democracia, a que aspira, em nossos dias, a maioria da humanidade, só se poderá realizar com a ausência da coação econômica e política.
     Se o povo resolve seus problemas sociais sem a intervenção de políticos profissionais, evitando rigorosamente, ao mesmo tempo, a corruptora burocracia administrativa, então o regime será verdadeiramente democrático, e, portanto, ácrata, isto é, anarquista. Em tal regime existirá a anelada felicidade social. A doutrina anarquista nos apresenta o ideal de uma ordem social sem exploração privada ou estatal, no qual a administração das coisas acabará com a dominação do homem. Esta definição não é nova, mas tem de ser repetida, porque a mentira também se repete sempre.”
(Agustin Souchy)


      “A atual sociedade é o resultado das lutas seculares que os homens travaram entre si. Os homens desconheciam as vantagens que podiam resultar para todos, orientando-se pelas normas da cooperação e da solidariedade. Consideravam cada um de seus semelhantes (excetuados, quando muito, os membros de sua família), um concorrente ou um inimigo. E procuravam monopolizar, cada qual para si, a maior quantidade possível de gozos, sem pensar nos interesses dos outros.
     Naturalmente, nessa luta, os mais fortes e os mais espertos deveriam vencer, e de diversas maneiras, explorar e oprimir os vencidos.
     Enquanto o homem não foi capaz de extrair da natureza senão o estritamente necessário à sua manutenção, os vencedores limitaram-se a pôr em fuga e a massacrar os vencidos para se apoderarem dos produtos silvestres, da caça, da pesca num dado território. Em seguida, quando, com a criação do gado e com o aparecimento da agricultura, o homem soube produzir mais do que precisava para viver, os vencedores acharam mais cômodo reduzir os vencidos à escravidão e fazê-los trabalhar para eles.
     Muito tempo após, tornou-se mais vantajoso, mais eficaz e mais seguro explorar o trabalho alheio, por outro sistema: conservar para si a propriedade exclusiva da terra e de todos os instrumentos de trabalho, e conceder liberdade aparente aos deserdados. Logo, estes, não tendo meios para viver, eram forçados a recorrer aos proprietários e a trabalhar para eles nas condições que os patrões lhes impunham.
     Assim, pouco a pouco, a Humanidade tem evoluído através de uma rede complicada de lutas do toda espécie – invasões, guerras, rebeliões, repressões, concessões feitas e retomadas, associações dos vencidos unindo-se para a defesa e dos vencedores coligados para a ofensiva. O trabalho, porém, não conseguiu ainda a sua emancipação. No atual estado da sociedade, alguns grupos de homens monopolizam arbitrariamente a terra e todas as riquezas sociais, enquanto que a grande massa do povo, privada de tudo, é espezinhada e oprimida.
     Conhecemos o estado de miséria em que se acham geralmente os trabalhadores, e conhecemos todos os males derivados dessa miséria: ignorância, crimes, prostituição, fraqueza física, abjeção moral e morte prematura.
      (...) Em resumo, querem os anarquistas:
1.° Abolição da propriedade (capitalista ou estatal) da terra, das matérias-primas e dos instrumentos de trabalho, para que ninguém tenha meios de explorar o trabalho dos outros e para que todos, assegurados os meios de produzir e de viver, sejam verdadeiramente independentes e possam associar-se livremente uns com os outros, no interesse comum e de conformidade com as afinidades e simpatias pessoais.
2.° – Abolição do Estado e de qualquer poder que faça leis para impô-las aos outros; portanto, abolição de todos os órgãos governamentais e todos os elementos que lhe são próprios, bem como de toda e qualquer instituição dotada dos meios de constranger e de punir.
3.° – Organização da vida social por iniciativa das associações livres e das livres federações de produtores e consumidores, criadas e modificadas conforme à vontade de seus componentes guiados pela ciência e pela experiência e libertos de toda obrigação que não se origine da necessidade natural, à qual todos de bom grado se submeterão quando lhe reconheçam o caráter inelutável.
4.° – A todos serão garantidos os meios de vida, de desenvolvimento, de bem-estar, particularmente às crianças e a todos os que sejam incapazes de prover à própria subsistência.
5.° – Guerra a todos os preconceitos religiosos e a todas as mentiras, mesmo que se ocultem sob o manto da ciência. Instrução completa para todos, até aos graus mais elevados.
6.° – Guerra às rivalidades e aos prejuízos patrióticos. Abolição das fronteiras, confraternização de todos os povos.
7.° – Libertação da família de todas as peias, de tal modo que ela resulte da prática do amor, livre de toda influência estatal ou religiosa e da opressão econômica ou física.”
(Errico Malatesta)


      “O ponto de vista comum em torno do qual todos os anarquistas estão de acordo, porque reagrupa todas as tendências do anarquismo, por mais variadas que sejam, é aquele que conduz à mesma meta e que se caracteriza no fato de se manter o movimento anárquico com uma feição que o distingue de todos os outros movimentos político- social: a concepção de um futuro para a Humanidade que exclua todo princípio de autoridade, de domínio e de exploração do homem pelo homem.”
(Gigi Damiani)


      “O anarquismo pode ser filosofia e ciência político-econômica, sem cair no dogmatismo; simples especulação idealista ou fundamentalmente prático em suas atitudes fora de qualquer ação impositiva; pode apegar-se ao materialismo histórico ou apelar para as forças morais e considerar o sentimento como fator mais eficaz para libertar o homem da incompreensão em que se debate; pode dizer-se ateu, agnóstico ou divagar em hipóteses espiritualistas; mas conserva a sua idoneidade quanto à necessidade que há em combater todo e qualquer princípio de idolatria estatal, conformista e de monopólio econômico, É anti-autoritário e anti-totalitário em todas as circunstâncias.”
(Gigi Damiani)


      “Viver uma vida integralmente anárquica na sociedade presente é impossível, porque a autoridade do homem sobre o homem, a exploração do trabalho alheio e a prática de iludir a boa-fé do próximo constituem as regras fundamentais da ordem social em que vivemos. A autoridade do Estado, o desfrutamento dos patrões, a ação nefasta e embrutecedora do clero e da escola oficial estão sempre presentes, assediam-nos, comprimem-nos de todos os lados e não se pode fugir aos seus tentáculos absorventes.
     Ser anarquista requer, por conseguinte, aspirar a uma forma de convivência social isenta de governantes, de exploradores e de todas as mentiras convencionais interessadas em manter o presente estado de coisas; lutar para tornar possível o advento da anarquia, contra as violências, os prejuízos sociais, as mentiras e os interesses criados em que se alicerça a ordem existente.”
(“Umanità Nuova”, Roma)


     A perspectiva de uma sociedade sem governo, sem patrões e sem charlatões sorri a todos os homens que amam a liberdade, sorri particularmente, luminosamente, às multidões famintas de deserdados e oprimidos que, desde milênios, são vítimas dos governos, dos privilégios da riqueza e dos monopólios do saber.
     Se alguma vez esses deserdados são atormentados pela dúvida, é porque, de tão bela, consideram irrealizável o advento da anarquia; é porque as agruras da luta pelo pão de cada dia lhes absorvem o tempo e os meios de cultivar as ideias e de afirmar as possibilidades da realização do ideal anárquico.
(“Umanità Nuova”, Roma)


      “Os anarquistas não condenam a existência do automóvel, do rádio, do avião, de todas as coisas belas e úteis. Condenam o privilégio que têm alguns de possuir e usar essas coisas todas, enquanto a outros não lhes é permitido fazê-lo. Condenam, principalmente, o fato de que, para usarem essas coisas, alguns explorem o trabalho de outros, que construam os seus prazeres, e até mesmo os seus vícios, com a miséria dos seres a quem exploram o trabalho, os sentimentos, a honra e a dignidade.”
(Souza Passos)


     “Todos iguais, como os anarquistas concebem a expressão, é dar a todos o direito de viver, não matando, mas elevando a vida à mais alta expressão da dignidade. Todos iguais para receber os benefícios da vida livre, do amor sem peias e preconceitos, da consciência livre, da livre manifestação de todos os sentidos. Iguais no dever para todos de fazer alguma coisa útil, contribuindo, cada qual, com a sua capacidade física, intelectual, moral ou artística, para o bem de todos.”
(Souza Passos)


Os Anarquistas e as Lutas Sociais
     O anarquista não quer fazer escada do seu companheiro de desventuras; não procura melhorar sua posição tornando-se instrumento da cobiça do capitalista; não se presta aos desejos do patrão, não se humilha diante dele, não pactua com o inimigo seu e de sua classe. Não aspira a viver à parte, enquanto todos sofrem; não separa a sua causa da de seus companheiros; não reconhece diferença de raça ou de nacionalidade; não se ilude imaginando poder arrancar ao capitalista concessões valiosas e duradouras, não pensa exclusivamente no seu interesse momentâneo, mas remonta à causa de seus males e contra ela se insurge.
     O anarquista reclama para os outros o mesmo que para si; recusa servir de rufião aos patrões; revolta-se contra todas as instituições presentes porque todas sancionam a onipotência dos ricos; não elege fazedores de leis para não consentir na sua escravidão e para não se deixar enganar pelos costumados mariolas; não confia nas mentirosas promessas dos governantes. E ao burguês que tenta, para o subjugar, ora à força, ora à lisonja, ele responde: “O teu ouro não me seduz, porque fui eu que o extraí das entranhas da terra. As tuas vinganças não me aterrorizam, porque a vida que me deixas é uma contínua agonia; o teu poder esta condenado a cair. Eu gozo combatendo-o, e cada revolta minha acelera o triunfo da liberdade e da justiça”.
"A Plebe", São Paulo


      “Se o bem individual fosse realmente oposto ao da sociedade, não teria podido existir a espécie humana.”
(Pedro Kropotkine)


     “O ser humano não é um ser de conflitos. Quando estes surgem é por motivo anormais e estranhos ao ser humano no decurso de seu viver. Freud, talvez sem o propósito específico de não lhe dar esse sentido, assentou uma das bases mais fortes da ética moderna ao demonstrar que os conflitos psicológicos, considerados sempre como inerente e consubstanciais à psique humana e, portanto, rodeadas de todos os mistérios metafísicos, têm origem e natureza em determinadas facetas anormais do viver, que retorcem e reprimem os instintos. De acordo com as leis naturais, um ser vivente não pode levar na essência mesma de sua natureza manifestações contraditórias em conflito permanente, se isso não for motivado por causas alheias a essas essências que o caracterizam. Todo ser vivo é manifestação de harmonia vital; quando essa harmonia cessa, vem a morte, pois que a vida em si não é senão manifestação de harmonia. E o ser humano, que é uma das manifestações mais altas da vida, não pode conter elementos contraditórios permanentes naquilo que constitui os fundamentos de sua existência.
     Os instintos que nos induzem à satisfação das necessidades inerentes ao nosso próprio viver não podem ficar à margem da ética nem em contradição com ela. Não pode ser amoral beber-se um copo d’água, comer uma maçã ou coabitar com o sexo contrário, que é o complemento e fator da vida, ou descansar de uma fadiga. Como tampouco é moral satisfazer essas necessidades em detrimento da satisfação das mesmas necessidades dos outros.
     As verdadeiras essências da ética residem, pois, na harmonização entre a satisfação dos instintos que nos induzem à conservação da nossa própria existência e os que nos impelem à prática da cooperação na convivência com os nossos semelhantes.
     A concepção ética do anarquismo não pode ser outra senão essa ética natural manifestada pela livre expressão dos instintos. Daí a razão de ter o anarquismo que rechaçar toda ética imposta de fora, o que, em definitivo, é autoritarismo.”
(B. Cano Ruiz, “Tierra y Libertad”)


     “Naturalmente, não me ocupo, neste trabalho dos sinistros mistificadores para os quais o idealismo não passa de mera manifestação de hipocrisia e de um instrumento de engano; dos capitalistas que pregam aos trabalhadores o sentimento do dever e o espírito de sacrifício, para amortecer-lhes as energias e poderem continuar pacificamente acumulando fortunas à custa de seu trabalho e de sua miséria; dos “patriotas” que, cheios de fervor pelo amor à pátria e dominados pelo espírito nacionalista, vivem explorando por todos os modos o próprio país e, quando podem, procedem da mesma forma quanto às pátrias alheias; dos militares que, pela glória da pátria e honra da sua bandeira, atacam outros povos, maltratando-os e oprimindo-os.”
(Errico Malatesta)


     “Em minha vida de militante libertário, tive oportunidade de, durante muitos anos, frequentar organizações operárias, grupos revolucionários e sociedades educativas, e sempre verifiquei que os elementos mais ativos, os mais dedicados, os que sempre estavam dispostos às mais duras tarefas, contribuindo não apenas com a sua atividade, mas ainda com recursos retirados de seus ganhos, não eram os mais necessitados, mas, ao contrário, justamente os de melhor situação – e que se sentiam impelidos à luta não tanto pelas próprias necessidades, mas pelo desejo de cooperar em prol de uma boa obra e sentirem-se nobilitados por um ideal. Os elementos de situação mais miserável, aqueles que, em virtude de suas penosas condições de vida deveriam ser os mais direta e imediatamente interessados na mudança das coisas, conservam-se ausentes, ou participam apenas quando a isso levados por um interesse imediato e, assim mesmo, como parte passiva, beneficiando-se do esforço dos demais.”
(Errico Malatesta)


     “Parlamento é a máscara política inventada para fazer crer ao povo ser ele, povo, o soberano e serem púrpuras seus andrajos de escravo.”
(José Oiticica)


     “Para defenderem os próprios privilégios, os exploradores lançam os explorados uns contra os outros, criando toda uma série de pequenos interesses que ligam a eles uma parte dos exploradores, e todos se empenham na defesa dos “grandes privilégios”. E são os trabalhadores, cujos frutos de trabalho lhes permitem apenas viver uma vida de miséria e humilhações, que se transformam nos verdadeiros pontilhões do atual estado de sujeição econômica, política e moral.”
(Ugo Fedelli)


     “Como libertário, não aceito a ação parlamentar, que implica na delegação de poderes, o que constitui séria divergência doutrinária com o anarquismo. É em obediência a este sábio critério que os libertários, arrostando dificuldades sem conta, lutam incessantemente no sentido de conseguir que cada elemento do povo, libertando-se da mentalidade messiânica imperante, tornando-se senhor de si mesmo, constitua uma unidade ativa na vida social, agindo em causa própria no patrocínio dos interesses que, sendo seus, estão em harmonia com os da coletividade. (...)
     A experiência é a grande mestra, e esta nos ensina que o Parlamento, instituição essencialmente burguesa, nunca agiu e jamais poderá agir em detrimento da vigente ordem de coisas, o que corresponde a nada fazer em proveito do povo e da causa pública.”
(Edgard Leuenroth)


     “Os socialistas libertários ou anarquistas, condenando o Estado como órgão parasitário, explorador e tirânico, e a instituição do monopólio da propriedade, como iníqua e anti-social, lutam por uma organização que considera o indivíduo como sua unidade essencial e que, repudiando todas as normas totalitárias e ditatoriais, seja baseada no livre consenso, determinada e regulada pelas necessidades, aptidões, ideias e sentimentos de cada qual, dentro de uma vasta confederação socialista-libertária de comunas livres, estruturadas pelas organizações profissionais, técnicas, científicas, artísticas, culturais, recreativas, etc. Esse é o verdadeiro socialismo, obediente aos seus fundamentos históricos, que os anarquistas propagam, lutando para que seja aceito e posto em prática pelo povo.”
(Edgard Leuenroth)


     “O anarquismo é o herdeiro e o intransigente defensor do verdadeiro socialismo. Só o anarquismo vem defendendo desde os seus primórdios, trazendo-o íntegro até os nossos dias, o que o socialismo tem de essencial: o sentido da liberdade.
     O marxismo, embora tenha concorrido com algumas contribuições apreciáveis para o estudo do problema social, tornou-se, em sua contextura e em sua ação, um desvirtuamento e uma corrupção do socialismo. À medida que consegue vencer politicamente, vai esvaziando o socialismo do seu conteúdo idealístico e de sua renovação social.”
(G. Ernestan)


     “Socialismo é o sistema de organização da sociedade que tem por base a substituição do regime capitalista – fundamentado no domínio da propriedade privada e do salariato, instrumento da exploração do homem pelo homem – por um regime cujo princípio fundamental é socializar, isto é, pôr em comum os bens sociais, em função dos interesses da coletividade, como produtos que são dos esforços de todas as gerações.
     Socializar quer dizer tornar social a propriedade hoje em poder do capitalismo. A riqueza existente, que em sua origem é social (obra de todos), passa a ser também social no seu destino, para ser de todos. Não se pode confundir socialização com estatização – transferência para o Estado da propriedade capitalista.”
(Edgard Leuenroth)


     “Onde os comunistas chegaram a tomar o poder, o socialismo serve de rótulo para um regime de capitalismo de Estado, continuando o proletariado sujeito à tirania do salariato – instrumento de exploração capitalista e negação do socialismo – e do Estado todo-poderoso, senhor das coisas e dos destinos das gentes.”
(Edgard Leuenroth)


     “O anarquismo tem expressão num movimento constituído de unidades autônomas e ativas, que a ele se ligam – sem perda de personalidade – por deliberação voluntária e consciente, e não de indivíduos ainda sem consciência social bem formada, arregimentados sob disciplina autoritária, obedientes às palavras de ordem de elementos de cúpula, para serem executadas automaticamente, sem possibilidade de nenhum exame ou divergência.
     O movimento libertário assenta a base ética-social de sua estruturação no objetivo de formar conjuntos constituídos de unidades representando valores individuais, e não multidões de atuação oscilante, sem individualidade própria, dependentes sempre de determinações de líderes, dirigentes, chefes, muitas vezes transformados em messias, dos quais tudo esperam.
     Há ainda uma circunstância relevante, que não permite ajuizar-se sobre a situação do anarquismo mediante confronto das bases de seu movimento com as de outras correntes do socialismo e de organizações de orientação nacionalista ou mística: o movimento anarquista não oferece a possibilidade da obtenção de empregos ou da conquista de postos de representação política, não mantendo quadros de funcionalismo para a movimentação de sua obra e nem apresentando candidatos a eleições.
     Exatamente o contrário se verifica em relação aos outros movimentos ou organizações que, com diferença de proporções, sujeitara o desenvolvimento de sua atividade à atuação de funcionalismos numerosos, constituídos, em grande parte, de elementos retirados da produção, isto é, do exercício de suas profissões, e que, desabituando-se das obrigações de produtores, passam a constituir um burocratismo desvirtuador e parasitário. Além dos cargos nos partidos e nas organizações, oferecem ainda postos nas casas de representação municipal, nas deputações e senatorias e em cargos governamentais, tudo isso proporcionando a possibilidade de vida mais folgada, e ainda, para muitos, o ensejo para a exibição de vaidades e de ganhos cuja origem nem sempre pode ser justificada. (...)
     Daí concluir-se que, não oferecendo o movimento anarquista as vantagens de ordem pessoal proporcionadas por outros movimentos, partidos e agrupações, dificilmente pode atrair para suas fileiras os numerosos elementos que orientam a própria atividade social na base de entusiasmos ocasionais sem motivo ideológico, de simpatias ou de antipatias pessoais, de paixões políticas, o que lhes permite alternar as respectivas ações em campos os mais diversos e muitas vezes contraditórios, como consequência de influências dominantes em cada situação.”
(Edgard Leuenroth)


     “Os anarquistas não consideram o fascismo como fenômeno local adstrito a este ou àquele país, mas como manifestação internacional de sintoma de decomposição do regime capitalista, que, por esse meio, pretende fazer perdurar o domínio de seus privilégios, esmagando, pela reação feroz, todas as aspirações de bem-estar e de liberdade do povo trabalhador.”
(Edgard Leuenroth)


     “Essa preponderância clerical em todas as manifestações da vida brasileira torna-se a cada dia mais acentuada, mais dominante, apresentando já negra perspectiva de uma ditadura teocrática a estrangular, muito breve, os resquícios de liberdade que ainda nos restam.”
(Edgard Leuenroth)


     “Não obstante entenderem que a transformação social não pode ficar na dependência da cultura geral e total do povo, os anarquistas são educacionistas, porque estão convencidos de que essa transformação irá tanto mais longe na vida das realizações anárquicas quanto mais elevada for a soma de evoluções individuais. Estão, entretanto, certos de que somente com a transformação da sociedade se conseguirá dar instrução racional e geral ao povo, porque isso presentemente não será possível, em virtude da instrução e da educação do povo dependerem dos elementos interessados em mantê-lo na ignorância, para que se submeta à tirania político-econômica-religiosa do regime burguês.”
(Edgard Leuenroth)


     “Para os partidários do Estado, a coisa apresenta-se fácil. O culto do poder, a crença messiânica no governo, favorecem-lhes a tendência do menor esforço, a inércia mental, a hipoteca do próprio destino a certo número de eleitos ou de afortunados conquistadores dos cargos eletivos. O Estado tudo fará. E são justamente os ideólogos dessa tendência os que mais reclamam “planos” e “programas” concretos aos anarquistas, afirmando a impossibilidade de uma ordem social que não tenha um poder dirigente, não obstante as desgraçadas experiências do estatismo e a evidência de que não se poderá nunca conseguir a verdadeira liberdade mediante órgãos de opressão e de privilégio.”
(Jacinto Cinazo – “Reconstruir”, Buenos Aires)


     “Há na História do Brasil um episódio interessantíssimo que também merece ser contado como valioso elemento demonstrativo do grande alcance da organização social sem Estado. Trata-se de um acontecimento do tempo da guerra do Paraguai, relatado nas “Memórias do Visconde de Taunay”.
     Quando as hordas semi-bárbaras do ditador do Paraguai, Solano López, invadiram Mato Grosso e destruíram a cidade de Nioaque, fazendo prisioneiros os habitantes que haviam escapado ao massacre, a população da cidade de Miranda, naquela zona, tomada de pânico, tratou de fugir para a terra de Maracaju, subindo por veredas quase intransponíveis, para atingir as chapadas virgens, onde se instalou com o que pôde ser transportado de seus haveres no desespero da fuga. E lá ficou aquela gente durante dois anos, sem contato algum com o resto do mundo, sem notícias, sem saber o que estava acontecendo serra abaixo. Decorrido esse tempo de isolamento abrupto, já apareceram, de improviso, guiados por um índio, dois oficiais do Exército, que tiveram situação de destaque na vida do país: Visconde de Taunay e Pereira Lago. Grande foi a impressão causada pelo que puderam observar. Aquela gente, que para aquelas alturas se transportara com parcos recursos, passando a viver isolada, sem receber auxílio algum de fora, muito ao contrário de ser encontrada em dificuldades, verificaram os visitantes que vivia verdadeiramente feliz. Desbravado o terreno, formaram-se os acampamentos, que depois se constituíram em comunidades. Todos se haviam adaptado e ajustado ao convívio livre, assentando entre si suas regras de conduta. Até as uniões matrimoniais se realizaram em perfeita harmonia. Trabalhando o solo virgem e fértil, conseguiram a abundância que excedia de suas necessidades de vida simples. Levavam, dessa forma, uma vida animada de felicidade sadia.
     Por quê? Por haverem ajustado as suas relações mútuas sobre uma base de entendimentos voluntários, governados pelo bom senso e pela ideia de justiça. Por não haver entre eles desigualdade, impostos a pagar. Porque para eles o Estado deixara de existir. E tão felizes viviam que Taunay e seu companheiro, depois de partilhar daquela existência por dois meses, só desceram a reunir-se à sua coluna impelidos pelo sentimento do dever. Nas páginas da “Memórias” sente-se o pesar com que o autor desceu da “paz dos morros”.”



     “O argumento principal que se apresenta contra a Anarquia é de sua impraticabilidade. Afora os que caluniam nosso movimento por paixões políticas ou interesses de classe e de partidos, há aqueles que consideram a Anarquia um belo e grande ideal, mas que não é para nossos dias, em virtude dos homens não estarem preparados para a vida livre das comunas libertárias. Os anarquistas estão convencidos justamente do contrário, pois entendem que será muito mais fácil viver-se com ordem nas coisas e harmonia entre os homens no regime baseado nos princípios de liberdade e de igualdade social, propugnado pelos anarquistas, do que na sociedade viciosa de hoje, na qual os homens só encontram condições negativas, isto é, em que a liberdade é coartada em todos os sentidos e a desigualdade domina em todas as manifestações da vida.
     Todos os regimes baseados nos princípios da autoridade, mesmo quando exercidos sob a designação socialista, já foram experimentados, na atual sociedade, com resultados negativos em suas formas absolutistas, monárquicas, republicanas ou de socialismo de Estado.”
(“A Plebe”, São Paulo)


     “A verdadeira democracia é a que respeita a sua significação histórica, a democracia direta, sem delegação de soberania, isto é, libertária, que reflete a aspiração instintiva do direito a uma existência livre de toda opressão política ou econômica, a democracia mercê da qual o povo em geral terá o seu quinhão de bem-estar, de paz e alegria, hoje privilégios apenas de minorias aproveitadoras.
     A democracia a que aspiram as consciências sãs e pela qual a Humanidade sangrou nas mais tremendas de todas as guerras, sacrificando a fina flor da mocidade, não é a deturpação política com que vem ela sendo mascarada, no tempo e no espaço, pelos potentados que reclamam a liberdade de usar e abusar da engrenagem legislativa ou governamental movidos apenas pelo interesse dos seus corrilhos políticos.
     Não! Semelhante democracia, nefasta pelos seus maléficos reflexos, foi a causa do aparecimento de todos os fascismos, sob rótulos vários, mas todos com a mesma essência liberticida. Igualmente, não pode ser considerada como expressão da democracia a ação parlamentar, que não passa de simples instrumento de prática político-partidária em regime pseudo-democrático. A democracia que estabelece a igualdade sem conteúdo econômico é uma democracia claudicante e o direito por ela proclamado apenas em caráter político, rigorosamente analisado, é apenas um direito teórico.”



     “Para que serve o Estado? Totalitário ou democrático, bolchevista, burguês ou teocrático, não serve senão para preparar novas guerras, legalizar privilégios e injustiças, extorquir taxas e impostos, sujeitar os homens a censuras e massacrar os descontentes. Para a multidão deserdada e oprimida, o Estado é uma desgraça permanente, um polvo insaciável, um carrasco impiedoso. E os anarquistas proclamam: livremo-nos da desgraça, do polvo, do carrasco, desmascarando a iniquidade dos seus poderes, a absurda ilusão das feiras eleitorais que fazem a prosperidade dos partidos e a escravidão do povo.”



     “Guardião feroz, insaciável, violento, implacável, de todos os privilégios e monopólio que impedem os trabalhadores de terem livre acesso aos meios de produção e ao gozo dos benefícios da riqueza social, é o Estado aparelhado de todos os meios materiais, morais e científicos que deveriam pertencer à sociedade.
     O Estado pretende ser a própria sociedade, e, em nome desta, oprime, massacra, bestializa e aniquila os seus componentes. Mas, quer a sua ação se desenvolva em nome de Deus ou dos homens, quer se diga liberal, democrático ou socialista, absoluto ou constitucional, monárquico ou republicano, a função do Estado é sempre a mesma: perpetuar a escravização das multidões que trabalham e produzem em proveito das minorias privilegiadas, as quais podem formar uma classe autônoma, constituída pelo capitalismo, como no Brasil, nos Estados Unidos etc., ou formar o conjunto integrante da burocracia estatal, como na União Soviética e nas autocracias orientais. Em todos os casos, seja qual for a sua estrutura, o Estado se considera depositário dos destinos da coletividade, confundindo e identificando os interesses e a fortuna da sociedade com os seus próprios interesses e fortuna.
     Enquanto existir o Estado, enquanto os oprimidos cultivarem ilusões com relação ao Estado, resignando-se ao seu jugo e obedecendo às ordens dos potentados, os meios de produção e de consumo, a terra, o ar, a luz, os conhecimentos e, por conseguinte, a riqueza e o bem-estar continuarão sendo monopólio da minoria privilegiada que, direta ou indiretamente, os controla; e a maioria dos produtores continuará sendo explorada, oprimida, vilipendiada: carne para canhões, campos de experiências políticas nas prisões e campos de concentração.
     Abolir o Estado, abolir o próprio princípio de autoridade do homem sobre o homem é, por conseguinte, condição essencial para a abolição dos monopólios e privilégios particulares da riqueza dos quais o Estado é sustentáculo através de seus presídios e de seus soldados. Nunca, como agora, neste momento de profunda crise das instituições sociais e da própria consciência humana, se torna tão evidente que o Estado, em todas as suas formas e manifestações, constitui o obstáculo irreparável à existência da paz entre os homens e dos povos, que desejam retornar às suas atividades na vida civil, que desejam e precisam trabalhar para o engrandecimento da espécie.”
(“L’Adunata dei Refrattari”, Nova York)


     “Não é verdade que mudadas as condições sociais, o governo mudaria de função – órgão e função são termos inseparáveis. Tirai a um órgão a sua função, e, ou o órgão morre ou a função se reconstitui. Pondo um exército em um país onde não haja nem razões nem temores de guerra interna ou externa, e ele provocará a guerra ou, se o não conseguir, dissolver-se-á. (...)
     Um governo, isto é, um grupo de pessoas encarregadas de fazer as leis e habilitado a servir-se da força de todos para obrigar cada um a respeitá-las, constitui já uma classe privilegiada e separada do povo. Ela procurará instintivamente, como todo corpo constituído, alargar as suas atribuições, subtrair-se à fiscalização do povo, impor as suas tendências e fazer predominar os seus interesses particulares. (...)
     Os governantes, habituados ao comando, não quereriam voltar para o povo e, se pudessem conservar em suas mãos o poder, segurariam as posições privilegiadas para quando tivessem de passá-las a outros. Usariam de todos os meios que tem o poder para fazerem eleger como sucessores os seus amigos, pelos quais seriam a seu turno apoiados e protegidos. E assim o governo passaria e repassaria pelas mesmas mãos, e a democracia, que é o pretenso governo de todos, acabaria como sempre em oligarquia, que é o governo de poucos, o governo duma classe.”
(Errico Malatesta)


      “Na idade média, os fidalgos, ou seja, os ricos possuidores de terras, – marqueses, barões, condes, duques etc. – rebelaram-se contra a prepotência dos reis e obrigaram-nos a consultá-los nos negócios importantes do reino. Suas assembleias chamaram-se cortes. Mais tarde, os ricos não-nobres, industriais, comerciantes, homens da lei, etc. exigiram dos reis que atendessem às suas vontades e deliberações. Suas assembleias chamaram-se parlamentos, ou congressos.
     A função desse parlamento é fazer as leis; mas, na realidade, quem faz as leis são os grandes possuidores ou seus apadrinhados, metidos por eles nos parlamentos. Durante as sessões parlamentares discutem-se as rugas partidárias, questiúnculas de aldeia e província, ambições eleitorais etc. Ninguém se preocupa com os problemas nacionais urgentes. Eles vêm prontos ou encomendados pelos mandões, pelos homens de dinheiro. Todos os parlamentos modernos são subservientes, e, longe de representarem o povo, representam os exploradores do povo.”
(José Oiticica)


     “O mais pronto recurso dos possuidores, na defesa contra os não-possuidores, é a força bruta, a violência organizada. Chamam a isso defender a ordem.
     A ordem, para eles, é a não-reclamação. Eles permitem certas reclamações superficiais, que não perturbem ou não contestem sua espoliação metódica. Se essa espoliação empobrece de tal maneira as massas que torna insuportáveis a vida, surgem graves conflitos, motins, revoluções. Para sufocá-las, o Estado, valendo-se da ignorância e miséria proletária, arregimenta suficiente número de soldados, paga-lhes um soldo, veste-lhes uma farda e, resguardado por duros castigos e férrea disciplina, confia-lhes armas aperfeiçoadíssimas. Assim, são os próprios proletários, aliciados na polícia, no Exército, na Marinha de Guerra, que sustentam a luta dos ricaços contra os pobres. Como fim elevado, nobre ideal, missão gloriosa apontam-lhes a defesa da pátria. O patriotismo, sentimento natural, é pelo Estado convertido em elemento psicológico de obediência para fins egoístas, para manutenção da ordem, para repressão violenta e brutal dos famintos e desafortunados. Ao menor movimento de greve, chama-se a polícia e, se não basta a polícia, recorre-se ao Exército. E este, formado para defender a pátria contra os inimigos externos, é obrigado a defender aqueles que exploram e oprimem os trabalhadores. Dessa constatação resulta a evidência de uma das injustiças da sociedade capitalista servindo-se de elementos do povo contra o próprio povo.
     Se os trabalhadores chegarem um dia à compreensão desse fato, não se alistarão jamais como soldados, e, se os soldados se compenetrarem da verdadeira traição que praticam contra os seus irmãos de miséria, não agirão contra eles e sim contra quem pretender forçá-los a essa torpeza.
     A propriedade particular e a concorrência geram ambições internacionais, rivalidades comerciais, necessidades imperialistas de colônias e mercados de escoamento. Essa luta de interesses pecuniários suscita as guerras, para as quais devem sempre achar-se preparadas as nações, isto é, os grupos capitalistas das diversas nações. A todo serviço, pois, da Marinha de Guerra, de Exércitos permanentes, serviço puramente feito em vista de futuras tremendas destruições com as guerras – sempre em perspectiva por causa dos interesses de cada grupo capitalista, – é um desperdiçador incomparável de energias.”
(José Oiticica)


     “Religião é um dos processos de subjugar o povo fazendo-o crer num ser onipotente, invisível, dono do Universo, castigador dos maus, premiador dos bons. Os maus, naturalmente, são os que se desviam das normas ditadas pelos sacerdotes e atribuídas à divindade. Os bons são os que a elas se conformam sem nenhum protesto.”
(Heliodoro Salgado)


     “A primeira coisa que há a fazer é furtar a família à intervenção sacerdotal. Se o casamento é, como já escreveu Proudhon, a comunhão dos amores, toda intervenção dum terceiro é adultério – embora moral. Pior ainda se esse terceiro, sendo um ser a quem é vedado constituir família, porque não pode legitimamente ter mulher sua, é sempre levado a cobiçar as dos outros. Em cada padre que abençoa noivos, há um sátiro roído de inveja. A estola sacerdotal é uma serpente portadora deste veneno letal: o adultério.”
(Heliodoro Salgado)


     “Partindo desse princípio, os anarquistas entendem por educação o conjunto de conhecimentos racionais e objetivos que contribuem para o aperfeiçoamento intelectual, moral e físico do indivíduo livre em função da sociedade livre. Sim, o indivíduo livre como produto de um ambiente onde nem mesmo a liberdade é imposta, mas exercida; responsável, porque a sua liberdade esta condicionada à liberdade dos seus semelhantes, e a responsabilidade na convivência social deve ser consequência da harmonia coletiva; autodisciplinado, porque, ao contrário da disciplina, imposta na sociedade capitalista por códigos e regras de moral que estão em desacordo com as leis naturais e obrigam o indivíduo a aceitar a desigualdade econômica e a conformar-se com as injustiças de que é vítima, as normas de vida numa sociedade anárquica o conduzem à necessidade de uma autodisciplina, pautando os seus atos de acordo com os interesses da coletividade, que são os seus próprios interesses.”
(“Revista Liberal”, Porto Alegre: João Penteado, Sousa Passos, Solidad Gustavo)


     “Muitos dos atos imorais são praticados, na sociedade burguesa, regime capitalista, por impulsos inerentes aos defeitos da própria organização social. Efeitos de uma causa que tem origem nas desigualdades e mentiras convencionais, na miséria e nas injustiças contrastantes do ambiente, e, sobretudo, na existência corruptora do dinheiro, que tudo compra, da virgindade da mulher a consciência dos políticos, da bajulação do lacaio à mão do assassino que mata para vingar uma afronta que não é sua. (...)
     O roubo, a prostituição, os desajustamentos familiares e suas consequências, menores abandonados e marginais do crime, são efeitos de uma causa de origem econômica. As aberrações sexuais, a vadiagem, o alcoolismo, as neuroses que enchem consultórios de psiquiatrias são produtos de uma educação irracional que tem base nas mentiras da civilização capitalista ou nos fanatismos religiosos. Efeitos, portanto, de uma causa que só tem razão de ser na organização social do Estado e do capitalismo, baseada no principio de autoridade e na propriedade privada.
     Essas causas não encontrariam justificativa dentro das comunidades anarquistas, desaparecendo, consequentemente os efeitos, que são os atos praticados por indivíduos anormais, produtos da anormalidade ambiente.
     Que faria o ladrão, por exemplo, com o produto do roubo em uma sociedade livre de onde tivessem desaparecido o dinheiro e o sistema de compra e venda, e na qual, como componentes da coletividade, não teria necessidade alguma de roubar? Por que razão a mãe solteira deveria abandonar os filhos, produtos de uma fraqueza ou de um êxtase amoroso, e muitas vezes consequências de violências e incapacidade de reação, desde que não mais constituíssem pesado fardo para as suas posses ou motivo de vergonha por causa dos preconceitos sociais? Que faria a prostituta em uma sociedade sem dinheiro, onde não poderia vender-se e na qual teria toda a liberdade para escolher um companheiro que reunisse as condições de sua predileção?
     Poderíamos continuar citando exemplos até à demonstração cabal do nosso ponto de vista, que é o de não haver na futura organização social libertária, preconizada pelos anarquistas, ambiente para a prática do crime e da imoralidade, pela simples razão de que os indivíduos estariam colocados em situação econômica de igualdade e dentro da mais perfeita ordem de justiça social. (...)

     Os crimes são quase totalmente o resultado da atual organização da sociedade e desapareceriam com a causa que os gera. Para resolver os conflitos pessoais, curar os poucos doentes de mente que restassem numa sociedade livre e igualitária bastaria a intervenção de amigos, de árbitros escolhidos livremente, de associações de competentes voluntários, sem necessidade de criar um pesado mecanismo repressivo, interessado na manutenção do crime para justificar a sua existência, e de prisões, que são as “universidades do crime”. Quem nelas entra sai ainda mais criminoso e não tarde a voltar para lá (as estatísticas o prova), tanto mais que todos o repelem e não encontra mais possibilidade para viver honestamente.”
 (Luigi Molinari, Agostinho Hamon, Pedro Kropotkine – “A guerra social”, Rio de Janeiro – seleção de Edgard Leuenroth, compilação de Souza Passos.)


     “Delito, para a burguesia dominante, é aquilo que não lhe agrada. Delito é roubar um vintém a um milionário: e não é delito deixar morrer de fome o mendigo estirado à porta das catedrais ou nos vãos das escadarias das repartições públicas. Delito é matar um homem que vos persegue; mas não é delito matar milhões nos campos de batalha. Delito é corromper uma jovem criatura em lugar público, mas não é delito corrompê-la em local privado. Delito é dizer tanto a verdade como a mentira ao sabor das conveniências.”
(idem anterior)


     “Enquanto em economia não se proceda segundo o princípio de satisfação das necessidades, com exclusão do critério da especulação e da ganância, continuar-se-á avançando pelos mesmos trilhos de miséria em meio da abundância, ou melhor dito, das possibilidades da abundância.
     Possuem-se os meios para nadar na abundância, máquinas, matérias-primas, braços humanos e sucumbe-se na miséria mais pavorosa. A Humanidade poderia ser feliz e é desditosa no mais alto grau. Parecia a princípio uma crise periódica, passageira, fácil de remediar com um simples reajustamento; mas os anos passam, passam-se os lustros, e verifica-se que não se trata de uma crise, mas da falência do próprio regime, da quebra total do sistema capitalista, o que estamos passando. Todo mundo concorda com isso, mas trata-se ainda de procurar a solução na linha do privilégio, excluindo-se as massas produtoras da direção de sua vida, do seu trabalho e de seu destino.
     Jamais se apresentou na história um momento que reúna tantas condições favoráveis para a mudança do regime. As velhas instituições, as velhas interpretações morais, políticas, sociais, econômicas estão falidas. Bastaria um impulso final para que toda essa podridão que o passado nos legou rodasse para o abismo e para que os povos pudessem, por fim, ser responsáveis pelos seus próprios destinos.”
(Diego A. de Santilhãn)


     “Um dos males básicos das sociedades contemporâneas é a carga formidável do parasitismo fiscal. O Estado moderno é insuportável, não só porque é tirânico, mas, sobretudo, porque é excessivamente caro e porque as suas funções essenciais são obstáculos ao bom desenvolvimento social. Nem a guerra, nem a burocracia, nem o aparelho policial, cada vez mais poderoso, são fatores de progresso social, mas entraves ao mesmo progresso. O Estado totalitário aumenta essas cargas parasitárias, conforme no-lo têm demonstrado os países onde se tem ensaiado e se pretende ensaiar.”
(Diego A. de Santilhãn)

Um comentário:

Doney disse...

Por motivos de espaço não foi possível inserir os trechos onde se explicava onde o anarquismo foi na prática implementado, mas descrevo os exemplos citados no livro aqui para quem se interessar em pesquisar: na Comuna de Paris; na revolução húngara (1917-1919) durante a revolução russa, com a organização das comunas dos camponeses da Ucrânia; em diversas localidades durante a revolução espanhola (1936-1939); nos kibutzim israelenses; as experiências brasileiras “Nossa Chácara”, e a colônia Cecília do Paraná, além do episódio citado pelo Visconde de Taunay (este descrito nos trechos selecionados); e algumas outras de experiências pontuais de organizações uruguaias e argentinas.